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Evento / Resenha

Inferno na Terra II

Pra fechar nosso ano de posts, vamos falar da festa da firma que aconteceu em Rio Preto: a segunda edição do festival Inferno na Terra.

A multiplicação de bandas e cenas dos últimos anos felizmente tá acontecendo em todo lugar e aqui não é diferente.
Eu considero Rio Preto minha casa, apesar de não morar mais lá, e essa renovação da cena pra quem ouve muita música e só fala disso gera muitos sentimentos.

No começo dos anos 2000 a gente tinha uns 15 anos de idade e haviam quase dez bandas de moleque fazendo música autoral. Quando eu paro pra pensar nisso acho incrível, já que é uma cidade de tamanho médio. Bom, logo apareceu a indústria do “tem que vender ingresso pra tocar” e dos bares de banda cover que acabaram com tudo isso por anos. Foi de gelar o coração. Como eu disse: muitos sentimentos.
Se algo sobreviveu durante esse tempo, eu não fiquei sabendo.

Há uns três anos conheci novos amigos, as bandas que eles têm criado e o mais importante: os espaços que têm conseguido criar. Afinal de contas, quem mora no interior sabe que precisamos usar o “faça você mesmo” e armar um show no quintal se quisermos ver um, já que a única outra opção é viajar pra outra cidade, o que é longe e caro.

O coletivo RPHC, formado por amigos das bandas locais, tem realizado eventos na cidade e o Inferno na Terra é um deles. Essa segunda edição ocorreu no Centro Cultural Vasco, um lugar extremamente agradável: tem o salão de shows, uma praça de alimentação ao ar livre onde haviam o bar e comidas (opções veganas incluso, claro) do lado de uma área arborizada com bancos pra você sentar e beber uma água se escondendo do Sol (calor infernal).

Essa edição do festival contou com as bandas:

D-Compositores, banda de punk rock de Rio Preto, formada em 2018. No seu repertório eles tocam as músicas dos antigos projetos solos de alguns integrantes e as novas músicas que eles vêm compondo.

Pinscher Attack, duo de HC rábico de Monte Azul Paulista – SP. Eles têm vários EPs que podem ser ouvidos no Bandcamp ou nas redes de stream. Fizemos uma entrevista com eles, que você pode ler nesse link.

Tatuajë DiCarpa, banda Rio Pretense de powerviolence debochado. Eles têm um CD e um Split lançados, que podem ser ouvidos no Bandcamp. Também fizemos uma entrevista com eles, que você pode ler aqui.

Nada de Novo no Front, power trio de punk rock de Rio Preto, recentemente formada. No canal do Youtube da banda você pode ouvir várias músicas.

Dischord, banda crust formada em 1996. Após um tempo parados eles recentemente voltaram com uma nova formação fazendo vários shows e prestes a lançar material novo. No Facebook da banda há alguns links pra ouvir os sons já lançados.

Gagged, banda de hardcore melódico formada em 2004 em São Carlos que tem dois discos lançados. Recomendo ouvir a banda onde for que você ouve música e ir a um show quando possível. Ouça no Spotify.

Surra dispensa apresentações, creio que se você gosta de hardcore (ou trash) já pelo menos ouviu falar da banda. Eles fecharam a noite com aquele show rápido, pesado e barulhento que a gente adora.

O Inferno na Terra foi um local de bons encontros e tamos precisando disso, nesses tempos fachos a gente precisa construir, não só resistir.

Procure as bandas. Se você for da região, tente ir a um show, se você tiver passando por aqui vale a pena procurar um.

E anotem a data: 8 de Fevereiro tem Eskröta e bandas locais no festival Respeita as Minas, Fogo nos Machistas.


Evento / Resenha

Sinta A Liga e Bruxaria

O DF se movimentou no último feriadão e távamos lá pra curtir alguns desses eventos. Foram eles o festival Sinta A Liga, no dia 15/11 e o festival Bruxaria, no dia 16/11, que apesar de serem duas coisas distintas tiveram muito em comum e aconteceram no mesmo fim de semana, então falo aqui sobre ambos.

Primeiramente a coisa mais importante que aprendi esse fim de semana é que o DF não é composto só por Brasília.

O festival Sinta A Liga foi em Brazlândia, uma cidade satélite de Brasília, coisa de 50 km do centro. Ele é um evento idealizado pela Tuttis Souza que roda o Distrito Federal para incentivar o protagonismo feminino na cena musical.
“Hardcore só é hardcore quando é libertário, quando é ato político e não só música. E no contexto social em que vivemos, poucas ações são tão libertárias quanto mulheres fazendo elas mesmas, ou seja, produzindo, tocando e espalhando mensagens riot grrrls, antirracistas e anti-CIStema”.

Penúria Zero começou a noite de shows com o pé na porta, quase pogo (o espaço era pequeno), bate cabelo e muito punk. Aquele showzinho divertido 10/10. A banda foi (re)formada em 2011 e lançou seu primeiro disco em 2017, vale a pena ouvir.

Mantendo a Identidade é um grupo que toca reggae, rap e outras misturas. Eu pensei muito e só consigo descrever o show deles como extremamente agradável que semeou boas energias pra noite. Saca só:

XXIII é uma banda do DF que toca algo parecido com post punk e grunge na sua mistura sem gênero musical. O vocal grave nas músicas mais lentas faz ser impossível não prestar atenção ao show. Como eles mesmos se descrevem nas redes: “Nós somos a banda XXIII e viemos pra deprimir vocês”.

Se você lê nosso site provavelmente já conhece a Xavosa, banda de punk rock de Brasília que lançou seu primeiro EP no começo desse ano. Como todas as bandas desse evento, foi o primeiro show delas que eu vi e não sabia o que esperar. O show foi muito bom, divertido e o toque final foi um cover de Rebel Girl em que elas chamaram as meninas todas das bandas pro palco pra cantar junto. Foi lindo. Também parabéns pra Sand (da Supervibe) que substituiu a batera Rita.

O show da Bertha Lutz no Sinta A Liga foi só uma das coisas marcadas pelo Mercúrio retrógado (dizem que é quando tudo dá errado) esse fim de semana. A guitarrista, Gabi, não chegou à cidade a tempo, então Sara, guitarrista da Estamira, durante o evento aprendeu algumas das músicas da banda e elas fizeram um show reduzido e improvisado que foi bem legal. Ainda estou pasma com as habilidades de Sara.

Klitores Kaos é uma banda de crust/hardcore de Belém, elas tocaram em forma de trio e fecharam a noite com um show poderoso.

Além da música o festival contou com um bate papo sobre experiências de ser mulher na cena underground com a professora de música e guitarrista da banda Estamira, Sara Abreu, uma exposição da artista Veronica Popov, que fez o flyer do fest e esteve presente no evento fazendo caricaturas, uma exposição da Ninfa Sex Store e sorteios para as garotas presentes de vários produtos e serviços feitos por mulheres.

Já o Festival Bruxaria foi em Brasília, ele é feito pela Coletiva Bruxaria, “formada por mulheres que se juntaram para construir locais seguros e solidários, espaço para todas se jogarem na música, no palco, na produção, e em todos os espaços que quiserem ocupar. Essa é nossa estratégia de sobrevivência nesse mundo que nos silencia e tenta nos matar todos os dias. Bruxaria é nosso momento de criar, produzir, tocar, se apoiar. Ver e viver um apoio mútuo em que mulheres deixam de ser rivais para cuidarem umas das outras e celebrarem essa união”.

Os shows começaram com Bertha Lutz, agora completa. A banda de Belo Horizonte faz um show nada menos que incrível, começaram estapeando a nossa cara com “Sangue Negro”, “Seu privilégio sustenta essa porra toda, sua indiferença sustenta essa porra toda, sua branquitude financia essa porra toda. Sempre, desde sempre!”, e terminaram com “Funk da Xoxota” que ficou na cabeça quase uma semana.

Em certo momento do show a vocalista, Bah, disse “a gente é cria de Bulimia”, uma homenagem à Ieri da Bulimia que faz parte da Coletiva Bruxaria e estava presente, mas eu acho que isso se aplica a todas nós, a maioria das bandas punk/hardcore que eu vi esse ano, não só no DF, fazem um cover da banda.

Klitores Kaos também tocou mais uma vez. A banda foi formada em 2015 “a partir de uma vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade de Belém”. Com um som pesado e cru elas se descrevem nas redes como uma banda “feminista, de esquerda, antifascista, vândala e baderneira”. E dito isso, não sei mais o que falar sobre o show sem ficar redundante. Bóra ouvir elas no Bandcamp.

Estamira é uma banda de Metal do DF, formada em 2007 por mulheres que “já contribuíram de diferentes formas para a produção artística de Brasília e decidiram, mais uma vez, criar um som original e de qualidade”.
Após seis anos de hiato (com um show aqui e outro ali) a banda “volta com o objetivo de fazer o que sempre se propôs: unir mulheres incríveis para ocupar o palco, produzindo um som pesado e visceral, além de transmitir uma mensagem profunda e crítica”. E o show não foi nada menos do que isso. Puro ódio.

Além de shows o festival tem exposições e feirinha (enorme, vão no perfil do festival ver tudo o que rolou, é muita coisa pra colocar aqui) com produções de mulheres e atividades exclusivas para mulheres, nessa edição elas foram a oficina sobre racismo e privilégio branco mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), oficina de manutenção de bike pelo Calangas Cycling Crew (coletivo feminino ciclístico do DF), apresentação de shibari pelo projeto Entre Nós, apresentação da palhaça Kuia. E teve também espaço pra crianças, algo muito importante.

Em conclusão esse foi um fim de semana muito agradável e valeu a pena ter ido pro DF conhecer as bandas, o pessoal e os projetos que a galera de lá tá fazendo.

Esses espaços são muito importantes e é bom demais ver que em todo lugar as pessoas se importam e resistem. Vamo todo mundo se unir.


Evento / Resenha

Dyke Fest #4

Punk rock/hardcore por definição seria um lugar de acolhimento pra todo mundo, você vê isso em todas as letras de música desses gêneros e os fãs são (quase) sempre pessoas que não se encaixam na maioria dos lugares.

Ter um refúgio do mundo é empoderador e por isso esse gênero segue firme e forte, mas há décadas (ou desde sempre?) a cena no mundo todo é hostil, vide o movimento riot grrrl ter sido revolucionário, e há pouco tempo parecia que não tinha mudado muita coisa desde os anos 90. Aliás, vocês já pararam pra pensar que várias riot grrrls migraram pra música eletrônica? O afastamento da cena não foi por acaso.

Felizmente o diálogo aumentou, as pessoas começaram a se movimentar e parece que a cena tá mudando. Em São Paulo especificamente, parece (pelo menos vendo de longe) tar se criando uma cena paralela levada pelas mulheres e LGBTQ+ e o Dyke Fest é a materialização disso.

Ele é um festival queer feminista realizado por lésbicas com o objetivo de fortalecer a cena LGBTQ+ underground. Idealizado por Nati Pinheiro, ele teve sua primeira edição em 2017.

“A minha militância por muito tempo foi feita em espaços mais tradicionais, reuniões de muitas horas, construção de políticas públicas e atos como a Caminhada Lésbica, que organizei durante dez anos, e cada vez mais fui me apaixonando pela possibilidade de passar uma mensagem de resistência e acolhimento por meio do som, poesia e intervenções. Comecei a introduzir tudo que aprendi na produção do encerramento da Caminhada Lésbica de São Paulo, acho que ali nasceu o Dyke Fest de alguma forma”.

“Em 2016, junto com outras mulheres construí o primeiro Maria Bonita Fest que é um festival com foco em hardcore/punk das minas, conheci cada vez mais mulheres e descobri que as minas juntas conseguem fazer qualquer coisa. A relação entre as bandas e produtoras é muito solidária e todas se ajudam muito. Me retirei do Maria Bonita Fest, que segue com outras pessoas, e resolvi fazer um fest direcionado para as mulheres lésbicas, que sempre foi meu espaço de atuação com o hardcore/punk que sempre esteve presente na minha vida. A intenção era o festival “dos meus sonhos” e foi lindo perceber que outras mulheres também sonhavam a mesma coisa. Com o Dyke Fest consigo unir as militantes que mais admiro em rodas de conversa e as bandas que me inspiram”.

O Dyke Fest foi uma das várias iniciativas que surgiu na enorme multiplicação da cena musical underground brasileira nos últimos anos.

“Na ‘cena’ a diferença é absurda, a três anos atrás tive que pesquisar muito e fazer escolhas estratégicas pro festival funcionar, tinha muita banda boa parada e outras que estavam bem no começo. Agora na quarta edição daria pra montar um fest de três dias com várias bandas incríveis”.

E com esse monte de banda nova, uma cena queercore tá se formando. Como no mundo todo, a gente geralmente chama de queercore as bandas que cantam sobre a vivência LGBTQ+ ou que apenas tem membros LGBTQ+, mesmo elas não necessariamente sendo da vertente punk/hardcore e no Dyke Fest isso não é diferente, há bandas de todos os gêneros musicais.

Perguntei pra Nati sobre esse período:
“O Dyke Fest surgiu junto com a minha banda (Bioma), foi uma mudança bem grande na minha vida, fui influenciada por textos anarquistas da América Latina e da Europa, saí da militância lésbica clássica por não concordar com o andamento de algumas pautas e a postura de algumas mulheres e decidi reformular o meu discurso, rompi com dez anos da minha vida. Quando disse que estava fazendo um festival Queer e tinha uma banda Queer e queria começa a falar das nossas vivências e lesbianidade a partir dessa ótica Queer muitas mulheres racharam comigo, mas fiz o dobro de amizades. Depois de um ano outras bandas brasileiras começaram a adotar o termo Queer e queercore, isso foi mágico. Sinto que estamos criando espaços únicos e horizontais, repensando a nossa autogestão, presando a união e a rebeldia a partir da ótica das mulheres, rompendo com o machismo, racismo, classismo e a mercantilização das nossas pautas que sempre foi muito presente no movimento LGBTQI+”.

Festivais de música nunca tem só música e nessa quarta edição o Dyke Fest teve a roda de conversa “Branquitude é Privilégio Branco” mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), exposições das artistas e produtoras independentes Editora Malagueta, Empodera Distra, Underline, Thamú Candylust, Transilvegan, Carol Mendes, Thaís e Elo Torrão, Mulheres Adultas Têm Pelos, Erika Araújo e Mari Crestani, que fez toda a identidade visual dessa edição do Fest. Aquelas colagens me hipnotizaram por um bom tempo.

Houveram também projeções da Concha, que é um trabalho com ilustrações e animações em 3D.
“O que uma lésbica quiser propor será mais que bem vinda”, diz Nati.

Mas falando da música, que é o motivo de vocês tarem lendo até agora, essa edição contou com as seguintes bandas:

Sânias (Sorocaba) era a única banda do lineup que eu não conhecia. Elas são um duo de stoner recém formado e fizeram um show incrível. Sigam elas nas redes que é certeza que vem coisa boa por aí.

Crime Caqui (São Paulo/Sorocaba) é uma banda que mistura dreampop, indie e post-rock. Sua “atmosfera etérea e quase hipnótica”, como se descrevem na bio das redes sociais, casou muito bem com as animações de Concha, projetadas ao fundo do palco durante todo o Fest.
Elas publicaram na internet alguns vídeos ao vivo e pretendem lançar o primeiro EP (ou disco, não sei ao certo) ainda esse ano.

Crust não é muito a minha praia, mas o disco da Rastilho (São Paulo) foi talvez o único que eu sentei em casa e ouvi inteiro mais de uma vez. Agora ao vivo é outra história e o show deles foi lindão. Entre outras coisas, a vocalista Elaine falou bastante sobre brigas dentro da própria militância e eu também acho que a gente devia parar pra pensar um pouco sobre isso.

Miêta (Belo Horizonte) colocou todo mundo pra dançar quase em sincronia. Foi a primeira vez que vi um show delas, foi apaixonante e unanimamente pediram pra ele não acabar. Se você não conhece a banda, tá perdendo tempo, é sério. Elas também tocaram várias músicas novas do próximo disco, que já está sendo gravado.

A última apresentação foi da Tuíra (Rio de Janeiro), que é uma banda com muito a dizer e cheia de referências, é pra você chegar em casa e pesquisar o que você ouviu no show. Como não dá pra não falar de política hoje, a maioria das letras (e o nome da banda) é inspirada por ou homenageia mulheres militantes que se tornaram símbolo de luta. Isso tudo é embalado por uma mistura delicinha de indie, “real” emo e mais alguma coisa.
O primeiro EP da banda, “Calma e Força”, será lançado nesse segundo semestre e após ver o show, eu digo: preparem-se!

Eu fui pelas bandas (tenho ido mais vezes pra São Paulo ver bandas locais do que bandas internacionais, vocês tão de parabéns), mas o Dyke Fest não foi só um show, foi um lugar surpreendentemente acolhedor e acho que o motivo disso pode ser explicado com uma frase da Adriessa, vocalista da Anti-Corpos, no show da edição de Março: “Isso aqui foi lindo. Esse foi o melhor lugar que eu já toquei porque esse aqui é um lugar pra todo mundo”.

“O objetivo é criar um lugar acolhedor pra real fazer amizades e conexões”, disse Nati.
Objetivo alcançado.


Evento / Resenha

Ventos e The Overalls no Podrão

Pra contexto: Fernandópolis é uma cidade de 68 mil habitantes no noroeste paulista, uma região de cidades “gêmeas”, pois são todas iguais: pequenas e sem muita coisa, o famoso cu do mundo onde nada acontece. Alguns amigos costumam brincar que literalmente nada acontece, nada de bom e nada de ruim.

Foi aqui que há poucos anos surgiu o Podrão Underground Bar. Diferente da maioria dos bares alternativos (eu detesto quando essa palavra é usada nesse contexto) daqui que exclusivamente contratam bandas covers e/ou exigem um mínimo de horas de show, como se estivessem alugando uma jukebox, o Podrão é um lugar bem agradável. E pequeno.
Além de eventualmente hospedarem shows de bandas autorais (coisa que não tem muito na região) vez ou outra trazem bandas internacionais pra cidade.
Quando anunciaram o show fiquei surpresa e feliz com a presença da Overalls, que não é uma banda de metal (basicamente é só isso que tem por aqui).

Foi aqui, também, que surgiu a Ventos, banda recém nascida, de Votuporanga.
Conhecidos de outras bandas, eles se juntaram pra agora fazer um som com as novas influências e diferente do que tem por aqui.
Eles misturam emo com dreampop e as vezes bebem na fonte da MPB, um amigo descreveu como “um som bom pra colocar no fim de tarde e fumar um apreciar”.
É mesmo um som bem gostosinho com guitarra aguda estalada, de letra “triste, melódica e sincera”, por vezes também falando de um certo mito que foi quebrado.
Eu diria que assistir ao show num lugar pequeno e com pouca luz, como o Podrão, foi aconchegante. Esse, que inclusive, foi um dos primeiros shows da banda. Com oito músicas prontas, eles pretendem gravar algo ainda esse ano e por isso coloco aqui um video:

Eu não conhecia a Overalls antes do anúncio do show, ouvi algumas músicas na internet e não formei opinião nenhuma. Imaginei que o show seria ao menos interessante, jamais imaginei que seria tão divertido. Essa é a única palavra que consigo pensar pra descrever o show: divertido. Com direito a tentativa de crowd surfing e wall of death carinhosa (pois ninguém machucou ninguém).
Eu não sei descrever o som da Overalls, mas as vezes me aparenta uma mistura de Muse e nu metal (provavelmente vou ler isso daqui uns dias e dar risada, é melhor você mesmo ouvir).

Depois do show, no disputado sofá ao lado da mesa de merch, eu virei intérprete dos meus amigos e a banda sem ao menos perceber. Pessoal muito simpático (ambos).
Foi uma noite bem agradável, com a sensação respirar ar fresco depois de muito tempo fechada em casa.


Evento / Resenha

Festival Garotas à Frente

O festival ocorreu dia 20 de Abril de 2019 e essa resenha foi originalmente publicada no meu blog, mas eu acho importante compartilhar aqui também.

Garotas à Frente foi um festival feminista. Não diria que o show do Pussy Riot foi um detalhe, mas o festival foi muito mais do que isso.
A Powerline é uma produtora de shows que traz pro Brasil bandas não tão mainstream, mas com um bom público fiel. Em 2018 trouxeram Against Me! e lançaram a edição em português do livro “Tranny”, de Laura Jane Grace, vocal da banda.
Esse ano eles fizeram o Garotas à Frente pro lançamento da edição em português(finalmente!) do livro de mesmo nome, de Sara Marcus que conta a história do movimento riot girl nos EUA nos anos 90. E com o show do Pussy Riot foi também o lançamento da edição em português do livro “Um guia Pussy Riot para o ativismo” de Nadya Tolokonnikova, uma das fundadoras do Pussy Riot, da editora Ubu.

O festival teve exposições do Guerrilla Girls, um coletivo formado em Nova York em 1985 cujo objetivo é combater o sexismo e o machismo no mundo da arte questionando a presença de artistas mulheres em grandes instituições de arte e museus pelo mundo. E das artistas brasileiras Aline Lemos (Desalineada), Bruna Morgan (Universo em bolha de tinta), Larissa Oliveira (I Wanna Be Yr Grrrl), Jane Herkenhoff, Renata Nolasco (Atóxico) entre outras.
Houve também exposição dos trabalhos feitos na oficina de stencil e lambe realizada pelo Girls Rock Camp Brasil, no mesmo dia do festival.
O Girls Rock Camp é uma iniciativa linda que em 2013 chegou ao Brasil, “é um acampamento musical de férias, exclusivo para meninas. Onde durante uma semana, meninas com idades de 7 a 17 anos são convidadas a ter uma experiência empoderadora, muito divertida e completa no mundo da música. Em meio a atividades de fortalecimento de autoestima, desinibição, trabalho em grupo, elas aprendem a tocar um instrumento, formam uma banda, fazem uma composição inédita e uma apresentação ao vivo, aberta para os pais, familiares, amigos e toda a comunidade.”

A poetisa Ingrid Martins se apresentou “com sua poesia autoral que fala de suas vivências e dificuldades, mostra representatividade, empoderamento e visibilidade”. Ela faz parte do Slam das Minas que nasceu em 2016, no mês da mulher, “para criar um espaço de voz e acolhimento, feito pelas e para as minas, monas e manas além de garantir uma vaga feminina para o Slam BR”. E só hoje eu descobri o que é slam: LEIA AQUI.

Bloody Mary Una Chica Band, como o nome já diz é uma banda de uma mulher só, a multi-instrumentalista Marianne Crestani toca guitarra, bateria e canta ao mesmo tempo “um garage noise com volume alto e som distorcido, batida certeira, voz rasgada”. É um show incrível.

Eu creio que Sapataria é a banda brasileira que melhor define o queercore: nome engraçadinho, punk rock e letras focadas na vivência LGBTQ+. É a típica banda “tapa na cara” que você ama.
Elas conseguiram se expressar muito bem e sabem da importância disso, pois distribuem zines com as letras das músicas nos shows. Shows que são de arrepiar pois a banda tem uma enorme presença de palco e consegue usar com maestria a energia linda do punk/hardcore que te faz canalizar o ódio e revolta contra as injustiças do mundo em algo construtivo: resistência.
SAPATAS DE TODO O MUNDO: UNI-VOS!

Pussy Riot é aquele coletivo russo que fazia intervenções com balaclavas(depois delas é que todo mundo descobriu que “balaclava” era uma palavra e aquelas máscaras tinham nome) coloridas tocando punk protestando o Putin e em 2012 foram presas por fazer uma intervenção em uma igreja.
Depois que as integrantes saíram da prisão o coletivo seguiu com intervenções, lançou músicas, dessa vez eletrônica e começou a fazer shows.
O show é uma grande intervenção audio visual, muita informação num telão enquanto a banda toca. Junto do novo trabalho eletrônico tocaram duas músicas que tocavam nas suas primeiras intervenções na Rússia, incluindo “Mother of God, Drive Putin Away”, mais conhecida como “Punk Prayer”, a música que tocaram na intervenção em que foram presas. O show foi incrivelmente divertido, as vezes parecendo uma rave. Uma brisa.

Era visível a grande presença da mídia no Garotas à Frente. Não surpreende, eventos como esse são extremamente importantes e infelizmente muito raros. Espero que esse seja o começo de uma mudança necessária.


Evento / Resenha

Punk pelo Espaço do Saber

O evento rolou Sábado dia 25/05 no Ação educativa. Com shows de punk e hardcore gratuitos, pedindo apenas doações voluntárias. O rolê foi criado para arrecadação de brinquedos para o Espaço do Saber e organizado pelas minas da Gulabi.

O Espaço do Saber é uma biblioteca comunitária que resiste na periferia de Suzano oferecendo conhecimento, leitura, atividades culturais e de lazer para as crianças e jovens da comunidade.


Agressividade, potência e muita liberdade: O som, as bandas e as personalidades 

WEIRDUO

Duo hardcore baixo e bateria de São Paulo

Foi a primeira banda a se apresentar, é formada por “Pedro & Jivago, a dupla sertaneja”. Abriu seu show com um cover de Bella Ciau versão hardcore de satan abençoado. Chegou ditando o ritmo para os próximos shows com gritos rasgados e um som raivoso e angustiado. A energia tomou conta naquele momento e foi impossível (para mim) não balançar meu cabelo com o peso da bateria. O som foi dinâmico e com letras que jogam sal nas feridas que dizem respeito a verdades recorrentes desde doenças mentais às desigualdades nossas de cada dia.

ALTO NÍVEL DE INSANIDADE

Banda da cena hardcore de São Bernardo do Campo. É formada por Nayra nos vocais, F. Nicholas na guitarra, Bollaxa no baixo e Marco na bateria

A segunda banda a prestigiar a noite chegou quebrando tudo com uma agressividade que fez o chão tremer! As músicas tocadas falaram principalmente sobre as dificuldades e força das mães.As mãe merece!” (Nayara durante o show). Além de política, sociedade, conflitos psicológicos, dentre tantas outras coisas. O som tem o tipo de peso agressivo que contagia a platéia com a autenticidade das músicas. Confesso que essa foi minha grande descoberta da noite e estou esperando eles produzirem uma camiseta super extra grande para adquirir a minha.

GULABI

A banda punk feminista antifascista tira inspiração das mulheres da Gulabi Gang. É formada por cinco minas, foi a terceira a se apresentar e trouxeram fans jovens que só acrescentam à cena!

Se existe algo mais foda do que meninas podendo se expressar através do punk rock, seja berrando ou dançando livremente sem NINGUÉM as incomodando, eu ainda não conheço. O show da Gulabi foi um dos pontos altos no evento não só pelo som, mas também pelos fans que se jogaram na pista e deram show de liberdade de movimento e expressão. As letras pedem intervenção alienígena (quero), falam sobre questões políticas e diz respeito a como nós, como mulheres, também podemos e DEVEMOS sair para curtir o role, sim! Cheio de impacto, rápido e divertido, são minas livres dando um tapa na cara da sociedade e compartilhando ideais feministas de superação, livres dos preconceitos e imposições da sociedade e da cena masculina. 

QUESTIONS

Banda de hardcore brasileiro old school, foi a banda com mais tempo de estrada a somar no rolê e que fechou a noite com chave de ouro

Formamos o Questions com o espírito de unir a energia e a intensidade do hardcore ao peso e à agressividade do metal. O nome representa uma postura crítica em relação à vida: questionar, não aceitar as coisas passivamente.

A banda é formada por Pablo Menna na guitarra, Edu Andrade no vocal, Helio Suziki no baixo e Duz Akira na bateria. É basicamente impossível curtir um som desses sem querer abrir uma roda. O último som da noite contou com a maior energia da galera, mais gente dançando, gritando e feliz. Músicas pesadas de verdade que foram escritas com tamanha consciência social sobre o Brasil e a cena de São Paulo. Contam sua verdade nua e crua expressada da melhor forma (com um som do caralho). O que dizer dessa apresentação? Sendo a banda com mais tempo de estrada, eles sabem muito bem o que fazem e são extremamente bons nisso. Que som foi esse!?

Bom povinho, ficam aí minhas impressões como mera expectadora que não manja nada sobre nada dessa cena, mas estou aqui para conhecer. De qualquer forma quero deixar um recado muito importante para vocês:

A Gulabi está arrecadando doações para o Espaço do Saber até o Dia das Crianças. Então vamos dar uma força. É só falar com as minas pela PÁGINA DA BANDA, marcar um lugar para entregar os brinquedos e pronto! Já vai estar ajudando essa juventude, porque se depender do governo nóis tá ferrado, bora!

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Obs: Estamos com um probleminha nos links e no formulário de contato. Os links estão em caixa alta. Caso queira entrar em contato, por favor mande mensagem para as redes sociais. Obrigada.