Bus Ride Notes

Posts by Junio Silva

Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.


Entrevista

Andressa Nunes – O Mandacaru Intergaláctico

“O Mandacaru Intergaláctico” é uma carta de amor ao sertão escrito pela cantora baiana Andressa Nunes. Lançado em 2020, o álbum contêm 13 faixas que fluem como um abraço, como em “A Bahia é Grande”. Isso sem perder a mão nas experimentações, como a technobrega “Bagaceira”.

O álbum foi gravado em Juazeiro (BA) com coprodução de Iago Guimarães, da Casinha Lab. Todas as letras, bem como a arte da capa e as artes personalizadas das músicas no Youtube, são assinadas pela própria cantora.

Andressa canta que “o sertão é a resposta”. Então, fazendo o caminho contrário, fizemos um monte de perguntas sobre “O Mandacaru Intergaláctico”. Confira:

Andressa, a gente pode começar falando sobre o caminho que levou até “O Mandacaru Intergaláctico”. Em 2019 você lançou vários singles, certo? Como foi esse período entre os singles e a composição do álbum? 

Sim, em 2019 eu decidi publicar algumas experimentações caseiras que estava fazendo sozinha e sem muitas pretensões. Dessas, a minha preferida é Ana(r)coluto, que é uma música bem antiga mas que gosto bastante da letra, cheia de referências à filosofia da mente e à gramática da língua portuguesa. Como meu processo de composição é bem aleatório, não houve um ponto específico em que eu decidi compor “O Mandacaru Intergaláctico”. A música título, por exemplo, foi escrita há mais de cinco anos, enquanto “Bagaceira” foi escrita na hora de entrar no estúdio, praticamente.

Algumas músicas (talvez o álbum inteiro, até) são verdadeiras cartas de amor ao sertão, à Bahia, ao Nordeste como um todo. Na primeira música você já canta que “o sertão é a resposta”. O que te motivou a compor essas letras? O que você estava sentindo nesse período?

O sertão, principalmente por sua adaptabilidade e riqueza cultural, pode ser a resposta para muitas das questões sociais que temos enfrentado. O sertão é a resposta num sentido geopolítico, de olharmos para as riquezas e para os modos de vida da população dos vários sertões do Brasil (os rincões da Amazônia, do Centro-Oeste, dos Pampas, das Caatingas), que num geral conseguem conviver melhor com a natureza e produzir seu próprio alimento. Mas também o sertão pode ser uma resposta mais íntima: compreender de onde vim e a linguagem que me habita foi um processo importante para me deixar levar pela música que há tanto tempo componho.
A motivação maior para reunir essas canções foi justamente olhar no espelho da palavra, já que na época eu estava sentindo uma saudade de mim que tomou a forma (espinhosa, mas bonita) de um mandacaru. Há também uma motivação política – toda arte é política, inclusive a “neutra”. Falar do nordeste como algo contemporâneo, sem saudosismos, sem estereótipos, é uma forma de trazer luz a questões que estão em voga como a xenofobia e o machismo. Eu quis trazer um sertão que se deixa permear pela modernidade, mas sem medo de criticá-lo também, como em “A Última Cajuína do Sertão”. Vale ressaltar que não é uma questão de fazer o nordeste virar uma pauta identitária, pelo contrário: quero falar das suas pluralidades e das suas contradições, da ignorância e do saber, com consciência e sem vitimismo. O sertão não precisa de narrativas sensacionalistas. Fico com as narrativas sensoriais.

Quais foram suas referências musicais e de outras fontes? 

Na música, posso citar Cátia de França, Alceu Valença, Tom Zé, Luís Gonzaga, Dominguinhos, Caetano Veloso, Daniela Mercury, os Beatles, Björk, Zé Ramalho, Baiana System.
De outras fontes, acredito que Guimarães Rosa tem uma presença marcante na minha relação com o sertão feito de palavra. Também gosto bastante de cinema, e obras como “Bacurau” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” atravessaram bastante meu processo criativo.

Pode falar um pouco da parte instrumental do álbum? Quais os demais músicos que participaram? Como foi bolar esse som? 

Eu toquei violão em todas e guitarra em algumas das músicas. O restante (bateria, baixo, teclas) ficou por conta de Iago Guimarães, do Casinha Lab em Juazeiro, BA (que coproduziu e mixou as músicas) e do Wagner (percussões diversas) como representante da Camerata Matingueiros de Petrolina, PE. Bolamos o som seguindo o fluxo das letras, eu já tinha em mente o clima e a instrumentação que desejava e os meninos foram geniais e muito generosos ao me escutar e trazer novos elementos para a brincadeira.

O álbum foi lançado no ano em que a pandemia chegou. Já que os shows estão inviabilizados, como foi feita a divulgação do trabalho?  

Divulguei apenas pela internet e também entre amigos e familiares. As novas pessoas que têm chegado para escutar têm sempre me surpreendido positivamente, já que infelizmente não pude fazer nenhuma ação de marketing mais grandiosa. Mas o fluxo da vida, dos algoritmos e das canções tem uns mistérios interessantes.

Tem previsão para clipe?  

Tenho gravados takes de clipes para “Mulher Apocalíptica” e para “Manequim”, mas te confesso que sou eu que faço tudo na minha “carreira”, então a falta de tempo para editar está pesando bastante nesse aspecto. Quem sabe esse ano ao menos esses dois não saem, né?

Num momento em que o Brasil parece estar sendo atacado diariamente pelo que tem de pior nele mesmo, é realmente um respiro ouvir algo que fale com a gente assim, né? Na música “O Absurdo” você escancara esse clima que a gente vive. Você vê alguma esperança pra esse absurdo tanto na via artística, social ou política?

Nem medo, nem esperança: tenho confiança na ética e na capacidade de se transformar que o Brasil tem. Certamente é um processo lento e meu grito de “não me deixe achar normal o absurdo” resume esse chamado para que não deixemos a ignorância e a necropolítica se tornarem a voz da vez, como se fossem uma certeza fatal contra a qual teremos que lutar o tempo inteiro. Não. Não é normal, não é o nosso normal e não existe um “novo normal”: esse desmonte da coisa pública e o descaso com tantas vidas é uma aberração. Tenho fé em grande parte da população que se preocupa consigo mesma, mas que também busca ajudar o próximo. Tenho confiança na ciência e nas instituições de ensino e no seu papel político tão fundamental e de tanta resistência. Tenho fé nos artistas independentes, principalmente nos que produzem arte em vez de produto: a revolução também virá pela beleza, pelo sublime e pela coragem. Mas a mudança é silenciosa e lenta, e enquanto ela não vem, vamos agindo aos poucos para combater os fascismos que nós mesmos reproduzimos com arte, muita solidariedade e muita paciência.

O álbum está disponível no Youtube, Deezer, Spotify e Itunes.


Entrevista

Entrevista: Cama Rosa Gruta

Em agosto de 2018, no Caffeine Studio, São Paulo, algo começava a ser gerado. Bruno Trchnmm e Cindy Lensi (Cama Rosa) passaram pela cidade e toparam com Analena Toku (Gruta), o resultado desse encontro nós só veríamos dois anos depois. Já dá pra adiantar aqui que valeu a pena a espera.

É interessante pensar nesse espaço entre esse encontro e o fruto dele, é como se o próprio tempo tivesse um papel importante no resultado final tanto quanto o ato de compor e tocar. E o tempo mexe com a gente. Nesse caso, de tanto mexer com os três, em 1 de outubro de 2020, saiu o EP “Cama Rosa Gruta”.

O álbum, mixado e masterizado por Juliana R., conta com quatro faixas: Vértice Osso Jade; Cipó Ouriço Beat; Passo Cravo Cipó; Melancia Vapor Cigarro. Tão abstrato quanto os nomes das faixas denunciam, no Bandcamp o álbum é definido como um caleidoscópio vivo, um animal que se move mas deixa um rastro de imagens coloridas, um rastro que tem mais de dois anos de metamorfoses antes de se cristalizar, e até mesmo como uma explosão em câmera lenta.

Pra olhar um pouco mais de perto esse caleidoscópio ambulante que, após tanto tempo se cristalizando, agora explode lentamente, convidamos os envolvidos na obra para uma entrevista. Confira:

Primeiramente, como estão nessa quarentena? Todos saudáveis?

Anelena Toku: Por aqui tudo sempre na linha entre estar “bem”, ter a possibilidade de ficar em casa e ao mesmo tempo sentindo todas as sensações que vem com esse momento tão crítico e com tantos acontecimentos que nos revoltam.

Cindy Lensi: Tudo bem, sim. No começo da pandemia estava tenso, um ar denso que impregnou o dia-a-dia com nóias e incertezas. Agora estou me sentindo um pouco mais tranquila, e conseguindo pensar com mais clareza.

Bruno Trchnmm: Eu sou professor da rede municipal aqui em Campinas e tenho um filho de 6 anos, então por aqui a quarentena tem alguns tons particulares de desespero . Mas não dá pra reclamar não, pelo menos podemos trabalhar em casa.

Como surgiu a ideia do EP? Por que as duas bandas decidiram trabalhar juntas?

Anelena: Esse encontro foi bem espontâneo, aproveitando uma vinda da Cindy e do Bruno pra São Paulo, marcamos essa sessão no estúdio. A gente já tinha vontade de produzir algo junto. A uns anos atrás eu já tinha gravado um som chamado “Ruínas” com uns samples de guitarra do Bruno. No início de tudo, Gruta era só guitarra/violão e voz, depois fui fazendo mais coisas com eletrônicos e deixei a guitarra, então esse reencontro com as guitarras foi ótimo.

Cindy: Já tínhamos ouvido alguns sons da Anelena (Gruta) e também já vimos ao vivo uma apresentação do Fronte Violeta (Anelena Toku e Carla Boregas). Achamos muito legal. Foi o Bruno quem deu a ideia de convidá-la, e quando um dia estávamos indo tocar em São Paulo no Hotel Bar, isso em Agosto de 2018, fizemos o convite para gravarmos um improviso juntos lá no estúdio Caffeine no mesmo dia. A Anelena topou e assim surgiu o EP. Só tivemos noção melhor do som quando ouvimos depois mesmo. Esse ano convidamos a Juliana R. para fazer a mixagem do disco, então na verdade esse disco foi construído por quatro pessoas.

Bruno: Tem muito o lance de que o meio que a gente circula mistura muitas dessas abordagens de som, o noise, o improviso livre, a música eletrônica, performance… meio que tudo ao mesmo tempo. Então apesar de ser um percurso estranho, é muito natural porque tem um pouco desse trânsito: a gente gravou um improviso totalmente livre sem combinar nada, e depois trabalhou nesse som fazendo umas colagens, que é meio que o modo de trabalho da música eletrônica. Depois a Anelena gravou as vozes, que trazem pra mais perto de um tipo de canção, mesmo que abstrata.

Fronte Violeta

Como foi o processo de gravação? O que vocês buscavam transmitir durante as sessões?

Anelena: Foi tudo bem rápido, a base do disco foi gravada em uma sessão de improviso. Ali a gente passou por vários processos ao mesmo tempo, de cada um achar seu espaço no som, testar os timbres e como eles se relacionam. Depois disso o Bruno ainda mexeu nas faixas e foi inserindo mais coisas e revelando as músicas no meio desse material. Esse ano resolvemos finalizar e eu gravei umas vozes pra compor com os eletrônicos e guitarras.

Cindy: Quando buscamos colaborar com alguém, nunca damos nenhum direcionamento. A ideia é deixar acontecer na hora. Nunca dá errado, é incrível haha. Isso que é legal de improvisar. Talvez no começo, sei lá, leva uma meia hora pra nos encaixarmos todos no som, mas depois ficamos bem conectados, tanto que as vezes eu acho até legal dar uma “desconectada” no processo, começar algo sonoramente diferente do que já estava acontecendo. Acho que nesse EP “Cama Rosa Gruta” aconteceu isso, tanto que foram criadas quatro faixas nele, cada uma com sua forma, sem muito destoar uma da outra ao mesmo tempo. O EP acabou ficando com um desenho bastante orgânico, me remete a coisas naturais como estalactites, lavas e ao mesmo tempo tem uns samples de jazz que deixam com uma cara bem única. Também tem presença de linhas vocais, que até então não tínhamos colocado. Cada vez que eu ouço um pouquinho mais, se transforma em outra coisa, outras imagens ou outros tempos talvez.

As gravações ocorreram em 2018, certo? Qual o motivo de ter demorado dois anos para serem lançadas?

Anelena: Talvez esse tempo tenha servido para maturar os sons. Acho que a gente que costuma gravar sessões de improviso com as pessoas, o que mais temos é faixas e mais faixas gravadas de diversas épocas. Quando eles falaram que estavam retomando foi uma surpresa boa. A gente voltou a mexer nesse material em Março desse ano, então de lá até Outubro ainda foram alguns meses de atenção pra tudo isso. Pra mim ouvir gravações de outros tempos sempre traz uma nostalgia, porque o som também cria nossas memórias, mas também coloca a gente pra perceber o que tá ali com uma outra escuta. A primeiras vezes que eu ouvi as gravações de 2018, eu tive a sensação de estar diante de um horizonte distante, olhando por um binóculo, e quando gravei as vozes esse ano, eu sinto que estava tentando trazer esse horizonte pra mais perto, para o agora.

Cindy: Demoramos porque naquele mesmo ano começamos tocar bastante nos lugares e também precisávamos juntar um dinheiro talvez, além de outros contratempos da vida pessoal, mas rolou. Queríamos que uma pessoa mixasse pra gente com carinho, pois não temos essa habilidade. Esse ano por mais difícil que está sendo por conta da pandemia, coincidiu de dar certo a continuidade desse material.

Bruno: É aquela coisa também, o nosso tempo pra trabalhar em música é sempre o tempo da sobra, geralmente. Tem trabalho, casa pra limpar, coisa pra estudar. Então tem que se acostumar com a ideia de que as coisas vão se estender no tempo, porque no momento é a única forma que elas podem sobreviver. A gente tem aqui uma ideia muito fixa que ser artista é viver de arte, o que é uma farsa, porque a maior parte de quem produz arte (no mundo inteiro, inclusive), não vive de arte. Mas mesmo assim produz. Esse método de trabalho, inclusive, de lidar com improviso, colagem, tem a ver com esse tempo que sobra. É uma forma de trabalho que, apesar de soar ou parecer meio “torta”, é muito dócil a esse tempo do dia-a-dia, sabe? É uma forma de fazer música que entende quando você chega cansado do trabalho ou só tem tempo livre no final de semana.

Cama Rosa

De onde surgiram os nomes para cada faixa?

Anelena: Pra mim as músicas todas me trazem uma sensação de trilha sonora, me remete a muitas imagens. Ao mesmo tempo são imagens bem abstratas, fluídas e não lineares. Como se o sentido delas fosse construído a partir de uma organização própria. Essa ideia de cada um sugerir uma palavra pra cada som surgiu um pouco disso, de serem nomes que trouxessem mais uma sensação do que nomear propriamente a música.

Cindy: Para dar um contexto para entender esses nomes – no nosso Bandcamp tem o registro de todas as nossas improvisações que gravamos. Colocamos duas faixas e damos dois nomes para cada uma, por exemplo “Hibisco/Navalha”. A escolha desses nomes são mais aleatórias, em uma vibe parecida com um jogo de palavras, tipo aqueles exercícios de automatismo que os surrealistas usavam, mas nada profundo. Em algum nível nosso som surge na mesma maneira em que nossas palavras surgem ou vice versa. A gente decidiu (por grupo no Whatsapp) que seria legal para o EP “Cama Rosa Gruta” usar três palavras dessa vez para cada faixa, já que somos em três. Foi interessante, teve até palavra que repetiu e deixamos. As palavras foram; vértice osso jade — cipó ouriço beat — passo cravo cipó — melancia vapor cigarro.

 O que vocês buscaram fazer de diferente em relação à uma gravação “tradicional”?

Anelena: Acho que meus processos de gravação com Gruta sempre foram zero tradicionais, sempre gravando do jeito mais caseiro possível porque era como eu tinha como fazer. E foi assim com as vozes que gravei. Somado a isso, toda a troca de arquivos e comunicação durante um início de quarentena/pandemia com certeza marcaram essa gravação. Acho que outra parte do processo importante foi a mixagem e masterização que a Juliana R. realizou. Foi importante ter alguém de fora, mas ao mesmo tempo que nos conhece bastante pra desenhar a forma que isso teria.

Cindy: Boa pergunta, pois eu não acho que a gente fuja da gravação tradicional. Inclusive a maioria de nossas gravações são bem lo-fi. E nesse a gente gravou em estúdio, para seguir a tradição. Mas a gente sempre dá uma mexidinha aqui e ali depois que estamos com o material.

Bruno: A gente faz o que pode com o que pode né haha. A gente gravou essa sessão em um esquema de “ensaio gravado”, que é uma gravação ao vivo bem simples. Essa sessão depois ficou comigo e eu aos poucos fui editando o que pareciam as partes mais legais, cortando uns trechos, montando uns loops com partes mais bacanas. Eu cheguei até a achar que perdi esse disco uma vez, quando meu PC pifou. Esse ano, no choque do começo da quarentena eu peguei pra ouvir essas faixas, dei uma mexida última e parece bem legal. Coloquei os samples (um do Sun Ra e de uma videoaula de bateria ensinando a levada do Elvin Jones haha) , só que feito do meu jeito, muito tosco. Então a gente mandou para a Juliana transformar aquela colagem tosca em algo mais coerente, o que deu esse espaço pra Anelena gravar as vozes.

Podem falar um pouco da arte da capa?

Anelena: Quando começamos a pensar a arte logo me veio a imagem de colagens e recortes, mas como o Bruno escreveu no texto que divulgamos, era uma idéia de uma colagem em movimento, que se alterava. Eu busquei umas fotos minhas de 2015 e criei essa montagem a partir desses fragmentos. Uma tentativa de recriar memórias e experimentar esse horizonte que não é estático, um horizonte que escapa.

Cindy: A capa é um projeto gráfico da própria Anelena Toku. Uma colagem que casou muito bem com os sons. A combinação das palavras, o som e mais a arte da capa conversam tão bem que eu acredito que por conta disso o disco conquistou vida própria.

Bruno: Eu gosto muito de todos trabalhos visuais da Anelena, muito mesmo. A colagem tem um lance como o do sample, é uma parada que parece meio dura, porque é uma imagem fixa que você pega de um lugar e põe no outro, não tem muito o que mexer. Mas a colagem e o sample também tem o lance da repetição, que você pode jogar no espaço e vira uma coisa muito fluida, que você pode mergulhar.

E os projetos futuros de cada um dos grupos? Pretendem fazer mais coisas juntos futuramente?

Anelena: Gruta é um projeto meu bem pessoal e que nos últimos tempos esteve meio dormente principalmente porque tenho desenvolvido bastante coisa com o Fronte Violeta, que é meu projeto com a Carla Boregas. Acho que Gruta, Cama Rosa e Fronte Violeta sempre tiveram uma proximidade por habitarem um mesmo universo de som, então com certeza imagino que continuaremos essas trocas.

Cindy: Seria muito legal continuarmos fazendo coisas juntos, assim espero. O Cama Rosa está pra lançar um disco com as canções, nós temos composições com letras que gravamos no final de 2019. Também está sendo mixado e o lançamento será em breve. Então temos todo esse material de improviso no nosso Bandcamp, mas geralmente quando nos apresentamos, tocamos nossas canções que considero um desdobramento das improvisações, já que muitas bases saíram de lá.

Bruno: Eu sempre brinco com a Anelena e a Carla que a gente tinha que fazer um disco ou um festival com projetos que tem cores no nome, Cama Rosa, Fronte Violeta, Objeto Amarelo… talvez montar tipo uma big band.

“Cama Rosa Gruta” está disponível no Bandcamp.


Entrevista

Entrevista: Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bus Ride Notes – Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso. Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo. A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal. Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018. Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições. Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos. Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado. Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha! E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso. Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado. A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos. A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi. O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha! O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz. Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum. Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal. Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre. Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai haha!

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro. Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão. Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!
Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos. É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”. Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico! A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha. Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto. São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza. Mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”. Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos. Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país. Mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.


Resenha

Split Rosa Idiota + Please Come July

Dezembro de 2019, o fim de uma década. Parece que faz muito tempo né? Na verdade, nem é tanto tempo assim, tá logo ali. E o que aconteceu em dezembro daquele ano? Bom, se você gosta de hardcore, deveria saber que foi o mês em que a Bahia e o Rio de Janeiro fizeram conexão no ótimo Split com Rosa Idiota e Please Come July!

Com oito músicas no total, quatro pra cada, o split foi lançado pela High Fidelity Stereo, em parceria com a Tropical Death, Estopim e Eletric Funeral.

Pra quem gosta de detalhes técnicos, aqui vai o primeiro destaque desse álbum: a qualidade do som. Ambas as bandas foram muito bem gravadas, você consegue ouvir cada detalhe do som direitinho. E os responsáveis por essa produção de primeira estão aqui: o lado do Rosa Idiota foi gravado, mixado e masterizado por Dill Pereira no estúdio Ruído Rosa, em Salvador – BA; Já o lado do Please Come July, ficou por conta de Cris, no estúdio La Cueva, Rio de Janeiro – RJ.

Não tem pra onde fugir da influência do hardcore norte americano dos anos 80 e 90 aqui. Quem abre o Split é “Don’t Disappear”, do Rosa Idiota. Seguida de “Behind Bars”, “Aerophobia” e “The Stars Don’t Care About Us”. As músicas são bem coesas, funcionando muito bem juntas. A minha favorita dessa primeira parte é “Aerophobia”, música pra ficar no repeat. O refrão emociona com “Let’s make a deal and start again. I promise you, you promise me. You lose your fear of flying. Then I lose my fear of falling”.

Esse é o terceiro lançamento da banda, sucedendo Somatic (2018) e Circle (2017). A banda formada em 2015, junta veteranos da cena hardcore brasileira em sua formação: Marcelo Adam (vocal, guitarra), Diego Dill (vocal e guitarra), Fabiano Passos (baixo) e Rodrigo Gagliano (bateria).

Com a deixa da primeira parte do álbum, o Please Come July chega e não deixa a desejar. Lembrando o som do Hüsker Dü, a banda entrega “Running”, “Let’s Start Today”, “Inside” e “Figure Out” sem tirar o pé do acelerador. Acho que vale destacar “Let’s Start Today”, com um final que dá aquela vontade de subir no palco e se jogar em cima de desconhecidos (há quanto tempo isso não acontece, hein?). “Let’s start today. This is something. This feels so right. Let’s start today” é pra cantar junto.

Please Come July, assim como o Rosa Idiota, é uma banda relativamente nova. O grupo foi formado em 2016, no Rio de Janeiro e conta com Marcus Menezes (guitarra, voz), Marcelo Pineschi (baixo) e Gabriel Isidoro (baixo). O álbum que antecede o slipt, é o Life’s Puzzle (2016).

A arte do slipt é assinada por Leo Villas e, diga-se de passagem, é uma belíssima arte. Se houver uma lançamento da versão física desse álbum, essa capa com certeza vai ser uma daquelas que dá gosto de ver na estante.

Rosa Idiota + Please Come July está disponível no Spotify, Deezer, Bandcamp, Youtube, Apple Music e Google Play. Como vocês já devem saber: ouçam, compartilhem com amigos, apoiem as bandas independentes e façam seus próprios rolês.


Entrevista

Qorpo – Morte em Pleno Verão

O clima não está nada bom no Brasil e no mundo, especialmente desde o fim do verão de 2020. A vida agora acontece dentro das casas e sob a terrível sombra do vírus que agora varre todo o planeta. Lá fora, só há medo e morte. Felizmente, mesmo em meio a tudo isso, a criação não parou. As pessoas ainda sentem a inquietação por criar, e dessas criações, surgem registros sobre o tempo em que nos encontramos e o que sentimos. É de uma dessas criações do isolamento que venho falar hoje. Com vocês: Morte em Pleno Verão.

“Morte em Pleno Verão” é o primeiro álbum do projeto Qorpo, autoria de Victor Rodrigues. Esse é um daqueles lançamentos pelos quais tenho um carinho especial. Conheci Victor em 2015 quando ambos entramos no curso de Comunicação Social em Brasília e fomos amigos próximos durante os anos da faculdade. Entre muitas conversas que tínhamos, música era um dos temas constantes. Acompanhei o início do desenvolvimento do que viria a ser o Qorpo, com o crescente interesse pela música experimental e outros temas que influenciariam o projeto. É por isso que tenho um imenso orgulho de finalmente realizar essa entrevista sobre o “Morte em Pleno Verão”; um álbum sombrio e inquietante que trabalha com o silêncio e o minimalismo, trazendo ares de novidade para a cena artística de Brasília.

O lançamento aconteceu no dia 1 de Maio e foi feito pelo selo brasiliense Dobradiça Enferrujada. Para acompanhar o EP, foi feito um curta dirigido por Xavier Braun, também de Brasília.

Confira a entrevista:

Junio Silva: Seguinte, eu lembro de você já fazendo uns sons nesse projeto Qorpo lá por 2018, se não me engano. Fala um pouco de como foi esse processo de amadurecimento das ideias até chegar no “Morte”.

Victor Rodrigues: Pois é, o nome veio antes do projeto realmente tomar forma.  Há alguns anos eu tenho explorado com a música eletrônica mas eu nunca realmente tinha me sentido satisfeito com o resultado, e por isso eu raramente compartilhava o que fazia com alguém, não me sentia confiante pra isso. O “Morte em Pleno Verão” veio de uma decisão tomada no final de 2019: eu decidi que queria fazer um registro conceitualmente consistente, algo que eu me sentisse confiante o suficiente pra compartilhar com alguém. Eu acho que nesse processo o som que eu fazia mudou muito, eu explorei outras direções e instrumentos. Foi um processo bem lento de fazer tudo, ouvir tudo, fazer de novo e repetir. No final de alguns meses eu tinha quase meia hora de música que eu tava confiante pra compartilhar. Foi basicamente isso.

Ouvindo o som é impossível não lembrar de coisas tipo Music For Airports do Brian Eno. Quais foram tuas referências pra esse trabalho?

Eu acho que como influências sonoras mais diretas eu posso citar a compositora francesa Eliane Radigue e o artista japonês Toshimaru Nakamura. Mas ainda assim eu acho que a maior parte das influências pro Morte vieram da literatura. O próprio titulo mostra a influência do conto de mesmo nome de Yukio Mishima. Eu retirei muitos conceitos que explorei no EP de livros que eu estava lendo durante a produção do Morte, eu encontrei um território muito fértil e criativo pra mim em transferir algo vindo da literatura, uma mídia “muda”, e trabalhar as inúmeras possibilidades de representar isso sonoramente.

Saquei, bem massa isso de buscar referências de lugares que não sejam a música né. Já rolou de você achar referências, por exemplo, em sonhos ou outras experiências oníricas assim? Porque o Morte eu achei que tem bem essa cara também.

Pessoalmente algo que me inspirou muito também foi o conceito de memória, como as memórias se apagam e se tornam gradualmente disformes, criando uma desconfiança sobre o que você lembra. É algo que eu sinto com alguma frequência e, pessoalmente, eu consigo enxergar isso na narrativa que pode existir no Morte. Pra mim os minutos finais são os que mais trazem essa meditação sobre persistência das memória. A parte disso, sobre o tom mais meditativo do Morte, foi algo bem intencional mas sem uma fonte de inspiração muito clara pra mim. Acho que foi algo que veio naturalmente e de muitos lugares também.

Sobre a parte mais técnica, fala um pouco da produção em si. Como você chegou naquele som? Quais equipamentos foram usados?

A produção foi bem lenta e bem caseira. Como durante um bom tempo eu não mencionei com ninguém sobre esse projeto, tudo foi feito sozinho. Em questão de equipamentos eu usei uma guitarra, uma pedaleira, com e sem a guitarra, um microfone e um laptop. Eu acho que o som tem na maior parte uma característica bem tonal, algo mais interessado nas frequências criadas do que em melodias e etc. Para mim isso veio através do no-input. É uma técnica normalmente utilizada em consoles de mixagem, aonde você conecta um output desse console de volta em um input. Não existem sons externos acontecendo, só loops de frequência que você pode criar e manipular dentro do equipamento (O Toshimaru Nakamura, que eu mencionei antes é o popularizador dessa parada). Adaptei isso pra pedaleira de guitarra que eu tinha a minha disposição. O som criado nesse processo tem naturalmente essas características mais tonais que eu mencionei, eu só aceitei essas características e tentei trabalhar com elas de uma forma mais minimalista e crua, algo mais puramente voltado as frequências e como dialogar isso com o silêncio, pra criar uma tensão mais dramática.

O Morte foi lançado pelo selo Dobradiça Enferrujada né, como foi sua aproximação com eles?

Antes de eu sequer pensar na existência do Morte eu já havia colado em vários eventos e acompanhados lançamentos promovidos pela Dobradiça Enferrujada Discos. Tanto por um identificação e interesse pessoal com os projetos envolvidos no selo, mas também por achar bem importante apoiar o trabalho que eles fazem em divulgar e estimular um circuito de música nova e experimental no Distrito Federal. O contato com eles veio no momento em que eu comecei a me sentir seguro pra compartilhar o que estava se tornando o EP. Eu compartilhei o som com alguns amigos e isso acabou chegando no Kino Lopes, um notório músico do DF e um dos nomes à frente da Dobradiça. Ele se interessou pelo som, a gente trocou muita ideia sobre, ele acompanhou algumas mudanças que rolaram no Morte. Quando tudo tava terminado, ele me ofereceu essa plataforma pra lançar o projeto e um espaço dentro do selo pra trabalhar minhas pesquisas musicais e exercer isso em conjunto também. Antes do lançamento do Morte ele também me convidou pra participar do álbum “Mais a soma de seus possíveis”, uma coletânea experimental e colaborativa, também lançada pela Dobradiça enferrujada, que conta com 14 músicos do DF.

Rolou também um curta com o Xavier Braun pra acompanhar o álbum né? Você pode falar um pouco dessa parceria?

Claro, o rolê com o Braun veio depois que o EP já estava terminado. A gente tava conversando sobre criar essa obra visual em cima do som também e ambos estávamos meio inseguros por não rolar de gravar na rua, uma vez que estávamos já em distanciamento social. Daí eu dei a ideia de ele gravar no próprio isolamento. Ele se inspirou e criou todo um processo pra essas gravações e pro tratamento das imagens. A gente conversou mais sobre aspectos técnicos e pouco sobre os conceitos a serem trabalhados, essa parte foi bem sobre como ele absorveu o meu som e trabalhou isso internamente. Pessoalmente, eu acho que ele entendeu visualmente coisas que eu tinha colocado ali que nunca falamos a respeito, foi incrível. Por fim se tornou um vídeo de quase meia hora, sobre o Morte em Pleno Verão, imagens de arquivo, isolamento social e os gatos do Xavier. Ele ficou bem feliz com o resultado e eu honestamente fiquei de cara, acho que não podia ser melhor e mais adequado. O Xavier Braun também participou da produção da capa do EP, ele e a artista visual Luna Colazante colaboraram na capa. Ele tirou a foto que foi usada e ela trabalhou na arte e no design da capa.

E os planos futuros?

Até agora não existe nada muito concreto. Existem alguns planos de colaborações com outros artistas da Dobradiça Enferrujada, mas isso não tem um momento certo pra rolar, já que a gente tem que esperar toda essa situação do isolamento social passar. Pessoalmente, eu tenho trabalhado algumas outras paradas, tenho pensado outras abordagens pra sonoridade que eu trabalhei e, para o no-input em si, alguns conceitos que divergem do Morte, focando mais nessa tensão dramática do silêncio. Mas por hora, isso é algo disforme que eu tenho pensado na minha prática pessoal, quero trabalhar isso com mais calma, então não existem planos muito claros ainda.

Por fim, o Morte é um trabalho que acho que dá pra dizer que nasceu sob esse espectro do isolamento que a gente vive. Tem muita coisa sutil ali e essa parada do silêncio. Como você recomendaria que ele fosse ouvido pelas pessoas?

Eu recomendaria ouvir com o uso de fones. Eu acho que muitas qualidades das frequências, tipo as separações e os encontro das mesmas, vão ficar mais claros quando você isolar os sons ao seu redor. Acho que algum nível de atenção é necessário, tem muitos elementos sutis que só vão ser notados com algum nível de atenção e paciência. Acho que a partir daí o som pode te guiar em uma experiência mais meditativa. Ou não também, e não tem problema nisso, essa é a forma que eu gosto de ouvir e a forma que produzi, mas eu acho que a experiência pessoal de qualquer outra pessoa é definitivamente tão válida quanto a minha.

“Morte em Pleno Verão” está disponível no Bandcamp e no Youtube:


Resenha

Pin Ups – Long Time No See

O Pin Ups é quase uma lenda. Aquela banda que a gente escuta e pensa “Como isso não estourou?”. Não existe uma resposta certa pra isso. Mas na história do underground brasileiro, lá estão eles. Desde o primeiro lançamento, “Time Will Burn” de 1990, muita coisa veio e passou, aconteceram diversas mudanças na formação do grupo e eles finalmente entraram em hiato no início dos anos 2000. Eu, pelo menos, não apostaria que o Pin Ups voltaria pra mais um disco. Eles já vinham fazendo alguns shows recentes mas achei que ficaria só nisso, algo como o que rolou com o Ludovic. Porém, com uma belíssima surpresa, eles voltaram. Finalmente.

Homenageando todos os sons que influenciaram a banda e com a participação de diversos amigos convidados, o Pin Ups finalmente está de volta e com um disco feito para ser ouvido bem alto nos fones, sem perder nenhum detalhe. São músicas curtas, mas que expandem muito o leque de variedades do som da banda. Mesmo sendo um disco de retorno, passa longe do gosto de coisa requentada. Aqui o Pin Ups está tão quente quanto na época do “Lee Marvin” (1998).

Eu já quero abrir um parênteses pra deixar claro que sou muito suspeito pra falar dessa banda. Sou bem mais novo que a história do Pin Ups, mas tenho uma paixão enorme pelo trabalho do grupo. Eu quis montar uma banda logo depois de ouvir o “Time Will Burn”. Sabe a sensação de quando a gente tem um estalo ou pancada na cabeça depois de ouvir um determinado disco? Aquela sensação de descobrir algo especial, tipo: “Esse som existe? Aqui??”. Pois é.

Dito isso, qualquer exagero ou afobação minha nessa resenha tem um bom motivo, mas vocês já sabem né: escutem os discos e tirem suas próprias conclusões também. Escrevam suas conclusões, façam algo com elas, por que não?

“Long Time No See” foi lançado em junho de 2019, vinte anos depois do último álbum da banda. O disco saiu pela Midsummer Madness, a casa das guitar bands**, e foi produzido por Adriano Cintra (Ex- CSS) e Zé Antônio Algodal. A mixagem e masterização ficou por conta de Ignácio Sodré. As músicas foram gravadas no Estúdio Aurora, em São Paulo. Quem assina a arte da capa é Laurindo Fernando. A obra é dedicada ao saudoso Kid Vinil, falecido em 2017.

Essa nova reencarnação do Pin Ups traz de volta a Alê Briganti no baixo e vocais; Zé Antônio, único membro original da banda, na guitarra e baixo; Adriano Cintra na guitarra, baixo e farfisa; e Flávio Cavichioli na bateria. E é a bateria do Flávio que nos dá as boas vindas nesse disco.

Com um quê de The Stooges na bateria e no teclado, “You Can Have Anything You Want” abre como primeira faixa. De cara, já chama a atenção os artifícios eletrônicos acompanhando o som. O Pin Ups chegou ao anos 2010. “Tell me now, is this a dream?“, pergunta o refrão. Em dado momento, Zé Antônio entra rasgando com a guitarra para mostrar que não perdeu a mão em todos esses anos. A Amanda Buttler (Ex- Der Baun e atual baixista do Sky Down) aparece aqui para os backing vocals.

“Portraits of Lust”, segunda faixa do álbum, traz um baixo dançante (que até lembra um tanto o som do Fugazi) e a participação de Eliane Testone nos vocais e guitarra. Mesmo esse sendo o álbum mais bem produzido da banda, eles não deixam de lado as distorções e microfonias, o que é ótimo.

“Little Magic” nos primeiros segundos nem parece uma música do Pin Ups começando, sinal da diversidade de influências que compõem “Long Time no See”. Mas os inconfundíveis vocais da Alê Briganti já aparecem cantando “It’s so unbelievable, I guess that’s really special“. Realmente isso é um momento especial, Alê. A faixa conta novamente com Eliane Testone na guitarra.

“Separate Ways” prossegue como a faixa mais Punk do disco até o momento. A faixa trata de separações e o prazer da incerteza. “There is no guarantee, And I am not afraid“, canta Alê.

“Spinning” é o primeiro single do álbum e lembra bastante os sons do álbum “Lee Marvin”, com direito a um solo de violão. Com um vocal bem parecido com os da Kim Deal dos Pixies, Alê declara “You will feel the thrill. Of being young again“. Frase bem significativa para esse retorno da banda.

Quem diria que um dia a gente veria o Pin Ups abrir uma música com tecladinhos anos 60 (fafisa, o nome) como na sexta faixa, “Ballad for Samuel and Tobias”? Mas aqui está e o resultado é muito bonito, lembrando muito os Beatles na fase “Magical Mistery Tour” e “Sgt. Peppers”. Adriano Cintra dá um show nessa e o duo Antiprisma (Victor José e Elisa Oieno) fazem os backing vocals.

Mais participações especiais na animada “Mexican Tale”. Dessa vez, Jim Wilbur do Superchunk contribui nas guitarras e Amanda Buttler volta a participar dos vocais. A faixa lembra muito os últimos álbuns do Pin Ups e é uma das melhores do “Long Time No See”. “Let’s run away to Mexico. Let’s do it before they build the wall“, convida a letra, citando o fetiche norte-americano em construir um muro na fronteira.

“Damn Right” traz mais influências dos anos 60 ao disco. É muito bom ouvir como essas influências caem como uma luva ao Pin Ups, o som é simplesmente redondinho. O “Long Time No See” pode até ter puxado o freio no peso da banda, mas isso não quer dizer nada negativo, muito pelo contrário. O Pin Ups aqui aparece com um som amadurecido, confiante e mais refinado do que em qualquer outro momento. É como um passeio por todas as influências da banda ao longo dos anos, é simplesmente delicioso.

Quer ver outro exemplo disso? É só passar para a próxima faixa, “Gone Tomorrow”. Aqui a gente ouve mais pitadas dos Beatles, banda que o Pin Ups já homenageava lá na época do “Gash” em 1992. Mais uma bela participação do duo Antiprisma. “All those lonely days will be gone tomorrow“, celebra o refrão. De longe, a faixa mais bonita do álbum.

“Crazy”, décima faixa, nos lança em um sonho psicodélico que deixa o som pairando no ar. Cheia de efeitos, tem a maior cara de encerramento de álbum. Mas não é.

A faixa que dá nome ao álbum é a mesma que fecha esse reencontro com Pin Ups. Como se tivesse saído direto do “Souvlaki” do Slowdive ou o “Loveless” do My Blood Valentine, a guitarra de Zé Antônio soa belíssima aqui. “After all those years you still got me here“, canta Alê finalizando o álbum. É um lindo reencontro.

Long Time No See está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer, Youtube e Google Play.

**As guitar bands que citei ali em cima, são as bandas independentes brasileiras que apareceram na primeira metade dos anos 1990 com letras em inglês e um som inspirado no som alternativo que começava a ganhar a atenção do mainstream no exterior. Para quem quiser saber mais, recomendo assistir o documentário Time Will Burn (2018), que está disponível online, e ouvir o catálogo de bandas da Midsummer Madness.

Observação: nosso amigo Lucas, que também escreve pro Bus Ride Notes, foi quem cedeu os arquivos pra banda colocar nas redes de stream. Antes de anunciarem os shows de retorno da banda o Zé Antônio entrou em contato com o selo/blog Share This Breath, pois ele só tinha os discos de vinil da banda e não foi possível converter em arquivos de boa qualidade, e o Share This Breath tinha todos eles.


Resenha

Unicórnio Maravilha – Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras

O nome da banda é estranho: Unicórnio Maravilha. O nome do segundo EP deles também é estranho: Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras. Tudo meio esquisito, né? Isso é ruim? Na verdade é muito bom!

Lançado em 2018, o EP conta com o trio Higor Machado (guitarra), Isis Cardoso (vocal/guitarra/baixo) e Thais Barbosa (bateria); além da produção de Igor Demétrio e da própria banda.

A banda carioca define o “Gatos Voadores…” como “um ambiente mágico em que qualquer coisa pode acontecer, em que seus maiores sonhos e medos convivem lado a lado”. E o disco é realmente uma viagem, já começando pela bela arte da capa que é assinada pela ilustradora Anna Brandão.

A faixa que abre o disco é “Blues Genérico #1”. O instrumental lembra de longe as guitarras do White Stripes e uma coisinha ou outra do The Cramps. Essa é uma das clássicas letras botando o dedo na cara de alguém. “Para de graça. Para de agir como se fosse amigável. Porque você não vai com a minha cara e eu também não gosto de você”, canta Isis Cardoso.

A letra de “Sobre as Fogueiras e as Morsas”, segunda faixa, é assinada por João Rosa. A música com o tom de despedida amorosa é levada por um instrumental já meio pop dançante que, se não fossem as guitarras distorcidas, até lembraria uma bossa nova em certos momentos.

“Blues Genérico #2 (Blues Kawaii)” é bem “Kawaii” (algo como “bonitinho” em japonês) mesmo. Letra romântica e sexy com outra levada blues bem envolvente. Destaque aqui pro instrumental do disco inteiro inclusive: a Unicórnio Maravilha sabe fazer um som que tinha tudo pra ser piegas e manjado, mas que na verdade acaba sendo bem imersivo e divertido. “E quero olhar o céu segurando sua mão. Sua pele é o abrigo onde eu quero me esconder e pernoitar até amanhecer”, bonitinho não?

O EP fecha com “Gatos Voadores”, assinada por Isis Cardoso, Thais Barbosa e Rita Valentim. É a faixa que mais foge do pop, tanto na letra, que inclui citações de Immanuel Kant, quanto no instrumental meio post punk, que cria um ambiente bem paranoico. “Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?”, pergunta Isis com uma charada tirada de “Alice no País das Maravilhas”. Existem várias respostas para essa pergunta, a Unicórnio Maravilha não se preocupa em te responder. Ficam no ar várias possibilidades e um gostinho de quero mais de um EP que em tão poucas músicas viaja por tantos lugares diferentes.

“Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras” está disponível no Spotify, Deezer, Youtube, Bandcamp e Soundcloud.


Resenha

Caffeine Lullabies – We Want You To Be Happy

Goiânia talvez tenha sido a cidade que mais nos trouxe bandas de grande potencial nas últimas duas décadas; desde os stoners do Black Drawing Chalks e do Hellbenders, o psicodélico Boogarins, até ao dreampop da Brvnks. Não se sabe ao certo o que levou tantas bandas goianas apostarem em letras em inglês (algo que não condeno, porém tenho algumas ressalvas) mas, nesse quesito, a cidade fica pau a pau com a capital paulista.

O Caffeine Lullabies é o mais novo expoente dessa cena a aparecer aqui no Bus Ride Notes e eles nos apresentam “We Want You To Be Happy”, lançado em 2019 pela Milo Records. A produção do trabalho é assinada pela própria banda em parceria com Braz Torres Neme, que também é responsável pela gravação, mixagem e masterização. Gravado no Up Studio em Goiânia, “We Want You To Be Happy” conta também com a produção executiva de Camilo B. Rodoavalho.

Esse é o segundo álbum da banda que estreou com “The Closest Thing to Death” em 2015. O Caffeine conta com Felipe Cavalcanti (voz), Bruno Roque (guitarra), Rodrigo Modesto (baixo), Gabriel Ferreira (guitarra) e Pedro Hernandez (bateria).

Com influências do rock alternativo da década de 90 e outros nomes do hardcore/pop punk, o álbum gira em torno de temas como decepções, saúde mental, paixões e amadurecimento. Também podemos sacar muitas referências de bandas como Basement e Floating Kid.

Pra deixar mais claras ainda as influências da banda, quem assina a capa é Alexandre Souza Sesper (Garage Fuzz; The Pessimists; ACruz Sesper; Angustia).

A faixa que abre o álbum é “Disappointment Is a Tricky Animal”, já mostrando o quinteto bem energético e riffs interessantes. A letra trata de problemas de relacionamento, tema que se repete em praticamente toda as faixas do álbum.

A faixa que dá nome ao álbum descreve um ambiente desolador e cheio de inseguranças (In the wilderness where I’m lost again. Scared to see you happy while I’m not), explodindo no refrão otimista que almeja a felicidade mesmo em tempos difíceis.

“Headlights” segue a mesma linha. Destaque aqui para o ótimo trabalho nas guitarras, mantendo o som melódico sem perder o peso. A letra  da música que, segundo o faixa-a-faixa feito pela banda, quase ficou de fora do álbum (fizeram bem em não deixar essa de fora), gira em torno da vulnerabilidade em um relacionamento e as inseguranças aos quais estamos expostos em momentos assim. “You could see through my weakness. Peeling the skin where I hide”.

“Violent Superego”, um dos dois singles, é um ponto alto no álbum. Com um refrão poderoso (I pray the lord, I say deliver us from evil. I pray the devil, I say keep the lord away), a música foi uma ótima escolha de single.

Também um single, “Loved Ones” talvez seja a mais melódica do álbum. Um tanto parecida demais com os sons do Basement em “Promise Everything” (2016), a letra fala da sinceridade em se reconhecer as falhas que abalam amizades. Também uma ótima escolha de single.

Ainda seguindo o caminho mais melódico acompanhando de riffs marcantes, “Watch Your Six” têm as letras mais fortes do álbum. Crescer em ambientes disfuncionais deixam marcas que nos acompanham para sempre e as vezes é complicado abandonar antigos ressentimentos. “I got this growing pains from growing too fast. Still I’m weak”, canta Felipe Cavalcanti em um dos versos mais tocantes da faixa.

“Sublimation” traz de volta a velocidade do início do álbum, é a música que mais remete ao hardcore em “We Want You To Be Happy”. A letra evoca uma força que nos mantém de pé mesmo quando estamos a ponto de desabar, uma força quase que feral.

O álbum se encerra com a melódica “5:30 (Morbid Dreams)”. As dores passadas continuam presentes nos versos que fecham “I came to mourn and scratch my phatom arm”. O Caffeine Lullabies deixa a mensagem de que é impossível ser plenamente feliz se não nos resolvermos com nossos fantasmas internos e sermos sinceros com as nossas falhas.


Resenha

Pretos Novos de Santa Rita – Se Chegar na Esquina é Checkpoint

Será que vai sobrar algo amanhã?: Uma resenha de “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”, a estreia dos Pretos Novos de Santa Rita.

Pretos Novos de Santa Rita são Bing (vocal), Gênesis (bateria), Sonic (baixo) e Ton (guitarra). Em 2019, o grupo carioca botou a cara na cena com o EP “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”. O trabalho foi gravado no estúdio Fluxroom e produzido por Philip Sanchez.

Em entrevista ao Nada Pop, Bing explica que o nome do grupo, tirado de uma estação do VLT que liga a região portuária e o centro histórico do Rio, evidencia a cultura negra e a posição de não se furtar da responsabilidade que é carregar essa bandeira em suas músicas nesses tempos de resistência.

O nome da estação Pretos Novos/Santa Rita homenageia o cemitério onde escravos eram enterrados próximo a igreja de Santa Rita, no Rio. O Rio, que inclusive, alcançou a marca de 885 mortos em ações policiais no primeiro semestre de 2019. Desses 885, 711 eram negros ou pardos. A Cidade Maravilhosa continua enterrando mais e mais corpos negros, não se sabe, porém, se esses 711 serão homenageados com estações, praças ou ruas.

Com apenas cinco músicas e muita poesia nas letras sobre o amor, o ódio e a vida na sua forma mais crua, “Se Chegar…” é um belo encontro entre o trap/rap com o jazz que remete à sons como Tyler The Creator e Nill. A primeira música “Jazzada” é de um groove hipnotizante embalado pelos versos de Bing. “Acaba o show. Só os pretos vêm e agradecem. Se eu rezasse, eu pediria isso nas minhas preces”, abre a faixa.

Em “Ouvindo Of” o dedo já vai direto na ferida. Dramas familiares, sexualidade, paixões e frustrações aflorando mas sem nunca perder o deboche. “Eu vou rir mesmo, foda-se. Esqueço das merdas e acho graça das coisas. Mas dentro tô que nem frozen”. Mantra de quem sabe o que é marcar um Checkpoint em cada esquina no caminho.

Na faixa “Slowfunkmetal”, apesar dos instrumentais que parecem ter saído de um sonho, Bing não perde a oportunidade de alfinetar figuras conhecidas da cena do trap/rap nacional. O recado fica dado em trechos como “Raffa vai ficar rico com sua burrice no Insta. Lamentável IIIx achar que o Froid é terraplanista”.

Fica aqui o destaque para a banda que providencia o “morde-assopra” das músicas, trazendo a atmosfera leve e até sensual que serve de base para as pedradas que Bing dispara nas letras. Não se engane, não: se você se descuidar, periga perder o ponto aqui . “Não sou filho da sua mãe. Não encosta no meu black. Eu sou artista mermão”, diz a letra de Slowfunkmetal.

“Janela”, a melhor do EP, é de uma sinceridade brutal sobre a relação entre paternidade e maturidade. É prestar atenção para sair catando as referências espalhadas na letra: aqui tem Kendrick Lamar, filosofia, cinema e Samba. Mas, de novo, nada disso tenta mascarar a dor guardada nas letras. “Todo dia eu acordo, puta que pariu. É o peso do mundo todo, bala de fuzil. Viagem no tempo podia rolar, ia ser da hora. Mandar um e-mail pro meu pai: na moral, goza fora”, desabafa Bing.

O EP se encerra com “Te Traz de Volta” deixando aquela sensação de desconforto e inquietação. Os Pretos Novos de Santa Rita fazem questão de pôr tudo à mesa, sem muitos rodeios. O amor não fica ileso das tretas que nos cercam e que carregamos desde o nascimento, as coisas não estão tão distantes assim em “Se Chegar…”. Antes de tudo, o amor aqui é real, é cru. Não esquece: “Dorme bem, que já vem o amanhã e nada vai sobrar”.