Bus Ride Notes
Entrevista

Medrado – “Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda”

Esse texto vai ser um pouco pessoal, espero que vocês me desculpem pela falta de distanciamento aqui. Já explico o motivo. Eu quero começar contando do sorriso de ponta à ponta que abri na primeira vez que escutei os primeiros versos de “Varal de Dentes”, faixa que abre o single “Pântano”:  “Pelo horário de Brasília, relógio quebrado. Eu moro no Entorno, sou mais o Entorno”.

Foi a primeira vez que ouvi alguém cantando sobre a área em que eu moro, Entorno Sul de Brasília. Como a maioria das periferias, tão perto mas tão longe dos grandes centros. Um lugar meio “cidade dormitório”, com invasões que viraram bairros e cidades. E, claro, com todas as particularidades periféricas desse país: vielas, ruas de terra, igreja, pobreza, violência, gente que vai embora cedo demais, gente que fica e fala de quem foi, tudo isso que já sabemos e nos incomodamos de saber.

A voz nos versos era do André Felipe, vulgo Medrado. André em homenagem ao avô falecido, Medrado é sobrenome de parte de pai mesmo. Nascido em Mato Grosso e vindo parar bem cedo no Lunabel 3C, bairro criado numa área de risco do Novo Gama, a uns 40km de Brasília.

Logo no início da entrevista fiquei surpreso e feliz de saber das origens do André, porque é muito parecido com o que eu vivi aqui também. Nossos bairros são divididos por um córrego e nossas experiências de crescer aqui quase se confundem de tão parecidas às vezes. Fiquei surpreso e feliz também por conhecer alguém daqui com tanta coisa pra cantar, coisas que a gente vive e, como ele diz, ainda nem viveu.

Escrevendo sobre música, você se acostuma a ver muita gente do eixo Sul – Sudeste, vez ou outra (bem vez ou outra mesmo) alguém do Nordeste. Mas, no meu caso, nunca era alguém próximo. Não existia essa proximidade geográfica e nem de vivência. Nunca achei que à poucas ruas, um córrego e umas ladeiras, houvesse um artista tão interessante que eu escreveria sobre um dia. Não só escreveria, como teria o prazer de entrevistar para falar dessa vivência periférica e de arte. É por isso que essa entrevista é tão especial para mim pessoalmente e espero que seja para vocês também. Confira:

Bom, Medrado, acho que podemos começar falando um pouco de você. Como foi seu primeiro contato com a música? Como foram as tuas primeiras gravações?

Meu primeiro contato com a música, com a arte, eu nem lembro. Foi uma percepção do meu pai quando eu era de colo. Ele conta que em todos os lugares que a gente passava e tinha alguma música eu imitava o som da bateria com a boca, o mesmo ritmo e tal. É algo que já veio comigo no sangue: meu avô tocava pife e minha mãe cantava na igreja. Uma família de músicos, saca? Meu pai é guitarrista, se dedicou muito aos estudos, as escalas. Eu comecei a tocar na igreja bem novo, com uns três anos já fazia barulho.

Quando a gente morava na invasão, meu pai passou uma cota desempregado e minha mãe trabalhava de diarista em Brasília. Aí eu ficava em casa com meu pai e ele comprou uma bateria pra mim, fiquei louco. Ele tinha baixo e uns amplificadores, tinha guitarra. Então, a gente tocava junto e meu pai é o cara mais eclético que eu conheço. Ele ouvia BB King, Tribo de Jah, Oscar Valdez, Mortification, que é tipo “UAAAGHHHH”, uma bagaceira.

Lá em 2014, comecei compondo alguns desejos e percepções que eu queria pra minha vida espiritual, meu foco cristão. Eu ia pro estúdio de um brother, Jonathan Mocher, aqui no Lunabel mesmo. Escrevia em casa e marcava lá, ficava atrapalhando enquanto ele produzia outras coisas. Quando tinha um tempo livre, chegava com a letra, tocava violão, cantava, tocava baixo e bateria. Foi lá que eu percebi o quão mágico era tudo aquilo e que eu queria fazer aquilo pelo resto da minha vida. Ali foi uma escola pra mim.

A gente é praticamente da mesma área, Entorno Sul de Brasília. É um lugar onde é muito perceptível a exclusão de periferia para com o centro, a gente acaba ficando de fora de muitos rolês do Distrito Federal. Como isso se reflete na tua música? Você encara mais como um empecilho ou uma motivação? E como é ser um artista vivendo tão perto, mas tão distante da capital do país?

Mano, a minha visão sobre o Entorno Sul é a seguinte: eu vejo um garimpo muito grande e rico, pedras muito valiosas que nem sabem o seu valor. Ponto Final, Morro do Lago Azul, Lunabel 3C, 3B, 3A, Boa Vista, Cidade Nova, Residencial Brasília, Novo Gama, Negreiros, Pedregal, Céu Azul, Valparaíso, Ingá, tá ligado? Pedras preciosas que descobrem seu valor exercendo sua arte.

Brasília fechou portas pra mim em vários sentidos. Até na Escola de Música de Brasília. O que eu mais fiz foi tocar bateria, estudar partitura, estudar tudo. Fiz a prova e não passei. O bagulho que eu mais fiz na vida. Cheguei lá, fiz três ritmos, fiz uns rudimentos. Depois fui ver o resultado e voltei pra casa frustadíssimo. Todo mundo  falando “Velho, você não pode parar, faz lá até passar”. E eu não quis tentar de novo pra preservar algo que até hoje eu não sei ao certo o que era. Mas meu rolê é a prática, tipo me deixa num estúdio com todos os instrumentos pra tu ver uma coisa. Me deixa com um violão e um mic, uma bateria e um baixo, ou sei lá só um mic. Velho, vai sair um CD, saca?

O rolê daqui não é nem escrever o som de fato, é tu acreditar no teu som. Eu escrevi “A Lei da Semeadura“, escrevi “Alarme Natural”, escrevi o single “Lamaçal” numa tarde. Toquei a bateria, o violão, captei as vozes. E eu não acreditava, tá ligado? Não tinha aquela firmeza, eu sabia que era massa, mas aquela auto estima não chegava. Depois de fazer vários trampos eu comecei a perceber isso. Fui vendo como se faz, a garra do pessoal daqui assistindo o show do Pretinho. Vendo o Isaac Cavilia fazer freestyle comigo, vendo o Grijo rimar, o Lucas aqui do lado de casa tá lá captando o som dele no celular, faz vídeo e lança no IGTV. Vendo o Akumas colando e mandando uma mensagem tipo “Mano, não para não, tu é raro”, saca? Vendo o Dhu 7 falando “Poxa mano, primeira vez que ouvi ‘A Lei da Semeadura’ eu tava num fim de tarde e fiquei emocionado”. É um garimpo unido que vai se revelando, crescendo e aprendendo com seu próprio povo.

Como o “não olhar pra gente” do quadradinho reflete na minha música é o que eu quero mais falar. Falar das ruas esburacadas, esse esgoto que corre na porta da minha casa, falar de todos que já se foram, da pureza de mesmo quem já perdeu os familiares na vida bandida mantêm. São coisas muito maiores, são coisas que motivam e nos tornam mais ricos, saca? Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda, cantar nossa prosperidade, cantar nossa união cada vez mais. Ser um artista vivendo tão perto e tão distante da capital do país é ser um brasileiro que acredita no sonho e sabe o quão tenso é viver nesse país, o tanto de coisa imposta que a gente tem que engolir, o tanto de coisa que a gente sabe e a nem pode falar.

Quais são suas maiores influências? Tanto musicais quanto visuais, coisas que te dão pilha para compor.

Meu pais, mano. Eles são a minha maior influência. Eu fazia meu pai gravar as fitas de rádio de rap que eu gostava. Sempre curti muito a história, a família, o “Castelo de Madeira”. Eu ouvia essa música e falava “Esse cara é parecido comigo, eu sou o príncipe do gueto”, tá ligado? Olha onde eu moro, no barracão de madeira! Aí me fascinava não conhecer o cara, mas ver tudo o que ele escrevia e sentir a energia da música. Me aprofundei em todos os estilos, MPB, muito Belchior. Country com Willie Nelson, muito antes do Snoop Dogg fazer ele ser conhecido. Ouvir cada estilo buscando aprender com a riqueza de cada um.  A princípio, essas são as minhas referências, as labutas, minha mãe trabalhando e a gente em casa ouvindo música.

Falei muito das influências sonoras, agora de visual tem um quadro que eu acho muito louco. É o “Duelo com Porretes” (Francisco de Goya), que são dois malucos brigando com pedaços de pau na areia movediça. Acho que esse é o quadro mais expressivo que eu já tive contato. Também tem o Francisco Galeno, pra mim é a maior referência visual. Eu tenho muito problema de vista, mas o vermelho dele e o tom dele pra mim é muito saturado, eu piro. O rolê dele com a infância também, me identifico muito.

Desde os seus primeiros singles sempre rolou muita parceria com outros artistas, certo? Ano passado teve o single “Lamaçal” com o Alice Piink e o Graça, por exemplo. Como estão sendo essas parcerias?

A Organdi me adotou, nem diria que é meu selo mas é minha família. O Graça, Alice Piink, a Mirela, Débora, essas parcerias sempre vão existir. Cada um é de um estado e, com o rolê da pandemia, a gente tem se mantido um pouco distante, mas sempre mantendo o contato. Esses caras sempre vão estar trabalhando juntos, Medrado e Organdi, Organdi e Medrado.

Esse ano tá em produção um trampo seu com o An_tnio, certo? Como tão as expectativas pra esse trabalho? O que você pretende trazer de novidade?

Essa colaboração com o An_tnio é muito importante pra mim porque vai ser meu primeiro EP. Não vou mais lançar singles duplos, serão trabalhos maiores, ou EPs ou álbuns. Eu quero trabalhar melhor com projetos grandes, e a novidade principal vai ser que esse EP será todo de freestyle.

Você toca vários instrumentos, já fez algum som acompanhado de banda? Pretende tentar algo assim futuramente?

O single duplo “Lamaçal” é um belo exemplo disso, toquei violão e bateria. Tinha esses elementos acústicos, mas de fato esse ano eu quero gravar um disco cantando e tocando bateria. To começando a escrever esse trabalho e vai ser meu primeiro trampo com banda gravado ao vivo. Não faixa por faixa, saca?

Pergunta clichê ultimamente, mas é interessante falar: como tá sendo pra se manter produzindo e divulgando seu som agora nesse período de pandemia e caos total?

A pandemia tem sido um aprendizado. Os momentos bons têm sido muito bons e intensos, os difíceis têm sido muito duros. Ano passado eu perdi minha avó e esse ano minha tia avó. Apesar de muitas perdas familiares, eu tenho buscado o equilíbrio mental, espiritual e profissional. Eu tenho aprendido muito e tenho exercido muito a minha fé, isso vai passar e colheremos bons frutos apesar de tudo.

Acredito que até mesmo essa pandemia veio para nos unir. Essa é a minha primeira entrevista e tenho muito a agradecer por isso, por vocês reconhecerem meu trabalho. O melhor e o que mais me motiva nisso é ser entrevistado por um cara do Entorno Sul que sabe como é caminhar com a cabeça na mira.

Você pode ouvir Medrado no Soundcloud, Spotify e Youtube.