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Entrevistas

Naome Rita

Naome Rita é um duo de Curitiba, formado pela baterista Sisie Soares e a guitarrista Ivy Sumini, que toca músicas que grudam na cabeça. Começou como banda em 2013 e a primeira demo, lançada em 2014 como power trio, eu diria que é meio um “rock sujo”. Seis baixistas depois, e acredito que também alguma frustração, elas resolveram se transformar em duo e em 2017 lançaram o EP “Tropical Punk” com a nova formação.
Esse EP foi a primeira coisa que ouvi delas e enquanto ouvia pensei “…mas o que é iss” e comecei a dar risada, pois as letras são engraçadas. Segundo elas essa é a influência do pop punk.
Sonoramente o “Tropical Punk” talvez possa ser descrito como um “grunge dançante cafona com influências punk”, com letras abordando “desde a incoerência de alguns religiosos, lugar da mulher na sociedade, feminicídio, veganismo até a não devolução de tupperwares”.

Assim que comecei a pensar em escrever sobre a banda percebi que eu tinha mais dúvidas do que o que escrever, por isso pedi uma entrevista que elas gentilmente concederam e você lê a seguir:

Vocês começaram como banda e hoje são um duo, tem alguma diferença entre os dois? Tanto pra compor quanto no resto.

Sim, como sempre gostamos muito de escutar o som do baixo nas músicas, sentimos um pouco a ausência dele, mas acabamos suprindo essa falta com pedais, mais tambores e vimos que conseguimos fazer o som acontecer com o que tínhamos. Recebemos alguns feedbacks da galera nos shows. Sempre fui fã de duos. Na prática é tudo um pouco mais difícil, principalmente a questão de dividir custos. Por outro lado é libertador a ideia das decisões como duo não despenderem de tanta gente que talvez não esteja na mesma vibe, o que acontecia muito com outros integrantes.

Vocês tiveram alguma influência pra essa nova formação?

Hoje ouvimos de tudo, do grunge/punk dos anos 90/trash/doom até Marília Mendonça. Não nos limitamos. A gente escuta tudo que nos representa de alguma forma, seja nas letras, na melodia, no instrumental, no protesto como um todo. Bandas como Skating Polly, Gulabi, o duo gorduratrans, Nervosa, Test, Molho Negro, é o que escutamos ultimamente.

As composições do “Tropical Punk” vieram todas depois disso?

Nós duas tínhamos um projeto de HC que viveu por um curto período de tempo, as músicas “Alice Odeia Ovo”, porque queria falar sobre não termos necessidade de matar e torturar animais pra comer e a “Tupperware”, sobre o clichê de “lugar de mulher é na cozinha”, compomos pra esse projeto. “Ai que gostoso” veio da vontade de fazer um instrumental mais leve, mas querendo a morte do humano hipócrita. “Atividade Policial” fizemos após os eventos do dia 23/04 de 2015, onde os professores sofreram toda aquela violência na nossa cidade, nessa época já éramos um duo.

Os processos de composição e gravação geralmente são sempre a mesma coisa, mas tem algo que vocês queiram compartilhar sobre os processos do “Tropical Punk”?

O “Tropical Punk” foi um EP gravado as pressas, não tínhamos grana suficiente pra pagar estúdio e o resultado ficou longe do esperado, mas queríamos lançar logo. Depois, um pouco antes das eleições, descobrimos que quem gravou nosso EP tinha ideias, diguemos, bem contrárias as nossas. O legal é que musicas surgiram durante as gravações, como a “Tropical Punk” e a “Bostas Fididas”.

Vocês tem vários videoclipes, o que não é comum pra bandas underground, a que se deve isso?

Isso se deve a nós sempre querermos fazer tudo do nosso jeito, meio podrera mesmo, sem ter que depender de outrem, pois a maioria dos produtores querem padronizar a maneira como nos comunicamos, como fazemos arte. E também, temos amigos que acreditam na gente que manjam muito de audiovisual e dão um help quando precisamos. O clipe de “Dado” foi captado editado por Nicole Micaldi que fez um trampo delicado que curtimos muito.

A cena tem mudado muito nos últimos anos, como andam as coisas em Curitiba?

A passos lentos e árduos. Estão surgindo mais bandas com integrantes que estão fazendo a diferença, estamos nos juntando mais pra fazer os shows e festivais acontecerem. Há também mais bandas com mulheres do que quando começamos. Antes na ativa era apenas nós, o que dificultava realizar eventos seguros pra nós mulheres, que até na roda punk somos deixadas de lado ou “expulsas” do pogo.

Últimas considerações? Algum recado?

Que tenham cada vez mais mulheres no palco, na produção, na estrada em tour. Que esse ambiente seja libertário. Sem espaço para machistas, racistas, homofóbicos e qualquer tipo de opressão disfarçada. Esperamos que de fato o underground seja acolhedor para todes.
Girls to the front!

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