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Resenhas

Sapataria

Eu creio que Sapataria é a banda brasileira que melhor representa o queercore (se você tá perdido, leia aquinosso texto sobre o gênero). É a típica banda “tapa na cara” que você ama, afinal de contas, não há outro jeito de falar sobre a vivência LGBTQ+.

Em 2016 quatro garotas se juntaram pra formar uma banda que aborda temas referentes à lesbianidade e feminismo, influenciadas pela cena riot grrrl e punk/HC (reza a lenda que mais especificamente depois de um show da Charlotte Matou um Cara).

Hoje a banda é formada por Marina (guitarra), Dan (baixo), Isa (bateria), Zu (vocal) e em Setembro de 2018 lançaram o primeiro EP homônimo.

Eu não entendo nada de técnica musical, mas considero qualidade se você fica surpreso quando descobre que “aquela sonzeira” é feita por apenas três pessoas.

Sapataria não é a primeira banda brasileira a falar sobre lesbofobia, mas é a primeira a citar muitas coisas e é difícil falar sobre esse EP, pois as músicas são muito claras, fica redundante.

Elas conseguiram se expressar extremamente bem e sabem da importância disso, pois distribuem zines com as letras das músicas nos shows. Porém lá vamos nós tentar, dá o play:


ORGULHO, a intro do EP, é simples e forte. É comum mulheres passarem por uma verdadeira jornada antes de conseguir pronunciar em alto e bom som uma frase aparentemente simples: “Eu tenho orgulho de ser sapatão, eu tenho orgulho de ser lésbica”.

CARTA AOS PAIS trata do relacionamento familiar emocionalmente abusivo “Tantos muros feitos por vocês todo esse tempo, cada dia um pouco mais dentro de casa me escondendo”. Que, infelizmente, as vezes é uma batalha que dura a vida toda “O amor de vocês não é incondicional, é violento”.

AA LOURDES foi escrita por Zu sobre sua ex sogra, que nunca aceitou o namoro de sua filha. “Lourdes, eu não quero te chocar, mas eu e sua filha amamos nos amar. Sei que deve ter preocupação de sobra, me avise quando puder te chamar de sogra”.
Curiosidade: “aa” no título da música não é um erro de digitação como imaginei na primeira vez que li, “Aa Lourdes” é como o contato estava salvo no celular da ex de Zu, pra aparecer primeiro em caso de emergência. A pessoa mais importante da vida dela só era conhecida por Zu como um contato de celular.

TEXTO fala da homofobia perpetuada pelas religiões “Não venha me convencer de que o seu Texto é melhor. Da onde eu vim não se escreve, levanta”. A música fala pra mais uma vez, resistir “Eu não vou mais me calar por vocês… Eu não vou mais aceitar viver de coisas tóxicas escritas por vocês”.

MUITO TARDE fala sobre a sensação de deslocamento e não pertencimento no mundo, da falta de representatividade, da solidão “Sou menina sem reflexo, fora da definição… Eu olho a minha volta, vejo filmes e vitrines. Sou menina sem reflexo, não caibo nas magazines”.
Não posso deixar de mencionar que independente da orientação sexual grande parte das mulheres já tiveram esse sentimento “Pra ser sincera, o rosa ainda me arde”.

M.S.B. (MOVIMENTO DAS SEM BANHEIRO) fala sobre a dificuldade de algo que não deveria ser complicado: usar o banheiro. “Me expulsam do banheiro, onde eu vou fazer xixi?”.
Já vi incontáveis pessoas na internet (porque moro no meio do mato) dizendo ter crises de ansiedade por isso. “Chegando no rolê nunca sei o que esperar, é sempre a mesma treta: como é que vão lidar”.
Se você não se encaixa perfeitamente nos padrões da sociedade, a violência é constante. “Me tiram dos lugares, não sei o que fazer. Não posso ser eu mesma, vai se fuder”.

Em seus shows, além das músicas do EP, em que no começo de quase todas as integrantes fazem uma introdução na qual contam sua origem, Sapataria também faz covers de clássicos do HC nacional mudando a letra pra temática da banda: “Punk Rock Também é Pra Sapata” da Bulimia, “Quero Ser Sapa Com Você” da Gritando HC e “Sapabonde” numa versão punk.

Recentemente elas também tocam novas músicas que ainda não foram gravadas, como “Existir”, “Levanta e Faz”, que tem o nome auto explicativo: “Se não tem exemplo, seja!“.
“175” que começa com a frase “Sem essa de porrada pra deixar de ser viado. Apanhamos muito e esse é o nosso relato” e fala de situações de violência contra a comunidade LGBTQ+ pela História “Nossa lesbianidade não é nenhuma novidade, não nascemos ontem, não é só diversidade”.
E “Ódio”, escrita pela guitarrista Marina após ter tido seu trabalho desmerecido e ser assediada por seu patrão. Trata do… gaslighting do patriarcado? Aquela ladainha que ouvimos a vida toda de que somos incapazes de absolutamente tudo.
“Desconforto crescente, nunca segura. Se sentir incapaz, sempre confusa. O tempo passa, isso acumula. Acreditar em si mesma é a única cura”.
Porém vai se fuder “Quem disse que eu não vou tentar? Quem disse que eu não vou fazer? Quem disse que eu não vou aguentar e quem disse que eu não posso falhar?”.

Normalmente ver o show de uma banda é bem melhor do que ouvir em casa e o show da Sapataria é lindo. A única outra palavra que eu consigo pensar pra descrever é divertido, inclusive pra banda, visivelmente (por mais bandas que se divirtam tocando!).

Elas tem uma enorme presença de palco e conseguem usar com maestria aquela energia do punk/hardcore que te faz canalizar o ódio e revolta contra as injustiças do mundo em algo construtivo: resistência.

“Eu vou levantar, eu vou construir, eu vou me aceitar”