Bus Ride Notes

Posts tagged post punk

Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.


Resenha

VEM AÍ!, parte 2 – O que é pre-save e porque usar!

Dado ao enorme sucesso (rs) da primeira matéria sobre lançamentos, resolvemos fazer uma segunda parte!

Tendo em vista várias novidades pipocando por aí, queria trazer um pouco de conteúdo e falar sobre pré-save, direcionando o papo à galera das bandas. Quase ninguém usa essa isso em terras brasilis.

– Ô seu doido, mas que diabos é pré-save?

É uma ferramenta que permite que seu público, vulgo seus fãs, incluam as músicas em suas bibliotecas/playlists antes da data oficial de lançamento, tendo acesso às músicas logo nos primeiros segundos em que estiverem disponíveis.
E por que motivos você deveria usá-la? Vamos lá:

  • Chama atenção dos ouvintes, criando expectativas e aumentando o engajamento do seu trabalho – antes mesmo de ser publicado.
  • Você pode aproveitar a oportunidade para publicar um teaser, seja um trecho da música ou videoclipe, e/ou também a pré-venda ou anúncio de novos merchs.
  • Reforçando o engajamento, o algoritmo do streaming vai ~crescer o olho pra cima de você, o que aumenta a possibilidade de conseguir adentrar as grandes playlists editoriais das plataformas – exponencialmente te levando a um possível número de maior de ouvintes. (Importante: estou falando de hipóteses, não é uma garantia!)
  • Ok, há poucos dias fomos informados sobre o vazamento de dados de milhões de pessoas no Brasil. Então é preciso ser cauteloso nessa parte. É que o pré-save serve também pra você coletar dados sobre seu público, como localização, faixa etária… te permitindo direcionar melhor sua comunicação. Às vezes rola até endereço de email, que pode se tornar um mailing de newsletter. Mais importante ainda: NÃO SEJA CUZÃO, NÃO VAZE OS DADOS DE NINGUÉM!
  • E você, caro/a ouvinte, se por acaso vir suas bandas preferidas soltando um pré-save: FAÇA-O! Isso ajuda muito mais do que pode imaginar.

Sua distribuidora de música certamente oferece a possibilidade de um pré-salvamento. Vale a pena dar uma conferida .


Dito tudo isso, hora do esquenta pros pré-saves todos:

Autoclismo
Diretamente de Teresina/PI, o trio instrumental vai lançar seu novo EP, “Tetra”, no próximo dia 23. E, eba!, tem pré-save, que você pode fazer aqui. Acompanhe a Autoclismo pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Californicks
A rapaziada do hardcore melódico de Mauá/SP tem publicado há algumas semanas os bastidores da gravação de seu novo material. Seu último trabalho foi o EP “Por Todos Nós”, de 2018. Acompanhe a Californicks pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Charlotte Matou um Cara
No último post, a gente chutou e fez gol! Só atualizando mesmo, Charlotte anunciou seu novo disco, “Atentas”, que está em fase de financiamento coletivo – e você pode contribuir aqui.

Família Estranha
Fugindo um pouco da curva (até pros padrões do Busão), Família Estranha é uma banda londrinense influenciada por música brasileira, latina e bluegrass (!), que tem a rua como seu palco principal. Estão com campanha de financiamento coletivo pro seu primeiro disco, “Toda Família Merece um Álbum” – e você pode contribuir aqui. Acompanhe a Família Estranha pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Join the Dance
Depois de soltar o single “The Sun” ano passado, os cariocas de hardcore melódico skate delicinha entraram em estúdio semana passada novamente. Aguardemos! Acompanhe a Join the Dance pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Kattana OCK
Duo de horror punk, baixo+bateria, estão em fase de gravação de seu material de estreia. Dá pra dar um confere nesse áudio aqui que o trem vai ser doido! Acompanhe a Kattana OCK pelo Instagram.

Medrado
Parece que vem coisa nova por aí nos versos do Medrado, que tem lançado vários singles. Um EP em parceria com o produtor An_Tnio tem previsão para ser lançado nos próximos meses. Acompanhe o trabalho do rapper pelo Instagram, Soundcloud e Spotify.

Numbomb
O trio de crust/grindcore de Brasília-via-Lisboa não terá só um, como dois lançamentos em breve: seu primeiro álbum e também um split com a Nekkrofuneral. Acompanhe a Numbomb pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Paranoia Bomb
Projeto recente de veteranos da cena punk rocker brasiliense (Firstations, Dissonicos, Caos Lúdico, Conteste!, Nada em Vão), o supergrupo traz também influências do country e do folk. Incansáveis, estão estúdio gravando o sucessor do EP “É Hora de Ir”, de 2020. Acompanhe a Paranoia Bomb pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Personas
No fim do último mês, os jovens do rock triste lançaram o single “E Eu Me Desespero Facilmente”, que dita o tom de seu próximo EP. Acompanhe a Personas pelo Instagram, Facebook e Spotify.

SLVDR
Faz bem uns 5 anos que saiu o excelente “Presença”, e dentro em breve tem novidades também! Se você curte uma fritação instrumental, fica de olho! Acompanhe a SLVDR pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Signo 13
Há quase 10 anos na estrada, vários EPs e coletâneas na bagagem, a banda pós-punk do DF lançou seu primeiro álbum “Serpentário” num formato inusitado: soltando cada faixa como single, mensalmente, entre setembro de 2019 e outubro de 2020. E trarão mais novidades em breve! Acompanhe a Signo 13 pelo Instagram, Facebook e Spotify.

coletânea Coletivo Lança
O coletivo ainda prepara pra se lançar oficialmente em breve, com um evento online. Mas já nos adiantou sobre sua primeira atividade: uma coletânea (ainda sem nome), que tem confirmada as presenças de nomezassos como Loyal Gun, Hayz, Trash No Star, Letty, Drowned Men, Fragmentos Urbanos e Gomalakka, com músicas inéditas, será lançada no primeiro semestre. Como ainda não temos links oficiais, fica de olho nas bandas pra acompanhar!

coletânea Território Antifa
Produzida pela produtora Casa Sonora, várias bandas antifas da região metropolitana de Porto Alegre se reúnem nessa coletânea que promete! Todas entrarão com duas músicas inéditas. Alguns nomes confirmados: Lo que Te Voy a Decir (AMO!), Pupilas Dilatadas, Cine Baltimore e Punkzilla. Acompanhe a Casa Sonora pelo Instagram e Facebook.


Por hoje é isso! Espero que esse amontoado de palavras e links tenha sido útil pra você. Acredito que não faremos uma parte 3 sobre lançamentos futuros, mas pode mandar sua pauta no busridenoteszine@gmail.com. Sextou!

Playlist

VEM AÍ – O que esperar de lançamentos para 2021?

Não sei você, mas pessoalmente tenho pequenas crises de ansiedade às quintas-feiras, antecedendo o Radar de Novidades do Spotify da sexta. Já faz parte da minha rotina – inclusive, minha playlist do ano de 2021 tá rolando. Pra dar uma amenizada nisso, costumo organizar uma lista do que tá pra sair, até pra não acabar esquecendo.

Ano passado tivemos uma baixa considerável no âmbito de lançamentos. Não preciso entrar nos méritos de dificuldades pandêmicas e etc., né? Foi e ainda tá foda pra todo mundo. Mas precisamos apoiar quem teve e tem condições de trabalhar de forma segura nesse período. E também esperar que todo mundo retome as atividades, o mais breve possível <3

Enquanto isso, bati um papo com contatinhos de bandas e selos nacionais, e abaixo elenco alguns lançamentos confirmados, previstos ou mesmo especulados – a esperança é a última que morre. Pega seu café e vem comigo!


A Trip to Forget Someone
Poucas semanas depois de publicar o single “Portão 14”, em setembro passado, a banda instrumental de Belém/PA anunciou a gravação de uma nova música, que ainda não saiu. Será que agora vai? Acompanhe A Trip to Forget Someone pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Agreste – Super Abalada (EP)
O trio belorizontino formado por remanescentes da amada Miêta soltou o (viciante) single “Cíclica em agosto passado. Podemos concluir ou presumir que, a qualquer momento, saia o EP completo? Acompanhe a Agreste pelo Instagram e Spotify.

The Biggs
Os últimos singles, “Breech Delivery” e “(Battle)Fields” saíram em 2015. Numa live recente, apresentaram uma música nova, “See You”. Será que podemos esperar mais novidades pra esse ano? Tá na hora né? Afinal o último álbum saiu há longos 12 anos… Acompanhe o Biggs pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Charlotte Matou um Cara
Nada oficial, mas algumas músicas inéditas (como “Lembrar Para Não Repetir” e “Farsantes Com a Bíblia na Mão”) foram apresentadas em shows passados e lives no último ano. Podemos sonhar com uma tão esperada voadora na cara como foi o disco homônimo de 2017? Acompanhe a Charlotte pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Deadtrack
Meus queridos crust punk metal brabo de Uberlândia estão em fase de gravação do material novo, sucessor do disco pedrada “Rupture”. Ainda sem data prevista de lançamento. Acompanhe a Deadtrack pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Enema Noise
Trabalhando em um novo EP de remixes e versões de músicas antigas, já tendo como uma prévia “Bayer + Monsanto” (an_tnio remix), a incansável e barulhenta banda candanga logo menos tem novidades – prevista pra esse primeiro semestre. Vem na sequência do EP “Aquilo que já é meu/ Hora mais fria”, que também saiu em vinil 7″. Acompanhe a Enema pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Escolta
O quarteto de rap metal brasiliense começou a gravar o novo material há poucos dias. Os shows do disco “Efeito Moral” foram incríveis, super energéticos. Que continue nessa pegada! Acompanhe a Escolta pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Eskröta – Vida Artificial (single)
Poucos meses após o discasso “Cenas Brutais”, a Eskröta retorna com um novo single, disponível no dia 28, próxima quinta! Acompanhe a Eskröta pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Gagged
Chegando em seu 17º (!) ano de estrada, os interioranos da Gagged estão em fase de composição com uma nova formação e (alerta de spoiler) preparando várias novidades. Seu último trabalho foi o disco “Sobre Nós”, de 2018 – veja o clipe de “Cidade Sem Lugar”. Acompanhe a Gagged pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Hayz
Com a possibilidade de gravar em casa, como foi o caso do excelente single “A Soma de Todos os Medos”, lançado há pouco mais de dois meses, seria correto supor que vem mais coisa por aí em breve? Por favor, nunca te pedi nada! <3 Acompanhe a Hayz pelo Instagram, Facebook e Spotify.

In Venus – Sintoma (álbum)
Com o belíssimo clipe do single Ansiedade, o quarteto pós-punk anunciou seu novo disco, Sintoma – com vinil já em pré-venda. Acompanhe a In Venus pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Jova – Nada é Fixo (EP)
O artista de Belford Roxo/RJ lançou em 2020 seu primeiro EP, “Músicas Para Ouvir Perdido na Floresta” e o segundo EP de Jova, “Nada é Fixo”, que será lançado dia 29 de janeiro já tem pré-save. Embalado pela pandemia de Covid-19, ele traz como temas situações com as quais fomos obrigados a lidar por causa do isolamento social. Acompanhe Jova pelo Instagram e Spotify.

La Burca – Desaforo (álbum)
Organizei uma minitour do lançamento do último disco, “Kurious Eyes”, em 2016 aqui pelo cerrado (DF e Goiânia). Portanto, “Desaforo” é muito esperado! Já tem um single instrumental, também chamado “Desaforo”, rolando por aí – e o disco vai sair em vinil! Acompanhe a La Burca pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Manger Cadavre?
Uma das mais ativas, prolíficas e turnêzantes bandas da última década, também está com nova formação e postou recentemente que logo terão novidades. Aguardamos o que vem em sequência do excelente disco “AntiAutoAjuda” (2019). Acompanhe a Manger Cadavre? pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Movva – Depois da Tempestade (EP)
Meus meninos da nova geração do hardcore de Jaboticabal/SP terminaram recentemente a gravação de seu EP de estreia. Já experientes na cena do interior, lançaram o single “Alento” ano passado como uma prévia do que está por vir. Acompanhe a Movva pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Naja White – desabafEMOs (EP)
Depois da estreia com o single O emo tá de volta em 2020, a drag queen revelação do emo nacional se prepara para lançar o primeiro EP. Disponível no próximo dia 29, sexta – e já tem como prévia as faixas “Pontes” e “Vida de Adulto”. Acompanhe Naja White pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Nada em Vão
Os bonitos do punk rock melódico delicinha brasiliense começaram a gravar seu primeiro álbum, dois anos após o último single, “Chegou a Hora”. Porém como nem tudo são flores, precisaram dar uma pausa enquanto o baixista César se recupera de dois braços quebrados. Acompanhe a Nada em Vão pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Paciente Anônimo
Dividi palco com eles em 2019 e olha, que sonzeira! Esperam entrar em estúdio nos próximos meses para registrar seu primeiro material. Acompanhe a Paciente Anônimo pelo Instagram.

Saving Lipe
Projeto solo de rock noventista do jovem Felipe Casquet, baterista da Casquetaria, em que ele assume todos os instrumentos e vocais. O single If I Had to Stay Alone já está disponível, e é uma prévia do EP homônimo previsto pra esse primeiro semestre de 2021. Acompanhe a Saving Lipe pelo Instagram e Spotify.

Trash No Star
Já tem alguns meses que tem um destaque no Instagram da banda indicando que rolou uma gravação… então cedo ou tarde vai pipocar por aí a sequência riot garageira do maravilhoso Stay Creepy (No) Summer Hits, de 2014. Acompanhe a Trash pelo Instagram, Facebook e Spotify.


ENFIM! É isto, amiguinhes. A lista não é muito longa se colocarmos em perspectiva tudo que acontece nesse Brasilzão véio sem porteira. O conteúdo dela se restringe à minha humilde bolha existencial. Se não conhece as bandas citadas, vale a pena ir atrás! E caso saiba de mais próximos ou possíveis lançamentos, manda pra gente no busridenoteszine@gmail.com. Quem sabe não sai uma parte 2?

Nota: Estamos com problemas nos links. Nesse post, estão todos em negrito. #AJUDALUSIANO


Resenha

Crasso Sinestésico – Eco

Formada em 2014 em Bom Jesus Dos Perdões, SP, por Diego Fernandes (guitarra, vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria, vocal), Crasso Sinestésico é um duo que toca noise rock, lo-fi, meio garage, meio pós punk.

Em novembro de 2020 eles lançaram seu novo EP, “Eco”, gravado ao vivo em novembro, mixado e masterizado no Estúdio Quadrophenia por Sandro Garcia.

“Eco” tem a sonoridade característica da banda, mas busca também a essência do rock psicodélico e da música brasileira. Mais especificamente é influenciado por Clube da Esquina, Lô Borges, Novos Baianos, Momento 68, Continental Combo, The Beatles e The Velvet Underground.

“As canções retratam a sensação de impotência, elas imprimem não só o período em que vivemos, mas também a atual situação política na qual nos encontramos sitiados”, diz Diego Fernandes.

“Nostalgia” o nome já diz tudo, “Nostalgia do tempo tardio que habita escondido na memória encardida, no limbo da vida”.

“Hospital dos Esquecidos” aborda o descaso e desumanidade nos manicômios (ou hospícios), hospitais psiquiátricos muito populares no século 20.

Segundo o dicionário, ‘diáspora’ significa “dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica” e é disso que se trata a música “Diáspora”, “um vórtice que pega dos remotos tempos até nossa triste atualidade”.

“B.B. King” fala sobre a morte, “Como se deparar com ela e nem ao menos duvidar”.

O disco termina com a instrumental, “Eco”, “O mito de Eco revela que a pior prisão é aquela em que o ser humano não pode expressar o que pensa ou o que sente; é a tortura de conviver com seus pensamentos e sentimentos presos pelo medo ou pelas convenções ameaçadoras”.

“Eco” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Messias Empalado – O Evangelho dos Tempos de Ódio

O nome da banda, Messias Empalado, e do disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”, já diz muito, a descrição “banda LGBTQ formada em 2017 [em São Paulo] com temática anti-cristã, anti-fundamentalismo religioso, contra toda opressão social”, diz ainda mais.

Messias Empalado é Vee Wayward (voz), Gustavo Knup (baixo e voz), Karine Profana (teclado) e Letícia Figueiredo (bateria). Em fevereiro de 2020 lançaram seu primeiro disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”.

Ainda segundo a banda, “a força de nossa criação é a blasfêmia, que de maneira alguma é um discurso de ódio ou intolerância religiosa, é tão somente reação contra os representantes religiosos que usam suas crenças e seus interesses pra nos condenar, criar leis pra deixar nossa vida ainda mais à margem e a mercê de todo tipo de exclusões e agressões”.

Estamos mesmo vivendo em tempos de ódio incitado por certos religiosos e isso é um perigo real pra maioria de nós (inclusive pra quem não se sente marginalizado), por isso sinto um certo alívio vendo uma banda falar dedicadamente sobre o assunto. Parece que é algo que quase ninguém dá a devida atenção (talvez isso seja só na minha bolha), ao mesmo tempo em que existe a angústia de “como deixamos chegar a esse ponto?”.

“Sangue de Jesus tem poder. Poder de nos dividir, poder de nos odiar, poder de nos discriminar, poder de nos execrar”.

O som nos remete à estética clássica de igreja, muitas vezes com órgão e canto lírico, é bem dark wave e industrial. A banda também cita como influências EBM, post punk e noise.

“O Messias tão esperado caiu. Reprovou os atos dos líderes, religiões sob sua mortalha, templos de exploração da fé”.

Em 2019 vi um show da banda e minha amiga disse “gostei e não gostei“. Depois de ouvir o disco e entender melhor as letras, eu acho que essa reação é proposital, a banda busca a reação de choque e as vezes um certo repúdio.

“Enforquem os pastores nas tripas dos senhores, cortem as cabeças da Santa Inquisição. Cuspimos em seu livro de abominação” é uma frase bem gráfica (assim como a maioria das literaturas sobre religião organizada).

“Bolsonazi” é a música que resume o disco, ela faz referência a um dos líderes que incita todo esse ódio e violência.

“O sangue tá nas suas mãos, não adianta tentar se esconder… Suas palavras são cheias de ódio. Autoritário, chefe de milícia. Bolsonazi, assassino de viado, Bolsonazi, higienista do caralho, Bolsonazi, tirou os fachos do armário”.

E falando em Bolsonazi, nos shows de bandas com letras políticas sempre rola um grito de “Bolsonaro, vai tomar no cu!” e no show da Messias Empalado, Vee nos ensinou que não devemos desejar coisa boa pra gente ruim. É sempre bom lembrar.

“O Evangelho dos Tempos de Ódio” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Neon Dharmas – Cavalos Selvagens

Neon Dharmas é uma banda de “pós-punk doidão do Rio de Janeiro/Niterói”. Formada em 2017 por Rafael Trevisani (guitarra e voz), Helder Martins (baixo e voz) e Alberto “Tie Dye” (bateria).

Em julho de 2017 eles lançaram o “EP #1” e em Novembro de 2019 lançaram o primeiro disco da banda, “Cavalos Selvagens”. O disco conta com a regravação das cinco músicas do EP e mais seis músicas inéditas. Ele foi lançado online e em K7 pela Oxenti Records.

Dharma, ou darma, é um conceito-chave com múltiplos significados nas religiões indianas. Na minha pesquisa na internet (posso tar errada, me corrijam, por favor) o significado mais amplo e atual disso é: aquilo que mantém elevado. Também é entendido como a missão de vida, o que a pessoa veio para fazer no mundo. “O Dharma budista diz respeito aos ensinamentos do Buddha Gautama, e é uma espécie de guia para a pessoa alcançar a verdade e a compreensão da vida. Pode ser chamado também de ‘lei natural’ ou ‘lei cósmica'”.

Dito isso, quando vi o nome da banda já pensei na maior viagem.

A banda faz letras poéticas e sem amarras, diferente da fala mais direta (tentar ser direto é uma amarra) que eu me acostumei a ouvir nos últimos anos, tanto em letras políticas quanto em puro sentimentalismo. Me fez lembrar de muita coisa que eu ouvia a uns anos atrás.

Isso embalado por um pós-punk meio garage bem lo-fi vira mesmo uma viagem. A capa do disco (por Emerson Folharini) também ajuda a passar essa impressão: uma colagem com cavalos, soldados, multidões, um mapa e a frase “Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado” em um fundo rosa claro com o nome da banda e do disco.

As músicas falam de tudo um pouco, a capa do disco e a faixa que dá nome a ele deixam bem claro que há bastante política aqui, “Lutando por igualdade, contra o ódio e repressão. Cavalos selvagens são gritos da revolução”.

“Gosto de Morte”, com um título bem literal, fala sobre veganismo.

Várias músicas do disco falam sobre um anseio por liberdade “Órfãos da destruição, não vamos nos ajoelhar. Vejo dentro dos seus olhos quem nos traz a mentira. Vejo dentro dos seus olhos quem quer nos controlar”.

Mas a maioria é meio pessimista e fala sobre frustrações. Pós-punk, né?
“Tentando achar caminhos e respostas, vivemos na escuridão, nosso ciclo se fechou”.

Em Setembro de 2020 eles lançaram o primeiro clipe da banda, da música “Cavalos Selvagens”, feito por Leonardo Mariani.

Assim como a capa do disco, o clipe é uma colagem (uma imagem em cima da outra) de imagens da banda ao vivo, cavalos em campos e manifestações da época da ditadura. “Em memória de Carlos Barroso, Walmir Monteiro e William Leite. Eles também foram cavalos selvagens”.

E em 13 de Novembro de 2020 a banda lançou um novo single, “O Vazio”.

“Cavalos Selvagens” está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista

Entrevista: Cama Rosa Gruta

Em agosto de 2018, no Caffeine Studio, São Paulo, algo começava a ser gerado. Bruno Trchnmm e Cindy Lensi (Cama Rosa) passaram pela cidade e toparam com Analena Toku (Gruta), o resultado desse encontro nós só veríamos dois anos depois. Já dá pra adiantar aqui que valeu a pena a espera.

É interessante pensar nesse espaço entre esse encontro e o fruto dele, é como se o próprio tempo tivesse um papel importante no resultado final tanto quanto o ato de compor e tocar. E o tempo mexe com a gente. Nesse caso, de tanto mexer com os três, em 1 de outubro de 2020, saiu o EP “Cama Rosa Gruta”.

O álbum, mixado e masterizado por Juliana R., conta com quatro faixas: Vértice Osso Jade; Cipó Ouriço Beat; Passo Cravo Cipó; Melancia Vapor Cigarro. Tão abstrato quanto os nomes das faixas denunciam, no Bandcamp o álbum é definido como um caleidoscópio vivo, um animal que se move mas deixa um rastro de imagens coloridas, um rastro que tem mais de dois anos de metamorfoses antes de se cristalizar, e até mesmo como uma explosão em câmera lenta.

Pra olhar um pouco mais de perto esse caleidoscópio ambulante que, após tanto tempo se cristalizando, agora explode lentamente, convidamos os envolvidos na obra para uma entrevista. Confira:

Primeiramente, como estão nessa quarentena? Todos saudáveis?

Anelena Toku: Por aqui tudo sempre na linha entre estar “bem”, ter a possibilidade de ficar em casa e ao mesmo tempo sentindo todas as sensações que vem com esse momento tão crítico e com tantos acontecimentos que nos revoltam.

Cindy Lensi: Tudo bem, sim. No começo da pandemia estava tenso, um ar denso que impregnou o dia-a-dia com nóias e incertezas. Agora estou me sentindo um pouco mais tranquila, e conseguindo pensar com mais clareza.

Bruno Trchnmm: Eu sou professor da rede municipal aqui em Campinas e tenho um filho de 6 anos, então por aqui a quarentena tem alguns tons particulares de desespero . Mas não dá pra reclamar não, pelo menos podemos trabalhar em casa.

Como surgiu a ideia do EP? Por que as duas bandas decidiram trabalhar juntas?

Anelena: Esse encontro foi bem espontâneo, aproveitando uma vinda da Cindy e do Bruno pra São Paulo, marcamos essa sessão no estúdio. A gente já tinha vontade de produzir algo junto. A uns anos atrás eu já tinha gravado um som chamado “Ruínas” com uns samples de guitarra do Bruno. No início de tudo, Gruta era só guitarra/violão e voz, depois fui fazendo mais coisas com eletrônicos e deixei a guitarra, então esse reencontro com as guitarras foi ótimo.

Cindy: Já tínhamos ouvido alguns sons da Anelena (Gruta) e também já vimos ao vivo uma apresentação do Fronte Violeta (Anelena Toku e Carla Boregas). Achamos muito legal. Foi o Bruno quem deu a ideia de convidá-la, e quando um dia estávamos indo tocar em São Paulo no Hotel Bar, isso em Agosto de 2018, fizemos o convite para gravarmos um improviso juntos lá no estúdio Caffeine no mesmo dia. A Anelena topou e assim surgiu o EP. Só tivemos noção melhor do som quando ouvimos depois mesmo. Esse ano convidamos a Juliana R. para fazer a mixagem do disco, então na verdade esse disco foi construído por quatro pessoas.

Bruno: Tem muito o lance de que o meio que a gente circula mistura muitas dessas abordagens de som, o noise, o improviso livre, a música eletrônica, performance… meio que tudo ao mesmo tempo. Então apesar de ser um percurso estranho, é muito natural porque tem um pouco desse trânsito: a gente gravou um improviso totalmente livre sem combinar nada, e depois trabalhou nesse som fazendo umas colagens, que é meio que o modo de trabalho da música eletrônica. Depois a Anelena gravou as vozes, que trazem pra mais perto de um tipo de canção, mesmo que abstrata.

Fronte Violeta

Como foi o processo de gravação? O que vocês buscavam transmitir durante as sessões?

Anelena: Foi tudo bem rápido, a base do disco foi gravada em uma sessão de improviso. Ali a gente passou por vários processos ao mesmo tempo, de cada um achar seu espaço no som, testar os timbres e como eles se relacionam. Depois disso o Bruno ainda mexeu nas faixas e foi inserindo mais coisas e revelando as músicas no meio desse material. Esse ano resolvemos finalizar e eu gravei umas vozes pra compor com os eletrônicos e guitarras.

Cindy: Quando buscamos colaborar com alguém, nunca damos nenhum direcionamento. A ideia é deixar acontecer na hora. Nunca dá errado, é incrível haha. Isso que é legal de improvisar. Talvez no começo, sei lá, leva uma meia hora pra nos encaixarmos todos no som, mas depois ficamos bem conectados, tanto que as vezes eu acho até legal dar uma “desconectada” no processo, começar algo sonoramente diferente do que já estava acontecendo. Acho que nesse EP “Cama Rosa Gruta” aconteceu isso, tanto que foram criadas quatro faixas nele, cada uma com sua forma, sem muito destoar uma da outra ao mesmo tempo. O EP acabou ficando com um desenho bastante orgânico, me remete a coisas naturais como estalactites, lavas e ao mesmo tempo tem uns samples de jazz que deixam com uma cara bem única. Também tem presença de linhas vocais, que até então não tínhamos colocado. Cada vez que eu ouço um pouquinho mais, se transforma em outra coisa, outras imagens ou outros tempos talvez.

As gravações ocorreram em 2018, certo? Qual o motivo de ter demorado dois anos para serem lançadas?

Anelena: Talvez esse tempo tenha servido para maturar os sons. Acho que a gente que costuma gravar sessões de improviso com as pessoas, o que mais temos é faixas e mais faixas gravadas de diversas épocas. Quando eles falaram que estavam retomando foi uma surpresa boa. A gente voltou a mexer nesse material em Março desse ano, então de lá até Outubro ainda foram alguns meses de atenção pra tudo isso. Pra mim ouvir gravações de outros tempos sempre traz uma nostalgia, porque o som também cria nossas memórias, mas também coloca a gente pra perceber o que tá ali com uma outra escuta. A primeiras vezes que eu ouvi as gravações de 2018, eu tive a sensação de estar diante de um horizonte distante, olhando por um binóculo, e quando gravei as vozes esse ano, eu sinto que estava tentando trazer esse horizonte pra mais perto, para o agora.

Cindy: Demoramos porque naquele mesmo ano começamos tocar bastante nos lugares e também precisávamos juntar um dinheiro talvez, além de outros contratempos da vida pessoal, mas rolou. Queríamos que uma pessoa mixasse pra gente com carinho, pois não temos essa habilidade. Esse ano por mais difícil que está sendo por conta da pandemia, coincidiu de dar certo a continuidade desse material.

Bruno: É aquela coisa também, o nosso tempo pra trabalhar em música é sempre o tempo da sobra, geralmente. Tem trabalho, casa pra limpar, coisa pra estudar. Então tem que se acostumar com a ideia de que as coisas vão se estender no tempo, porque no momento é a única forma que elas podem sobreviver. A gente tem aqui uma ideia muito fixa que ser artista é viver de arte, o que é uma farsa, porque a maior parte de quem produz arte (no mundo inteiro, inclusive), não vive de arte. Mas mesmo assim produz. Esse método de trabalho, inclusive, de lidar com improviso, colagem, tem a ver com esse tempo que sobra. É uma forma de trabalho que, apesar de soar ou parecer meio “torta”, é muito dócil a esse tempo do dia-a-dia, sabe? É uma forma de fazer música que entende quando você chega cansado do trabalho ou só tem tempo livre no final de semana.

Cama Rosa

De onde surgiram os nomes para cada faixa?

Anelena: Pra mim as músicas todas me trazem uma sensação de trilha sonora, me remete a muitas imagens. Ao mesmo tempo são imagens bem abstratas, fluídas e não lineares. Como se o sentido delas fosse construído a partir de uma organização própria. Essa ideia de cada um sugerir uma palavra pra cada som surgiu um pouco disso, de serem nomes que trouxessem mais uma sensação do que nomear propriamente a música.

Cindy: Para dar um contexto para entender esses nomes – no nosso Bandcamp tem o registro de todas as nossas improvisações que gravamos. Colocamos duas faixas e damos dois nomes para cada uma, por exemplo “Hibisco/Navalha”. A escolha desses nomes são mais aleatórias, em uma vibe parecida com um jogo de palavras, tipo aqueles exercícios de automatismo que os surrealistas usavam, mas nada profundo. Em algum nível nosso som surge na mesma maneira em que nossas palavras surgem ou vice versa. A gente decidiu (por grupo no Whatsapp) que seria legal para o EP “Cama Rosa Gruta” usar três palavras dessa vez para cada faixa, já que somos em três. Foi interessante, teve até palavra que repetiu e deixamos. As palavras foram; vértice osso jade — cipó ouriço beat — passo cravo cipó — melancia vapor cigarro.

 O que vocês buscaram fazer de diferente em relação à uma gravação “tradicional”?

Anelena: Acho que meus processos de gravação com Gruta sempre foram zero tradicionais, sempre gravando do jeito mais caseiro possível porque era como eu tinha como fazer. E foi assim com as vozes que gravei. Somado a isso, toda a troca de arquivos e comunicação durante um início de quarentena/pandemia com certeza marcaram essa gravação. Acho que outra parte do processo importante foi a mixagem e masterização que a Juliana R. realizou. Foi importante ter alguém de fora, mas ao mesmo tempo que nos conhece bastante pra desenhar a forma que isso teria.

Cindy: Boa pergunta, pois eu não acho que a gente fuja da gravação tradicional. Inclusive a maioria de nossas gravações são bem lo-fi. E nesse a gente gravou em estúdio, para seguir a tradição. Mas a gente sempre dá uma mexidinha aqui e ali depois que estamos com o material.

Bruno: A gente faz o que pode com o que pode né haha. A gente gravou essa sessão em um esquema de “ensaio gravado”, que é uma gravação ao vivo bem simples. Essa sessão depois ficou comigo e eu aos poucos fui editando o que pareciam as partes mais legais, cortando uns trechos, montando uns loops com partes mais bacanas. Eu cheguei até a achar que perdi esse disco uma vez, quando meu PC pifou. Esse ano, no choque do começo da quarentena eu peguei pra ouvir essas faixas, dei uma mexida última e parece bem legal. Coloquei os samples (um do Sun Ra e de uma videoaula de bateria ensinando a levada do Elvin Jones haha) , só que feito do meu jeito, muito tosco. Então a gente mandou para a Juliana transformar aquela colagem tosca em algo mais coerente, o que deu esse espaço pra Anelena gravar as vozes.

Podem falar um pouco da arte da capa?

Anelena: Quando começamos a pensar a arte logo me veio a imagem de colagens e recortes, mas como o Bruno escreveu no texto que divulgamos, era uma idéia de uma colagem em movimento, que se alterava. Eu busquei umas fotos minhas de 2015 e criei essa montagem a partir desses fragmentos. Uma tentativa de recriar memórias e experimentar esse horizonte que não é estático, um horizonte que escapa.

Cindy: A capa é um projeto gráfico da própria Anelena Toku. Uma colagem que casou muito bem com os sons. A combinação das palavras, o som e mais a arte da capa conversam tão bem que eu acredito que por conta disso o disco conquistou vida própria.

Bruno: Eu gosto muito de todos trabalhos visuais da Anelena, muito mesmo. A colagem tem um lance como o do sample, é uma parada que parece meio dura, porque é uma imagem fixa que você pega de um lugar e põe no outro, não tem muito o que mexer. Mas a colagem e o sample também tem o lance da repetição, que você pode jogar no espaço e vira uma coisa muito fluida, que você pode mergulhar.

E os projetos futuros de cada um dos grupos? Pretendem fazer mais coisas juntos futuramente?

Anelena: Gruta é um projeto meu bem pessoal e que nos últimos tempos esteve meio dormente principalmente porque tenho desenvolvido bastante coisa com o Fronte Violeta, que é meu projeto com a Carla Boregas. Acho que Gruta, Cama Rosa e Fronte Violeta sempre tiveram uma proximidade por habitarem um mesmo universo de som, então com certeza imagino que continuaremos essas trocas.

Cindy: Seria muito legal continuarmos fazendo coisas juntos, assim espero. O Cama Rosa está pra lançar um disco com as canções, nós temos composições com letras que gravamos no final de 2019. Também está sendo mixado e o lançamento será em breve. Então temos todo esse material de improviso no nosso Bandcamp, mas geralmente quando nos apresentamos, tocamos nossas canções que considero um desdobramento das improvisações, já que muitas bases saíram de lá.

Bruno: Eu sempre brinco com a Anelena e a Carla que a gente tinha que fazer um disco ou um festival com projetos que tem cores no nome, Cama Rosa, Fronte Violeta, Objeto Amarelo… talvez montar tipo uma big band.

“Cama Rosa Gruta” está disponível no Bandcamp.


Resenha

Unicórnio Maravilha – Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras

O nome da banda é estranho: Unicórnio Maravilha. O nome do segundo EP deles também é estranho: Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras. Tudo meio esquisito, né? Isso é ruim? Na verdade é muito bom!

Lançado em 2018, o EP conta com o trio Higor Machado (guitarra), Isis Cardoso (vocal/guitarra/baixo) e Thais Barbosa (bateria); além da produção de Igor Demétrio e da própria banda.

A banda carioca define o “Gatos Voadores…” como “um ambiente mágico em que qualquer coisa pode acontecer, em que seus maiores sonhos e medos convivem lado a lado”. E o disco é realmente uma viagem, já começando pela bela arte da capa que é assinada pela ilustradora Anna Brandão.

A faixa que abre o disco é “Blues Genérico #1”. O instrumental lembra de longe as guitarras do White Stripes e uma coisinha ou outra do The Cramps. Essa é uma das clássicas letras botando o dedo na cara de alguém. “Para de graça. Para de agir como se fosse amigável. Porque você não vai com a minha cara e eu também não gosto de você”, canta Isis Cardoso.

A letra de “Sobre as Fogueiras e as Morsas”, segunda faixa, é assinada por João Rosa. A música com o tom de despedida amorosa é levada por um instrumental já meio pop dançante que, se não fossem as guitarras distorcidas, até lembraria uma bossa nova em certos momentos.

“Blues Genérico #2 (Blues Kawaii)” é bem “Kawaii” (algo como “bonitinho” em japonês) mesmo. Letra romântica e sexy com outra levada blues bem envolvente. Destaque aqui pro instrumental do disco inteiro inclusive: a Unicórnio Maravilha sabe fazer um som que tinha tudo pra ser piegas e manjado, mas que na verdade acaba sendo bem imersivo e divertido. “E quero olhar o céu segurando sua mão. Sua pele é o abrigo onde eu quero me esconder e pernoitar até amanhecer”, bonitinho não?

O EP fecha com “Gatos Voadores”, assinada por Isis Cardoso, Thais Barbosa e Rita Valentim. É a faixa que mais foge do pop, tanto na letra, que inclui citações de Immanuel Kant, quanto no instrumental meio post punk, que cria um ambiente bem paranoico. “Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?”, pergunta Isis com uma charada tirada de “Alice no País das Maravilhas”. Existem várias respostas para essa pergunta, a Unicórnio Maravilha não se preocupa em te responder. Ficam no ar várias possibilidades e um gostinho de quero mais de um EP que em tão poucas músicas viaja por tantos lugares diferentes.

“Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras” está disponível no Spotify, Deezer, Youtube, Bandcamp e Soundcloud.