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Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.