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Entrevista

Delipe Fantaos – Embalo Maravilhoso

Delipe Fantaos é um compositor brasileiro que mora na Espanha já há alguns anos.
Em Outubro de 2020 ele lançou seu primeiro álbum, “Embalo Maravilhoso”, um disco de samba e MPB que “é o meu abraço bem forte na minha família e no Brasil. Longe de patriotismo. É minha homenagem a um Brasil de gente, não de fronteiras e nem de bandeira. Um disco da minha saudade”.

“Embalo Maravilhoso” realmente te leva em um embalo, um mergulho nas músicas, que quando você para pra anotar algum detalhe, percebe que o disco já tá quase no fim.

Conversamos com Felipe sobre o disco, a cena musical independente na Espanha e mais.

Você pode se apresentar, pra quem não o conhece? E contar um pouco da sua trajetória na música?

Me chamo Felipe e sou lá da baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Tenho 33, e faz uns anos, não lembro bem quantos, que decidi fazer minhas músicas. Delipe Fantaos é maneira que encontrei pra fazer minhas coisas sozinho. Adoro tocar com meus amigos músicos e tudo, mas as vezes não é possível, e aí, entra o “Delipe Fantaos” na minha vida.
Atualmente moro em Barcelona, e toco na banda Espacea. É o projeto que eu pessoalmente mais gosto de fazer. Porém, com essa coisa horrível da pandemia, a Espacea tá caminhando a passos largos. Mas tá caminhando.

Você pode falar sobre a cena musical independente na Espanha? É muito diferente do Brasil?

Viver aqui na Espanha tem sido uma experiência muito bacana. A vida musical independente aqui é bem movimentada. Ou pelo menos era antes de tudo isso que tá rolando no mundo agora. A cena underground é bastante viva, existem bandas de todos os tipos pra todo mundo. As vezes fica até meio difícil conseguir datas nas casas de show por causa das agendas super lotadas… Ou porque as bandas já tem tantos shows marcados que complica conseguir montar uma noite pra dividir os palcos.
Acho que o Brasil é tão grande que a comunicação entre bandas, público e as casas de show é mais complicada. Isso não quer dizer que a vida aqui pros músicos independentes seja mais fácil. A gente tá remando contra a corrente igual no Brasil, só que de um jeito diferente.

Como foi a concepção de “Embalo Maravilhoso”, e a vontade de fazer um disco solo? Você diz que o disco “é uma homenagem ao povo suburbano do Rio de Janeiro e ao Brasil”, pode falar mais sobre isso?

Ano passado (2020), fui ver minha família no Brasil e me dei conta que todo aquele sentimento de saudade e admiração que eu tenho pela cultura brasileira poderia se converter em alguma coisa. Nessa ida ao Brasil, ali mesmo, comecei a compor a primeira canção e a trabalhar na estética que eu queria desenvolver.
Sim! “Embalo Maravilhoso” é um disco de saudade e homenagem à cultura popular suburbana. Coloquei no disco um pouco das coisas que ouvi e vivi nas ruas, nos bares, nas casas e no cotidiano do povo.
Abusei de referências como Jorge Ben (da pra ver na capa do disco), Caetano, Bethânia, João Bosco, Gil, Zeca Pagodinho e etc. Queria um disco com uma estética Tropicalista, carnavalesca e suburbana e acho que consegui.

E como foram as gravações? Como foi feita a parte instrumental, quais músicos participaram?

O disco foi completamente gravado em casa com um microfone shure 58. Mas confesso que se não fosse a ajuda do meu grande amigo espanhol Manu G. Sanz, eu teria lançado um disco medíocre. Manu foi responsável por dar esse “ar fresco” com saxofone, órgão, algumas baterias e claro, a mix e master. Também contei com o meu amigo baterista que mora lá no Rio, Leo Oliveira, que gravou “Zé Canela” e com os músicos da minha banda Espacea, pra dar aquela pincelada em algumas músicas.

Como anda a situação durante a pandemia? As adaptações foram tranquilas?

Eu tive sorte! Pude passar um confinamento confortável e seguro. Mas sei que muita gente viveu e vive muito mal. Aproveitei todo o tempo livre que tive pra pensar e gravar o “Embalo Maravilhoso”.

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de dizer ao povo brasileiro uma coisa… Brasil! Você é foda. Aqui, morando longe, percebo o privilégio de ter nascido numa terra tão rica culturalmente. Uma puta sorte. Tem muita gente tentando dividir a gente. Pode ser piegas e os carai… Mas a gente tem muito mais motivos pra se unir do que pra se odiar. Os tempos são difíceis, mas a gente vai sair dessa.
Alô, Alô, Brasil! Aquele abraço.
Gratidão pelo espaço a todos colaboradores de Bus Ride Notes e a você, Livia, pelo convite. Brigadão!

“Embalo Maravilhoso” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Andressa Nunes – O Mandacaru Intergaláctico

“O Mandacaru Intergaláctico” é uma carta de amor ao sertão escrito pela cantora baiana Andressa Nunes. Lançado em 2020, o álbum contêm 13 faixas que fluem como um abraço, como em “A Bahia é Grande”. Isso sem perder a mão nas experimentações, como a technobrega “Bagaceira”.

O álbum foi gravado em Juazeiro (BA) com coprodução de Iago Guimarães, da Casinha Lab. Todas as letras, bem como a arte da capa e as artes personalizadas das músicas no Youtube, são assinadas pela própria cantora.

Andressa canta que “o sertão é a resposta”. Então, fazendo o caminho contrário, fizemos um monte de perguntas sobre “O Mandacaru Intergaláctico”. Confira:

Bus Ride Notes: Andressa, a gente pode começar falando sobre o caminho que levou até “O Mandacaru Intergaláctico”. Em 2019 você lançou vários singles, certo? Como foi esse período entre os singles e a composição do álbum? 

Andressa Nunes: Sim, em 2019 eu decidi publicar algumas experimentações caseiras que estava fazendo sozinha e sem muitas pretensões. Dessas, a minha preferida é Ana(r)coluto, que é uma música bem antiga mas que gosto bastante da letra, cheia de referências à filosofia da mente e à gramática da língua portuguesa. Como meu processo de composição é bem aleatório, não houve um ponto específico em que eu decidi compor “O Mandacaru Intergaláctico”. A música título, por exemplo, foi escrita há mais de cinco anos, enquanto “Bagaceira” foi escrita na hora de entrar no estúdio, praticamente.

Algumas músicas (talvez o álbum inteiro, até) são verdadeiras cartas de amor ao sertão, à Bahia, ao Nordeste como um todo. Na primeira música você já canta que “o sertão é a resposta”. O que te motivou a compor essas letras? O que você estava sentindo nesse período?

O sertão, principalmente por sua adaptabilidade e riqueza cultural, pode ser a resposta para muitas das questões sociais que temos enfrentado. O sertão é a resposta num sentido geopolítico, de olharmos para as riquezas e para os modos de vida da população dos vários sertões do Brasil (os rincões da Amazônia, do Centro-Oeste, dos Pampas, das Caatingas), que num geral conseguem conviver melhor com a natureza e produzir seu próprio alimento. Mas também o sertão pode ser uma resposta mais íntima: compreender de onde vim e a linguagem que me habita foi um processo importante para me deixar levar pela música que há tanto tempo componho.
A motivação maior para reunir essas canções foi justamente olhar no espelho da palavra, já que na época eu estava sentindo uma saudade de mim que tomou a forma (espinhosa, mas bonita) de um mandacaru. Há também uma motivação política – toda arte é política, inclusive a “neutra”. Falar do nordeste como algo contemporâneo, sem saudosismos, sem estereótipos, é uma forma de trazer luz a questões que estão em voga como a xenofobia e o machismo. Eu quis trazer um sertão que se deixa permear pela modernidade, mas sem medo de criticá-lo também, como em “A Última Cajuína do Sertão”. Vale ressaltar que não é uma questão de fazer o nordeste virar uma pauta identitária, pelo contrário: quero falar das suas pluralidades e das suas contradições, da ignorância e do saber, com consciência e sem vitimismo. O sertão não precisa de narrativas sensacionalistas. Fico com as narrativas sensoriais.

Quais foram suas referências musicais e de outras fontes? 

Na música, posso citar Cátia de França, Alceu Valença, Tom Zé, Luís Gonzaga, Dominguinhos, Caetano Veloso, Daniela Mercury, os Beatles, Björk, Zé Ramalho, Baiana System.
De outras fontes, acredito que Guimarães Rosa tem uma presença marcante na minha relação com o sertão feito de palavra. Também gosto bastante de cinema, e obras como “Bacurau” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” atravessaram bastante meu processo criativo.

Pode falar um pouco da parte instrumental do álbum? Quais os demais músicos que participaram? Como foi bolar esse som? 

Eu toquei violão em todas e guitarra em algumas das músicas. O restante (bateria, baixo, teclas) ficou por conta de Iago Guimarães, do Casinha Lab em Juazeiro, BA (que coproduziu e mixou as músicas) e do Wagner (percussões diversas) como representante da Camerata Matingueiros de Petrolina, PE. Bolamos o som seguindo o fluxo das letras, eu já tinha em mente o clima e a instrumentação que desejava e os meninos foram geniais e muito generosos ao me escutar e trazer novos elementos para a brincadeira.

O álbum foi lançado no ano em que a pandemia chegou. Já que os shows estão inviabilizados, como foi feita a divulgação do trabalho?  

Divulguei apenas pela internet e também entre amigos e familiares. As novas pessoas que têm chegado para escutar têm sempre me surpreendido positivamente, já que infelizmente não pude fazer nenhuma ação de marketing mais grandiosa. Mas o fluxo da vida, dos algoritmos e das canções tem uns mistérios interessantes.

Tem previsão para clipe?  

Tenho gravados takes de clipes para “Mulher Apocalíptica” e para “Manequim”, mas te confesso que sou eu que faço tudo na minha “carreira”, então a falta de tempo para editar está pesando bastante nesse aspecto. Quem sabe esse ano ao menos esses dois não saem, né?

Num momento em que o Brasil parece estar sendo atacado diariamente pelo que tem de pior nele mesmo, é realmente um respiro ouvir algo que fale com a gente assim, né? Na música “O Absurdo” você escancara esse clima que a gente vive. Você vê alguma esperança pra esse absurdo tanto na via artística, social ou política?

Nem medo, nem esperança: tenho confiança na ética e na capacidade de se transformar que o Brasil tem. Certamente é um processo lento e meu grito de “não me deixe achar normal o absurdo” resume esse chamado para que não deixemos a ignorância e a necropolítica se tornarem a voz da vez, como se fossem uma certeza fatal contra a qual teremos que lutar o tempo inteiro. Não. Não é normal, não é o nosso normal e não existe um “novo normal”: esse desmonte da coisa pública e o descaso com tantas vidas é uma aberração. Tenho fé em grande parte da população que se preocupa consigo mesma, mas que também busca ajudar o próximo. Tenho confiança na ciência e nas instituições de ensino e no seu papel político tão fundamental e de tanta resistência. Tenho fé nos artistas independentes, principalmente nos que produzem arte em vez de produto: a revolução também virá pela beleza, pelo sublime e pela coragem. Mas a mudança é silenciosa e lenta, e enquanto ela não vem, vamos agindo aos poucos para combater os fascismos que nós mesmos reproduzimos com arte, muita solidariedade e muita paciência.

O álbum está disponível no Youtube, Deezer, Spotify e Itunes.


Entrevista

Gagged

Gagged foi formada em São Carlos (SP) em 2004 e hoje é composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria).

A banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018).

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o disco “Sobre Nós”, a “cena” de São Carlos e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá pessoal, valeu pelo interesse e pela possibilidade de falar sobre a nossa caminhada.
A Gagged é uma banda de hardcore melódico do interior paulista, fundada em São Carlos. Dizemos “fundada” porque há um bom tempo moramos em cidades diferentes, viajando entre São Carlos, Campinas ou Araraquara. A banda sempre pretendeu dialogar com as referências fundamentais do punk e HC, especialmente as várias linguagens dos anos 80 e 90. É o que “salta ao ouvido” quando se ouve pela primeira vez, mas parte do tempero das nossas composições vem também de outras pegadas, dentro e fora do rock. Tivemos muitos músicos diferentes ao longo da história, e cada um foi deixando suas “digitais” no nosso trabalho, dá pra ver a banda se transformando nas gravações e no palco ao longo do tempo.
Desde 2004, quando tudo começou, a banda já teve “revezamento” em todos instrumentos, a única exceção é a bateria, marretada desde sempre pelo fundador, Murilo Ramos. Ali Zaher (guitarra) e Eric Costa (baixo) também carregaram o piano durante mais ou menos dez anos. Estes três participaram da gravação dos dois álbuns, e também dos clipes lançados até agora. Além deles, mais de dez músicos, inclusive vocalistas, estiveram na estrada, no palco ou no estúdio com a Gagged.
Hoje a banda conta com Murilo Ramos (batera), Zeca Ruas (vozes), Rodrigo Gutz (guitarra) e Eric Costa (baixo). Zeca entrou em 2013 e segue desde o final da tour de “Silent”. Rodrigo entrou no lugar no Ali durante a preparação para o lançamento do segundo disco, “Sobre Nós” (2018), ele fez toda a tour de lançamento e vem segurando sozinho, desde o começo de 2019, os arranjos que eram para duas guitarras. O Eric saiu mais ou menos na época que o Ali deixou a banda, ficou de fora da tour de lançamento, mas acaba de retornar pra dar os próximos passos da Gagged.
Essa constante transformação dá um aspecto peculiar para as músicas e shows, cada um que participou trouxe um pouco de suas ideias, timbres, preferências musicais, arranjos e, acima de tudo, sua subjetividade. Na parte musical, é um mosaico de referências, mas quando o assunto é visão de mundo, as convergências foram sempre fundamentais e isso é parte da nossa identidade. Todo mundo que passou pela Gagged sabe do papel da arte em provocar a reflexão, iluminar aspectos da nossa existência coletiva, de repensar o possível. Somos uma banda de pensamento crítico e fizemos questão de levar isso para as músicas.
Esse caldeirão aparece de maneira mais elaborada no último disco, “Sobre Nós”, e quanto mais vezes se escuta o álbum, mais evidente vai ficando. As músicas e letras foram pensadas pra serem decantadas com o tempo, são camadas de som e ideias e é preciso escutar e pensar aos poucos para que elas revelem todos os sentidos que tentamos imprimir.
Muita gente prefere algo instantâneo, viral, e isso ajuda no aspecto comercial, mas nunca quisemos ser uma banda para consumo em massa. É proposital: nossa linguagem aposta nas reflexões e arranjos que podem fazer sentido com alguma contemplação… é para sair da massa mesmo, questionar valores coletivos. Claro que nem todo mundo vai gostar, e não gostar não significa ser menos engajado ou algo ruim, nós mesmos temos nossas críticas ao disco. Mas, goste ou não do resultado, concorde ou não conosco, se parar pra ouvir e pensar, nos ver nos shows, vai ter a chance de ser provocado por perguntas e sentidos peculiares. Se nosso trabalho ficou bom, cada um vai dizer o que pensa. Pra nós, isso é o que vale a pena na música.

Entre o primeiro e o segundo disco a banda trocou alguns integrantes, a maior diferença que a gente vê é que as letras eram em inglês e agora são em português. Vocês podem falar sobre essas mudanças?

Tem bastante mudança entre os discos. Acho que quatro coisas ajudaram nessa transformação: a primeira, a própria evolução dos músicos que estiveram em ambos, depois, a entrada do Zeca (voz) e do Lique (guitarra), uma terceira, o momento histórico do país durante a elaboração do disco e por último, a forma como produzimos e gravamos.
A entrada do Lique, no final de 2014, adicionou muita qualidade na guitarra, ele fez uma baita dupla com o Ali nas cordas. Os arranjos evoluíram bastante entre o primeiro e segundo disco, são muitas linhas, timbres e detalhes pensados para cada lugar. O Lique tem uma mão esquerda muito rápida, o Ali tem uma mão direita muito precisa, as interações das guitarras foram ganhando destaque ao longo dos anos e chegaram ao ápice na época de gravação.
O Zeca Ruas foi responsável por escrever a maior parte das letras em português. Quando Ali e Murilo o convidaram pra entrar na Gagged, essa ideia já fazia parte da proposta, a banda sentia que cantar em português poderia aproximá-la do público. O nome e as letras em inglês, até o disco “Silent”, refletiam a forte influência da estética das bandas de hardcore brasileiro dos anos 90, mas a ideia era buscar outros espaços. Além disso, o Zeca, que já tinha composto e cantado em português em outras bandas, também preferia seguir por esse caminho.
As letras de “Sobre Nós” foram escritas entre 2013 e 2017, mais da metade delas no últimos dois anos desse período, a coisa tava fervendo pra todo lado, o momento político ficou completamente entranhado nas letras do disco e ele apontou para o desfecho trágico que vem se consumando até hoje. Nada que mereça comemoração… mas a gente estava apontando na direção correta. Todas essas situações se somaram no processo de produção do disco.
O Ali assumiu definitivamente sua carreira de produtor e a gente acabou usando toda estrutura do Estúdio Sunrise, em Araraquara. Essa possibilidade fez total diferença, não gravamos nada com relógio contado, regravamos tudo o que tivemos vontade. Óbvio que isso nem sempre é bom e também sabemos que acabou alongando o processo por demais. Por outro lado, esse percurso nos permitiu criar muita coisa. Parte importante dos detalhes de arranjos foi forjada no próprio processo de gravação. Se não tivéssemos essa liberdade, certamente teríamos algo bem menos elaborado e com certeza teríamos aprendido e curtido muito menos.

Vocês podem falar sobre o processo de composição das letras de “Sobre Nós”? Elas têm meio que a mesma linha de raciocínio, não?

Não foi nada planejado, as letras não foram pensadas para formar um disco conceitual, apesar disso, saíram totalmente conectadas. A primeira letra que o Zeca escreveu, assim que entrou na banda, foi “A Máquina”. Na verdade, foi “Vencer ou Viver”, que não saiu no disco. Elas foram escritas juntas, em 2013, e, mesmo não tendo um conceito pré-acabado, elas já davam a tônica do tipo de letra que estava por vir. Tudo refletia, sob ângulos diferentes, os efeitos do neoliberalismo sobre nossa vida como indivíduos, seja em aspectos universais, seja em termos nacionais.
A banda toda estava acompanhando muito apreensiva os desdobramentos da política brasileira, mas também as rupturas ao redor do mundo, em todo canto do planeta explodiam convulsões, migração, xenofobia, fome, conflitos e uma escalada de valores conservadores. Todas as crises que aparentavam ser distantes do cidadão comum, na verdade vinham, cada vez mais, se refletindo brutalmente em nossa vida, na convivência humana. Todo mundo trabalha mais, por mais tempo, vive vidas virtuais e vazias de sentido. Somos impulsionados a pensar como seres isolados, desconfiar e concorrer com as demais pessoas. A cidade é hostil, física e culturalmente. Ela é agressiva na moradia, no transporte, no trabalho pra maior parte das pessoas. Perdemos o controle sobre o tempo de nossa existência. Somos anestesiados por pequenas doses de prazer empacotado. A depressão se torna nossa vizinha permanente.
Vivemos extasiados pela hipersexualização da vida e pelas drogas, e empurrados à reificação de nossos sentidos primitivos que, controlados pelo dinheiro, nos torna dóceis e submissos. Vivemos uma sociedade de ressentidos, incompletos, massificados.
As letras refletem os diálogos da banda sobre esta realidade universal em suas múltiplas faces, sempre filtradas liricamente pelas leituras de Marx, Nietzsche, Freud, Marcuse, Sartre, Keynes e tantos outros autores que o Zeca vinha lendo naquele período.
Entre 2016 e 2017, quando o caos no Brasil se tornava evidente, as letras se voltaram ainda mais para entender como essa realidade afetava os problemas do país. Com menos ou mais metáforas, “Cidade Sem Lugar”, “31 de Março”, “Fim da Linha” e “Caleidoscópio” são diálogos sobre o Brasil deste período.

Falando em “Caleidoscópio”, ela tem a participação de Greg Hetson (Bad Religion, Circle Jerks, Black President, etc), né? Como surgiu essa colaboração?

Esse é um dos nossos maiores orgulhos haha. Nunca esquecemos do dia em que a notícia chegou: “Greg vai gravar!”. Foi um arranjo bem rápido, quem fez a ponte pra gente foi o Nick Townsend, que já era amigo do Ali há algum tempo e foi também parceiro dele nos primeiros trabalhos no Sunrise, ele masterizou nosso disco no seu estúdio, nos EUA. Nick, que também tocou em bandas foda por lá (escutem Fireburn!), de vez em quando fazia som com o Greg Hetson. O Ali fez todo o contato e depois escolhemos a música que achamos que merecia um solo dele. Sempre fomos muito fãs de Bad Religion. Uma cena comum na banda era: carro lotado, viajando para fazer show em algum canto, escutando discos do Bad Religion e o Murilo falando, pra toda faixa que começava, “Essa música é foda!”. Uma atrás da outra.
A gente conhecia o estilo de solo do Greg, seus bends, as tortuosidades harmônicas. “Caleidoscópio”, do arranjo à letra, é uma caravana rumando para o abismo, para o caos. A escolha era óbvia… match perfeito. Mandamos a música pra ele e ele curtiu. Em pouco tempo, enviou o solo pra gente. Infelizmente, depois da saída do Ali, a gente acabou não mantendo contato com ele. Seria muito foda poder tocar junto um dia. 

Eu li em uma entrevista (no site Seguimos Fortes) que alguns integrantes moram em São Carlos e outros em Campinas. Isso ainda é verdade? Como rola essa questão já que não são cidades assim tão próximas?

Atualmente só o Zeca mora em Campinas. Murilo, Eric e Rodrigo estão em São Carlos. Em geral, quando a intensidade de ensaios aumenta, sobra um pouco mais pro Zeca, ele vem de Campinas de carro. Muitas vezes rola ensaio só instrumental e ele acaba não vindo, mas já fizemos vários esquemas. Durante as composições de “Sobre Nós” chegamos a fazer alguns ensaios em Rio Claro, que fica no meio do caminho entre São Carlos e Campinas.
Não é fácil, mas, por enquanto, tá valendo a pena esse corre. A gente curte se encontrar, conversar sobre política, sobre a vida e fazer um som juntos. Confiamos uns nos outros e sabemos que podemos fazer algo que sejamos fãs. Isso nos motiva a seguir, apesar dos perrengues.

Pensando no mundo antes do Covid, Gagged é uma banda que costuma fazer tours, vocês podem falar sobre como é sair em tour sendo uma banda independente?

Esse lance do COVID foi muito foda pra gente. Não curtimos essa pegada de gravar em casa, celulares… Na verdade, nem tentamos. Demoramos meses para conseguir sair do isolamento e botar alguma ideia nova pra rolar. Agora começou a acontecer, mas deu canseira pra ajustar.
Na real, sentimos muito a falta de estrada, fazer show é um lance indispensável para uma banda. Viajar, conhecer as realidades locais, músicos de cada região, sentir o retorno do palco. Acreditamos que cada viagem ajuda a plantar uma semente em cada lugar, uma conexão real, com pessoas de verdade, e que isso ajuda nossa música ecoar mais longe.
Obviamente, a gente tá ligado que a música independente é cada vez mais virtual e que os shows autorais são cada vez mais vazios, mas em várias cidades acabamos construindo um público bacana, que nos permite ter confiança de levar shows com alguma frequência para cidades diferentes. Mas, além do som, fazer os contatos, se encontrar ao vivo é uma forma de também permitir que a gente siga com algum tipo de produção cultural.
A história do punk e do hardcore é sempre igual: as bandas acabam misturando a música com alguma atividade de produção artística, cultural ou ativismo. Nos lugares em que as bandas organizam seus shows e formam público, rola um circuito e um intercâmbio maior. Produtor independente só entra depois que já tem algo rolando e que garante que vai conseguir pelo menos fechar a conta do evento. No punk e hardcore, as bandas sempre foram o farol para a sustentabilidade econômica da “cena”.
Pra nós, que fizemos shows em todo canto no estado de São Paulo e nos estados vizinhos, foi ficando mais fácil organizar turnês, fechar parcerias com outras bandas bacanas pra viajar junto… O mais difícil é sustentar essa rotina cansativa de longas distâncias, noites mal dormidas e, em boa parte dos casos, morrer com uma fatia dos custos.
Já rodamos centenas de quilômetros domingo de madrugada, depois de shows cansativos, pra chegar a tempo do trabalho na segunda às 8h da manhã. Foram várias vezes esse esquema. Só quem tá muito confiante na sua música faz isso.
Também acreditamos que nos próximos projetos, quando acabar a pandemia, a gente já vai conseguir, pelo menos, fechar essa conta financeira e poder selecionar melhor os eventos… Mas, pra que isso fosse possível, tivemos que comer muito asfalto e salgado vagabundo de estrada.

São Carlos é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

São Carlos sempre foi uma cidade com bastante rock n’ roll, a presença de duas grandes universidades públicas sempre garantiu um monte eventos de Centro Acadêmico e DCE. Estruturas de som mínimas e espaços de boa qualidade garantiam que sempre rolasse algum rock. É verdade que muitos desses rolês eram de bandas de festa, um combinado de covers dos anos 1970, questão de tempo até tocar “Born to be Wild”. Mas a cidade sempre teve galeras diferentes que curtiam rock autoral, de todo tipo: além do rock n’ roll, a galera da música extrema, do punk e do hardcore fizeram shows e registros importantes no fim dos anos 80 e nos anos 90.
Na virada para os anos 2000, graças ao Marky Wildstone (Dead Rocks, Bifidus Ativus, The Mings), as turnês de bandas independentes que a Highlight Sounds (SP), Monstro Discos (GO) e Motor Music (BH) organizavam passavam quase sempre por São Carlos. Tocaram por aqui os gringos do Man or Astroman, Pulley, …And You Will Know Us by the Trail of Dead, Nebula, Flatcat, além de quase todas as bandas de hardcore brasileiro que despontavam nos anos 2000.
A Gagged é produto dessa ebulição. Além da banda, em meados dessa década o Murilo também começou a produzir. Ele fez dezenas de shows, também levou muita banda nacional e gringa para os palcos da cidade. Outros produtores importantes também ajudaram a manter sempre alguma atividade e até hoje, mesmo com altos e baixos, é uma cidade que abriga bons eventos. Mas, como em todo lugar, os shows de hoje são menos cheios e outros estilos ocuparam público que antes era de rock, especialmente na universidade. As festas se tornaram eventos gigantes e elitizados (veja o exemplo do Tusca), dominados por uma lógica muito mais mercantil e massificada. 

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Tivemos momentos em que escutávamos mais da mesma coisa, mas isso foi se transformando, e isso é uma coisa boa. Vamos tentando abrir a cabeça um do outro pra outras coisas e isso sempre aparece na hora de compor.
O Murilo tem escutado Turbonegro (Scandinavian Leather), The Damned, Queens of the Stone Age, Rocket From the Crypt e Ramones. O Zeca tem escutado bastante HC e uns mergulhos nas bandas de rockão e stoner, Good Riddance, Lowrider, Propagandhi, Black Drawing Chalks e Kyuss. O Rodrigo segue pesquisando referências em vários lugares, recentemente ouviu Periphery III, Andy Timmons (Resolution), Propagandhi (Today’s Empires, Tomorrows Ashes), Herbie Hancock (Live at Montreau) e Toto IV. O Eric tá numa vibe terapêutica, numas levadas mais emo, Hey Mercedes, The Get Up Kids, Lifetime, Saves the Day e Hot Rod Circuit estiveram presentes nos últimos tempos. 

Últimas considerações? Algum recado?

Em primeiro lugar, agradecer quem chegou até aqui. Se leu até agora é por que fez algum sentido caminhar um pouco dos nossos passos. Se ainda não conhece nosso material, não acompanha a gente nas redes sociais, saiba que cada novo comentário, compartilhamento ou indicação vale muito para nós, vai ajudar seus amigos a escutarem nossa música. A gente depende dessa rede de pessoas que curtem a estética do punk HC e estão a fim de repensar aquilo que vivemos. Fica ligado com a gente, a volta do Eric trouxe novo impulso e nós começamos um ciclo novo de composição. É um desafio bacana depois de tanta mudança de formação e depois da nossa tour de lançamento. A gente aprendeu muita coisa nesse processo e queremos por em prática nesse novo material e num possível lançamento, assim que a pandemia passar.

A discografia da banda está disponível nas redes de stream.


Entrevista

Kino Lopes – Dobradiça Enferrujada Discos

Começando pelo começo, caso você nunca tenha ouvido falar, experimental geralmente é quando a pessoa faz um som sem estrutura, usando elementos pouco comuns, usando um instrumento de uma maneira que não costuma ser usada ou tudo isso de uma vez. E no meu entendimento improvisação é quando a pessoa não pensa duas vezes, a composição é em tempo real quando grava um disco e ao vivo é literalmente improvisado, um show nunca vai ser como o outro.

Dobradiça Enferrujada Discos é um selo independente de Brasília que reúne alguns desses artistas. Inclusive, Qorpo, com quem fizemos uma entrevista há alguns meses. Conversamos com Kino Lopes, co-fundador do selo, pra conhecer um pouco mais sobre esse mundo.

Gostaria de deixar a observação que meu conhecimento sobre improvisação e experimentação se resume ao que eu acabei de escrever, então as perguntas surgiram da minha ignorância e curiosidade sobre o assunto.

Caso eu tenha errado na introdução, você pode falar resumidamente o que é improvisação e experimentação?

Eu diria duas coisas, que acabam sendo uma só. Primeiro que música experimental seria menos um gênero ou uma linguagem geral com signos que regem sua construção, mas seria essencialmente uma forma de criação que lida com a possibilidade de produzir a partir do contato com o material, encontrando estruturas através dele, e não o aplicando a um recipiente previamente estruturado. Eu não diria que isso resulta em uma ausência de estrutura, mas sim em uma dinâmica de ida e volta com o som, que de certa forma significa que a música recebe uma imagem como resultado do próprio processo, ao invés de caminhar em direção a uma imagem que determinaria seu equilíbrio e seus alvos. Existe uma singularidade formal inscrita no próprio encontro com os objetos musicais. E a segunda coisa é que a experimentação é marcada, sobretudo, pela incerteza do resultado. É uma maneira de fazer coisas que não sabemos o que são, seja através da improvisação, que implica em uma relação de investigação em tempo real, onde o espaço, as ações involuntárias do instrumento, e os membros da performance terão uma grande fala na negociação da evolução do material, ou seja, através da composição, que implica uma lapidação e uma sistematização que nasce da análise dos elementos. É claro que existe todo um espectro entre esses dois processos que tendem a se misturar.

Você também é um dos artistas do selo, você pode falar sobre a sua história com improvisação e experimentação? E como surgiu a ideia de um selo pra esse “gênero musical” meio desconhecido?

Durante as ocupações estudantis da UnB que ocorram em 2016 contra o golpe de estado e a PEC 241, os estudantes que ocuparam o departamento de música tinham formações muito distintas entre si, desde o jazz, como no meu caso, ao piano romântico, como no caso da Cá Rocha, até a música popular, como no caso da Marília Nóbrega, e ainda estudantes de outros cursos que ocuparam conosco e que tinham formação nenhuma. A improvisação, de uma forma completamente desprovida de qualquer tipo de agenda ou bula, foi a “solução” pra esse desencontro de vocabulário, que, na verdade, não seria uma solução porque ela não fornece exatamente um território expandido que acolhe as linguagens da forma como são, mas uma nova gramática que é construída através da deformação delas. A Dobradiça nasceu logo depois do fim das ocupações com a ideia de organizar as reverberações das experiências e dos aprendizados que surgiram naqueles meses, e que continuam surgindo mesmo três anos depois, hoje com ainda mais pessoas graças as apresentações, as jams e aos encontros, como, por exemplo, o QORPO que vocês entrevistaram, e também graças a compositora e professora Tatiana Catanzaro da UnB, que desde sua chegada no departamento tem fortalecido um estudo e uma comunidade voltada para a experimentação. Foram praticamente três meses com aquele tanto de gente morando no mesmo lugar, aprendendo um bocado junto, e acho que no fundo é uma tentativa de dar continuidade e de expandir aquela experiência.

Você pode falar sobre a coletânea “Mais a Soma de Seus Possíveis”?

Esse álbum foi em sua maioria a gravação de uma apresentação que fizemos no começo do ano no Estúdio Confraria, que consistiu de improvisações individuais, e a outra parte de gravações feitas em casa por quem não pode participar no dia, e mesmo assim algumas pessoas infelizmente não conseguiram participar. Um assunto muito frequente entre a galera sempre foi a ideia de que se uma improvisação individual é ou não uma improvisação. Quando improvisamos sozinhos sempre estamos à beira de um processo altamente controlado, à beira de uma composição em tempo real. Nesse projeto temos peças completamente improvisadas, como a do Luiz Rocha, até a composição escrita da Yuki Shimura. Como esse campo é extremamente expressivo e pode ser construído/formatado de tantas formas, é muito legal poder ouvir a peculiaridade do processo de cada um neste contexto solo, como também ouvir as semelhanças entre a composição e a improvisação. Era algo que ocorria nos encontros e afins, e queríamos a um bom tempo fazer gravando.

Além dos lançamentos, o selo promove eventos com seus artistas. Você pode falar um pouco sobre isso?

Por sorte nossa, diversos lugares deram espaço para a gente apresentar e montar projetos de forma completamente livre. É legal quando alguém acolhe uma proposta de apresentação onde não sabemos como vai ser. Quando a situação é ao vivo, existe a possibilidade de refletir coletivamente sobre o que aconteceu, e a audiência frequentemente apresenta uma perspectiva completamente criativa sobre o som, e assim como as pessoas que estão tocando, as interpretações são contrastantes, o que gera uma retroalimentação gigante. Também existe uma pluralidade de comportamento quando apresentamos ao vivo, desde pessoas mudando de lugar, posição pra ter outras perspectivas do que esta acontecendo, como por exemplo, um rapaz que foi da cadeira, pro chão, e depois deitou a cabeça no piano do Rafael Bacellar, até apresentações onde a pessoa traz um instrumento pra tocar junto. Em uma apresentação ao vivo fica latente o quanto a parte de ouvir e investigar o som é uma das partes mais criativas, se não a mais criativa. Até a pandemia, a Galeria Alfinete e o 705 Bar abrigavam apresentações rotineiramente pros projetos, e isso proporciona uma coisa maravilhosa que é ter uma espécie de laboratório, e eu digo isso tanto para quem está indo pra tocar tanto pra quem tá indo para ouvir. Existe uma relação de muita confiança no meio disso, já que se trata em sua maioria de apresentações onde não sabemos o que vamos tocar.

E falando nisso, existe muita diferença entre gravação e apresentação quando se trata de improvisação e experimentação?

Existe muito. A primeira coisa que vem em mente é o processo de mixagem e edição que existe depois da gravação. O Pedro Menezes da Zéfiro, que é quem grava e mixa a maior parte dos projetos da Dobradiça, é tão instrumentista quanto os gravados quando se trata da improvisação gravada. A possibilidade de interagir com a microfonação, com a edição, com o silêncio do estúdio, isso tudo é bem diferente em uma sala de apresentação com público, onde temos a acústica de um espaço povoado, a espacialização. A segunda coisa é o detalhe que o microfone pega. Gravamos um projeto de trio, ainda não lançado, que conta com a Cá Rocha (voz e percussão), Andrey Grego (violino) e eu (violão e trompete) que é em sua maioria num volume tão baixo, que não teria como ser percebido ao vivo da forma como é com a captação de múltiplas ferramentas. Já ao vivo, a materialidade do som, a sensação física ao ouvir um acorde desencontrado entre um sax, um trompete, uma clarineta e um violino, essa fisicalidade é um vetor determinante na forma que a improvisação vai tomar.

Como anda a situação na quarentena? O pessoal têm gravado em casa?

A situação da quarentena num geral anda chorosa levando em conta a completa falta de capacidade que temos de gerir duas crises ao mesmo tempo, tanto da pandemia em si tanto de um projeto de governo que desde seu princípio deixa claro que a perda de vidas não será motivo de preocupações, mais especificamente das classes mais baixas, essas que nunca tiveram quarentena ou isolamento social e que são obrigadas a entrarem em pelo menos dois ônibus lotados por dia. É uma situação completamente desnecessária, diga-se de passagem. No início da pandemia ouve a desoneração tributária para uma série de empresas privadas, mas sem a manutenção do trabalho, sem nenhuma defesa dos postos de trabalho. Deixamos de arrecadar bilhões de grandes empresas que poderiam ser usados para garantir a possibilidade do isolamento social. Enquanto isso no Chile foi aprovado, por iniciativa do partido comunista chileno, a taxação de grandes fortunas para garantir o isolamento de todos e todas. Então quarentena real, no Brasil, não houve.
Em relação à possibilidade de continuar com os projetos do selo: a não ser os projetos já gravados e ainda não lançados, o movimento em termos de produção que existe no momento são grupos de estudos, projetos para cursos virtuais, video aulas, e trabalhos voltados para a área da composição. Eu diria que uma possibilidade que se abre com a impossibilidade de se encontrar é a oportunidade de repensar a composição, um processo que é comumente feito individualmente, de forma interativa através da tecnologia, que é para onde temos virado nossa atenção.

Últimas considerações? Algum recado?

Queria agradecer pela entrevista, e principalmente pelo blog. A internet talvez seja o lugar mais perigoso hoje pra uma pessoa procurando no que pensar e como ocupar a cabeça, e o que espaços como o Bus Ride fazem, dedicando tempo e força pra falar de música criativa, pode não parecer muito em momentos como os que estamos, mas se deixar de existir, a diferença vai ser sentida de várias formas e em várias dimensões.

Os lançamentos do Dobradiça Enferrujada Discos estão disponíveis no Bandcamp.


Entrevista

Klitores Kaos

Klitores Kaos foi formada em Belém em 2015 e hoje é composta por Nia Lima (guitarra), Dy Lima (guitarra) e Line White (baixo) .

A banda surgiu da “vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade, com uma ideologia de fato feminista. Como uma forma de expressar nossas ideias, criticar o sistema opressor que serve aos interesses da elite burguesa, a desigualdade e caos social de nossa cidade, enfatizando a questão de gênero”.

Em Março de 2020 elas lançaram o primeiro EP, “Klitores Kaos”, e em Outubro lançaram dois singles.

Abaixo você lê nossa entrevista com elas, onde você conhece a banda desde o começo até as atuais mudanças e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Nia: A Klitores Kaos é uma banda baderneira antifascista de hardcore crust punk formada em 2015 em Belém, PA. Luma e Debby foram as fundadoras, porém não estão mais na banda. Além de Belém, já tocamos em São Paulo, Brasília, Tocantins e outras cidades dentro do Pará como Santarém, Marabá e Castanhal.

A banda foi formada em 2015 e o primeiro EP foi lançado em 2020. Vocês podem falar um pouco sobre ele? As músicas foram compostas durante esses vários anos da banda, né?

Nia: Sim, a banda começou com as minas ainda aprendendo a tocar, mas já criando as próprias músicas, e no começo haviam muitas críticas disso desmerecendo a banda, fora as dificuldades financeiras, que foi o maior problema para que o nosso primeiro EP saísse só esse ano. Em 2018, nós planejamos criar uma Vakinha virtual para quem pudesse nos ajudar e foi um sucesso! Muitas pessoas, de vários cantos, doaram fazendo com que ultrapassasse a meta, ficamos muito felizes. Uma pessoa que foi essencial para que esse EP tivesse a melhor qualidade possível e que fosse a nossa cara foi o Zé Lukas, ele abraçou nossas ideias e dificuldades e nos ajudou muito, ele estava presente na maior parte do processo. As letras são bem antigas mesmo, mas são assuntos da atualidade que ainda temos que nos questionar e lutar. Algumas letras foram de situações pessoais que tiveram que ser “expurgadas” e acabou que deu certo porque muitas pessoas se identificaram e sabem do que a gente tá falando.

Vocês podem falar sobre os dois singles que vocês acabaram de lançar? Eles foram gravados já durante a pandemia, né? Como foi esse processo de gravação?

Dy: Apesar de termos o máximo cuidado, ficamos bem apreensivas por conta de tudo o que estava acontecendo (Covid). A gravação do EP teve várias etapas, fizemos o roteiro de gravação, falamos com amigos que trabalham com produção e estavam dispostos a nos gravar. Chamamos algumas minas para participar da música “Atividade Subversiva” que ficou bem parecida com um grito de protesto (era essa a intenção). Separamos um dia para gravar as cordas e batera, e outro para a gravação do vocal. Como foi a gravação de músicas antigas, que já estavam na banda há um bom tempo, esse processo foi também uma despedida da vocal (Debby) que acompanhou a banda por anos, então foi um ciclo ali que se fechou pra nós.

E como vocês chegaram a escolha de lançar eles poucos meses depois do EP?

Dy: Como eram músicas antigas e que já tinham registro em vídeo (mas sem áudio oficial), decidimos lançar justamente para fechar o ciclo de músicas mais antigas da banda e para começar novos sons com essa nova formação.

Já que Belém sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Dy: A cena é bem diversificada, no mesmo evento podemos ter uma banda de reggae e depois uma de rock. O único problema ainda é casas de show abertas para bandas autorais, e isso acaba fazendo com que shows autorais rolem no “faça você mesma”.

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Nia: Todas nós curtimos sons variados (e põe variado nisso haha), eu por exemplo vou de Opeth à Falamansa, Manger Cadavre? à Dona Onete, a Dy gosta de MPB e também Nervosa, Blind Ivy e Joan Jett, e a Line de Pitty,  Brega Marcante e Xuxa haha. Claro que para influenciar no som da banda a gente tem referências de outros sons, mas com a gente não tem frescura com música, a gente gosta de quase tudo mesmo.

Últimas considerações? Algum recado?

A banda está um pouco parada porque temos novas integrantes, uma vocal e uma batera, estamos passando pelo processo de nos conhecer e criar um vínculo para seguirmos em frente compondo e tocando o terror! E os nossos dois singles que lançamos no Youtube e Bandcamp vão estar também em todas as plataformas digitais no dia 13 de Novembro, então se liguem!
E para finalizar, queremos agradecer ao Bus Ride Notes pela entrevista. Esperamos que em breve possamos voltar a tocar para ter uma resistência mais combativa contra esse fascismo instaurado no Brasil, conhecer outros estados ou tocar novamente nos lugares que já conhecemos, só que com a nova formação.

A discografia de Klitores Kaos está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista

Entrevista: Cama Rosa Gruta

Em agosto de 2018, no Caffeine Studio, São Paulo, algo começava a ser gerado. Bruno Trchnmm e Cindy Lensi (Cama Rosa) passaram pela cidade e toparam com Analena Toku (Gruta), o resultado desse encontro nós só veríamos dois anos depois. Já dá pra adiantar aqui que valeu a pena a espera.

É interessante pensar nesse espaço entre esse encontro e o fruto dele, é como se o próprio tempo tivesse um papel importante no resultado final tanto quanto o ato de compor e tocar. E o tempo mexe com a gente. Nesse caso, de tanto mexer com os três, em 1 de outubro de 2020, saiu o EP “Cama Rosa Gruta”.

O álbum, mixado e masterizado por Juliana R., conta com quatro faixas: Vértice Osso Jade; Cipó Ouriço Beat; Passo Cravo Cipó; Melancia Vapor Cigarro. Tão abstrato quanto os nomes das faixas denunciam, no Bandcamp o álbum é definido como um caleidoscópio vivo, um animal que se move mas deixa um rastro de imagens coloridas, um rastro que tem mais de dois anos de metamorfoses antes de se cristalizar, e até mesmo como uma explosão em câmera lenta.

Pra olhar um pouco mais de perto esse caleidoscópio ambulante que, após tanto tempo se cristalizando, agora explode lentamente, convidamos os envolvidos na obra para uma entrevista. Confira:

Primeiramente, como estão nessa quarentena? Todos saudáveis?

Anelena Toku: Por aqui tudo sempre na linha entre estar “bem”, ter a possibilidade de ficar em casa e ao mesmo tempo sentindo todas as sensações que vem com esse momento tão crítico e com tantos acontecimentos que nos revoltam.

Cindy Lensi: Tudo bem, sim. No começo da pandemia estava tenso, um ar denso que impregnou o dia-a-dia com nóias e incertezas. Agora estou me sentindo um pouco mais tranquila, e conseguindo pensar com mais clareza.

Bruno Trchnmm: Eu sou professor da rede municipal aqui em Campinas e tenho um filho de 6 anos, então por aqui a quarentena tem alguns tons particulares de desespero . Mas não dá pra reclamar não, pelo menos podemos trabalhar em casa.

Como surgiu a ideia do EP? Por que as duas bandas decidiram trabalhar juntas?

Anelena: Esse encontro foi bem espontâneo, aproveitando uma vinda da Cindy e do Bruno pra São Paulo, marcamos essa sessão no estúdio. A gente já tinha vontade de produzir algo junto. A uns anos atrás eu já tinha gravado um som chamado “Ruínas” com uns samples de guitarra do Bruno. No início de tudo, Gruta era só guitarra/violão e voz, depois fui fazendo mais coisas com eletrônicos e deixei a guitarra, então esse reencontro com as guitarras foi ótimo.

Cindy: Já tínhamos ouvido alguns sons da Anelena (Gruta) e também já vimos ao vivo uma apresentação do Fronte Violeta (Anelena Toku e Carla Boregas). Achamos muito legal. Foi o Bruno quem deu a ideia de convidá-la, e quando um dia estávamos indo tocar em São Paulo no Hotel Bar, isso em Agosto de 2018, fizemos o convite para gravarmos um improviso juntos lá no estúdio Caffeine no mesmo dia. A Anelena topou e assim surgiu o EP. Só tivemos noção melhor do som quando ouvimos depois mesmo. Esse ano convidamos a Juliana R. para fazer a mixagem do disco, então na verdade esse disco foi construído por quatro pessoas.

Bruno: Tem muito o lance de que o meio que a gente circula mistura muitas dessas abordagens de som, o noise, o improviso livre, a música eletrônica, performance… meio que tudo ao mesmo tempo. Então apesar de ser um percurso estranho, é muito natural porque tem um pouco desse trânsito: a gente gravou um improviso totalmente livre sem combinar nada, e depois trabalhou nesse som fazendo umas colagens, que é meio que o modo de trabalho da música eletrônica. Depois a Anelena gravou as vozes, que trazem pra mais perto de um tipo de canção, mesmo que abstrata.

Fronte Violeta

Como foi o processo de gravação? O que vocês buscavam transmitir durante as sessões?

Anelena: Foi tudo bem rápido, a base do disco foi gravada em uma sessão de improviso. Ali a gente passou por vários processos ao mesmo tempo, de cada um achar seu espaço no som, testar os timbres e como eles se relacionam. Depois disso o Bruno ainda mexeu nas faixas e foi inserindo mais coisas e revelando as músicas no meio desse material. Esse ano resolvemos finalizar e eu gravei umas vozes pra compor com os eletrônicos e guitarras.

Cindy: Quando buscamos colaborar com alguém, nunca damos nenhum direcionamento. A ideia é deixar acontecer na hora. Nunca dá errado, é incrível haha. Isso que é legal de improvisar. Talvez no começo, sei lá, leva uma meia hora pra nos encaixarmos todos no som, mas depois ficamos bem conectados, tanto que as vezes eu acho até legal dar uma “desconectada” no processo, começar algo sonoramente diferente do que já estava acontecendo. Acho que nesse EP “Cama Rosa Gruta” aconteceu isso, tanto que foram criadas quatro faixas nele, cada uma com sua forma, sem muito destoar uma da outra ao mesmo tempo. O EP acabou ficando com um desenho bastante orgânico, me remete a coisas naturais como estalactites, lavas e ao mesmo tempo tem uns samples de jazz que deixam com uma cara bem única. Também tem presença de linhas vocais, que até então não tínhamos colocado. Cada vez que eu ouço um pouquinho mais, se transforma em outra coisa, outras imagens ou outros tempos talvez.

As gravações ocorreram em 2018, certo? Qual o motivo de ter demorado dois anos para serem lançadas?

Anelena: Talvez esse tempo tenha servido para maturar os sons. Acho que a gente que costuma gravar sessões de improviso com as pessoas, o que mais temos é faixas e mais faixas gravadas de diversas épocas. Quando eles falaram que estavam retomando foi uma surpresa boa. A gente voltou a mexer nesse material em Março desse ano, então de lá até Outubro ainda foram alguns meses de atenção pra tudo isso. Pra mim ouvir gravações de outros tempos sempre traz uma nostalgia, porque o som também cria nossas memórias, mas também coloca a gente pra perceber o que tá ali com uma outra escuta. A primeiras vezes que eu ouvi as gravações de 2018, eu tive a sensação de estar diante de um horizonte distante, olhando por um binóculo, e quando gravei as vozes esse ano, eu sinto que estava tentando trazer esse horizonte pra mais perto, para o agora.

Cindy: Demoramos porque naquele mesmo ano começamos tocar bastante nos lugares e também precisávamos juntar um dinheiro talvez, além de outros contratempos da vida pessoal, mas rolou. Queríamos que uma pessoa mixasse pra gente com carinho, pois não temos essa habilidade. Esse ano por mais difícil que está sendo por conta da pandemia, coincidiu de dar certo a continuidade desse material.

Bruno: É aquela coisa também, o nosso tempo pra trabalhar em música é sempre o tempo da sobra, geralmente. Tem trabalho, casa pra limpar, coisa pra estudar. Então tem que se acostumar com a ideia de que as coisas vão se estender no tempo, porque no momento é a única forma que elas podem sobreviver. A gente tem aqui uma ideia muito fixa que ser artista é viver de arte, o que é uma farsa, porque a maior parte de quem produz arte (no mundo inteiro, inclusive), não vive de arte. Mas mesmo assim produz. Esse método de trabalho, inclusive, de lidar com improviso, colagem, tem a ver com esse tempo que sobra. É uma forma de trabalho que, apesar de soar ou parecer meio “torta”, é muito dócil a esse tempo do dia-a-dia, sabe? É uma forma de fazer música que entende quando você chega cansado do trabalho ou só tem tempo livre no final de semana.

Cama Rosa

De onde surgiram os nomes para cada faixa?

Anelena: Pra mim as músicas todas me trazem uma sensação de trilha sonora, me remete a muitas imagens. Ao mesmo tempo são imagens bem abstratas, fluídas e não lineares. Como se o sentido delas fosse construído a partir de uma organização própria. Essa ideia de cada um sugerir uma palavra pra cada som surgiu um pouco disso, de serem nomes que trouxessem mais uma sensação do que nomear propriamente a música.

Cindy: Para dar um contexto para entender esses nomes – no nosso Bandcamp tem o registro de todas as nossas improvisações que gravamos. Colocamos duas faixas e damos dois nomes para cada uma, por exemplo “Hibisco/Navalha”. A escolha desses nomes são mais aleatórias, em uma vibe parecida com um jogo de palavras, tipo aqueles exercícios de automatismo que os surrealistas usavam, mas nada profundo. Em algum nível nosso som surge na mesma maneira em que nossas palavras surgem ou vice versa. A gente decidiu (por grupo no Whatsapp) que seria legal para o EP “Cama Rosa Gruta” usar três palavras dessa vez para cada faixa, já que somos em três. Foi interessante, teve até palavra que repetiu e deixamos. As palavras foram; vértice osso jade — cipó ouriço beat — passo cravo cipó — melancia vapor cigarro.

 O que vocês buscaram fazer de diferente em relação à uma gravação “tradicional”?

Anelena: Acho que meus processos de gravação com Gruta sempre foram zero tradicionais, sempre gravando do jeito mais caseiro possível porque era como eu tinha como fazer. E foi assim com as vozes que gravei. Somado a isso, toda a troca de arquivos e comunicação durante um início de quarentena/pandemia com certeza marcaram essa gravação. Acho que outra parte do processo importante foi a mixagem e masterização que a Juliana R. realizou. Foi importante ter alguém de fora, mas ao mesmo tempo que nos conhece bastante pra desenhar a forma que isso teria.

Cindy: Boa pergunta, pois eu não acho que a gente fuja da gravação tradicional. Inclusive a maioria de nossas gravações são bem lo-fi. E nesse a gente gravou em estúdio, para seguir a tradição. Mas a gente sempre dá uma mexidinha aqui e ali depois que estamos com o material.

Bruno: A gente faz o que pode com o que pode né haha. A gente gravou essa sessão em um esquema de “ensaio gravado”, que é uma gravação ao vivo bem simples. Essa sessão depois ficou comigo e eu aos poucos fui editando o que pareciam as partes mais legais, cortando uns trechos, montando uns loops com partes mais bacanas. Eu cheguei até a achar que perdi esse disco uma vez, quando meu PC pifou. Esse ano, no choque do começo da quarentena eu peguei pra ouvir essas faixas, dei uma mexida última e parece bem legal. Coloquei os samples (um do Sun Ra e de uma videoaula de bateria ensinando a levada do Elvin Jones haha) , só que feito do meu jeito, muito tosco. Então a gente mandou para a Juliana transformar aquela colagem tosca em algo mais coerente, o que deu esse espaço pra Anelena gravar as vozes.

Podem falar um pouco da arte da capa?

Anelena: Quando começamos a pensar a arte logo me veio a imagem de colagens e recortes, mas como o Bruno escreveu no texto que divulgamos, era uma idéia de uma colagem em movimento, que se alterava. Eu busquei umas fotos minhas de 2015 e criei essa montagem a partir desses fragmentos. Uma tentativa de recriar memórias e experimentar esse horizonte que não é estático, um horizonte que escapa.

Cindy: A capa é um projeto gráfico da própria Anelena Toku. Uma colagem que casou muito bem com os sons. A combinação das palavras, o som e mais a arte da capa conversam tão bem que eu acredito que por conta disso o disco conquistou vida própria.

Bruno: Eu gosto muito de todos trabalhos visuais da Anelena, muito mesmo. A colagem tem um lance como o do sample, é uma parada que parece meio dura, porque é uma imagem fixa que você pega de um lugar e põe no outro, não tem muito o que mexer. Mas a colagem e o sample também tem o lance da repetição, que você pode jogar no espaço e vira uma coisa muito fluida, que você pode mergulhar.

E os projetos futuros de cada um dos grupos? Pretendem fazer mais coisas juntos futuramente?

Anelena: Gruta é um projeto meu bem pessoal e que nos últimos tempos esteve meio dormente principalmente porque tenho desenvolvido bastante coisa com o Fronte Violeta, que é meu projeto com a Carla Boregas. Acho que Gruta, Cama Rosa e Fronte Violeta sempre tiveram uma proximidade por habitarem um mesmo universo de som, então com certeza imagino que continuaremos essas trocas.

Cindy: Seria muito legal continuarmos fazendo coisas juntos, assim espero. O Cama Rosa está pra lançar um disco com as canções, nós temos composições com letras que gravamos no final de 2019. Também está sendo mixado e o lançamento será em breve. Então temos todo esse material de improviso no nosso Bandcamp, mas geralmente quando nos apresentamos, tocamos nossas canções que considero um desdobramento das improvisações, já que muitas bases saíram de lá.

Bruno: Eu sempre brinco com a Anelena e a Carla que a gente tinha que fazer um disco ou um festival com projetos que tem cores no nome, Cama Rosa, Fronte Violeta, Objeto Amarelo… talvez montar tipo uma big band.

“Cama Rosa Gruta” está disponível no Bandcamp.


Entrevista

Refluxo Mental

Refluxo Mental é uma banda de punk rock de São José do Rio Preto, interior de SP, formada em 2019 e hoje composta por Ariel “Joio” (bateria), Everton “Facada” (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício “Mau” (baixo).

Em 10 de Outubro de 2020 eles lançaram seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”, “gravado e mixado com a ajuda do Estúdio Jardim Elétrico, do ex-integrante (mas para sempre integrante) da Refluxo Mental, Lucas Dias”.

Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”

Abaixo você confere nossa entrevista com eles:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Mau: A banda surgiu há uns dois anos? Quando eu vi que foi a menos que isso eu realmente fiquei surpreso, sabe? Foi Joio e eu conversando num dia chuvoso sobre fazer um som subversivo e eu mostrei a letra da musica “Crente” pra ele. A gente tinha uma outra banda que o vocalista não queria cantar musica com critica política, saca? E eu conhecia um cara que iria querer, que era o Matheus. A banda faz esse punk 77 com um pouco da influência de cada um e acaba saindo bem característico.

Em mais de uma ocasião vocês disseram que a banda veio pra combater o reacionarismo que tá tomando conta de tudo. Vocês começaram a banda pensando nisso ou foi algo que veio depois?

Matheus: Desde o início tínhamos a intenção de fazer crítica social. O próprio nome da banda foi uma intenção de demonstrar isso. Refluxo Mental é a tentativa de fazer a galera refletir sobre certas questões presentes na realidade brasileira, colocar a mente pra pensar sobre outros ângulos, que não costumam chegar a todos os espaços. O combate à barbárie e ao obscurantismo vem com informação e reflexão. É o que procuramos fazer.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Socialização das Perdas”? Houveram mudanças de formação na banda nesse período, né?

Matheus: Ideias para composições foram muitas. Como a inspiração das nossas músicas surge dos problemas sociais que impactam nossa realidade, temos (infelizmente) conteúdo de sobra para trabalhar. A parte difícil é filtrar nossas ideias de uma forma mais ou menos coerente, a caber numa melodia bacana, na velocidade do punk rock. Cada ideia finalizada começava a ser gravada de imediato. Como gravamos em home studio, íamos criando e gravando, criando e gravando, até chegar o momento de dizermos: bom, melhor a gente fechar um CD aqui, finalizando esse primeiro momento da banda (que contou com diversas mudanças).

Mau: Mudança de formação foi apenas que a banda começou como um trio Matheus, Joio e eu e depois entrou o Lucas Dias, que acabou saindo para montar o Estúdio Jardim Elétrico em Lençóis Paulista, onde foi mixado e masterizado nosso CD, e entrou o Facada que já tocava com o Joio.

Rio Preto é interior, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí?

Matheus: A cena do punk rock de maneira nacional já não é muito forte. O punk não é um estilo que agrada muita gente. No interior é ainda mais difícil. É complicado manter um ciclo constante de pessoas nos shows. Nem se fala sobre captar galera nova para ouvir o som. A internet tem ajudado bastante a esse respeito.

Vocês têm uma música chamada “Rio Preto” no disco, né?

Matheus: “Rio Preto” surgiu da indignação ao alto número de eleitores do Bolsonaro nas últimas eleições. Nossa região teve no segundo turno das eleições de 2018 uma taxa de 78% de apoiadores do dito-cujo (que é um dado presente nos primeiros versos da música). Não é fácil sair nas ruas sob o alto risco de trombar com o retrocesso. É claro que nem todo mundo compactua com as barbaridades que vem nesse pacote. Tem muita falta de informação (e desinformação) que ronda a cabeça das pessoas. É o preço de um país que investe parcamente em educação pública de qualidade. “Rio Preto”, apesar de levar o nome da cidade, representa diversas cidades que sofrem do mesmo problema.

E como vocês foram, do interior de SP, parar em Moçambique?

Mau: Cara, é uma história bem legal. Um youtuber moçambicano chamado Miguel Jorge viu um comentário que eu deixei com o Youtube da banda em uma notícia sobre a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) em Angola e entrou para ver os vídeos do canal, curtiu as músicas e marcou em uma postagem no Facebook que estava ouvindo Refluxo em Moçambique. Daí pra frente o pessoal foi pesquisando sobre e foram curtindo a página e ouvindo as músicas.

Últimas considerações? Algum recado?

Mau: Queria falar pro pessoal curtir as nossas redes sociais, dar uma força, que é disso que sobrevive uma banda autoral mesmo. Compartilhem, curtam, comentem! A gente faz nosso som aí com muita humildade e é verdadeiro, é o que a gente gosta, né? Afinal de contas se fosse apenas por publicidade pra barzinho a gente fazia cover de rock dos anos 80. Refluxo é Matheus, Facada, Mau e Joio.

“Socialização das Perdas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Derrota

Derrota foi formada em Americana, interior de SP, em 2012 e hoje é composta por Leonardo Cucatti (guitarra), Nathalia Motta (guitarra), Bruno Meneghel (guitarra), Eduardo Meneghel (baixo) e Claudio Cestare Jr. (bateria).

A banda é instrumental e eu me atrevo a dizer que o som é quase post-rock. Eu acho difícil descrever uma banda instrumental quando o som não é bem específico. No caso da Derrota a sonoridade é bem melódica e um tanto pesada.

Depois de dois EPs e três singles, em Abril de 2019 a banda lançou seu primeiro disco, “Parece Insuportável”.

A banda já participou de algumas coletâneas, incluindo o primeiro volume da “Discografia Caipirópolis”, composta por bandas do interior de São Paulo e lançada por nós do Bus Ride Notes em Julho de 2020, e, mais recentemente, da “Sangue Preto”, “projeto em parceria com bandas, artistas, fotógrafos e selos independentes com a proposta de combate ao racismo na sociedade em que vivemos”.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Leonardo: Eu e a Natt montamos a banda em 2012, mas na época não era realmente uma banda ainda, era mais a nossa vontade de criar e compor. Diversos amigos tocaram com a gente nesse começo, por isso entre 2012 e 2015 a banda praticamente não existiu, não fizemos muitos shows e nem gravações. De 2015 pra cá é que a banda foi tomando forma com uma formação mais sólida.

Eu acho meio bobo perguntar por que uma banda toca certo gênero musical, mas instrumental é algo que tamos começando a ver mais agora, até um tempo atrás era difícil conhecer mais de uma banda, mesmo no underground. Eu queria perguntar como vocês fizeram essa escolha e como vocês vêem esse cenário específico de projetos instrumentais atualmente.

Leonardo: Eu sempre ouvi muita música instrumental, desde Jazz até bandas como Tortoise e The End of the Ocean, fora o Hurtmold, que era bem próximo da gente, vi um milhão de show deles. E sempre achei muito foda o lance de subir no palco e passar toda emoção e fúria sem dizer uma só palavra. Dessa forma, pra mim, foi muito natural pensar numa banda instrumental. Hoje em dia realmente tem muito mais bandas instrumentais, até mesmo de estilos bem diversificados, festivais somente com bandas instrumentais, o que é muito legal. Por exemplo, o festival “A Música Muda” que tem esse nome ambíguo muito interessante.

Eduardo: Antes de entrar no Derrota eu tinha assistido alguns shows e me chamou muita atenção como o som era expressivo. Ao mesmo tempo que cada guitarra está tocando um riff/tema diferente, elas se complementam e acho que isso deixa o som mais expressivo. Além disso, os efeitos que usamos também ajudam a passar a mensagem da música, mesmo sem dizer nada.

Natt: A gente nem pensou muito em ser instrumental acho, era uma ideia de brincadeira por que a gente falava que vocalista enchia muito o saco, daí ficou instrumental e acostumamos assim haha. Ah, e inclusive, festivais de música instrumental, nos notem! Nunca tocamos em nenhum que eu me lembre haha.

Vocês têm alguma influência específica pra esse tipo de som ou foi o normal de toda banda: cada um chega com a sua bagagem e vamos ver o que acontece?

Leonardo: Eu falei basicamente as minhas influências na resposta anterior, mas com certeza a bagagem musical de cada um e as emoções que passamos no dia a dia são nossa maior influência.

Natt: Eu nem ouço música instrumental, no máximo um Hurtmold as vezes haha. Cada um carrega sua bagagem de desgostos na vida, isso é o que mais conta no Derrota, acredito.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Parece Insuportável”, por que ele demorou pra sair, né?

Leonardo: Então, esse foi um período complicado hehe. Como falei antes, a banda não tinha uma formação fixa e estabelecida e nessa época foi mais complicado ainda porque a Natt ficou um ano mais ou menos fora da banda, então eu e o Jesse (ex-guitarrista) continuamos compondo, mas não tínhamos baterista e nem baixista. Quando a Natt voltou para a banda e o Eduardo entrou, as músicas tomaram forma e começamos a gravar as prés, mas como ainda não tínhamos baterista ficamos mais um bom tempo empacados com o disco. Quando o Marcel (ex-baterista) entrou na banda é que começamos as gravações pra valer, ele praticamente entrou na banda gravando o disco. Depois ainda demoramos um tempo com mixagem e escolha da capa, tudo isso demorou bastante mesmo.

Natt: É o “Chinese Democracy” do interior haha. Foi demorado, mas é um dos discos mais lindos que já gravamos. O bom é que saiu bonito, imagina se demorasse e ainda saísse uma merda? Aí seria o fim…

Vocês podem falar um pouco sobre o clipe de Jus De Pomme?

Eduardo: O clipe reforçou a ideia de que uma música instrumental pode passar uma ideia bem clara. Quem vê o clipe consegue entender a história e a mensagem da música.

Natt: Esse clipe é meu favorito, ele foi gravado aqui em Americana mesmo, com nosso baixo orçamento, e muita gente amiga participando. Foi emocionante do começo ao fim a gravação desse clipe. Sou eternamente grata a cada um que se dispôs a ajudar a gente nessa ideia.

Leonardo: Foram dois dias intensos de gravação e que deixaram saudade! No primeiro dia gravamos em São Paulo com as skatistas, fizemos algumas cenas na pista do chuvisco, na rua e principalmente no minhocão. No dia seguinte gravamos com a banda e os manifestantes aqui em Americana, numa rua meio abandonada, bem o cenário caótico que pensamos mesmo. Tínhamos a ideia de colocar fogo ao redor da banda e deu tudo certo! Pensamos muito em como fazer isso de forma segura. Quase tivemos um pequeno acidente quando, sem querer, um dos assistentes da produção deixou respingar álcool na bateria, tivemos que parar tudo, limpar. Depois disso ainda ameaçou chover e começamos a desmontar o equipamento. Foi um momento meio tenso, porque já estávamos todes ali pra começar a gravação, mas não podia chover. No final não choveu, montamos tudo de novo, o que nos atrasou mais um pouco, mas de tudo certo e o resultado ficou incrível!

Vocês podem falar sobre a música que vocês gravaram pro Projeto Sangue Preto? Alguns integrantes da Derrota também produziram a coletânea, não foi?

Leonardo: Sim, eu estive a frente da produção da coletânea. Depois da onda de protestos contra o racismo por conta do assassinato do George Floyd nos EUA eu comecei a pensar o que nós, enquanto banda no Brasil, poderíamos fazer; e com essa ideia na cabeça eu fui conversando com outras pessoas de bandas como o Anderson do Desobeça, o Xandão do Crexpo, a Josie do Hayz e também o Clayton do selo A Saga e o Canti do selo Caustic Recordings, e a ideia foi tomando forma, criar essa coletânea contra o racismo e contra a violência e opressão policial. Fui conversando e convidando outras bandas e artistas do Brasil todo, no final somamos 25 bandas e 11 artistas que ilustraram o encarte. Todo o processo de produção e criação da coletânea foi discutido entre as bandas para que chegássemos num acordo desde a capa até as opções de como e quando lançar. Saiu em CD pela união dos selos Läjä Records, Caustic Recordings, A Saga, América do Sul, Inside A5 e de todas as bandas envolvidas. Quem se interessar pode comprar uma cópia, que acompanha um lindo encarte em formato de livrinho A5, diretamente com as bandas.

Americana é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

Natt: A cena daqui sempre foi muito intensa, tivemos vários festivais fodas, Americana era referência no role underground, hoje em dia um pouco menos. Passamos por uma fase da qual parecia que as pessoas não gostavam mais de sair de casa pra ver bandas tocarem, essa era minha percepção uns anos atrás. De repente voltou o interesse, aqui mesmo no HUP (estúdio da qual nossos guitarrista e baterista fazem parte) sempre aconteciam rolês incríveis, e estamos com saudades disso.

Leonardo: Realmente Americana já teve shows e festivais memoráveis na música independente. Sempre partindo do faça você mesmo, as bandas e amigos sempre se mobilizaram pra fazer a coisa acontecer.

Últimas considerações? Algum recado?

Leonardo:Agradecemos demais o espaço e a conversa! Há alguns meses vocês lançaram uma coletânea com uma música nova, só podemos agradecer mesmo, de coração, pelo apoio e pelo incentivo a diversas bandas independentes. A cena independente só acontece com nossa força unida! Acompanhem a gente nas redes sociais, Bandcamp… e outras bandas também!

“Parece Insuportável” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

De Carne e Flor

De Carne e Flor é uma banda de post-hardcore formada em São Paulo em 2016 e hoje composta por Bruno Araújo (voz), Dan Carelli (guitarra), André Jordão (guitarra) e Eliton Si (bateria/voz).

Em Novembro de 2018 eles lançaram o primeiro EP, “Teto Não Familiar”, e fizeram o primeiro show.

Como quase todo post-hardcore e post-rock o som é muito melódico e as letras emotivas e de natureza vulnerável, nesse caso sob um mesmo tema. Por esse motivo eu recomendo que você ouça antes de ler a nossa entrevista, porque esse aspecto pessoal faz cada um interpretar as letras de uma maneira diferente.

A banda cita como influências Alexisonfire (Canadá), Envy (Japão), Touché Amoré (EUA), Pianos Become the Teeth (EUA), Colligere (Brasil), Suis La Lune (Suécia) e Viva Belgrado (Espanha), inclusive o nome da banda foi inspirado na música deles de mesmo nome, assim como a “inspiração para a exclamação dos versos em idioma latino, o que aumenta a dramatização pois viabiliza uma maneira mais carregada de pronunciar os versos”.

E nem só de referências musicais é feito “Teto Não Familiar”, esse é também o título do segundo episódio do anime “Neon Genesis Evangelion”, exibido pela primeira vez em 1995 no Japão.

Entre todos os seus detalhes, o EP contém quatro faixas que, dispostas de modo linear, formam a frase “A âncora que jogamos nas poças se transforma em medo e em desejo de um teto não familiar”.

A capa do EP é uma ilustração de Cristal Ganda, baseada em uma foto do quarto do vocalista Bruno. A marca quadrada no canto superior direito é uma referência ao Selo Preto (fundado por integrantes da banda), representando seu primeiro lançamento inédito.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Bruno: A banda foi formada em 2016, com integrantes espalhados pela metrópole de SP (e continua sendo assim, mesmo com as mudanças de formação). O som é gritado, melódico e confessional.

“Teto Não Familiar” é um EP conceitual? O nome é uma referência e as letras seguem uma mesma linha de raciocínio. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas?

Bruno: “Teto não-familiar” é o nome do segundo episódio de Neon Genesis Evangelion. A ideia de lançar um EP com esse nome surgiu na minha cabeça já na época em que a Black Clovd estava na ativa, era pra ser o nome do próximo lançamento, só que em inglês. O tema não foi intencional nas letras, mas ao ver as quatro músicas prontas, enxergamos que elas compartilhavam essa sensação de despertencimento, daí de última hora surgiu a ideia de formar uma sentença com a ordem dos nomes, gerando essa interação entre todos os elementos do EP de forma espontânea.

O primeiro show da banda foi depois do lançamento do EP, certo? Isso não é muito comum, como vocês chegaram a essa escolha?

Bruno: Acho que foi uma questão de foco. Queríamos estar bem ensaiados já na estreia, pra marcar bem o lançamento. Ter o EP lançado também serviu pra atrair o público e o pessoal que andava curioso com a banda desde o início, já que ele levou dois anos pra ser lançado desde que a banda começou. Aconteceu também de o André (guitarra) entrar na banda na reta de finalização do EP, então foram necessários mais uns ensaios pra ele aprender os sons e se inteirar com todo mundo.

A última música do EP, “De um Teto Não Familiar”, tem uma história, né? Você pode falar sobre?

Bruno: Escrevi a letra inspirado numa conversa com a minha mãe, onde ela narrou a trajetória de uma parente próxima que fugiu de casa ainda muito jovem pra se estabelecer em São Paulo (toda a geração anterior à minha da minha família foi nascida e criada no Ceará, tanto do lado materno quanto paterno). A ideia era fazer uma crônica ou um conto mesmo, mas acabou virando uma homenagem aos familiares e ao mesmo tempo um desabafo, tendo a luta e sofrimento que motivaram a ação libertadora da parente e toda sua geração como contraste à letargia e deslocamento que sentia na época que escrevi, e que também vejo permeados coletivamente hoje em dia. Não é algo novo ou criado por nós, mas em discussões ou reuniões a gente vê a diferença de tratamento que as gerações dão para questões de saúde mental. Não dá pra dizer precisamente se é a maior consciência/importância que costumamos dar sobre o assunto que nos faz sofrer do mesmo problema de formas diferentes, mas vejo a discrepância. Enfim, quanto mais falo sobre, mais enrolado fico pra explicar, e acho que a música é sobre isso também (risos).

Em Dezembro vocês participaram da coletânea “Tentáculos” do Selo Preto, que foi fundado por alguns integrantes da banda. Vocês podem falar um pouco sobre ela e sobre o selo?

Eliton: Não tínhamos realizado nenhuma apresentação até a estreia da banda, no final de 2018, então ficamos na febre de tocar por aí. Planejávamos agitar um show por mês por aqui e tocar em todo lugar que nos convidassem. Para isso resolvemos batizar os eventos enquanto o nome de Selo Preto aparecia no meu imaginário e em algumas conversas com bafo de bebida. Ocorreram cerca de 15 apresentações e isso agitou nosso pessoal de alguma forma. Tínhamos do lado as bandas Ravir e Obscvre Ser, que trouxeram bandas de fora de São Paulo e superaram os desafios de atender os custos disso. A coletânea então representava, no fim daquele ano, a compilação de todas as bandas que cruzamos nos eventos que essas bandas tocaram. Me sinto particularmente realizado por ser uma coletânea eclética, afinal tinha anseio de tocar com bandas variadas, no nosso limite ficou um conjunto bem diverso de músicas. O nome veio justamente dos vários “braços” de um polvo, que ele usa para alcançar alimento e trazê-lo para a boca. O objetivo geral é aumentar a visibilidade das bandas que tem seus materiais muito bem produzidos e que duram horas ou poucos dias no feed. Por enquanto o Bandcamp vem contando a história de lançamento das bandas que me impulsionaram a criar algo como um selo, no formato de linha do tempo. Para facilitar que essas bandas de fora viessem tocar aqui, estávamos para reformar o espaço Névoa na zona leste para voltar a realizar eventos lá, ainda bem que não rolou, afinal a pandemia viria deixar tudo isso lá estacionado.

Como anda o aspecto musical nesse 2020 e os planos da banda?

Bruno: É desolador, pois ouvimos falar de picos e estúdios passando por dificuldades, alguns até fechando, e na “camada acima” da nossa no circuito, o pessoal que trabalha nos palcos e na estrada tendo que se sustentar de outras formas por não ser possível realizar shows. Por outro lado vemos bandas próximas com iniciativas legais acontecendo na cena, desde ações beneficentes e merch até lives e sessões caseiras pra manter o pessoal unido, tendo como exemplo o pessoal do Caoticagem, Lili Carabina, Obscvre Ser e Navio. Tem rolado também um interesse em lançar sons caseiros, o que é um grande aprendizado pra quem resolve se aprofundar. Com o equipamento que adquirimos recuperamos o fôlego e retomamos de forma remota, junto com o produtor Igor Porto (que também produziu o EP), as gravações que iniciamos em Fevereiro e ficaram paradas desde então por conta da pandemia.

Últimas considerações? Algum recado?

Bruno: Agradecemos o convite e o interesse na entrevista! Como foi adiantado, estamos trabalhando em dois novos sons e esperamos lançá-los o quanto antes. Esperamos que todo mundo se cuide e ao mesmo tempo lute contra a inércia. Sdds shows.

“Teto Não Familiar” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Entrevista: Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bus Ride Notes – Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso. Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo. A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal. Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018. Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições. Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos. Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado. Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha! E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso. Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado. A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos. A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi. O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha! O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz. Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum. Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal. Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre. Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai haha!

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro. Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão. Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!
Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos. É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”. Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico! A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha. Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto. São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza. Mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”. Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos. Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país. Mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.