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Resenhas

Sobre o dia em que ouvi o disco “Sintoma”, da In Venus

Esse tem sido o ano que mais tenho lido resenhas. Isso é ótimo, mostra que as pessoas continuam criando, “apesar de você”. E hoje chegou meu dia de fazer minha primeira resenha pra valer. Não sei usar os nomes corretos, os gêneros musicais, descrever panoramas e apostas. Então vou usar o estilo “Mama Rachmuth” e resenhar com o coração. Com atropelo, com a paixão das coisas, com o que atravessa a gente quando ouvimos a música que nos toca.

E essa resenha é, nada mais nada menos, do que do disco mais esperado desse ano. Não importa o tipo de música que você ouve dentro do punk, a bolachona da In Venus é o gatilho mais foda que tá rolando, que rememora os dias de shows e encontros. E que prepara o coração pros dias que virão, cheios de raiva e afeto.

Acho que falar desse disco é falar do que queremos pro punk que vivemos. Porque eu sei que você também quer mais autonomia e controle da música que você cria, mais trocas nas relações e espaços que fazem parte desse meio. Falar desse disco é falar do quanto precisamos da arte punk, dos fazeres coletivos, das construções fugindo de algoritmos. Mas também é falar de acesso, de quem pode pagar, da música enquanto produto. É um disco pra gente repensar o que temos feito enquanto comunidade.

Em abril as músicas já estavam rolando na internet, parte da arte do disco também. E aos poucos foram aparecendo entrevistas e o disco foi criando uma forma na cabeça de quem estava ouvindo devagarzinho e esperando o físico sair. Tenho certeza que nesse momento as músicas passaram por muita gente e nem ficaram. Não dá mesmo pra separar a música punk de todo resto. Eu nunca escuto música olhando pro nada, coloco o som e olho a capa, viro pro outro lado, tiro o encarte, olho a capa de novo, procuro a letra pra cantar junto, vi ali que tem participação na música, “Ah, bem que sabia que era ela”, olho a capa de novo, “Que arte mais loca”. Não dá pra ouvir música punk olhando pro nada. Até mesmo na internet, tem sempre que passar um olho na telinha pra ver a imagem e reafirmar a memória e o afeto da coisa.

E foi nesse ritmo que, mesmo escutando meses antes na internet, ouvi pela primeira vez o disco “Sintoma”, da banda In Venus. Sábado agora chegou a bolacha toda linda aqui em casa e vou tentar juntar tudo isso que eu queria falar com a pira de ouvir na vitrola.

Capa perfeita do disco “Sintoma”, da In Venus

Quando abri o pacote e vi aquela capa enorme, deu um misto de “Que foda!” com “Que punk!” porque é bem essa ideia que esse disco traz, algo esteticamente incrível que só um LP dá, com a confusão e beleza das cores e forma da colagem da capa. Arte feita por Erikat, da Coletiva Formas, que tem uma história massa por trás, algo como uma intervenção com os livros que cada uma da banda deu pra ela envolver a coisa toda. Eu li na resenha que saiu na Música Pavê, lê lá.

E aí não soube o que fazer primeiro, as letras estão impressas num poster gigante, já coloquei no chão igual um mapa, botei a bolacha na vitrola e a mágica aconteceu.

A primeira música já vem com uma rasteira, “Hen to Pan” fala sobre oroboro, a serpente comendo o próprio rabo, na hora lembrei da zine da Ju Gama. A roda da existência, esse é o nosso rolê nessa vida, nada perfeitinho e vivendo as glórias e tristezas disso tudo. O som é frenético, um ritmo alucinado, se eu fizesse um filme colocaria essa música na cena correndo num beco escuro, com uma faca na mão, que é a melhor descrição de viver que existe. É pós punk? Não sei, pra mim é punk.

A segunda é “Ninguém se Importa”, quase um anúncio dos anos de pandemia nesse Brasil governado por fascistas. “Tá tudo uma merda, e não é só pra mim, é pra mim e pra você, então o que fazer além de reclamar e divagar? Às vezes tenho vontade de gritar!”. Caraca, quem não tá com vontade de cantar esses versos num show? A música tem um pegada Mercenárias que amo.

Depois vem a “Quatro Segundos” e nossa, já veio um manguetown na cabeça, aquele sonzinho do agogô no fundo é lindo. A própria letra e a forma como ela foi colocada ali dá esse climão Chico e dedo na ferida. “O paladar, a gula e o prazer só pra quem detém o poder”. Eu tô na terceira música e já tomei vários tapas, volto pro mapa no chão e rio sozinho de tão foda que é.

Aí vem “Cores”, que pra mim é mais forte do disco. Porque ela é denúncia, mas ela também é muito reconhecimento da existência e luta, que é diária. É tipo hino, e como todo hino é ferida, mas é levante também. A mais foda.

“Bordas” é a ultima do lado A, e nessa hora eu já tô tão dentro do disco que acho que elas criaram seu próprio movimento e sonoridade e não consigo mais comparar com nenhuma banda, as músicas se parecem com In Venus e é isso hehe. Eu danço fácil essa, sem passinho definido, só na levada da coisa. “Bordas” fala de propriedade, território e toda essa ideia merda que vem sustentando modos de vida sem sentido algum, que só gera morte. Quando a música acaba rola uma parte de outra música e Rodrigo falando “Quebrou a corda”.

Amo esses extras de fim de música, na moral <3

E essa beleza de bolacha?

Hora de virar o disco. É um 180g translúcido, pesadinho e lindo de ver. Veio também um poster incrível feito por Rodrigo Lima e Erikat, uma intervenção em cima de alguns trampos já feitos pela Coletiva Formas. Digno de emoldurar e jogar pra cima da parede. Eu já imaginei um lambe foda dele pela cidade, em preto e branco e com as rugas de dobrado na cola.

A sexta faixa se chama “Ansiedade” e acho que ninguém vai escapar dessa. É a minha dor e vida nesses últimos anos, e acredito que a sua também. O baixo é lindo, difícil não se deixar levar por ele em todas as músicas. No show vou ficar do lado da Patricia só pra ouvir ele batendo no coração.

Depois vem “Silêncio”, o baixo aqui tá lindo também e junta com um synth (eu acho) bem no destaque. Quase hipnotizante, só que com a energia lá em cima. Tipo transe né, essa é pra escutar bem alto.

“Velocidade Líquida” vem no mesmo clima, guitarrinha dando um loop na sua mente, bateria frenética. Batera que, por sinal, deu uma identidade perfeita no disco. A real é que cada instrumento ali se fez de um jeito único.

E aí vem “Hipócritas”, a música mais música, a letra mais letra. Já aproveita que aumentou o volume nas de antes e se acaba nessa, que tem o sax do Rafael Nyari, quase desconcertante. Pega o encarte e canta junto, essa é de tomar tapa, eu e você.

E quando olho já é a última do disco, “Ancestrais”. Pesadíssima, fala sobre ancestralidade e formas de vida que se perdem, ou melhor, são destruídas pelo branco capital. Ela tem participação de Renato Kuaray, que também participa da composição da música. Essa é linda demais, fecha o disco de uma forma incrível, junto com um quase som-imagem, daqueles que você fecha o olho e imagina a dança e a vida se fazendo.

Encarte tamanho mapa, capa e pôster tamanho lindo

“Sintoma” foi lançado pela No gods, No masters e parte da pré-venda foi revertida pro Vivência na Aldeia, um projeto social de apoio às comunidades indígenas no litoral sul de São Paulo. O disco, a banda, No Gods, No Masters, nós que acreditamos no punk como espaço e momento de pensar outras formas, está tudo ligado e é isso que nos faz comunidade.

E aí, ter essa bolacha em mãos faz a gente pensar em todo esse boom de mídias analógicas e como tem se dado o acesso a elas. É inquestionável a força que a mídia física tem pro punk, a gente poderia cair por cima de mil ideias em torno disso, muito da base que temos do hardcore/punk é sobre ter o controle da nossa música, seja decidindo o que e como criar, até como fazer tudo isso circular e se manter vivo, sem qualquer viés de mercado apontando dedo e enchendo o bolso. É foda demais ver as bandas lançando discos e fitas, a galera criando seus selos. Mas também causa incômodo ver o valor de tudo, não tem como.

Que a gente consiga entender onde estamos nisso, de todas as formas. As bandas continuam lançando CD-R com capinha xerocada, CDs no papelão, gravando em fitas velhas, K7s novas e também em discos maravilhosos como esse da In Venus. Esse é o ponto, criar fora do algoritmo e fazer existir no chão de um show, na troca de mãos, no abraço e no “Que foda, vi o show de vocês e amei, tem material?” e tudo isso acontecer no encontro, longe da tela. Não tem como não ser bom.

Como eu disse lá no começo, pra mim esse é o disco mais esperado do ano, porque esse é o punk mais apaixonante que temos e que queremos que nunca deixe de existir. Vivo e ativo, feito por nós, invertendo a lógica e dançando com a nossa revolta.

Terminei o disco assim, querendo tramar e confabular, derrubar tudo e partir daí.

Porque eles nos devem uma vida.

É claro que devem.

“Sintoma” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas / Selos

Tudo Muda Music: É nois na fita K7 (de novo)!

Você já ouviu música em fita? Já encontrou uma fita do seu artista preferido? Sim, fita mesmo. Fitas cassete! Leitores novinhos, vão agora lá nos seus pais e perguntem pra eles o que diabos é uma fita cassete (ou k7 mesmo).

Essas fitas viveram seu auge durante os anos 80 e 90, e depois caíram em desuso com a chegada do CD. Mas quando ninguém mais esperava, elas voltaram! Pra ter uma ideia, de acordo com a British Phonography Industry, cerca de 156,542 fitas foram vendidas em 2020 no Reino Unido (um aumento de 94.7% em relação à 2019).

Mas e aqui no Brasil? Bom, aqui se você quer falar desse revival das clássicas fitinhas, você vai ter que falar sobre a Tudo Muda Music. Esse selo independente de Brasília vem lançando material dos seus artistas em belíssimas fitas cassetes, tudo feito por eles mesmos. E eles estão a todo gás, viu? Foram 30 títulos no catálogo do selo só em 2020 e, pelo visto, o selo só tem a crescer.

Pra falar sobre o Tudo Muda Music e bater um papo sobre formatos analógicos, o Bus Ride Notes entrevista Mauro Rocha, fundador do selo e um legítimo nerd de música. Confira:

Como começou a Tudo Muda Music?

A Tudo Muda Music é um pequeno selo musical de Brasília, que começou em 2015.  Desde o princípio até meados de 2019 o selo lançou apenas meus projetos musicais. Sou músico, toco baixo e sintetizador, sendo meu projeto principal o Transistorm. Por conta da minha atividade com essa banda e outros projetos paralelos, comecei a produzir discos a partir de 2015, quando criei a Tudo Muda.

Em 2019, após o selo acumular alguma experiência na produção de fitas, vinis e CDs (dos meus projetos) no Brasil e no exterior, surgiram as primeiras possibilidades de parcerias para produzir lançamentos de outros artistas-amigos do selo, com Abismo, Stvz, Frank Sidarta, e Signo XIII, chegando ao fim do ano com 11 títulos lançados em 20 formatos físicos.

Em 2020, apesar da pandemia da covid-19, o selo seguiu trabalhando a todo vapor, chegando ao fim do ano com 30 títulos no catálogo. Uma importante parceria também foi acrescentada: a associação com a Torto Disco, selo de música instrumental/experimental de Brasília que passou a lançar CDs e fitas em conjunto com a TMM.

Agora em 2021, seguimos lançando ótimos sons, como Joe Silhueta, Groupies do Papa, Visiorama, entre outros, sendo que tudo sai em formato digital mas também é lançado em fitas e/ou CDs. Já chegamos a 40 títulos no catálogo, que pode ser visto e ouvido gratuitamente no nosso Bandcamp, nossa principal “janela”.

Também estamos iniciando uma nova parceria com o selo Maxilar, do Gabriel Thomaz, do Autoramas, que deve trazer uma série de novos artistas muito interessantes ao catálogo do selo, o que é uma alegria e uma honra pra nós!

De onde surgiu a ideia de produzir as fitas k7 dos artistas do selo?

Da necessidade! Em 2015, 2016 eu comprei algumas produções de bandas brasileiras em fita (acho que era algo da Desmonta Discos), daí tentei obter os contatos pra produzir e constatei que as fitas na verdade eram feitas na Argentina. Lembro que pensei, “não é possível que em um país do tamanho do Brasil ninguém produza fita cassete! Tem até fábrica de vinil no país!”. Mas era verdade e não tinha mesmo onde produzir, aí no fim de 2016 eu comecei a tentar comprar tape decks e fitas virgens pra produzir eu mesmo, estilo D.I.Y..

Durante 2017 me dei mal várias vezes, comprando sons antigos e tentando consertar, sempre dando tudo errado, até que comprei um tape deck novo, gringo, de qualidade razoável, mas no qual consegui fazer as primeiras fitas da Tudo Muda. Também precisei desenvolver toda a parte gráfica, como templates e facas das capas e rótulos, e por fim conseguir o canal de importar as mídias, ou seja, as fitas “virgens”, o que é outro processo bem chatinho até hoje, mas que felizmente o selo vem conseguindo dominar nos últimos anos.

Em 2018, logo após eu conseguir fazer tudo isso, a Polysom começou a produzir fitas de forma industrial. Apesar de aparentemente isso ser um “banho de água fria” no meu esforço, foi algo excelente. Como eles trabalham com pedidos a partir de 50 cópias, isso trouxe uma alternativa para trabalho que não teríamos como fazer com nosso sistema de duplicação. A Tudo Muda produz com a Polysom sempre que necessário, mas hoje em dia também conseguimos fazer as nossas pequenas produções. Além disso, como não conseguimos atender encomendas de artistas interessados, sempre recomendamos a Polysom quando nos procuram nesse sentido.

E a aproximação com os artistas que são lançados pela Tudo Muda? Como ela acontece? Como é feita a curadoria de vocês?

Nossa capacidade de produção é bem limitada, então a gente se atém a uma linha de curadoria dentro da proposta do selo, que é de lançar música contemporânea, em geral que traga algo de novo/diferente em termos de sonoridade. Muitos sons que “não se encaixam” em apenas um estilo são lançados pelo selo. Também damos ênfase aos sons eletrônicos e instrumentais.

A aproximação com os artistas acontece de várias formas, no início era algo mais proativo nosso, atualmente recebemos propostas pelo email (info@tudomudamusic.com) que podem ou não se adequar à linha do selo, daí entramos em contato quando é o caso. Felizmente, agora já temos um cronograma de lançamentos pros próximos três meses, com muita coisa excelente vindo por aí até o fim do ano. Mas continuamos abertos e interessados em ouvir novos sons, especialmente que tenham a ver com nossa “linha editorial”. Basta mandar pro email acima (a gente responde sempre que tem a ver).

Você tem alguma memória afetiva com formatos físicos? Conta pra gente.

Sim, muita! Desde criança eu amo música e com 9 anos comecei a comprar fitas cassete. Na época, minha família foi morar no exterior (Lima, Peru) e meu pai só comprou um tape deck, não tive toca-discos até voltarmos ao Brasil, três anos depois, então na minha infância era só fita. Também dava pra gravar e ouvir no walkman e no carro, então essa coisa da portabilidade era ótima. Depois, na adolescência, fiz muito tape trading na época de ouro dos zines e fitinhas caseiras.

E até hoje coleciono vinis, CDs e fitas cassete, tenho uma coleção de mais de 3300 discos, devidamente cadastrados no Discogs (user: volume22).

Esse envolvimento afetivo com os discos desde a infância e o colecionismo ativo de discos até hoje me ajudam muito a obter resultados interessantes na construção do aspecto visual dos discos da Tudo Muda, claro.

A gente vê que as fitas tem todo um trabalho estético muito bem feito né, como é esse processo de produção?

Sim, tem a ver com nossas referências estéticas, de selos – principalmente Warp Records, ECM, Tzadík, Magaibutsu e, aqui no Brasil, Wop Bop e Essence Music.

Aí tentamos ser o mais criativos possível, levando em conta as artes dos discos, tentando selecionar fitas e caixas que combinem bem.

Você, Mauro, tem alguma fita preferida lançada pela Tudo Muda? Uma que você olhe e pense “Putz, esse trabalho aqui ficou lindo”.

Sim, mais de uma, na verdade. As principais seriam: Os Gatunos (2020), tem um contraste muito bom entre a fita, caixa e arte; Stano Sninský (2020), primeira experiência com rótulos em vinil translúcido, nessa fita funcionou muito bem; Transistorm (2021), fita translúcida, caixa não-translúcida e capa adesivada na fita; Fita Groupies do Papa (2021), com “luva” externa.

É meio difícil achar quem tenha um toca fitas hoje em dia, mas também está acontecendo todo um revival de formatos físicos, né? As fitas da Tudo Muda são mais como souvenirs? Como vocês pensam essa questão?

Sim, diferente do vinil (que em geral quem compra, ouve), com as fitas cassete dificilmente quem compra vai escutar. Nossas fitas vêm até com código de download pra quem compra já baixar.

Mas tem bastante a coisa do colecionismo, sim, eu costumo comparar com comprar um brinquedo antigo, que você não vai jogar mas acha legal ter na prateleira.

As fitas cassete também têm até hoje muito apelo, mesmo com pessoas muito mais jovens e que não tiveram esse formato como sua principal forma de consumir música. Talvez pelo design, talvez justamente por remeter a uma época que foi muito importante na música e na cultura (anos 70 e principalmente 80).

Recentemente o Discogs publicou uma lista das 100 fitas mais caras já vendidas no site (a mais cara foi uma do Linkin Park por 4.500 dólares), e começam com o seguinte comentário, traduzido:

Os cassetes estão voltando. Não, sério.
O vinil como uma forma de colecionar e compartilhar música já não é mais novidade em 2021. (…) Ao contrário de seus equivalentes de cera, os cassetes são bastante baratos para produzir (como artista) e comprar (como fã). Este formato de baixo custo é atraente para os músicos independentes, que podem lançar música sem investir milhares de dólares. Isso, por sua vez, torna os preços baixos e atraentes para os fãs e colecionadores mais jovens, que muitas vezes são a força motriz por trás das novas vendas de cassetes.

Esse seria outro aspecto importante, a meu ver, de ser mais acessível em termos de preço que o vinil.

Como vocês veem o papel do selo musical para com o público e os artistas? Ainda tem muitos campos a serem explorados nesse sentido? Tipo, muita coisa interessante que pode surgir dessa conexão?

É um orgulho poder colaborar com tantos artistas interessantes, poder contribuir para que tenham um lançamento legal na sua discografia e ao mesmo tempo ter sua música e sua arte no catálogo do selo.

Na Tudo Muda fazemos uma construção conjunta, bem de parceria mesmo, e bem diferente do conceito tradicional das grandes gravadoras. Selos independentes têm sim, muito mais essa vocação pra criar uma conexão com os artistas e com o público, e isso é muito bom.

No caso da TMM, como é um selo “de músicos”, vemos que isso traz também legitimidade e tranquiliza artistas parceiros, que sabem que não estão lidando com uma mentalidade voltada apenas ao lucro financeiro, mas sim à integridade artística.

E o futuro da Tudo Muda Music? Dá pra dar uma ideia do que vocês estão bolando?

Sim, como mencionei, já temos uma boa lista de artistas interessantíssimos a lançar. Isso inclui as parcerias com os selos Maxilar e Torto.

Além disso, teremos vários lançamentos de artistas da vanguarda da música japonesa, por meio de uma ponte estabelecida pelo Fredy Xistecê (produtor, ex-Lombra Records), que recentemente se aliou à Tudo Muda.

Por fim, estamos iniciando um sub-selo voltado apenas a sons pesados, em parceria com o Tulio DFC. Vai se chamar Catacumba Records e em breve estará em operação.

E assim que a pandemia passar, a ideia é organizar um evento com as bandas do selo, algo que queríamos ter feito no fim do ano passado, quando “completamos” 5 anos de vida.  Ou seja, vem muita coisa legal por aí!

Obrigado pelo espaço no site, e aos leitores. Acompanhem nosso trabalho, toda semana tem novidade.

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas / Selos

Entrevista: Mercúrio Música

Mercúrio Música é um selo que faz parte da produtora cultural Mercúrio, de Fortaleza, CE.
Fundado em 2018, o selo conta com bandas e artistas do experimentalismo.

Convidamos Allan Dias, um dos fundadores, pra uma conversa que você lê a seguir.

Não deixe de ouvir a playlist de Allan com artistas do selo e mais!

Pra começar, vocês podem se apresentar?

Meu nome é Allan Dias. Sou músico na banda cearense Maquinas, que fundei junto com meu amigo Roberto Borges, e estou na ativa com ela desde 2013.

Também sou um dos responsáveis pelo selo Mercúrio Música, dedicado a trazer alguns dos ótimos artistas de Fortaleza e do Ceará, mas com sonoridades que acreditamos ter um pé mais no experimentalismo e propostas artísticas mais únicas.

Como surgiu a Mercúrio Música?

Vale dizer que o selo Mercúrio Música é apenas um braço da produtora cearense Mercúrio, que já existe na cidade tempos antes do próprio selo.

Eu e meu amigo e parceiro Lenildo Gomes montamos o selo depois de vermos que a parceria de produção e consultoria com a banda Maquinas havia tido um ótimo sucesso: conseguimos trabalhar juntos para escrever bons editais de financiamento de turnês e outras questões da banda, além de a consultoria nos ajudar a sermos mais profissionais com os processos burocráticos que há por trás de uma banda.

Depois de um tempo vimos que poderíamos aplicar essa parceria com outras bandas que vimos que tinham potencial, mas poderiam precisar de ajuda da mesma forma que o Maquinas precisou. E assim criamos o selo Mercúrio Música em 2018.

Esse ano, infelizmente, o Lenildo teve que deixar o trabalho no selo por assumir um cargo que iria lhe tomar muito tempo e não teria como se dedicar ao selo, ficando atualmente eu e a Ravena Monte, amiga e parceria de anos para continuarmos os trabalhos da Mercúrio Música.

Pensando no mundo antes do covid, como é a cena em Fortaleza?

Eu creio que o cenário musical underground de Fortaleza, pelo menos nos anos recentes, nunca foi marcado por um determinado estilo de som. É uma cidade muito plural, com diversos movimentos de cenas musicais acontecendo ao longo dos anos.

A grande questão é que, por algum motivo, muitas bandas e artistas não conseguem sequer uma projeção modesta no país e até mesmo na própria cidade e eu acho isso uma pena, pois realmente acredito que Fortaleza talvez esteja fazendo o melhor da música atual no cenário alternativo.

Quando você vê que de uns cinco anos para cá Fortaleza viu artistas como Mateus Fazeno Rock, Clau Aniz, Mumutante, Glamourings, Damn Youth, Jack The Joker, Arquelano Jangada Pirata, Dronedeus e outros nomes ganhando destaque nacionalmente, você também nota que só esses nomes passam por diversos estilos musicais, do jazz ao thrash metal.

Existem diversas bolhas musicais em Fortaleza, umas com mais presença que outras, mas no geral, é como se estivessem disputando os mesmos espaços até então.

Com a pandemia fica difícil olhar para o amanhã, mas vejo que muito dos artistas estão ativos e criando, o que me deixa muito empolgado para ver o que vai surgir de música nova aqui na cidade.

O mesmo não se pode dizer dos espaços de shows que estão aos poucos se acabando em dívidas e tendo que fechar as portas. Só o pós-pandemia pode dizer como vamos nos articular nos poucos espaços que restarão na cidade.

Vocês podem falar sobre as bandas do selo num geral? Como foi se formando o cast ou o que faz uma banda entrar pra Mercúrio?

Nós basicamente tentamos trabalhar com algumas bandas que víamos que tinham potencial, possuíam uma sonoridade com piso no experimentalismo e acreditávamos que poderíamos contribuir para melhor promover o trabalho desses artistas.

Nosso primeiro álbum lançado foi o segundo disco do grupo instrumental Astronauta Marinho, “Perspecta” (2018), até hoje um dos meus álbuns favoritos de bandas de Fortaleza.

Com o tempo fomos nos aliando a outros artistas que estavam surgindo e lançamos o primeiro álbum da Clau Aniz, “Filha de Mil Mulheres”, que foi um destaque internacional impressionante, saindo inclusive na lista de melhores álbuns de música experimental da PopMatters de 2018.

A partir daí fomos trabalhando com algumas bandas ocasionalmente, atualmente nosso cast é composto por Maquinas, Clau Aniz, Vacilant, Dronedeus, Viramundo, OUSE e Jangada Pirata.

Também já lançamentos materiais de bandas como Terceiro Olho de Marte, Indigo Mood, O Jardim das Horas, Missjane, George Belasco & O Cão Andaluz, Dani de Azevedo, entre outros.

Vocês não trabalham só com lançamentos, né? Vocês podem falar sobre outros projetos do selo?

Como a Mercúrio Música é apenas uma parte da produtora, temos muitos outros projetos que realizamos fora do escopo musical. Atualmente a Mercúrio está em parceria com outras produtoras da cidade realizando diversos projetos em várias áreas culturais, nas quais vocês conseguem acompanhar via redes sociais da Mercúrio.

Na área musical, também realizamos o festival anual Barulhinho, composto por bandas do selo e outros artistas locais e nacionais. Com a pandemia, obviamente, o festival se encontra parado, mas temos muitas ideias que queremos aplicar no futuro para fazer a marca continuar a crescer.

Realizamos também a “Sessão Mercúrio”, um registro audiovisual ao vivo com alguns dos artistas do selo e que se encontram em nossa página do YouTube.

Já lançamos sessões das bandas Vacilant, Clau Aniz e Dronedeus, além de também atuarmos no suporte da sessão ao vivo de Maquinas, “O Cão de Toda Noite Ao Vivo”, lançado no começo desse ano via Edital Aldir Blanc.

Últimas considerações? Algum recado?

Convido todos a escutarem não apenas a música que lançamos na Mercúrio Música, mas descobrir os diversos artistas e bandas que o Ceará tem a oferecer. Somos um estado com muita música boa para se descobrir e acredito que teremos um maior reconhecimento no futuro.

Espero muito que esses tempos de pandemia passem logo, pois temos muitos planos e projetos grandes que queremos realizar com os artistas da cidade. Até lá, seguimos com os lançamentos do selo e pensando em ideias a mil!

Obrigado a todos pelo espaço!

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas / Selos

Kino Lopes – Dobradiça Enferrujada Discos

Começando pelo começo, caso você nunca tenha ouvido falar, experimental geralmente é quando a pessoa faz um som sem estrutura, usando elementos pouco comuns, usando um instrumento de uma maneira que não costuma ser usada ou tudo isso de uma vez. E no meu entendimento improvisação é quando a pessoa não pensa duas vezes, a composição é em tempo real quando grava um disco e ao vivo é literalmente improvisado, um show nunca vai ser como o outro.

Dobradiça Enferrujada Discos é um selo independente de Brasília que reúne alguns desses artistas. Inclusive, Qorpo, com quem fizemos uma entrevista há alguns meses. Conversamos com Kino Lopes, co-fundador do selo, pra conhecer um pouco mais sobre esse mundo.

Gostaria de deixar a observação que meu conhecimento sobre improvisação e experimentação se resume ao que eu acabei de escrever, então as perguntas surgiram da minha ignorância e curiosidade sobre o assunto.

Caso eu tenha errado na introdução, você pode falar resumidamente o que é improvisação e experimentação?

Eu diria duas coisas, que acabam sendo uma só. Primeiro que música experimental seria menos um gênero ou uma linguagem geral com signos que regem sua construção, mas seria essencialmente uma forma de criação que lida com a possibilidade de produzir a partir do contato com o material, encontrando estruturas através dele, e não o aplicando a um recipiente previamente estruturado. Eu não diria que isso resulta em uma ausência de estrutura, mas sim em uma dinâmica de ida e volta com o som, que de certa forma significa que a música recebe uma imagem como resultado do próprio processo, ao invés de caminhar em direção a uma imagem que determinaria seu equilíbrio e seus alvos. Existe uma singularidade formal inscrita no próprio encontro com os objetos musicais. E a segunda coisa é que a experimentação é marcada, sobretudo, pela incerteza do resultado. É uma maneira de fazer coisas que não sabemos o que são, seja através da improvisação, que implica em uma relação de investigação em tempo real, onde o espaço, as ações involuntárias do instrumento, e os membros da performance terão uma grande fala na negociação da evolução do material, ou seja, através da composição, que implica uma lapidação e uma sistematização que nasce da análise dos elementos. É claro que existe todo um espectro entre esses dois processos que tendem a se misturar.

Você também é um dos artistas do selo, você pode falar sobre a sua história com improvisação e experimentação? E como surgiu a ideia de um selo pra esse “gênero musical” meio desconhecido?

Durante as ocupações estudantis da UnB que ocorram em 2016 contra o golpe de estado e a PEC 241, os estudantes que ocuparam o departamento de música tinham formações muito distintas entre si, desde o jazz, como no meu caso, ao piano romântico, como no caso da Cá Rocha, até a música popular, como no caso da Marília Nóbrega, e ainda estudantes de outros cursos que ocuparam conosco e que tinham formação nenhuma. A improvisação, de uma forma completamente desprovida de qualquer tipo de agenda ou bula, foi a “solução” pra esse desencontro de vocabulário, que, na verdade, não seria uma solução porque ela não fornece exatamente um território expandido que acolhe as linguagens da forma como são, mas uma nova gramática que é construída através da deformação delas. A Dobradiça nasceu logo depois do fim das ocupações com a ideia de organizar as reverberações das experiências e dos aprendizados que surgiram naqueles meses, e que continuam surgindo mesmo três anos depois, hoje com ainda mais pessoas graças as apresentações, as jams e aos encontros, como, por exemplo, o QORPO que vocês entrevistaram, e também graças a compositora e professora Tatiana Catanzaro da UnB, que desde sua chegada no departamento tem fortalecido um estudo e uma comunidade voltada para a experimentação. Foram praticamente três meses com aquele tanto de gente morando no mesmo lugar, aprendendo um bocado junto, e acho que no fundo é uma tentativa de dar continuidade e de expandir aquela experiência.

Você pode falar sobre a coletânea “Mais a Soma de Seus Possíveis”?

Esse álbum foi em sua maioria a gravação de uma apresentação que fizemos no começo do ano no Estúdio Confraria, que consistiu de improvisações individuais, e a outra parte de gravações feitas em casa por quem não pode participar no dia, e mesmo assim algumas pessoas infelizmente não conseguiram participar. Um assunto muito frequente entre a galera sempre foi a ideia de que se uma improvisação individual é ou não uma improvisação. Quando improvisamos sozinhos sempre estamos à beira de um processo altamente controlado, à beira de uma composição em tempo real. Nesse projeto temos peças completamente improvisadas, como a do Luiz Rocha, até a composição escrita da Yuki Shimura. Como esse campo é extremamente expressivo e pode ser construído/formatado de tantas formas, é muito legal poder ouvir a peculiaridade do processo de cada um neste contexto solo, como também ouvir as semelhanças entre a composição e a improvisação. Era algo que ocorria nos encontros e afins, e queríamos a um bom tempo fazer gravando.

Além dos lançamentos, o selo promove eventos com seus artistas. Você pode falar um pouco sobre isso?

Por sorte nossa, diversos lugares deram espaço para a gente apresentar e montar projetos de forma completamente livre. É legal quando alguém acolhe uma proposta de apresentação onde não sabemos como vai ser. Quando a situação é ao vivo, existe a possibilidade de refletir coletivamente sobre o que aconteceu, e a audiência frequentemente apresenta uma perspectiva completamente criativa sobre o som, e assim como as pessoas que estão tocando, as interpretações são contrastantes, o que gera uma retroalimentação gigante. Também existe uma pluralidade de comportamento quando apresentamos ao vivo, desde pessoas mudando de lugar, posição pra ter outras perspectivas do que esta acontecendo, como por exemplo, um rapaz que foi da cadeira, pro chão, e depois deitou a cabeça no piano do Rafael Bacellar, até apresentações onde a pessoa traz um instrumento pra tocar junto. Em uma apresentação ao vivo fica latente o quanto a parte de ouvir e investigar o som é uma das partes mais criativas, se não a mais criativa. Até a pandemia, a Galeria Alfinete e o 705 Bar abrigavam apresentações rotineiramente pros projetos, e isso proporciona uma coisa maravilhosa que é ter uma espécie de laboratório, e eu digo isso tanto para quem está indo pra tocar tanto pra quem tá indo para ouvir. Existe uma relação de muita confiança no meio disso, já que se trata em sua maioria de apresentações onde não sabemos o que vamos tocar.

E falando nisso, existe muita diferença entre gravação e apresentação quando se trata de improvisação e experimentação?

Existe muito. A primeira coisa que vem em mente é o processo de mixagem e edição que existe depois da gravação. O Pedro Menezes da Zéfiro, que é quem grava e mixa a maior parte dos projetos da Dobradiça, é tão instrumentista quanto os gravados quando se trata da improvisação gravada. A possibilidade de interagir com a microfonação, com a edição, com o silêncio do estúdio, isso tudo é bem diferente em uma sala de apresentação com público, onde temos a acústica de um espaço povoado, a espacialização. A segunda coisa é o detalhe que o microfone pega. Gravamos um projeto de trio, ainda não lançado, que conta com a Cá Rocha (voz e percussão), Andrey Grego (violino) e eu (violão e trompete) que é em sua maioria num volume tão baixo, que não teria como ser percebido ao vivo da forma como é com a captação de múltiplas ferramentas. Já ao vivo, a materialidade do som, a sensação física ao ouvir um acorde desencontrado entre um sax, um trompete, uma clarineta e um violino, essa fisicalidade é um vetor determinante na forma que a improvisação vai tomar.

Como anda a situação na quarentena? O pessoal têm gravado em casa?

A situação da quarentena num geral anda chorosa levando em conta a completa falta de capacidade que temos de gerir duas crises ao mesmo tempo, tanto da pandemia em si tanto de um projeto de governo que desde seu princípio deixa claro que a perda de vidas não será motivo de preocupações, mais especificamente das classes mais baixas, essas que nunca tiveram quarentena ou isolamento social e que são obrigadas a entrarem em pelo menos dois ônibus lotados por dia. É uma situação completamente desnecessária, diga-se de passagem. No início da pandemia ouve a desoneração tributária para uma série de empresas privadas, mas sem a manutenção do trabalho, sem nenhuma defesa dos postos de trabalho. Deixamos de arrecadar bilhões de grandes empresas que poderiam ser usados para garantir a possibilidade do isolamento social. Enquanto isso no Chile foi aprovado, por iniciativa do partido comunista chileno, a taxação de grandes fortunas para garantir o isolamento de todos e todas. Então quarentena real, no Brasil, não houve.
Em relação à possibilidade de continuar com os projetos do selo: a não ser os projetos já gravados e ainda não lançados, o movimento em termos de produção que existe no momento são grupos de estudos, projetos para cursos virtuais, video aulas, e trabalhos voltados para a área da composição. Eu diria que uma possibilidade que se abre com a impossibilidade de se encontrar é a oportunidade de repensar a composição, um processo que é comumente feito individualmente, de forma interativa através da tecnologia, que é para onde temos virado nossa atenção.

Últimas considerações? Algum recado?

Queria agradecer pela entrevista, e principalmente pelo blog. A internet talvez seja o lugar mais perigoso hoje pra uma pessoa procurando no que pensar e como ocupar a cabeça, e o que espaços como o Bus Ride fazem, dedicando tempo e força pra falar de música criativa, pode não parecer muito em momentos como os que estamos, mas se deixar de existir, a diferença vai ser sentida de várias formas e em várias dimensões.

Os lançamentos do Dobradiça Enferrujada Discos estão disponíveis no Bandcamp.


Entrevistas

Cama Rosa Gruta

Em agosto de 2018, no Caffeine Studio, São Paulo, algo começava a ser gerado. Bruno Trchnmm e Cindy Lensi (Cama Rosa) passaram pela cidade e toparam com Analena Toku (Gruta), o resultado desse encontro nós só veríamos dois anos depois. Já dá pra adiantar aqui que valeu a pena a espera.

É interessante pensar nesse espaço entre esse encontro e o fruto dele, é como se o próprio tempo tivesse um papel importante no resultado final tanto quanto o ato de compor e tocar. E o tempo mexe com a gente. Nesse caso, de tanto mexer com os três, em 1 de outubro de 2020, saiu o EP “Cama Rosa Gruta”.

O álbum, mixado e masterizado por Juliana R., conta com quatro faixas: Vértice Osso Jade; Cipó Ouriço Beat; Passo Cravo Cipó; Melancia Vapor Cigarro. Tão abstrato quanto os nomes das faixas denunciam, no Bandcamp o álbum é definido como um caleidoscópio vivo, um animal que se move mas deixa um rastro de imagens coloridas, um rastro que tem mais de dois anos de metamorfoses antes de se cristalizar, e até mesmo como uma explosão em câmera lenta.

Pra olhar um pouco mais de perto esse caleidoscópio ambulante que, após tanto tempo se cristalizando, agora explode lentamente, convidamos os envolvidos na obra para uma entrevista. Confira:

Primeiramente, como estão nessa quarentena? Todos saudáveis?

Anelena Toku: Por aqui tudo sempre na linha entre estar “bem”, ter a possibilidade de ficar em casa e ao mesmo tempo sentindo todas as sensações que vem com esse momento tão crítico e com tantos acontecimentos que nos revoltam.

Cindy Lensi: Tudo bem, sim. No começo da pandemia estava tenso, um ar denso que impregnou o dia-a-dia com nóias e incertezas. Agora estou me sentindo um pouco mais tranquila, e conseguindo pensar com mais clareza.

Bruno Trchnmm: Eu sou professor da rede municipal aqui em Campinas e tenho um filho de 6 anos, então por aqui a quarentena tem alguns tons particulares de desespero . Mas não dá pra reclamar não, pelo menos podemos trabalhar em casa.

Como surgiu a ideia do EP? Por que as duas bandas decidiram trabalhar juntas?

Anelena: Esse encontro foi bem espontâneo, aproveitando uma vinda da Cindy e do Bruno pra São Paulo, marcamos essa sessão no estúdio. A gente já tinha vontade de produzir algo junto. A uns anos atrás eu já tinha gravado um som chamado “Ruínas” com uns samples de guitarra do Bruno. No início de tudo, Gruta era só guitarra/violão e voz, depois fui fazendo mais coisas com eletrônicos e deixei a guitarra, então esse reencontro com as guitarras foi ótimo.

Cindy: Já tínhamos ouvido alguns sons da Anelena (Gruta) e também já vimos ao vivo uma apresentação do Fronte Violeta (Anelena Toku e Carla Boregas). Achamos muito legal. Foi o Bruno quem deu a ideia de convidá-la, e quando um dia estávamos indo tocar em São Paulo no Hotel Bar, isso em Agosto de 2018, fizemos o convite para gravarmos um improviso juntos lá no estúdio Caffeine no mesmo dia. A Anelena topou e assim surgiu o EP. Só tivemos noção melhor do som quando ouvimos depois mesmo. Esse ano convidamos a Juliana R. para fazer a mixagem do disco, então na verdade esse disco foi construído por quatro pessoas.

Bruno: Tem muito o lance de que o meio que a gente circula mistura muitas dessas abordagens de som, o noise, o improviso livre, a música eletrônica, performance… meio que tudo ao mesmo tempo. Então apesar de ser um percurso estranho, é muito natural porque tem um pouco desse trânsito: a gente gravou um improviso totalmente livre sem combinar nada, e depois trabalhou nesse som fazendo umas colagens, que é meio que o modo de trabalho da música eletrônica. Depois a Anelena gravou as vozes, que trazem pra mais perto de um tipo de canção, mesmo que abstrata.

Fronte Violeta

Como foi o processo de gravação? O que vocês buscavam transmitir durante as sessões?

Anelena: Foi tudo bem rápido, a base do disco foi gravada em uma sessão de improviso. Ali a gente passou por vários processos ao mesmo tempo, de cada um achar seu espaço no som, testar os timbres e como eles se relacionam. Depois disso o Bruno ainda mexeu nas faixas e foi inserindo mais coisas e revelando as músicas no meio desse material. Esse ano resolvemos finalizar e eu gravei umas vozes pra compor com os eletrônicos e guitarras.

Cindy: Quando buscamos colaborar com alguém, nunca damos nenhum direcionamento. A ideia é deixar acontecer na hora. Nunca dá errado, é incrível haha. Isso que é legal de improvisar. Talvez no começo, sei lá, leva uma meia hora pra nos encaixarmos todos no som, mas depois ficamos bem conectados, tanto que as vezes eu acho até legal dar uma “desconectada” no processo, começar algo sonoramente diferente do que já estava acontecendo. Acho que nesse EP “Cama Rosa Gruta” aconteceu isso, tanto que foram criadas quatro faixas nele, cada uma com sua forma, sem muito destoar uma da outra ao mesmo tempo. O EP acabou ficando com um desenho bastante orgânico, me remete a coisas naturais como estalactites, lavas e ao mesmo tempo tem uns samples de jazz que deixam com uma cara bem única. Também tem presença de linhas vocais, que até então não tínhamos colocado. Cada vez que eu ouço um pouquinho mais, se transforma em outra coisa, outras imagens ou outros tempos talvez.

As gravações ocorreram em 2018, certo? Qual o motivo de ter demorado dois anos para serem lançadas?

Anelena: Talvez esse tempo tenha servido para maturar os sons. Acho que a gente que costuma gravar sessões de improviso com as pessoas, o que mais temos é faixas e mais faixas gravadas de diversas épocas. Quando eles falaram que estavam retomando foi uma surpresa boa. A gente voltou a mexer nesse material em Março desse ano, então de lá até Outubro ainda foram alguns meses de atenção pra tudo isso. Pra mim ouvir gravações de outros tempos sempre traz uma nostalgia, porque o som também cria nossas memórias, mas também coloca a gente pra perceber o que tá ali com uma outra escuta. A primeiras vezes que eu ouvi as gravações de 2018, eu tive a sensação de estar diante de um horizonte distante, olhando por um binóculo, e quando gravei as vozes esse ano, eu sinto que estava tentando trazer esse horizonte pra mais perto, para o agora.

Cindy: Demoramos porque naquele mesmo ano começamos tocar bastante nos lugares e também precisávamos juntar um dinheiro talvez, além de outros contratempos da vida pessoal, mas rolou. Queríamos que uma pessoa mixasse pra gente com carinho, pois não temos essa habilidade. Esse ano por mais difícil que está sendo por conta da pandemia, coincidiu de dar certo a continuidade desse material.

Bruno: É aquela coisa também, o nosso tempo pra trabalhar em música é sempre o tempo da sobra, geralmente. Tem trabalho, casa pra limpar, coisa pra estudar. Então tem que se acostumar com a ideia de que as coisas vão se estender no tempo, porque no momento é a única forma que elas podem sobreviver. A gente tem aqui uma ideia muito fixa que ser artista é viver de arte, o que é uma farsa, porque a maior parte de quem produz arte (no mundo inteiro, inclusive), não vive de arte. Mas mesmo assim produz. Esse método de trabalho, inclusive, de lidar com improviso, colagem, tem a ver com esse tempo que sobra. É uma forma de trabalho que, apesar de soar ou parecer meio “torta”, é muito dócil a esse tempo do dia-a-dia, sabe? É uma forma de fazer música que entende quando você chega cansado do trabalho ou só tem tempo livre no final de semana.

Cama Rosa

De onde surgiram os nomes para cada faixa?

Anelena: Pra mim as músicas todas me trazem uma sensação de trilha sonora, me remete a muitas imagens. Ao mesmo tempo são imagens bem abstratas, fluídas e não lineares. Como se o sentido delas fosse construído a partir de uma organização própria. Essa ideia de cada um sugerir uma palavra pra cada som surgiu um pouco disso, de serem nomes que trouxessem mais uma sensação do que nomear propriamente a música.

Cindy: Para dar um contexto para entender esses nomes – no nosso Bandcamp tem o registro de todas as nossas improvisações que gravamos. Colocamos duas faixas e damos dois nomes para cada uma, por exemplo “Hibisco/Navalha”. A escolha desses nomes são mais aleatórias, em uma vibe parecida com um jogo de palavras, tipo aqueles exercícios de automatismo que os surrealistas usavam, mas nada profundo. Em algum nível nosso som surge na mesma maneira em que nossas palavras surgem ou vice versa. A gente decidiu (por grupo no Whatsapp) que seria legal para o EP “Cama Rosa Gruta” usar três palavras dessa vez para cada faixa, já que somos em três. Foi interessante, teve até palavra que repetiu e deixamos. As palavras foram; vértice osso jade — cipó ouriço beat — passo cravo cipó — melancia vapor cigarro.

 O que vocês buscaram fazer de diferente em relação à uma gravação “tradicional”?

Anelena: Acho que meus processos de gravação com Gruta sempre foram zero tradicionais, sempre gravando do jeito mais caseiro possível porque era como eu tinha como fazer. E foi assim com as vozes que gravei. Somado a isso, toda a troca de arquivos e comunicação durante um início de quarentena/pandemia com certeza marcaram essa gravação. Acho que outra parte do processo importante foi a mixagem e masterização que a Juliana R. realizou. Foi importante ter alguém de fora, mas ao mesmo tempo que nos conhece bastante pra desenhar a forma que isso teria.

Cindy: Boa pergunta, pois eu não acho que a gente fuja da gravação tradicional. Inclusive a maioria de nossas gravações são bem lo-fi. E nesse a gente gravou em estúdio, para seguir a tradição. Mas a gente sempre dá uma mexidinha aqui e ali depois que estamos com o material.

Bruno: A gente faz o que pode com o que pode né haha. A gente gravou essa sessão em um esquema de “ensaio gravado”, que é uma gravação ao vivo bem simples. Essa sessão depois ficou comigo e eu aos poucos fui editando o que pareciam as partes mais legais, cortando uns trechos, montando uns loops com partes mais bacanas. Eu cheguei até a achar que perdi esse disco uma vez, quando meu PC pifou. Esse ano, no choque do começo da quarentena eu peguei pra ouvir essas faixas, dei uma mexida última e parece bem legal. Coloquei os samples (um do Sun Ra e de uma videoaula de bateria ensinando a levada do Elvin Jones haha) , só que feito do meu jeito, muito tosco. Então a gente mandou para a Juliana transformar aquela colagem tosca em algo mais coerente, o que deu esse espaço pra Anelena gravar as vozes.

Podem falar um pouco da arte da capa?

Anelena: Quando começamos a pensar a arte logo me veio a imagem de colagens e recortes, mas como o Bruno escreveu no texto que divulgamos, era uma idéia de uma colagem em movimento, que se alterava. Eu busquei umas fotos minhas de 2015 e criei essa montagem a partir desses fragmentos. Uma tentativa de recriar memórias e experimentar esse horizonte que não é estático, um horizonte que escapa.

Cindy: A capa é um projeto gráfico da própria Anelena Toku. Uma colagem que casou muito bem com os sons. A combinação das palavras, o som e mais a arte da capa conversam tão bem que eu acredito que por conta disso o disco conquistou vida própria.

Bruno: Eu gosto muito de todos trabalhos visuais da Anelena, muito mesmo. A colagem tem um lance como o do sample, é uma parada que parece meio dura, porque é uma imagem fixa que você pega de um lugar e põe no outro, não tem muito o que mexer. Mas a colagem e o sample também tem o lance da repetição, que você pode jogar no espaço e vira uma coisa muito fluida, que você pode mergulhar.

E os projetos futuros de cada um dos grupos? Pretendem fazer mais coisas juntos futuramente?

Anelena: Gruta é um projeto meu bem pessoal e que nos últimos tempos esteve meio dormente principalmente porque tenho desenvolvido bastante coisa com o Fronte Violeta, que é meu projeto com a Carla Boregas. Acho que Gruta, Cama Rosa e Fronte Violeta sempre tiveram uma proximidade por habitarem um mesmo universo de som, então com certeza imagino que continuaremos essas trocas.

Cindy: Seria muito legal continuarmos fazendo coisas juntos, assim espero. O Cama Rosa está pra lançar um disco com as canções, nós temos composições com letras que gravamos no final de 2019. Também está sendo mixado e o lançamento será em breve. Então temos todo esse material de improviso no nosso Bandcamp, mas geralmente quando nos apresentamos, tocamos nossas canções que considero um desdobramento das improvisações, já que muitas bases saíram de lá.

Bruno: Eu sempre brinco com a Anelena e a Carla que a gente tinha que fazer um disco ou um festival com projetos que tem cores no nome, Cama Rosa, Fronte Violeta, Objeto Amarelo… talvez montar tipo uma big band.

“Cama Rosa Gruta” está disponível no Bandcamp.


Entrevistas

Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso.

Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo.

A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal.

Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018.

Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições.

Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos.

Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado.

Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha!

E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso.

Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado.

A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos.

A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi.

O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha!

O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz.
Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum.

Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal.

Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre.

Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai.

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro.

Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão.

Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!

Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos.

É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”.

Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico.

A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha.

Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto.

São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza, mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”.

Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos.

Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país, mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.


Entrevistas

Qorpo – Morte em Pleno Verão

O clima não está nada bom no Brasil e no mundo, especialmente desde o fim do verão de 2020. A vida agora acontece dentro das casas e sob a terrível sombra do vírus que agora varre todo o planeta. Lá fora, só há medo e morte.

Felizmente, mesmo em meio a tudo isso, a criação não parou. As pessoas ainda sentem a inquietação por criar, e dessas criações, surgem registros sobre o tempo em que nos encontramos e o que sentimos. É de uma dessas criações do isolamento que venho falar hoje.

Com vocês: Morte em Pleno Verão.

“Morte em Pleno Verão” é o primeiro álbum do projeto Qorpo, autoria de Victor Rodrigues. Esse é um daqueles lançamentos pelos quais tenho um carinho especial.

Conheci Victor em 2015 quando ambos entramos no curso de Comunicação Social em Brasília e fomos amigos próximos durante os anos da faculdade. Entre muitas conversas que tínhamos, música era um dos temas constantes.

Acompanhei o início do desenvolvimento do que viria a ser o Qorpo, com o crescente interesse pela música experimental e outros temas que influenciariam o projeto.

É por isso que tenho um imenso orgulho de finalmente realizar essa entrevista sobre o “Morte em Pleno Verão”; um álbum sombrio e inquietante que trabalha com o silêncio e o minimalismo, trazendo ares de novidade para a cena artística de Brasília.

O lançamento aconteceu no dia 1 de Maio e foi feito pelo selo brasiliense Dobradiça Enferrujada. Para acompanhar o EP, foi feito um curta dirigido por Xavier Braun, também de Brasília.

Confira a entrevista:

Eu lembro de você já fazendo uns sons nesse projeto Qorpo lá por 2018, se não me engano. Fala um pouco de como foi esse processo de amadurecimento das ideias até chegar no “Morte”.

Pois é, o nome veio antes do projeto realmente tomar forma.  Há alguns anos eu tenho explorado com a música eletrônica mas eu nunca realmente tinha me sentido satisfeito com o resultado, e por isso eu raramente compartilhava o que fazia com alguém, não me sentia confiante pra isso. O “Morte em Pleno Verão” veio de uma decisão tomada no final de 2019: eu decidi que queria fazer um registro conceitualmente consistente, algo que eu me sentisse confiante o suficiente pra compartilhar com alguém. Eu acho que nesse processo o som que eu fazia mudou muito, eu explorei outras direções e instrumentos. Foi um processo bem lento de fazer tudo, ouvir tudo, fazer de novo e repetir. No final de alguns meses eu tinha quase meia hora de música que eu tava confiante pra compartilhar. Foi basicamente isso.

Ouvindo o som é impossível não lembrar de coisas tipo Music For Airports do Brian Eno. Quais foram tuas referências pra esse trabalho?

Eu acho que como influências sonoras mais diretas eu posso citar a compositora francesa Eliane Radigue e o artista japonês Toshimaru Nakamura. Mas ainda assim eu acho que a maior parte das influências pro Morte vieram da literatura. O próprio titulo mostra a influência do conto de mesmo nome de Yukio Mishima. Eu retirei muitos conceitos que explorei no EP de livros que eu estava lendo durante a produção do Morte, eu encontrei um território muito fértil e criativo pra mim em transferir algo vindo da literatura, uma mídia “muda”, e trabalhar as inúmeras possibilidades de representar isso sonoramente.

Saquei, bem massa isso de buscar referências de lugares que não sejam a música né. Já rolou de você achar referências, por exemplo, em sonhos ou outras experiências oníricas assim? Porque o Morte eu achei que tem bem essa cara também.

Pessoalmente algo que me inspirou muito também foi o conceito de memória, como as memórias se apagam e se tornam gradualmente disformes, criando uma desconfiança sobre o que você lembra. É algo que eu sinto com alguma frequência e, pessoalmente, eu consigo enxergar isso na narrativa que pode existir no Morte. Pra mim os minutos finais são os que mais trazem essa meditação sobre persistência das memória. A parte disso, sobre o tom mais meditativo do Morte, foi algo bem intencional mas sem uma fonte de inspiração muito clara pra mim. Acho que foi algo que veio naturalmente e de muitos lugares também.

Sobre a parte mais técnica, fala um pouco da produção em si. Como você chegou naquele som? Quais equipamentos foram usados?

A produção foi bem lenta e bem caseira. Como durante um bom tempo eu não mencionei com ninguém sobre esse projeto, tudo foi feito sozinho. Em questão de equipamentos eu usei uma guitarra, uma pedaleira, com e sem a guitarra, um microfone e um laptop. Eu acho que o som tem na maior parte uma característica bem tonal, algo mais interessado nas frequências criadas do que em melodias e etc. Para mim isso veio através do no-input. É uma técnica normalmente utilizada em consoles de mixagem, aonde você conecta um output desse console de volta em um input. Não existem sons externos acontecendo, só loops de frequência que você pode criar e manipular dentro do equipamento (O Toshimaru Nakamura, que eu mencionei antes é o popularizador dessa parada). Adaptei isso pra pedaleira de guitarra que eu tinha a minha disposição. O som criado nesse processo tem naturalmente essas características mais tonais que eu mencionei, eu só aceitei essas características e tentei trabalhar com elas de uma forma mais minimalista e crua, algo mais puramente voltado as frequências e como dialogar isso com o silêncio, pra criar uma tensão mais dramática.

O Morte foi lançado pelo selo Dobradiça Enferrujada né, como foi sua aproximação com eles?

Antes de eu sequer pensar na existência do Morte eu já havia colado em vários eventos e acompanhados lançamentos promovidos pela Dobradiça Enferrujada Discos. Tanto por um identificação e interesse pessoal com os projetos envolvidos no selo, mas também por achar bem importante apoiar o trabalho que eles fazem em divulgar e estimular um circuito de música nova e experimental no Distrito Federal. O contato com eles veio no momento em que eu comecei a me sentir seguro pra compartilhar o que estava se tornando o EP. Eu compartilhei o som com alguns amigos e isso acabou chegando no Kino Lopes, um notório músico do DF e um dos nomes à frente da Dobradiça. Ele se interessou pelo som, a gente trocou muita ideia sobre, ele acompanhou algumas mudanças que rolaram no Morte. Quando tudo tava terminado, ele me ofereceu essa plataforma pra lançar o projeto e um espaço dentro do selo pra trabalhar minhas pesquisas musicais e exercer isso em conjunto também. Antes do lançamento do Morte ele também me convidou pra participar do álbum “Mais a soma de seus possíveis”, uma coletânea experimental e colaborativa, também lançada pela Dobradiça enferrujada, que conta com 14 músicos do DF.

Rolou também um curta com o Xavier Braun pra acompanhar o álbum né? Você pode falar um pouco dessa parceria?

Claro, o rolê com o Braun veio depois que o EP já estava terminado. A gente tava conversando sobre criar essa obra visual em cima do som também e ambos estávamos meio inseguros por não rolar de gravar na rua, uma vez que estávamos já em distanciamento social. Daí eu dei a ideia de ele gravar no próprio isolamento. Ele se inspirou e criou todo um processo pra essas gravações e pro tratamento das imagens. A gente conversou mais sobre aspectos técnicos e pouco sobre os conceitos a serem trabalhados, essa parte foi bem sobre como ele absorveu o meu som e trabalhou isso internamente. Pessoalmente, eu acho que ele entendeu visualmente coisas que eu tinha colocado ali que nunca falamos a respeito, foi incrível. Por fim se tornou um vídeo de quase meia hora, sobre o Morte em Pleno Verão, imagens de arquivo, isolamento social e os gatos do Xavier. Ele ficou bem feliz com o resultado e eu honestamente fiquei de cara, acho que não podia ser melhor e mais adequado. O Xavier Braun também participou da produção da capa do EP, ele e a artista visual Luna Colazante colaboraram na capa. Ele tirou a foto que foi usada e ela trabalhou na arte e no design da capa.

E os planos futuros?

Até agora não existe nada muito concreto. Existem alguns planos de colaborações com outros artistas da Dobradiça Enferrujada, mas isso não tem um momento certo pra rolar, já que a gente tem que esperar toda essa situação do isolamento social passar. Pessoalmente, eu tenho trabalhado algumas outras paradas, tenho pensado outras abordagens pra sonoridade que eu trabalhei e, para o no-input em si, alguns conceitos que divergem do Morte, focando mais nessa tensão dramática do silêncio. Mas por hora, isso é algo disforme que eu tenho pensado na minha prática pessoal, quero trabalhar isso com mais calma, então não existem planos muito claros ainda.

Por fim, o Morte é um trabalho que acho que dá pra dizer que nasceu sob esse espectro do isolamento que a gente vive. Tem muita coisa sutil ali e essa parada do silêncio. Como você recomendaria que ele fosse ouvido pelas pessoas?

Eu recomendaria ouvir com o uso de fones. Eu acho que muitas qualidades das frequências, tipo as separações e os encontro das mesmas, vão ficar mais claros quando você isolar os sons ao seu redor. Acho que algum nível de atenção é necessário, tem muitos elementos sutis que só vão ser notados com algum nível de atenção e paciência. Acho que a partir daí o som pode te guiar em uma experiência mais meditativa. Ou não também, e não tem problema nisso, essa é a forma que eu gosto de ouvir e a forma que produzi, mas eu acho que a experiência pessoal de qualquer outra pessoa é definitivamente tão válida quanto a minha.

“Morte em Pleno Verão” está disponível no Bandcamp e no Youtube: