Bus Ride Notes

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Clandestinas

Clandestinas foi formada em 2017 em Jundiaí, SP por Alline Lola (guitarra, voz), Camila Godoi (contrabaixo, voz) e Natalia Benite (bateria, voz), militantes feministas e LGBTQIA+.

Quando eu ouço Clandestinas, lembro do movimento Riot Grrrl. O Riot Grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.
As primeiras bandas do movimento queriam chamar atenção pra sua mensagem e escolheram a música pra isso.

Clandestinas surgiu “da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas”, e por isso acho que Clandestinas é mais um movimento artístico do que uma banda.

Toda banda é um movimento artístico, mas a escolha de priorizar um pouco a música ou a mensagem ou misturar igualmente é bem sutil, mas a gente enxerga.

Seu primeiro album, “Clandestinas”, foi lançado em 2020. Produzido por Mari Crestani, ele conta com participações de Aline Maria, Luana Hansen e Mariah Duarte.

A gente tá acostumado a ouvir letras políticas no punk e no rap, mas Clandestinas não escolheu um gênero musical e por isso o som é bem distinto, é rock, é punk, é MPB e mais um pouco de inúmeras influências.

A banda também mistura português e inglês na faixa de abertura, “Clandestinas”, e “Lovely Lola” é a única música em inglês do disco.

“Even if she is just my best friend and I must understand another meaning of love”

Sobre as letras é difícil falar, pois é muita informação. Esse é um disco que eu recomendo pra toda pessoa ouvir pelo menos uma vez na vida. “Clandestinas” é um album interessante em muitos aspectos.

“O não lugar me ocupa, o não pertenço me define. A não família me acolhe, a solidão me oprime”

“O nome ‘Clandestinas’ remete a ‘pessoa que vive fora da lei’, na banda o termo surge como essência e traz novos significados: ser clandestina é gritar quando disseram que se deveria estar calada, é amar sem medo e sem pudor quando disseram que seu amor era doentio, é fazer música mesmo achando que não se sabe cantar nem tocar, é estar com outras mulheres e se mover, é ter a consciência de que, para a hetero-cis-normatividade compulsória que rege a sociedade, os corpos e afetos distintos da norma não devem existir”.

Ainda em 2020 a banda participou do curta “Pluma Forte”, nele há um trecho de um show e podemos literalmente ver o formato de militância da banda.

E em janeiro de 2021 a banda lançou seu primeiro clipe, da música “Nenhuma a Menos”, um video que é mais que um clipe e menos que um curta.

“Com as nossas músicas, nossos corpos e nossos afetos, questionamos o machismo, o patriarcado, a hétero-cis-normatividade e o capitalismo. A revolução será feminista & LGBT”.

“Clandestinas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Crasso Sinestésico – Eco

Formada em 2014 em Bom Jesus Dos Perdões, SP, por Diego Fernandes (guitarra, vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria, vocal), Crasso Sinestésico é um duo que toca noise rock, lo-fi, meio garage, meio pós punk.

Em novembro de 2020 eles lançaram seu novo EP, “Eco”, gravado ao vivo em novembro, mixado e masterizado no Estúdio Quadrophenia por Sandro Garcia.

“Eco” tem a sonoridade característica da banda, mas busca também a essência do rock psicodélico e da música brasileira. Mais especificamente é influenciado por Clube da Esquina, Lô Borges, Novos Baianos, Momento 68, Continental Combo, The Beatles e The Velvet Underground.

“As canções retratam a sensação de impotência, elas imprimem não só o período em que vivemos, mas também a atual situação política na qual nos encontramos sitiados”, diz Diego Fernandes.

“Nostalgia” o nome já diz tudo, “Nostalgia do tempo tardio que habita escondido na memória encardida, no limbo da vida”.

“Hospital dos Esquecidos” aborda o descaso e desumanidade nos manicômios (ou hospícios), hospitais psiquiátricos muito populares no século 20.

Segundo o dicionário, ‘diáspora’ significa “dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica” e é disso que se trata a música “Diáspora”, “um vórtice que pega dos remotos tempos até nossa triste atualidade”.

“B.B. King” fala sobre a morte, “Como se deparar com ela e nem ao menos duvidar”.

O disco termina com a instrumental, “Eco”, “O mito de Eco revela que a pior prisão é aquela em que o ser humano não pode expressar o que pensa ou o que sente; é a tortura de conviver com seus pensamentos e sentimentos presos pelo medo ou pelas convenções ameaçadoras”.

“Eco” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Messias Empalado – O Evangelho dos Tempos de Ódio

O nome da banda, Messias Empalado, e do disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”, já diz muito, a descrição “banda LGBTQ formada em 2017 [em São Paulo] com temática anti-cristã, anti-fundamentalismo religioso, contra toda opressão social”, diz ainda mais.

Messias Empalado é Vee Wayward (voz), Gustavo Knup (baixo e voz), Karine Profana (teclado) e Letícia Figueiredo (bateria). Em fevereiro de 2020 lançaram seu primeiro disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”.

Ainda segundo a banda, “a força de nossa criação é a blasfêmia, que de maneira alguma é um discurso de ódio ou intolerância religiosa, é tão somente reação contra os representantes religiosos que usam suas crenças e seus interesses pra nos condenar, criar leis pra deixar nossa vida ainda mais à margem e a mercê de todo tipo de exclusões e agressões”.

Estamos mesmo vivendo em tempos de ódio incitado por certos religiosos e isso é um perigo real pra maioria de nós (inclusive pra quem não se sente marginalizado), por isso sinto um certo alívio vendo uma banda falar dedicadamente sobre o assunto. Parece que é algo que quase ninguém dá a devida atenção (talvez isso seja só na minha bolha), ao mesmo tempo em que existe a angústia de “como deixamos chegar a esse ponto?”.

“Sangue de Jesus tem poder. Poder de nos dividir, poder de nos odiar, poder de nos discriminar, poder de nos execrar”.

O som nos remete à estética clássica de igreja, muitas vezes com órgão e canto lírico, é bem dark wave e industrial. A banda também cita como influências EBM, post punk e noise.

“O Messias tão esperado caiu. Reprovou os atos dos líderes, religiões sob sua mortalha, templos de exploração da fé”.

Em 2019 vi um show da banda e minha amiga disse “gostei e não gostei“. Depois de ouvir o disco e entender melhor as letras, eu acho que essa reação é proposital, a banda busca a reação de choque e as vezes um certo repúdio.

“Enforquem os pastores nas tripas dos senhores, cortem as cabeças da Santa Inquisição. Cuspimos em seu livro de abominação” é uma frase bem gráfica (assim como a maioria das literaturas sobre religião organizada).

“Bolsonazi” é a música que resume o disco, ela faz referência a um dos líderes que incita todo esse ódio e violência.

“O sangue tá nas suas mãos, não adianta tentar se esconder… Suas palavras são cheias de ódio. Autoritário, chefe de milícia. Bolsonazi, assassino de viado, Bolsonazi, higienista do caralho, Bolsonazi, tirou os fachos do armário”.

E falando em Bolsonazi, nos shows de bandas com letras políticas sempre rola um grito de “Bolsonaro, vai tomar no cu!” e no show da Messias Empalado, Vee nos ensinou que não devemos desejar coisa boa pra gente ruim. É sempre bom lembrar.

“O Evangelho dos Tempos de Ódio” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Neon Dharmas – Cavalos Selvagens

Neon Dharmas é uma banda de “pós-punk doidão do Rio de Janeiro/Niterói”. Formada em 2017 por Rafael Trevisani (guitarra e voz), Helder Martins (baixo e voz) e Alberto “Tie Dye” (bateria).

Em julho de 2017 eles lançaram o “EP #1” e em Novembro de 2019 lançaram o primeiro disco da banda, “Cavalos Selvagens”. O disco conta com a regravação das cinco músicas do EP e mais seis músicas inéditas. Ele foi lançado online e em K7 pela Oxenti Records.

Dharma, ou darma, é um conceito-chave com múltiplos significados nas religiões indianas. Na minha pesquisa na internet (posso tar errada, me corrijam, por favor) o significado mais amplo e atual disso é: aquilo que mantém elevado. Também é entendido como a missão de vida, o que a pessoa veio para fazer no mundo. “O Dharma budista diz respeito aos ensinamentos do Buddha Gautama, e é uma espécie de guia para a pessoa alcançar a verdade e a compreensão da vida. Pode ser chamado também de ‘lei natural’ ou ‘lei cósmica'”.

Dito isso, quando vi o nome da banda já pensei na maior viagem.

A banda faz letras poéticas e sem amarras, diferente da fala mais direta (tentar ser direto é uma amarra) que eu me acostumei a ouvir nos últimos anos, tanto em letras políticas quanto em puro sentimentalismo. Me fez lembrar de muita coisa que eu ouvia a uns anos atrás.

Isso embalado por um pós-punk meio garage bem lo-fi vira mesmo uma viagem. A capa do disco (por Emerson Folharini) também ajuda a passar essa impressão: uma colagem com cavalos, soldados, multidões, um mapa e a frase “Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado” em um fundo rosa claro com o nome da banda e do disco.

As músicas falam de tudo um pouco, a capa do disco e a faixa que dá nome a ele deixam bem claro que há bastante política aqui, “Lutando por igualdade, contra o ódio e repressão. Cavalos selvagens são gritos da revolução”.

“Gosto de Morte”, com um título bem literal, fala sobre veganismo.

Várias músicas do disco falam sobre um anseio por liberdade “Órfãos da destruição, não vamos nos ajoelhar. Vejo dentro dos seus olhos quem nos traz a mentira. Vejo dentro dos seus olhos quem quer nos controlar”.

Mas a maioria é meio pessimista e fala sobre frustrações. Pós-punk, né?
“Tentando achar caminhos e respostas, vivemos na escuridão, nosso ciclo se fechou”.

Em Setembro de 2020 eles lançaram o primeiro clipe da banda, da música “Cavalos Selvagens”, feito por Leonardo Mariani.

Assim como a capa do disco, o clipe é uma colagem (uma imagem em cima da outra) de imagens da banda ao vivo, cavalos em campos e manifestações da época da ditadura. “Em memória de Carlos Barroso, Walmir Monteiro e William Leite. Eles também foram cavalos selvagens”.

E em 13 de Novembro de 2020 a banda lançou um novo single, “O Vazio”.

“Cavalos Selvagens” está disponível no Bandcamp e redes de stream.


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Split Rosa Idiota + Please Come July

Dezembro de 2019, o fim de uma década. Parece que faz muito tempo né? Na verdade, nem é tanto tempo assim, tá logo ali. E o que aconteceu em dezembro daquele ano? Bom, se você gosta de hardcore, deveria saber que foi o mês em que a Bahia e o Rio de Janeiro fizeram conexão no ótimo Split com Rosa Idiota e Please Come July!

Com oito músicas no total, quatro pra cada, o split foi lançado pela High Fidelity Stereo, em parceria com a Tropical Death, Estopim e Eletric Funeral.

Pra quem gosta de detalhes técnicos, aqui vai o primeiro destaque desse álbum: a qualidade do som. Ambas as bandas foram muito bem gravadas, você consegue ouvir cada detalhe do som direitinho. E os responsáveis por essa produção de primeira estão aqui: o lado do Rosa Idiota foi gravado, mixado e masterizado por Dill Pereira no estúdio Ruído Rosa, em Salvador – BA; Já o lado do Please Come July, ficou por conta de Cris, no estúdio La Cueva, Rio de Janeiro – RJ.

Não tem pra onde fugir da influência do hardcore norte americano dos anos 80 e 90 aqui. Quem abre o Split é “Don’t Disappear”, do Rosa Idiota. Seguida de “Behind Bars”, “Aerophobia” e “The Stars Don’t Care About Us”. As músicas são bem coesas, funcionando muito bem juntas. A minha favorita dessa primeira parte é “Aerophobia”, música pra ficar no repeat. O refrão emociona com “Let’s make a deal and start again. I promise you, you promise me. You lose your fear of flying. Then I lose my fear of falling”.

Esse é o terceiro lançamento da banda, sucedendo Somatic (2018) e Circle (2017). A banda formada em 2015, junta veteranos da cena hardcore brasileira em sua formação: Marcelo Adam (vocal, guitarra), Diego Dill (vocal e guitarra), Fabiano Passos (baixo) e Rodrigo Gagliano (bateria).

Com a deixa da primeira parte do álbum, o Please Come July chega e não deixa a desejar. Lembrando o som do Hüsker Dü, a banda entrega “Running”, “Let’s Start Today”, “Inside” e “Figure Out” sem tirar o pé do acelerador. Acho que vale destacar “Let’s Start Today”, com um final que dá aquela vontade de subir no palco e se jogar em cima de desconhecidos (há quanto tempo isso não acontece, hein?). “Let’s start today. This is something. This feels so right. Let’s start today” é pra cantar junto.

Please Come July, assim como o Rosa Idiota, é uma banda relativamente nova. O grupo foi formado em 2016, no Rio de Janeiro e conta com Marcus Menezes (guitarra, voz), Marcelo Pineschi (baixo) e Gabriel Isidoro (baixo). O álbum que antecede o slipt, é o Life’s Puzzle (2016).

A arte do slipt é assinada por Leo Villas e, diga-se de passagem, é uma belíssima arte. Se houver uma lançamento da versão física desse álbum, essa capa com certeza vai ser uma daquelas que dá gosto de ver na estante.

Rosa Idiota + Please Come July está disponível no Spotify, Deezer, Bandcamp, Youtube, Apple Music e Google Play. Como vocês já devem saber: ouçam, compartilhem com amigos, apoiem as bandas independentes e façam seus próprios rolês.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: hoje

Essa é a segunda parte da nossa matéria sobre a Cosmogonia, se você não viu a primeira, leia aqui antes de começar esse texto.

Hoje formada por Gabi (vocal), Teté (guitarra), Andressa (baixo) e Dani (bateria), em 2017, dez anos após o início do hiato, Cosmogonia voltou e em 8 de Março de 2019 lançaram o EP “Reviva!”.

Sonoramente “Reviva!” é bem parecido com “O Sentir Que Violenta”, o que faz todo sentido, já que foi a última coisa que elas gravaram antes do hiato. As letras continuam tendo foco no empoderamento feminino.

“Grite, fale, jamais desista. Grite, ria, lute e resista que amanhã haverá sua paz, que dias ruins ficaram para trás”.

“Tempo” é a música mais rápida do EP e o clipe dela é o primeiro da Cosmogonia, lançado em 10 de Outubro de 2019, Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ele consiste em imagens ao vivo da banda desde que voltaram.

Abaixo você confere nossa entrevista com a banda:

Acho que podemos começar falando sobre o início da banda. Nenhuma das meninas estava na formação original dos anos 90, né? Como foi a entrada de cada uma?

Atualmente não há nenhuma menina da formação original. A Elis (fundadora) ficou até 2007, quando a banda entrou em hiato. Teté entrou em 2002, Gabi entrou em 2004 e Dani entrou em 2005. Em 2017 revivemos com três integrantes dos anos 2000: Teté, Gabi e Dani (batera) e logo depois Karol (baixista) entrou. No final de 2018 a Karol saiu e entrou o Fernando. Em 2019 a Dani saiu, entrou a Andressa no baixo e o Fernando foi pra batera. Agora, em 2020, a Dani voltou pra bateria e o Fernando saiu.

Teté: Em 2002 eu estudava na escola do menino que tocava bateria na época para a Cosmogonia e também na escola da ex-guitarrista, Raquel. Aí souberam que eu tocava guitarra, me disseram que estavam procurando uma mina guitarrista. Foi aí que conheci a banda, mas cheguei a enrolar um pouco pra ir fazer o teste por insegurança. Quando finalmente criei coragem, fui e foi perfeito. Me apaixonei pelas meninas, por tocar com elas, pela história da banda e aí me disseram que já tínhamos um show marcado no Hangar 110, que na época era o sonho de qualquer banda da cena, né? Então minha entrada já foi logo de cara tocando num show do Hangar!

Gabi: Eu entrei pouco depois em 2004, já tinha relacionamento com a banda desde 98 e morávamos no mesmo bairro. Quando recebi o convite de fazer um teste para tocar nessa formação dos anos 2000, apenas a fundadora Elis, estava na banda. Nessa época, também contávamos com o Paulo, que integrava a lendária banda Punk Atitude.

Andressa: A minha entrada foi com uma responsabilidade enorme. Eu estava entrando em uma banda que tem uma puta história, e que eu curtia muito. Fora isso, eu estava substituindo a Karol, que é uma excelente baixista, com uma base musical maravilhosa. Eu tinha a obrigação de estudar pra me sair bem. Tanto que, quando fui convidada a primeira vez pela Gabi, fiquei com muito receio de não estar no mesmo nível. Mas depois de pensar direito, voltei atrás e deu muito certo. Isso foi ano passado, 2019.

Fernando: O Fernando já era amigo da Teté de muitos anos e quando a Karol saiu da banda, chamamos ele pra nos ajudar e cumprir a agenda de shows. Não conseguimos achar nenhuma baixista e ele foi continuando com a gente. Quando a Andressa assumiu o baixo, o Fernando foi pra batera, substituindo nossos dois amigos Roberto e Nautilus, que estavam se revezando como substitutos da Dani.

E como é manter a banda mesmo sem ninguém da formação original?

Inicialmente, achávamos que não faria sentido a banda sem a Elis. Porém, ela mesma nos incentivou a retornar e nos lembrou que a Cosmogonia sempre foi uma banda aberta à novas integrantes e que ao longo dos anos, muitas meninas passaram pela banda e deixaram sua marca, experiência de vida e luta. A particularidade mais importante da Cosmogonia é resistir ao longo dos anos e trazer a vivência de diversas mulheres, que são unidas em torno do mesmo propósito. Apesar da Elis não estar presencialmente na banda, ela é também um membro que mantemos contato constante e que nos aconselha, dá opiniões, apoia e é responsável por muita coisa que fizemos desde o retorno.

Vocês fizeram um hiato em 2007, né? O que esse hiato representou para vocês?

Em 2007 cada integrante da época estava passando por coisas diversas em suas vidas pessoais que foi impossibilitando de conseguirem conciliar com a banda. Além da questão financeira que era complicada para todas (pagar ensaio, transporte, manutenção de instrumentos, etc), havia também trabalho, estudo, filhos e família. Então o hiato representou um tempo que precisávamos naquela época, para ser mais compatível com a nossa condição de vida daquele momento e com as dificuldades financeiras e psicológicas que cada uma enfrentava.  Esse tempo foi extremamente triste, pois sempre sentimos muita saudade da banda em si e de estarmos em uma banda. E nesse tempo, algumas de nós tivemos que lidar com relacionamentos abusivos, violência doméstica, dentre tantas outras coisas que as pessoas não enxergam em vidas que não estão expostas de alguma forma.

Como vocês decidiram que era hora de voltar?

Em 2017, após um período maior sem se verem, Gabi e Teté se reencontraram num show e como elas sempre sentiram saudades de tocar, mencionaram que seria legal montarem uma banda. De longe a Elis percebeu essa movimentação entre as duas, e também estava muito ligada na movimentação das mulheres no cenário underground, que aumentava a cada dia. Ela então nos reuniu em um grupo de Whatsapp e praticamente exigiu que voltássemos com a banda, mesmo sem ela, que mora no exterior.

No Bandcamp da Cosmogonia a gente percebe que todos os álbuns ali são bem curtos. Existe algum motivo pra essa escolha?

Cosmogonia é uma banda que nasceu na periferia e bandas de periferia, mais ainda, bandas com mulheres sempre foram invisibilizadas pela falta de recursos e também pelo próprio machismo e misoginia, que também existem na música e na cena punk/hardcore. Sempre dependemos do corre de cada uma, dos amigos de outras bandas e de coletivos que se juntavam para gravar coletâneas (no início ainda em fitas K7). Nunca tivemos grana pra bancar gravação, produção e até o final dos anos 90, a produção de tudo foi com o “faça você mesma”. Em 2006 lançamos um single, que conseguimos gravar graças a um cachê que nos foi dado de um show. Agora em 2019 lançamos um EP gravado pelo projeto Experiência Family Mob. Fomos selecionadas para participar do projeto, o que nos possibilitou a gravação. A mixagem e masterização foi arcada com nossos próprios recursos e venda de merch.

O que vocês têm escutado nos últimos tempos?

Gabi: Eu tenho ouvido muito folk, bandas clássicas de hardcore dos anos 90, algumas bandas novas e bandas que carrego em playlists ao longo dos anos, como Converge, Million Dead, Pennywise, bandas nacionais como Bioma e Miêta.

Teté: Hardcore sempre! Desde os clássicos que sempre me acompanham (Pennywise, NOFX, Bad Religion) até bandas nacionais: Mar Morto, Garage Fuzz, Bioma.

Andressa: Eu sou extremamente eclética, por mais que dizer isso pareça clichê. Nacional tenho escutado bastante Violet Soda, Miami Tiger, Hayz, Radical Karma. Internacional tenho um carinho mais que especial por uma cantora pop, a Dua Lipa. Acho a sonoridade e influências dela do Disco no último álbum maravilhosas, principalmente no baixo haha. Também o álbum solo da Hayley Williams, tá bem “diferentão”.

O gosto musical de vocês mudou muito do começo da banda até agora? Como vocês incrementam essas influências no som de vocês?

Teté: O gosto continua bem parecido. Claro que sempre surgem bandas novas, mas até hoje ouço praticamente tudo o que eu ouvia desde que entrei na banda. Para compor, obviamente trago todas as coisas que ouço, porém é algo bem espontâneo. Desde que comecei a tocar guitarra, sempre gostei de criar bases e riffs muito mais do que ficar tirando músicas e aí as brincadeirinhas na guitarra vão se transformando em som.

Gabi: Minhas experiências e influências para compor são vivências de silenciamento, violência doméstica e o sentimento de como eu gostaria de que as coisas fossem diferentes na sociedade em que vivemos.

Andressa: Eu comecei a ouvir mais hardcore. Eu sempre escutei um rock alternativo, muita coisa de pop rock e pop. Acho que sou a única a ter influências totalmente diferentes. E isso que é o interessante de fazer parte de uma banda, poder criar coisas novas juntando um pouco de cada gosto, cada influência. Cada um coloca uma pitada do que curte. Eu depois que entrei já andei dando umas pequenas modificadas no baixo nos shows.

Estamos num momento de bastante ebulição em questões políticas e sociais, com os protestos tomando conta dos Estados Unidos e agora estourando de volta no resto do mundo. As letras da Cosmogonia sempre fizeram questão de falar abertamente de assuntos assim, principalmente na questão feminista. Como a obra da banda se comunica com um momento tão intenso como o que está acontecendo agora?

Gabi: Cosmogonia sempre foi uma banda de periferia, de mulheres guerreiras que sempre tiveram que correr atrás pra se sustentar, sustentar filhos, família, a si próprias, levar o feminismo para aquelas que nunca puderam falar e se expressar. Falar dessas experiências coletivas e individuais é um ato político. Desde as criações antigas até as novas, sempre levamos a contestação do quanto é difícil a sobrevivência das mulheres na sociedade. Ser mulher é um ato político.

Teté: Estamos num momento em que fica cada vez mais exposto o engano do capitalismo: ele não é um sistema para todos e nós, mulheres, vemos, vivenciamos e sentimos na pele isso todos os dias. Como disse Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Como o próprio capitalismo coloca em xeque o tempo todo as questões das minorias, que no sentido quantitativo é a maioria, fica cada vez mais difícil aceitar as condições que esse sistema nos impõe. Como a banda e suas integrantes ao longo dos tempos sempre fizeram parte dessas minorias, não apenas por serem mulheres, todas essas pautas estiveram sempre presentes nas letras, canções e ideais.

E como vocês observam a evolução de debates assim na cena underground durante a trajetória da banda?

Sempre houve a invisibilização de atos e atividades lideradas por mulheres ao longo da história, e no cenário underground não é diferente. E hoje, mesmo que com uma visibilidade um pouco maior por conta das mídias sociais, ainda estamos em uma posição de falar para nós mesmas, de criarmos nossos espaços paralelos porque ainda há muita resistência de estarmos igualmente nos espaços “comuns”, que são majoritariamente masculinos. E o que mais chama a atenção é que as poucas pessoas que parecem estar preocupadas com a maior visibilidade dessas minorias em canais de divulgação, somente fazem isso para não se sentirem cobradas e não por acreditarem e respeitarem o nosso trabalho.

Há uma comunicação com outras bandas Riot Grrrl em outros estados?

Sim, sempre. No passado, mesmo antes da internet e depois, quando só poucos tinham acesso, as bandas de mulheres sempre se comunicaram. Cosmogonia tocou em diversos estados antes dos anos 2000 e também trazia as bandas de mulheres de outros locais para tocar em São Paulo. Mas com a internet, foi possível ampliar muito essa rede e união.

Em tempos de quarentena, como estão os projetos futuros?

Fica um pouco complicado pensar em futuro nesse momento. Acho que o foco maior agora é sobreviver a essa pandemia e a esse desgoverno. Sobreviver financeiramente e emocionalmente. Mas estamos compondo remotamente e nos falando diariamente.

Gostariam de dizer algo para as demais mulheres que estão ou querem entrar numa banda?

Quando o assunto é mulheres assumindo papéis em projetos, o direcionamento é sempre insistência, persistência e paciência. Nada acontece da noite para o dia, e, principalmente para nós mulheres os obstáculos são maiores. É importante buscar redes de apoio com as mulheres que já fazem qualquer tipo de trabalho artístico.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: o começo

Eu demorei bastante pra conhecer a Cosmogonia. “Como assim? Você fez um blog só pra falar de música”, pois é, ainda hoje há uma grande invisibilidade de bandas, mesmo nos lugares que se dizem alternativos e underground, imagina antes da internet?

Quando você pesquisa sobre as origens do riot grrrl no Brasil você só encontra Dominatrix (aliás, a Elisa já fez parte da Cosmogonia) e Bulimia. Uma banda que cantava em inglês e uma que cantava em português. Entenderam o raciocínio?

Eu sei que é algo que acontece em todo lugar, também demorei pra conhecer várias bandas gringas importantíssimas, mas não consigo deixar de ficar surpresa.

Há tempos eu penso em escrever sobre a Cosmogonia, mas sempre me enrolei. Não fiz resenha do EP novo porque pensei “Poxa, a banda tem muita história pra fazer só uma resenha” e por outro lado eu também pensei “Poxa, eu não sou jornalista, vou deixar passar muita coisa importante numa entrevista”. Muita enrolação depois, resolvemos publicar um pouco dos dois, escrito por mim (Livia) e pelo Junio.

Como diz Ignite: conheça a sua história!

Cosmogonia foi fundada em 1993 em Osasco, SP por Elis e Renata, duas professoras que sentiram falta de representatividade nos palcos da cena punk rock/hardcore e decidiram montar uma banda feminista composta por mulheres.

Desde então, a banda foi ocupando os espaços e transmitindo a sua mensagem, que é a luta por uma vida mais igualitária, inclusiva e justa para todas as pessoas, não importando seu gênero, raça, orientação sexual e condição social.

Uma das características da Cosmogonia é que muitas integrantes já passaram por ela.

Entre 1997 e 2006 elas lançaram uma Demo, um EP, um single e músicas inéditas em coletâneas.

As primeiras músicas da banda têm aquela sonoridade que a gente não sabe explicar muito bem e chama de punk com pegada brazuca, aquele som característico que qualquer pessoa no mundo que ouvir sabe que foi feito no Brasil nos anos 90.

“O Sentir Que Violenta”, single lançado em 2006, tem um som diferente do que elas tinham feito até então. Um hardcore um pouco menos melódico. A letra fala sobre como o silêncio é o cúmplice da violência contra a mulher.

Pouco tempo depois, em 2007, a banda entrou em hiato.

Abaixo você lê uma entrevista com Elis sobre essa época da banda e um pouco mais.

Fale um pouco de você, como começou seu interesse pela música?

Bom, eu cresci no meio da música. Meus irmãos mais velhos desde os anos 70 já curtiam rock e meu pai trabalhou na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), então desde nova a música já fazia parte da minha vida. Comecei no rock clássico, depois foi para o metal e finalmente me identifiquei no punk/hardcore.

Quem estava na primeira formação da Cosmogonia?

A primeira formação da Cosmogonia era eu, a Renata e a Vanessa.

Como surgiu a ideia de se juntar e montar a banda?

Eu e as meninas já frequentávamos a cena, tínhamos amigos, íamos muito em shows e a gente notava que não haviam bandas que nos representassem como mulheres. Sempre eram os homens tomando as frentes e praticamente tudo era feito e vivenciado por eles. Tínhamos essa visão e isso nos incomodava bastante. Apesar da cena naquela época já ser um “ambiente libertário”, como éramos professoras sempre preocupadas com conteúdos, conhecimentos e práticas, notávamos que na realidade, de libertário não havia nada… Faltava muita coisa pra ser dita e exposta.
Então, começamos a conversar sobre montar uma banda, fazer shows e levar nossa mensagem pra outras garotas. Já tínhamos uma bagagem para escrever as letras e aí começamos a aprender a tocar em casa, com ajuda de amigos e então a banda foi acontecendo. Ficamos sabendo o que estava acontecendo nos EUA e isso reforçou também pra que a gente continuasse seguindo nossa vontade de fazer a banda acontecer. Se lá estava rolando, também poderíamos fazer rolar aqui e assim, conciliamos tudo ao mesmo tempo e as coisas foram fluindo, bandas foram surgindo também, shows e festivais e os coletivos também começaram a se organizar.

Como foram os primeiros shows?

Os primeiros shows nossos foram em bares em Osasco, organizados por coletivos. Lembro de muitos homens de braços cruzados na nossa frente e várias meninas acuadas. Acredito que todos estávamos aprendendo a lidar com o fato das meninas ocupando esses espaços. Porém resistimos, esse sempre foi nosso foco, a resistência.

A gente sabe que nos EUA, além das bandas, houve muita movimentação por meio de zines e grupos de debates né. Como vocês observavam o movimento riot grrrl nos EUA em relação ao que estava acontecendo aqui no Brasil?

Na época, mesmo ainda sem termos acesso à internet, sempre observamos a cena fora do Brasil com um olhar de admiração. É muito inspirador ver mulheres tomando as frentes e fazendo o que geralmente eram só homens que faziam. Isso sempre nos motivou a continuar seguindo, mesmo com todas as dificuldades que tínhamos. Então, fomos fazendo da nossa maneira, errando, acertando, mas sempre construindo.

Nos anos 90 havia espaço para debates de gênero na cena independente brasileira?

Era muito raro um espaço para esse tipo de debate. A cena, apesar de se afirmar inclusiva, sempre foi excludente, e por isso foi preciso muita perseverança e tentativas de ir ocupando esses espaços e levando nossas mensagens.

Como foram as primeiras gravações?

Apesar da nossa imensa vontade de fazer acontecer, um grande obstáculo era a questão financeira. Todas nós tínhamos dificuldades, então sempre foi muito difícil conseguirmos juntar grana pra conseguir gravar.

Na época havia comunicação entre outras bandas formadas por mulheres nos outros estados?

Havia sim! Nos comunicávamos bastante por carta, porque até a internet era limitada. Não é todo mundo que vivenciou isso, mas havia limite de horas mensais para acessar a internet haha. Mas chegamos a usar também o mIRC pra falar com bandas de outros locais. Fizemos muita amizade com as meninas do Bulimia e a gente se ajudava quando rolava show em nossas respectivas cidades, com acomodação e etc.

Como foram as primeiras viagens?

Nossas primeiras viagens foram para cidades do interior de SP: Campinas, Sorocaba e litoral. Depois também tocamos em diversas outras fora daqui: Brasília, Goiás, Londrina, Rio, Salvador… Nossas viagens sempre foram surreais. Já viajamos em avião assim que lançou o filme “Premonição” (todo mundo do avião achou que ia morrer), de bus clandestino fretado de Brasília onde achamos que eles drogaram os passageiros, um show em Pirituba que um cara entrou atirando… Mas, enfim, sempre que viajávamos ficávamos nas casas de amigos nas cidades e fomos super acolhidas. Uma vez voltávamos de um show em Campinas com Cosmogonia, Bulimia e Kólica, estávamos indo para minha casa, todas numa perua (aquelas antigonas) e na estrada sofremos uma emboscada de uns ladrões ao sair de um posto de gasolina. Enfim, eles nos cercaram com armas e ameaçaram levar minha filha, que na época tinha entre 11/12 anos, se não déssemos todos os instrumentos e dinheiro. A Berila, baterista do Bulimia, falou que tinha uma grana boa que estava vindo de Brasília e que dava tudo se soltassem minha filha, enfim eles aceitaram. Levaram todo o nosso dinheiro também, do motorista e das outras meninas, mas graças soltaram minha filha.

Como foi a questão da banda continuar sem nenhuma integrante da formação original?

A Cosmogonia sempre foi uma banda muito acolhedora, onde passaram diversas mulheres fodas que sempre somaram umas com as outras e com a banda em si. As meninas que seguem com a banda atualmente fizeram parte da banda nos anos 2000 e também tive uma história com elas, que continuo tendo até hoje. Foi maravilhoso e inexplicável o sentimento que tive de ver a banda reviver e continuar com a nossa resistência e luta. E eu amo muito essas mulheres, que agora também estão continuando e perpetuando com a história da banda. 

O que você faz hoje em dia?

Atualmente moro nos EUA, tenho duas filhas e um neto. A minha filha mais nova já participa do Orlando Girls Rock Camp e está numa banda de garotas tocando guitarra. Nessa quarentena, fizeram uma música e até um clipe.

O que anda ouvindo de novo?

Bom, ainda sou fãzona da Cosmogonia, mas também tenho uma um gosto bem crazy. Algumas bandas que ouço e que curto: Pennywise, Hole, Nathan Gray, Boysetsfire, Bad Cop/Bad Cop, Nueva Etica, Sleeping With Sirens, Againts Me!, Bring Me the Horizon, Saosin, My Chemical Romance, Glória, Fresno… que eu preciso diariamente.

Obs.: Acho importante dizer que o riot grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Resenha

Bioma – União e Rebeldia

“Banda de queercore feminista formada em 2017, a Bioma surge a partir do encontro de mulheres da cidade de São Paulo com discurso feminista e posicionamento libertário, anti-racista, anti-LGBTfóbico e anti-CIStêmico”.

Formada por Julia Kaffka (baixo), Letícia Figueiredo (bateria), Mayra Vasconcellos (guitarra) e Natália Pinheiro (Natoka) (vocal), em Maio de 2020 a Bioma lançou seu primeiro disco, “União e Rebeldia” e vamos falar um pouco sobre ele aqui.

Primeiramente, se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre.

“União e Rebeldia” tem aquela característica que é difícil colocar em palavras e daí surgem resenhas dizendo que é um disco “potente”. Nada contra esse termo, mas é vago e eu quero tentar não ser vaga, assim como esse disco.

Punk e hardcore são conhecidos por suas letras políticas, mas não é tão comum vermos bandas que se expressam bem, na maior parte vemos letras que mencionam um assunto e não elaboram ideias, por que é difícil se expressar bem numa letra curta de música, olha só o tamanho desse parágrafo.
É por isso que a gente fica feliz quando encontra bandas que conseguem fazer isso, creio que esse é o tal do “potente”.

Bioma é uma daquelas bandas que te faz parar pra pensar, podemos escrever um artigo grande sobre cada música desse disco. Aliás, eles já existem, mas acho que o que importa é você ouvir, procurar saber mais e tirar suas próprias conclusões.

“Violência Invisível” fala sobre lesbocídio, a morte sistemática de mulheres lésbicas, assassinato e suicídio de lésbicas que são permeados pela lesbofobia.
“Sociedade patriarcal, violenta e irracional. Daniela, Fabiana, Priscila, Luana! Todas que não vamos esquecer. Lésbicas presentes!”

“Falsas Causas” fala sobre “pink money”, uma estratégia de marketing de empresas que focam o público LGBTQ+ em suas campanhas. Mas não se engane, isso é só uma estratégia mesmo.
“Não trate como revolução quem te trata como nicho de mercado”.

“Disforia”, o nome já diz tudo, “Um espelho sem reflexo, incoerente sentimento. Disforia do meu próprio ser”.

“Pedalar” é outra música em que o nome já diz tudo, “O suor que pinga enferruja as engrenagens da máquina que gira e para nossas vidas”. Você pode até não ser contra carros, mas você não pode discordar disso.

“O silêncio não protege, ele te consome. Esse corpo é revolta, revolta que revida”.

A banda também regravou para o disco as músicas de sua Demo (2018), “Descontrolar” e “77 Cobaias”.
“Enquanto se escolhe quem vive ou quem morre, nós desmascaramos seu fascismo democrático”.

Eu acho que “Cidade Perdida” é a música que melhor resume esse disco, tanto que ela foi lançada como single, junto de seu clipe, em Abril de 2020.

Dirigido e editado por Julia Gimenes (profissional do audiovisual, feminista, que há dez anos atua como colaboradora na causa indígena), ele é composto por trechos de registros feitos por ela durante o “Festival Guarani” (2017) e o primeiro “Encontro das Mulheres Indígenas” (2018), e imagens de arquivo, cedidas pelos canais canais “De olho nos ruralistas”, “Mídia Ninja” e outros portais de jornalismo independente, retratando o crime cometido pela Vale em Brumadinho e a crise das queimadas na Amazônia que ocorreram em 2019. Também com falas de Tamikuā Txihi, Julieta Paredes Carvajal, Sônia Barbosa e Ailton Krenak.

O disco termina com “2019”, “Olhar pra trás é tão difícil, as dores voltam de tentar. Todas (as) perdas que tivemos… Seguir em frente apesar disso, nada vai nos derrubar. Pode vir qualquer Jair, a resistência vai ficar”.

“União e Rebeldia” foi produzido pela própria banda junto de Mari Crestani (Bloody Mary Une Queer Band, Weedra) e tem participações de Mari Crestani, Célia Regina, Cint Murphy (In Venus) e Karine Campanille (Transviada Distro, Mau Sangue, Messias Empalado, Violence Increases Fear).

O disco foi lançado pelos selos Efusiva, Howlin Records, Läjä Records, Oxenti Records, Vertigem discos, Carniça Distro, Good Things Distro e está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Deixo aqui também a entrevista com Natoka sobre o Dyke Fest #4, onde tem muito sobre a Bioma.


Resenha

Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins

Eugênio é uma banda indie formada em 2017 em Sorocaba e hoje composta por Sthé Caroline, Murilo Shoji, Lud Marolli e Paulo Lins.

“Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins”, lançado em Junho de 2020, é o segundo EP de uma trilogia sobre dor, perda e superação.

O primeiro EP, “Como Diria Eugênio: Um Pouquinho de Nada”, foi lançado em 2018 quando a banda era um trio e foi regravado e relançado em 2019, depois da entrada da baixista Lud.

Quando há uma mudança de integrantes, a mudança na sonoridade da banda nem sempre é óbvia, mas aqui a gente consegue ver uma grande diferença, não só no baixo que ficou mais “visível”, mas em todo o resto. O som do novo EP é mais encorpado, enche todo o ambiente e não deixa espaço pra distrações. Se isso foi planejado ou não, resta perguntar à banda.

Nesse EP eles focaram no instrumental e eu usei indie pra descrever o som dele, mas dentro disso cabe um mundo de coisas. Algumas vezes a sonoridade me faz pensar no rock ‘n’ roll psicodélico (também focado no instrumental).

Já no começo vemos a lenta “Sentir” seguida da mais animada do EP, “O Homem Que Não Respira”, que vai deixar o refrão grudado na sua cabeça.

“Foi Mal” foi lançada como single em Maio, junto de seu clipe (dirigido e editado por Murilo Shoji), gravado já durante a quarentena.

“Curta Estadia” foi a segunda música a ganhar clipe, também lançada como single antes do lançamento do EP. O clipe foi dirigido por Eduardo Guerra e produzido em parceria entre Egrégora Filmes e Bonobo Produções.

“Um dos principais fatores enfrentados durante o reconhecimento de uma grande dor é ter de lidar com a ideia da solidão. Por vezes, após percebermos que somos nosso próprio inimigo, nos direcionamos para o perigoso caminho que indica que devemos nos odiar. Odiar nossa mente; nosso corpo e nossa história. ‘Curta Estadia’ reflete o momento em que Eugênio se olha diante de um espelho invisível e entende que, acima de seu próprio inimigo, é também a sua maior companhia”.

Segundo a banda, “A ideia é mostrar nesta trilogia o ciclo de sentimentos. O primeiro trabalho foca em tratar a dor em todos os seus formatos, seja emocional, física, passional, cognitiva. O segundo trata do reconhecimento dessa dor e o conflito entre a aceitação e o plano de fuga. E o terceiro trata da superação, seja ela com ou sem final feliz”.

“Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins” está disponível nas redes de stream.


Resenha

Tatuajë DiCarpa – Satisfação Garantida ou Foda-se

No Brasil atual, comandado por milicianos mafiosos e evangélicos fanáticos, sobre a complacência de um povo bovino, idiotizado pelas redes virtuais, a banda Tatuajë DiCarpa surge como uma mancha de ácido nesse mar de chorume.

Surgida em Rio Preto, interior de SP, pela mentes insanas do veterano Anderson Rizutti (Dischord, Academic Worms) no baixo e backing vocals, junto com a vocalista Julia, Vitor na Guitarra e Renan na bateria, a banda se propõe ao sarcasmo e ironia, tocando o dedo na ferida da falta de coerência do povo. O deboche já começa pelo nome da banda, que foi escolhido em votação numa postagem do Facebook.

O Tatuajë DiCarpa se intitula powerviolence debochado, mas lembra o grindnoise rústico do New York Against Belzebu, principalmente na fase com a vocalista Ana, com aquele tempero do punk brazuca (a cover que tem neste CD, de “Buracos Suburbanos” do Psykoze, foi uma bela sacada).
No entanto, o Tatuajë é muito mais ácido em suas críticas que os veteranos do NYAB. Em seu debut, “Satisfação Garantida ou Foda-se”, o Tatujë solta 21 pertados, contando a Intro e Outro, que raramente ultrapassam um minuto, socado em um pouco mais de 15 minutos.

Quer belas melodias? Elaborados solos de guitarra? Letras construtivas? Sem tempo, irmão. O bagulho aqui é caminhão desgovernado descendo o barranco. E a metralhadora cospe pra todo lado: esquerda cirandeira Paz & Amor (“Música Popular Cirandeira”), os lacradores de internet (“Muita Lacração pra Pouco Debate”), a indigência cognitiva dos bolsominions (“Vosê é Buro! Sofreu Doutrinassaum!”), a soberba do ‘jeitinho brasileiro’ (“Brasileiro Não é Malandro Você Que é Otário”), Sertanejo universitário (“As Três Fases do eu Lírico do Sertanejo Universitário”) e claro, não poderiam faltar temas anticapitalistas (“Desgraças do Capitalismo”) e pró feministas (“A Mina do Fulano”, “Cultura do Estupro”). Tem ainda muito deboche como em “Istrei edi Não Praticante”, “Ateu de Horóscopo”, “Urubu Guaraná” (essa bem NYAB), e também “Bate em Nazi”.
A gravação do CD está naquela rusticidade tão apreciada pelo pessoal punk/grindcore.

Um destaque interessante vai para a capa que utiliza um unicórnio com uma tatuagem (de carpa) na bunda dançando em um arco-íris. O que poderia passar despercebido ou como mera brincadeira alguns anos atrás, hoje, em tempos obscurantistas e homofóbicos, a arte surge como uma provocação aos carolas e reacionários, mais um ponto para a banda.

Uma das relevâncias do Tatuajë DiCarpa foi a sacada de somar os velhos ideais punks conectando com problemas e contradições atuais, o que parece uma simples progressão, mas muita gente se perdeu nessa curva aí. A outra relevância é, claro, o som caótico, barulhento e rápido. Ao vivo deve ser uma desgraceira infernal de fazer qualquer punk/grinder/noise abrir o sorriso.
Vida longa ao Tatuajë DiCarpa e seu deboche.

Essa resenha foi feita por Paulo Blob e também vai sair na próxima edição da Insulto Magazine. Quem se interessar em adquirir ela, entre em contato com a banda.

“Satisfação Garantida ou Foda-se” pode ser ouvido no Bandcamp: