Bus Ride Notes

Posts by Gabi

Entrevistas

O novo punk!

Porque a nova geração está se separando do punk “clássico”

Se tem uma coisa “nova” no horizonte do mundo subversivo é o fato de que a cena está se renovando e se reconstruindo a partir das pautas atuais.

Conheçam o “novo punk”, que é formado por uma galera mais nova que vem regendo a cena e eles procuram representatividade em si próprios. São elas, mulheres, pessoas periféricas, não-brancas e não conformistas com as imposições de gênero e sexualidade. 

O que temos percebido é que essa galera, principalmente mulheres negras, periféricas e que fazem parte da comunidade LGBTQ+, têm se retirado dos roles tradicionais e, desse modo, criado uma cena alternativa da alternativa. E isso é bom para caramba!

Pensando nisso, a Bus Ride Notes conversou com uma mina que viveu essa mudança e contou para gente porque resolveu trocar o role punk “clássico” para colar em eventos majoritariamente feministas.

Abaixo vocês podem conferir a breve entrevista concedida pela Letícia, punk desde os 12 anos e que não se via representada nos roles “clássicos”. 

Jovem Letícia “pogando” na ação educativa “Punk Pelo Espaço do Saber”

BRN: Eu te conheci no show da Gulabi (foto). Você era uma das pessoas mais animadas e dançantes do role.

Letícia: (risos) 

Você comentou comigo no dia que você era do role já faz um tempo, né? 

Eu sempre gostei muito de punk e hardcore. Principalmente punk na verdade, põe um parêntesis aí depois porque hardcore eu coloquei só para incluir (risos). A questão mesmo era o punk.
Na verdade, eu fui fazer uma pesquisa para faculdade sobre as mulheres na cena punk e hardcore de São Paulo. Eu sempre ia nos eventos desde novinha e queria falar sobre isso, reparei que o punk é uma contracultura e que na verdade a galera não sabe o que é, não sabe como está, não sabe se existe. 

Quantos anos você tinha quando começou a frequentar esses roles? 

Eu curto punk desde os 12 anos. A minha tia me levava nos roles do ABC quando dava, aí dentro disso eu comecei a descobrir bandas. Uma banda que me influenciou muito foi o DZK e Cólera, que era minha banda favorita. Daí eu comecei a perceber que eu e minha tia éramos basicamente as únicas mulheres presentes no role. E mais ainda, eu não-branca e minha tia negra.
Começamos a notar isso mais ainda em um show do Surra, onde eu estava no mosh e o vocalista no meio do show teve de parar e salientar para a galera: “Toma cuidado com essa mina…”. Eu precisei ouvir ele me falando que eu era a única mina daquele mosh para minha ficha cair.  
Isso também aconteceu quando eu tentei formar uma banda e toda vez que procurava por integrantes só apareciam homens! E assim, homens mais velhos, homens que não gostam de punk, homens que falam mal da minha voz e que diziam que eu não poderia tocar guitarra. Então foi a partir daí que eu comecei minha pesquisa em busca de bandas de mulheres, de algumas eu já gostava e uma dessas era a Charlotte Matou Um Cara. Ainda dentro desse role eu conversei com uma menina, também do ABC, que era vocalista do Condenados, a Natália, que não faz mais parte da banda. Eu perguntei se ela sabia de algum evento de mulheres e ela me falou sobre o Maria Bonita Fest, aí nesse role eu conheci a Maia que é vocalista da Gulabi e baixista da Lili Carabina e comecei a colar nos roles.  

E nos roles de mulher, além de não ter só macho, qual a maior diferença que você notou?

Eu entendi que a cena punk acaba se dividindo entre a cena punk/hardcore e a cena punk. Dentro desta (punk) existe a cena de caras e a cena de minas. Como, por exemplo, o movimento Riot Grrrl onde as meninas procuraram dentro da cena dos caras por um espaço para reivindicar e se articular. Então elas usam um artefato que é do punk para contestar o próprio punk. O que acontece é que os caras não dão esse espaço para as mulheres e nunca deram.

Mesmo na teoria tendo que dar né?

Apesar de ser um ambiente contestador e supostamente subversivo, que era para dar espaço as mulheres, as pessoas negras, periféricas e LGBTQ+, acaba excluindo essa galera. No hardcore mais ainda, pois acredito que seja muito elitizado.
Quando eu era novinha e comecei a conhecer a cena punk eu pensava; “Nossa, vai ser muito louco! Vamos quebrar e contestar tudo!” E quando eu cheguei nesse ambiente, principalmente o dos caras, fiquei tipo… Cadê a articulação? Eu procurava pela ação. 
Já dentro do role de mina eu vi muito mais isso (essa ação).  
Por exemplo, existem bandas de punk antigas que o pessoal vai lá, faz o show e vai embora logo em seguida. Não vejo uma articulação ou um ato político. Apesar de acreditar que algumas bandas “novas” de homens realmente fazem isso. E tem algumas que chegam a se juntar com as meninas para fazer um role, mas é daquele jeito… 

É tão dividido assim que em role de macho só vai macho e em role de mina só vai mina?

Não. É algo que acaba acontecendo. Se prestar atenção consegue ver que isso está estruturado. Quando eu chego num role de minas eu vejo que tem uma articulação política maior, tem uma função. Já no dos homens, principalmente quando se trata de bandas mais antigas, eles não mudam a estrutura da letra, não mudam sua estrutura política. Falam de coisas que aconteceram lá atrás, sobre letras que foram escritas há 30 anos e não escrevem uma letra nova para falar do que acontece na atualidade! Aí esse espaço punk acaba se mantendo igual e não dá lugar para essas mulheres, para a galera preta. Essa galera composta de mulheres pretas, LGBTs, periféricas acabam “tendo” que criar um espaço novo para poder discutir os temas contemporâneos porque no role antigo só tem ideia antiga. Eles não tem interesse nos novos discursos. 


Entrevistas

Olha como elas são más! Conheçam a GULABI

“GULABI é uma banda Punk feminista e antifascista de São Paulo que se inspira na resistência das mulheres da Gulabi Gang”

No dia 17/08/2019 a banda se apresentou no Badaroska Fest e nos cedeu uma entrevista maravilhosa! Conheçam essas mulheres más! As minas falam sobre Punk, feminismo e como a cena tem mudado.

POGS – GUITARRA/BACKING VOCAL
CIBS – “TOCO O TERROR” | VOCALISTA #1
CAROL – BAIXO
MAYA – VOCALISTA #2
MAY – BATERIA

Da esquerda para direita: As fãs Isabela e Leticia. E as integrantes: May, Maya, Cibs, Carol e Pogs

BUS RIDE NOTES: Como a Gulabi surgiu? 

Carol – Eu já era amiga da Maya e da Cibs, daí um dia eu comentei que estava com vontade de tocar, só que eu estava numa fase insegura. Só queria voltar a tocar quando me sentisse bem mesmo, mas como eu tava com muita vontade a Maya e a Cibs falaram: “Vamos montar uma banda! Vamos, vamos!” Insistiram um pouco pra eu voltar a tocar e a gente decidiu montar uma banda. A Ideia de formar a Gulabi surgiu daí. 

Pogs: Acho que é relevante falar que eu caí de paraquedas no rolê. Eu não sou de São Paulo e depois de bastante tempo eu resolvi colar num show só de minas, o Apoia Mútua. Eu conheci a outra banda da Maya [Lili Carabina]… E a Carol, nos roles da vida a gente acabou se encontrando. 

Cibs: A gente adotou a Pogs para o nosso rolê.

Pogs: Elas me adotaram! (risos) 

Maya: E a May também… A gente conheceu a May tentando formar uma outra banda, não era? De Ska…

May: Foi antes disso ainda, eu vi a Maya e a Cibs num show do Teu Pai Já Sabe? e depois surgiu o convite para eu possivelmente tocar na Gulabi, mas elas ainda estavam decidindo com a antiga baterista se ela iria ficar ou não. E aí acabou que eu fiquei e tamo aí. E viramos amigas. (risos)

BRN – O que chamou vocês para a zona de confronto? 

Maya: O que move nessa parte do protesto, todas aqui, para além do som que a gente curte é o machismo, o sexismo, a lesbofobia, o racismo e o elitismo. Porque cada uma de nós tem um histórico de opressão dessas que eu citei, isso é o que nos faz utilizar o Punk.

May: A gente tem na banda mulheres periféricas. A Maya que é preta, tem eu que sou não-branca e periférica e tem a Carol que também é periférica. Enfim, cada uma tem uma história fodida e isso dá muita força para a gente continuar.

Maya: Então, eu acho que isso na atual sociedade e até dentro do Punk é o que move a gente para esse confronto, para tentar mudar algumas coisas, como esses tipos de opressão.

BRN – Quais maiores inspirações da Gulabi dentro e fora da cena atual? 

Maya: Eu tenho muita influência de bandas de Punk e Hardcore gringas. Eu ouvia muito Bad Religion, No Fun At All… Do Punk eu ouvia Addcits, muito Punk 77, Social Distortion e colava nesses shows de banda de fora que não era tão caro antigamente, né? Era acessível. E da cena brasileira eu colava muito em roles… Não tinha muita banda de mina para a gente prestigiar, das poucas que tinham que eu lembro de prestigiar era o Útero Punk.

Pogs: Acho que Bulimia….

Maya: Bulimia! É uma influência, mas eu colava basicamente em sons brasileiros de bandas Punk e Hardcore que eu não colo mais hoje porque tem histórico de integrantes com abuso, com declarações homofóbicas, declarações racistas, agressores… Então praticamente todas as bandas que eu curtia de Punk “histórica” brasileira eu não colo mais por uma questão ideológica.

Pogs: Cara se não fosse Cólera na minha vida, se não fosse DZK, Psicose. Se não fossem um monte dessas outras bandas eu talvez não estaria aqui agora e tivesse ido para outras vertentes. Elas tiveram sua importância na minha opinião, embora, hoje em dia precisa ser mais do que era a uns 14 anos atrás. 

BRN: E é difícil se afastar de um som que ajudou a te formar por causa de posições de algum integrante da banda? 

Carol: Chega uma hora que você vai ouvir uma música de certa banda e você não consegue não associar, não pensar naquilo. Que seja um caso machismo, racismo… Para mim essa parte é um pouco mais fácil porque a maioria das bandas que eu escuto são de mulheres, então, eu não tenho tanto histórico de rompimento com bandas que fizeram parte da minha formação. 

Pogs:  Eu já tenho um pouco mais de dificuldade em separar por conta de memória afetiva com banda, sabe? Até brinco com as meninas quando elas falam assim “Ah então, sabe essa banda?” Eu já peço pra nem falar porque dá uma tristeza. (risos) 

May: É muita hipocrisia né? 

Pogs: Claro que é importante, mas o bom é que as letras continuam fazendo sentido. O que não faz sentido é essas pessoas estarem falando o que estão falando porque elas são hipócritas. Nós nunca conseguimos só falar “Sim” para um show, sabe? É sempre “Tá beleza, quais são as bandas? Beleza, qual tem alguma fita com essa banda? Aonde vai ser?”.

Cibs: [Difícil] pra caralho pra mim! Eu acho triste! Mas assim eu não tenho, sei lá eu acho que é um rompimento tão foda que é tipo impossível [não romper]…

Maya: Eu achava difícil antigamente porque justamente não existia essa cena de minas e tantas bandas de mulheres despontando. Então quando você rompia, saía do rolê. E acontecia isso com um monte de mina e que justamente por isso que acabou dando mais força para essa cena. Porque a gente gosta de Punk, a gente gosta de Hardcore e ao mesmo tempo a gente é feminista e a gente não quer ficar num rolê bosta. Os caras passam pano para agressor e o caramba! Agora é mais tranquilo porque nós temos muitas opções e nós mesmas estamos nos organizando para produzir. 

Cibs: Antigamente as mulheres eram simplesmente segredadas por diversas razões, especialmente quando existia assédio, abuso, estupro e coisas desse tipo. Você curte o som e gosta da cena, mas não vai querer colar, e as vezes pagar, para entrar num lugar e ver o homem que abusou de você circulando livremente ali. Então acaba que as minas deixavam de colar e iam se afastando, o que corrobora para o que sempre acontece: Que é só macho tocando, só macho vendo, só macho convidando a bandinha do amigo. Como a Maya falou, agora a gente conseguiu se organizar e tem todo final de semana banda com mina. Aliás, evento de banda com mina. Hoje inclusive eu tava vendo que deve ter tipo uns 3 ou 4 rolando esse final de semana, sabe?  Antigamente tinha Lady Fest e o Distúrbio Feminino… Uma vez por ano você ia sair? Não né!  

Pogs: O que não significa que tá muito mais fácil, tem mais opção porque são as minas que organizam… Então fica meio que a gente pela gente. E não é só aquele discurso de “tem que estar todo mundo junto”. Seria interessante que nós não precisássemos parar e ficar pesquisando toda vez que alguém chama a gente para tocar ou que a gente procura uns shows para fazer, para ver a lista enorme de bandas com macho abusivo, com macho-merda. 

BRN: Quais seus objetivos como artistas?  

May: Atualmente é inspirar as outras minas, é tipo: Mano, você pode tocar também! Você pode ser alguém também! Você pode ser da hora pra caralho! Foda-se tudo que acontece com você ou que aconteceu durante a sua vida, toda falta de oportunidade que você teve para aprender um instrumento, só vai!

Carol: Incentivar as minas. Mesmo que nunca tenham pegado num instrumento, vai lá, pega o instrumento, dá sua ideia porque muitas bandas começaram assim. Os homens são incentivados desde cedo a tocar e mina não.

Maya: E desde os anos 70, tá ligado?

Pogs: E acabamos fazendo isso com nós mesmas. Ninguém aqui tem uma vasta experiência. Eu e a May somos as que tocam há mais tempo. Eu comecei com uns 10 anos e aprendi sozinha porque por sorte eu tenho uma mãe que me incentivou quando eu quis aprender. Peguei o violão e não tive os mesmos incentivos que os outros caras tiveram. Acredito que nenhuma das meninas teve. Mas o próprio som fala por si só, que é esse punkzão carniça que nós fazemos.

Cibs:  É, e o Punk é assim: Vai e faz! Você não precisa ser virtuoso, o importante é a mensagem que você vai passar. Paralelo a isso o que a gente tem muito forte é sermos poucas e falar na cara, direto e reto. Especialmente quando o homem está ali, a gente vai falar mesmo. E se cobrar, como já aconteceu, a gente vai descer [do palco] e voar na cara, sabe?

Pogs: E a recompensa maior é que minas vieram falar com a gente enquanto banda e se identificam, tipo “Valeu por falarem!”.

Maya: A gente falou uma coisa que ela também gostaria de falar e isso é muito da hora. Queremos essas meninas com a gente, a gente quer essas minas organizadas, andando juntas.

BRN: Quais os maiores impactos que integrar a Gulabi causou na vida de  vocês? 

Cibs: Acaba virando uma família.  

May: De qualquer forma é uma [sempre] apoiando a outra. As vezes eu tenho crises de pânico no metrô daí mando uma mensagem no grupo, e mano, as mina vai lá e conversa comigo (risos). Enfim, é. Tem essa fita também.

Pogs; Não é só banda, é amizade, é família. 

Carol: Sim, eu recentemente perdi meu irmão e a banda foi uma parte muito importante para eu não enlouquecer porque não foi e não está sendo um momento fácil. Mas [a Gulabi] além de ser o meio por onde minha voz, a nossa voz, é ouvida também é aquilo que me ajuda a ficar em pé nos momentos difíceis, tanto a parte de fazer música quanto a amizade com as meninas.

Maya: E sobre a diversão, eu acho que também tem a fita da musicalidade, que é muito terapêutica. Você dar uns gritos, tocar uns instrumentos, isso faz muita parte também…

May: Ter uma distração no final de semana e saber que você não está sozinha. 

Maya: É uma válvula de escape na parte da diversão. A gente toca e depois ensaia, a gente vai dar um rolê, vai almoçar juntas. Isso também é prazeroso para além da política que a gente quer fazer para a cena.

BRN: Como vocês escolheram esse nome? 

Maya: Antigamente, quando comecei a ter contato com o feminismo eu li sobre essas minas e achei muito foda o que elas faziam e o nome, eu sempre falei “Mano, eu quero ter uma banda com esse nome, velho!”. Daí toda organização que rolava de ter banda eu falava “GULABI!” e ninguém queria. Acho que todo mundo já ouviu falar dessas minas. Elas são umas minas da Índia que fazem autodefesa com bambus. Tem mulheres tanto de 13 até de 60 anos. Elas fazem ações diretas aonde elas vão buscar os homens agressores e descer a bambuzada! A gente achou que tinha tudo a ver com o nome e com essa coisa do confronto que a gente quer trazer. Que, de fato, se precisar a gente vai descer do palco e vai descer o cacete num cara dependendo do que ele fizer, como já deu vontade. Se precisar, a gente vai partir para a violência, tá ligado? Não tem como a gente ser só discurso num momento que realmente precisamos nos defender, defender nossas amigas, nossos familiares e as mulheres na rua. Nós precisamos dessa força no dia a dia e que seja mais ativa por necessidade, inclusive, de sobrevivência. 

Pogs: Com certeza! E até em coisas mais simples, como por exemplo: alguns meses atrás passei por uma situação que eu vi uma mina sendo agredida no metrô, então eu fui e peitei [o homem]. Não que eu tenha ido bater nele, mas cheguei e falei “Moça, você precisa de ajuda?”. [O homem] me ameaçou e falou que iria me matar, me enterrar viva porque ele me identificou como sapatão. Não que seja difícil… (risos). Mas sofri bastante agressão verbal e se eu não tivesse ficado esperta teria sido agredida fisicamente, sabe? E com o cu na mão fui lá e cobrei e teria sido muito mais fácil se as pessoas que estavam no metrô, se os guardas do metrô tivessem ajudado. Então acho que essas pequenas coisas são importantes, não é que a gente vai sair catando bambu e sentando a bambuzada em todo mundo…

Maya: Mas se quiser, pode!

Pogs: Mas se quiser, pode.

BRN: Como vocês se descobriram guerreiras feministas? 

Pogs: Desde quando eu era pequena e os [meninos] falavam que eu não podia jogar bola [com eles] (risos). 

Maya: Eu sofri muito calada, durante minha adolescência, todos os tipos de opressão. Tanto racismo quanto o sexismo, assédio que eu sofri até na rua. Fui tomar força me organizando com mulheres feministas e conhecendo feminismo muito tarde, com uns 27 anos e eu tenho 33, então fazem tipo uns 7 anos. As minas, a May por exemplo, é de uma geração depois de mim, [elas] tem 20 e poucos anos. Essas minas já estão chegando com um background muito mais legal do que a gente, antes que o feminismo começou a despontar e nós começamos se organizar e ter visibilidade. A fita da internet também, quando eu nasci não tinha internet, quando eu tinha 10 anos não tinha internet, então era mais difícil para você se organizar.

Cibs: Mas de fato eu demorei. Fico bem em choque em como isso demorou para chegar até mim e como teria sido 100% diferente se tivesse sido antes.  Tipo, diversas situações e eu sempre fui meio reativa de partir para, não sei se para agressão. Eu sempre tentei ser explosiva, mas ter essa consciência toda política foi uma coisa que aconteceu muito tarde também, tipo uns 26, sei lá…
 
Carol: Comigo foi igual a Cibs. Tudo bem, eu tenho 26 agora, porém apesar de desde de criança descer o cacete nos moleques que vinham me encher o saco, só fui ter essa consciência política com uns 16/17 anos e é uma coisa que eu queria que tivesse acontecido antes. E olha que eu já escutava bandas feministas e as letras me tocavam. Já fiz parte de coletivo feminista e achava legal quando nas rodas de conversa colavam as minas de 14 anos. É muito bom ver isso chegando cada vez mais cedo na vida das meninas. 

May: Eu tenho 23 agora, conheci feminismo e a militância a partir dos 15. Mesmo eu tendo consciência política feminista desde os 15 anos, ainda assim eu tive relacionamento abusivo de anos. Por exemplo, eu fiz uma camiseta do it yourself feminista e o meu namorado na época fez de pano de chão e falou “Olha você não vai usar isso, vai ser meu pano de chão.” E literalmente foi o pano de chão do banheiro dele. Isso [consciência] nem sempre é o suficiente porque [machismo] é uma coisa tão enraizada que simplesmente acontece, eu tive um relacionamento abusivo durante 3 anos e fiquei fora da cena durante 3 anos justamente por conta desse relacionamento. 

BRN: O que podemos fazer pelo cenário político atual? 

Pogs: Organização. Eu acho que é a palavra. Parar de achar que as coisas vão só mudar. E não é dando “rage” na internet! Não é reclamando! São as pequenas atitudes que a gente tenta ter como banda, por exemplo. Acredito que é um passo. Conscientização e organização como militância até mesmo no dia a dia. Uma coisa que a esquerda tem que entender é que não adianta a gente ficar fazendo discurso para outras pessoas de esquerda, para outras pessoas militantes, temos que pular essas barreiras… Não necessariamente abrir o diálogo com a galera de direita, mas por exemplo quando vou comprar um lanche e converso com a pessoa que está atendendo, é isso que eu tento fazer no dia a dia, trocar uma idéia. Facho não tem muito como conversar, né? Mas os indecisos, as pessoas que acham que “Ah, realmente tá uma merda, mas não tenho o que fazer…”.

May: As pessoas mal informadas, que não tem acesso a informação, pessoal da periferia… 

Maya: Levando essa fita que a gente faz fica muito restrito a um grupo de pessoas, mas quando chega [nas periferias] é legal ver as pessoas que não tem contato com isso se identificarem ou acharem foda e ver que tem outras coisas acontecendo. E conhecer também, tá ligado? Porque esse mundo Punk é muito pequeno.

May: É uma bolha, mano! 

Maya: As pessoas que nem sabem o que é Punk, o que você faz. E para essas pessoas, que não tem acesso, ver isso é uma coisa muito nova, tá ligado? E pode despertar a vontade da pessoa fazer parte daquilo. 

May: Para finalizar, o que eu tenho de objetivo mesmo, como banda, é fazer chegar a mensagem de consciência principalmente para a população que não é informada. Lá na minha quebrada ninguém sabe o que é consciência política, ninguém sabe o que é guerra de classes.

Maya: Ninguém sabe o que é Punk, Skin, tá ligado? Essas tretas de militância e de contracultura os caras não sabem.

May: Eu acho que é muito mais além. O meu vizinho, ele não sabe que tá sendo explorado porque na vida inteira dele ele [não estudou] o suficiente para saber o que o governo faz e o que o sistema faz com ele. O dia em que essa mensagem chegar lá onde eu moro, na periferia, nos extremos, seria gratificante. Apesar de eu achar muito difícil sair da cena Punk, da cena Feminista que é uma porra de uma bolha. Eu chego no rolê, é mina privilegiada, é mina branca. Enquanto não chegar na minha favela não é o suficiente. Enquanto não discutirem gente discutindo sobre “Ah o governo fez isso, isso, isso e o caramba! Olha só como isso vai prejudicar a gente.”  Esse é o meu objetivo real. É isso.

Nossos agradecimentos as mulheres da Gulabi que toparam gravar essa entrevista e me ensinaram muito através dela, muito obrigada meninas! Fogo nos fascistas!

Ouça GULABI no Bandcamp ou nos sites de stream :


Resenhas

Sapataria lança seu primeiro video clipe!

Clipe foi lançado celebrando um ano do EP da banda

Expulsão do banheiro feminino é tema da música M.S.B (Movimento das Sem Banheiro) 

Foto: Marina Ciccone

“Após um ano de estrada com o EP homônimo, a banda paulistana de punk/hardcore Sapataria lança nesta Sexta-Feira (13) seu primeiro videoclipe com a música M.S.B. (Movimento das Sem Banheiro). A letra relata em primeira pessoa a situação de quando as integrantes foram expulsas de um banheiro feminino por serem confundidas com homens. No clipe, elas ironizam esse fato e mandam uma mensagem ácida: “Se não nos querem no banheiro, então vamos levar ele conosco”.

Gravado no centro de São Paulo, as integrantes andam com uma privada de rodinhas pelo Minhocão, praça Roosevelt e outros pontos icônicos da cidade, sob os olhares curiosos e chocados dos transeuntes. A pé ou de skate, Zu Medeiros (vocal), Marina Garcia (guitarra), Dan Cox (baixo) e Isa Miranda (bateria), fazem questão de mostrar nas ruas que o banheiro é lugar para elas também, tocando em meio a paisagem urbana com a privada como amplificador ou banco da bateria. “Curiosamente, os olhares que as pessoas fizeram pra gente andando com a privada é o mesmo que recebemos toda vez que entramos em um banheiro feminino”, aponta Zu.

Diretora do vídeo e guitarrista da banda, Marina Garcia propôs um desafio: gravar o clipe com uma equipe 100% feminina. “M.S.B. foi a primeira música que eu escrevi na vida, o primeiro clipe que eu dirigi, além de ser o primeiro lançado pela Sapataria. Não tínhamos muitos recursos, só um sonho. E ele só saiu do papel graças às mulheres incríveis que acreditaram conosco e nos ajudaram a tornar esse desafio possível”, conta.”

Sapatas de todo mundo, uni-vos!

Eu particularmente pago um pau para Sapataria! A banda nunca decepciona no quesito qualidade e com seu primeiro vídeo não foi diferente. Sendo uma mulher que cresceu em meio a questionamentos sobre minha orientação sexual, me identifico e aprecio de coração o trampo dessas minas e o significado dessa música.

O vídeo super bem produzido, mas com aquela pegada independente é agradável de assistir. Som acelerado e batida animadíssima, M.S.B. tem o tipo de letra que gruda na cabeça e sem perceber estou aqui cantando que não vou me adaptar, não vou me esconder! Não vou… Com um vídeo de primeira linha no melhor estilo “punk rock skatista” Sapataria segue como um forte exemplo do que a cena tem de melhor para oferecer. Consumir esse vídeo será de lei em todos os rolês lésbicos, e tenho dito!

Com isso, devo dizer que foi um prazer imenso ter tido o privilégio de prestigiar o lançamento do primeiro vídeo clipe dessa grande promessa do punk nacional.

Elenco: 
Marina Garcia (guitarra)
Zu Medeiros (vocalista)
Isa Miranda (baterista)
Dan Cox (baixista)

Equipe técnica:
Marina Garcia – Direção, Fotografia, Roteiro, Edição
Luíza Fazio – Roteiro e produção executiva
Bruna Caratti – Coordenadora de produção
Nathalia Bancalero – Produção 
Marcella Uehara – Produção 
Iolanda Depizzol – Operadora de câmera 
Paula Torres – Maquiagem 
Beatriz Garcia – Produção de objetos 
Marina Ciccone – Fotos still 
Amanda Cox – Segurança 
Caroline Rocha – Segurança  
Soraya Bussiki – Agradecimentos


Resenhas

Xavosa – Luta, Substantivo Feminino

O EP da banda XAVOSA, lançado em 2019, conta com 7 faixas que venho devorando nas últimas semanas.

Vamos lá, primeiro de tudo vamos conhecer a banda:

“Xavosa surgiu em Brasília no começo de 2017 e atualmente é composta por Camila Galetti (voz), Rita Lima (bateria), Lorena Lima (guitarra) e Lucas Fuschino (baixo). Com influências como Hole, Distillers e Tsunami Bomb, a banda transita entre o punk e o hardcore melódico, carregado de mensagens politizadas calcadas na militância pessoal e profissional das integrantes. Com poucos mas memoráveis shows ao longo de 2017, Xavosa retornou aos palcos no último mês de março no evento Poções de Bruxaria, ao lado de Anti-Corpos (ícone do hardcore feminista nacional), Hayz, Bloody Mary Una Chica Band (ambas de São Paulo), e a conterrânea Penúria Zero.”

Foto por César Oliveira

Agora que estamos familiarizados, quero exaltar o EP “Luta (s.f)” com o maior prazer do mundo. Com letras que exploram as dificuldades que as mulheres não “padronizadas” são submetidas. Da mãe até a ativista não-binária (e também quando são a mesma pessoa).

Som acelerado e cheio de peso que transborda repudio à sociedade conservadora

É o tipo de banda que conversa com todas as minas. Que ao crescerem têm a escolha de se manter na estagnação mental gerada por anos de condicionamento opressor ou ir para luta (substantivo feminino).

Xavosa mistura Punk e Hardcore Melódico de forma natural com músicas melódicas que podemos dançar e cantar junto até trabalhos mais pesados de pura resistência! Luta, substantivo feminino é a faixa titulo do EP e diz muito sobre a essência da banda. Jovens adultos, idealistas, feministas, não conformistas que pedem por liberdade e exigem respeito! E que tem a audácia de sobreviver e triunfar diante de toda repressão constitucionalizada sem deixar comprometer sua essência.

RIVOTRIL

É o tipo de som que da para se jogar com o ritmo da guitarra enquanto algum amigo berra a letra inteira do seu lado. Esse som conta com a força da bateria sendo precisa e marcante. Memorável também o solo de baixo energizante que predomina durante a música. A letra trata de doenças mentais que causam aqueles dias de crise em que nós simplesmente não conseguimos funcionar. Afinal, quem nunca se salvou de uma crise ansiosa ou depressiva com um bom e velho Rivotril, que atire a primeira pedra. Nos faz lembrar que a luta interna que enfrentamos diariamente é tão desgastante quanto as nossas batalhas do “mundo real”.

CORPOS

Pensa numa mina com raiva, isso resume o vocal dessa faixa fodástika. A banda tem algo a dizer e nós vamos ouvir. É a hora da revolta! Porque afinal de contas pra que servem as bolas senão para serem chutadas?

Corpos é uma canção de afronta contra os padrões. Porque nossos corpos não nos definem e nem nos definirão, a frase “corpos em protesto” não me tira da cabeça o triste fato de que o simples ato de não exibir determinadas características estéticas disseminadas como “atraentes” e existir feliz da forma como se é tornou-se uma espécie de revolução em si.

CIDADE

“Quem dera essa cidade fosse minha… ” Quem dera pudesse ser mulher e voltar para casa a noite sozinha sem temer. Continuar vivendo nesse ambiente é resistir.

Nessa faixa a harmonia da guitarra me faz sorrir toda vez. Gostei do som e, para o meu gosto ele, tem uma batida boa para reflexão. É o tipo de música que eu quero ouvir no busão voltando para casa depois de um dia cansativo e talvez faça eu me sentir melhor. Não é tão agressivo porque é quase como um lamento. Do começo ao fim tem uma batida forte e cheia de emoção.

Pesa ao ultrapassar espaços que não devia
Quebrando como se fosse britadeira 
Incomoda com sua beleza 
Mas assusta quando é vista muito livre 

MARTA

Talvez seja o som “mais grunge” da banda amei. Acho Marta um som tão alegre que eu me imagino cantando junto na chuva, a melodia de todos os instrumentos juntos nesse som é mágico muito bem feito e de uma vibe positiva gigantesca. Estou plena, estou Marta.

Destruindo conceitos, espalhando uma ideologia de resistência, gritando a plenos pulmões por liberdade. Esse caminho é desgastante, longo e ainda não está perto de acabar, mas Marta não se importa e continua firme, forte, feliz e muito debochada cantando para todos os chatos opressores e sem noção (fiscal de cu alheio). Pow, eu só quero ser livre!

BÁSICA

Meu que som é esse? A faixa já começa com uma pegada pesada perfeita para bater um cabelo. Revolta pura, Básica é uma musica agressiva e tem que ser. Fala sobre verdades que precisam ser gritadas. Sobre essa sociedade podre que transforma mulheres livres em escravas das circunstâncias. São obrigadas a sobreviver de forma quase indigna e mesmo assim se mantém em pé. Se liguem:

Suburbana! Subemprego!
Ela tem medo! Cansada! 

Mas sempre sorrindo, sempre cantando, de unhas pintadas 

Suburbana! Subemprego! 
Ela tem medo! Cansada!

CORRENTEZA

Sempre que escuto essa canção me pego imaginando como seria curtir esse som ao vivo… Imagino uma roda bem animada. O vocal se destaca pela sua afinação, Camila solta sua voz trazendo um vocal limpo e bem enunciado que se encaixa perfeitamente com a com a batida melódica trazida pelos outros instrumentos em conjunto. Ouço ela e quero dançar. É uma musica motivacional e elétrica. Ótima para sair e derrubar o sistema. A mensagem principal é: não desista.

LUTA (S.F.)

Feminismo puro. A vida da mulher é uma luta contínua e o título diz tudo. Lugar de mulher é em toda parte, sempre lutando. Som para quebrar tudo. Acelerada pungente que vai direto ao assunto sem frescuras, sem pedir desculpas. Na musica baixo, batera, guitarra e vocal vem com uma dose extra de peso e distorção tornando a faixa que fecha o EP a mais marcante. Puro Punk Rock (pode ser HC não me julguem) arrebatador.

#GirlsToTheFront


Resenhas

Feito Por Elas – O Documentário

“A música é um instrumento de salvação”

Quem segue a Bus Ride Notes, no Facebook ficou sabendo sobre a dica para o fim de semana: a plataforma Looke disponibilizou o documentário para ser visto de graça por alguns dias.

Dominatrix

O filme tem uma pegada totalmente punk rock/hardcore, não só pela trilha sonora, mas também por ir direto ao ponto e não enrolar muito para chegar em conclusões. Dura menos de 40 minutos e não é nem um pouco cansativo de assistir. As cenas antigas dos roles são o ponto alto da produção para mim, que adoraria ter conhecido esses roles quando tinha meus 15 anos.

Ele conta resumidamente a história da cena independente paulistana, principalmente do movimento RIOT GRRRL, e assim vemos relatos sobre como essas minas vem conquistando na base da porrada e do talento seu tão merecido espaço. Porém ainda falta mais respeito.

As garotas entrevistadas no documentário fazem parte da cena e são integrantes de algumas das seguintes bandas: Charlotte Matou Um Cara, Pitty, Dominatrix, Papisa, Lâmina, The Biggs, Bertha Lutz, Far From Alaska, Plutão Já Foi Planeta, Supercombo, Ventre, In Venus, entre outras.

No documentário a música é exposta como meio de comunicação que explana idéias do manifesto feminista, com mensagens aceleradas e indo direto ao ponto, pois não existe (ainda) espaço grande o bastante para falarmos sobre os aspectos do movimento e suas pautas em grandes veículos mediáticos. Tornando o som que essas minas criam uma forma de difundir esse conhecimento para o maior número de pessoas, além de ajudar as meninas a entenderem que são completamente livres e possuem força para conquistar aquilo que querem.

A Banda Charlotte Matou um Cara se apresentando no Hard Grrrls Fest

As bandas falam muito sobre o machismo velado dentro da cena de música independente, sobre a tragédia do aborto ilegal, celebram a diversidade de cada mulher e de seu desejo de nos expressar. Tocam no assunto da objetificação do corpo feminino e paternalismo que ainda acontece, principalmente com mulheres fortes que precisam assumir uma postura mais agressiva perante a sociedade. E sobre como é importante que cada vez mais mulheres se libertem das amarras sociais instaladas pelo patriarcado ao longo de toda nossa história e dia a dia.

Elas fortalecem umas as outras através desse movimento

Assistindo ao filme fica impossível não entender o verdadeiro significado de sororidade. Exemplo claro disso são os selos femininos como o HÉRNIA DE DISCOS que além de dar aquela força também ajudou a montar a primeira edição BR do GIRLS ROCK CAMP, que se trata de um acampamento de férias onde garotas aprendem a tocar instrumentos, mas não só isso: a experiência agrega no empoderamento de meninas através da música.  

Ao assistir umas as outras, as meninas se vêem representadas e ganham mais confiança no próprio potencial e finalmente conseguem se entender como humanos com valor e talento. 

Não lembro o nome da senhora da HÉRNIA que disse isso (assista!), mas, muito satisfeita, revelou que essa é sua herança para a humanidade.

ALL GIRLS TO THE FRONT 

O documentário também faz um paralelo com o movimento RIOT GRRRL norte-americano que só vai dar as caras em território tupiniquim no começo dos anos 90, foi quando a galera conseguiu trazer umas cassetes do Bikini Kill da gringa.

A Partir daí a coisa só cresceu. Anos depois, em 2003, surgia a e-zine HARD GRRRLS que tinha foco na divulgação do som independente feminino e feminista.

Essa zine gerou uma comoção entre as bandas que começaram a se conhecer e resultou no HARD GRRRLS FEST, que aparentemente foi muito foda, mas acabou em 2006. Ainda rolam uns revivals de vez em quando, então melhor ficarmos atentas.

Concluindo: as mina são fodas! O documentário é interessante e prende a atenção do começo ao fim, toca em assuntos importantes, passa algum tipo de conhecimento e como todo bom documentário nos proporciona um exercício de empatia. Tipo assim, assistam.  


Eventos / Resenhas

Punk pelo Espaço do Saber

O evento rolou Sábado dia 25/05 no Ação educativa. Com shows de punk e hardcore gratuitos, pedindo apenas doações voluntárias. O rolê foi criado para arrecadação de brinquedos para o Espaço do Saber e organizado pelas minas da Gulabi.

O Espaço do Saber é uma biblioteca comunitária que resiste na periferia de Suzano oferecendo conhecimento, leitura, atividades culturais e de lazer para as crianças e jovens da comunidade.


Agressividade, potência e muita liberdade: O som, as bandas e as personalidades 

WEIRDUO

Duo hardcore baixo e bateria de São Paulo

Foi a primeira banda a se apresentar, é formada por “Pedro & Jivago, a dupla sertaneja”. Abriu seu show com um cover de Bella Ciau versão hardcore de satan abençoado. Chegou ditando o ritmo para os próximos shows com gritos rasgados e um som raivoso e angustiado. A energia tomou conta naquele momento e foi impossível (para mim) não balançar meu cabelo com o peso da bateria. O som foi dinâmico e com letras que jogam sal nas feridas que dizem respeito a verdades recorrentes desde doenças mentais às desigualdades nossas de cada dia.

ALTO NÍVEL DE INSANIDADE

Banda da cena hardcore de São Bernardo do Campo. É formada por Nayra nos vocais, F. Nicholas na guitarra, Bollaxa no baixo e Marco na bateria

A segunda banda a prestigiar a noite chegou quebrando tudo com uma agressividade que fez o chão tremer! As músicas tocadas falaram principalmente sobre as dificuldades e força das mães.As mãe merece!” (Nayara durante o show). Além de política, sociedade, conflitos psicológicos, dentre tantas outras coisas. O som tem o tipo de peso agressivo que contagia a platéia com a autenticidade das músicas. Confesso que essa foi minha grande descoberta da noite e estou esperando eles produzirem uma camiseta super extra grande para adquirir a minha.

GULABI

A banda punk feminista antifascista tira inspiração das mulheres da Gulabi Gang. É formada por cinco minas, foi a terceira a se apresentar e trouxeram fans jovens que só acrescentam à cena!

Se existe algo mais foda do que meninas podendo se expressar através do punk rock, seja berrando ou dançando livremente sem NINGUÉM as incomodando, eu ainda não conheço. O show da Gulabi foi um dos pontos altos no evento não só pelo som, mas também pelos fans que se jogaram na pista e deram show de liberdade de movimento e expressão. As letras pedem intervenção alienígena (quero), falam sobre questões políticas e diz respeito a como nós, como mulheres, também podemos e DEVEMOS sair para curtir o role, sim! Cheio de impacto, rápido e divertido, são minas livres dando um tapa na cara da sociedade e compartilhando ideais feministas de superação, livres dos preconceitos e imposições da sociedade e da cena masculina. 

QUESTIONS

Banda de hardcore brasileiro old school, foi a banda com mais tempo de estrada a somar no rolê e que fechou a noite com chave de ouro

Formamos o Questions com o espírito de unir a energia e a intensidade do hardcore ao peso e à agressividade do metal. O nome representa uma postura crítica em relação à vida: questionar, não aceitar as coisas passivamente.

A banda é formada por Pablo Menna na guitarra, Edu Andrade no vocal, Helio Suziki no baixo e Duz Akira na bateria. É basicamente impossível curtir um som desses sem querer abrir uma roda. O último som da noite contou com a maior energia da galera, mais gente dançando, gritando e feliz. Músicas pesadas de verdade que foram escritas com tamanha consciência social sobre o Brasil e a cena de São Paulo. Contam sua verdade nua e crua expressada da melhor forma (com um som do caralho). O que dizer dessa apresentação? Sendo a banda com mais tempo de estrada, eles sabem muito bem o que fazem e são extremamente bons nisso. Que som foi esse!?

Bom povinho, ficam aí minhas impressões como mera expectadora que não manja nada sobre nada dessa cena, mas estou aqui para conhecer. De qualquer forma quero deixar um recado muito importante para vocês:

A Gulabi está arrecadando doações para o Espaço do Saber até o Dia das Crianças. Então vamos dar uma força. É só falar com as minas pela PÁGINA DA BANDA, marcar um lugar para entregar os brinquedos e pronto! Já vai estar ajudando essa juventude, porque se depender do governo nóis tá ferrado, bora!

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