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Discografia Caipirópolis / Playlists

Discografia Caipirópolis Volume 3

A Discografia Caipirópolis nasceu pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital.

Somos do interior de São Paulo e um dia decidimos fazer uma lista de bandas daqui, como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Bom, lista feita, fizemos as edições necessárias e entre elas tiramos bandas com letras machistas, violentas, reacionárias ou coisas do tipo. Gostaríamos de pedir que vocês nos avisem caso deixarmos algo parecido passar.

No primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação, então tem de tudo, punk, crust, indie, synthpop, hard rock, folk, instrumental, etc.

A partir daí os volumes são divididos por gênero musical, o segundo volume contou com bandas de punk rock e hardcore melódico e esse terceiro volume com indie rock.

Acho que podemos dizer que o indie é bem amplo e um dos gêneros musicais mais mistos. A gente vê isso nessa coletânea, selecionamos bandas que acreditamos que se encaixam no gênero e elas soam muito diferentes umas das outras, mas você consegue ouvir o que elas têm em comum.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse terceiro volume:

acho melhor não (Piracicaba)

Formada em 2011 e hoje com Ana Pi (baixo), Fabio Moretti (guitarra, programação), Fernando Bisan (bateria, synth, voz) e Rodrigo Toledo (guitarra), acho melhor não referencia no nome o conto “Bartleby, o escrivão”, de Hermann Melville. Dentre as misturas sonoras que a banda faz estão indie, garage, post-rock, lo-fi e música eletrônica. “Valorizamos o método ‘faça você mesmo’: gravamos, editamos e produzimos todos os nossos sons”.
“Dois Quartos” foi lançada como single em março de 2021.



Aldersgate (Santa Bárbara d’Oeste)

Formado pelos irmãos Gesiel e Gesse em 2016, Aldersgate é um duo de rock alternativo. Os irmãos tinham um projeto chamado G35, que inicialmente era um projeto solo de Gesse e contava com a participação de seu irmão e amigos. Após uma pausa de alguns meses, os dois resolveram fazer um novo projeto baseado em uma leitura artística e filosófica distinta, que nortearam tanto a composição dos arranjos quanto das letras. A banda já lançou dois singles, “Amanheceu” (2016) e “7 a 1” (2017), e um EP, “Farol” (2018).
“Avenida Dois” faz parte do EP “Farol” (2018).


Ceano (Campinas)

Formada em 2014 e hoje com André Vinco (guitarra e voz), Leonardo Rodrigues (baixo), Rafael Lira (guitarra) e Arthur Balista (bateria), a banda já lançou dois discos, “O Último Andar” (2014) e “Índice” (2016). “Repaginando influências como Delta Sleep, TTNG, Death Cab for Cutie e R.Sigma, o grupo entrega canções sobre o amadurecimento nos tempos atuais, desejos e a busca pela felicidade”. Hoje Ceano está no selo Eu Te Amo Records, por onde lançarão seu próximo disco.
“O Homem que Chorava” faz parte do disco “Índice” (2016).


Crime Caqui (Sorocaba)

Crime Caqui foi formada em 2017 por Fernanda Fontolan, May Manão, Yolanda Oliva e Larissa Lobo. O gênero musical proposto pelo grupo pode ser encaixado no indie/dream pop/post-rock, mas sem sombra de dúvida, as “caixinhas” sonoras são incapazes de medir a capacidade inventiva do quarteto. “Das descobertas da adolescência até o retorno de Saturno, os vocais e instrumentais bem elaborados e executados trazem como temas das composições o drama, a efemeridade das relações, os sentimentos que se embaralham, o empoderamento, a transformação e a construção da autoconfiança, dando voz ao que estava guardado e tornando quem ouve cúmplice dessas histórias, envolvendo o público em uma atmosfera etérea, sensível e confessional”.
“Naufragar” fará parte do primeiro disco da banda, “Atenta”, previsto para 2021.


Depois da Tempestade (Santos)

Formada em 2012 e hoje com Victor Birkett (voz), Mily Taormina (baixo, voz), Gutto de Albuquerque (guitarra), Maru Mowhawk (teclados, synth) e Bruno Andrade (bateria, beats), a banda tem três EPs, “Mutáv3l” (2015), “Eleva” (2013), “O Sol Nascerá” (2012) e um disco, “Multiverso” (2017), lançados. A banda mistura no seu som as influências de rock alternativo, post-hardcore, música latina e alt-pop.
“Transe” foi lançada como single em março de 2021, a faixa foi gravada ao vivo na live “Depois da Experience”.


Eugênio (Sorocaba)

Formada em 2017, hoje Eugênio é Sthé Caroline, Paulo Lins, Murilo Shoji e Ludmila Maroli. A banda tem dois EPs lançados, “Um Pouquinho de Nada” (2018) e “Longa História, Breves Fins” (2020), esse produzido por Mário Wry, da banda Wry, e gravado no estúdio Deaf Haus. “Em 2021 nascerá o nosso primeiro disco, ainda sem título, que contou com a produção de Martin Mendonça (Pitty), gravação do laureado de Grammys Eric Yoshino, com supervisão técnica de Fabio Pinczowski, mixado e masterizado pela lenda André T.”
“Foi Mal” faz parte do EP “Longa História, Breves Fins” (2020) e teve seu clipe gravado durante a pandemia com cada integrante mostrando um pouco de sua rotina no isolamento.


Infante (Jundiaí)

Formada por Caio Molena (vocal, guitarra), Fernando Lodi (vocal, guitarra), Guilherme Lucas (baixo) e Danilo Guarniero (bateria), a banda tem dois EPs, “Murphy” (2015) e “Retalhos e Pensamentos Mal Costurados” (2020), e um disco, “1991” (2016), lançados. Misturando influências que vão de Beatles ao rock alternativo e indie dos anos 90, são “rapazes de Jundiaí com instrumentos, tocando músicas e xingando fascistas desde 2012”.
“Paraíso Particular” faz parte do EP “Retalhos e Pensamentos Mal Costurados” (2020).


Íntimo Cotidiano (Águas de Lindóia)

Formada em 2018 e hoje com Guilherme Gotardelo (vocal), Marcelo Pereira (baixo, back vocal), Bruno Pennacchi (Guitarra) e Lucas Zampieri (bateria), a banda tem dois EPs, “Entre Cigarros e Cafés” (2018), “Vazio” (2020), e dois singles “Carnaval de Cinzas” (2018), “Darma” (2019) lançados. “Escrevemos música para expressarmos a confusão que é lidar com a vida incluindo os problemas internos como ansiedade e depressão. Temos uma sonoridade anos 90 e estamos sempre flertando com o pop, no entanto, soamos como uma banda de rock alternativo”. Apesar de não ser uma banda punk ou hardcore, estão envolvidos no cenário underground junto com outras bandas do circuito das águas que participam do evento Abbey Roça na cidade de Socorro, SP.
“Vazio” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em dezembro de 2020.


Jupta (Jundiaí)

Formada em 2018 por Mateus Flores (vocais), Henrique Oliveira (bateria) e Daniel Martinho (baixo), a banda tem dois discos lançados, “Um Pouco de Paz Antes Que Tudo Acabe” (2019) e “Minha Casa é Longe Daqui” (2020). Inspirada por bandas como Foals, Muse e as brasileiras Fresno e Scalene, Jupta apresenta sonoridade moderna e por vezes familiar para os ouvintes menos atentos, criando identificações quase instantâneas junto ao público. Em 2019, a banda viu “Tarja Preta”, faixa do primeiro disco, ser eleita Hit do Ano no Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira, dentro da programação da SIM São Paulo.
“Mosca” faz parte do disco “Minha Casa é Longe Daqui” (2020).


Letty (Jundiaí)

Letty é cantora, compositora, guitarrista e inquieta. Criada no interior de SP, atirou-se na capital em 2015 com seu primeiro EP, “Anywhere But Here” – concebido e produzido por ela. Desde então, seguiram-se participações em importantes festivais como Distúrbio Feminino (2016) e Virada Feminista (2016), e mais dois EPs, “songs i should never have written” (2016) e “The Rolling Stones Were Always Wrong” (2018). Seu som incorpora elementos que flertam com punk, garage e grunge; um gênero híbrido que ela batizou de garagrunge.
“Aposentadoria” foi lançada como single em maio de 2020 e a versão que você ouve no nosso Bandcamp foi gravada exclusivamente pra essa coletânea!


Nosedive (Bauru)

Formada em 2019 e hoje com Gabriel (voz), Danilo (guitarra), João (guitarra), Ricardo (baixo) e Lucas (bateria), a banda lançou seu primeiro EP, “Dull Days”, em abril de 2020. “Com a proposta de criar um repertório intenso que mesclasse influências como o hardcore, post-rock e o rock alternativo dos anos 90, a sonoridade da Nosedive encontrou uma atmosfera carregada de tensão que flerta entre a agressividade e a sutileza”.
“Anxiety” faz parte do EP “Dull Days” (2020).


Os Últimos Escolhidos do Futebol (Bauru)

Formada em 2018 por João Albino, Léo Pacheco, Paulo Nunes, Pedro Nunes e Sinuhe LP, Os Últimos Escolhidos do Futebol é “uma banda marcada pela irreverência jovem no palco e a criatividade nas canções curiosas. Transitando entre o pop, o rock e o indie”. Em maio de 2020 eles lançaram seu primeiro EP, homônimo, gravado em 2019 no estúdio Gargolândia em Alambari (SP). Em novembro de 2020, lançaram o single “Bom Bom” sobre os tempos sombrios enfrentados na pandemia, e para 2021, planejam lançar mais três singles, antes do aguardado primeiro álbum.
“Berrini” foi lançada como single em junho de 2021.


Personas (São José dos Campos)

Formada em 2016 por Rodrigo Cerqueira (baixo, vocal), João Capecce (guitarra) e Fernando Cerqueira (Bateria), a banda lançou um EP, “Vazio” (2017), e um disco, “Nunca Foi pra Dar Certo” (2019). Em 2020, com a entrada de Pablo Hanzo (guitarra), a banda se tornou um quarteto e lançaram seu segundo EP, “Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã”, em abril de 2021. “Personas mergulha em referências do underground brasileiro e americano, e faz um som que flerta com o emo, o indie e o rock alternativo, mescladas com letras em português que transmitem angústia e urgência, inspiradas em relacionamentos e conflitos pessoais”.
“Mar De Problemas” faz parte do EP “Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã” (2021).


Quarto Escuro (Bauru)

Formada em 2019 e hoje com Willians (vocal, guitarra), Gustavo (guitarra), Joslui (baixo) e Júlio (bateria), a banda tem dois singles lançados, “Consequências” (2019) e “Dentes” (2020). “Com o intuito de fazer música autoral, a Quarto Escuro nasceu através de canções intimistas escritas como uma forma de expressar momentos e sentimentos. Fazendo rock alternativo com influencias de post-hardcore, transitando entre o leve e o pesado, tem como inspiração bandas como Thrice, Deftones e Fresno”.
“Dentes” foi lançada como single em janeiro de 2020.


ventilas (Sorocaba)

Formada em 2017, o duo João Marcos (guitarra) e Matheus Zanetti (bateria) tem um disco lançado, “brinks” (2018).“O duo ventilas não tem o capital de giro necessário para estar entre os principais nomes do rolê alternativo, mas é uma banda completa, com bons riffs, letras sinceras, repertório consistente e fãs que cantam suas músicas durante os shows. Canções como “calejadão”, “gameplay” e “toestory” revelam um passado emo nos dedilhados, influência jazz nos ritmos e semelhanças com Jimi Hendrix, Unknown Mortal Orchestra e Tim Maia.”database.fm.
“toestori” faz parte do disco “brinks” (2018).


Ventos (Votuporanga)

Formada em 2019 por Leo Abe (baixo, guitarra), Fernando Jesus (guitarra), Victor Vieira (bateria) e Maicon Lisboa (vocal, guitarra, baixo), a banda transita entre o indie, o rock triste e o dream pop. Ventos surgiu com o ideal de “transgredir” a cena do noroeste paulista, onde a maioria das bandas são de metal e punk rock. Os integrantes são remanescentes dessa mesma cena e se juntaram para tentar criar novas músicas, com novas camadas, melodia e timbres de forma despretensiosa e sem virtuosidade alguma. As duas músicas disponíveis no canal da banda foram gravadas no quarto do vocalista, com apenas um microfone e mixadas pelos mesmos. A banda segue em atividade, ainda que meio devagar por motivos de pandemia, porém, com algumas músicas a serem finalizadas.
Você pode ouvir as músicas no canal do Youtube da banda.


WRY (Sorocaba)

Formada em 1994 e hoje com Mario Bross (vocal, guitarra), Luciano Marcello (guitarra, backing vocal), William Leonotti (baixo, backing vocal) e Italo Ribeiro (bateria, backing vocal), WRY já lançou seis discos, quatro EPs e vários singles. A banda, influenciada por post-punk e shoegaze, tem músicas em português e inglês e já fez turnês pelo Brasil e Europa. Seu disco mais recente, “Noites Infinitas” (2020), lançado pela OAR (Boogarins, Particle Kid) “explora temas de ansiedade, desespero e caminhos não convencionais em direção à esperança enquanto se vive no mundo dividido de hoje”.
“Sister” faz parte do EP “Whales and Sharks” (2007).


Zero To Hero (Taubaté)

Formada em 2017 e hoje com Pedro Cursino (baixo, voz), Danilo Camargo (guitarra, voz) e Nicolas Brown (bateria), a banda tem dois EPs, “Bad Situations” (2018) e “Do Anything” (2018), e um disco, “Breakwalls & Buildbridges” (2019), lançados. “Nascida em Taubaté, SP, berço de Cid Moreira, Hebe Camargo e, claro, da grávida, a Zero To Hero é uma banda de rock’n’roll um cadinho mais pesado que Engenheiros do Hawaii. Desde 2017, o projeto mistura elementos de diversas vertentes do emo, punk e rock em composições sobre o cotidiano, relacionamentos, conflitos pessoais e problemas psicológicos”.
“Self-medication” faz parte do disco “Breakwalls & Buildbridges” (2019).


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Entrevistas

The Biggs: 25 years and running

Esse foi um dos textos mais difíceis que eu já escrevi. Tenho tanta coisa pra falar sobre The Biggs que eu não conseguia traçar uma linha de raciocínio.

A banda de Sorocaba, SP completa 25 anos em 2021 (pois é, caro leitor, é possível que a banda seja mais velha que você) e os convidamos pra falar sobre isso, e mais, em uma entrevista.

Formada por Flavia (vocal, guitarra), Mayra (baixo, vocal) e Brown (bateria), Biggs toca um punk influenciado pelo grunge. Eles têm dois discos lançados, “Wishful Thinking” (2001) e “The Roll Call” (2007), além de duas demos, um EP e vários singles. A banda também fez parte da efervescente cena riot grrrl brasileira no começo dos anos 2000.

Abaixo você confere nossa entrevista com a vocalista Flavia e a importância que a banda tem pra cena independente.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Nós somos um trio, eu (Flávia), Mayra e Brown. A banda começou em 96. A primeira formação tinha a Janaína no baixo, em 2001 entrou a Mayra e tá até hoje, já passaram 20 anos, né?

Fazemos um som que passeia entre o grunge e punk, com influências do riot grrrl, do empoderamento feminista e rock ‘n’ roll. A gente gosta mesmo é do bate cabelo.

Como a banda começou? E quais foram algumas das suas influências?

Eu gostava de rock e era envolvida com o movimento punk de Sorocaba. A gente ia nos shows, assistia as bandas e eu sempre achei muito legal, só que percebia que havia uma ausência de mulheres tocando e aquilo me incomodava bastante. Eu percebi que tinha que mudar isso.

Naquele mesmo contexto, do começo dos anos 90, tinham diversas bandas influentes que vinham pro Brasil, L7, Nirvana… eu vi e falei: quero muito tocar em uma banda.

Eu sempre gostei de tocar, mas nunca quis ser virtuosa, aí comecei a me envolver com o punk e ele dá essa liberdade, do “faça você mesma”, você poder fazer um som com três acordes, poder se expressar musicalmente independente de ter conhecimento de teoria musical.

Então a influência foi mais do punk, riot grrrl, grunge, do “faça você mesma”, poder se expressar através da música independente de ter conhecimento de técnica é uma maneira mais livre de se expressar.

O que tava rolando na cena naquela época no Brasil? E em Sorocaba?

Sorocaba sempre teve uma cena efervescente de bandas independentes, sempre tinha algo rolando. Tem uma banda do começo dos anos 80, chamada Vzyadoq Moe, que ficou bem famosa no underground. Depois teve WRY, contemporânea da gente, que também existe até hoje.

A cena principal em 98 eram o que a gente chamava de guitar bands, essas bandas com referências como Sonic Youth, por exemplo, onde o som da guitarra fica na frente. Nós fazíamos muitos shows em casas noturnas em São Paulo, Campinas, Piracicaba… E muitas bandas com as quais a gente sempre tocava junto, mesmo em São Paulo, ainda existem, como Pin Ups.

Também haviam as bandas da cena riot grrrl de São Paulo. Dominatrix, em que eu toquei de 2001 até 2007, Hats, Las Dirces… São tantas bandas daquele período, a gente tinha uma cena bem forte, sempre fazíamos festivais no Hangar. Foi um momento bem massa pra bandas com mulheres na formação.

Por que vocês escolheram falar sobre feminismo?

Na verdade não tem como separar uma coisa da outra. Somos mulheres, vivemos em uma sociedade machista, sob o patriarcado… Então toda expressão que venha da gente tem essa influência de querer romper com esses dogmas e padrões que nos oprimem durante a vida.

Nós nunca fomos de usar jargões nas letras, o conteúdo era mais implícito, mas a postura, a militância sempre foi algo inerente na nossa vida.

Como isso foi recebido pelo público no começo da banda?

Tivemos bastante dificuldade. Hoje, em 2021, ainda temos resquícios de uma cena majoritariamente masculina e naquele período, fim dos anos 90, era muito mais.

O riot grrrl como movimento feminista dentro da cena punk, do alternativo, do hardcore, surgiu justamente pra isso, pra romper com o status quo, com esse modelo.

Uns caras ignorantes sempre apareciam nos shows e hostilizavam a banda, gritavam coisas pra gente, tentavam dimimuir ou subestimar a nossa capacidade, mas acabavam tendo que engolir seco. E não só o público, como caras bêbados falando besteira, mas também técnicos de som.

Ainda bem que hoje em dia cada vez mais mulheres e pessoas não binárias têm tomado conta da graxa, que é como chamamos a parte técnica, e isso é importantíssimo pro empoderamento de todo mundo. Mas durante muito tempo tivemos que conviver com técnicos de som que não botavam fé nas bandas ou queriam mexer no nosso equipamento, “deixa que eu arrumo pra você”, como se a gente não soubesse.

Haviam também os cumprimentos, durante muito tempo eu ouvi “Nossa, que legal sua banda, você toca bem, você toca igual homem”.

Isso era antigamente, eu percebi que mudou muita coisa em relação ao respeito e valorização das mulheres na música, mas isso foi uma luta árdua durante muitos anos.

Fico feliz que hoje os festivais e todo tipo de mídia têm tido essa preocupação de colocar mais mulheres, mais pessoas negras, pessoas LGBTs nas suas programações e isso é uma conquista do movimento feminista, do movimento punk, da contra cultura, dessa luta que passamos durante todos esses anos.

Já fazem 20 anos e certamente evoluímos um tanto quanto cena, hoje quando vocês tocam em uma cidade onde o pessoal não necessariamente conhece a banda vocês veem muita diferença na recepção do público?

No nosso último disco de estúdio, “The Roll Call”, as letras são sobre loucura, rock ‘n’ roll, se jogar no role, relacionamentos… Então acho que o que mais faz o público se engajar com a gente é a nossa energia ao vivo.

Porque nós cantamos em inglês, a maioria do público nem sabe o que a gente tá falando. Eu costumo dizer no começo das músicas “A música fala sobre isso, isso e isso”, mas a energia da apresentação ao vivo é o que faz as pessoas se jogarem.

Hoje em dia o público recebe muito bem porque, modéstia à parte, a gente derruba o teto do role. E nos últimos anos os convites têm sido devido a isso mesmo, por já conhecerem a banda, por já ter um público… e quem nunca viu paga um pau.

E eu fico feliz por existirem muitas bandas com mulheres, mas não tem muitas de rock pesado. Tem muitas no metal, mas na cena indie e independente dá pra contar na mão. Quer dizer, isso as que a gente conhece. Deve ter umas 20? Num país desse tamanho…

Esses dias eu tava conversando, “Será que o rock saiu de moda?”. Mas acho que sempre vai ter, enquanto tiver alguém fazendo um som numa garagem, tocando uma guitarra alta e distorcida, vai ter rock.

Antes e depois da formação da Biggs vocês tocaram em várias bandas e tocaram outros projetos também. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Eu toquei no Dominatrix durante muitos anos, e já tive outros projetos como Caos Dentro, Great Great Comet, que são duos de som alternativo.

O Brown e a Mayra já tocaram com muitos outros projetos também. Mayra tem o Human Trash, The Dealers, Lost Cuts que é o projeto solo dela.

A gente tá aí se expressando nas diversas formas que a música proporciona.

Você foi a idealizadora do Girls Rock Camp Brasil, certo? Você pode falar um pouco sobre ele e como começou? O Girls Rock Camp Brasil também se mistura muito com a cena Riot Grrrl brasileira, não?

Tem tudo a ver. O Rock and Roll Camp For Girls começou nos EUA em 2001, em Portland que é a cidade berço do riot grrrl mundial. Eu conheci o projeto em 2003, quando fui fazer turnê com o Dominatrix nos EUA, e falei “Nossa, que coisa maravilhosa”. Porque tem tudo a ver você juntar essa proposta de poder se expressar através da música e esse posicionamento feminista, e naquele momento eu me apaixonei.

Voltei pro Brasil e comecei a fazer uma atividade chamada Oficina de Guitarra Para Meninas, baseada nessa ideia. Depois disso fui ser voluntária no Rock and Roll Camp For Girls de Portland algumas vezes, aí fiquei com essa ideia “Preciso fazer aqui no Brasil”.

Então eu fiz um chamamento nas redes sociais e entre minhas amigas da cena feminista daqui, e foi uma adesão total porque tem tudo a ver com a gente. A gente também sabia que precisava se articular de alguma forma pra passar esse bastão de empoderamento feminista através da música, e nesse chamamento todo mundo dessa cena entrou na brincadeira. O Facebook ajudou muito pra fazer essa articulação online.

Eu ofereci pra fazer em Sorocaba, pois sou professora de sociologia aqui e pedi pra direção da escola pra fazer lá. E foi mara. Tem sido muito legal até hoje.

Nós paramos devido à pandemia, fizemos a última atividade em 2019. Fazemos o Girls Rock Camp para meninas e menines de 7 a 17 anos e o Ladies Rock Camp para adultes acima de 21 anos.

Em 2019 nos organizamos pra alugar um espaço, pois até então fazíamos de maneira itinerante em escolas e sindicatos da cidade. Alugamos em dezembro de 2019, fizemos a reforma e todas as adaptações em janeiro de 2020 e em março, na semana que iríamos inaugurar, veio a pandemia. Ainda estamos com o prédio, mas não fizemos nenhuma atividade, temos feito todas online.

Girls Rock Camp Brasil

Em 2021 Biggs completa 25 anos e isso é uma vida inteira, são histórias demais pra contar. O que vocês acham que foi marcante como banda ou o que vocês gostariam de compartilhar?

Eu acho que o mais legal é que nós somos amigos. A gente gosta de fazer som junto, a gente se diverte, a gente se ama. A gente sente a energia de estar junto quando estamos fazendo um som, é uma energia muito boa que flui desse trio.

E ao longo do tempo podemos dizer que o rock e ter uma banda de rock proporcionou os melhores roles, sabe? Os melhores amigos, os melhores amores… Você poder viajar, conhecer gente, trocar experiências, as turnês… Você se conectar com as pessoas através da música é uma coisa muito poderosa e um prazer muito grande.

Eu sempre recomendo pra todo mundo ter banda porque é muito legal. E também como forma de empoderamento, acredito que ter uma banda e tocar um instrumento me ajudou demais a ser quem eu sou, como cidadã, como militante, como mulher, como pessoa.

Acho que você poder se expressar através de um instrumento, poder compartilhar com outras pessoas a energia da música e estar com seus amigos, não tem coisa melhor.

Turnê argentina, 2007 (Mayra, Brown, Flavia)

O que podemos esperar nesse ano comemorativo pra banda?

Estamos com planos pra esse ano, mas com a pandemia a gente acaba se perdendo no tempo.

Estamos planejando um livro de fotos e textos sobre a história da banda, planejamos também um mini documentário e quem sabe um disco de vinil. Em todos esses anos ainda não tivemos nenhum lançamento nesse formato.

Demos

Estamos em parceria com a Lastro Musical, um selo aqui de Sorocaba, e também contando com a força da comunidade reunindo fotos e juntando esses materiais.

Já demos início a tudo isso e planejamos concluir até dezembro, mas se não der, estamos tranquilos, não tem problema sair no ano que vem.

Últimas considerações? Algum recado?

A mensagem que eu deixo é: a música faz bem pra todo mundo e registrar é super importante, acho que produção de material é historia, é nossa vida, é a vida da comunidade. Quanto mais pessoas produzirem material, não só música, mas registros em geral, melhor é pra todo mundo.

E que a gente possa se encontrar em breve num show bem cheio, todo mundo encostado, com muita aglomeração.

A discografia do Biggs está disponível nas redes de stream. Não deixe de seguir a banda nas redes sociais pra acompanhar as novidades e colabore com o Girls Rock Camp Brasil.


Resenhas

Sobre o dia em que ouvi o disco “Sintoma”, da In Venus

Esse tem sido o ano que mais tenho lido resenhas. Isso é ótimo, mostra que as pessoas continuam criando, “apesar de você”. E hoje chegou meu dia de fazer minha primeira resenha pra valer. Não sei usar os nomes corretos, os gêneros musicais, descrever panoramas e apostas. Então vou usar o estilo “Mama Rachmuth” e resenhar com o coração. Com atropelo, com a paixão das coisas, com o que atravessa a gente quando ouvimos a música que nos toca.

E essa resenha é, nada mais nada menos, do que do disco mais esperado desse ano. Não importa o tipo de música que você ouve dentro do punk, a bolachona da In Venus é o gatilho mais foda que tá rolando, que rememora os dias de shows e encontros. E que prepara o coração pros dias que virão, cheios de raiva e afeto.

Acho que falar desse disco é falar do que queremos pro punk que vivemos. Porque eu sei que você também quer mais autonomia e controle da música que você cria, mais trocas nas relações e espaços que fazem parte desse meio. Falar desse disco é falar do quanto precisamos da arte punk, dos fazeres coletivos, das construções fugindo de algoritmos. Mas também é falar de acesso, de quem pode pagar, da música enquanto produto. É um disco pra gente repensar o que temos feito enquanto comunidade.

Em abril as músicas já estavam rolando na internet, parte da arte do disco também. E aos poucos foram aparecendo entrevistas e o disco foi criando uma forma na cabeça de quem estava ouvindo devagarzinho e esperando o físico sair. Tenho certeza que nesse momento as músicas passaram por muita gente e nem ficaram. Não dá mesmo pra separar a música punk de todo resto. Eu nunca escuto música olhando pro nada, coloco o som e olho a capa, viro pro outro lado, tiro o encarte, olho a capa de novo, procuro a letra pra cantar junto, vi ali que tem participação na música, “Ah, bem que sabia que era ela”, olho a capa de novo, “Que arte mais loca”. Não dá pra ouvir música punk olhando pro nada. Até mesmo na internet, tem sempre que passar um olho na telinha pra ver a imagem e reafirmar a memória e o afeto da coisa.

E foi nesse ritmo que, mesmo escutando meses antes na internet, ouvi pela primeira vez o disco “Sintoma”, da banda In Venus. Sábado agora chegou a bolacha toda linda aqui em casa e vou tentar juntar tudo isso que eu queria falar com a pira de ouvir na vitrola.

Capa perfeita do disco “Sintoma”, da In Venus

Quando abri o pacote e vi aquela capa enorme, deu um misto de “Que foda!” com “Que punk!” porque é bem essa ideia que esse disco traz, algo esteticamente incrível que só um LP dá, com a confusão e beleza das cores e forma da colagem da capa. Arte feita por Erikat, da Coletiva Formas, que tem uma história massa por trás, algo como uma intervenção com os livros que cada uma da banda deu pra ela envolver a coisa toda. Eu li na resenha que saiu na Música Pavê, lê lá.

E aí não soube o que fazer primeiro, as letras estão impressas num poster gigante, já coloquei no chão igual um mapa, botei a bolacha na vitrola e a mágica aconteceu.

A primeira música já vem com uma rasteira, “Hen to Pan” fala sobre oroboro, a serpente comendo o próprio rabo, na hora lembrei da zine da Ju Gama. A roda da existência, esse é o nosso rolê nessa vida, nada perfeitinho e vivendo as glórias e tristezas disso tudo. O som é frenético, um ritmo alucinado, se eu fizesse um filme colocaria essa música na cena correndo num beco escuro, com uma faca na mão, que é a melhor descrição de viver que existe. É pós punk? Não sei, pra mim é punk.

A segunda é “Ninguém se Importa”, quase um anúncio dos anos de pandemia nesse Brasil governado por fascistas. “Tá tudo uma merda, e não é só pra mim, é pra mim e pra você, então o que fazer além de reclamar e divagar? Às vezes tenho vontade de gritar!”. Caraca, quem não tá com vontade de cantar esses versos num show? A música tem um pegada Mercenárias que amo.

Depois vem a “Quatro Segundos” e nossa, já veio um manguetown na cabeça, aquele sonzinho do agogô no fundo é lindo. A própria letra e a forma como ela foi colocada ali dá esse climão Chico e dedo na ferida. “O paladar, a gula e o prazer só pra quem detém o poder”. Eu tô na terceira música e já tomei vários tapas, volto pro mapa no chão e rio sozinho de tão foda que é.

Aí vem “Cores”, que pra mim é mais forte do disco. Porque ela é denúncia, mas ela também é muito reconhecimento da existência e luta, que é diária. É tipo hino, e como todo hino é ferida, mas é levante também. A mais foda.

“Bordas” é a ultima do lado A, e nessa hora eu já tô tão dentro do disco que acho que elas criaram seu próprio movimento e sonoridade e não consigo mais comparar com nenhuma banda, as músicas se parecem com In Venus e é isso hehe. Eu danço fácil essa, sem passinho definido, só na levada da coisa. “Bordas” fala de propriedade, território e toda essa ideia merda que vem sustentando modos de vida sem sentido algum, que só gera morte. Quando a música acaba rola uma parte de outra música e Rodrigo falando “Quebrou a corda”.

Amo esses extras de fim de música, na moral <3

E essa beleza de bolacha?

Hora de virar o disco. É um 180g translúcido, pesadinho e lindo de ver. Veio também um poster incrível feito por Rodrigo Lima e Erikat, uma intervenção em cima de alguns trampos já feitos pela Coletiva Formas. Digno de emoldurar e jogar pra cima da parede. Eu já imaginei um lambe foda dele pela cidade, em preto e branco e com as rugas de dobrado na cola.

A sexta faixa se chama “Ansiedade” e acho que ninguém vai escapar dessa. É a minha dor e vida nesses últimos anos, e acredito que a sua também. O baixo é lindo, difícil não se deixar levar por ele em todas as músicas. No show vou ficar do lado da Patricia só pra ouvir ele batendo no coração.

Depois vem “Silêncio”, o baixo aqui tá lindo também e junta com um synth (eu acho) bem no destaque. Quase hipnotizante, só que com a energia lá em cima. Tipo transe né, essa é pra escutar bem alto.

“Velocidade Líquida” vem no mesmo clima, guitarrinha dando um loop na sua mente, bateria frenética. Batera que, por sinal, deu uma identidade perfeita no disco. A real é que cada instrumento ali se fez de um jeito único.

E aí vem “Hipócritas”, a música mais música, a letra mais letra. Já aproveita que aumentou o volume nas de antes e se acaba nessa, que tem o sax do Rafael Nyari, quase desconcertante. Pega o encarte e canta junto, essa é de tomar tapa, eu e você.

E quando olho já é a última do disco, “Ancestrais”. Pesadíssima, fala sobre ancestralidade e formas de vida que se perdem, ou melhor, são destruídas pelo branco capital. Ela tem participação de Renato Kuaray, que também participa da composição da música. Essa é linda demais, fecha o disco de uma forma incrível, junto com um quase som-imagem, daqueles que você fecha o olho e imagina a dança e a vida se fazendo.

Encarte tamanho mapa, capa e pôster tamanho lindo

“Sintoma” foi lançado pela No gods, No masters e parte da pré-venda foi revertida pro Vivência na Aldeia, um projeto social de apoio às comunidades indígenas no litoral sul de São Paulo. O disco, a banda, No Gods, No Masters, nós que acreditamos no punk como espaço e momento de pensar outras formas, está tudo ligado e é isso que nos faz comunidade.

E aí, ter essa bolacha em mãos faz a gente pensar em todo esse boom de mídias analógicas e como tem se dado o acesso a elas. É inquestionável a força que a mídia física tem pro punk, a gente poderia cair por cima de mil ideias em torno disso, muito da base que temos do hardcore/punk é sobre ter o controle da nossa música, seja decidindo o que e como criar, até como fazer tudo isso circular e se manter vivo, sem qualquer viés de mercado apontando dedo e enchendo o bolso. É foda demais ver as bandas lançando discos e fitas, a galera criando seus selos. Mas também causa incômodo ver o valor de tudo, não tem como.

Que a gente consiga entender onde estamos nisso, de todas as formas. As bandas continuam lançando CD-R com capinha xerocada, CDs no papelão, gravando em fitas velhas, K7s novas e também em discos maravilhosos como esse da In Venus. Esse é o ponto, criar fora do algoritmo e fazer existir no chão de um show, na troca de mãos, no abraço e no “Que foda, vi o show de vocês e amei, tem material?” e tudo isso acontecer no encontro, longe da tela. Não tem como não ser bom.

Como eu disse lá no começo, pra mim esse é o disco mais esperado do ano, porque esse é o punk mais apaixonante que temos e que queremos que nunca deixe de existir. Vivo e ativo, feito por nós, invertendo a lógica e dançando com a nossa revolta.

Terminei o disco assim, querendo tramar e confabular, derrubar tudo e partir daí.

Porque eles nos devem uma vida.

É claro que devem.

“Sintoma” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenhas

sonhos tomam conta – wierd

“wierd” é o primeiro album de sonhos tomam conta, projeto solo de Lua Viana.

Inicialmente lançado de forma independente, em abril de 2021 ele foi lançado nas plataformas digitais pelo Selo Preto, SP, e também teve uma tiragem limitada em fita cassete pela Longinus Recordings, EUA.

“Entre dissociações e fugas da realidade, ‘wierd’ é um album sobre ciclos. Uma tentativa de canalizar todas as angústias e feridas em um grito de desespero pela própria vida”, diz Lua.

Assim como os dois EPs anteriores, “eu queria ser qualquer outra pessoa” (2020) e “pesadelos” (2020), o disco foi todo escrito, arranjado, gravado, mixado e masterizado por Lua em seu quarto. A arte da capa foi feita por Kaylan Leite.

O som de sonhos tomam conta é influenciado por post-hardcore, shoegaze e blackgaze, e caso você nunca tenha ouvido falar desses sub-gêneros, é um som focado em distorções de guitarra que tenta preencher o ambiente e muitas vezes parece ter sido gravado em um enorme cômodo vazio, assim como em “wierd”. Slowdive, Envy e Deafheaven são alguns nomes que acredito que ajudam a ilustrar.

O disco foi composto no último ano e é desnecessário dizer que esse tempo tem sido emocionalmente brutal pra maioria das pessoas.

“Presa dentro de casa, isolada das pessoas e reabsorta nos próprios pensamentos, em muitos momentos quis acreditar que nada do que estava ao meu redor era real. E, perdida nesses pensamentos, me descolei de meu próprio corpo para flutuar no vazio da minha cabeça, onde meus sentidos não poderiam mais chegar até mim”.

Mas, infelizmente, além disso Lua passou por um período de depressão e com letras em inglês e em português tenta traduzir todos esses sentimentos.

“Esses sonhos vão me maltratar, mas ainda é melhor do que acordar e olhar pra cama vazia, sem rastros de amor que nem eu posso me dar”.

As letras do disco expressam esses sentimentos de cansaço, frustração e angústia que muitas vezes nem conseguimos descrever. Mas ao mesmo tempo elas encontram uma força pra seguir em frente, afinal a vida é feita de ciclos.

“Seus sonhos são a prova de que algo melhor pode vir. Você ainda pode sentir, portanto, ainda existe”.

“Para todas as pessoas que, como eu, se perguntam se vão chegar ao final desse ano vivas, se lembrem que ainda são humanas. Nosso corpo pode ser gelado, mas nosso sangue ainda é quente… Estamos vivos, e enquanto existirmos, vamos sentir tristeza, ódio, felicidade, amor, desespero. E essa é a beleza da nossa humanidade”, conclui Lua.

“wierd” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenhas

Punho de Mahin + Sendo Fogo – Racistas Otários Nos Deixem em Paz

Eu não sei quando essa resenha será publicada, mas no momento em que a escrevo, estou dentro de um barril de pólvora chamado América.

A Colômbia pega fogo, o Chile se liberta da constituição de Pinochet; é o mês de um ano do assassinato de George Floyd por policiais norte americanos; semana passada a Polícia Militar de Goiás (estado onde moro) algemou e apontou uma arma pra um ciclista negro sem qualquer motivo aparente; ontem a noite (30 de maio) recebi vídeos que mostram um policial de São Paulo esmurrando o rosto de um jovem negro; garimpeiros atiram nos índios Yanomami e invadem suas terras; e como se não bastasse, fazem dois dias que fomos às ruas, em plena pandemia, protestar contra um governo genocida que assassina brasileiros como se fossemos nada.

É, leitor do futuro, não sei como esse barril de pólvora vai estar quando você ler isso. Espero que já tenha explodido. Por enquanto, continuamos criando e procriando dentro deste barril.

E é nesse contexto que foi criado o split “Racistas Otários Nos Deixem em Paz”, das bandas Punho de Mahin (Natália Matos, Camila Araújo, Paulo Tertuliano, Du Costa) e Sendo Fogo (Robinho, Alemão, Diogo).

A ideia do álbum nasceu no fim de 2020, a convite do projeto Seja Independente ou Morra, Percursos Entre Acordes e Rimas. O projeto, criado pelo 1º Andar Studio & Produções, pretende organizar um calendário de atividades voltadas para a música independente na periferia.

As duas bandas dividem, meio à meio, as seis faixas desse split lançado em 25 de maio de 2021. A gravação, mixagem e masterização ficaram a cargo do 1º Andar Studio & Produções por Kleber Luis. Kurt Pfeffer é responsável pela edição e a arte da capa é de autoria da artista Monica Marques. O nome do álbum referencia a música dos Racionais Mc’s, “Racistas Otários”, do álbum “Holocausto Urbano”.

Como vocês já devem ter sacado, aqui temos 12 minutos de punk rock e hardcore que reúnem letras sobre a violência do racismo à luta dos povos originários da floresta contra a invasão e o genocídio.

A primeira parte do slipt é com a banda Sendo Fogo, e a faixa que abre é “Libertar”. A letra fala sobre as correntes do sistema que aprisiona corpos pretes e clama pela libertação dos indivíduos que são barbarizados pelo racismo estrutural.

Não dá tempo de respirar e já entra a segunda faixa, “Placebo”, falando sobre a apatia e a cura para uma doença inexistente que nos enfiam goela abaixo todo dia. “Não se faça de idiota!”, repete a música nos segundos finais.

“Enterrem Meu Coração na Curva do Rio” é uma pancada sobre a invasão de ruralistas em terras indígenas. Quem diria que o mais selvagem é o homem branco, não é mesmo? A letra questiona quem tem o direito dessa terra chamada Brasil, uma terra invadida e violada continuamente desde 1500.

Aos quatro minutos e vinte segundos de álbum, a banda Punho de Mahin abre a segunda metade do split.

A música “Xingú” continua o grito da faixa anterior e responde o que sobrou da invasão dessa terra Brasil e da devastação ambiental: fumaça e destruição. O descobrimento aqui é tratado pelo nome correto: roubo.

Luiza Mahin é o nome de uma mulher negra, quituteira em Salvador e ex-escrava. É uma figura lendária da resistência negra no Brasil; articulou revoltas de escravos como a Revolta dos Malês e a Sabinada. É ela quem dá nome à banda e à segunda música dessa metade do álbum. “Punho de Mahin” referencia a história de Luiza e as demais mulheres que resistem.

“Racistas Otários Nos Deixem em Paz” termina com a faixa “Navio Negreiro”. Uma triste memória dos negros sequestrados na África e escravizados nas Américas. Seres humanos tratados como mercadoria. A letra cita um desses navios que tinha por nome “Boa Intenção”. O Brasil é de um ironia sádica, né? Esse navio fazia o trajeto Brasil – Angola e transportou cerca de 845 escravos. Desses, desembarcaram vivos no Rio de Janeiro, 769. Também é citado na música um escravo chamado Cosme Damião, que retorna à Angola após uma revolução apenas para ser novamente condenado.

O split das bandas Punho de Mahin e Sendo Fogo é bem curto, mas carrega consigo o peso de séculos de opressão e injustiça. São doze minutos que se espera que reverberem por muitos e muitos anos, semeando a resistência e acendendo esse barril de pólvora chamado América.

“Racistas Otários Nos Deixem em Paz” está disponível nas redes de stream.


Entrevistas

Umbilichaos – To Become Unreal

Umbilichaos é um projeto solo de Anna C. Chaos, iniciado em 2007, a banda de doom, post-hardcore, sludge tem 11 lançamentos entre discos, EPs e splits.

Em abril foi lançado o single “To Become Unreal” do trabalho homônimo com duas faixas de 25 minutos no total, agendado para junho.

Conversamos com Anna sobre a banda, seu processo de composição, como o “faça você mesmo” nem sempre é uma escolha, como nossa cena libertária não é bem assim e, claro, sobre “To Become Unreal”, numa entrevista que você lê a seguir:

Você pode se apresentar, pra quem não conhece?

Meu nome é Anna Claudia, vulgo Anna C. Chaos, toco guitarra e canto na Umbilichaos e Ismália, ambos solo. Também programo drum-machines, efeitos e ruídos. Sou feminista interseccional, mulher trans e lésbica.

Nós que ouvimos hardcore e metal underground quando vemos o nome Umbilichaos, se não conhecemos, temos a sensação de “esse nome é familiar” e só de olhar sua discografia, vemos que a banda é muito ativa. Você pode falar sobre isso? Ser um projeto solo tem alguma influência?

Muitas pessoas dizem isso, rsrs. Tocar e compor é minha grande paixão, eu passo a maior parte do meu tempo desperta pensando em música e acho que sou bem produtiva musicalmente. Quando lancei o primeiro disco, já tinha os próximos três prontos para gravar, e sigo nesse ritmo. Tudo que é lançado já tem alguns anos de idade e maturação.

Acho que ser solo tem alguma influência, sim. A logística é mais ágil do que depender de mais pessoas com rotinas diferentes, eu posso encaixar os processos no tempo que tenho, o que já não é possível com uma banda. Mas pode também ser um empecilho, pois não há outras ideias para somar, para apresentar saídas de labirintos criativos. E o processo de criação dos arranjos vai passando por etapas, ao invés de uma jam de banda, em que já pode surgir uma estrutura semi-definida.

Além de eu ser obcecada com detalhes, especialmente nas partes de bateria. Chego a montar uma batida com 20 variações diferentes, para gravar e decidir qual é a que gosto.

Outro aspecto disso é que é você mesma quem faz toda a parte técnica, gravação, mix, master e inclusive a arte dos primeiros discos. Como surgiu a escolha de fazer tudo?

Não foi bem uma escolha. Como tocar solo, foi um momento de “faça, ou desista.” Música é uma coisa cara, a maioria dos equipamentos vêm de fora, e nossa moeda não vale nada há algum tempo. O que inclusive, acredito ser um dos fatores que diminui o interesse das pessoas pelo rock no geral: não ter acesso a essas coisas.

Meu único disco gravado em estúdio, foi “Entrails” (2009), o primeiro. Quem cuidou disso foi o Bernardo Pacheco, guitarrista de duas das minhas bandas favoritas, Elma e Are You God?. Com o tempo fui adquirindo equipamentos mais simples, softwares gratuitos, perdendo o medo de computadores, fazendo experimentos, e comecei a cuidar dessa parte técnica também. Tem limitações, mas eu acredito firmemente em tentar tirar o melhor do que você tem em mãos. E fui melhorando com o tempo, inclusive em aspectos estruturais, graças a algumas coisinhas que trouxe quando toquei na Europa.

Sobre as artes, eu criei o logo e todos os layouts. Fiz as artes da trilogia “Entrails” (últimos desenhos da minha vida, depois abandonei), e a foto do “Samsara” (2013) é minha também. Mas a diagramação do segundo e terceiro, foi da queridíssima Carol Doro (Sisters Mindtrap e dona da Duende dos Cabos), e do “Samsara”, pelo Ricardo Faller (Água Pesada).

Do quinto ao oitavo, roubei de filmes que gosto e diagramei eu mesma (softwares gratuitos, nunca esqueçam deles). “Belong to Nothing” (2018), colaboração com o Kovtun, contava com arte do Marcos Varanelli.

Todos a partir daí, contaram com fotos de um dos meus baixistas favoritos, de uma das minhas bandas favoritas, Carlos Gomez (Vincebuz), encerrando esta parceria neste novo disco.

Como é o seu processo de composição?

Sempre começa com a guitarra, mas nem sempre com ela em mãos. Nos primeiros sete anos, sempre tinha de parar para tocar mesmo e deixar as coisas acontecerem. Com riffs definidos, eu começava a arranjar e programar a bateria.

Há alguns anos eu comecei a compor mentalmente, com ideias surgindo espontaneamente. Com as partes de guitarra meio definidas mentalmente, arranjo e programo a bateria, e duas ou três vezes por ano eu paro uma ou duas semanas para materializar as coisas.

Em ambos os casos, a partir da definição da guitarra base e bateria, componho harmonias e/ou experimento com acordes. Por último os vocais e talvez outros sons adicionais (samples, ruídos).

As letras vêm de poemas que fui escrevendo ao longo dos anos. E, claro, muito do processo se deve a escutar música. Cada disco meu fala de descobertas e obsessões musicais de períodos particulares.

Você pode falar um pouco sobre “To Become Unreal”? Uma das faixas acabou de ser lançada como single, né?

Sim, em 15 de abril saiu um single. Agora em 17 de junho, sai o disco inteiro, com duas faixas de 25 minutos no total.

A maior parte dos meus discos é uma única música dividida em várias faixas. A ideia sempre foi proporcionar uma experiência imersiva, uma jornada musical, ao invés das fórmulas tradicionais.

“To Become Unreal” é a quarta parte da “Tetralogia da Solidão” e uma progressão natural em termos de composição. É lento, grave, psicodélico, intenso e agressivo. Explora dissonâncias e texturas, com riffs e acordes estendidos e angulares. Tempos e dinâmicas estranhos, sempre tentando forçar mais a complexidade das programações de drum-machine. Elementos não muito convencionais como tablas e guitarra slide. Explorações com ruídos, efeitos e intervalos.

Nos quatro primeiros discos, havia um foco em harmonias de duas ou três guitarras fazendo coisas diferentes. Depois, a adição de uma cacofonia de ruídos e samples, do quinto ao oitavo disco.

A tetralogia atual foca em ser mais concisa, explorando colorações diferentes em acordes não convencionais, mais regrada no uso dos elementos citados anteriormente, tentando colocar mais feiura nas partes melódicas, e alguma beleza e harmonia nas dissonantes.

Liricamente, continua com muita influência de Jung, Joseph Campbell, João Cabral de Mello Neto e Vidas Secas. Tem muito dessa ideia de aridez desértica, desolação e isolamento.

Você já fez turnês fora do país, você vê alguma diferença marcante entre as cenas daqui e de fora?

Algumas, sim. Eu fiz turnê na Europa. O que posso dizer é que mesmo no menor circuito do rock independente é mais fácil encontrar estrutura de equipamentos com alguma qualidade.

Os países são pequenos, em 15 horas você atravessa a Alemanha de leste a oeste, de transporte coletivo. E há duas, três cidades para tocar em cada país, no mínimo. A logística é mais fácil, então. Também não rolou o “tocar de graça para divulgar seu trabalho”.

O público é um pouco mais entusiasta, tem mais interesse em comprar merchs das atrações e tem uma relação bem respeitosa com a arte. Eles agradecem entre as músicas. Até comentei sobre com organizadores de um festival em que toquei na Bélgica e eles me disseram que agradecem porque estamos dando algo pra eles.

Claro, acontecem problemas muito familiares também: organizadores que divulgam mal os eventos, ou não os planejam muito bem, operadores de som que não conhecem os equipamentos, passagens de som precárias ou inexistentes.

Mas as bebidas são melhores. Eu praticamente não bebo mais, mas tive que provar algumas vodcas russas e polonesas.

E tem a “Fuck Parade”, uma parada LGBT dos punks, em Berlim, onde quero muito voltar. Rsrs.

Você disse em entrevista ao site Rock em Síntese* que ficou um tempo afastada de shows, tanto tocando quanto assistindo, após sua transição. Isso foi devido a algo específico que você presenciou ou foi uma fase? E como estão as coisas nesse aspecto hoje?

Certamente, devido a muitos “algo” que presenciei. Não na cena em si, mas na sociedade como um todo. A gente vive numa cultura muito violenta e intolerante, que odeia mulheres, que odeia pessoas trans, entre muitos outros ódios. Então, acaba rolando essa inconsistência entre o discurso libertário do metal e hardcore, do rock em geral, e as práticas sociais que interiorizamos como seres pertencentes a uma sociedade opressora.

Não teve uma mulher ainda para me dizer que se sente completamente respeitada na cena, que nunca se sentiu subestimada, seja curtindo um som, seja fazendo música. Já ouvi falas de homens cis, como “banda de/com mulher sempre chama mais atenção”, num discurso super fetichizador e condescendente. E estou falando de mulheres cis, pois mulheres trans no rock brasileiro, quase nem conheço.

De cabeça, sei da Foxx Salema e da Karine Profana (Mau Sangue, Messias Empalado). Homens trans e pessoas transmasculinas, nem sei da existência nesse rolê. Se alguém souber, me indique. Rsrs.

Karine foi inclusive a primeira travesti que encontrei num show de metal/HC, show da Armagedom, cerca de um ano antes de eu transicionar, talvez. Na época acho que eu já sabia da Laura Jane Grace (Against Me!), Mina Capputo (Life of Agony) e Marissa Martinez, mas conhecer outra mulher trans pessoalmente, nesse espaço, fez perceber que era possível e real. Então, fica minha homenagem pra Karine, pois nunca disse isso a ela. Rsrs.

Mas, voltando à pergunta, apesar do discurso, nossa cena musical não tem um histórico de acolher todas as diferenças. Ainda é um espaço muito cis-hétero, com alguma abertura para mulheres cis (de preferência vendo a banda do namorado). Então, população LGBT no geral, não tá nem aí pro rock. Pra que adentrar mais um espaço de violência? A gente já aguenta tanta merda nos espaços que temos que estar para ter uma vida, que não sobra vontade ou energia para gastar com opcionais, sabe? E minha ausência veio um pouco disso, de não acreditar que seria bem-vinda nesses espaços e me poupar.

E mais uma vez, não por algo direcionado a mim, mas por tudo que observei dentro e fora da cena. Uns dez anos atrás, por exemplo, dentro do rock paulista usavam ainda o termo “pederasta” para se referir a homens gays. Os emos eram perseguidos por serem “viados”, porque todo som que o roqueiro não curte é viadagem.

Parece inimaginável ser uma pessoa trans e estar neste meio, diante dessas coisas. E também havia muita coisa pessoal acontecendo, eu não precisava de mais problemas, rsrs. Passadas as tempestades, e sendo teimosa, comecei a frequentar os shows, a ser convidada e me convidar para tocar. Posso dizer que me envolvo nos rolês mais críticos e/ou feministas, então não tenho tido muitos problemas na prática. Acredito que é um pouco de sorte também. E sou branca, isso já traz outro peso.

Mas nossa cena ainda tem muito o que aprender e crescer no sentido de acolher e proteger as diferenças, de proporcionar espaços seguros para todas as pessoas e formar verdadeiras comunidades. Perdemos muito a relevância em práxis libertária, acho. Por isso, em termos de Brasil, o rock está onde está. Mas acho que temos ainda potencial para ser mais do que um clube que só acolhe discussão sobre tatuagem, maconha e anarquia, e acha que o único inimigo é o neonazi.

Últimas considerações? Algum recado?

Quero agradecer pelo interesse e pelas perguntas. Espero que continuemos sãs e salvas para reconstruir o mundo no pós-apocalipse e guilhotinar o torturador do Planalto.

Se cuidem e se protejam, e que possamos nos encontrar em breve para fazer um som e criar espaços seguros e acolhedores para as pessoas que não se encaixam no patriarcado-classista-racista-LGBTfóbico. E não deixem de ouvir “To Become Unreal”!

* Link da entrevista para o Rock em Síntese.

Você pode ouvir Umbilichaos no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas / Selos

Entrevista: Mercúrio Música

Mercúrio Música é um selo que faz parte da produtora cultural Mercúrio, de Fortaleza, CE.
Fundado em 2018, o selo conta com bandas e artistas do experimentalismo.

Convidamos Allan Dias, um dos fundadores, pra uma conversa que você lê a seguir.

Não deixe de ouvir a playlist de Allan com artistas do selo e mais!

Pra começar, vocês podem se apresentar?

Meu nome é Allan Dias. Sou músico na banda cearense Maquinas, que fundei junto com meu amigo Roberto Borges, e estou na ativa com ela desde 2013.

Também sou um dos responsáveis pelo selo Mercúrio Música, dedicado a trazer alguns dos ótimos artistas de Fortaleza e do Ceará, mas com sonoridades que acreditamos ter um pé mais no experimentalismo e propostas artísticas mais únicas.

Como surgiu a Mercúrio Música?

Vale dizer que o selo Mercúrio Música é apenas um braço da produtora cearense Mercúrio, que já existe na cidade tempos antes do próprio selo.

Eu e meu amigo e parceiro Lenildo Gomes montamos o selo depois de vermos que a parceria de produção e consultoria com a banda Maquinas havia tido um ótimo sucesso: conseguimos trabalhar juntos para escrever bons editais de financiamento de turnês e outras questões da banda, além de a consultoria nos ajudar a sermos mais profissionais com os processos burocráticos que há por trás de uma banda.

Depois de um tempo vimos que poderíamos aplicar essa parceria com outras bandas que vimos que tinham potencial, mas poderiam precisar de ajuda da mesma forma que o Maquinas precisou. E assim criamos o selo Mercúrio Música em 2018.

Esse ano, infelizmente, o Lenildo teve que deixar o trabalho no selo por assumir um cargo que iria lhe tomar muito tempo e não teria como se dedicar ao selo, ficando atualmente eu e a Ravena Monte, amiga e parceria de anos para continuarmos os trabalhos da Mercúrio Música.

Pensando no mundo antes do covid, como é a cena em Fortaleza?

Eu creio que o cenário musical underground de Fortaleza, pelo menos nos anos recentes, nunca foi marcado por um determinado estilo de som. É uma cidade muito plural, com diversos movimentos de cenas musicais acontecendo ao longo dos anos.

A grande questão é que, por algum motivo, muitas bandas e artistas não conseguem sequer uma projeção modesta no país e até mesmo na própria cidade e eu acho isso uma pena, pois realmente acredito que Fortaleza talvez esteja fazendo o melhor da música atual no cenário alternativo.

Quando você vê que de uns cinco anos para cá Fortaleza viu artistas como Mateus Fazeno Rock, Clau Aniz, Mumutante, Glamourings, Damn Youth, Jack The Joker, Arquelano Jangada Pirata, Dronedeus e outros nomes ganhando destaque nacionalmente, você também nota que só esses nomes passam por diversos estilos musicais, do jazz ao thrash metal.

Existem diversas bolhas musicais em Fortaleza, umas com mais presença que outras, mas no geral, é como se estivessem disputando os mesmos espaços até então.

Com a pandemia fica difícil olhar para o amanhã, mas vejo que muito dos artistas estão ativos e criando, o que me deixa muito empolgado para ver o que vai surgir de música nova aqui na cidade.

O mesmo não se pode dizer dos espaços de shows que estão aos poucos se acabando em dívidas e tendo que fechar as portas. Só o pós-pandemia pode dizer como vamos nos articular nos poucos espaços que restarão na cidade.

Vocês podem falar sobre as bandas do selo num geral? Como foi se formando o cast ou o que faz uma banda entrar pra Mercúrio?

Nós basicamente tentamos trabalhar com algumas bandas que víamos que tinham potencial, possuíam uma sonoridade com piso no experimentalismo e acreditávamos que poderíamos contribuir para melhor promover o trabalho desses artistas.

Nosso primeiro álbum lançado foi o segundo disco do grupo instrumental Astronauta Marinho, “Perspecta” (2018), até hoje um dos meus álbuns favoritos de bandas de Fortaleza.

Com o tempo fomos nos aliando a outros artistas que estavam surgindo e lançamos o primeiro álbum da Clau Aniz, “Filha de Mil Mulheres”, que foi um destaque internacional impressionante, saindo inclusive na lista de melhores álbuns de música experimental da PopMatters de 2018.

A partir daí fomos trabalhando com algumas bandas ocasionalmente, atualmente nosso cast é composto por Maquinas, Clau Aniz, Vacilant, Dronedeus, Viramundo, OUSE e Jangada Pirata.

Também já lançamentos materiais de bandas como Terceiro Olho de Marte, Indigo Mood, O Jardim das Horas, Missjane, George Belasco & O Cão Andaluz, Dani de Azevedo, entre outros.

Vocês não trabalham só com lançamentos, né? Vocês podem falar sobre outros projetos do selo?

Como a Mercúrio Música é apenas uma parte da produtora, temos muitos outros projetos que realizamos fora do escopo musical. Atualmente a Mercúrio está em parceria com outras produtoras da cidade realizando diversos projetos em várias áreas culturais, nas quais vocês conseguem acompanhar via redes sociais da Mercúrio.

Na área musical, também realizamos o festival anual Barulhinho, composto por bandas do selo e outros artistas locais e nacionais. Com a pandemia, obviamente, o festival se encontra parado, mas temos muitas ideias que queremos aplicar no futuro para fazer a marca continuar a crescer.

Realizamos também a “Sessão Mercúrio”, um registro audiovisual ao vivo com alguns dos artistas do selo e que se encontram em nossa página do YouTube.

Já lançamos sessões das bandas Vacilant, Clau Aniz e Dronedeus, além de também atuarmos no suporte da sessão ao vivo de Maquinas, “O Cão de Toda Noite Ao Vivo”, lançado no começo desse ano via Edital Aldir Blanc.

Últimas considerações? Algum recado?

Convido todos a escutarem não apenas a música que lançamos na Mercúrio Música, mas descobrir os diversos artistas e bandas que o Ceará tem a oferecer. Somos um estado com muita música boa para se descobrir e acredito que teremos um maior reconhecimento no futuro.

Espero muito que esses tempos de pandemia passem logo, pois temos muitos planos e projetos grandes que queremos realizar com os artistas da cidade. Até lá, seguimos com os lançamentos do selo e pensando em ideias a mil!

Obrigado a todos pelo espaço!

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas

Penúria Zero – Não Me Representa

Penúria Zero é uma banda de punk-hardcore do DF, hoje composta por Tuttis (vocal), Sopão (guitarra), Biscoito (bateria) e Ismael (baixo).

A banda tem um disco lançado, “Manipulado” (2017), e em Outubro de 2020 eles lançaram seu novo EP “Não Me Representa”.

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o EP “Não Me Representa”, a cena do DF e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá, primeiramente, muito obrigada pelo convite.
Penúria Zero é uma banda de punk hardcore que tem o intuito de falar do nosso cotidiano e de situações do nosso país. As vezes com músicas engraçadas, as vezes com ar de deboche e outras vezes só pagação de sapo mesmo.

Foi formada em 2005 na cidade de Luziânia, GO, porém só começamos a desenrolar o som mesmo em 2011 e desde então não paramos mais.
Hoje a banda é: eu (Tuttis, vocal), Sopão (guitarra), Biscoito (bateria) e Ismael (baixo).

Uma das primeiras coisas que percebemos ouvindo Penúria Zero são algumas letras engraçadas. Deboche é quase pré-requisito no punk-hc, mas muita gente diz que precisa ser sério. Vocês podem falar sobre isso?

Nós brasileiros somos um povo que consegue fazer graça com a nossa própria desgraça, a prova disso são os milhares de memes na internet.

Concordo que o punk deveria e é para ser sério, porém muito mais do que música, o punk é a atitude. Eu creio que a banda tem essa atitude de poder falar com um pouco mais de leveza sobre a nossa situação atual.

Vocês podem falar um pouco sobre cada música do “Não Me Representa”?

Tratamos muito as falas do imundo do presidente na música “Não Me Representa” e como ele ganhou uma eleição na música “Fake News”.

Já “Cidade do Caos” fala um pouco sobre a cidade de Ceilândia e de sonhos de nordestinos que saem da sua cidade e estado natal para tentar uma vida melhor. Foi uma música feita pelo o guitarrista Sopão, que também é nordestino.

E como foi o processo de gravação? Vocês tiveram que fazer alguma adaptação devido à pandemia ou ele foi feito antes?

Gravamos antes da pandemia, porém lançamos na pandemia mesmo porque sabíamos que ia demorar pra poder lançar em shows…

E o clipe da música “Não Me Representa”? Ele foi gravado e lançado no segundo semestre de 2020, né?

Sim. Como sempre, fazemos as coisas por conta própria. Gravamos um pouco na lan house onde o biscoito trabalhava e as minhas partes gravei em casa mesmo. E o Sopão, que sempre fez essa parte de áudio e vídeo, editou em casa também.

Pensando no mundo antes do Covid, como é a cena no DF?

Ahhh saudades, inclusive, de ir aos shows.
Creio que a cena daqui não é muito diferente de outros lugares: produtores fazendo tudo na raça, sem apoio, bandas fazendo seu próprio corre para lançar material, tocar e etc… Saudades dos bons tempos!

Inclusive, Tuttis é organizadora do “Sinta a Liga”, né? Vocês podem falar sobre o festival?

Sim, esse festival é meu amor! rsrs
Ele foi criado com intuito de divulgar e enaltecer as bandas com mulheres na cena, só pode tocar banda que tem ao menos uma mina na formação.

Infelizmente o espaço para nós mulheres é pequeno, então pra mim é importante ter um show dedicado só a nós.

Nisso já conseguimos trazer várias bandas de fora pro festival, como Escrota (SP), Manger Cadavre (SP), Trash no Star (RJ), Benária (RJ), Klitores Kaos (PA), Bertha Lutz (MG), fora as bandas do DF.
Enfim, mais uma saudade: produzir esse festival que amo tanto!

Últimas considerações? Algum recado?

Se cuidem, usem máscara, não subestimem o vírus! E uma hora esse pesadelo todo passa.

“Não Me Representa” está disponível nas redes de stream, e não deixe de acessar o canal do Youtube da banda pra assistir os clipes.


Entrevistas

Anti-Corpos – We Keep On Living

Creio que todo mundo que acompanha o Bus Ride Notes conhece Anti-Corpos, banda de São Paulo formada em 2002, hoje em Berlin e composta por Adriessa Oliveira (guitarra), Helena Krausz (bateria), Marina Pandelo (baixo) e Rebeca Domiciano (vocal).

Anti-Corpos foi uma das primeiras bandas de queercore (se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre) do Brasil, numa época onde praticamente ninguém, nem mesmo a banda, usava o termo.

Em Outubro de 2020 elas lançaram seu novo EP, “We Keep On Living”, cujas músicas foram feitas e gravadas em momentos diferentes, inclusive com diferentes membros na banda.

Conversamos com Anti-Corpos sobre “We Keep On Living”, a história da banda e mais. Confira:

Primeiramente, como estão nessa pandemia? Todo mundo bem? Como andam as coisas aí na Alemanha?

Adriessa: Olá! Bom, a pandemia na Alemanha estava bem controlada até o final das férias de verão, quando os casos começaram a crescer assustadoramente e agora está novamente num lockdown mais severo.
Junta isso com temperaturas negativas e dias que escurecem as 16h, bicho, é tenso! Mas estamos bem e tentando passar por cima de tudo isso.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Adriessa: Anti-Corpos é uma banda queer feminista que faz som rápido e pesado que flerta com o hardcore, punk e metal, aquele famoso crossover.

Helena: A banda existe desde 2002 e ao longo de todo esse tempo tocamos em diferentes cidades brasileiras e vários países da Europa e América do Sul.

Desde 2015 a banda teve várias mudanças, alguns integrantes se mudaram pra Alemanha e formaram uma nova banda. Vocês podem falar sobre isso? E a escolha de continuar com Anti-Corpos?

Adriessa: A banda em toda a sua história teve muitas mudanças, essa é a real.
Em 2015 quando me mudei pra Alemanha e teoricamente a banda tinha acabado porque Rebeca tinha voltado para o Brasil, sabia que a primeira coisa que eu precisava era de uma banda nova, aí conheci Andrzej e Andrea e montamos o Eat My Fear, que na sua formação original tinha o Dirk no baixo. Após três anos ele deixou a banda e a Helena (baterista da Anti-Corpos) assumiu o baixo do Eat My Fear.

Mas logo em 2016, quando Rebeca também se mudou pra Berlin e estávamos reunides novamente, resolvemos dar continuidade e escalamos a Marina pro baixo, que já vinha nos acompanhando por alguns shows que fizemos na Europa.

Acho que o Anti-Corpos sempre vai existir enquanto estivermos na pilha de tocar e sempre nos adaptamos para que isso continue acontecendo.

As músicas do “We Keep On Living” foram feitas durante todas essas mudanças, né? Vocês podem falar um pouco sobre cada faixa?

Adriessa: Esse EP é uma junção de quatro sons gravados em momentos diferentes. Alguns comigo e outros com Re no vocal.
Pouco antes de Rebeca deixar a banda, em 2017 (Rebeca já está de volta hehe), tínhamos recebido um convite para gravar um som para um tributo ao Bulimia e junto com esse som do Bulimia gravamos “Herança” e “Brincando de Igualdade”.

Em 2019, quando eu assumi os vocais, gravamos “Borders of Fear” e “Keep On”. Eu escrevi “Borders of Fear” em uma das viagens que fiz para ensaiar com uma banda que toco na Suécia, que tem uma das fronteiras mais brutais que já passei pela Europa. Sempre que eu atravessava me dava pânico, porque sabia que ia ser controlada de forma agressiva por causa do meu passaporte brasileiro. Pessoas com passaportes de origem africanas ou árabes então… era muito sinistro.

“Keep On” é sobre continuar dia após dia a viver nesse mundo caótico que te cobra demais e que é difícil não pensar em desistir. A letra é da Marina e foi nosso primeiro som em inglês, se não me engano.

Helena: “Brincando de Igualdade” é uma música feita em 2005 que resolvemos regravar. Ela fala basicamente sobre pessoas que são bem desconstruídas na teoria, mas que suas atitudes não condizem com o que falam.
Sempre existiram vários exemplos na cena punk/hardcore de caras com um discurso lindo em cima do palco, mas na realidade eram bem diferentes.

E como tá a banda hoje?

Adriessa: Voltou a ser Adriessa na guitarra, Rebeca no vocal, Marina no baixo e Helena na bateria.
Estávamos voltando a compor para um novo disco, querendo tocar muito e aí veio a pandemia.
Enfim, estamos como a maioria das bandas, na espera louca da vacina.

Não dá pra falar de Anti-Corpos sem falar de queercore. Conheci a banda em 2015 e tenho um adesivo da época onde se lê “lesbian feminist hardcore from brazil” e desde aquela época vocês já usavam o termo “queer” em alguns lugares. Vocês podem falar da relação da banda com o queercore?

Adriessa: Acho que no Brasil o termo queercore nunca foi propriamente usado até tipo Teu Pai Já Sabe?. O queercore é parte da nossa identidade e influências.

Bandas como Limp Wrist, Team Dresch, G.L.O.S.S., TPJS? são super importantes na nossa caminhada. Em 2019 tocamos com o Limp Wrist em Berlin e foi tipo WOW, realização de sonho!

Usar o termo “hardcore lésbico” ou “queercore” sempre foi muito importante para nós como luta mesmo, nesse espaço ainda super machista e homofóbico que é o hardcore punk.

Quem ouve punk e hardcore tem a impressão que é uma comunidade unida e linda, mas sempre que nos aproximamos da cena vemos que a realidade não é nada disso. Mas uma coisa visível na Anti-Corpos, até pra quem acompanha só pela internet, é um senso grande de comunidade. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Adriessa: Acho que a letra da música “Anti-Corpos” fala muito bem o que a banda representa para nós. É a nossa forma prática de luta.

Eu costumava tocar em uma banda que evitava ao máximo essa relação pessoal do público/banda. Acho que as bandas mais ”mainstream do underground” do hardcore punk dos anos 90 ainda tentavam ter essa divisão banda/público.

Eu vejo Anti-Corpos como uma grande comunidade queer, feminista, das mina, das mona, dos roqueiros e roqueiras que se encontram, curtem, pensam, trocam. O palco não nos separa e gostamos da interação em shows, trocando instrumento, chamando galera pra cantar, etc.
No final somos todes ”outcasts” que procuram nesses ambientes de shows queer feminista se divertir e sentir segure na medida do possível.

Eu acho que o que consegui com Anti-Corpos nunca consegui com nenhuma banda e muito vem desse apoio mútuo da nossa comunidade.

Helena: Total, esse apoio é essencial para nos fortalecermos ainda mais enquanto cena queer feminista.
O que não significa que quando vemos algo que achamos errado ficamos quietas. Pelo contrário, sempre que algo ou alguém é denunciado dentro da cena procuramos falar sobre isso, mesmo que não agrade a todes.

Vocês são o tema do documentário “Anti-Corpos, Pedaços de uma Turnê Cúir”, que foi exibido em Novembro no festival Mix Brasil. Vocês podem falar sobre ele?

Adriessa: Meu, isso foi muito surpresa! A nossa amigona Brunella Martina, que gravou todos os nossos clipes, já tocou na banda e gravou a segunda guitarra do disco “Meninas pra Frente”, assim que soube da nossa tour na América do Sul em 2019 falou sobre fazer um registro e usar de alguma forma o material.

Um ano depois, ela nos escreveu com o primeiro corte do mini doc, já nem lembrávamos mais dele. Fomos surpreendidas por um material super massa e ficamos ainda mais surpresas por terem aprovado o doc no Mix Brasil.

Foi interessante ver nossas entrevistas logo após a posse do Bolsonaro, falando de uma forma super pessimista, mas mesmo assim o tom da nossa fala não se compara com a realidade que está sendo vivida hoje. É tipo nossos medos que foram multiplicados por mil.
Triste demais, espero que tenha um ponto de virada em todo esse pior pesadelo.

Últimas considerações? Algum recado?

Adriessa: Obrigada demais pelo convite e sigam seus sonhos, chequem como seus amigues estão passado e fiquem bem! Vamos resistir e fazer a mudança! Quando tudo isso passar nos vemos na estrada.

Helena: Valeu pelo espaço! Força sempre!

“We Keep On Living” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas

Andressa Nunes – O Mandacaru Intergaláctico

“O Mandacaru Intergaláctico” é uma carta de amor ao sertão escrito pela cantora baiana Andressa Nunes. Lançado em 2020, o álbum contêm 13 faixas que fluem como um abraço, como em “A Bahia é Grande”. Isso sem perder a mão nas experimentações, como a technobrega “Bagaceira”.

O álbum foi gravado em Juazeiro (BA) com coprodução de Iago Guimarães, da Casinha Lab. Todas as letras, bem como a arte da capa e as artes personalizadas das músicas no Youtube, são assinadas pela própria cantora.

Andressa canta que “o sertão é a resposta”. Então, fazendo o caminho contrário, fizemos um monte de perguntas sobre “O Mandacaru Intergaláctico”. Confira:

Andressa, a gente pode começar falando sobre o caminho que levou até “O Mandacaru Intergaláctico”. Em 2019 você lançou vários singles, certo? Como foi esse período entre os singles e a composição do álbum? 

Sim, em 2019 eu decidi publicar algumas experimentações caseiras que estava fazendo sozinha e sem muitas pretensões. Dessas, a minha preferida é Ana(r)coluto, que é uma música bem antiga mas que gosto bastante da letra, cheia de referências à filosofia da mente e à gramática da língua portuguesa. Como meu processo de composição é bem aleatório, não houve um ponto específico em que eu decidi compor “O Mandacaru Intergaláctico”. A música título, por exemplo, foi escrita há mais de cinco anos, enquanto “Bagaceira” foi escrita na hora de entrar no estúdio, praticamente.

Algumas músicas (talvez o álbum inteiro, até) são verdadeiras cartas de amor ao sertão, à Bahia, ao Nordeste como um todo. Na primeira música você já canta que “o sertão é a resposta”. O que te motivou a compor essas letras? O que você estava sentindo nesse período?

O sertão, principalmente por sua adaptabilidade e riqueza cultural, pode ser a resposta para muitas das questões sociais que temos enfrentado. O sertão é a resposta num sentido geopolítico, de olharmos para as riquezas e para os modos de vida da população dos vários sertões do Brasil (os rincões da Amazônia, do Centro-Oeste, dos Pampas, das Caatingas), que num geral conseguem conviver melhor com a natureza e produzir seu próprio alimento. Mas também o sertão pode ser uma resposta mais íntima: compreender de onde vim e a linguagem que me habita foi um processo importante para me deixar levar pela música que há tanto tempo componho.
A motivação maior para reunir essas canções foi justamente olhar no espelho da palavra, já que na época eu estava sentindo uma saudade de mim que tomou a forma (espinhosa, mas bonita) de um mandacaru. Há também uma motivação política – toda arte é política, inclusive a “neutra”. Falar do nordeste como algo contemporâneo, sem saudosismos, sem estereótipos, é uma forma de trazer luz a questões que estão em voga como a xenofobia e o machismo. Eu quis trazer um sertão que se deixa permear pela modernidade, mas sem medo de criticá-lo também, como em “A Última Cajuína do Sertão”. Vale ressaltar que não é uma questão de fazer o nordeste virar uma pauta identitária, pelo contrário: quero falar das suas pluralidades e das suas contradições, da ignorância e do saber, com consciência e sem vitimismo. O sertão não precisa de narrativas sensacionalistas. Fico com as narrativas sensoriais.

Quais foram suas referências musicais e de outras fontes? 

Na música, posso citar Cátia de França, Alceu Valença, Tom Zé, Luís Gonzaga, Dominguinhos, Caetano Veloso, Daniela Mercury, os Beatles, Björk, Zé Ramalho, Baiana System.
De outras fontes, acredito que Guimarães Rosa tem uma presença marcante na minha relação com o sertão feito de palavra. Também gosto bastante de cinema, e obras como “Bacurau” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” atravessaram bastante meu processo criativo.

Pode falar um pouco da parte instrumental do álbum? Quais os demais músicos que participaram? Como foi bolar esse som? 

Eu toquei violão em todas e guitarra em algumas das músicas. O restante (bateria, baixo, teclas) ficou por conta de Iago Guimarães, do Casinha Lab em Juazeiro, BA (que coproduziu e mixou as músicas) e do Wagner (percussões diversas) como representante da Camerata Matingueiros de Petrolina, PE. Bolamos o som seguindo o fluxo das letras, eu já tinha em mente o clima e a instrumentação que desejava e os meninos foram geniais e muito generosos ao me escutar e trazer novos elementos para a brincadeira.

O álbum foi lançado no ano em que a pandemia chegou. Já que os shows estão inviabilizados, como foi feita a divulgação do trabalho?  

Divulguei apenas pela internet e também entre amigos e familiares. As novas pessoas que têm chegado para escutar têm sempre me surpreendido positivamente, já que infelizmente não pude fazer nenhuma ação de marketing mais grandiosa. Mas o fluxo da vida, dos algoritmos e das canções tem uns mistérios interessantes.

Tem previsão para clipe?  

Tenho gravados takes de clipes para “Mulher Apocalíptica” e para “Manequim”, mas te confesso que sou eu que faço tudo na minha “carreira”, então a falta de tempo para editar está pesando bastante nesse aspecto. Quem sabe esse ano ao menos esses dois não saem, né?

Num momento em que o Brasil parece estar sendo atacado diariamente pelo que tem de pior nele mesmo, é realmente um respiro ouvir algo que fale com a gente assim, né? Na música “O Absurdo” você escancara esse clima que a gente vive. Você vê alguma esperança pra esse absurdo tanto na via artística, social ou política?

Nem medo, nem esperança: tenho confiança na ética e na capacidade de se transformar que o Brasil tem. Certamente é um processo lento e meu grito de “não me deixe achar normal o absurdo” resume esse chamado para que não deixemos a ignorância e a necropolítica se tornarem a voz da vez, como se fossem uma certeza fatal contra a qual teremos que lutar o tempo inteiro. Não. Não é normal, não é o nosso normal e não existe um “novo normal”: esse desmonte da coisa pública e o descaso com tantas vidas é uma aberração. Tenho fé em grande parte da população que se preocupa consigo mesma, mas que também busca ajudar o próximo. Tenho confiança na ciência e nas instituições de ensino e no seu papel político tão fundamental e de tanta resistência. Tenho fé nos artistas independentes, principalmente nos que produzem arte em vez de produto: a revolução também virá pela beleza, pelo sublime e pela coragem. Mas a mudança é silenciosa e lenta, e enquanto ela não vem, vamos agindo aos poucos para combater os fascismos que nós mesmos reproduzimos com arte, muita solidariedade e muita paciência.

O álbum está disponível no Youtube, Deezer, Spotify e Itunes.