Bus Ride Notes
Entrevistas

enema noise

Enquanto eu ouvia o novo EP da enema noise (“aquilo que já é meu/a hora mais fria”, lançado em Abril de 2020) pensei “Que conceitual. Eu podia pedir uma entrevista“. Enquanto pensava na banda e lendo sobre ela, cheguei à conclusão que eles representam bem o underground (seja o estilo que for): você escolhe um gênero musical que te agrada e começa a trabalhar nele, muda o que não faz mais sentido e o que é necessário, sem pressa de fazer por fazer, as vezes com pausas, mas nunca parando e quando você vê já se passaram onze anos.

enema noise é uma banda muito reconhecida por um nicho, afinal de contas é uma década em atividade. Isso tudo reflete bem a ideia do que é o tal do underground: estar satisfeito em seguir criando por conta própria no seu quintal e dos amigos. Mainstream é outra história, fama, então, nem se fala.

Muito trabalho, diversão, conquistas e provavelmente muito rolê errado também. Pra contar um pouco sobre a banda, eles cederam uma entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Somos de Brasília e tocamos desde 2009, já tivemos várias formações e no momento somos eu (Rafael Lamim) e Murilo Barros. Temos alguns discos lançados: “eventos inevitáveis” (2017), “enema noise” (2016) e “manual pouco prático do desapego” (2014) e também um split chamado “Mais do Menos” com o Valdez em (2012). Antes disso também tocávamos outras músicas, em inglês.

No começo da banda as letras eram em inglês, o que fez vocês mudarem pra português?

Até 2010 por aí era muito comum na música independente você acreditar que o inglês projetaria bandas de alguma forma diferente na internet. E a gente se acostuma a achar o português difícil de encaixar em alguns estilos de som, mas quando você consegue, o resultado é sempre muito original. Depois de uns anos ficou claro que as pessoas de fora querem realmente escutar como é o português. Então é bem mais interessante mesmo. Também foi a forma de nos opormos a alguns estilos, que ficavam cada vez mais “americanizados” no momento que fizemos essa transição. Acho que hoje em dia ninguém percebe o quanto isso mudou, mas rola mais liberdade pra qualquer banda fazer o que quiser, tem público pra tudo também. Quem canta inglês é porque quer, já normatizou todas as possibilidades e isso é legal também.

Como uma banda que já lançou praticamente todos os formatos (CD, vinil, k7, etc) vocês têm alguma preferência ou sequer vêem diferença neles? (Como consumidor, a gente vai pelo gosto, né)

É muito bonito escutar o mesmo som em diferentes formatos! Até agora o lançamento mais legal de ouvir pra mim foi a fita k7 do “eventos inevitáveis” que lançamos na Ásia, pela terr records e a tenzenmen. Mas foi excelente escutar esse ultimo EP no vinil de 7” que lançamos com a Lombra Records e a Milo Recs. O Biu da Lombra tem uma máquina gravadora de vinil e fez o trabalho na nossa frente e ouvimos na hora. Além da enema noise, recentemente publiquei outro projeto musical meu (insone) em fita k7 colorida por um selo brasiliense chamado Tudo Muda Music, que lança em formatos físicos, k7 tem até aqueles mini CDs.

A formação da banda já mudou algumas vezes, mas esse é o único trabalho feito (ou só lançado?) como duo, isso influenciou a composição do novo EP?

A gente sempre foi acostumado a ter duas guitarras, compor em duas guitarras e as ideias vinham dessas segundas camadas, é como muitas bandas fazem.  Só que a gente fez isso demais e se você não quer repetir ideias, uma hora você precisa fazer algo mais complexo, acordes difíceis, aí eu acho que é quando esse estilo meio post-hardocre começa a ficar chato. Como a banda encolheu mais ainda, de 3 pra 2, secamos os instrumentos e fizemos tudo no baixo e na voz. A bateria tá ali como um ritmo acompanhando mesmo. Isso que eu e Murilo sempre compusemos mais as ideias, riffs de música, então não foi muito difícil concluir, só foi mais difícil pra mixar mesmo e preencher esse espaço. Tem mais algumas músicas gravadas nesse formato e com guitarras, só não conseguimos editar a tempo.

Vocês podem falar um pouco sobre o novo EP?

Que nem falei, cansamos de muitas guitarras e ao mesmo tempo quisemos a bateria eletrônica também. Só que sem ser “eletrônico”, usar sintetizador, industrial, etc. Então a primeira autoral que rolou foi “aquilo que já é meu” que é bem podre, sim, mas também é animada e com notas maiores, então é algo mais como Los Saicos, Screamin Jay Hawkins e Punks pra Frente. Inclusive o riff principal do baixo dessa música nós roubamos de Try a Little Tenderness da versão do Otis Redding (valeu). A outra música “hora mais fria”, tem mais influência de alguns trabalhos ambientes que mixei recentemente com o selo ANTINATURAL, os álbuns da heloísa (Surrounded by Fire / SrrnddBfr) e Malena Stefano.
Já os dois remixes surgiram porque disponibilizamos as tracks abertas do disco “eventos inevitáveis” e duas pessoas apresentaram versões ainda em 2018. Primeiro o Thiago Lourenço remixou “ordem” (e lançou num ótimo vídeo do Vinícius / Comuna Putrefata). O outro remix foi feito pelo Kleberg, que é um cara que também indicou a gente pro Anthony Phantano, um dia a gente apareceu recomendado por ele no Twitter sem saber o que estava rolando e o Kleberg se apresentou como responsável. Em seguida ele ainda nos entregou esse remix de “acabe sua banda ruim”!
Pra fechar o EP, gravamos um cover de “Bad Houses” do Big Black que foi uma das primeiras bandas esquisitas a usar bateria eletrônica e que gostamos bastante.

Já que Brasília sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Brasília mesmo sendo a capital não é distribuída igual Rio ou São Paulo. E a falta de transporte público, a lei do silêncio, associações de moradores e a polícia não dão muito espaço para a música e a vida noturna. Em 2018 e 2019 fizemos muitos eventos no Bar do Zé na 705 norte, um porão de um boteco que cabe até 60 pessoas, e esse tava sendo o nosso tipo de rolê até o começo da quarentena. Até agora já tocaram umas 100 bandas por lá, tudo entre produções independentes de amigos. Outro lugar muito massa do DF é a Esquina Preciosa no Paranoá, que organizou os Festivais de Cultura Punk também nos últimos dois anos.

Últimas considerações? Algum recado?

Vamos pensar no quanto nossas redes da música podem ser redes de solidariedade agora!
Queria também indicar outros sons empenados BR:

A discografia da enema noise está disponível no Bandcamp e redes de stream.