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Resenha

Crasso Sinestésico – Eco

Formada em 2014 em Bom Jesus Dos Perdões, SP, por Diego Fernandes (guitarra, vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria, vocal), Crasso Sinestésico é um duo que toca noise rock, lo-fi, meio garage, meio pós punk.

Em novembro de 2020 eles lançaram seu novo EP, “Eco”, gravado ao vivo em novembro, mixado e masterizado no Estúdio Quadrophenia por Sandro Garcia.

“Eco” tem a sonoridade característica da banda, mas busca também a essência do rock psicodélico e da música brasileira. Mais especificamente é influenciado por Clube da Esquina, Lô Borges, Novos Baianos, Momento 68, Continental Combo, The Beatles e The Velvet Underground.

“As canções retratam a sensação de impotência, elas imprimem não só o período em que vivemos, mas também a atual situação política na qual nos encontramos sitiados”, diz Diego Fernandes.

“Nostalgia” o nome já diz tudo, “Nostalgia do tempo tardio que habita escondido na memória encardida, no limbo da vida”.

“Hospital dos Esquecidos” aborda o descaso e desumanidade nos manicômios (ou hospícios), hospitais psiquiátricos muito populares no século 20.

Segundo o dicionário, ‘diáspora’ significa “dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica” e é disso que se trata a música “Diáspora”, “um vórtice que pega dos remotos tempos até nossa triste atualidade”.

“B.B. King” fala sobre a morte, “Como se deparar com ela e nem ao menos duvidar”.

O disco termina com a instrumental, “Eco”, “O mito de Eco revela que a pior prisão é aquela em que o ser humano não pode expressar o que pensa ou o que sente; é a tortura de conviver com seus pensamentos e sentimentos presos pelo medo ou pelas convenções ameaçadoras”.

“Eco” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

enema noise

Enquanto eu ouvia o novo EP da enema noise (“aquilo que já é meu/a hora mais fria”, lançado em Abril de 2020) pensei “Que conceitual. Eu podia pedir uma entrevista“. Enquanto pensava na banda e lendo sobre ela, cheguei à conclusão que eles representam bem o underground (seja o estilo que for): você escolhe um gênero musical que te agrada e começa a trabalhar nele, muda o que não faz mais sentido e o que é necessário, sem pressa de fazer por fazer, as vezes com pausas, mas nunca parando e quando você vê já se passaram onze anos.

enema noise é uma banda muito reconhecida por um nicho, afinal de contas é uma década em atividade. Isso tudo reflete bem a ideia do que é o tal do underground: estar satisfeito em seguir criando por conta própria no seu quintal e dos amigos. Mainstream é outra história, fama, então, nem se fala.

Muito trabalho, diversão, conquistas e provavelmente muito rolê errado também. Pra contar um pouco sobre a banda, eles cederam uma entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Somos de Brasília e tocamos desde 2009, já tivemos várias formações e no momento somos eu (Rafael Lamim) e Murilo Barros. Temos alguns discos lançados: “eventos inevitáveis” (2017), “enema noise” (2016) e “manual pouco prático do desapego” (2014) e também um split chamado “Mais do Menos” com o Valdez em (2012). Antes disso também tocávamos outras músicas, em inglês.

No começo da banda as letras eram em inglês, o que fez vocês mudarem pra português?

Até 2010 por aí era muito comum na música independente você acreditar que o inglês projetaria bandas de alguma forma diferente na internet. E a gente se acostuma a achar o português difícil de encaixar em alguns estilos de som, mas quando você consegue, o resultado é sempre muito original. Depois de uns anos ficou claro que as pessoas de fora querem realmente escutar como é o português. Então é bem mais interessante mesmo. Também foi a forma de nos opormos a alguns estilos, que ficavam cada vez mais “americanizados” no momento que fizemos essa transição. Acho que hoje em dia ninguém percebe o quanto isso mudou, mas rola mais liberdade pra qualquer banda fazer o que quiser, tem público pra tudo também. Quem canta inglês é porque quer, já normatizou todas as possibilidades e isso é legal também.

Como uma banda que já lançou praticamente todos os formatos (CD, vinil, k7, etc) vocês têm alguma preferência ou sequer vêem diferença neles? (Como consumidor, a gente vai pelo gosto, né)

É muito bonito escutar o mesmo som em diferentes formatos! Até agora o lançamento mais legal de ouvir pra mim foi a fita k7 do “eventos inevitáveis” que lançamos na Ásia, pela terr records e a tenzenmen. Mas foi excelente escutar esse ultimo EP no vinil de 7” que lançamos com a Lombra Records e a Milo Recs. O Biu da Lombra tem uma máquina gravadora de vinil e fez o trabalho na nossa frente e ouvimos na hora. Além da enema noise, recentemente publiquei outro projeto musical meu (insone) em fita k7 colorida por um selo brasiliense chamado Tudo Muda Music, que lança em formatos físicos, k7 tem até aqueles mini CDs.

A formação da banda já mudou algumas vezes, mas esse é o único trabalho feito (ou só lançado?) como duo, isso influenciou a composição do novo EP?

A gente sempre foi acostumado a ter duas guitarras, compor em duas guitarras e as ideias vinham dessas segundas camadas, é como muitas bandas fazem.  Só que a gente fez isso demais e se você não quer repetir ideias, uma hora você precisa fazer algo mais complexo, acordes difíceis, aí eu acho que é quando esse estilo meio post-hardocre começa a ficar chato. Como a banda encolheu mais ainda, de 3 pra 2, secamos os instrumentos e fizemos tudo no baixo e na voz. A bateria tá ali como um ritmo acompanhando mesmo. Isso que eu e Murilo sempre compusemos mais as ideias, riffs de música, então não foi muito difícil concluir, só foi mais difícil pra mixar mesmo e preencher esse espaço. Tem mais algumas músicas gravadas nesse formato e com guitarras, só não conseguimos editar a tempo.

Vocês podem falar um pouco sobre o novo EP?

Que nem falei, cansamos de muitas guitarras e ao mesmo tempo quisemos a bateria eletrônica também. Só que sem ser “eletrônico”, usar sintetizador, industrial, etc. Então a primeira autoral que rolou foi “aquilo que já é meu” que é bem podre, sim, mas também é animada e com notas maiores, então é algo mais como Los Saicos, Screamin Jay Hawkins e Punks pra Frente. Inclusive o riff principal do baixo dessa música nós roubamos de Try a Little Tenderness da versão do Otis Redding (valeu). A outra música “hora mais fria”, tem mais influência de alguns trabalhos ambientes que mixei recentemente com o selo ANTINATURAL, os álbuns da heloísa (Surrounded by Fire / SrrnddBfr) e Malena Stefano.
Já os dois remixes surgiram porque disponibilizamos as tracks abertas do disco “eventos inevitáveis” e duas pessoas apresentaram versões ainda em 2018. Primeiro o Thiago Lourenço remixou “ordem” (e lançou num ótimo vídeo do Vinícius / Comuna Putrefata). O outro remix foi feito pelo Kleberg, que é um cara que também indicou a gente pro Anthony Phantano, um dia a gente apareceu recomendado por ele no Twitter sem saber o que estava rolando e o Kleberg se apresentou como responsável. Em seguida ele ainda nos entregou esse remix de “acabe sua banda ruim”!
Pra fechar o EP, gravamos um cover de “Bad Houses” do Big Black que foi uma das primeiras bandas esquisitas a usar bateria eletrônica e que gostamos bastante.

Já que Brasília sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Brasília mesmo sendo a capital não é distribuída igual Rio ou São Paulo. E a falta de transporte público, a lei do silêncio, associações de moradores e a polícia não dão muito espaço para a música e a vida noturna. Em 2018 e 2019 fizemos muitos eventos no Bar do Zé na 705 norte, um porão de um boteco que cabe até 60 pessoas, e esse tava sendo o nosso tipo de rolê até o começo da quarentena. Até agora já tocaram umas 100 bandas por lá, tudo entre produções independentes de amigos. Outro lugar muito massa do DF é a Esquina Preciosa no Paranoá, que organizou os Festivais de Cultura Punk também nos últimos dois anos.

Últimas considerações? Algum recado?

Vamos pensar no quanto nossas redes da música podem ser redes de solidariedade agora!
Queria também indicar outros sons empenados BR:

A discografia da enema noise está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista

Prayana

Pouca gente entendeu a campanha pra destruição musical. Fizeram do barulho um emprego, uma oportunidade, ser extremo virou mais um nicho de mercado. E aí um monte de meninos e meninas passaram a acreditar que precisavam do aval de selos, gravadoras e revistas pra existir e fazer parte da cena e a ideia do faça você mesme se perdeu.
A música punk passou a ser música autoral, as bandas agora tocam em pubs de rock com cerveja artesanal e em festivais bancados por edital de governo. Não fazemos mais por nós mesmes e a gente se contenta em comprar meia com logo de banda porque em algum momento isso fez mais sentido do que toda uma cultura política que o punk nos mostrou.
Destruir a música não é tocar o mais rápido e mais alto que conseguir, há uma indústria inteira pronta pra transformar tudo isso em tag, te dar um posto de artista, mudar toda a sua relação com o que você cria. Destruir a música é buscar autonomia, é torná-la subversiva de novo. É entender como funciona a estrutura de ídolos, estrelismos e mandar esses artistas punks pra merda. Destruir a música é desacreditar na própria música, ela não é o motivo porque estamos aqui juntes.
Nós somos mais do que tudo isso, criamos laços e relações que nunca tivemos, compartilhamos da mesma vontade de ser o que somos porque o punk nos permite viver por nós e não há indústria alguma que vai dizer o que devemos fazer.
A anti-música permanece mais viva do que sua cena de música morta.
E vamos até o fim com isso!

Esse é o manifesto que a Prayana lê em seus shows. Banda de Noisecore formada em 2017 por Bia (guitarra e vocal), Thais (baixo) e Fernando (bateria) em Vitória – ES.

Anti-música é um conceito novo pra mim, a primeira vez que ouvi falar disso foi em 2014 ou 2015 num festival com bandas de crust, grind, noise, etc, que na época eu não era muito familiarizada. A banda de antimúsica fazia muita barulheira, o vocalista ficava de costas pro público e eles constantemente mudam de nome, tanto que eu não sei o nome da banda.

Eu não sei se isso é a mesma coisa que noisecore, mas parece que quando uma banda se identifica com anti-música ela tem um discurso muito maior. A Prayana é isso.

Quando eu conheci a banda fiquei curiosa com essa coisa toda e pedi pra eles uma entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Então, a Prayana surgiu como um projeto de Noise em 2017 comigo (Bia) na guitarra e na voz, e com o Nando, na bateria. A princípio a ideia era fazer um noise bem cru mesmo, na doideira de não saber tocar nada e fazendo o som que a gente gosta com o que a gente tinha (bateria, guitarra e voz). Com o tempo a gente foi ficando bom em tocar essa doideira, fomos encaixando letras e tudo foi tomando mais corpo e, pra gente, ficando cada vez melhor. Pensamos então em complementar a barulheira com alguém tocando baixo. Daí surgiu a ideia de chamar nossa amiga Thais, que faz a formação que a gente é hoje, completando dois anos de Prayana, com alguns shows bem legais, outros muito malucos haha.

Não faz sentido perguntar por que uma banda toca certo gênero musical, mas noisecore, antimúsica é mais um conceito, né? Tinha algo a mais que vocês queriam expressar?

A gente sempre ouviu barulho, mas a ideia de que existia uma comunidade grande noisecore é bem nova pra gente (e não é, vem lá do final de 80). Esse lance de antimúsica é muito doido porque a gente encontra no Lärm, mas também nas bandas anarcopunks do Brasil. Vimos o documentário da Marina Knup esses dias e tem uma fala bem assim, de ter banda como expressão, de não se importar com melodia ou ritmo. Acho que antimúsica é algo bem grandioso, questiona essa ideia besta de que precisamos ser artistas pra montar banda, que precisamos dominar um instrumento pra fazer um som. E mais, traz o faça você mesma de volta pro punk, às vezes a gente vê o D.I.Y. se perdendo e cada vez mais gente achando que isso é sobre fama, status e ter espaço em algum mercado musical. Aqui é punk, galera!
E foi aí que a gente se aproximou do noisecore, aqui ele é total façavocêmesma, as bandas ainda trocam materiais, tem uma união incrível e zero competição. Mesmo a gente morando longe das bandas noisecore que a gente gosta, ficamos muito felizes de muita gente abraçar a Prayana, chamar pra fazer Split e essas coisas. Muita gente ainda ignora que existimos, mas estamos aí, gravando, lançando material e organizando nossos shows. No dia que não fizer mais sentido, a gente para.

Vocês participaram de vários Splits, 4ways e etc. Tem alguma razão pela preferência do formato ou é só gosto mesmo?

Fazer junto é bem mais legal, não tem a ver com o formato em si, é mais sobre envolver pessoas. Como já fazemos tudo por nós mesmas, convidar pessoas pra fazer também, seja do outro lado do mundo ou em uma cidade perto, faz a coisa ser menos individual e mais coletiva. Principalmente numa cena onde uma ajuda a outra, onde as pessoas tem a mesma forma de fazer as coisas. Fazendo Splits a gente acaba se aproximando bastante das bandas irmãs, isso é incrível. E sempre que pode a gente sai um pouco dessa coisa de lançar em internet, é legal ter a sensação de que muita gente pode ouvir o que você lançou, mas às vezes fica só na sensação mesmo, porque tá lá no Youtube mas ninguém se dá o trabalho de apertar o botão. Então a gente faz CDr, minicd, k7 e distribui no círculo de pessoas que se interessam, que perguntam, que pedem. E assim vai.

Como é o processo de gravação de vocês já que vocês não costumam gravar em estúdio? Por que a decisão de fazer tudo vocês mesmos (literalmente D.I.Y.)?

É tudo referência mesmo. Começamos a banda por causa do Purenoise e ela tem umas gravações bem caseiras. Se você pegar a maioria das bandas é nessa linha. E é lindo, é como a gente quer soar. Gravamos muita coisa pelo celular. A primeira demo foi a mais caótica haha. Aos poucos fomos experimentando gravar os instrumentos separados e depois juntar em algum programa baixado no Superdownloads haha. Mas tudo pelo celular, funciona muito bem. O último Split com a Ruidosa Inconformidad gravamos em casa, mas aí já foi com microfone. Mas é isso, nós por nós. O Bonadio não gosta, o poser HC profissional também não, mas quem liga.

Essa pergunta tá ficando cansativa, mas ainda é necessária: a cena tem mudado demais nos últimos anos, como andam as coisas em Vitória?

Acho que igual em todos os lugares. Tem banda nova, tem banda velha voltando. Tem espaços legais surgindo, tem pub criando nicho com banda Punk, tem o Underground e tem empresários. Tem banda de mina foda, tem gente se organizando e fazendo as coisas. A eleição do Bolsonaro e tudo que trouxe isso alimentou um lance no Brasil todo, eu acho. A necessidade de estar juntas e se expressar é muito grande.

Últimas considerações? Algum recado?

Obrigada pela entrevista! A gente lançou um Split com a Ruidosa Inconformidad, do Chile, num mincd muito lindo, com arte foda da Emilly Bonna. Quem tiver a fim, só escrever que a gente manda. E é isso, mantenha sua cena política, sempre. Na forma de fazer e de se relacionar com as pessoas no meio. Criem e mantenham espaços seguros pra todas nós.

Ouça Prayana no Bandcamp: