Bus Ride Notes

Posts by Livia

Entrevista

Delipe Fantaos – Embalo Maravilhoso

Delipe Fantaos é um compositor brasileiro que mora na Espanha já há alguns anos.
Em Outubro de 2020 ele lançou seu primeiro álbum, “Embalo Maravilhoso”, um disco de samba e MPB que “é o meu abraço bem forte na minha família e no Brasil. Longe de patriotismo. É minha homenagem a um Brasil de gente, não de fronteiras e nem de bandeira. Um disco da minha saudade”.

“Embalo Maravilhoso” realmente te leva em um embalo, um mergulho nas músicas, que quando você para pra anotar algum detalhe, percebe que o disco já tá quase no fim.

Conversamos com Felipe sobre o disco, a cena musical independente na Espanha e mais.

Você pode se apresentar, pra quem não o conhece? E contar um pouco da sua trajetória na música?

Me chamo Felipe e sou lá da baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Tenho 33, e faz uns anos, não lembro bem quantos, que decidi fazer minhas músicas. Delipe Fantaos é maneira que encontrei pra fazer minhas coisas sozinho. Adoro tocar com meus amigos músicos e tudo, mas as vezes não é possível, e aí, entra o “Delipe Fantaos” na minha vida.
Atualmente moro em Barcelona, e toco na banda Espacea. É o projeto que eu pessoalmente mais gosto de fazer. Porém, com essa coisa horrível da pandemia, a Espacea tá caminhando a passos largos. Mas tá caminhando.

Você pode falar sobre a cena musical independente na Espanha? É muito diferente do Brasil?

Viver aqui na Espanha tem sido uma experiência muito bacana. A vida musical independente aqui é bem movimentada. Ou pelo menos era antes de tudo isso que tá rolando no mundo agora. A cena underground é bastante viva, existem bandas de todos os tipos pra todo mundo. As vezes fica até meio difícil conseguir datas nas casas de show por causa das agendas super lotadas… Ou porque as bandas já tem tantos shows marcados que complica conseguir montar uma noite pra dividir os palcos.
Acho que o Brasil é tão grande que a comunicação entre bandas, público e as casas de show é mais complicada. Isso não quer dizer que a vida aqui pros músicos independentes seja mais fácil. A gente tá remando contra a corrente igual no Brasil, só que de um jeito diferente.

Como foi a concepção de “Embalo Maravilhoso”, e a vontade de fazer um disco solo? Você diz que o disco “é uma homenagem ao povo suburbano do Rio de Janeiro e ao Brasil”, pode falar mais sobre isso?

Ano passado (2020), fui ver minha família no Brasil e me dei conta que todo aquele sentimento de saudade e admiração que eu tenho pela cultura brasileira poderia se converter em alguma coisa. Nessa ida ao Brasil, ali mesmo, comecei a compor a primeira canção e a trabalhar na estética que eu queria desenvolver.
Sim! “Embalo Maravilhoso” é um disco de saudade e homenagem à cultura popular suburbana. Coloquei no disco um pouco das coisas que ouvi e vivi nas ruas, nos bares, nas casas e no cotidiano do povo.
Abusei de referências como Jorge Ben (da pra ver na capa do disco), Caetano, Bethânia, João Bosco, Gil, Zeca Pagodinho e etc. Queria um disco com uma estética Tropicalista, carnavalesca e suburbana e acho que consegui.

E como foram as gravações? Como foi feita a parte instrumental, quais músicos participaram?

O disco foi completamente gravado em casa com um microfone shure 58. Mas confesso que se não fosse a ajuda do meu grande amigo espanhol Manu G. Sanz, eu teria lançado um disco medíocre. Manu foi responsável por dar esse “ar fresco” com saxofone, órgão, algumas baterias e claro, a mix e master. Também contei com o meu amigo baterista que mora lá no Rio, Leo Oliveira, que gravou “Zé Canela” e com os músicos da minha banda Espacea, pra dar aquela pincelada em algumas músicas.

Como anda a situação durante a pandemia? As adaptações foram tranquilas?

Eu tive sorte! Pude passar um confinamento confortável e seguro. Mas sei que muita gente viveu e vive muito mal. Aproveitei todo o tempo livre que tive pra pensar e gravar o “Embalo Maravilhoso”.

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de dizer ao povo brasileiro uma coisa… Brasil! Você é foda. Aqui, morando longe, percebo o privilégio de ter nascido numa terra tão rica culturalmente. Uma puta sorte. Tem muita gente tentando dividir a gente. Pode ser piegas e os carai… Mas a gente tem muito mais motivos pra se unir do que pra se odiar. Os tempos são difíceis, mas a gente vai sair dessa.
Alô, Alô, Brasil! Aquele abraço.
Gratidão pelo espaço a todos colaboradores de Bus Ride Notes e a você, Livia, pelo convite. Brigadão!

“Embalo Maravilhoso” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Clandestinas

Clandestinas foi formada em 2017 em Jundiaí, SP por Alline Lola (guitarra, voz), Camila Godoi (contrabaixo, voz) e Natalia Benite (bateria, voz), militantes feministas e LGBTQIA+.

Quando eu ouço Clandestinas, lembro do movimento Riot Grrrl. O Riot Grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.
As primeiras bandas do movimento queriam chamar atenção pra sua mensagem e escolheram a música pra isso.

Clandestinas surgiu “da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas”, e por isso acho que Clandestinas é mais um movimento artístico do que uma banda.

Toda banda é um movimento artístico, mas a escolha de priorizar um pouco a música ou a mensagem ou misturar igualmente é bem sutil, mas a gente enxerga.

Seu primeiro album, “Clandestinas”, foi lançado em 2020. Produzido por Mari Crestani, ele conta com participações de Aline Maria, Luana Hansen e Mariah Duarte.

A gente tá acostumado a ouvir letras políticas no punk e no rap, mas Clandestinas não escolheu um gênero musical e por isso o som é bem distinto, é rock, é punk, é MPB e mais um pouco de inúmeras influências.

A banda também mistura português e inglês na faixa de abertura, “Clandestinas”, e “Lovely Lola” é a única música em inglês do disco.

“Even if she is just my best friend and I must understand another meaning of love”

Sobre as letras é difícil falar, pois é muita informação. Esse é um disco que eu recomendo pra toda pessoa ouvir pelo menos uma vez na vida. “Clandestinas” é um album interessante em muitos aspectos.

“O não lugar me ocupa, o não pertenço me define. A não família me acolhe, a solidão me oprime”

“O nome ‘Clandestinas’ remete a ‘pessoa que vive fora da lei’, na banda o termo surge como essência e traz novos significados: ser clandestina é gritar quando disseram que se deveria estar calada, é amar sem medo e sem pudor quando disseram que seu amor era doentio, é fazer música mesmo achando que não se sabe cantar nem tocar, é estar com outras mulheres e se mover, é ter a consciência de que, para a hetero-cis-normatividade compulsória que rege a sociedade, os corpos e afetos distintos da norma não devem existir”.

Ainda em 2020 a banda participou do curta “Pluma Forte”, nele há um trecho de um show e podemos literalmente ver o formato de militância da banda.

E em janeiro de 2021 a banda lançou seu primeiro clipe, da música “Nenhuma a Menos”, um video que é mais que um clipe e menos que um curta.

“Com as nossas músicas, nossos corpos e nossos afetos, questionamos o machismo, o patriarcado, a hétero-cis-normatividade e o capitalismo. A revolução será feminista & LGBT”.

“Clandestinas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Crasso Sinestésico – Eco

Formada em 2014 em Bom Jesus Dos Perdões, SP, por Diego Fernandes (guitarra, vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria, vocal), Crasso Sinestésico é um duo que toca noise rock, lo-fi, meio garage, meio pós punk.

Em novembro de 2020 eles lançaram seu novo EP, “Eco”, gravado ao vivo em novembro, mixado e masterizado no Estúdio Quadrophenia por Sandro Garcia.

“Eco” tem a sonoridade característica da banda, mas busca também a essência do rock psicodélico e da música brasileira. Mais especificamente é influenciado por Clube da Esquina, Lô Borges, Novos Baianos, Momento 68, Continental Combo, The Beatles e The Velvet Underground.

“As canções retratam a sensação de impotência, elas imprimem não só o período em que vivemos, mas também a atual situação política na qual nos encontramos sitiados”, diz Diego Fernandes.

“Nostalgia” o nome já diz tudo, “Nostalgia do tempo tardio que habita escondido na memória encardida, no limbo da vida”.

“Hospital dos Esquecidos” aborda o descaso e desumanidade nos manicômios (ou hospícios), hospitais psiquiátricos muito populares no século 20.

Segundo o dicionário, ‘diáspora’ significa “dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica” e é disso que se trata a música “Diáspora”, “um vórtice que pega dos remotos tempos até nossa triste atualidade”.

“B.B. King” fala sobre a morte, “Como se deparar com ela e nem ao menos duvidar”.

O disco termina com a instrumental, “Eco”, “O mito de Eco revela que a pior prisão é aquela em que o ser humano não pode expressar o que pensa ou o que sente; é a tortura de conviver com seus pensamentos e sentimentos presos pelo medo ou pelas convenções ameaçadoras”.

“Eco” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Discografia Caipirópolis / Playlist

Discografia Caipirópolis Volume 2

A Discografia Caipirópolis nasceu pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital.

Somos do interior de São Paulo e um dia decidimos fazer uma lista de bandas daqui, como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Bom, lista feita, fizemos as edições necessárias e entre elas tiramos bandas com letras machistas, violentas, reacionárias ou coisas do tipo. Gostaríamos de pedir que vocês nos avisem caso deixarmos algo parecido passar.

No primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação, então tem de tudo, punk, crust, indie, synthpop, hard rock, folk, instrumental, etc.
E agora chegamos aos próximos volumes, que serão divididos por gênero musical. Nesse segundo volume são bandas de punk rock, hardcore melódico e etc.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse segundo volume:

4HC (São José dos Campos)
Formada em 2016 por Fred (voz), Luan Felipe (guitarra), Josean Silva (baixo) e Wesley Nerosi (bateria). “Nossa banda consiste em fazer letras voltadas para o dia a dia, algo para motivar as pessoas a continuarem e também, é claro, contra a política fascista e opressora dos dias de hoje”. A banda tem três singles lançados, “Caminho do Exílio”, “Realidade Paralela” e “Cidade Moderna” e está em processo de gravação do primeiro EP.
“Cidade Moderna” foi lançada como single em Abril de 2020.


Anversa (São José dos Campos)
Formada em janeiro de 2018 por Tati Laukaz (vocal), Marcelo Lopes (guitarra), Mendel Graves (baixo) e Eder Penha (bateria), com “letras cantadas em português que interpretam relações cotidianas indo da política a dogmas espirituais, passando pela interpretação de questões individuais e coletivas na transformação do indivíduo e a sociedade em que atua”, a banda tem quatro singles lançados, “Quem Sou”, “Carlos”, “Não” e “Feito”.
“Feito” foi lançada como single em Outubro de 2020.


ASCO (Santos)
Formada em 2013 e hoje composta por Leandro Campos (vocal), Eder Camargo (guitarra), Willians Pereira (baixo) e Willians Cruz (bateria), a banda já tem quatro EPs lançados, o mais recente, “O Pior Cenário Possível”, foi contemplado com uma tour pela Europa no mês de março de 2020. A proposta do grupo sempre foi fazer punk rock/hardcore com a ideia de passar uma mensagem de contestação, tendo em suas maiores influências o hardcore americano dos anos 80”.
“O Pior Cenário Possível” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em Dezembro de 2019.


Astronova (Jundiaí)
Formada em 2017 “por cinco amigos que decidiram se unir para falar sobre experiências, opiniões, sociedade, repressão, preconceito e liberdade de expressão”, é atualmente composta por Chello (vocal), Luís Paulo (guitarra, vocal), Junior Costa (baixo), Felipe Sibon (guitarra) e Jamil Neto (bateria). Em outubro de 2020, juntamente com o SESC Jundiaí, participaram do projeto #SonsdaTerra apresentando seu novo single “Sempre Assim?” acompanhado de um clipe gravado e produzido durante o período de distanciamento social, disponível nas plataformas digitais da banda e do Sesc Jundiaí.
“Fantasmas” faz parte do primeiro EP da banda, “Anomia. Omissão. Opressão. Ascensão” (2019).


Brado Revolucionário (Porto Ferreira)
Formada em 1996 e hoje composta por Paulo Urbano (vocal), Rodrigo Punk (guitarra, vocal), Lucas Santos (baixo) e Beto Giocondo (bateria), a banda tem como influências o cotidiano, o ódio ao atual sistema, a revolta ao dogmatismo e principalmente o anarquismo. “Acreditamos em nossa cultura, nossa imprensa alternativa, nossos meios de protesto sonoro, nossa oposição ao sistema, nossa luta, nossa militância, nossa seriedade. Acreditamos no movimento punk, no anarquismo”. A banda está em fase final de preparação para o lançamento de um split com Putrid Scum (México), “Efecto Moral”, e em 2021, data em que completam 25 anos de estrada, a banda pretende lançar materiais comemorativos para marcar a jornada.
“Negro Coração” faz parte do album “21 Anos de Punk HardCore” (2017).


Cannon of Hate (Cubatão)
Atualmente com Sandro Turco (vocal), André Félis (guitarra), Márcio Parducci (guitarra), Marcos Alves (bateria) e Marcus Vinicius (baixo), Cannon Of Hate foi formada em 2013 por integrantes das bandas Artany e Lasívia que haviam encerrado as atividades. A banda tem três EPs lançados e já excursionou pelas regiões Nordeste, Sudeste e Sul além de ser bem ativa no estado de São Paulo.
“O Que Vai Ser de Nós” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em 2017.


Discordex (Itupeva)
Formada no fim de 2016 por Rodrigo Santos (vocal), Adriano (baixo), André Felipe (guitarra) e Gustavo (bateria) a banda tem dois EPs lançados, “Obrigada a Crescer” (2018) e “Prazer, São Paulo” (2019) e atualmente trabalha em seu próximo lançamento, com o selo Clichê Records. Discordex tem letras que retratam o cotidiano, com uma alta dose de sentimento e sinceridade e cita como influência as bandas Millencolin, Rancid, Chuva Negra, Fugazi e Title Fight.
“Bravo” foi lançada como single em Novembro de 2020 junto de um clipe.


ESC (Santos)
A banda surgiu em 2005 “sem pretensão de seguir um estilo ou chegar a algum lugar, nossa amizade manteve viva a vontade de tocar”. Passaram por vários estilos dentro do rock e em 2012, com a formação atual, a banda encontrou a linha punk rock, pop punk cantando em português contando suas histórias. “Seguimos assim, tentando passar um pouco de alegria por onde estamos”. A banda tem dois EPs lançados.
“Valete” faz parte do EP “Atemporal” (2020).


Facing Death (Jundiaí)
O power trio que mistura punk rock com heavy metal setentista foi formado em 2015 por Flávio (guitarra e voz), Briti (baixo) e Diego (bateria). Em 2017 a banda lançou o primeiro album, “From Here To The Unknown”, e em Maio de 2019 lançaram o single “Dinheiro” (primeira música em português da banda) em forma de cerveja, criando uma perspectiva física para a música, na embalagem podia ser escaneado um QR code que dava acesso ao vídeo da música no Youtube. Atualmente a banda está produzindo o segundo disco.
“M.I.X.” faz parte do album “From Here to the Unknown” (2017).


Gagged (São Carlos)
Formada em 2004 e hoje composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria), a banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018) e um clipe “Cidade Sem Lugar”. Com 16 anos de estrada, a maioria deles bem ativos, a banda já tocou em vários estados brasileiros e teve várias mudanças. Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui.
“ Cidade Sem Lugar” faz parte do disco “Sobre Nós” (2018).


Garrafa Vazia (Rio Claro)
Formada em 2009 por Mário Mariones (voz, baixo), Ralph Faust (bateria) e Vancil Cardoso (guitarra), a sonoridade remonta ao punk rock 77 e ao veloz hardcore punk oitentista, com um toque garage punk aqui e ali. “Há uma energia, uma irreverência na linguagem, uma forte identidade nas letras, cantadas em português, cheias de anarquia, fúria e ironia“. A banda tem bastante estrada, muitas de demos, coletâneas nacionais e gringas, presença em shows e festivais por todo o Brasil, além dos discos “Corotinho” (2016), “Cirrose” (2019), “Birinaite Apocalipse” (2020) e o ao vivo “Kill The Nazis” (2020).
“Autonomia” faz parte do disco “Birinaite Apocalipse”, lançado em julho de 2020 pela Red Star Recordings.


NWAY (Araçatuba)
Banda formada em 2012 e ao longo dos anos, em parceria com o selo Love & Noise Records, movimenta a cena da região, tanto organizando eventos como produzindo fonogramas. Eles tem dois EPs lançados, “Horizontes” (2016) e “(Sobre)viver” (2020), este conta com um mini documentário sobre suas gravações que pode ser visto no Youtube. Ainda sobre o novo lançamento, “ele fala sobre a vida e como devemos enfrentar e persistir, levantar e prosseguir. Esse registro fala sobre saúde mental, superação, relações tóxicas, desapego, amar e odiar”.
“Retrato Contínuo” faz parte do EP “(Sobre)viver” (2020).


Old Rust (Guarujá)
Formada em 2012 por Luiz Fernando (voz e guitarra), André Bufoni (guitarra), Juliano Amaral (baixo e voz) e Juca Lopes (bateria), a banda tem um disco lançado, “Teoria Cíclica de Ascensão e Queda” (2019), que conta com a regravação das músicas do primeiro EP (2014), de mesmo nome, e outras cinco músicas compostas na primeira fase da banda, antes de um hiato de dois anos. Uma das músicas, até então inéditas, que vieram a entrar no álbum, “Audiência”, foi a escolhida para o primeiro clipe e gravado por Faria Filmes.
“Certo Pra Você” faz parte do primeiro disco da banda, “Teoria Cíclica de Ascensão e Queda” (2019).


Ovu Cuzido (Monte Aprazível)
Formada em 2003 e hoje composta por Guma (vocal), Ziq (bateria), Juliano (guitarra, vocal) e Serginho (baixo, vocal), a banda tem influências do punk e hardcore “sempre com riffs agressivos e letras contra o sistema”. Eles já lançaram uma demo, “Marmitex Infernal” (2006), e alguns singles.
“Toba de Tandera” foi lançada como single em Janeiro de 2020.


QI a Menos (São José dos Campos)
Formada em 2007 por Diegão (vocal), Gabi (baixo e vocal), Korpão (guitarra e vocal) e Lukão (bateria e vocal), a banda faz um mix das influências melódicas do hardcore californiano com toda revolta e indignação do punk rock nacional. As letras trazem contestações pessoais, sociais e políticas. A banda toma orgulho de ser underground e periférica, não fazendo questão de sair desse meio em que sobrevive por pouco mais de uma década. Eles já lançaram três EPs, “O outro lado da Moeda” (2011), “A verdade é Mentira” (2013) e “Sobrevivendo ao golpe” (2019), e participaram de coletâneas.
“Sentença” faz parte do EP “Sobrevivendo ao golpe” (2019).


Refluxo Mental (São José do Rio Preto)
Formada em 2019 e hoje composta por Ariel (bateria), Everton (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício (baixo), eles acabam de lançar seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”. Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”.  Fizemos uma entrevista com a banda que pode ser lida aqui.
“Balbúrdia” faz parte do primeiro disco da banda, “Socialização das Perdas” (2020).


Refuse (Araraquara)
Formada por Boby Vianna (vocal), Fabrício Negrini (guitarra), Arthur Oliveira (guitarra), Pablo Dotele (baixo) e Leonardo Fernandes (bateria), em Dezembro de 2018, com a banda em processo de gravação, aconteceu seu primeiro show, no Alternatal (evento beneficente de muita história e tradição), onde, devido à fortes elogios do público presente, recebeu o convite para abrir a Intourior (tour das bandas Damage Corporation, Toxic Death e Tessalônica que rodou o interior do estado de São Paulo). Em Maio de 2019, a banda lançou seu primeiro trabalho, “Direções”, juntamente com o videoclipe da música “Minha Paz”. Logo após o lançamento surgiu o convite para ser a banda local convidada a se apresentar no Araraquara Rock 2019. Em 2020, foi lançado o clipe do novo single, “A Saída”, e atualmente a banda se encontra em processo de composição do novo EP.
“Glória” faz parte do EP “Direções” (2019).


Smoners (Paulínia)
Formada em 1996 e hoje com Edinho Smoners (baixo, vocal), William Valadares (guitarra, vocal) e Alle Leanza (bateria, vocal), a banda surgiu pelas mãos de jovens que queriam tocar um punk rock simples e de protesto, posicionando-se em relação à sociedade vigente.  “Fortalecer a cultura punk e gritar contra a constante opressão explícita ou camuflada que sofremos no nosso cotidiano, e contra o racismo, machismo, lgbtqia+ fobia”. Participar de coletivos culturais, como o Mondo Grottesco (Águas de Lindoia, Mogi Guaçu, Paulínia) e Arte de Periferia (projeto sociocultural de inclusão da arte e da cultura de periferia ao circuito central, apoiado pela Prefeitura de Campinas), é algo que a banda coloca como primordial para sua atuação pela resistência do movimento. Além de já ter tocado por todo o Brasil, em 2017 a banda foi selecionada para o “Extreme Sports and Music Events” (Nashville, EUA) e em 2018 lançou o documentário biográfico, “SmonerS.doc”, pela Arttería Filmes.
“TV” faz parte do disco “Ao Vivo Estúdio Mutante” (2019).


The Biggs (Sorocaba)
Formada por Flavia Biggs (vocal, guitarra), Mayra Biggs (baixo, vocal) e Brown Biggs (bateria), em 2020 a banda completou 25 anos de atividade.  “Com melodias que passeiam entre o grunge punk, alternative rock, riot punk e stoner rock, o power trio faz um som com influências de Sonic Youth, L7, Bikinni Kill, Babes in Toyland, MC5, entre outras”. A banda lançou duas fitas K7 “See Stars” (1997) e “Kind-Hearted” (1999), dois discos, “Wishful Thinking” (2001) e “The Roll Call” (2007) e alguns singles, sendo o mais recente “See You”, ainda não lançado oficialmente, mas apresentado no festival online “Viva Girls Rock Camp BR” (inclusive, Flavia Biggs é uma das idealizadoras do projeto Girls Rock Camp Brasil). A banda que já tocou em todo Brasil, na Argentina e Uruguai e participou de inúmeros festivais e coletâneas, também fez parte dos documentários “Feito Por Elas” (2018) e “Guitar Days” (2018) e são citados no livro “O que é punk?”, de Antônio Bivar.
“Breech Delivery” foi lançada como single em 2015.


Turning Off (Sorocaba)
Formada em 2018 e hoje com Diogo Camargo (voz e guitarra), Rafael Monari (guitarra), Alex Galdino (baixo) e Vinicius Knup (bateria), a banda lançou seu primeiro disco, “Behind The Sun”, em 2019, gravado de forma independente com ajuda de amigos da cena local. “Influenciados pela velha escola do hardcore melódico e melancólico dos anos 90, a Turning Off vem tentando trazer o clima de nostalgia do auge das trilhas sonoras subversivas do Tony Hawk’s Pro Skater em suas apresentações explosivas e diretas com alguns tons de sarcasmo e homenagens à tudo que serviu de influência para a banda”.
“Behind The Sun” faz parte do disco de mesmo nome, lançado em 2019.


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Entrevista

Gagged

Gagged foi formada em São Carlos (SP) em 2004 e hoje é composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria).

A banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018).

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o disco “Sobre Nós”, a “cena” de São Carlos e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá pessoal, valeu pelo interesse e pela possibilidade de falar sobre a nossa caminhada.
A Gagged é uma banda de hardcore melódico do interior paulista, fundada em São Carlos. Dizemos “fundada” porque há um bom tempo moramos em cidades diferentes, viajando entre São Carlos, Campinas ou Araraquara. A banda sempre pretendeu dialogar com as referências fundamentais do punk e HC, especialmente as várias linguagens dos anos 80 e 90. É o que “salta ao ouvido” quando se ouve pela primeira vez, mas parte do tempero das nossas composições vem também de outras pegadas, dentro e fora do rock. Tivemos muitos músicos diferentes ao longo da história, e cada um foi deixando suas “digitais” no nosso trabalho, dá pra ver a banda se transformando nas gravações e no palco ao longo do tempo.
Desde 2004, quando tudo começou, a banda já teve “revezamento” em todos instrumentos, a única exceção é a bateria, marretada desde sempre pelo fundador, Murilo Ramos. Ali Zaher (guitarra) e Eric Costa (baixo) também carregaram o piano durante mais ou menos dez anos. Estes três participaram da gravação dos dois álbuns, e também dos clipes lançados até agora. Além deles, mais de dez músicos, inclusive vocalistas, estiveram na estrada, no palco ou no estúdio com a Gagged.
Hoje a banda conta com Murilo Ramos (batera), Zeca Ruas (vozes), Rodrigo Gutz (guitarra) e Eric Costa (baixo). Zeca entrou em 2013 e segue desde o final da tour de “Silent”. Rodrigo entrou no lugar no Ali durante a preparação para o lançamento do segundo disco, “Sobre Nós” (2018), ele fez toda a tour de lançamento e vem segurando sozinho, desde o começo de 2019, os arranjos que eram para duas guitarras. O Eric saiu mais ou menos na época que o Ali deixou a banda, ficou de fora da tour de lançamento, mas acaba de retornar pra dar os próximos passos da Gagged.
Essa constante transformação dá um aspecto peculiar para as músicas e shows, cada um que participou trouxe um pouco de suas ideias, timbres, preferências musicais, arranjos e, acima de tudo, sua subjetividade. Na parte musical, é um mosaico de referências, mas quando o assunto é visão de mundo, as convergências foram sempre fundamentais e isso é parte da nossa identidade. Todo mundo que passou pela Gagged sabe do papel da arte em provocar a reflexão, iluminar aspectos da nossa existência coletiva, de repensar o possível. Somos uma banda de pensamento crítico e fizemos questão de levar isso para as músicas.
Esse caldeirão aparece de maneira mais elaborada no último disco, “Sobre Nós”, e quanto mais vezes se escuta o álbum, mais evidente vai ficando. As músicas e letras foram pensadas pra serem decantadas com o tempo, são camadas de som e ideias e é preciso escutar e pensar aos poucos para que elas revelem todos os sentidos que tentamos imprimir.
Muita gente prefere algo instantâneo, viral, e isso ajuda no aspecto comercial, mas nunca quisemos ser uma banda para consumo em massa. É proposital: nossa linguagem aposta nas reflexões e arranjos que podem fazer sentido com alguma contemplação… é para sair da massa mesmo, questionar valores coletivos. Claro que nem todo mundo vai gostar, e não gostar não significa ser menos engajado ou algo ruim, nós mesmos temos nossas críticas ao disco. Mas, goste ou não do resultado, concorde ou não conosco, se parar pra ouvir e pensar, nos ver nos shows, vai ter a chance de ser provocado por perguntas e sentidos peculiares. Se nosso trabalho ficou bom, cada um vai dizer o que pensa. Pra nós, isso é o que vale a pena na música.

Entre o primeiro e o segundo disco a banda trocou alguns integrantes, a maior diferença que a gente vê é que as letras eram em inglês e agora são em português. Vocês podem falar sobre essas mudanças?

Tem bastante mudança entre os discos. Acho que quatro coisas ajudaram nessa transformação: a primeira, a própria evolução dos músicos que estiveram em ambos, depois, a entrada do Zeca (voz) e do Lique (guitarra), uma terceira, o momento histórico do país durante a elaboração do disco e por último, a forma como produzimos e gravamos.
A entrada do Lique, no final de 2014, adicionou muita qualidade na guitarra, ele fez uma baita dupla com o Ali nas cordas. Os arranjos evoluíram bastante entre o primeiro e segundo disco, são muitas linhas, timbres e detalhes pensados para cada lugar. O Lique tem uma mão esquerda muito rápida, o Ali tem uma mão direita muito precisa, as interações das guitarras foram ganhando destaque ao longo dos anos e chegaram ao ápice na época de gravação.
O Zeca Ruas foi responsável por escrever a maior parte das letras em português. Quando Ali e Murilo o convidaram pra entrar na Gagged, essa ideia já fazia parte da proposta, a banda sentia que cantar em português poderia aproximá-la do público. O nome e as letras em inglês, até o disco “Silent”, refletiam a forte influência da estética das bandas de hardcore brasileiro dos anos 90, mas a ideia era buscar outros espaços. Além disso, o Zeca, que já tinha composto e cantado em português em outras bandas, também preferia seguir por esse caminho.
As letras de “Sobre Nós” foram escritas entre 2013 e 2017, mais da metade delas no últimos dois anos desse período, a coisa tava fervendo pra todo lado, o momento político ficou completamente entranhado nas letras do disco e ele apontou para o desfecho trágico que vem se consumando até hoje. Nada que mereça comemoração… mas a gente estava apontando na direção correta. Todas essas situações se somaram no processo de produção do disco.
O Ali assumiu definitivamente sua carreira de produtor e a gente acabou usando toda estrutura do Estúdio Sunrise, em Araraquara. Essa possibilidade fez total diferença, não gravamos nada com relógio contado, regravamos tudo o que tivemos vontade. Óbvio que isso nem sempre é bom e também sabemos que acabou alongando o processo por demais. Por outro lado, esse percurso nos permitiu criar muita coisa. Parte importante dos detalhes de arranjos foi forjada no próprio processo de gravação. Se não tivéssemos essa liberdade, certamente teríamos algo bem menos elaborado e com certeza teríamos aprendido e curtido muito menos.

Vocês podem falar sobre o processo de composição das letras de “Sobre Nós”? Elas têm meio que a mesma linha de raciocínio, não?

Não foi nada planejado, as letras não foram pensadas para formar um disco conceitual, apesar disso, saíram totalmente conectadas. A primeira letra que o Zeca escreveu, assim que entrou na banda, foi “A Máquina”. Na verdade, foi “Vencer ou Viver”, que não saiu no disco. Elas foram escritas juntas, em 2013, e, mesmo não tendo um conceito pré-acabado, elas já davam a tônica do tipo de letra que estava por vir. Tudo refletia, sob ângulos diferentes, os efeitos do neoliberalismo sobre nossa vida como indivíduos, seja em aspectos universais, seja em termos nacionais.
A banda toda estava acompanhando muito apreensiva os desdobramentos da política brasileira, mas também as rupturas ao redor do mundo, em todo canto do planeta explodiam convulsões, migração, xenofobia, fome, conflitos e uma escalada de valores conservadores. Todas as crises que aparentavam ser distantes do cidadão comum, na verdade vinham, cada vez mais, se refletindo brutalmente em nossa vida, na convivência humana. Todo mundo trabalha mais, por mais tempo, vive vidas virtuais e vazias de sentido. Somos impulsionados a pensar como seres isolados, desconfiar e concorrer com as demais pessoas. A cidade é hostil, física e culturalmente. Ela é agressiva na moradia, no transporte, no trabalho pra maior parte das pessoas. Perdemos o controle sobre o tempo de nossa existência. Somos anestesiados por pequenas doses de prazer empacotado. A depressão se torna nossa vizinha permanente.
Vivemos extasiados pela hipersexualização da vida e pelas drogas, e empurrados à reificação de nossos sentidos primitivos que, controlados pelo dinheiro, nos torna dóceis e submissos. Vivemos uma sociedade de ressentidos, incompletos, massificados.
As letras refletem os diálogos da banda sobre esta realidade universal em suas múltiplas faces, sempre filtradas liricamente pelas leituras de Marx, Nietzsche, Freud, Marcuse, Sartre, Keynes e tantos outros autores que o Zeca vinha lendo naquele período.
Entre 2016 e 2017, quando o caos no Brasil se tornava evidente, as letras se voltaram ainda mais para entender como essa realidade afetava os problemas do país. Com menos ou mais metáforas, “Cidade Sem Lugar”, “31 de Março”, “Fim da Linha” e “Caleidoscópio” são diálogos sobre o Brasil deste período.

Falando em “Caleidoscópio”, ela tem a participação de Greg Hetson (Bad Religion, Circle Jerks, Black President, etc), né? Como surgiu essa colaboração?

Esse é um dos nossos maiores orgulhos haha. Nunca esquecemos do dia em que a notícia chegou: “Greg vai gravar!”. Foi um arranjo bem rápido, quem fez a ponte pra gente foi o Nick Townsend, que já era amigo do Ali há algum tempo e foi também parceiro dele nos primeiros trabalhos no Sunrise, ele masterizou nosso disco no seu estúdio, nos EUA. Nick, que também tocou em bandas foda por lá (escutem Fireburn!), de vez em quando fazia som com o Greg Hetson. O Ali fez todo o contato e depois escolhemos a música que achamos que merecia um solo dele. Sempre fomos muito fãs de Bad Religion. Uma cena comum na banda era: carro lotado, viajando para fazer show em algum canto, escutando discos do Bad Religion e o Murilo falando, pra toda faixa que começava, “Essa música é foda!”. Uma atrás da outra.
A gente conhecia o estilo de solo do Greg, seus bends, as tortuosidades harmônicas. “Caleidoscópio”, do arranjo à letra, é uma caravana rumando para o abismo, para o caos. A escolha era óbvia… match perfeito. Mandamos a música pra ele e ele curtiu. Em pouco tempo, enviou o solo pra gente. Infelizmente, depois da saída do Ali, a gente acabou não mantendo contato com ele. Seria muito foda poder tocar junto um dia. 

Eu li em uma entrevista (no site Seguimos Fortes) que alguns integrantes moram em São Carlos e outros em Campinas. Isso ainda é verdade? Como rola essa questão já que não são cidades assim tão próximas?

Atualmente só o Zeca mora em Campinas. Murilo, Eric e Rodrigo estão em São Carlos. Em geral, quando a intensidade de ensaios aumenta, sobra um pouco mais pro Zeca, ele vem de Campinas de carro. Muitas vezes rola ensaio só instrumental e ele acaba não vindo, mas já fizemos vários esquemas. Durante as composições de “Sobre Nós” chegamos a fazer alguns ensaios em Rio Claro, que fica no meio do caminho entre São Carlos e Campinas.
Não é fácil, mas, por enquanto, tá valendo a pena esse corre. A gente curte se encontrar, conversar sobre política, sobre a vida e fazer um som juntos. Confiamos uns nos outros e sabemos que podemos fazer algo que sejamos fãs. Isso nos motiva a seguir, apesar dos perrengues.

Pensando no mundo antes do Covid, Gagged é uma banda que costuma fazer tours, vocês podem falar sobre como é sair em tour sendo uma banda independente?

Esse lance do COVID foi muito foda pra gente. Não curtimos essa pegada de gravar em casa, celulares… Na verdade, nem tentamos. Demoramos meses para conseguir sair do isolamento e botar alguma ideia nova pra rolar. Agora começou a acontecer, mas deu canseira pra ajustar.
Na real, sentimos muito a falta de estrada, fazer show é um lance indispensável para uma banda. Viajar, conhecer as realidades locais, músicos de cada região, sentir o retorno do palco. Acreditamos que cada viagem ajuda a plantar uma semente em cada lugar, uma conexão real, com pessoas de verdade, e que isso ajuda nossa música ecoar mais longe.
Obviamente, a gente tá ligado que a música independente é cada vez mais virtual e que os shows autorais são cada vez mais vazios, mas em várias cidades acabamos construindo um público bacana, que nos permite ter confiança de levar shows com alguma frequência para cidades diferentes. Mas, além do som, fazer os contatos, se encontrar ao vivo é uma forma de também permitir que a gente siga com algum tipo de produção cultural.
A história do punk e do hardcore é sempre igual: as bandas acabam misturando a música com alguma atividade de produção artística, cultural ou ativismo. Nos lugares em que as bandas organizam seus shows e formam público, rola um circuito e um intercâmbio maior. Produtor independente só entra depois que já tem algo rolando e que garante que vai conseguir pelo menos fechar a conta do evento. No punk e hardcore, as bandas sempre foram o farol para a sustentabilidade econômica da “cena”.
Pra nós, que fizemos shows em todo canto no estado de São Paulo e nos estados vizinhos, foi ficando mais fácil organizar turnês, fechar parcerias com outras bandas bacanas pra viajar junto… O mais difícil é sustentar essa rotina cansativa de longas distâncias, noites mal dormidas e, em boa parte dos casos, morrer com uma fatia dos custos.
Já rodamos centenas de quilômetros domingo de madrugada, depois de shows cansativos, pra chegar a tempo do trabalho na segunda às 8h da manhã. Foram várias vezes esse esquema. Só quem tá muito confiante na sua música faz isso.
Também acreditamos que nos próximos projetos, quando acabar a pandemia, a gente já vai conseguir, pelo menos, fechar essa conta financeira e poder selecionar melhor os eventos… Mas, pra que isso fosse possível, tivemos que comer muito asfalto e salgado vagabundo de estrada.

São Carlos é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

São Carlos sempre foi uma cidade com bastante rock n’ roll, a presença de duas grandes universidades públicas sempre garantiu um monte eventos de Centro Acadêmico e DCE. Estruturas de som mínimas e espaços de boa qualidade garantiam que sempre rolasse algum rock. É verdade que muitos desses rolês eram de bandas de festa, um combinado de covers dos anos 1970, questão de tempo até tocar “Born to be Wild”. Mas a cidade sempre teve galeras diferentes que curtiam rock autoral, de todo tipo: além do rock n’ roll, a galera da música extrema, do punk e do hardcore fizeram shows e registros importantes no fim dos anos 80 e nos anos 90.
Na virada para os anos 2000, graças ao Marky Wildstone (Dead Rocks, Bifidus Ativus, The Mings), as turnês de bandas independentes que a Highlight Sounds (SP), Monstro Discos (GO) e Motor Music (BH) organizavam passavam quase sempre por São Carlos. Tocaram por aqui os gringos do Man or Astroman, Pulley, …And You Will Know Us by the Trail of Dead, Nebula, Flatcat, além de quase todas as bandas de hardcore brasileiro que despontavam nos anos 2000.
A Gagged é produto dessa ebulição. Além da banda, em meados dessa década o Murilo também começou a produzir. Ele fez dezenas de shows, também levou muita banda nacional e gringa para os palcos da cidade. Outros produtores importantes também ajudaram a manter sempre alguma atividade e até hoje, mesmo com altos e baixos, é uma cidade que abriga bons eventos. Mas, como em todo lugar, os shows de hoje são menos cheios e outros estilos ocuparam público que antes era de rock, especialmente na universidade. As festas se tornaram eventos gigantes e elitizados (veja o exemplo do Tusca), dominados por uma lógica muito mais mercantil e massificada. 

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Tivemos momentos em que escutávamos mais da mesma coisa, mas isso foi se transformando, e isso é uma coisa boa. Vamos tentando abrir a cabeça um do outro pra outras coisas e isso sempre aparece na hora de compor.
O Murilo tem escutado Turbonegro (Scandinavian Leather), The Damned, Queens of the Stone Age, Rocket From the Crypt e Ramones. O Zeca tem escutado bastante HC e uns mergulhos nas bandas de rockão e stoner, Good Riddance, Lowrider, Propagandhi, Black Drawing Chalks e Kyuss. O Rodrigo segue pesquisando referências em vários lugares, recentemente ouviu Periphery III, Andy Timmons (Resolution), Propagandhi (Today’s Empires, Tomorrows Ashes), Herbie Hancock (Live at Montreau) e Toto IV. O Eric tá numa vibe terapêutica, numas levadas mais emo, Hey Mercedes, The Get Up Kids, Lifetime, Saves the Day e Hot Rod Circuit estiveram presentes nos últimos tempos. 

Últimas considerações? Algum recado?

Em primeiro lugar, agradecer quem chegou até aqui. Se leu até agora é por que fez algum sentido caminhar um pouco dos nossos passos. Se ainda não conhece nosso material, não acompanha a gente nas redes sociais, saiba que cada novo comentário, compartilhamento ou indicação vale muito para nós, vai ajudar seus amigos a escutarem nossa música. A gente depende dessa rede de pessoas que curtem a estética do punk HC e estão a fim de repensar aquilo que vivemos. Fica ligado com a gente, a volta do Eric trouxe novo impulso e nós começamos um ciclo novo de composição. É um desafio bacana depois de tanta mudança de formação e depois da nossa tour de lançamento. A gente aprendeu muita coisa nesse processo e queremos por em prática nesse novo material e num possível lançamento, assim que a pandemia passar.

A discografia da banda está disponível nas redes de stream.


Resenha

Messias Empalado – O Evangelho dos Tempos de Ódio

O nome da banda, Messias Empalado, e do disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”, já diz muito, a descrição “banda LGBTQ formada em 2017 [em São Paulo] com temática anti-cristã, anti-fundamentalismo religioso, contra toda opressão social”, diz ainda mais.

Messias Empalado é Vee Wayward (voz), Gustavo Knup (baixo e voz), Karine Profana (teclado) e Letícia Figueiredo (bateria). Em fevereiro de 2020 lançaram seu primeiro disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”.

Ainda segundo a banda, “a força de nossa criação é a blasfêmia, que de maneira alguma é um discurso de ódio ou intolerância religiosa, é tão somente reação contra os representantes religiosos que usam suas crenças e seus interesses pra nos condenar, criar leis pra deixar nossa vida ainda mais à margem e a mercê de todo tipo de exclusões e agressões”.

Estamos mesmo vivendo em tempos de ódio incitado por certos religiosos e isso é um perigo real pra maioria de nós (inclusive pra quem não se sente marginalizado), por isso sinto um certo alívio vendo uma banda falar dedicadamente sobre o assunto. Parece que é algo que quase ninguém dá a devida atenção (talvez isso seja só na minha bolha), ao mesmo tempo em que existe a angústia de “como deixamos chegar a esse ponto?”.

“Sangue de Jesus tem poder. Poder de nos dividir, poder de nos odiar, poder de nos discriminar, poder de nos execrar”.

O som nos remete à estética clássica de igreja, muitas vezes com órgão e canto lírico, é bem dark wave e industrial. A banda também cita como influências EBM, post punk e noise.

“O Messias tão esperado caiu. Reprovou os atos dos líderes, religiões sob sua mortalha, templos de exploração da fé”.

Em 2019 vi um show da banda e minha amiga disse “gostei e não gostei“. Depois de ouvir o disco e entender melhor as letras, eu acho que essa reação é proposital, a banda busca a reação de choque e as vezes um certo repúdio.

“Enforquem os pastores nas tripas dos senhores, cortem as cabeças da Santa Inquisição. Cuspimos em seu livro de abominação” é uma frase bem gráfica (assim como a maioria das literaturas sobre religião organizada).

“Bolsonazi” é a música que resume o disco, ela faz referência a um dos líderes que incita todo esse ódio e violência.

“O sangue tá nas suas mãos, não adianta tentar se esconder… Suas palavras são cheias de ódio. Autoritário, chefe de milícia. Bolsonazi, assassino de viado, Bolsonazi, higienista do caralho, Bolsonazi, tirou os fachos do armário”.

E falando em Bolsonazi, nos shows de bandas com letras políticas sempre rola um grito de “Bolsonaro, vai tomar no cu!” e no show da Messias Empalado, Vee nos ensinou que não devemos desejar coisa boa pra gente ruim. É sempre bom lembrar.

“O Evangelho dos Tempos de Ódio” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Kino Lopes – Dobradiça Enferrujada Discos

Começando pelo começo, caso você nunca tenha ouvido falar, experimental geralmente é quando a pessoa faz um som sem estrutura, usando elementos pouco comuns, usando um instrumento de uma maneira que não costuma ser usada ou tudo isso de uma vez. E no meu entendimento improvisação é quando a pessoa não pensa duas vezes, a composição é em tempo real quando grava um disco e ao vivo é literalmente improvisado, um show nunca vai ser como o outro.

Dobradiça Enferrujada Discos é um selo independente de Brasília que reúne alguns desses artistas. Inclusive, Qorpo, com quem fizemos uma entrevista há alguns meses. Conversamos com Kino Lopes, co-fundador do selo, pra conhecer um pouco mais sobre esse mundo.

Gostaria de deixar a observação que meu conhecimento sobre improvisação e experimentação se resume ao que eu acabei de escrever, então as perguntas surgiram da minha ignorância e curiosidade sobre o assunto.

Caso eu tenha errado na introdução, você pode falar resumidamente o que é improvisação e experimentação?

Eu diria duas coisas, que acabam sendo uma só. Primeiro que música experimental seria menos um gênero ou uma linguagem geral com signos que regem sua construção, mas seria essencialmente uma forma de criação que lida com a possibilidade de produzir a partir do contato com o material, encontrando estruturas através dele, e não o aplicando a um recipiente previamente estruturado. Eu não diria que isso resulta em uma ausência de estrutura, mas sim em uma dinâmica de ida e volta com o som, que de certa forma significa que a música recebe uma imagem como resultado do próprio processo, ao invés de caminhar em direção a uma imagem que determinaria seu equilíbrio e seus alvos. Existe uma singularidade formal inscrita no próprio encontro com os objetos musicais. E a segunda coisa é que a experimentação é marcada, sobretudo, pela incerteza do resultado. É uma maneira de fazer coisas que não sabemos o que são, seja através da improvisação, que implica em uma relação de investigação em tempo real, onde o espaço, as ações involuntárias do instrumento, e os membros da performance terão uma grande fala na negociação da evolução do material, ou seja, através da composição, que implica uma lapidação e uma sistematização que nasce da análise dos elementos. É claro que existe todo um espectro entre esses dois processos que tendem a se misturar.

Você também é um dos artistas do selo, você pode falar sobre a sua história com improvisação e experimentação? E como surgiu a ideia de um selo pra esse “gênero musical” meio desconhecido?

Durante as ocupações estudantis da UnB que ocorram em 2016 contra o golpe de estado e a PEC 241, os estudantes que ocuparam o departamento de música tinham formações muito distintas entre si, desde o jazz, como no meu caso, ao piano romântico, como no caso da Cá Rocha, até a música popular, como no caso da Marília Nóbrega, e ainda estudantes de outros cursos que ocuparam conosco e que tinham formação nenhuma. A improvisação, de uma forma completamente desprovida de qualquer tipo de agenda ou bula, foi a “solução” pra esse desencontro de vocabulário, que, na verdade, não seria uma solução porque ela não fornece exatamente um território expandido que acolhe as linguagens da forma como são, mas uma nova gramática que é construída através da deformação delas. A Dobradiça nasceu logo depois do fim das ocupações com a ideia de organizar as reverberações das experiências e dos aprendizados que surgiram naqueles meses, e que continuam surgindo mesmo três anos depois, hoje com ainda mais pessoas graças as apresentações, as jams e aos encontros, como, por exemplo, o QORPO que vocês entrevistaram, e também graças a compositora e professora Tatiana Catanzaro da UnB, que desde sua chegada no departamento tem fortalecido um estudo e uma comunidade voltada para a experimentação. Foram praticamente três meses com aquele tanto de gente morando no mesmo lugar, aprendendo um bocado junto, e acho que no fundo é uma tentativa de dar continuidade e de expandir aquela experiência.

Você pode falar sobre a coletânea “Mais a Soma de Seus Possíveis”?

Esse álbum foi em sua maioria a gravação de uma apresentação que fizemos no começo do ano no Estúdio Confraria, que consistiu de improvisações individuais, e a outra parte de gravações feitas em casa por quem não pode participar no dia, e mesmo assim algumas pessoas infelizmente não conseguiram participar. Um assunto muito frequente entre a galera sempre foi a ideia de que se uma improvisação individual é ou não uma improvisação. Quando improvisamos sozinhos sempre estamos à beira de um processo altamente controlado, à beira de uma composição em tempo real. Nesse projeto temos peças completamente improvisadas, como a do Luiz Rocha, até a composição escrita da Yuki Shimura. Como esse campo é extremamente expressivo e pode ser construído/formatado de tantas formas, é muito legal poder ouvir a peculiaridade do processo de cada um neste contexto solo, como também ouvir as semelhanças entre a composição e a improvisação. Era algo que ocorria nos encontros e afins, e queríamos a um bom tempo fazer gravando.

Além dos lançamentos, o selo promove eventos com seus artistas. Você pode falar um pouco sobre isso?

Por sorte nossa, diversos lugares deram espaço para a gente apresentar e montar projetos de forma completamente livre. É legal quando alguém acolhe uma proposta de apresentação onde não sabemos como vai ser. Quando a situação é ao vivo, existe a possibilidade de refletir coletivamente sobre o que aconteceu, e a audiência frequentemente apresenta uma perspectiva completamente criativa sobre o som, e assim como as pessoas que estão tocando, as interpretações são contrastantes, o que gera uma retroalimentação gigante. Também existe uma pluralidade de comportamento quando apresentamos ao vivo, desde pessoas mudando de lugar, posição pra ter outras perspectivas do que esta acontecendo, como por exemplo, um rapaz que foi da cadeira, pro chão, e depois deitou a cabeça no piano do Rafael Bacellar, até apresentações onde a pessoa traz um instrumento pra tocar junto. Em uma apresentação ao vivo fica latente o quanto a parte de ouvir e investigar o som é uma das partes mais criativas, se não a mais criativa. Até a pandemia, a Galeria Alfinete e o 705 Bar abrigavam apresentações rotineiramente pros projetos, e isso proporciona uma coisa maravilhosa que é ter uma espécie de laboratório, e eu digo isso tanto para quem está indo pra tocar tanto pra quem tá indo para ouvir. Existe uma relação de muita confiança no meio disso, já que se trata em sua maioria de apresentações onde não sabemos o que vamos tocar.

E falando nisso, existe muita diferença entre gravação e apresentação quando se trata de improvisação e experimentação?

Existe muito. A primeira coisa que vem em mente é o processo de mixagem e edição que existe depois da gravação. O Pedro Menezes da Zéfiro, que é quem grava e mixa a maior parte dos projetos da Dobradiça, é tão instrumentista quanto os gravados quando se trata da improvisação gravada. A possibilidade de interagir com a microfonação, com a edição, com o silêncio do estúdio, isso tudo é bem diferente em uma sala de apresentação com público, onde temos a acústica de um espaço povoado, a espacialização. A segunda coisa é o detalhe que o microfone pega. Gravamos um projeto de trio, ainda não lançado, que conta com a Cá Rocha (voz e percussão), Andrey Grego (violino) e eu (violão e trompete) que é em sua maioria num volume tão baixo, que não teria como ser percebido ao vivo da forma como é com a captação de múltiplas ferramentas. Já ao vivo, a materialidade do som, a sensação física ao ouvir um acorde desencontrado entre um sax, um trompete, uma clarineta e um violino, essa fisicalidade é um vetor determinante na forma que a improvisação vai tomar.

Como anda a situação na quarentena? O pessoal têm gravado em casa?

A situação da quarentena num geral anda chorosa levando em conta a completa falta de capacidade que temos de gerir duas crises ao mesmo tempo, tanto da pandemia em si tanto de um projeto de governo que desde seu princípio deixa claro que a perda de vidas não será motivo de preocupações, mais especificamente das classes mais baixas, essas que nunca tiveram quarentena ou isolamento social e que são obrigadas a entrarem em pelo menos dois ônibus lotados por dia. É uma situação completamente desnecessária, diga-se de passagem. No início da pandemia ouve a desoneração tributária para uma série de empresas privadas, mas sem a manutenção do trabalho, sem nenhuma defesa dos postos de trabalho. Deixamos de arrecadar bilhões de grandes empresas que poderiam ser usados para garantir a possibilidade do isolamento social. Enquanto isso no Chile foi aprovado, por iniciativa do partido comunista chileno, a taxação de grandes fortunas para garantir o isolamento de todos e todas. Então quarentena real, no Brasil, não houve.
Em relação à possibilidade de continuar com os projetos do selo: a não ser os projetos já gravados e ainda não lançados, o movimento em termos de produção que existe no momento são grupos de estudos, projetos para cursos virtuais, video aulas, e trabalhos voltados para a área da composição. Eu diria que uma possibilidade que se abre com a impossibilidade de se encontrar é a oportunidade de repensar a composição, um processo que é comumente feito individualmente, de forma interativa através da tecnologia, que é para onde temos virado nossa atenção.

Últimas considerações? Algum recado?

Queria agradecer pela entrevista, e principalmente pelo blog. A internet talvez seja o lugar mais perigoso hoje pra uma pessoa procurando no que pensar e como ocupar a cabeça, e o que espaços como o Bus Ride fazem, dedicando tempo e força pra falar de música criativa, pode não parecer muito em momentos como os que estamos, mas se deixar de existir, a diferença vai ser sentida de várias formas e em várias dimensões.

Os lançamentos do Dobradiça Enferrujada Discos estão disponíveis no Bandcamp.


Entrevista

Klitores Kaos

Klitores Kaos foi formada em Belém em 2015 e hoje é composta por Nia Lima (guitarra), Dy Lima (guitarra) e Line White (baixo) .

A banda surgiu da “vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade, com uma ideologia de fato feminista. Como uma forma de expressar nossas ideias, criticar o sistema opressor que serve aos interesses da elite burguesa, a desigualdade e caos social de nossa cidade, enfatizando a questão de gênero”.

Em Março de 2020 elas lançaram o primeiro EP, “Klitores Kaos”, e em Outubro lançaram dois singles.

Abaixo você lê nossa entrevista com elas, onde você conhece a banda desde o começo até as atuais mudanças e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Nia: A Klitores Kaos é uma banda baderneira antifascista de hardcore crust punk formada em 2015 em Belém, PA. Luma e Debby foram as fundadoras, porém não estão mais na banda. Além de Belém, já tocamos em São Paulo, Brasília, Tocantins e outras cidades dentro do Pará como Santarém, Marabá e Castanhal.

A banda foi formada em 2015 e o primeiro EP foi lançado em 2020. Vocês podem falar um pouco sobre ele? As músicas foram compostas durante esses vários anos da banda, né?

Nia: Sim, a banda começou com as minas ainda aprendendo a tocar, mas já criando as próprias músicas, e no começo haviam muitas críticas disso desmerecendo a banda, fora as dificuldades financeiras, que foi o maior problema para que o nosso primeiro EP saísse só esse ano. Em 2018, nós planejamos criar uma Vakinha virtual para quem pudesse nos ajudar e foi um sucesso! Muitas pessoas, de vários cantos, doaram fazendo com que ultrapassasse a meta, ficamos muito felizes. Uma pessoa que foi essencial para que esse EP tivesse a melhor qualidade possível e que fosse a nossa cara foi o Zé Lukas, ele abraçou nossas ideias e dificuldades e nos ajudou muito, ele estava presente na maior parte do processo. As letras são bem antigas mesmo, mas são assuntos da atualidade que ainda temos que nos questionar e lutar. Algumas letras foram de situações pessoais que tiveram que ser “expurgadas” e acabou que deu certo porque muitas pessoas se identificaram e sabem do que a gente tá falando.

Vocês podem falar sobre os dois singles que vocês acabaram de lançar? Eles foram gravados já durante a pandemia, né? Como foi esse processo de gravação?

Dy: Apesar de termos o máximo cuidado, ficamos bem apreensivas por conta de tudo o que estava acontecendo (Covid). A gravação do EP teve várias etapas, fizemos o roteiro de gravação, falamos com amigos que trabalham com produção e estavam dispostos a nos gravar. Chamamos algumas minas para participar da música “Atividade Subversiva” que ficou bem parecida com um grito de protesto (era essa a intenção). Separamos um dia para gravar as cordas e batera, e outro para a gravação do vocal. Como foi a gravação de músicas antigas, que já estavam na banda há um bom tempo, esse processo foi também uma despedida da vocal (Debby) que acompanhou a banda por anos, então foi um ciclo ali que se fechou pra nós.

E como vocês chegaram a escolha de lançar eles poucos meses depois do EP?

Dy: Como eram músicas antigas e que já tinham registro em vídeo (mas sem áudio oficial), decidimos lançar justamente para fechar o ciclo de músicas mais antigas da banda e para começar novos sons com essa nova formação.

Já que Belém sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Dy: A cena é bem diversificada, no mesmo evento podemos ter uma banda de reggae e depois uma de rock. O único problema ainda é casas de show abertas para bandas autorais, e isso acaba fazendo com que shows autorais rolem no “faça você mesma”.

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Nia: Todas nós curtimos sons variados (e põe variado nisso haha), eu por exemplo vou de Opeth à Falamansa, Manger Cadavre? à Dona Onete, a Dy gosta de MPB e também Nervosa, Blind Ivy e Joan Jett, e a Line de Pitty,  Brega Marcante e Xuxa haha. Claro que para influenciar no som da banda a gente tem referências de outros sons, mas com a gente não tem frescura com música, a gente gosta de quase tudo mesmo.

Últimas considerações? Algum recado?

A banda está um pouco parada porque temos novas integrantes, uma vocal e uma batera, estamos passando pelo processo de nos conhecer e criar um vínculo para seguirmos em frente compondo e tocando o terror! E os nossos dois singles que lançamos no Youtube e Bandcamp vão estar também em todas as plataformas digitais no dia 13 de Novembro, então se liguem!
E para finalizar, queremos agradecer ao Bus Ride Notes pela entrevista. Esperamos que em breve possamos voltar a tocar para ter uma resistência mais combativa contra esse fascismo instaurado no Brasil, conhecer outros estados ou tocar novamente nos lugares que já conhecemos, só que com a nova formação.

A discografia de Klitores Kaos está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Resenha

Neon Dharmas – Cavalos Selvagens

Neon Dharmas é uma banda de “pós-punk doidão do Rio de Janeiro/Niterói”. Formada em 2017 por Rafael Trevisani (guitarra e voz), Helder Martins (baixo e voz) e Alberto “Tie Dye” (bateria).

Em julho de 2017 eles lançaram o “EP #1” e em Novembro de 2019 lançaram o primeiro disco da banda, “Cavalos Selvagens”. O disco conta com a regravação das cinco músicas do EP e mais seis músicas inéditas. Ele foi lançado online e em K7 pela Oxenti Records.

Dharma, ou darma, é um conceito-chave com múltiplos significados nas religiões indianas. Na minha pesquisa na internet (posso tar errada, me corrijam, por favor) o significado mais amplo e atual disso é: aquilo que mantém elevado. Também é entendido como a missão de vida, o que a pessoa veio para fazer no mundo. “O Dharma budista diz respeito aos ensinamentos do Buddha Gautama, e é uma espécie de guia para a pessoa alcançar a verdade e a compreensão da vida. Pode ser chamado também de ‘lei natural’ ou ‘lei cósmica'”.

Dito isso, quando vi o nome da banda já pensei na maior viagem.

A banda faz letras poéticas e sem amarras, diferente da fala mais direta (tentar ser direto é uma amarra) que eu me acostumei a ouvir nos últimos anos, tanto em letras políticas quanto em puro sentimentalismo. Me fez lembrar de muita coisa que eu ouvia a uns anos atrás.

Isso embalado por um pós-punk meio garage bem lo-fi vira mesmo uma viagem. A capa do disco (por Emerson Folharini) também ajuda a passar essa impressão: uma colagem com cavalos, soldados, multidões, um mapa e a frase “Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado” em um fundo rosa claro com o nome da banda e do disco.

As músicas falam de tudo um pouco, a capa do disco e a faixa que dá nome a ele deixam bem claro que há bastante política aqui, “Lutando por igualdade, contra o ódio e repressão. Cavalos selvagens são gritos da revolução”.

“Gosto de Morte”, com um título bem literal, fala sobre veganismo.

Várias músicas do disco falam sobre um anseio por liberdade “Órfãos da destruição, não vamos nos ajoelhar. Vejo dentro dos seus olhos quem nos traz a mentira. Vejo dentro dos seus olhos quem quer nos controlar”.

Mas a maioria é meio pessimista e fala sobre frustrações. Pós-punk, né?
“Tentando achar caminhos e respostas, vivemos na escuridão, nosso ciclo se fechou”.

Em Setembro de 2020 eles lançaram o primeiro clipe da banda, da música “Cavalos Selvagens”, feito por Leonardo Mariani.

Assim como a capa do disco, o clipe é uma colagem (uma imagem em cima da outra) de imagens da banda ao vivo, cavalos em campos e manifestações da época da ditadura. “Em memória de Carlos Barroso, Walmir Monteiro e William Leite. Eles também foram cavalos selvagens”.

E em 13 de Novembro de 2020 a banda lançou um novo single, “O Vazio”.

“Cavalos Selvagens” está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista

Refluxo Mental

Refluxo Mental é uma banda de punk rock de São José do Rio Preto, interior de SP, formada em 2019 e hoje composta por Ariel “Joio” (bateria), Everton “Facada” (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício “Mau” (baixo).

Em 10 de Outubro de 2020 eles lançaram seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”, “gravado e mixado com a ajuda do Estúdio Jardim Elétrico, do ex-integrante (mas para sempre integrante) da Refluxo Mental, Lucas Dias”.

Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”

Abaixo você confere nossa entrevista com eles:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Mau: A banda surgiu há uns dois anos? Quando eu vi que foi a menos que isso eu realmente fiquei surpreso, sabe? Foi Joio e eu conversando num dia chuvoso sobre fazer um som subversivo e eu mostrei a letra da musica “Crente” pra ele. A gente tinha uma outra banda que o vocalista não queria cantar musica com critica política, saca? E eu conhecia um cara que iria querer, que era o Matheus. A banda faz esse punk 77 com um pouco da influência de cada um e acaba saindo bem característico.

Em mais de uma ocasião vocês disseram que a banda veio pra combater o reacionarismo que tá tomando conta de tudo. Vocês começaram a banda pensando nisso ou foi algo que veio depois?

Matheus: Desde o início tínhamos a intenção de fazer crítica social. O próprio nome da banda foi uma intenção de demonstrar isso. Refluxo Mental é a tentativa de fazer a galera refletir sobre certas questões presentes na realidade brasileira, colocar a mente pra pensar sobre outros ângulos, que não costumam chegar a todos os espaços. O combate à barbárie e ao obscurantismo vem com informação e reflexão. É o que procuramos fazer.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Socialização das Perdas”? Houveram mudanças de formação na banda nesse período, né?

Matheus: Ideias para composições foram muitas. Como a inspiração das nossas músicas surge dos problemas sociais que impactam nossa realidade, temos (infelizmente) conteúdo de sobra para trabalhar. A parte difícil é filtrar nossas ideias de uma forma mais ou menos coerente, a caber numa melodia bacana, na velocidade do punk rock. Cada ideia finalizada começava a ser gravada de imediato. Como gravamos em home studio, íamos criando e gravando, criando e gravando, até chegar o momento de dizermos: bom, melhor a gente fechar um CD aqui, finalizando esse primeiro momento da banda (que contou com diversas mudanças).

Mau: Mudança de formação foi apenas que a banda começou como um trio Matheus, Joio e eu e depois entrou o Lucas Dias, que acabou saindo para montar o Estúdio Jardim Elétrico em Lençóis Paulista, onde foi mixado e masterizado nosso CD, e entrou o Facada que já tocava com o Joio.

Rio Preto é interior, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí?

Matheus: A cena do punk rock de maneira nacional já não é muito forte. O punk não é um estilo que agrada muita gente. No interior é ainda mais difícil. É complicado manter um ciclo constante de pessoas nos shows. Nem se fala sobre captar galera nova para ouvir o som. A internet tem ajudado bastante a esse respeito.

Vocês têm uma música chamada “Rio Preto” no disco, né?

Matheus: “Rio Preto” surgiu da indignação ao alto número de eleitores do Bolsonaro nas últimas eleições. Nossa região teve no segundo turno das eleições de 2018 uma taxa de 78% de apoiadores do dito-cujo (que é um dado presente nos primeiros versos da música). Não é fácil sair nas ruas sob o alto risco de trombar com o retrocesso. É claro que nem todo mundo compactua com as barbaridades que vem nesse pacote. Tem muita falta de informação (e desinformação) que ronda a cabeça das pessoas. É o preço de um país que investe parcamente em educação pública de qualidade. “Rio Preto”, apesar de levar o nome da cidade, representa diversas cidades que sofrem do mesmo problema.

E como vocês foram, do interior de SP, parar em Moçambique?

Mau: Cara, é uma história bem legal. Um youtuber moçambicano chamado Miguel Jorge viu um comentário que eu deixei com o Youtube da banda em uma notícia sobre a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) em Angola e entrou para ver os vídeos do canal, curtiu as músicas e marcou em uma postagem no Facebook que estava ouvindo Refluxo em Moçambique. Daí pra frente o pessoal foi pesquisando sobre e foram curtindo a página e ouvindo as músicas.

Últimas considerações? Algum recado?

Mau: Queria falar pro pessoal curtir as nossas redes sociais, dar uma força, que é disso que sobrevive uma banda autoral mesmo. Compartilhem, curtam, comentem! A gente faz nosso som aí com muita humildade e é verdadeiro, é o que a gente gosta, né? Afinal de contas se fosse apenas por publicidade pra barzinho a gente fazia cover de rock dos anos 80. Refluxo é Matheus, Facada, Mau e Joio.

“Socialização das Perdas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.