Bus Ride Notes

Posts tagged 012

Resenhas

Zero to Hero – breakwalls & buildbridges

Nós raramente publicamos algo perto da data de lançamento, um dos motivos é que publicamos uma vez por semana (tem 52 semanas num ano e centenas de lançamentos), outro motivo é que a gente se embanana tudo com prazos.

Por isso, e vários outros motivos, o formato webzine funciona melhor que o formato site de notícias pra nós. E por isso, também, as vezes a gente atrasa demais um assunto, mas ainda precisamos falar sobre ele. Hoje é outro desses dias.

Bom, primeiramente, pra falarmos de Zero to Hero, precisamos falar sobre emo, esse gênero musical um tanto confuso.

O emo dos anos 2000 que a gente conhece é só uma vertente. Na verdade o emo dos anos 2000 é bem estranho, uma vez vi uma comparação com o metal farofa (ou hair metal) dos anos 80 e achei que fazia todo o sentido: hair metal não é metal, é hard rock e o visual é muito importante. O emo 2000 não é emo, é pop punk e o visual também é muito importante.

Por que as pessoas chamavam todo um gênero musical pelo nome de outro gênero sonoramente muito diferente, nunca iremos saber.

Dito isso, o emo é bem distinto em cada década, nos anos 80 é mais hardcore, nos anos 90 é bem melódico e misturado com math rock, nos anos 2000 é o que todos conhecemos e a partir daí rolou um revival inspirado no som dos anos 90 com um toque de indie rock.

Se você for pesquisar sobre isso vai se divertir, tem bandas incríveis, incluindo muitas bandas brasileiras. Aliás, algumas delas estarão no terceiro volume da Discografia Caipirópolis.

Zero to Hero se encaixa em quase todas as categorias acima, e “breakwalls & buildbridges” (2019) faz parte da nova leva de sons inspirados no emo anos 90, ou “real emo” como alguns chamam.

O disco foi pensado pra cuidadosamente se encaixar num gênero musical, vemos isso antes mesmo de ouvir, em nomes de faixas como “emotional flatlining”, “being lost is part of getting there” e “only cowards skip interludes”.

As letras cantadas em inglês com vocal e aquele timbre de guitarra um tanto agudo caracterizam esse disco junto do som muito melódico em todas as faixas, das aceleradas às mais lentas.

O conteúdo das letras é diverso, algumas falam sobre relacionamentos.

“And I try so hard to do whats right for you and me but I’m always wrong, and being lost is part of getting there”.

Outras falam sobre saúde emocional, como “anxiety”, uma das minhas músicas preferidas do disco.

“It’s like she’s singing inside your head except she doesn’t know how it goes. She keeps humming out so loud, just gibberish, there’s no lyrics at all”.

E a gente associa emo à tristeza pela maneira como o emo 2000 foi comercializado, mas não é um gênero triste. É, sim, bem sentimental “sem vergonha de demonstrar”.

“I ask myself why my senses are so numb and in my core I know that I am so dull. Hard to feel love, most days I feel nothing at all, the only emotion I’m in touch with is sadness after all”.

A banda de Taubaté, SP, formada por Pedro Cursino (baixo, voz), Danilo Camargo (guitarra, voz) e Nicolas Brown (bateria) lançou o single “queen of ashes” em fevereiro de 2021 e recentemente participaram do EP ”Isolation” da Decline com um feat. na música “Summer 2”.

Ouça Zero to Hero no Bandcamp e nas plataformas de stream.


Entrevistas

Manger Cadavre? – um papo sobre AntiAutoAjuda

Formada em 2011 entre São José dos Campos e Pindamonhangaba e atualmente (até o fim de 2019) com Nata Nachthexen (vocal), Marcelo Dod (guitarra), Marcelo Kruszynski (bateria) e Jonas Morlock (baixo), Manger Cadavre? é uma banda que você já pelo menos ouviu falar se acompanha lançamentos do gênero “barulheira e gritaria”, digo isso porque as bandas de hardcore/crust costumam ter fãs que não são tão adeptos ao som que o pessoal costuma chamar de “extremo”.

Além de um split com as bandas No Rest, Vasen Käsi e Warkrust, em 2019 eles lançaram o disco “AntiAutoAjuda”, que conta uma história (literalmente, se você comprou o CD ou se ler as letras no Bandcamp, antes de cada uma tem uma introdução) sobre doenças psicológicas causadas pelo capitalismo.

Fizemos uma pequena entrevista com a banda pra falar um pouco sobre o disco e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Somos uma banda de hardcore, com influências de crust de São José dos Campos, interior de São Paulo. Estamos em atividade ininterrupta desde 2011, tendo tocado em todas as regiões do Brasil e lançado seis trabalhos de forma digital e física.

As letras de “AntiAutoAjuda” têm o mesmo tema. De onde surgiu essa ideia e a escolha do tema?

O álbum, que foi o nosso penúltimo lançamento, é temático, mas as letras contam uma história, logo, elas são diferentes dentro de um contexto de evolução. As três primeiras falam sobre estar em uma condição de adoecimento mental, as três do meio sobre a tomada de consciência sobre as razões do adoecimento (capitalismo) e as três últimas sobre o reencontro do ser coletivo como fator de superação da condição de sofrimento mental (a luta como cura). A ideia surgiu, pois os quatro da banda, na época, estavam em condições de adoecimento, assim como muitos amigos queridos. Nisso, a gente tentou sair do niilismo e apenas denúncia (que são padrões dentro do estilo) e quisemos trazer algo propositivo. Quem adquire o CD físico tem acesso a narrativa que permeia as letras e trazem sentido pra história que contamos.

E como foi o processo de composição das letras?

Compusemos em seis meses, ensaiamos semanalmente, e no período final, duas vezes por semana.

Pra uma banda D.I.Y. vocês fizeram shows pra caramba em 2019. Podem falar um pouco sobre?

A nossa banda não recebe cachê, mas temos exigências mínimas como transporte (carro, ônibus ou passagens de avião), alimentação, traslado. Apenas em festivais de grande porte a gente pede cachê. O que paga as nossas despesas rotineiras de gravação, ensaios etc, é a venda de merchandising. Ainda hoje, quase um ano depois desse lançamento e do “Inflamar” ainda estamos pagando as parcelas da gravação. Portanto, continuem nos dando suporte pra gente poder continuar produzindo!

Como uma banda de som extremo vocês estão presentes nas cenas metal e punk/hardcore. Vocês vêem alguma diferença nelas?

A gente transita entre os dois meios e cada um tem seus pontos positivos e negativos, o diferencial é que no meio metal a galera consome mais merch e, pelo menos com o nosso som, agitam mais no pogo, mosh pit, stage dives, que no meio hardcore punk, que geralmente a galera mais presta atenção ao som. Talvez pelo fato de incorporarmos muitos elementos do metal no hardcore isso não empolgue tanto a galera desse meio, mas sempre colam pra conversar, elogiar e incentivar a banda. O público hardcore punk é mais crítico em relação a postura (até porque a maioria já tem base ideológica formada), enquanto o metal é mais acessível por meio da sonoridade das músicas e posteriormente das letras e é o espaço em que a gente mais consegue disseminar nossa mensagem, trocar ideia e esclarecer muitos pontos. Mas a gente é fã dos dois nichos, então é impossível dissociar ambos do nosso som. Ambos os públicos variam muito em relação a postura de uma região pra outra no Brasil, não conseguimos generalizar por esse fato. 

Últimas considerações? Algum recado?

Faça o que puder, mas faça sempre! Obrigado pelo suporte durante esses nove anos de banda.

A banda fez um mini documentário sobre a gravação do disco, que você pode assistir abaixo: