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Discografia Caipirópolis / Playlist

Discografia Caipirópolis Volume 2

A Discografia Caipirópolis nasceu pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital.

Somos do interior de São Paulo e um dia decidimos fazer uma lista de bandas daqui, como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Bom, lista feita, fizemos as edições necessárias e entre elas tiramos bandas com letras machistas, violentas, reacionárias ou coisas do tipo. Gostaríamos de pedir que vocês nos avisem caso deixarmos algo parecido passar.

No primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação, então tem de tudo, punk, crust, indie, synthpop, hard rock, folk, instrumental, etc.
E agora chegamos aos próximos volumes, que serão divididos por gênero musical. Nesse segundo volume são bandas de punk rock, hardcore melódico e etc.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse segundo volume:

4HC (São José dos Campos)
Formada em 2016 por Fred (voz), Luan Felipe (guitarra), Josean Silva (baixo) e Wesley Nerosi (bateria). “Nossa banda consiste em fazer letras voltadas para o dia a dia, algo para motivar as pessoas a continuarem e também, é claro, contra a política fascista e opressora dos dias de hoje”. A banda tem três singles lançados, “Caminho do Exílio”, “Realidade Paralela” e “Cidade Moderna” e está em processo de gravação do primeiro EP.
“Cidade Moderna” foi lançada como single em Abril de 2020.


Anversa (São José dos Campos)
Formada em janeiro de 2018 por Tati Laukaz (vocal), Marcelo Lopes (guitarra), Mendel Graves (baixo) e Eder Penha (bateria), com “letras cantadas em português que interpretam relações cotidianas indo da política a dogmas espirituais, passando pela interpretação de questões individuais e coletivas na transformação do indivíduo e a sociedade em que atua”, a banda tem quatro singles lançados, “Quem Sou”, “Carlos”, “Não” e “Feito”.
“Feito” foi lançada como single em Outubro de 2020.


ASCO (Santos)
Formada em 2013 e hoje composta por Leandro Campos (vocal), Eder Camargo (guitarra), Willians Pereira (baixo) e Willians Cruz (bateria), a banda já tem quatro EPs lançados, o mais recente, “O Pior Cenário Possível”, foi contemplado com uma tour pela Europa no mês de março de 2020. A proposta do grupo sempre foi fazer punk rock/hardcore com a ideia de passar uma mensagem de contestação, tendo em suas maiores influências o hardcore americano dos anos 80”.
“O Pior Cenário Possível” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em Dezembro de 2019.


Astronova (Jundiaí)
Formada em 2017 “por cinco amigos que decidiram se unir para falar sobre experiências, opiniões, sociedade, repressão, preconceito e liberdade de expressão”, é atualmente composta por Chello (vocal), Luís Paulo (guitarra, vocal), Junior Costa (baixo), Felipe Sibon (guitarra) e Jamil Neto (bateria). Em outubro de 2020, juntamente com o SESC Jundiaí, participaram do projeto #SonsdaTerra apresentando seu novo single “Sempre Assim?” acompanhado de um clipe gravado e produzido durante o período de distanciamento social, disponível nas plataformas digitais da banda e do Sesc Jundiaí.
“Fantasmas” faz parte do primeiro EP da banda, “Anomia. Omissão. Opressão. Ascensão” (2019).


Brado Revolucionário (Porto Ferreira)
Formada em 1996 e hoje composta por Paulo Urbano (vocal), Rodrigo Punk (guitarra, vocal), Lucas Santos (baixo) e Beto Giocondo (bateria), a banda tem como influências o cotidiano, o ódio ao atual sistema, a revolta ao dogmatismo e principalmente o anarquismo. “Acreditamos em nossa cultura, nossa imprensa alternativa, nossos meios de protesto sonoro, nossa oposição ao sistema, nossa luta, nossa militância, nossa seriedade. Acreditamos no movimento punk, no anarquismo”. A banda está em fase final de preparação para o lançamento de um split com Putrid Scum (México), “Efecto Moral”, e em 2021, data em que completam 25 anos de estrada, a banda pretende lançar materiais comemorativos para marcar a jornada.
“Negro Coração” faz parte do album “21 Anos de Punk HardCore” (2017).


Cannon of Hate (Cubatão)
Atualmente com Sandro Turco (vocal), André Félis (guitarra), Márcio Parducci (guitarra), Marcos Alves (bateria) e Marcus Vinicius (baixo), Cannon Of Hate foi formada em 2013 por integrantes das bandas Artany e Lasívia que haviam encerrado as atividades. A banda tem três EPs lançados e já excursionou pelas regiões Nordeste, Sudeste e Sul além de ser bem ativa no estado de São Paulo.
“O Que Vai Ser de Nós” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em 2017.


Discordex (Itupeva)
Formada no fim de 2016 por Rodrigo Santos (vocal), Adriano (baixo), André Felipe (guitarra) e Gustavo (bateria) a banda tem dois EPs lançados, “Obrigada a Crescer” (2018) e “Prazer, São Paulo” (2019) e atualmente trabalha em seu próximo lançamento, com o selo Clichê Records. Discordex tem letras que retratam o cotidiano, com uma alta dose de sentimento e sinceridade e cita como influência as bandas Millencolin, Rancid, Chuva Negra, Fugazi e Title Fight.
“Bravo” foi lançada como single em Novembro de 2020 junto de um clipe.


ESC (Santos)
A banda surgiu em 2005 “sem pretensão de seguir um estilo ou chegar a algum lugar, nossa amizade manteve viva a vontade de tocar”. Passaram por vários estilos dentro do rock e em 2012, com a formação atual, a banda encontrou a linha punk rock, pop punk cantando em português contando suas histórias. “Seguimos assim, tentando passar um pouco de alegria por onde estamos”. A banda tem dois EPs lançados.
“Valete” faz parte do EP “Atemporal” (2020).


Facing Death (Jundiaí)
O power trio que mistura punk rock com heavy metal setentista foi formado em 2015 por Flávio (guitarra e voz), Briti (baixo) e Diego (bateria). Em 2017 a banda lançou o primeiro album, “From Here To The Unknown”, e em Maio de 2019 lançaram o single “Dinheiro” (primeira música em português da banda) em forma de cerveja, criando uma perspectiva física para a música, na embalagem podia ser escaneado um QR code que dava acesso ao vídeo da música no Youtube. Atualmente a banda está produzindo o segundo disco.
“M.I.X.” faz parte do album “From Here to the Unknown” (2017).


Gagged (São Carlos)
Formada em 2004 e hoje composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria), a banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018) e um clipe “Cidade Sem Lugar”. Com 16 anos de estrada, a maioria deles bem ativos, a banda já tocou em vários estados brasileiros e teve várias mudanças. Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui.
“ Cidade Sem Lugar” faz parte do disco “Sobre Nós” (2018).


Garrafa Vazia (Rio Claro)
Formada em 2009 por Mário Mariones (voz, baixo), Ralph Faust (bateria) e Vancil Cardoso (guitarra), a sonoridade remonta ao punk rock 77 e ao veloz hardcore punk oitentista, com um toque garage punk aqui e ali. “Há uma energia, uma irreverência na linguagem, uma forte identidade nas letras, cantadas em português, cheias de anarquia, fúria e ironia“. A banda tem bastante estrada, muitas de demos, coletâneas nacionais e gringas, presença em shows e festivais por todo o Brasil, além dos discos “Corotinho” (2016), “Cirrose” (2019), “Birinaite Apocalipse” (2020) e o ao vivo “Kill The Nazis” (2020).
“Autonomia” faz parte do disco “Birinaite Apocalipse”, lançado em julho de 2020 pela Red Star Recordings.


NWAY (Araçatuba)
Banda formada em 2012 e ao longo dos anos, em parceria com o selo Love & Noise Records, movimenta a cena da região, tanto organizando eventos como produzindo fonogramas. Eles tem dois EPs lançados, “Horizontes” (2016) e “(Sobre)viver” (2020), este conta com um mini documentário sobre suas gravações que pode ser visto no Youtube. Ainda sobre o novo lançamento, “ele fala sobre a vida e como devemos enfrentar e persistir, levantar e prosseguir. Esse registro fala sobre saúde mental, superação, relações tóxicas, desapego, amar e odiar”.
“Retrato Contínuo” faz parte do EP “(Sobre)viver” (2020).


Old Rust (Guarujá)
Formada em 2012 por Luiz Fernando (voz e guitarra), André Bufoni (guitarra), Juliano Amaral (baixo e voz) e Juca Lopes (bateria), a banda tem um disco lançado, “Teoria Cíclica de Ascensão e Queda” (2019), que conta com a regravação das músicas do primeiro EP (2014), de mesmo nome, e outras cinco músicas compostas na primeira fase da banda, antes de um hiato de dois anos. Uma das músicas, até então inéditas, que vieram a entrar no álbum, “Audiência”, foi a escolhida para o primeiro clipe e gravado por Faria Filmes.
“Certo Pra Você” faz parte do primeiro disco da banda, “Teoria Cíclica de Ascensão e Queda” (2019).


Ovu Cuzido (Monte Aprazível)
Formada em 2003 e hoje composta por Guma (vocal), Ziq (bateria), Juliano (guitarra, vocal) e Serginho (baixo, vocal), a banda tem influências do punk e hardcore “sempre com riffs agressivos e letras contra o sistema”. Eles já lançaram uma demo, “Marmitex Infernal” (2006), e alguns singles.
“Toba de Tandera” foi lançada como single em Janeiro de 2020.


QI a Menos (São José dos Campos)
Formada em 2007 por Diegão (vocal), Gabi (baixo e vocal), Korpão (guitarra e vocal) e Lukão (bateria e vocal), a banda faz um mix das influências melódicas do hardcore californiano com toda revolta e indignação do punk rock nacional. As letras trazem contestações pessoais, sociais e políticas. A banda toma orgulho de ser underground e periférica, não fazendo questão de sair desse meio em que sobrevive por pouco mais de uma década. Eles já lançaram três EPs, “O outro lado da Moeda” (2011), “A verdade é Mentira” (2013) e “Sobrevivendo ao golpe” (2019), e participaram de coletâneas.
“Sentença” faz parte do EP “Sobrevivendo ao golpe” (2019).


Refluxo Mental (São José do Rio Preto)
Formada em 2019 e hoje composta por Ariel (bateria), Everton (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício (baixo), eles acabam de lançar seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”. Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”.  Fizemos uma entrevista com a banda que pode ser lida aqui.
“Balbúrdia” faz parte do primeiro disco da banda, “Socialização das Perdas” (2020).


Refuse (Araraquara)
Formada por Boby Vianna (vocal), Fabrício Negrini (guitarra), Arthur Oliveira (guitarra), Pablo Dotele (baixo) e Leonardo Fernandes (bateria), em Dezembro de 2018, com a banda em processo de gravação, aconteceu seu primeiro show, no Alternatal (evento beneficente de muita história e tradição), onde, devido à fortes elogios do público presente, recebeu o convite para abrir a Intourior (tour das bandas Damage Corporation, Toxic Death e Tessalônica que rodou o interior do estado de São Paulo). Em Maio de 2019, a banda lançou seu primeiro trabalho, “Direções”, juntamente com o videoclipe da música “Minha Paz”. Logo após o lançamento surgiu o convite para ser a banda local convidada a se apresentar no Araraquara Rock 2019. Em 2020, foi lançado o clipe do novo single, “A Saída”, e atualmente a banda se encontra em processo de composição do novo EP.
“Glória” faz parte do EP “Direções” (2019).


Smoners (Paulínia)
Formada em 1996 e hoje com Edinho Smoners (baixo, vocal), William Valadares (guitarra, vocal) e Alle Leanza (bateria, vocal), a banda surgiu pelas mãos de jovens que queriam tocar um punk rock simples e de protesto, posicionando-se em relação à sociedade vigente.  “Fortalecer a cultura punk e gritar contra a constante opressão explícita ou camuflada que sofremos no nosso cotidiano, e contra o racismo, machismo, lgbtqia+ fobia”. Participar de coletivos culturais, como o Mondo Grottesco (Águas de Lindoia, Mogi Guaçu, Paulínia) e Arte de Periferia (projeto sociocultural de inclusão da arte e da cultura de periferia ao circuito central, apoiado pela Prefeitura de Campinas), é algo que a banda coloca como primordial para sua atuação pela resistência do movimento. Além de já ter tocado por todo o Brasil, em 2017 a banda foi selecionada para o “Extreme Sports and Music Events” (Nashville, EUA) e em 2018 lançou o documentário biográfico, “SmonerS.doc”, pela Arttería Filmes.
“TV” faz parte do disco “Ao Vivo Estúdio Mutante” (2019).


The Biggs (Sorocaba)
Formada por Flavia Biggs (vocal, guitarra), Mayra Biggs (baixo, vocal) e Brown Biggs (bateria), em 2020 a banda completou 25 anos de atividade.  “Com melodias que passeiam entre o grunge punk, alternative rock, riot punk e stoner rock, o power trio faz um som com influências de Sonic Youth, L7, Bikinni Kill, Babes in Toyland, MC5, entre outras”. A banda lançou duas fitas K7 “See Stars” (1997) e “Kind-Hearted” (1999), dois discos, “Wishful Thinking” (2001) e “The Roll Call” (2007) e alguns singles, sendo o mais recente “See You”, ainda não lançado oficialmente, mas apresentado no festival online “Viva Girls Rock Camp BR” (inclusive, Flavia Biggs é uma das idealizadoras do projeto Girls Rock Camp Brasil). A banda que já tocou em todo Brasil, na Argentina e Uruguai e participou de inúmeros festivais e coletâneas, também fez parte dos documentários “Feito Por Elas” (2018) e “Guitar Days” (2018) e são citados no livro “O que é punk?”, de Antônio Bivar.
“Breech Delivery” foi lançada como single em 2015.


Turning Off (Sorocaba)
Formada em 2018 e hoje com Diogo Camargo (voz e guitarra), Rafael Monari (guitarra), Alex Galdino (baixo) e Vinicius Knup (bateria), a banda lançou seu primeiro disco, “Behind The Sun”, em 2019, gravado de forma independente com ajuda de amigos da cena local. “Influenciados pela velha escola do hardcore melódico e melancólico dos anos 90, a Turning Off vem tentando trazer o clima de nostalgia do auge das trilhas sonoras subversivas do Tony Hawk’s Pro Skater em suas apresentações explosivas e diretas com alguns tons de sarcasmo e homenagens à tudo que serviu de influência para a banda”.
“Behind The Sun” faz parte do disco de mesmo nome, lançado em 2019.


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Entrevista

Gagged

Gagged foi formada em São Carlos (SP) em 2004 e hoje é composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria).

A banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018).

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o disco “Sobre Nós”, a “cena” de São Carlos e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá pessoal, valeu pelo interesse e pela possibilidade de falar sobre a nossa caminhada.
A Gagged é uma banda de hardcore melódico do interior paulista, fundada em São Carlos. Dizemos “fundada” porque há um bom tempo moramos em cidades diferentes, viajando entre São Carlos, Campinas ou Araraquara. A banda sempre pretendeu dialogar com as referências fundamentais do punk e HC, especialmente as várias linguagens dos anos 80 e 90. É o que “salta ao ouvido” quando se ouve pela primeira vez, mas parte do tempero das nossas composições vem também de outras pegadas, dentro e fora do rock. Tivemos muitos músicos diferentes ao longo da história, e cada um foi deixando suas “digitais” no nosso trabalho, dá pra ver a banda se transformando nas gravações e no palco ao longo do tempo.
Desde 2004, quando tudo começou, a banda já teve “revezamento” em todos instrumentos, a única exceção é a bateria, marretada desde sempre pelo fundador, Murilo Ramos. Ali Zaher (guitarra) e Eric Costa (baixo) também carregaram o piano durante mais ou menos dez anos. Estes três participaram da gravação dos dois álbuns, e também dos clipes lançados até agora. Além deles, mais de dez músicos, inclusive vocalistas, estiveram na estrada, no palco ou no estúdio com a Gagged.
Hoje a banda conta com Murilo Ramos (batera), Zeca Ruas (vozes), Rodrigo Gutz (guitarra) e Eric Costa (baixo). Zeca entrou em 2013 e segue desde o final da tour de “Silent”. Rodrigo entrou no lugar no Ali durante a preparação para o lançamento do segundo disco, “Sobre Nós” (2018), ele fez toda a tour de lançamento e vem segurando sozinho, desde o começo de 2019, os arranjos que eram para duas guitarras. O Eric saiu mais ou menos na época que o Ali deixou a banda, ficou de fora da tour de lançamento, mas acaba de retornar pra dar os próximos passos da Gagged.
Essa constante transformação dá um aspecto peculiar para as músicas e shows, cada um que participou trouxe um pouco de suas ideias, timbres, preferências musicais, arranjos e, acima de tudo, sua subjetividade. Na parte musical, é um mosaico de referências, mas quando o assunto é visão de mundo, as convergências foram sempre fundamentais e isso é parte da nossa identidade. Todo mundo que passou pela Gagged sabe do papel da arte em provocar a reflexão, iluminar aspectos da nossa existência coletiva, de repensar o possível. Somos uma banda de pensamento crítico e fizemos questão de levar isso para as músicas.
Esse caldeirão aparece de maneira mais elaborada no último disco, “Sobre Nós”, e quanto mais vezes se escuta o álbum, mais evidente vai ficando. As músicas e letras foram pensadas pra serem decantadas com o tempo, são camadas de som e ideias e é preciso escutar e pensar aos poucos para que elas revelem todos os sentidos que tentamos imprimir.
Muita gente prefere algo instantâneo, viral, e isso ajuda no aspecto comercial, mas nunca quisemos ser uma banda para consumo em massa. É proposital: nossa linguagem aposta nas reflexões e arranjos que podem fazer sentido com alguma contemplação… é para sair da massa mesmo, questionar valores coletivos. Claro que nem todo mundo vai gostar, e não gostar não significa ser menos engajado ou algo ruim, nós mesmos temos nossas críticas ao disco. Mas, goste ou não do resultado, concorde ou não conosco, se parar pra ouvir e pensar, nos ver nos shows, vai ter a chance de ser provocado por perguntas e sentidos peculiares. Se nosso trabalho ficou bom, cada um vai dizer o que pensa. Pra nós, isso é o que vale a pena na música.

Entre o primeiro e o segundo disco a banda trocou alguns integrantes, a maior diferença que a gente vê é que as letras eram em inglês e agora são em português. Vocês podem falar sobre essas mudanças?

Tem bastante mudança entre os discos. Acho que quatro coisas ajudaram nessa transformação: a primeira, a própria evolução dos músicos que estiveram em ambos, depois, a entrada do Zeca (voz) e do Lique (guitarra), uma terceira, o momento histórico do país durante a elaboração do disco e por último, a forma como produzimos e gravamos.
A entrada do Lique, no final de 2014, adicionou muita qualidade na guitarra, ele fez uma baita dupla com o Ali nas cordas. Os arranjos evoluíram bastante entre o primeiro e segundo disco, são muitas linhas, timbres e detalhes pensados para cada lugar. O Lique tem uma mão esquerda muito rápida, o Ali tem uma mão direita muito precisa, as interações das guitarras foram ganhando destaque ao longo dos anos e chegaram ao ápice na época de gravação.
O Zeca Ruas foi responsável por escrever a maior parte das letras em português. Quando Ali e Murilo o convidaram pra entrar na Gagged, essa ideia já fazia parte da proposta, a banda sentia que cantar em português poderia aproximá-la do público. O nome e as letras em inglês, até o disco “Silent”, refletiam a forte influência da estética das bandas de hardcore brasileiro dos anos 90, mas a ideia era buscar outros espaços. Além disso, o Zeca, que já tinha composto e cantado em português em outras bandas, também preferia seguir por esse caminho.
As letras de “Sobre Nós” foram escritas entre 2013 e 2017, mais da metade delas no últimos dois anos desse período, a coisa tava fervendo pra todo lado, o momento político ficou completamente entranhado nas letras do disco e ele apontou para o desfecho trágico que vem se consumando até hoje. Nada que mereça comemoração… mas a gente estava apontando na direção correta. Todas essas situações se somaram no processo de produção do disco.
O Ali assumiu definitivamente sua carreira de produtor e a gente acabou usando toda estrutura do Estúdio Sunrise, em Araraquara. Essa possibilidade fez total diferença, não gravamos nada com relógio contado, regravamos tudo o que tivemos vontade. Óbvio que isso nem sempre é bom e também sabemos que acabou alongando o processo por demais. Por outro lado, esse percurso nos permitiu criar muita coisa. Parte importante dos detalhes de arranjos foi forjada no próprio processo de gravação. Se não tivéssemos essa liberdade, certamente teríamos algo bem menos elaborado e com certeza teríamos aprendido e curtido muito menos.

Vocês podem falar sobre o processo de composição das letras de “Sobre Nós”? Elas têm meio que a mesma linha de raciocínio, não?

Não foi nada planejado, as letras não foram pensadas para formar um disco conceitual, apesar disso, saíram totalmente conectadas. A primeira letra que o Zeca escreveu, assim que entrou na banda, foi “A Máquina”. Na verdade, foi “Vencer ou Viver”, que não saiu no disco. Elas foram escritas juntas, em 2013, e, mesmo não tendo um conceito pré-acabado, elas já davam a tônica do tipo de letra que estava por vir. Tudo refletia, sob ângulos diferentes, os efeitos do neoliberalismo sobre nossa vida como indivíduos, seja em aspectos universais, seja em termos nacionais.
A banda toda estava acompanhando muito apreensiva os desdobramentos da política brasileira, mas também as rupturas ao redor do mundo, em todo canto do planeta explodiam convulsões, migração, xenofobia, fome, conflitos e uma escalada de valores conservadores. Todas as crises que aparentavam ser distantes do cidadão comum, na verdade vinham, cada vez mais, se refletindo brutalmente em nossa vida, na convivência humana. Todo mundo trabalha mais, por mais tempo, vive vidas virtuais e vazias de sentido. Somos impulsionados a pensar como seres isolados, desconfiar e concorrer com as demais pessoas. A cidade é hostil, física e culturalmente. Ela é agressiva na moradia, no transporte, no trabalho pra maior parte das pessoas. Perdemos o controle sobre o tempo de nossa existência. Somos anestesiados por pequenas doses de prazer empacotado. A depressão se torna nossa vizinha permanente.
Vivemos extasiados pela hipersexualização da vida e pelas drogas, e empurrados à reificação de nossos sentidos primitivos que, controlados pelo dinheiro, nos torna dóceis e submissos. Vivemos uma sociedade de ressentidos, incompletos, massificados.
As letras refletem os diálogos da banda sobre esta realidade universal em suas múltiplas faces, sempre filtradas liricamente pelas leituras de Marx, Nietzsche, Freud, Marcuse, Sartre, Keynes e tantos outros autores que o Zeca vinha lendo naquele período.
Entre 2016 e 2017, quando o caos no Brasil se tornava evidente, as letras se voltaram ainda mais para entender como essa realidade afetava os problemas do país. Com menos ou mais metáforas, “Cidade Sem Lugar”, “31 de Março”, “Fim da Linha” e “Caleidoscópio” são diálogos sobre o Brasil deste período.

Falando em “Caleidoscópio”, ela tem a participação de Greg Hetson (Bad Religion, Circle Jerks, Black President, etc), né? Como surgiu essa colaboração?

Esse é um dos nossos maiores orgulhos haha. Nunca esquecemos do dia em que a notícia chegou: “Greg vai gravar!”. Foi um arranjo bem rápido, quem fez a ponte pra gente foi o Nick Townsend, que já era amigo do Ali há algum tempo e foi também parceiro dele nos primeiros trabalhos no Sunrise, ele masterizou nosso disco no seu estúdio, nos EUA. Nick, que também tocou em bandas foda por lá (escutem Fireburn!), de vez em quando fazia som com o Greg Hetson. O Ali fez todo o contato e depois escolhemos a música que achamos que merecia um solo dele. Sempre fomos muito fãs de Bad Religion. Uma cena comum na banda era: carro lotado, viajando para fazer show em algum canto, escutando discos do Bad Religion e o Murilo falando, pra toda faixa que começava, “Essa música é foda!”. Uma atrás da outra.
A gente conhecia o estilo de solo do Greg, seus bends, as tortuosidades harmônicas. “Caleidoscópio”, do arranjo à letra, é uma caravana rumando para o abismo, para o caos. A escolha era óbvia… match perfeito. Mandamos a música pra ele e ele curtiu. Em pouco tempo, enviou o solo pra gente. Infelizmente, depois da saída do Ali, a gente acabou não mantendo contato com ele. Seria muito foda poder tocar junto um dia. 

Eu li em uma entrevista (no site Seguimos Fortes) que alguns integrantes moram em São Carlos e outros em Campinas. Isso ainda é verdade? Como rola essa questão já que não são cidades assim tão próximas?

Atualmente só o Zeca mora em Campinas. Murilo, Eric e Rodrigo estão em São Carlos. Em geral, quando a intensidade de ensaios aumenta, sobra um pouco mais pro Zeca, ele vem de Campinas de carro. Muitas vezes rola ensaio só instrumental e ele acaba não vindo, mas já fizemos vários esquemas. Durante as composições de “Sobre Nós” chegamos a fazer alguns ensaios em Rio Claro, que fica no meio do caminho entre São Carlos e Campinas.
Não é fácil, mas, por enquanto, tá valendo a pena esse corre. A gente curte se encontrar, conversar sobre política, sobre a vida e fazer um som juntos. Confiamos uns nos outros e sabemos que podemos fazer algo que sejamos fãs. Isso nos motiva a seguir, apesar dos perrengues.

Pensando no mundo antes do Covid, Gagged é uma banda que costuma fazer tours, vocês podem falar sobre como é sair em tour sendo uma banda independente?

Esse lance do COVID foi muito foda pra gente. Não curtimos essa pegada de gravar em casa, celulares… Na verdade, nem tentamos. Demoramos meses para conseguir sair do isolamento e botar alguma ideia nova pra rolar. Agora começou a acontecer, mas deu canseira pra ajustar.
Na real, sentimos muito a falta de estrada, fazer show é um lance indispensável para uma banda. Viajar, conhecer as realidades locais, músicos de cada região, sentir o retorno do palco. Acreditamos que cada viagem ajuda a plantar uma semente em cada lugar, uma conexão real, com pessoas de verdade, e que isso ajuda nossa música ecoar mais longe.
Obviamente, a gente tá ligado que a música independente é cada vez mais virtual e que os shows autorais são cada vez mais vazios, mas em várias cidades acabamos construindo um público bacana, que nos permite ter confiança de levar shows com alguma frequência para cidades diferentes. Mas, além do som, fazer os contatos, se encontrar ao vivo é uma forma de também permitir que a gente siga com algum tipo de produção cultural.
A história do punk e do hardcore é sempre igual: as bandas acabam misturando a música com alguma atividade de produção artística, cultural ou ativismo. Nos lugares em que as bandas organizam seus shows e formam público, rola um circuito e um intercâmbio maior. Produtor independente só entra depois que já tem algo rolando e que garante que vai conseguir pelo menos fechar a conta do evento. No punk e hardcore, as bandas sempre foram o farol para a sustentabilidade econômica da “cena”.
Pra nós, que fizemos shows em todo canto no estado de São Paulo e nos estados vizinhos, foi ficando mais fácil organizar turnês, fechar parcerias com outras bandas bacanas pra viajar junto… O mais difícil é sustentar essa rotina cansativa de longas distâncias, noites mal dormidas e, em boa parte dos casos, morrer com uma fatia dos custos.
Já rodamos centenas de quilômetros domingo de madrugada, depois de shows cansativos, pra chegar a tempo do trabalho na segunda às 8h da manhã. Foram várias vezes esse esquema. Só quem tá muito confiante na sua música faz isso.
Também acreditamos que nos próximos projetos, quando acabar a pandemia, a gente já vai conseguir, pelo menos, fechar essa conta financeira e poder selecionar melhor os eventos… Mas, pra que isso fosse possível, tivemos que comer muito asfalto e salgado vagabundo de estrada.

São Carlos é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

São Carlos sempre foi uma cidade com bastante rock n’ roll, a presença de duas grandes universidades públicas sempre garantiu um monte eventos de Centro Acadêmico e DCE. Estruturas de som mínimas e espaços de boa qualidade garantiam que sempre rolasse algum rock. É verdade que muitos desses rolês eram de bandas de festa, um combinado de covers dos anos 1970, questão de tempo até tocar “Born to be Wild”. Mas a cidade sempre teve galeras diferentes que curtiam rock autoral, de todo tipo: além do rock n’ roll, a galera da música extrema, do punk e do hardcore fizeram shows e registros importantes no fim dos anos 80 e nos anos 90.
Na virada para os anos 2000, graças ao Marky Wildstone (Dead Rocks, Bifidus Ativus, The Mings), as turnês de bandas independentes que a Highlight Sounds (SP), Monstro Discos (GO) e Motor Music (BH) organizavam passavam quase sempre por São Carlos. Tocaram por aqui os gringos do Man or Astroman, Pulley, …And You Will Know Us by the Trail of Dead, Nebula, Flatcat, além de quase todas as bandas de hardcore brasileiro que despontavam nos anos 2000.
A Gagged é produto dessa ebulição. Além da banda, em meados dessa década o Murilo também começou a produzir. Ele fez dezenas de shows, também levou muita banda nacional e gringa para os palcos da cidade. Outros produtores importantes também ajudaram a manter sempre alguma atividade e até hoje, mesmo com altos e baixos, é uma cidade que abriga bons eventos. Mas, como em todo lugar, os shows de hoje são menos cheios e outros estilos ocuparam público que antes era de rock, especialmente na universidade. As festas se tornaram eventos gigantes e elitizados (veja o exemplo do Tusca), dominados por uma lógica muito mais mercantil e massificada. 

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Tivemos momentos em que escutávamos mais da mesma coisa, mas isso foi se transformando, e isso é uma coisa boa. Vamos tentando abrir a cabeça um do outro pra outras coisas e isso sempre aparece na hora de compor.
O Murilo tem escutado Turbonegro (Scandinavian Leather), The Damned, Queens of the Stone Age, Rocket From the Crypt e Ramones. O Zeca tem escutado bastante HC e uns mergulhos nas bandas de rockão e stoner, Good Riddance, Lowrider, Propagandhi, Black Drawing Chalks e Kyuss. O Rodrigo segue pesquisando referências em vários lugares, recentemente ouviu Periphery III, Andy Timmons (Resolution), Propagandhi (Today’s Empires, Tomorrows Ashes), Herbie Hancock (Live at Montreau) e Toto IV. O Eric tá numa vibe terapêutica, numas levadas mais emo, Hey Mercedes, The Get Up Kids, Lifetime, Saves the Day e Hot Rod Circuit estiveram presentes nos últimos tempos. 

Últimas considerações? Algum recado?

Em primeiro lugar, agradecer quem chegou até aqui. Se leu até agora é por que fez algum sentido caminhar um pouco dos nossos passos. Se ainda não conhece nosso material, não acompanha a gente nas redes sociais, saiba que cada novo comentário, compartilhamento ou indicação vale muito para nós, vai ajudar seus amigos a escutarem nossa música. A gente depende dessa rede de pessoas que curtem a estética do punk HC e estão a fim de repensar aquilo que vivemos. Fica ligado com a gente, a volta do Eric trouxe novo impulso e nós começamos um ciclo novo de composição. É um desafio bacana depois de tanta mudança de formação e depois da nossa tour de lançamento. A gente aprendeu muita coisa nesse processo e queremos por em prática nesse novo material e num possível lançamento, assim que a pandemia passar.

A discografia da banda está disponível nas redes de stream.


Entrevista

Klitores Kaos

Klitores Kaos foi formada em Belém em 2015 e hoje é composta por Nia Lima (guitarra), Dy Lima (guitarra) e Line White (baixo) .

A banda surgiu da “vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade, com uma ideologia de fato feminista. Como uma forma de expressar nossas ideias, criticar o sistema opressor que serve aos interesses da elite burguesa, a desigualdade e caos social de nossa cidade, enfatizando a questão de gênero”.

Em Março de 2020 elas lançaram o primeiro EP, “Klitores Kaos”, e em Outubro lançaram dois singles.

Abaixo você lê nossa entrevista com elas, onde você conhece a banda desde o começo até as atuais mudanças e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Nia: A Klitores Kaos é uma banda baderneira antifascista de hardcore crust punk formada em 2015 em Belém, PA. Luma e Debby foram as fundadoras, porém não estão mais na banda. Além de Belém, já tocamos em São Paulo, Brasília, Tocantins e outras cidades dentro do Pará como Santarém, Marabá e Castanhal.

A banda foi formada em 2015 e o primeiro EP foi lançado em 2020. Vocês podem falar um pouco sobre ele? As músicas foram compostas durante esses vários anos da banda, né?

Nia: Sim, a banda começou com as minas ainda aprendendo a tocar, mas já criando as próprias músicas, e no começo haviam muitas críticas disso desmerecendo a banda, fora as dificuldades financeiras, que foi o maior problema para que o nosso primeiro EP saísse só esse ano. Em 2018, nós planejamos criar uma Vakinha virtual para quem pudesse nos ajudar e foi um sucesso! Muitas pessoas, de vários cantos, doaram fazendo com que ultrapassasse a meta, ficamos muito felizes. Uma pessoa que foi essencial para que esse EP tivesse a melhor qualidade possível e que fosse a nossa cara foi o Zé Lukas, ele abraçou nossas ideias e dificuldades e nos ajudou muito, ele estava presente na maior parte do processo. As letras são bem antigas mesmo, mas são assuntos da atualidade que ainda temos que nos questionar e lutar. Algumas letras foram de situações pessoais que tiveram que ser “expurgadas” e acabou que deu certo porque muitas pessoas se identificaram e sabem do que a gente tá falando.

Vocês podem falar sobre os dois singles que vocês acabaram de lançar? Eles foram gravados já durante a pandemia, né? Como foi esse processo de gravação?

Dy: Apesar de termos o máximo cuidado, ficamos bem apreensivas por conta de tudo o que estava acontecendo (Covid). A gravação do EP teve várias etapas, fizemos o roteiro de gravação, falamos com amigos que trabalham com produção e estavam dispostos a nos gravar. Chamamos algumas minas para participar da música “Atividade Subversiva” que ficou bem parecida com um grito de protesto (era essa a intenção). Separamos um dia para gravar as cordas e batera, e outro para a gravação do vocal. Como foi a gravação de músicas antigas, que já estavam na banda há um bom tempo, esse processo foi também uma despedida da vocal (Debby) que acompanhou a banda por anos, então foi um ciclo ali que se fechou pra nós.

E como vocês chegaram a escolha de lançar eles poucos meses depois do EP?

Dy: Como eram músicas antigas e que já tinham registro em vídeo (mas sem áudio oficial), decidimos lançar justamente para fechar o ciclo de músicas mais antigas da banda e para começar novos sons com essa nova formação.

Já que Belém sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Dy: A cena é bem diversificada, no mesmo evento podemos ter uma banda de reggae e depois uma de rock. O único problema ainda é casas de show abertas para bandas autorais, e isso acaba fazendo com que shows autorais rolem no “faça você mesma”.

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Nia: Todas nós curtimos sons variados (e põe variado nisso haha), eu por exemplo vou de Opeth à Falamansa, Manger Cadavre? à Dona Onete, a Dy gosta de MPB e também Nervosa, Blind Ivy e Joan Jett, e a Line de Pitty,  Brega Marcante e Xuxa haha. Claro que para influenciar no som da banda a gente tem referências de outros sons, mas com a gente não tem frescura com música, a gente gosta de quase tudo mesmo.

Últimas considerações? Algum recado?

A banda está um pouco parada porque temos novas integrantes, uma vocal e uma batera, estamos passando pelo processo de nos conhecer e criar um vínculo para seguirmos em frente compondo e tocando o terror! E os nossos dois singles que lançamos no Youtube e Bandcamp vão estar também em todas as plataformas digitais no dia 13 de Novembro, então se liguem!
E para finalizar, queremos agradecer ao Bus Ride Notes pela entrevista. Esperamos que em breve possamos voltar a tocar para ter uma resistência mais combativa contra esse fascismo instaurado no Brasil, conhecer outros estados ou tocar novamente nos lugares que já conhecemos, só que com a nova formação.

A discografia de Klitores Kaos está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Playlist / Resenha

Singles de Setembro

Hoje vamos publicar algo diferente do que estamos acostumados, mais uma das mutações do nosso blog/site/ainda não sei como chamar.

Nessa semana chegaram até nós alguns singles e resolvemos vir aqui falar deles. E primeiramente tamos felizes de mostrar algumas músicas de estreia.

Pata “Casa de Gelo”

Se você acompanha o Bus Ride Notes provavelmente já conhece a Pata, além de estar em algumas das nossas playlists, publicamos uma pequena resenha do primeiro disco da banda, “Shit & Blood”.

Nessa quarentena eles resolveram se aventurar com singles gravados e produzidos em casa, numa “série de experimentações sem pretensão de definir uma chave sonora para os novos passos, também com a proposta de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos”.

Os já lançados “blsnr pnt mrch” e “Casa de Gelo” são em maior parte eletrônica e bem diferentes da banda que toca um rock que eu chamo de grunge.

“Casa de Gelo” tem uma melodia calma e uma letra tristinha que pra muitos é sinônimo da quarentena, mas ela na verdade foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano.

Ela tem a participação de Sentidor (também responsável pela mixagem e masterização) nos beats e ambiências eletrônicas e foi lançada pela Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records.

A capa ficou por conta de Hanna Halm e também foi lançado um lyric video, produzido por Lúcia Vulcano.

O próximo single previsto é um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

Tigre Robô “Desconforto”

Formada no final de 2018 em Brasília por Isabela Fernandes (guitarra, teclados, voz), Junio Silva (baixo, teclados, voz) e Rafael Lamim (bateria), Tigre Robô acaba de lançar seu primeiro single, “Desconforto”. “Uma música sobre esperar pelas coisas acontecerem quando o tempo não está ao seu lado”.

A banda está gravando seu primeiro álbum e pretende lançar mais um single até o mês de Dezembro.

Eles também participaram da nossa matéria sobre gravações caseiras durante essa quarentena.

A arte de “Desconforto” foi feita pela própria Isabela Fernandes.

Tropikaos Chaga “As Ruas Vão Queimar”

“As Ruas Vão Queimar” é o primeiro single do duo Samuel Kircher (voz, guitarra, baixo) e Érico Munari (bateria), que foi gravado já durante a quarentena de 2020 (será que ao nos referir à quarentena vamos ter que especificar o ano? Espero que não).

A música foi lançada já tem um tempinho, mas o lyric video (editado pelo próprio Érico Munari) acabou de sair.

“As ruas, os dias, as notícias do cotidiano em um país problemático como o Brasil, compõem as letras e o barulho da banda”, ou seja, aquele punk rock rasgado cheio de distorção que a gente gosta.

Kebrada HC “Unides Pelo Ódio”

“Banda punk/hardcore antifa femininja diretamente da periferia do ABC”, formada por Letícia Souza (voz), Juliana Moreira (guitarra) e Victória da Cunha (baixo) em 2019.

Apesar de ser uma banda nova e essa ser a primeira música que elas lançam oficialmente, a Kebrada HC já é um tanto conhecida e é bem ativa.

“Unides Pelo Ódio” foi lançada junto de um video com trechos de shows em comemoração ao aniversário de um ano de banda.

O amigue e baterista Tobias de Teipó participou da gravação do single, mas a banda ainda está a procura de um baterista.

Ano passado fizemos uma entrevista com a vocalista, Letícia, onde ela explica porque se afastou do “rolê punk” e começou a frequentar a nova “cena” paralela que tá rolando em São Paulo. Ver isso tomando uma forma ainda maior através de mais uma banda faz uma lágrima escorrer no meu rosto.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: hoje

Essa é a segunda parte da nossa matéria sobre a Cosmogonia, se você não viu a primeira, leia aqui antes de começar esse texto.

Hoje formada por Gabi (vocal), Teté (guitarra), Andressa (baixo) e Dani (bateria), em 2017, dez anos após o início do hiato, Cosmogonia voltou e em 8 de Março de 2019 lançaram o EP “Reviva!”.

Sonoramente “Reviva!” é bem parecido com “O Sentir Que Violenta”, o que faz todo sentido, já que foi a última coisa que elas gravaram antes do hiato. As letras continuam tendo foco no empoderamento feminino.

“Grite, fale, jamais desista. Grite, ria, lute e resista que amanhã haverá sua paz, que dias ruins ficaram para trás”.

“Tempo” é a música mais rápida do EP e o clipe dela é o primeiro da Cosmogonia, lançado em 10 de Outubro de 2019, Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ele consiste em imagens ao vivo da banda desde que voltaram.

Abaixo você confere nossa entrevista com a banda:

Então, acho que a gente pode começar falando sobre o início da banda. Nenhuma das meninas estava na formação original dos anos 90, né? Como foi a entrada de cada uma?

Atualmente não há nenhuma menina da formação original. A Elis (fundadora) ficou até 2007, quando a banda entrou em hiato. Teté entrou em 2002, Gabi entrou em 2004 e Dani entrou em 2005. Em 2017 revivemos com três integrantes dos anos 2000: Teté, Gabi e Dani (batera) e logo depois Karol (baixista) entrou. No final de 2018 a Karol saiu e entrou o Fernando. Em 2019 a Dani saiu, entrou a Andressa no baixo e o Fernando foi pra batera. Agora, em 2020, a Dani voltou pra bateria e o Fernando saiu.

TETÉ: Em 2002 eu estudava na escola do menino que tocava bateria na época para a Cosmogonia e também na escola da ex-guitarrista, Raquel. Aí souberam que eu tocava guitarra, me disseram que estavam procurando uma mina guitarrista. Foi aí que conheci a banda, mas cheguei a enrolar um pouco pra ir fazer o teste por insegurança. Quando finalmente criei coragem, fui e foi perfeito. Me apaixonei pelas meninas, por tocar com elas, pela história da banda e aí me disseram que já tínhamos um show marcado no Hangar 110, que na época era o sonho de qualquer banda da cena, né? Então minha entrada já foi logo de cara tocando num show do Hangar!

GABI: Eu entrei pouco depois em 2004, já tinha relacionamento com a banda desde 98 e morávamos no mesmo bairro. Quando recebi o convite de fazer um teste para tocar nessa formação dos anos 2000, apenas a fundadora Elis, estava na banda. Nessa época, também contávamos com o Paulo, que integrava a lendária banda Punk Atitude.

ANDRESSA: A minha entrada foi com uma responsabilidade enorme. Eu estava entrando em uma banda que tem uma puta história, e que eu curtia muito. Fora isso, eu estava substituindo a Karol, que é uma excelente baixista, com uma base musical maravilhosa. Eu tinha a obrigação de estudar pra me sair bem. Tanto que, quando fui convidada a primeira vez pela Gabi, fiquei com muito receio de não estar no mesmo nível. Mas depois de pensar direito, voltei atrás e deu muito certo. Isso foi ano passado, 2019.

FERNANDO: O Fernando já era amigo da Teté de muitos anos e quando a Karol saiu da banda, chamamos ele pra nos ajudar e cumprir a agenda de shows. Não conseguimos achar nenhuma baixista e ele foi continuando com a gente. Quando a Andressa assumiu o baixo, o Fernando foi pra batera, substituindo nossos dois amigos Roberto e Nautilus, que estavam se revezando como substitutos da Dani.

E como é manter a banda mesmo sem ninguém da formação original?

Inicialmente, achávamos que não faria sentido a banda sem a Elis. Porém, ela mesma nos incentivou a retornar e nos lembrou que a Cosmogonia sempre foi uma banda aberta à novas integrantes e que ao longo dos anos, muitas meninas passaram pela banda e deixaram sua marca, experiência de vida e luta. A particularidade mais importante da Cosmogonia é resistir ao longo dos anos e trazer a vivência de diversas mulheres, que são unidas em torno do mesmo propósito. Apesar da Elis não estar presencialmente na banda, ela é também um membro que mantemos contato constante e que nos aconselha, dá opiniões, apoia e é responsável por muita coisa que fizemos desde o retorno.

Vocês fizeram um hiato em 2007, né? O que esse hiato representou para vocês?

Em 2007 cada integrante da época estava passando por coisas diversas em suas vidas pessoais que foi impossibilitando de conseguirem conciliar com a banda. Além da questão financeira que era complicada para todas (pagar ensaio, transporte, manutenção de instrumentos, etc), havia também trabalho, estudo, filhos e família. Então o hiato representou um tempo que precisávamos naquela época, para ser mais compatível com a nossa condição de vida daquele momento e com as dificuldades financeiras e psicológicas que cada uma enfrentava.  Esse tempo foi extremamente triste, pois sempre sentimos muita saudade da banda em si e de estarmos em uma banda. E nesse tempo, algumas de nós tivemos que lidar com relacionamentos abusivos, violência doméstica, dentre tantas outras coisas que as pessoas não enxergam em vidas que não estão expostas de alguma forma.

Como vocês decidiram que era hora de voltar?

Em 2017, após um período maior sem se verem, Gabi e Teté se reencontraram num show e como elas sempre sentiram saudades de tocar, mencionaram que seria legal montarem uma banda. De longe a Elis percebeu essa movimentação entre as duas, e também estava muito ligada na movimentação das mulheres no cenário underground, que aumentava a cada dia. Ela então nos reuniu em um grupo de Whatsapp e praticamente exigiu que voltássemos com a banda, mesmo sem ela, que mora no exterior.

No Bandcamp da Cosmogonia a gente percebe que todos os álbuns ali são bem curtos. Existe algum motivo pra essa escolha?

Cosmogonia é uma banda que nasceu na periferia e bandas de periferia, mais ainda, bandas com mulheres sempre foram invisibilizadas pela falta de recursos e também pelo próprio machismo e misoginia, que também existem na música e na cena punk/hardcore. Sempre dependemos do corre de cada uma, dos amigos de outras bandas e de coletivos que se juntavam para gravar coletâneas (no início ainda em fitas K7). Nunca tivemos grana pra bancar gravação, produção e até o final dos anos 90, a produção de tudo foi com o “faça você mesma”. Em 2006 lançamos um single, que conseguimos gravar graças a um cachê que nos foi dado de um show. Agora em 2019 lançamos um EP gravado pelo projeto Experiência Family Mob. Fomos selecionadas para participar do projeto, o que nos possibilitou a gravação. A mixagem e masterização foi arcada com nossos próprios recursos e venda de merch.

O que vocês têm escutado nos últimos tempos?

GABI: Eu tenho ouvido muito folk, bandas clássicas de hardcore dos anos 90, algumas bandas novas e bandas que carrego em playlists ao longo dos anos, como Converge, Million Dead, Pennywise, bandas nacionais como Bioma e Miêta.

TETÉ: Hardcore sempre! Desde os clássicos que sempre me acompanham (Pennywise, NOFX, Bad Religion) até bandas nacionais: Mar Morto, Garage Fuzz, Bioma.

ANDRESSA: Eu sou extremamente eclética, por mais que dizer isso pareça clichê. Nacional tenho escutado bastante Violet Soda, Miami Tiger, Hayz, Radical Karma. Internacional tenho um carinho mais que especial por uma cantora pop, a Dua Lipa. Acho a sonoridade e influências dela do Disco no último álbum maravilhosas, principalmente no baixo haha. Também o álbum solo da Hayley Williams, tá bem “diferentão”.

O gosto musical de vocês mudou muito do começo da banda até agora? Como vocês incrementam essas influências no som de vocês?

TETÉ: O gosto continua bem parecido. Claro que sempre surgem bandas novas, mas até hoje ouço praticamente tudo o que eu ouvia desde que entrei na banda. Para compor, obviamente trago todas as coisas que ouço, porém é algo bem espontâneo. Desde que comecei a tocar guitarra, sempre gostei de criar bases e riffs muito mais do que ficar tirando músicas e aí as brincadeirinhas na guitarra vão se transformando em som.

GABI: Minhas experiências e influências para compor são vivências de silenciamento, violência doméstica e o sentimento de como eu gostaria de que as coisas fossem diferentes na sociedade em que vivemos.

ANDRESSA: Eu comecei a ouvir mais hardcore. Eu sempre escutei um rock alternativo, muita coisa de pop rock e pop. Acho que sou a única a ter influências totalmente diferentes. E isso que é o interessante de fazer parte de uma banda, poder criar coisas novas juntando um pouco de cada gosto, cada influência. Cada um coloca uma pitada do que curte. Eu depois que entrei já andei dando umas pequenas modificadas no baixo nos shows.

A gente tá num momento de bastante ebulição em questões políticas e sociais, com os protestos tomando conta dos Estados Unidos e agora estourando de volta no resto do mundo. As letras da Cosmogonia sempre fizeram questão de falar abertamente de assuntos assim, principalmente na questão feminista, né? Como a obra da banda se comunica com um momento tão intenso como o que está acontecendo agora?

GABI: Cosmogonia sempre foi uma banda de periferia, de mulheres guerreiras que sempre tiveram que correr atrás pra se sustentar, sustentar filhos, família, a si próprias, levar o feminismo para aquelas que nunca puderam falar e se expressar. Falar dessas experiências coletivas e individuais é um ato político. Desde as criações antigas até as novas, sempre levamos a contestação do quanto é difícil a sobrevivência das mulheres na sociedade. Ser mulher é um ato político.

TETÉ: Estamos num momento em que fica cada vez mais exposto o engano do capitalismo: ele não é um sistema para todos e nós, mulheres, vemos, vivenciamos e sentimos na pele isso todos os dias. Como disse Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Como o próprio capitalismo coloca em xeque o tempo todo as questões das minorias, que no sentido quantitativo é a maioria, fica cada vez mais difícil aceitar as condições que esse sistema nos impõe. Como a banda e suas integrantes ao longo dos tempos sempre fizeram parte dessas minorias, não apenas por serem mulheres, todas essas pautas estiveram sempre presentes nas letras, canções e ideais.

E como vocês observam a evolução de debates assim na cena underground durante a trajetória da banda?

Sempre houve a invisibilização de atos e atividades lideradas por mulheres ao longo da história, e no cenário underground não é diferente. E hoje, mesmo que com uma visibilidade um pouco maior por conta das mídias sociais, ainda estamos em uma posição de falar para nós mesmas, de criarmos nossos espaços paralelos porque ainda há muita resistência de estarmos igualmente nos espaços “comuns”, que são majoritariamente masculinos. E o que mais chama a atenção é que as poucas pessoas que parecem estar preocupadas com a maior visibilidade dessas minorias em canais de divulgação, somente fazem isso para não se sentirem cobradas e não por acreditarem e respeitarem o nosso trabalho.

Há uma comunicação com outras bandas Riot Grrrl em outros estados?

Sim, sempre. No passado, mesmo antes da internet e depois, quando só poucos tinham acesso, as bandas de mulheres sempre se comunicaram. Cosmogonia tocou em diversos estados antes dos anos 2000 e também trazia as bandas de mulheres de outros locais para tocar em São Paulo. Mas com a internet, foi possível ampliar muito essa rede e união.

Em tempos de quarentena, como estão os projetos futuros?

Fica um pouco complicado pensar em futuro nesse momento. Acho que o foco maior agora é sobreviver a essa pandemia e a esse desgoverno. Sobreviver financeiramente e emocionalmente. Mas estamos compondo remotamente e nos falando diariamente.

Gostariam de dizer algo para as demais mulheres que estão ou querem entrar numa banda?

Quando o assunto é mulheres assumindo papéis em projetos, o direcionamento é sempre insistência, persistência e paciência. Nada acontece da noite para o dia, e, principalmente para nós mulheres os obstáculos são maiores. É importante buscar redes de apoio com as mulheres que já fazem qualquer tipo de trabalho artístico.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: o começo

Eu demorei bastante pra conhecer a Cosmogonia. “Como assim? Você fez um blog só pra falar de música”, pois é, ainda hoje há uma grande invisibilidade de bandas, mesmo nos lugares que se dizem alternativos e underground, imagina antes da internet?

Quando você pesquisa sobre as origens do riot grrrl no Brasil você só encontra Dominatrix (aliás, a Elisa já fez parte da Cosmogonia) e Bulimia. Uma banda que cantava em inglês e uma que cantava em português. Entenderam o raciocínio?

Eu sei que é algo que acontece em todo lugar, também demorei pra conhecer várias bandas gringas importantíssimas, mas não consigo deixar de ficar surpresa.

Há tempos eu penso em escrever sobre a Cosmogonia, mas sempre me enrolei. Não fiz resenha do EP novo porque pensei “Poxa, a banda tem muita história pra fazer só uma resenha” e por outro lado eu também pensei “Poxa, eu não sou jornalista, vou deixar passar muita coisa importante numa entrevista”. Muita enrolação depois, resolvemos publicar um pouco dos dois, escrito por mim (Livia) e pelo Junio.

Como diz Ignite: conheça a sua história!

Cosmogonia foi fundada em 1993 em Osasco, SP por Elis e Renata, duas professoras que sentiram falta de representatividade nos palcos da cena punk rock/hardcore e decidiram montar uma banda feminista composta por mulheres.

Desde então, a banda foi ocupando os espaços e transmitindo a sua mensagem, que é a luta por uma vida mais igualitária, inclusiva e justa para todas as pessoas, não importando seu gênero, raça, orientação sexual e condição social.

Uma das características da Cosmogonia é que muitas integrantes já passaram por ela.

Entre 1997 e 2006 elas lançaram uma Demo, um EP, um single e músicas inéditas em coletâneas.

As primeiras músicas da banda têm aquela sonoridade que a gente não sabe explicar muito bem e chama de punk com pegada brazuca, aquele som característico que qualquer pessoa no mundo que ouvir sabe que foi feito no Brasil nos anos 90.

“O Sentir Que Violenta”, single lançado em 2006, tem um som diferente do que elas tinham feito até então. Um hardcore um pouco menos melódico. A letra fala sobre como o silêncio é o cúmplice da violência contra a mulher.

Pouco tempo depois, em 2007, a banda entrou em hiato.

Abaixo você lê uma entrevista com Elis sobre essa época da banda e um pouco mais.

Fale um pouco de você, como começou seu interesse pela música?

Bom, eu cresci no meio da música. Meus irmãos mais velhos desde os anos 70 já curtiam rock e meu pai trabalhou na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), então desde nova a música já fazia parte da minha vida. Comecei no rock clássico, depois foi para o metal e finalmente me identifiquei no punk/hardcore.

Quem estava na primeira formação da Cosmogonia?

A primeira formação da Cosmogonia era eu, a Renata e a Vanessa.

Como surgiu a ideia de se juntar e montar a banda?

Eu e as meninas já frequentávamos a cena, tínhamos amigos, íamos muito em shows e a gente notava que não haviam bandas que nos representassem como mulheres. Sempre eram os homens tomando as frentes e praticamente tudo era feito e vivenciado por eles. Tínhamos essa visão e isso nos incomodava bastante. Apesar da cena naquela época já ser um “ambiente libertário”, como éramos professoras sempre preocupadas com conteúdos, conhecimentos e práticas, notávamos que na realidade, de libertário não havia nada… Faltava muita coisa pra ser dita e exposta.
Então, começamos a conversar sobre montar uma banda, fazer shows e levar nossa mensagem pra outras garotas. Já tínhamos uma bagagem para escrever as letras e aí começamos a aprender a tocar em casa, com ajuda de amigos e então a banda foi acontecendo. Ficamos sabendo o que estava acontecendo nos EUA e isso reforçou também pra que a gente continuasse seguindo nossa vontade de fazer a banda acontecer. Se lá estava rolando, também poderíamos fazer rolar aqui e assim, conciliamos tudo ao mesmo tempo e as coisas foram fluindo, bandas foram surgindo também, shows e festivais e os coletivos também começaram a se organizar.

Como foram os primeiros shows?

Os primeiros shows nossos foram em bares em Osasco, organizados por coletivos. Lembro de muitos homens de braços cruzados na nossa frente e várias meninas acuadas. Acredito que todos estávamos aprendendo a lidar com o fato das meninas ocupando esses espaços. Porém resistimos, esse sempre foi nosso foco, a resistência.

A gente sabe que nos EUA, além das bandas, houve muita movimentação por meio de zines e grupos de debates né. Como vocês observavam o movimento riot grrrl nos EUA em relação ao que estava acontecendo aqui no Brasil?

Na época, mesmo ainda sem termos acesso à internet, sempre observamos a cena fora do Brasil com um olhar de admiração. É muito inspirador ver mulheres tomando as frentes e fazendo o que geralmente eram só homens que faziam. Isso sempre nos motivou a continuar seguindo, mesmo com todas as dificuldades que tínhamos. Então, fomos fazendo da nossa maneira, errando, acertando, mas sempre construindo.

Nos anos 90 havia espaço para debates de gênero na cena independente brasileira?

Era muito raro um espaço para esse tipo de debate. A cena, apesar de se afirmar inclusiva, sempre foi excludente, e por isso foi preciso muita perseverança e tentativas de ir ocupando esses espaços e levando nossas mensagens.

Como foram as primeiras gravações?

Apesar da nossa imensa vontade de fazer acontecer, um grande obstáculo era a questão financeira. Todas nós tínhamos dificuldades, então sempre foi muito difícil conseguirmos juntar grana pra conseguir gravar.

Na época havia comunicação entre outras bandas formadas por mulheres nos outros estados?

Havia sim! Nos comunicávamos bastante por carta, porque até a internet era limitada. Não é todo mundo que vivenciou isso, mas havia limite de horas mensais para acessar a internet haha. Mas chegamos a usar também o mIRC pra falar com bandas de outros locais. Fizemos muita amizade com as meninas do Bulimia e a gente se ajudava quando rolava show em nossas respectivas cidades, com acomodação e etc.

Como foram as primeiras viagens?

Nossas primeiras viagens foram para cidades do interior de SP: Campinas, Sorocaba e litoral. Depois também tocamos em diversas outras fora daqui: Brasília, Goiás, Londrina, Rio, Salvador… Nossas viagens sempre foram surreais. Já viajamos em avião assim que lançou o filme “Premonição” (todo mundo do avião achou que ia morrer), de bus clandestino fretado de Brasília onde achamos que eles drogaram os passageiros, um show em Pirituba que um cara entrou atirando… Mas, enfim, sempre que viajávamos ficávamos nas casas de amigos nas cidades e fomos super acolhidas. Uma vez voltávamos de um show em Campinas com Cosmogonia, Bulimia e Kólica, estávamos indo para minha casa, todas numa perua (aquelas antigonas) e na estrada sofremos uma emboscada de uns ladrões ao sair de um posto de gasolina. Enfim, eles nos cercaram com armas e ameaçaram levar minha filha, que na época tinha entre 11/12 anos, se não déssemos todos os instrumentos e dinheiro. A Berila, baterista do Bulimia, falou que tinha uma grana boa que estava vindo de Brasília e que dava tudo se soltassem minha filha, enfim eles aceitaram. Levaram todo o nosso dinheiro também, do motorista e das outras meninas, mas graças soltaram minha filha.

Como foi a questão da banda continuar sem nenhuma integrante da formação original?

A Cosmogonia sempre foi uma banda muito acolhedora, onde passaram diversas mulheres fodas que sempre somaram umas com as outras e com a banda em si. As meninas que seguem com a banda atualmente fizeram parte da banda nos anos 2000 e também tive uma história com elas, que continuo tendo até hoje. Foi maravilhoso e inexplicável o sentimento que tive de ver a banda reviver e continuar com a nossa resistência e luta. E eu amo muito essas mulheres, que agora também estão continuando e perpetuando com a história da banda. 

O que você faz hoje em dia?

Atualmente moro nos EUA, tenho duas filhas e um neto. A minha filha mais nova já participa do Orlando Girls Rock Camp e está numa banda de garotas tocando guitarra. Nessa quarentena, fizeram uma música e até um clipe.

O que anda ouvindo de novo?

Bom, ainda sou fãzona da Cosmogonia, mas também tenho uma um gosto bem crazy. Algumas bandas que ouço e que curto: Pennywise, Hole, Nathan Gray, Boysetsfire, Bad Cop/Bad Cop, Nueva Etica, Sleeping With Sirens, Againts Me!, Bring Me the Horizon, Saosin, My Chemical Romance, Glória, Fresno… que eu preciso diariamente.

Obs.: Acho importante dizer que o riot grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Resenha

Bioma – União e Rebeldia

“Banda de queercore feminista formada em 2017, a Bioma surge a partir do encontro de mulheres da cidade de São Paulo com discurso feminista e posicionamento libertário, anti-racista, anti-LGBTfóbico e anti-CIStêmico”.

Formada por Julia Kaffka (baixo), Letícia Figueiredo (bateria), Mayra Vasconcellos (guitarra) e Natália Pinheiro (Natoka) (vocal), em Maio de 2020 a Bioma lançou seu primeiro disco, “União e Rebeldia” e vamos falar um pouco sobre ele aqui.

Primeiramente, se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre.

“União e Rebeldia” tem aquela característica que é difícil colocar em palavras e daí surgem resenhas dizendo que é um disco “potente”. Nada contra esse termo, mas é vago e eu quero tentar não ser vaga, assim como esse disco.

Punk e hardcore são conhecidos por suas letras políticas, mas não é tão comum vermos bandas que se expressam bem, na maior parte vemos letras que mencionam um assunto e não elaboram ideias, por que é difícil se expressar bem numa letra curta de música, olha só o tamanho desse parágrafo.
É por isso que a gente fica feliz quando encontra bandas que conseguem fazer isso, creio que esse é o tal do “potente”.

Bioma é uma daquelas bandas que te faz parar pra pensar, podemos escrever um artigo grande sobre cada música desse disco. Aliás, eles já existem, mas acho que o que importa é você ouvir, procurar saber mais e tirar suas próprias conclusões.

“Violência Invisível” fala sobre lesbocídio, a morte sistemática de mulheres lésbicas, assassinato e suicídio de lésbicas que são permeados pela lesbofobia.
“Sociedade patriarcal, violenta e irracional. Daniela, Fabiana, Priscila, Luana! Todas que não vamos esquecer. Lésbicas presentes!”

“Falsas Causas” fala sobre “pink money”, uma estratégia de marketing de empresas que focam o público LGBTQ+ em suas campanhas. Mas não se engane, isso é só uma estratégia mesmo.
“Não trate como revolução quem te trata como nicho de mercado”.

“Disforia”, o nome já diz tudo, “Um espelho sem reflexo, incoerente sentimento. Disforia do meu próprio ser”.

“Pedalar” é outra música em que o nome já diz tudo, “O suor que pinga enferruja as engrenagens da máquina que gira e para nossas vidas”. Você pode até não ser contra carros, mas você não pode discordar disso.

“O silêncio não protege, ele te consome. Esse corpo é revolta, revolta que revida”.

A banda também regravou para o disco as músicas de sua Demo (2018), “Descontrolar” e “77 Cobaias”.
“Enquanto se escolhe quem vive ou quem morre, nós desmascaramos seu fascismo democrático”.

Eu acho que “Cidade Perdida” é a música que melhor resume esse disco, tanto que ela foi lançada como single, junto de seu clipe, em Abril de 2020.

Dirigido e editado por Julia Gimenes (profissional do audiovisual, feminista, que há dez anos atua como colaboradora na causa indígena), ele é composto por trechos de registros feitos por ela durante o “Festival Guarani” (2017) e o primeiro “Encontro das Mulheres Indígenas” (2018), e imagens de arquivo, cedidas pelos canais canais “De olho nos ruralistas”, “Mídia Ninja” e outros portais de jornalismo independente, retratando o crime cometido pela Vale em Brumadinho e a crise das queimadas na Amazônia que ocorreram em 2019. Também com falas de Tamikuā Txihi, Julieta Paredes Carvajal, Sônia Barbosa e Ailton Krenak.

O disco termina com “2019”, “Olhar pra trás é tão difícil, as dores voltam de tentar. Todas (as) perdas que tivemos… Seguir em frente apesar disso, nada vai nos derrubar. Pode vir qualquer Jair, a resistência vai ficar”.

“União e Rebeldia” foi produzido pela própria banda junto de Mari Crestani (Bloody Mary Une Queer Band, Weedra) e tem participações de Mari Crestani, Célia Regina, Cint Murphy (In Venus) e Karine Campanille (Transviada Distro, Mau Sangue, Messias Empalado, Violence Increases Fear).

O disco foi lançado pelos selos Efusiva, Howlin Records, Läjä Records, Oxenti Records, Vertigem discos, Carniça Distro, Good Things Distro e está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Deixo aqui também a entrevista com Natoka sobre o Dyke Fest #4, onde tem muito sobre a Bioma.


Discografia Caipirópolis / Playlist

Discografia Caipirópolis Volume 1

Não é novidade pra quem acompanha música underground que de uns três anos pra cá o número de bandas triplicou ou mais.

Nós do Bus Ride Notes gostamos de sair do eixo SP-Rio e juntando isso com nosso gosto por fazer planilhas, um dia resolvemos fazer uma lista de bandas do interior. Como moramos em São Paulo e conhecemos muita coisa, começamos por aqui. Essa lista deu mais de 300 bandas na ativa (até onde sabemos) e como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.

Assim nasceu a Discografia Caipirópolis pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital. O nome, que é uma brincadeira de amigos daqui (chamamos a região de caipirópolis), foi o título temporário da lista, mas acabou ficando.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Sem saber se dividiríamos por estilo, região ou etc, nesse primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação porque né? 2020 e essa conversa ainda dá muito pano pra manga.

Então tem música pra todo gosto aqui: punk, crust, indie, synthpop, stoner, hard rock, folk, instrumental brisinha, etc. É pouco provável que você goste de tudo, mas é muito provável que você goste de mais da metade.

Como a lista é grande, terão outros volumes, seja por coletânea, playlist, streamcast ou outro formato que ainda não conhecemos.
E nós gostaríamos de incentivar o pessoal de outros lugares a fazer o mesmo e mandar pra gente. Primeiro porque queremos ouvir coisas novas e segundo porque não conhecemos muita coisa dos outros interiores.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse primeiro volume:

Amphères (Santos)

Amphères é um trio formado em 2016 pelos músicos Jota Amaral (bateria e voz), Paula Martins (baixo e voz) e Thiago Santos (guitarra e voz), que tocam juntos desde 2012 em outras formações. “Transitando entre diversas vertentes do rock alternativo, muitas vezes com nuances psicodélicas, o som da banda é definido por linhas de baixo bem marcadas e baterias vibrantes, que permitem explorar a pungência de guitarras com texturas harmônicas, loops, dissonâncias e ruídos diversos“. A banda já lançou dois EPs (2016 e 2018) e em Abril de 2020 lançaram o álbum “Porto”. “Densa” faz parte do primeiro disco da banda, “Porto”.


Balanopostite (Araraquara)

Banda de goregrind formada em 2018 e hoje com Serginho (guitarra/backing vocal), Mars Martins (vocal, baixo) e X (bateria), eles se preparam pra gravação do primeiro EP e tem duas músicas disponíveis no Bandcamp, “A Indústria Agropecuária Colabora com a Fome Mundial e a Falta de Água” é uma delas.


Blixten (Araraquara)

A banda surgiu no ano de 2013, fundada pela vocalista Kelly Hipólito e hoje com Aron Marmorato (baixo), Miguel Arruda (guitarra) e Larissa Futenma (bateria). “O objetivo da banda é trazer para o século XXI, o peso, velocidade e melodia que as bandas de Heavy N’ Hard tinham nos anos 80”. Em 2018 eles lançaram o primeiro EP “Stay Heavy”. “Strong As Steel” faz parte do EP “Stay Heavy” (2018).


Cigarros Indios (Araçatuba)

Formada em 2012 e hoje com Ana Lídia (voz), Herivelto Medeiros (baixo), Ricardo Storti (guitarra) e Tico (bateria), Cigarros Indios é um power trio roqueiro comandado por uma voz feminina e apresenta um repertório onde a trilha sonora é o rock, sem qualquer outro adjetivo. Em 2020 lançaram o primeiro EP, “Gravidade”. “Carnaval” foi lançada como single no dia 21 de Fevereiro de 2020.


Clandestinas (Jundiaí)

Formada em 2017 pelas militantes feministas e LGBTQIA+ Alline Lola (guitarra e voz), Camila Godoi (baixo e voz) e Natália Benite (bateria e voz), a banda surge da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, utilizando a música como ferramenta de luta, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas. “Rotina” faz parte do recém lançado primeiro disco da banda, “Clandestinas”.


Crasso Sinestésico (Bom Jesus dos Perdões)

Formada em 2014 por Diego Fernandes (guitarra e vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria), o duo já lançou um disco e dois EPs. “Cassandra”, o EP mais recente da banda, foi gravado ao vivo em Fostex no rolo de fita, é cru e sem muitos efeitos. “Encontramos na sonoridade de alguns discos (Coloração Desbotada, Giallos, Hüsker Dü e Sonic Youth) um norte de como gostaríamos que fosse: noise rock, sujo, lo-fi, intenso e verdadeiro”. “Bhaskara” faz parte do EP “Cassandra” (2019).


Dead Parrot (Campinas)

Formada por Mariana Ceriani (vocal), Victor Vianna (guitarra), Matheus Stoshy (baixo) e Bruno Giacomini (bateria), a banda de stoner e hard rock já lançou três EPs, o mais recente, “Strange Times Are Coming”, em 2020. “Strange Times Are Coming” faz parte do novo EP da banda, de mesmo nome.


Derrota (Americana)

Derrota é uma banda de post-rock instrumental, formada em agosto de 2012 por Leonardo Cucatti (guitarra), Nathalia Motta Oliveira (guitarra), Eduardo Camargo (baixo) e Marcel (bateria). Além do primeiro álbum “Parece Insuportável” (2019), a banda já lançou dois EPs e três singles. “Sinestesia” faz parte do EP “XXX” (2018).


Estado Imaginário (Itupeva)

Formada em 2015 por Douglas Valente (vocal), Maurilio Babão (guitarra), Andressa Kaam (baixo) e Marcos Salles Lopes (bateria), a banda tem várias influências do cenário musical, abrangendo também a apreciação literária de grandes nomes da poesia universal como Rimbaud, Chesterton, Pessoa e Neruda. “Nada Pode Ser em Vão” faz parte do EP “Estado Imaginário” (2017).


La Burca (Bauru/Araraquara)

Fundada em 2011 por Amanda Rocha (voz, violão, composição) a banda de post-punk-tropicaos ou post-punklore estreia nova formação em 2020 como trio com o baterista Ed Paolow e o guitarrista Denial Guedes. A banda já lançou dois discos e um EP, “suas influências vão desde o punk DIY, amansando no folk, bebendo no post-punk, regurgitando no grunge e se recompondo nos temas introspectivos instrumentais”. No momento a banda mescla novo repertório cantado em português à releituras sonoras de alguns sons e experimentações libertárias lesbopunk. “Flowers of Romance” faz parte do disco “Kurious Eyes” (2016).


Mar de Lobos (Iperó)

Formada em 2013 e hoje com Kaue Marques (baixo), Judy Rocha (vocal), Bruno Canal (guitarra) e Yuri Naoto (bateria) a banda que se identifica como “algo entre tropical grunge post-hardcore screamo punk suburbano” já lançou um EP e um álbum. “Acenda” faz parte do disco “Criaterra” (2019).


Nada de Novo no Front (São Jose do Rio Preto)

Powertrio formado em 2018 por Rafael Nascimento (guitarra, vocal), Taiane Campos (baixo, vocal) e Caio RPS (bateria). A banda tem algumas músicas que podem ser ouvidas no seu canal do Youtube.


Pinscher Attack (Monte Azul Paulista)

Duo de fastcore formado em novembro de 2018 pelo casal Thaysa Zuccherato (bateria) e Danilo Zuccherato (guitarra e voz). Sua discografia é composta pelas “Canil Sessions” (que você pode assistir no Youtube). Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui. “A Carta” faz parte do EP “Suicida” (2018).


S.E.T.I.  (Campinas)

Duo que pira nos samples, reverbs, eletronika e guitarradas. Uns chamam de dreampop, outros de synthpop. É tudo isso e um pouco mais. Formado em 2012 por Roberta Artiolli (voz e sintetizadores) e Bruno Romani (baixo, guitarra e programação), eles já lançaram dois EPs e um álbum. O grupo tirou seu nome da sigla em inglês para “Search for Extraterrestrial Intelligence” (busca por inteligência extraterrestre), utilizada para projetos e pesquisas sobre a vida fora da Terra. “Popfobia” faz parte do disco “Supersimetria” (2018).


S.U.C. (Sádica Utopia Convergente) (São Carlos)

Formada em 2014 e hoje com Letícia (vocal), Egiliane (baixo), André (guitarra) e Guilherme (bateria) a banda de deathgrind já lançou dois EPs e um split ao vivo com P.S.G (Poluição Sonora Gratuita), gravado no 3º Interior Brutal Noise em Sorocaba em 2017. Depois de um hiato, a banda voltou em 2019 e acaba de lançar seu primeiro álbum, “Cartilha da Dor”, que reúne músicas dos EPs anteriores e novas composições dos atuais integrantes. “Corporation’s Slaves (Work for Death)” está no disco “Cartilha da Dor” (2020).


Spiral Guru (Piracicaba)

Formada em 2013 e hoje com Andrea Ruocco (vocal), Samuel Pedrosa (guitarra), José Ribeiro Jr. (baixo) e Alexandre Garcia (bateria), a banda toca stoner com temáticas voltadas à ficção científica, vida extraterrestre, a psicodelia dos anos 60 e o som vintage e pesado dos anos 70. Eles já lançaram três EPs e um álbum. “Holy Mountain” faz parte do disco “Void” (2019).


Tatuajë DiCarpa (São Jose do Rio Preto)

Banda de powerviolence debochado formada em Maio de 2018 por Júlia (vocal), Vitor (guitarra), Rizzutti (baixo e vocal) e Renan (bateria). Eles já lançaram um disco e um split com a banda Prayana de Vitória, ES. Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui. “Bate em nazi” faz parte do disco “Satisfação Garantida ou Foda-se” (2019).


TØSCA (Campinas)

Recentemente formada e hoje com Alica (baixo) e Fran (guitarra), Tosca é uma banda que mescla punk rock com indie com experimental com post-punk e com mais algumas coisas. Até o momento a banda lançou um EP “Não Repara a Bagunça” (2018) e um single. “Na Cidade Inteira” foi lançada como single em Julho de 2019.


Travelling Wave (Piracicaba)

Duo de synthpop formado por Thiago Altafini (guitarra e voz) e Carol Alleoni (voz e synth) que “faz rock para estados alterados de consciência abusando de climas soturnos e ruidosos construídos por camadas de reverbs, guitarras sujas, sintetizadores, vocais assombrados e loops tribais de bateria”. A banda já lançou dois albuns, um EP e vários singles. “The Strike” foi lançada como single em Abril de 2020.


Untraps (Peruíbe)

Duo de de punk rock vegan straight edge formado em 2017 por Geisxe Paula (guitarra, vocal) e Nelsinho Edge (bateria, vocal) . Em 2018 lançaram o primeiro EP, “Mútua”. Suas letras falam sobre “tomar de volta o controle de nossas vidas, introspecção sobre patriarcado, a vida engolida pelo cinza/cidade, veganismo, luta anticapitalista, inspirando formas práticas de luta e resistência”. “Propaganda Homicida” faz parte do EP “Mútua” (2018).


Vermenoise (Sorocaba)

Trio de grindcore formada em 2009 e hoje com Chris (vocal), Victor (guitarra) e Mauro (bateria). No começo a banda tinha um som indefinido e adicionava integrantes convidados e musica biotecnológica experimental em apresentações únicas e diferentes de uma para outra. Em 2017 aconteceram shows em parceria com o 00projeto: projeto, que resultou no split “201964”, lançado em 2019. Em Março de 2020 a banda lançou seu novo EP “O Outro”. “Epitáfio” foi lançada como single em 2019.


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Resenha

Tatuajë DiCarpa – Satisfação Garantida ou Foda-se

No Brasil atual, comandado por milicianos mafiosos e evangélicos fanáticos, sobre a complacência de um povo bovino, idiotizado pelas redes virtuais, a banda Tatuajë DiCarpa surge como uma mancha de ácido nesse mar de chorume.

Surgida em Rio Preto, interior de SP, pela mentes insanas do veterano Anderson Rizutti (Dischord, Academic Worms) no baixo e backing vocals, junto com a vocalista Julia, Vitor na Guitarra e Renan na bateria, a banda se propõe ao sarcasmo e ironia, tocando o dedo na ferida da falta de coerência do povo. O deboche já começa pelo nome da banda, que foi escolhido em votação numa postagem do Facebook.

O Tatuajë DiCarpa se intitula powerviolence debochado, mas lembra o grindnoise rústico do New York Against Belzebu, principalmente na fase com a vocalista Ana, com aquele tempero do punk brazuca (a cover que tem neste CD, de “Buracos Suburbanos” do Psykoze, foi uma bela sacada).
No entanto, o Tatuajë é muito mais ácido em suas críticas que os veteranos do NYAB. Em seu debut, “Satisfação Garantida ou Foda-se”, o Tatujë solta 21 pertados, contando a Intro e Outro, que raramente ultrapassam um minuto, socado em um pouco mais de 15 minutos.

Quer belas melodias? Elaborados solos de guitarra? Letras construtivas? Sem tempo, irmão. O bagulho aqui é caminhão desgovernado descendo o barranco. E a metralhadora cospe pra todo lado: esquerda cirandeira Paz & Amor (“Música Popular Cirandeira”), os lacradores de internet (“Muita Lacração pra Pouco Debate”), a indigência cognitiva dos bolsominions (“Vosê é Buro! Sofreu Doutrinassaum!”), a soberba do ‘jeitinho brasileiro’ (“Brasileiro Não é Malandro Você Que é Otário”), Sertanejo universitário (“As Três Fases do eu Lírico do Sertanejo Universitário”) e claro, não poderiam faltar temas anticapitalistas (“Desgraças do Capitalismo”) e pró feministas (“A Mina do Fulano”, “Cultura do Estupro”). Tem ainda muito deboche como em “Istrei edi Não Praticante”, “Ateu de Horóscopo”, “Urubu Guaraná” (essa bem NYAB), e também “Bate em Nazi”.
A gravação do CD está naquela rusticidade tão apreciada pelo pessoal punk/grindcore.

Um destaque interessante vai para a capa que utiliza um unicórnio com uma tatuagem (de carpa) na bunda dançando em um arco-íris. O que poderia passar despercebido ou como mera brincadeira alguns anos atrás, hoje, em tempos obscurantistas e homofóbicos, a arte surge como uma provocação aos carolas e reacionários, mais um ponto para a banda.

Uma das relevâncias do Tatuajë DiCarpa foi a sacada de somar os velhos ideais punks conectando com problemas e contradições atuais, o que parece uma simples progressão, mas muita gente se perdeu nessa curva aí. A outra relevância é, claro, o som caótico, barulhento e rápido. Ao vivo deve ser uma desgraceira infernal de fazer qualquer punk/grinder/noise abrir o sorriso.
Vida longa ao Tatuajë DiCarpa e seu deboche.

Essa resenha foi feita por Paulo Blob e também vai sair na próxima edição da Insulto Magazine. Quem se interessar em adquirir ela, entre em contato com a banda.

“Satisfação Garantida ou Foda-se” pode ser ouvido no Bandcamp:


Entrevista

Madellena – Punk Riot Capixaba

Quando se fala em hardcore/punk capixaba, o que vem primeiro na sua mente? Espero que tenha sido Funny Feeling, Inside Reality e toda a leva de bandas incríveis que foram influenciadas por elas. A gente pode fazer vários recortes do que aconteceu e do que tem rolado no Espírito Santo, todo mundo conhece os selos e as bandas famosas dos caras, e os estilos que fizeram a fama de Vila Velha. Mas aqui também tem muita banda inspirada na cena riot e queer, como a The Truckers e Whatever Happened to Baby Jane atualmente e Lady Laura num passado não tão distante. E é desse cenário que vem a Madellena, banda nova que estreou ano passado com uma sequência de shows incríveis.
Segue abaixo uma pequena entrevista respondida pela banda.

Madellena começou a tocar em 2019, mas ela de alguma forma foi pensada e os primeiros passos se deram bem antes, certo? Conta um pouco como foi esse início e como vocês tem percebido esses primeiros shows, a resposta das pessoas e a percepção de vocês da banda, já é a Madellena que gostariam de ser?

Livia: Na real a ideia da banda começou no finalzinho de 2017 ou início de 2018 (não me recordo), ela surgiu de um papo que Alexandre estava trocando comigo e acabou me perguntando se eu sabia de alguém que cantava pois ele queria formar uma banda com vocal feminino mais voltado pro punk e alternativo, eu respondi que sim, eu mesma. Demoramos um pouco pra achar alguém que topasse tocar bateria, depois ficamos sem batera novamente por um bom tempo. Então, Alexandre conversou com Vanessa e ela decidiu entrar. Os shows foram todos bem especiais, sempre vi muita gente curtindo o som, em especial as meninas. A banda, formada e completa, ainda tá bem no início, e apesar de eu já estar super satisfeita e orgulhosa do som que a gente vem fazendo, acho que ainda vamos evoluir muito e tomar cada vez mais forma ao longo da nossa trajetória.

Antes do mundo começar a acabar, vocês postaram que a banda ia começar a ensaiar com uma baixista. Essa necessidade surgiu dos shows ou era uma vontade desde o começo? Acho que a gente sabe quem é a baixista hehe como foi o contato com ela?

Desde o início a ideia era ter alguém no baixo, de preferência alguém que também pudesse fazer segunda voz. Mas, a gente não quis deixar a falta de um baixista atrasar ainda mais o projeto, e seguimos sem por um tempo. Vanessa, que inclusive já tocou com Ignez, trocou ideia com ela. Ela, para nossa felicidade, acabou topando assumir o baixo. Inclusive estamos super animadas pra ter um ensaio com os quatro integrantes presentes, o que até então não foi possível.

A pergunta é cliche, mas vamos lá. Musicalmente, da onde vem a influência? Bandas e cenas e tal. E pelo pouco que conheço de vocês (pelo menos o Ale e a Livia), sei que vocês tem um pé no metal e música mais extrema. E aí como é construir as músicas da Madellena respirando e vivendo outros rolês de música? Rola de conciliar ou vocês conseguem separar bem as influências?

Nossas maiores influências estão no movimento riot grrl e punk em geral, com um carinho especial pelas bandas Bikini Kill, Sonic Youth, Fugazi, Babes in Toyland, Dominatrix, Pin Ups e Violet Soda. A banda é formada por pessoas muito ecléticas, que curtem tanto som extremo como uma parada mais “água com açúcar”, e acho que todas as nossas influências nos trouxeram onde a gente tá hoje, mesmo que algumas não sejam tão presentes na hora de compor uma música. Por isso, curtir e ter conhecimento de outros roles é importante, não só pra apoiar o movimento como um todo, mas também pra tirar a gente da mesmice, incorporando elementos novos nas nossas composições.

Na banda tem gente que toca em outras bandas, que organiza shows, que frequenta e faz parte de outros undergrounds além do punk. Então não tem pessoas melhores pra eu perguntar sobre o rolê aqui no ES do que vocês. Como vocês tem visto a movimentação aqui? De alguma forma vocês acham que a gente tem acompanhado o que tem rolado nas outras capitais? No sentido de como se organizar e abraçar algumas ideias. Como público, como banda e como “produtores” de shows, o que vocês acham que tem dado certo e o que a gente precisar mudar?

Apesar do machismo e das panelinhas que infelizmente fazem parte da maioria das cenas, eu vejo o underground da Grande Vitória de modo positivo. Nos últimos anos surgiram várias bandas novas e alguns novos lugares pra tocar. O mais bacana de testemunhar é que a própria galera das bandas está organizando os seus shows. É comum ver que certos eventos são concebidos pelas próprias bandas, cada um leva uma coisa (bateria, amplificador, mesa de som) e o show acontece. Surgiram alguns coletivos que fizeram eventos fantásticos, como o “Coletivo Comuna” e o “Matilha Punx”. Acredito que a cena local é composta por poucas pessoas devido à uma população pequena comparada com SP, por isso basicamente todos se conhecem. Veremos como tudo ficará após a pandemia.

E como estão os planos de gravar? Quer dizer, com a pandemia acho que as coisas pararam pra muita banda. Mas vocês tinham alguma movimentação de gravar? E aproveitando a pergunta, como vocês veem essa era do streaming, que já vem de um tempo, mas que acho que agora firmou no underground? Vocês acham legal esse jeito da gente lidar com a música que a gente produz? A gente que eu digo, punk, contracultura.

A banda já estava com projeto de gravação antes da pandemia, mas tivemos que adiar esse desejo. O streaming é uma ferramenta interessante de interação com o público, pois aproxima o que está longe, nesse momento de quarentena tem sido a maneira de alguns músicos sobreviverem do próprio trabalho, o que por si só é extremamente relevante. Agora, dizer que é melhor que o contato com as pessoas no show, acho que ninguém vai concordar com isso, rs. E também não é a única maneira de usar a tecnologia para produzir musica, estamos rascunhando uma maneira de interagirmos através da tecnologia sem perder a essência das criações.

Esses últimos anos o hardcore punk cresceu em vários sentidos, mesmo muita gente dizendo que antigamente era melhor. Cresceu porque deixou de ser menos heteromacho, se criou uma movimentação muito forte queerfeminista, muitas vezes até à parte do que estava rolando. Vários festivais grandes feitos por elas e elus, várias bandas queer e foi bem um atropelo mesmo. Como vocês tem visto esse role todo? Enquanto banda, enquanto pessoas envolvidas no que existia antes e no que tem rolado agora.

Houve uma época em que tínhamos mais bandas com mulheres aqui na cena capixaba. Bandas como Kamomila e Inside Reality fizeram história. Recentemente a Whatever Happened to Baby Jane foi muito importante pra reafirmar e fortalecer o papel das meninas e mulheres na cena. Na maioria dos nossos shows tocamos com outras bandas que têm membros femininos ou só com mulheres, como a The Truckers. Creio que todo mundo já notou que nos últimos anos várias bandas com essa característica ganharam bastante destaque na cena. Grupos como Violet Soda, Bioma, Anti-Corpos, Miêta, Pata, Weedra, Time Bomb Girls, Eskrota, Nervosa, Ema Stoned e várias outras vêm fazendo um belo trabalho, com músicas de qualidade e atitude. Além disso, foi lindo ver Dominatrix e Pin Ups voltando a fazer shows no ano passado. Creio que a tendência daqui pra frente é que a cena de diversos lugares se torne cada vez mais feminina. Eu particularmente não aguento mais ouvir macho cantando, rsrs

Madellena é Lívia nos vocais, Vanessa na bateria, Alexandre na guitarra e futuramente a Ignez no baixo.
Essa entrevista também saiu em formato físico no zine Herencia, lançado esse mês.