Bus Ride Notes

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Resenha

VEM AÍ!, parte 2 – O que é pre-save e porque usar!

Dado ao enorme sucesso (rs) da primeira matéria sobre lançamentos, resolvemos fazer uma segunda parte!

Tendo em vista várias novidades pipocando por aí, queria trazer um pouco de conteúdo e falar sobre pré-save, direcionando o papo à galera das bandas. Quase ninguém usa essa isso em terras brasilis.

– Ô seu doido, mas que diabos é pré-save?

É uma ferramenta que permite que seu público, vulgo seus fãs, incluam as músicas em suas bibliotecas/playlists antes da data oficial de lançamento, tendo acesso às músicas logo nos primeiros segundos em que estiverem disponíveis.
E por que motivos você deveria usá-la? Vamos lá:

  • Chama atenção dos ouvintes, criando expectativas e aumentando o engajamento do seu trabalho – antes mesmo de ser publicado.
  • Você pode aproveitar a oportunidade para publicar um teaser, seja um trecho da música ou videoclipe, e/ou também a pré-venda ou anúncio de novos merchs.
  • Reforçando o engajamento, o algoritmo do streaming vai ~crescer o olho pra cima de você, o que aumenta a possibilidade de conseguir adentrar as grandes playlists editoriais das plataformas – exponencialmente te levando a um possível número de maior de ouvintes. (Importante: estou falando de hipóteses, não é uma garantia!)
  • Ok, há poucos dias fomos informados sobre o vazamento de dados de milhões de pessoas no Brasil. Então é preciso ser cauteloso nessa parte. É que o pré-save serve também pra você coletar dados sobre seu público, como localização, faixa etária… te permitindo direcionar melhor sua comunicação. Às vezes rola até endereço de email, que pode se tornar um mailing de newsletter. Mais importante ainda: NÃO SEJA CUZÃO, NÃO VAZE OS DADOS DE NINGUÉM!
  • E você, caro/a ouvinte, se por acaso vir suas bandas preferidas soltando um pré-save: FAÇA-O! Isso ajuda muito mais do que pode imaginar.

Sua distribuidora de música certamente oferece a possibilidade de um pré-salvamento. Vale a pena dar uma conferida .


Dito tudo isso, hora do esquenta pros pré-saves todos:

Autoclismo
Diretamente de Teresina/PI, o trio instrumental vai lançar seu novo EP, “Tetra”, no próximo dia 23. E, eba!, tem pré-save, que você pode fazer aqui. Acompanhe a Autoclismo pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Californicks
A rapaziada do hardcore melódico de Mauá/SP tem publicado há algumas semanas os bastidores da gravação de seu novo material. Seu último trabalho foi o EP “Por Todos Nós”, de 2018. Acompanhe a Californicks pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Charlotte Matou um Cara
No último post, a gente chutou e fez gol! Só atualizando mesmo, Charlotte anunciou seu novo disco, “Atentas”, que está em fase de financiamento coletivo – e você pode contribuir aqui.

Família Estranha
Fugindo um pouco da curva (até pros padrões do Busão), Família Estranha é uma banda londrinense influenciada por música brasileira, latina e bluegrass (!), que tem a rua como seu palco principal. Estão com campanha de financiamento coletivo pro seu primeiro disco, “Toda Família Merece um Álbum” – e você pode contribuir aqui. Acompanhe a Família Estranha pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Join the Dance
Depois de soltar o single “The Sun” ano passado, os cariocas de hardcore melódico skate delicinha entraram em estúdio semana passada novamente. Aguardemos! Acompanhe a Join the Dance pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Kattana OCK
Duo de horror punk, baixo+bateria, estão em fase de gravação de seu material de estreia. Dá pra dar um confere nesse áudio aqui que o trem vai ser doido! Acompanhe a Kattana OCK pelo Instagram.

Medrado
Parece que vem coisa nova por aí nos versos do Medrado, que tem lançado vários singles. Um EP em parceria com o produtor An_Tnio tem previsão para ser lançado nos próximos meses. Acompanhe o trabalho do rapper pelo Instagram, Soundcloud e Spotify.

Numbomb
O trio de crust/grindcore de Brasília-via-Lisboa não terá só um, como dois lançamentos em breve: seu primeiro álbum e também um split com a Nekkrofuneral. Acompanhe a Numbomb pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Paranoia Bomb
Projeto recente de veteranos da cena punk rocker brasiliense (Firstations, Dissonicos, Caos Lúdico, Conteste!, Nada em Vão), o supergrupo traz também influências do country e do folk. Incansáveis, estão estúdio gravando o sucessor do EP “É Hora de Ir”, de 2020. Acompanhe a Paranoia Bomb pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Personas
No fim do último mês, os jovens do rock triste lançaram o single “E Eu Me Desespero Facilmente”, que dita o tom de seu próximo EP. Acompanhe a Personas pelo Instagram, Facebook e Spotify.

SLVDR
Faz bem uns 5 anos que saiu o excelente “Presença”, e dentro em breve tem novidades também! Se você curte uma fritação instrumental, fica de olho! Acompanhe a SLVDR pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Signo 13
Há quase 10 anos na estrada, vários EPs e coletâneas na bagagem, a banda pós-punk do DF lançou seu primeiro álbum “Serpentário” num formato inusitado: soltando cada faixa como single, mensalmente, entre setembro de 2019 e outubro de 2020. E trarão mais novidades em breve! Acompanhe a Signo 13 pelo Instagram, Facebook e Spotify.

coletânea Coletivo Lança
O coletivo ainda prepara pra se lançar oficialmente em breve, com um evento online. Mas já nos adiantou sobre sua primeira atividade: uma coletânea (ainda sem nome), que tem confirmada as presenças de nomezassos como Loyal Gun, Hayz, Trash No Star, Letty, Drowned Men, Fragmentos Urbanos e Gomalakka, com músicas inéditas, será lançada no primeiro semestre. Como ainda não temos links oficiais, fica de olho nas bandas pra acompanhar!

coletânea Território Antifa
Produzida pela produtora Casa Sonora, várias bandas antifas da região metropolitana de Porto Alegre se reúnem nessa coletânea que promete! Todas entrarão com duas músicas inéditas. Alguns nomes confirmados: Lo que Te Voy a Decir (AMO!), Pupilas Dilatadas, Cine Baltimore e Punkzilla. Acompanhe a Casa Sonora pelo Instagram e Facebook.


Por hoje é isso! Espero que esse amontoado de palavras e links tenha sido útil pra você. Acredito que não faremos uma parte 3 sobre lançamentos futuros, mas pode mandar sua pauta no busridenoteszine@gmail.com. Sextou!

Discografia Caipirópolis / Playlist

Discografia Caipirópolis Volume 2

A Discografia Caipirópolis nasceu pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital.

Somos do interior de São Paulo e um dia decidimos fazer uma lista de bandas daqui, como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Bom, lista feita, fizemos as edições necessárias e entre elas tiramos bandas com letras machistas, violentas, reacionárias ou coisas do tipo. Gostaríamos de pedir que vocês nos avisem caso deixarmos algo parecido passar.

No primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação, então tem de tudo, punk, crust, indie, synthpop, hard rock, folk, instrumental, etc.
E agora chegamos aos próximos volumes, que serão divididos por gênero musical. Nesse segundo volume são bandas de punk rock, hardcore melódico e etc.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse segundo volume:

4HC (São José dos Campos)
Formada em 2016 por Fred (voz), Luan Felipe (guitarra), Josean Silva (baixo) e Wesley Nerosi (bateria). “Nossa banda consiste em fazer letras voltadas para o dia a dia, algo para motivar as pessoas a continuarem e também, é claro, contra a política fascista e opressora dos dias de hoje”. A banda tem três singles lançados, “Caminho do Exílio”, “Realidade Paralela” e “Cidade Moderna” e está em processo de gravação do primeiro EP.
“Cidade Moderna” foi lançada como single em Abril de 2020.


Anversa (São José dos Campos)
Formada em janeiro de 2018 por Tati Laukaz (vocal), Marcelo Lopes (guitarra), Mendel Graves (baixo) e Eder Penha (bateria), com “letras cantadas em português que interpretam relações cotidianas indo da política a dogmas espirituais, passando pela interpretação de questões individuais e coletivas na transformação do indivíduo e a sociedade em que atua”, a banda tem quatro singles lançados, “Quem Sou”, “Carlos”, “Não” e “Feito”.
“Feito” foi lançada como single em Outubro de 2020.


ASCO (Santos)
Formada em 2013 e hoje composta por Leandro Campos (vocal), Eder Camargo (guitarra), Willians Pereira (baixo) e Willians Cruz (bateria), a banda já tem quatro EPs lançados, o mais recente, “O Pior Cenário Possível”, foi contemplado com uma tour pela Europa no mês de março de 2020. A proposta do grupo sempre foi fazer punk rock/hardcore com a ideia de passar uma mensagem de contestação, tendo em suas maiores influências o hardcore americano dos anos 80”.
“O Pior Cenário Possível” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em Dezembro de 2019.


Astronova (Jundiaí)
Formada em 2017 “por cinco amigos que decidiram se unir para falar sobre experiências, opiniões, sociedade, repressão, preconceito e liberdade de expressão”, é atualmente composta por Chello (vocal), Luís Paulo (guitarra, vocal), Junior Costa (baixo), Felipe Sibon (guitarra) e Jamil Neto (bateria). Em outubro de 2020, juntamente com o SESC Jundiaí, participaram do projeto #SonsdaTerra apresentando seu novo single “Sempre Assim?” acompanhado de um clipe gravado e produzido durante o período de distanciamento social, disponível nas plataformas digitais da banda e do Sesc Jundiaí.
“Fantasmas” faz parte do primeiro EP da banda, “Anomia. Omissão. Opressão. Ascensão” (2019).


Brado Revolucionário (Porto Ferreira)
Formada em 1996 e hoje composta por Paulo Urbano (vocal), Rodrigo Punk (guitarra, vocal), Lucas Santos (baixo) e Beto Giocondo (bateria), a banda tem como influências o cotidiano, o ódio ao atual sistema, a revolta ao dogmatismo e principalmente o anarquismo. “Acreditamos em nossa cultura, nossa imprensa alternativa, nossos meios de protesto sonoro, nossa oposição ao sistema, nossa luta, nossa militância, nossa seriedade. Acreditamos no movimento punk, no anarquismo”. A banda está em fase final de preparação para o lançamento de um split com Putrid Scum (México), “Efecto Moral”, e em 2021, data em que completam 25 anos de estrada, a banda pretende lançar materiais comemorativos para marcar a jornada.
“Negro Coração” faz parte do album “21 Anos de Punk HardCore” (2017).


Cannon of Hate (Cubatão)
Atualmente com Sandro Turco (vocal), André Félis (guitarra), Márcio Parducci (guitarra), Marcos Alves (bateria) e Marcus Vinicius (baixo), Cannon Of Hate foi formada em 2013 por integrantes das bandas Artany e Lasívia que haviam encerrado as atividades. A banda tem três EPs lançados e já excursionou pelas regiões Nordeste, Sudeste e Sul além de ser bem ativa no estado de São Paulo.
“O Que Vai Ser de Nós” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em 2017.


Discordex (Itupeva)
Formada no fim de 2016 por Rodrigo Santos (vocal), Adriano (baixo), André Felipe (guitarra) e Gustavo (bateria) a banda tem dois EPs lançados, “Obrigada a Crescer” (2018) e “Prazer, São Paulo” (2019) e atualmente trabalha em seu próximo lançamento, com o selo Clichê Records. Discordex tem letras que retratam o cotidiano, com uma alta dose de sentimento e sinceridade e cita como influência as bandas Millencolin, Rancid, Chuva Negra, Fugazi e Title Fight.
“Bravo” foi lançada como single em Novembro de 2020 junto de um clipe.


ESC (Santos)
A banda surgiu em 2005 “sem pretensão de seguir um estilo ou chegar a algum lugar, nossa amizade manteve viva a vontade de tocar”. Passaram por vários estilos dentro do rock e em 2012, com a formação atual, a banda encontrou a linha punk rock, pop punk cantando em português contando suas histórias. “Seguimos assim, tentando passar um pouco de alegria por onde estamos”. A banda tem dois EPs lançados.
“Valete” faz parte do EP “Atemporal” (2020).


Facing Death (Jundiaí)
O power trio que mistura punk rock com heavy metal setentista foi formado em 2015 por Flávio (guitarra e voz), Briti (baixo) e Diego (bateria). Em 2017 a banda lançou o primeiro album, “From Here To The Unknown”, e em Maio de 2019 lançaram o single “Dinheiro” (primeira música em português da banda) em forma de cerveja, criando uma perspectiva física para a música, na embalagem podia ser escaneado um QR code que dava acesso ao vídeo da música no Youtube. Atualmente a banda está produzindo o segundo disco.
“M.I.X.” faz parte do album “From Here to the Unknown” (2017).


Gagged (São Carlos)
Formada em 2004 e hoje composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria), a banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018) e um clipe “Cidade Sem Lugar”. Com 16 anos de estrada, a maioria deles bem ativos, a banda já tocou em vários estados brasileiros e teve várias mudanças. Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui.
“ Cidade Sem Lugar” faz parte do disco “Sobre Nós” (2018).


Garrafa Vazia (Rio Claro)
Formada em 2009 por Mário Mariones (voz, baixo), Ralph Faust (bateria) e Vancil Cardoso (guitarra), a sonoridade remonta ao punk rock 77 e ao veloz hardcore punk oitentista, com um toque garage punk aqui e ali. “Há uma energia, uma irreverência na linguagem, uma forte identidade nas letras, cantadas em português, cheias de anarquia, fúria e ironia“. A banda tem bastante estrada, muitas de demos, coletâneas nacionais e gringas, presença em shows e festivais por todo o Brasil, além dos discos “Corotinho” (2016), “Cirrose” (2019), “Birinaite Apocalipse” (2020) e o ao vivo “Kill The Nazis” (2020).
“Autonomia” faz parte do disco “Birinaite Apocalipse”, lançado em julho de 2020 pela Red Star Recordings.


NWAY (Araçatuba)
Banda formada em 2012 e ao longo dos anos, em parceria com o selo Love & Noise Records, movimenta a cena da região, tanto organizando eventos como produzindo fonogramas. Eles tem dois EPs lançados, “Horizontes” (2016) e “(Sobre)viver” (2020), este conta com um mini documentário sobre suas gravações que pode ser visto no Youtube. Ainda sobre o novo lançamento, “ele fala sobre a vida e como devemos enfrentar e persistir, levantar e prosseguir. Esse registro fala sobre saúde mental, superação, relações tóxicas, desapego, amar e odiar”.
“Retrato Contínuo” faz parte do EP “(Sobre)viver” (2020).


Old Rust (Guarujá)
Formada em 2012 por Luiz Fernando (voz e guitarra), André Bufoni (guitarra), Juliano Amaral (baixo e voz) e Juca Lopes (bateria), a banda tem um disco lançado, “Teoria Cíclica de Ascensão e Queda” (2019), que conta com a regravação das músicas do primeiro EP (2014), de mesmo nome, e outras cinco músicas compostas na primeira fase da banda, antes de um hiato de dois anos. Uma das músicas, até então inéditas, que vieram a entrar no álbum, “Audiência”, foi a escolhida para o primeiro clipe e gravado por Faria Filmes.
“Certo Pra Você” faz parte do primeiro disco da banda, “Teoria Cíclica de Ascensão e Queda” (2019).


Ovu Cuzido (Monte Aprazível)
Formada em 2003 e hoje composta por Guma (vocal), Ziq (bateria), Juliano (guitarra, vocal) e Serginho (baixo, vocal), a banda tem influências do punk e hardcore “sempre com riffs agressivos e letras contra o sistema”. Eles já lançaram uma demo, “Marmitex Infernal” (2006), e alguns singles.
“Toba de Tandera” foi lançada como single em Janeiro de 2020.


QI a Menos (São José dos Campos)
Formada em 2007 por Diegão (vocal), Gabi (baixo e vocal), Korpão (guitarra e vocal) e Lukão (bateria e vocal), a banda faz um mix das influências melódicas do hardcore californiano com toda revolta e indignação do punk rock nacional. As letras trazem contestações pessoais, sociais e políticas. A banda toma orgulho de ser underground e periférica, não fazendo questão de sair desse meio em que sobrevive por pouco mais de uma década. Eles já lançaram três EPs, “O outro lado da Moeda” (2011), “A verdade é Mentira” (2013) e “Sobrevivendo ao golpe” (2019), e participaram de coletâneas.
“Sentença” faz parte do EP “Sobrevivendo ao golpe” (2019).


Refluxo Mental (São José do Rio Preto)
Formada em 2019 e hoje composta por Ariel (bateria), Everton (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício (baixo), eles acabam de lançar seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”. Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”.  Fizemos uma entrevista com a banda que pode ser lida aqui.
“Balbúrdia” faz parte do primeiro disco da banda, “Socialização das Perdas” (2020).


Refuse (Araraquara)
Formada por Boby Vianna (vocal), Fabrício Negrini (guitarra), Arthur Oliveira (guitarra), Pablo Dotele (baixo) e Leonardo Fernandes (bateria), em Dezembro de 2018, com a banda em processo de gravação, aconteceu seu primeiro show, no Alternatal (evento beneficente de muita história e tradição), onde, devido à fortes elogios do público presente, recebeu o convite para abrir a Intourior (tour das bandas Damage Corporation, Toxic Death e Tessalônica que rodou o interior do estado de São Paulo). Em Maio de 2019, a banda lançou seu primeiro trabalho, “Direções”, juntamente com o videoclipe da música “Minha Paz”. Logo após o lançamento surgiu o convite para ser a banda local convidada a se apresentar no Araraquara Rock 2019. Em 2020, foi lançado o clipe do novo single, “A Saída”, e atualmente a banda se encontra em processo de composição do novo EP.
“Glória” faz parte do EP “Direções” (2019).


Smoners (Paulínia)
Formada em 1996 e hoje com Edinho Smoners (baixo, vocal), William Valadares (guitarra, vocal) e Alle Leanza (bateria, vocal), a banda surgiu pelas mãos de jovens que queriam tocar um punk rock simples e de protesto, posicionando-se em relação à sociedade vigente.  “Fortalecer a cultura punk e gritar contra a constante opressão explícita ou camuflada que sofremos no nosso cotidiano, e contra o racismo, machismo, lgbtqia+ fobia”. Participar de coletivos culturais, como o Mondo Grottesco (Águas de Lindoia, Mogi Guaçu, Paulínia) e Arte de Periferia (projeto sociocultural de inclusão da arte e da cultura de periferia ao circuito central, apoiado pela Prefeitura de Campinas), é algo que a banda coloca como primordial para sua atuação pela resistência do movimento. Além de já ter tocado por todo o Brasil, em 2017 a banda foi selecionada para o “Extreme Sports and Music Events” (Nashville, EUA) e em 2018 lançou o documentário biográfico, “SmonerS.doc”, pela Arttería Filmes.
“TV” faz parte do disco “Ao Vivo Estúdio Mutante” (2019).


The Biggs (Sorocaba)
Formada por Flavia Biggs (vocal, guitarra), Mayra Biggs (baixo, vocal) e Brown Biggs (bateria), em 2020 a banda completou 25 anos de atividade.  “Com melodias que passeiam entre o grunge punk, alternative rock, riot punk e stoner rock, o power trio faz um som com influências de Sonic Youth, L7, Bikinni Kill, Babes in Toyland, MC5, entre outras”. A banda lançou duas fitas K7 “See Stars” (1997) e “Kind-Hearted” (1999), dois discos, “Wishful Thinking” (2001) e “The Roll Call” (2007) e alguns singles, sendo o mais recente “See You”, ainda não lançado oficialmente, mas apresentado no festival online “Viva Girls Rock Camp BR” (inclusive, Flavia Biggs é uma das idealizadoras do projeto Girls Rock Camp Brasil). A banda que já tocou em todo Brasil, na Argentina e Uruguai e participou de inúmeros festivais e coletâneas, também fez parte dos documentários “Feito Por Elas” (2018) e “Guitar Days” (2018) e são citados no livro “O que é punk?”, de Antônio Bivar.
“Breech Delivery” foi lançada como single em 2015.


Turning Off (Sorocaba)
Formada em 2018 e hoje com Diogo Camargo (voz e guitarra), Rafael Monari (guitarra), Alex Galdino (baixo) e Vinicius Knup (bateria), a banda lançou seu primeiro disco, “Behind The Sun”, em 2019, gravado de forma independente com ajuda de amigos da cena local. “Influenciados pela velha escola do hardcore melódico e melancólico dos anos 90, a Turning Off vem tentando trazer o clima de nostalgia do auge das trilhas sonoras subversivas do Tony Hawk’s Pro Skater em suas apresentações explosivas e diretas com alguns tons de sarcasmo e homenagens à tudo que serviu de influência para a banda”.
“Behind The Sun” faz parte do disco de mesmo nome, lançado em 2019.


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Entrevista

Refluxo Mental

Refluxo Mental é uma banda de punk rock de São José do Rio Preto, interior de SP, formada em 2019 e hoje composta por Ariel “Joio” (bateria), Everton “Facada” (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício “Mau” (baixo).

Em 10 de Outubro de 2020 eles lançaram seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”, “gravado e mixado com a ajuda do Estúdio Jardim Elétrico, do ex-integrante (mas para sempre integrante) da Refluxo Mental, Lucas Dias”.

Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”

Abaixo você confere nossa entrevista com eles:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Mau: A banda surgiu há uns dois anos? Quando eu vi que foi a menos que isso eu realmente fiquei surpreso, sabe? Foi Joio e eu conversando num dia chuvoso sobre fazer um som subversivo e eu mostrei a letra da musica “Crente” pra ele. A gente tinha uma outra banda que o vocalista não queria cantar musica com critica política, saca? E eu conhecia um cara que iria querer, que era o Matheus. A banda faz esse punk 77 com um pouco da influência de cada um e acaba saindo bem característico.

Em mais de uma ocasião vocês disseram que a banda veio pra combater o reacionarismo que tá tomando conta de tudo. Vocês começaram a banda pensando nisso ou foi algo que veio depois?

Matheus: Desde o início tínhamos a intenção de fazer crítica social. O próprio nome da banda foi uma intenção de demonstrar isso. Refluxo Mental é a tentativa de fazer a galera refletir sobre certas questões presentes na realidade brasileira, colocar a mente pra pensar sobre outros ângulos, que não costumam chegar a todos os espaços. O combate à barbárie e ao obscurantismo vem com informação e reflexão. É o que procuramos fazer.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Socialização das Perdas”? Houveram mudanças de formação na banda nesse período, né?

Matheus: Ideias para composições foram muitas. Como a inspiração das nossas músicas surge dos problemas sociais que impactam nossa realidade, temos (infelizmente) conteúdo de sobra para trabalhar. A parte difícil é filtrar nossas ideias de uma forma mais ou menos coerente, a caber numa melodia bacana, na velocidade do punk rock. Cada ideia finalizada começava a ser gravada de imediato. Como gravamos em home studio, íamos criando e gravando, criando e gravando, até chegar o momento de dizermos: bom, melhor a gente fechar um CD aqui, finalizando esse primeiro momento da banda (que contou com diversas mudanças).

Mau: Mudança de formação foi apenas que a banda começou como um trio Matheus, Joio e eu e depois entrou o Lucas Dias, que acabou saindo para montar o Estúdio Jardim Elétrico em Lençóis Paulista, onde foi mixado e masterizado nosso CD, e entrou o Facada que já tocava com o Joio.

Rio Preto é interior, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí?

Matheus: A cena do punk rock de maneira nacional já não é muito forte. O punk não é um estilo que agrada muita gente. No interior é ainda mais difícil. É complicado manter um ciclo constante de pessoas nos shows. Nem se fala sobre captar galera nova para ouvir o som. A internet tem ajudado bastante a esse respeito.

Vocês têm uma música chamada “Rio Preto” no disco, né?

Matheus: “Rio Preto” surgiu da indignação ao alto número de eleitores do Bolsonaro nas últimas eleições. Nossa região teve no segundo turno das eleições de 2018 uma taxa de 78% de apoiadores do dito-cujo (que é um dado presente nos primeiros versos da música). Não é fácil sair nas ruas sob o alto risco de trombar com o retrocesso. É claro que nem todo mundo compactua com as barbaridades que vem nesse pacote. Tem muita falta de informação (e desinformação) que ronda a cabeça das pessoas. É o preço de um país que investe parcamente em educação pública de qualidade. “Rio Preto”, apesar de levar o nome da cidade, representa diversas cidades que sofrem do mesmo problema.

E como vocês foram, do interior de SP, parar em Moçambique?

Mau: Cara, é uma história bem legal. Um youtuber moçambicano chamado Miguel Jorge viu um comentário que eu deixei com o Youtube da banda em uma notícia sobre a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) em Angola e entrou para ver os vídeos do canal, curtiu as músicas e marcou em uma postagem no Facebook que estava ouvindo Refluxo em Moçambique. Daí pra frente o pessoal foi pesquisando sobre e foram curtindo a página e ouvindo as músicas.

Últimas considerações? Algum recado?

Mau: Queria falar pro pessoal curtir as nossas redes sociais, dar uma força, que é disso que sobrevive uma banda autoral mesmo. Compartilhem, curtam, comentem! A gente faz nosso som aí com muita humildade e é verdadeiro, é o que a gente gosta, né? Afinal de contas se fosse apenas por publicidade pra barzinho a gente fazia cover de rock dos anos 80. Refluxo é Matheus, Facada, Mau e Joio.

“Socialização das Perdas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Playlist / Resenha

Singles de Setembro

Hoje vamos publicar algo diferente do que estamos acostumados, mais uma das mutações do nosso blog/site/ainda não sei como chamar.

Nessa semana chegaram até nós alguns singles e resolvemos vir aqui falar deles. E primeiramente tamos felizes de mostrar algumas músicas de estreia.

Pata “Casa de Gelo”

Se você acompanha o Bus Ride Notes provavelmente já conhece a Pata, além de estar em algumas das nossas playlists, publicamos uma pequena resenha do primeiro disco da banda, “Shit & Blood”.

Nessa quarentena eles resolveram se aventurar com singles gravados e produzidos em casa, numa “série de experimentações sem pretensão de definir uma chave sonora para os novos passos, também com a proposta de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos”.

Os já lançados “blsnr pnt mrch” e “Casa de Gelo” são em maior parte eletrônica e bem diferentes da banda que toca um rock que eu chamo de grunge.

“Casa de Gelo” tem uma melodia calma e uma letra tristinha que pra muitos é sinônimo da quarentena, mas ela na verdade foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano.

Ela tem a participação de Sentidor (também responsável pela mixagem e masterização) nos beats e ambiências eletrônicas e foi lançada pela Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records.

A capa ficou por conta de Hanna Halm e também foi lançado um lyric video, produzido por Lúcia Vulcano.

O próximo single previsto é um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

Tigre Robô “Desconforto”

Formada no final de 2018 em Brasília por Isabela Fernandes (guitarra, teclados, voz), Junio Silva (baixo, teclados, voz) e Rafael Lamim (bateria), Tigre Robô acaba de lançar seu primeiro single, “Desconforto”. “Uma música sobre esperar pelas coisas acontecerem quando o tempo não está ao seu lado”.

A banda está gravando seu primeiro álbum e pretende lançar mais um single até o mês de Dezembro.

Eles também participaram da nossa matéria sobre gravações caseiras durante essa quarentena.

A arte de “Desconforto” foi feita pela própria Isabela Fernandes.

Tropikaos Chaga “As Ruas Vão Queimar”

“As Ruas Vão Queimar” é o primeiro single do duo Samuel Kircher (voz, guitarra, baixo) e Érico Munari (bateria), que foi gravado já durante a quarentena de 2020 (será que ao nos referir à quarentena vamos ter que especificar o ano? Espero que não).

A música foi lançada já tem um tempinho, mas o lyric video (editado pelo próprio Érico Munari) acabou de sair.

“As ruas, os dias, as notícias do cotidiano em um país problemático como o Brasil, compõem as letras e o barulho da banda”, ou seja, aquele punk rock rasgado cheio de distorção que a gente gosta.

Kebrada HC “Unides Pelo Ódio”

“Banda punk/hardcore antifa femininja diretamente da periferia do ABC”, formada por Letícia Souza (voz), Juliana Moreira (guitarra) e Victória da Cunha (baixo) em 2019.

Apesar de ser uma banda nova e essa ser a primeira música que elas lançam oficialmente, a Kebrada HC já é um tanto conhecida e é bem ativa.

“Unides Pelo Ódio” foi lançada junto de um video com trechos de shows em comemoração ao aniversário de um ano de banda.

O amigue e baterista Tobias de Teipó participou da gravação do single, mas a banda ainda está a procura de um baterista.

Ano passado fizemos uma entrevista com a vocalista, Letícia, onde ela explica porque se afastou do “rolê punk” e começou a frequentar a nova “cena” paralela que tá rolando em São Paulo. Ver isso tomando uma forma ainda maior através de mais uma banda faz uma lágrima escorrer no meu rosto.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: hoje

Essa é a segunda parte da nossa matéria sobre a Cosmogonia, se você não viu a primeira, leia aqui antes de começar esse texto.

Hoje formada por Gabi (vocal), Teté (guitarra), Andressa (baixo) e Dani (bateria), em 2017, dez anos após o início do hiato, Cosmogonia voltou e em 8 de Março de 2019 lançaram o EP “Reviva!”.

Sonoramente “Reviva!” é bem parecido com “O Sentir Que Violenta”, o que faz todo sentido, já que foi a última coisa que elas gravaram antes do hiato. As letras continuam tendo foco no empoderamento feminino.

“Grite, fale, jamais desista. Grite, ria, lute e resista que amanhã haverá sua paz, que dias ruins ficaram para trás”.

“Tempo” é a música mais rápida do EP e o clipe dela é o primeiro da Cosmogonia, lançado em 10 de Outubro de 2019, Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ele consiste em imagens ao vivo da banda desde que voltaram.

Abaixo você confere nossa entrevista com a banda:

Então, acho que a gente pode começar falando sobre o início da banda. Nenhuma das meninas estava na formação original dos anos 90, né? Como foi a entrada de cada uma?

Atualmente não há nenhuma menina da formação original. A Elis (fundadora) ficou até 2007, quando a banda entrou em hiato. Teté entrou em 2002, Gabi entrou em 2004 e Dani entrou em 2005. Em 2017 revivemos com três integrantes dos anos 2000: Teté, Gabi e Dani (batera) e logo depois Karol (baixista) entrou. No final de 2018 a Karol saiu e entrou o Fernando. Em 2019 a Dani saiu, entrou a Andressa no baixo e o Fernando foi pra batera. Agora, em 2020, a Dani voltou pra bateria e o Fernando saiu.

TETÉ: Em 2002 eu estudava na escola do menino que tocava bateria na época para a Cosmogonia e também na escola da ex-guitarrista, Raquel. Aí souberam que eu tocava guitarra, me disseram que estavam procurando uma mina guitarrista. Foi aí que conheci a banda, mas cheguei a enrolar um pouco pra ir fazer o teste por insegurança. Quando finalmente criei coragem, fui e foi perfeito. Me apaixonei pelas meninas, por tocar com elas, pela história da banda e aí me disseram que já tínhamos um show marcado no Hangar 110, que na época era o sonho de qualquer banda da cena, né? Então minha entrada já foi logo de cara tocando num show do Hangar!

GABI: Eu entrei pouco depois em 2004, já tinha relacionamento com a banda desde 98 e morávamos no mesmo bairro. Quando recebi o convite de fazer um teste para tocar nessa formação dos anos 2000, apenas a fundadora Elis, estava na banda. Nessa época, também contávamos com o Paulo, que integrava a lendária banda Punk Atitude.

ANDRESSA: A minha entrada foi com uma responsabilidade enorme. Eu estava entrando em uma banda que tem uma puta história, e que eu curtia muito. Fora isso, eu estava substituindo a Karol, que é uma excelente baixista, com uma base musical maravilhosa. Eu tinha a obrigação de estudar pra me sair bem. Tanto que, quando fui convidada a primeira vez pela Gabi, fiquei com muito receio de não estar no mesmo nível. Mas depois de pensar direito, voltei atrás e deu muito certo. Isso foi ano passado, 2019.

FERNANDO: O Fernando já era amigo da Teté de muitos anos e quando a Karol saiu da banda, chamamos ele pra nos ajudar e cumprir a agenda de shows. Não conseguimos achar nenhuma baixista e ele foi continuando com a gente. Quando a Andressa assumiu o baixo, o Fernando foi pra batera, substituindo nossos dois amigos Roberto e Nautilus, que estavam se revezando como substitutos da Dani.

E como é manter a banda mesmo sem ninguém da formação original?

Inicialmente, achávamos que não faria sentido a banda sem a Elis. Porém, ela mesma nos incentivou a retornar e nos lembrou que a Cosmogonia sempre foi uma banda aberta à novas integrantes e que ao longo dos anos, muitas meninas passaram pela banda e deixaram sua marca, experiência de vida e luta. A particularidade mais importante da Cosmogonia é resistir ao longo dos anos e trazer a vivência de diversas mulheres, que são unidas em torno do mesmo propósito. Apesar da Elis não estar presencialmente na banda, ela é também um membro que mantemos contato constante e que nos aconselha, dá opiniões, apoia e é responsável por muita coisa que fizemos desde o retorno.

Vocês fizeram um hiato em 2007, né? O que esse hiato representou para vocês?

Em 2007 cada integrante da época estava passando por coisas diversas em suas vidas pessoais que foi impossibilitando de conseguirem conciliar com a banda. Além da questão financeira que era complicada para todas (pagar ensaio, transporte, manutenção de instrumentos, etc), havia também trabalho, estudo, filhos e família. Então o hiato representou um tempo que precisávamos naquela época, para ser mais compatível com a nossa condição de vida daquele momento e com as dificuldades financeiras e psicológicas que cada uma enfrentava.  Esse tempo foi extremamente triste, pois sempre sentimos muita saudade da banda em si e de estarmos em uma banda. E nesse tempo, algumas de nós tivemos que lidar com relacionamentos abusivos, violência doméstica, dentre tantas outras coisas que as pessoas não enxergam em vidas que não estão expostas de alguma forma.

Como vocês decidiram que era hora de voltar?

Em 2017, após um período maior sem se verem, Gabi e Teté se reencontraram num show e como elas sempre sentiram saudades de tocar, mencionaram que seria legal montarem uma banda. De longe a Elis percebeu essa movimentação entre as duas, e também estava muito ligada na movimentação das mulheres no cenário underground, que aumentava a cada dia. Ela então nos reuniu em um grupo de Whatsapp e praticamente exigiu que voltássemos com a banda, mesmo sem ela, que mora no exterior.

No Bandcamp da Cosmogonia a gente percebe que todos os álbuns ali são bem curtos. Existe algum motivo pra essa escolha?

Cosmogonia é uma banda que nasceu na periferia e bandas de periferia, mais ainda, bandas com mulheres sempre foram invisibilizadas pela falta de recursos e também pelo próprio machismo e misoginia, que também existem na música e na cena punk/hardcore. Sempre dependemos do corre de cada uma, dos amigos de outras bandas e de coletivos que se juntavam para gravar coletâneas (no início ainda em fitas K7). Nunca tivemos grana pra bancar gravação, produção e até o final dos anos 90, a produção de tudo foi com o “faça você mesma”. Em 2006 lançamos um single, que conseguimos gravar graças a um cachê que nos foi dado de um show. Agora em 2019 lançamos um EP gravado pelo projeto Experiência Family Mob. Fomos selecionadas para participar do projeto, o que nos possibilitou a gravação. A mixagem e masterização foi arcada com nossos próprios recursos e venda de merch.

O que vocês têm escutado nos últimos tempos?

GABI: Eu tenho ouvido muito folk, bandas clássicas de hardcore dos anos 90, algumas bandas novas e bandas que carrego em playlists ao longo dos anos, como Converge, Million Dead, Pennywise, bandas nacionais como Bioma e Miêta.

TETÉ: Hardcore sempre! Desde os clássicos que sempre me acompanham (Pennywise, NOFX, Bad Religion) até bandas nacionais: Mar Morto, Garage Fuzz, Bioma.

ANDRESSA: Eu sou extremamente eclética, por mais que dizer isso pareça clichê. Nacional tenho escutado bastante Violet Soda, Miami Tiger, Hayz, Radical Karma. Internacional tenho um carinho mais que especial por uma cantora pop, a Dua Lipa. Acho a sonoridade e influências dela do Disco no último álbum maravilhosas, principalmente no baixo haha. Também o álbum solo da Hayley Williams, tá bem “diferentão”.

O gosto musical de vocês mudou muito do começo da banda até agora? Como vocês incrementam essas influências no som de vocês?

TETÉ: O gosto continua bem parecido. Claro que sempre surgem bandas novas, mas até hoje ouço praticamente tudo o que eu ouvia desde que entrei na banda. Para compor, obviamente trago todas as coisas que ouço, porém é algo bem espontâneo. Desde que comecei a tocar guitarra, sempre gostei de criar bases e riffs muito mais do que ficar tirando músicas e aí as brincadeirinhas na guitarra vão se transformando em som.

GABI: Minhas experiências e influências para compor são vivências de silenciamento, violência doméstica e o sentimento de como eu gostaria de que as coisas fossem diferentes na sociedade em que vivemos.

ANDRESSA: Eu comecei a ouvir mais hardcore. Eu sempre escutei um rock alternativo, muita coisa de pop rock e pop. Acho que sou a única a ter influências totalmente diferentes. E isso que é o interessante de fazer parte de uma banda, poder criar coisas novas juntando um pouco de cada gosto, cada influência. Cada um coloca uma pitada do que curte. Eu depois que entrei já andei dando umas pequenas modificadas no baixo nos shows.

A gente tá num momento de bastante ebulição em questões políticas e sociais, com os protestos tomando conta dos Estados Unidos e agora estourando de volta no resto do mundo. As letras da Cosmogonia sempre fizeram questão de falar abertamente de assuntos assim, principalmente na questão feminista, né? Como a obra da banda se comunica com um momento tão intenso como o que está acontecendo agora?

GABI: Cosmogonia sempre foi uma banda de periferia, de mulheres guerreiras que sempre tiveram que correr atrás pra se sustentar, sustentar filhos, família, a si próprias, levar o feminismo para aquelas que nunca puderam falar e se expressar. Falar dessas experiências coletivas e individuais é um ato político. Desde as criações antigas até as novas, sempre levamos a contestação do quanto é difícil a sobrevivência das mulheres na sociedade. Ser mulher é um ato político.

TETÉ: Estamos num momento em que fica cada vez mais exposto o engano do capitalismo: ele não é um sistema para todos e nós, mulheres, vemos, vivenciamos e sentimos na pele isso todos os dias. Como disse Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Como o próprio capitalismo coloca em xeque o tempo todo as questões das minorias, que no sentido quantitativo é a maioria, fica cada vez mais difícil aceitar as condições que esse sistema nos impõe. Como a banda e suas integrantes ao longo dos tempos sempre fizeram parte dessas minorias, não apenas por serem mulheres, todas essas pautas estiveram sempre presentes nas letras, canções e ideais.

E como vocês observam a evolução de debates assim na cena underground durante a trajetória da banda?

Sempre houve a invisibilização de atos e atividades lideradas por mulheres ao longo da história, e no cenário underground não é diferente. E hoje, mesmo que com uma visibilidade um pouco maior por conta das mídias sociais, ainda estamos em uma posição de falar para nós mesmas, de criarmos nossos espaços paralelos porque ainda há muita resistência de estarmos igualmente nos espaços “comuns”, que são majoritariamente masculinos. E o que mais chama a atenção é que as poucas pessoas que parecem estar preocupadas com a maior visibilidade dessas minorias em canais de divulgação, somente fazem isso para não se sentirem cobradas e não por acreditarem e respeitarem o nosso trabalho.

Há uma comunicação com outras bandas Riot Grrrl em outros estados?

Sim, sempre. No passado, mesmo antes da internet e depois, quando só poucos tinham acesso, as bandas de mulheres sempre se comunicaram. Cosmogonia tocou em diversos estados antes dos anos 2000 e também trazia as bandas de mulheres de outros locais para tocar em São Paulo. Mas com a internet, foi possível ampliar muito essa rede e união.

Em tempos de quarentena, como estão os projetos futuros?

Fica um pouco complicado pensar em futuro nesse momento. Acho que o foco maior agora é sobreviver a essa pandemia e a esse desgoverno. Sobreviver financeiramente e emocionalmente. Mas estamos compondo remotamente e nos falando diariamente.

Gostariam de dizer algo para as demais mulheres que estão ou querem entrar numa banda?

Quando o assunto é mulheres assumindo papéis em projetos, o direcionamento é sempre insistência, persistência e paciência. Nada acontece da noite para o dia, e, principalmente para nós mulheres os obstáculos são maiores. É importante buscar redes de apoio com as mulheres que já fazem qualquer tipo de trabalho artístico.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: o começo

Eu demorei bastante pra conhecer a Cosmogonia. “Como assim? Você fez um blog só pra falar de música”, pois é, ainda hoje há uma grande invisibilidade de bandas, mesmo nos lugares que se dizem alternativos e underground, imagina antes da internet?

Quando você pesquisa sobre as origens do riot grrrl no Brasil você só encontra Dominatrix (aliás, a Elisa já fez parte da Cosmogonia) e Bulimia. Uma banda que cantava em inglês e uma que cantava em português. Entenderam o raciocínio?

Eu sei que é algo que acontece em todo lugar, também demorei pra conhecer várias bandas gringas importantíssimas, mas não consigo deixar de ficar surpresa.

Há tempos eu penso em escrever sobre a Cosmogonia, mas sempre me enrolei. Não fiz resenha do EP novo porque pensei “Poxa, a banda tem muita história pra fazer só uma resenha” e por outro lado eu também pensei “Poxa, eu não sou jornalista, vou deixar passar muita coisa importante numa entrevista”. Muita enrolação depois, resolvemos publicar um pouco dos dois, escrito por mim (Livia) e pelo Junio.

Como diz Ignite: conheça a sua história!

Cosmogonia foi fundada em 1993 em Osasco, SP por Elis e Renata, duas professoras que sentiram falta de representatividade nos palcos da cena punk rock/hardcore e decidiram montar uma banda feminista composta por mulheres.

Desde então, a banda foi ocupando os espaços e transmitindo a sua mensagem, que é a luta por uma vida mais igualitária, inclusiva e justa para todas as pessoas, não importando seu gênero, raça, orientação sexual e condição social.

Uma das características da Cosmogonia é que muitas integrantes já passaram por ela.

Entre 1997 e 2006 elas lançaram uma Demo, um EP, um single e músicas inéditas em coletâneas.

As primeiras músicas da banda têm aquela sonoridade que a gente não sabe explicar muito bem e chama de punk com pegada brazuca, aquele som característico que qualquer pessoa no mundo que ouvir sabe que foi feito no Brasil nos anos 90.

“O Sentir Que Violenta”, single lançado em 2006, tem um som diferente do que elas tinham feito até então. Um hardcore um pouco menos melódico. A letra fala sobre como o silêncio é o cúmplice da violência contra a mulher.

Pouco tempo depois, em 2007, a banda entrou em hiato.

Abaixo você lê uma entrevista com Elis sobre essa época da banda e um pouco mais.

Fale um pouco de você, como começou seu interesse pela música?

Bom, eu cresci no meio da música. Meus irmãos mais velhos desde os anos 70 já curtiam rock e meu pai trabalhou na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), então desde nova a música já fazia parte da minha vida. Comecei no rock clássico, depois foi para o metal e finalmente me identifiquei no punk/hardcore.

Quem estava na primeira formação da Cosmogonia?

A primeira formação da Cosmogonia era eu, a Renata e a Vanessa.

Como surgiu a ideia de se juntar e montar a banda?

Eu e as meninas já frequentávamos a cena, tínhamos amigos, íamos muito em shows e a gente notava que não haviam bandas que nos representassem como mulheres. Sempre eram os homens tomando as frentes e praticamente tudo era feito e vivenciado por eles. Tínhamos essa visão e isso nos incomodava bastante. Apesar da cena naquela época já ser um “ambiente libertário”, como éramos professoras sempre preocupadas com conteúdos, conhecimentos e práticas, notávamos que na realidade, de libertário não havia nada… Faltava muita coisa pra ser dita e exposta.
Então, começamos a conversar sobre montar uma banda, fazer shows e levar nossa mensagem pra outras garotas. Já tínhamos uma bagagem para escrever as letras e aí começamos a aprender a tocar em casa, com ajuda de amigos e então a banda foi acontecendo. Ficamos sabendo o que estava acontecendo nos EUA e isso reforçou também pra que a gente continuasse seguindo nossa vontade de fazer a banda acontecer. Se lá estava rolando, também poderíamos fazer rolar aqui e assim, conciliamos tudo ao mesmo tempo e as coisas foram fluindo, bandas foram surgindo também, shows e festivais e os coletivos também começaram a se organizar.

Como foram os primeiros shows?

Os primeiros shows nossos foram em bares em Osasco, organizados por coletivos. Lembro de muitos homens de braços cruzados na nossa frente e várias meninas acuadas. Acredito que todos estávamos aprendendo a lidar com o fato das meninas ocupando esses espaços. Porém resistimos, esse sempre foi nosso foco, a resistência.

A gente sabe que nos EUA, além das bandas, houve muita movimentação por meio de zines e grupos de debates né. Como vocês observavam o movimento riot grrrl nos EUA em relação ao que estava acontecendo aqui no Brasil?

Na época, mesmo ainda sem termos acesso à internet, sempre observamos a cena fora do Brasil com um olhar de admiração. É muito inspirador ver mulheres tomando as frentes e fazendo o que geralmente eram só homens que faziam. Isso sempre nos motivou a continuar seguindo, mesmo com todas as dificuldades que tínhamos. Então, fomos fazendo da nossa maneira, errando, acertando, mas sempre construindo.

Nos anos 90 havia espaço para debates de gênero na cena independente brasileira?

Era muito raro um espaço para esse tipo de debate. A cena, apesar de se afirmar inclusiva, sempre foi excludente, e por isso foi preciso muita perseverança e tentativas de ir ocupando esses espaços e levando nossas mensagens.

Como foram as primeiras gravações?

Apesar da nossa imensa vontade de fazer acontecer, um grande obstáculo era a questão financeira. Todas nós tínhamos dificuldades, então sempre foi muito difícil conseguirmos juntar grana pra conseguir gravar.

Na época havia comunicação entre outras bandas formadas por mulheres nos outros estados?

Havia sim! Nos comunicávamos bastante por carta, porque até a internet era limitada. Não é todo mundo que vivenciou isso, mas havia limite de horas mensais para acessar a internet haha. Mas chegamos a usar também o mIRC pra falar com bandas de outros locais. Fizemos muita amizade com as meninas do Bulimia e a gente se ajudava quando rolava show em nossas respectivas cidades, com acomodação e etc.

Como foram as primeiras viagens?

Nossas primeiras viagens foram para cidades do interior de SP: Campinas, Sorocaba e litoral. Depois também tocamos em diversas outras fora daqui: Brasília, Goiás, Londrina, Rio, Salvador… Nossas viagens sempre foram surreais. Já viajamos em avião assim que lançou o filme “Premonição” (todo mundo do avião achou que ia morrer), de bus clandestino fretado de Brasília onde achamos que eles drogaram os passageiros, um show em Pirituba que um cara entrou atirando… Mas, enfim, sempre que viajávamos ficávamos nas casas de amigos nas cidades e fomos super acolhidas. Uma vez voltávamos de um show em Campinas com Cosmogonia, Bulimia e Kólica, estávamos indo para minha casa, todas numa perua (aquelas antigonas) e na estrada sofremos uma emboscada de uns ladrões ao sair de um posto de gasolina. Enfim, eles nos cercaram com armas e ameaçaram levar minha filha, que na época tinha entre 11/12 anos, se não déssemos todos os instrumentos e dinheiro. A Berila, baterista do Bulimia, falou que tinha uma grana boa que estava vindo de Brasília e que dava tudo se soltassem minha filha, enfim eles aceitaram. Levaram todo o nosso dinheiro também, do motorista e das outras meninas, mas graças soltaram minha filha.

Como foi a questão da banda continuar sem nenhuma integrante da formação original?

A Cosmogonia sempre foi uma banda muito acolhedora, onde passaram diversas mulheres fodas que sempre somaram umas com as outras e com a banda em si. As meninas que seguem com a banda atualmente fizeram parte da banda nos anos 2000 e também tive uma história com elas, que continuo tendo até hoje. Foi maravilhoso e inexplicável o sentimento que tive de ver a banda reviver e continuar com a nossa resistência e luta. E eu amo muito essas mulheres, que agora também estão continuando e perpetuando com a história da banda. 

O que você faz hoje em dia?

Atualmente moro nos EUA, tenho duas filhas e um neto. A minha filha mais nova já participa do Orlando Girls Rock Camp e está numa banda de garotas tocando guitarra. Nessa quarentena, fizeram uma música e até um clipe.

O que anda ouvindo de novo?

Bom, ainda sou fãzona da Cosmogonia, mas também tenho uma um gosto bem crazy. Algumas bandas que ouço e que curto: Pennywise, Hole, Nathan Gray, Boysetsfire, Bad Cop/Bad Cop, Nueva Etica, Sleeping With Sirens, Againts Me!, Bring Me the Horizon, Saosin, My Chemical Romance, Glória, Fresno… que eu preciso diariamente.

Obs.: Acho importante dizer que o riot grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista

LesboPunk

É pouco provável que você nunca tenha ouvido falar em fanzine porque a maioria das bandas que já publicamos fazem parte da contracultura onde eles foram criados, mas em todo caso: fanzines (mais conhecidos como zines) são pequenas (em tamanho, mesmo) publicações feitas por fãs, geralmente falando de música independente, mas também com os mais diversos assuntos.

Ainda hoje muita gente gosta de fazer da maneira clássica: à mão, geralmente com colagens e xerox, mas muitos também são feitos no computador, até pra facilitar a distribuição online.

Inclusive tem uma reportagem do podcast do Nexo, sobre o movimento riot grrrl, onde falam um pouco sobre zines em uma entrevista com Camila Puni, artista e pesquisadora de zines que já participou de residência artística no LA Zine Fest e deu aulas sobre na Universidade de Tulane (EUA).

“Toda sapa tem um pouco de punk”

O LesboPunk foi lançado no Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (29 de Agosto), como o nome já diz, ele é um zine sobre lésbicas no punk.

Amanda Cox, mulher lésbica, ativa na cena punk de São Paulo há sete anos, resolveu criá-lo “pela minha vontade de ver uma cena underground mais ocupada por lésbicas, pra mostrar que o punk rock também é pra nós, sapatas, e, principalmente, pelo meu desejo de encontrar outras sapatonas iguais a mim, apaixonadas por tudo que o punk é e pode vir a ser”.

“Minha ideia pro LesboPunk começou em 2017, e inicialmente era fazer um coletivo; juntar lésbicas da cena pra tentar criar um espaço nosso, organizar eventos só com bandas de sapatão, formar um grupo mesmo. Não deu certo porque quase todo mundo que convidei acabou desistindo, rolaram divergências de ideias e eu não tinha conseguido encontrar muitas lésbicas pra convidar de toda forma. Isso ficou na minha cabeça e fui percebendo que sempre me incomodou a questão de terem tão poucas lésbicas no punk, e no fato de que, pelo menos aqui, não vejo muita união e iniciativas especificamente lesbocentradas na cena. Tentei pensar em formas de transformar essa ideia inicial em algo que desse pra eu desenrolar sozinha, e me veio a ideia de fazer o zine”.

O LesboPunk tem uma leitura bem fácil e dinâmica, são pequenos textos que, em conjunto, servem meio como um guia e ele é bem dividido.

“Comecei escrevendo um pouco sobre a minha experiência pessoal dentro da cena, pra estruturar bem a perspectiva pela qual esse projeto foi idealizado. Na primeira parte falo um pouco sobre gangues dos anos 80 e algumas bandas pioneiras do ‘dykecore’, com o intuito de mostrar que desde o início dessa contracultura já existiam lésbicas criando seu espaço dentro dela”.

A segunda parte é dedicada à indicações de bandas brasileiras com lésbicas na formação.

“Nessa parte eu preferi usar textos que as próprias bandas me enviaram, pra ter a certeza de transmitir a expressão própria de cada uma e deixar um espaço para que pudessem falar o que desejassem divulgar a respeito dos seus projetos”.

A terceira e última parte fala sobre obras de literatura e filmes lésbicos, ainda dentro do punk.

“Produções nesse tom específico não foram fáceis de achar, então as indicações são poucas (porém muito boas)”.

“Meu objetivo foi juntar histórias de grupos lésbicos que surgiram em meio ao punk e trazer visibilidade pras sapatonas que estão na cena hoje em dia; fazer a palavra circular e mostrar pra outras lésbicas que o punk é algo muito mais próximo da nossa realidade do que a maioria imagina (conforme elaboro no texto de abertura), e, sendo um pouco ambiciosa, incentivar mais lésbicas a se interessarem pelo punk e começar a criar dentro dele, desde bandas, artes em geral, eventos e grupos, assim como as iniciativas mencionadas no projeto”.

Assim como Amanda, eu espero que mais pessoas se inspirem e comecem a criar os seus (manda pra gente!), afinal de contas é sempre assim, né? A gente vê algo que curte, se inspira e sai fazendo o nosso.

“Ainda não sei pra onde o projeto irá depois desse primeiro lançamento, mas pelo retorno que tive até agora penso na possibilidade de criar edições futuras”.

No linktree você encontra além do zine (original e em inglês pra você mandar pras amigas de internet que conheceu no antigo perfil do Personals), os agradecimentos, fontes e playlists no Spotify e Youtube.


Resenha

Bioma – União e Rebeldia

“Banda de queercore feminista formada em 2017, a Bioma surge a partir do encontro de mulheres da cidade de São Paulo com discurso feminista e posicionamento libertário, anti-racista, anti-LGBTfóbico e anti-CIStêmico”.

Formada por Julia Kaffka (baixo), Letícia Figueiredo (bateria), Mayra Vasconcellos (guitarra) e Natália Pinheiro (Natoka) (vocal), em Maio de 2020 a Bioma lançou seu primeiro disco, “União e Rebeldia” e vamos falar um pouco sobre ele aqui.

Primeiramente, se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre.

“União e Rebeldia” tem aquela característica que é difícil colocar em palavras e daí surgem resenhas dizendo que é um disco “potente”. Nada contra esse termo, mas é vago e eu quero tentar não ser vaga, assim como esse disco.

Punk e hardcore são conhecidos por suas letras políticas, mas não é tão comum vermos bandas que se expressam bem, na maior parte vemos letras que mencionam um assunto e não elaboram ideias, por que é difícil se expressar bem numa letra curta de música, olha só o tamanho desse parágrafo.
É por isso que a gente fica feliz quando encontra bandas que conseguem fazer isso, creio que esse é o tal do “potente”.

Bioma é uma daquelas bandas que te faz parar pra pensar, podemos escrever um artigo grande sobre cada música desse disco. Aliás, eles já existem, mas acho que o que importa é você ouvir, procurar saber mais e tirar suas próprias conclusões.

“Violência Invisível” fala sobre lesbocídio, a morte sistemática de mulheres lésbicas, assassinato e suicídio de lésbicas que são permeados pela lesbofobia.
“Sociedade patriarcal, violenta e irracional. Daniela, Fabiana, Priscila, Luana! Todas que não vamos esquecer. Lésbicas presentes!”

“Falsas Causas” fala sobre “pink money”, uma estratégia de marketing de empresas que focam o público LGBTQ+ em suas campanhas. Mas não se engane, isso é só uma estratégia mesmo.
“Não trate como revolução quem te trata como nicho de mercado”.

“Disforia”, o nome já diz tudo, “Um espelho sem reflexo, incoerente sentimento. Disforia do meu próprio ser”.

“Pedalar” é outra música em que o nome já diz tudo, “O suor que pinga enferruja as engrenagens da máquina que gira e para nossas vidas”. Você pode até não ser contra carros, mas você não pode discordar disso.

“O silêncio não protege, ele te consome. Esse corpo é revolta, revolta que revida”.

A banda também regravou para o disco as músicas de sua Demo (2018), “Descontrolar” e “77 Cobaias”.
“Enquanto se escolhe quem vive ou quem morre, nós desmascaramos seu fascismo democrático”.

Eu acho que “Cidade Perdida” é a música que melhor resume esse disco, tanto que ela foi lançada como single, junto de seu clipe, em Abril de 2020.

Dirigido e editado por Julia Gimenes (profissional do audiovisual, feminista, que há dez anos atua como colaboradora na causa indígena), ele é composto por trechos de registros feitos por ela durante o “Festival Guarani” (2017) e o primeiro “Encontro das Mulheres Indígenas” (2018), e imagens de arquivo, cedidas pelos canais canais “De olho nos ruralistas”, “Mídia Ninja” e outros portais de jornalismo independente, retratando o crime cometido pela Vale em Brumadinho e a crise das queimadas na Amazônia que ocorreram em 2019. Também com falas de Tamikuā Txihi, Julieta Paredes Carvajal, Sônia Barbosa e Ailton Krenak.

O disco termina com “2019”, “Olhar pra trás é tão difícil, as dores voltam de tentar. Todas (as) perdas que tivemos… Seguir em frente apesar disso, nada vai nos derrubar. Pode vir qualquer Jair, a resistência vai ficar”.

“União e Rebeldia” foi produzido pela própria banda junto de Mari Crestani (Bloody Mary Une Queer Band, Weedra) e tem participações de Mari Crestani, Célia Regina, Cint Murphy (In Venus) e Karine Campanille (Transviada Distro, Mau Sangue, Messias Empalado, Violence Increases Fear).

O disco foi lançado pelos selos Efusiva, Howlin Records, Läjä Records, Oxenti Records, Vertigem discos, Carniça Distro, Good Things Distro e está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Deixo aqui também a entrevista com Natoka sobre o Dyke Fest #4, onde tem muito sobre a Bioma.


Discografia Caipirópolis / Playlist

Discografia Caipirópolis Volume 1

Não é novidade pra quem acompanha música underground que de uns três anos pra cá o número de bandas triplicou ou mais.

Nós do Bus Ride Notes gostamos de sair do eixo SP-Rio e juntando isso com nosso gosto por fazer planilhas, um dia resolvemos fazer uma lista de bandas do interior. Como moramos em São Paulo e conhecemos muita coisa, começamos por aqui. Essa lista deu mais de 300 bandas na ativa (até onde sabemos) e como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.

Assim nasceu a Discografia Caipirópolis pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital. O nome, que é uma brincadeira de amigos daqui (chamamos a região de caipirópolis), foi o título temporário da lista, mas acabou ficando.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Sem saber se dividiríamos por estilo, região ou etc, nesse primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação porque né? 2020 e essa conversa ainda dá muito pano pra manga.

Então tem música pra todo gosto aqui: punk, crust, indie, synthpop, stoner, hard rock, folk, instrumental brisinha, etc. É pouco provável que você goste de tudo, mas é muito provável que você goste de mais da metade.

Como a lista é grande, terão outros volumes, seja por coletânea, playlist, streamcast ou outro formato que ainda não conhecemos.
E nós gostaríamos de incentivar o pessoal de outros lugares a fazer o mesmo e mandar pra gente. Primeiro porque queremos ouvir coisas novas e segundo porque não conhecemos muita coisa dos outros interiores.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse primeiro volume:

Amphères (Santos)

Amphères é um trio formado em 2016 pelos músicos Jota Amaral (bateria e voz), Paula Martins (baixo e voz) e Thiago Santos (guitarra e voz), que tocam juntos desde 2012 em outras formações. “Transitando entre diversas vertentes do rock alternativo, muitas vezes com nuances psicodélicas, o som da banda é definido por linhas de baixo bem marcadas e baterias vibrantes, que permitem explorar a pungência de guitarras com texturas harmônicas, loops, dissonâncias e ruídos diversos“. A banda já lançou dois EPs (2016 e 2018) e em Abril de 2020 lançaram o álbum “Porto”. “Densa” faz parte do primeiro disco da banda, “Porto”.


Balanopostite (Araraquara)

Banda de goregrind formada em 2018 e hoje com Serginho (guitarra/backing vocal), Mars Martins (vocal, baixo) e X (bateria), eles se preparam pra gravação do primeiro EP e tem duas músicas disponíveis no Bandcamp, “A Indústria Agropecuária Colabora com a Fome Mundial e a Falta de Água” é uma delas.


Blixten (Araraquara)

A banda surgiu no ano de 2013, fundada pela vocalista Kelly Hipólito e hoje com Aron Marmorato (baixo), Miguel Arruda (guitarra) e Larissa Futenma (bateria). “O objetivo da banda é trazer para o século XXI, o peso, velocidade e melodia que as bandas de Heavy N’ Hard tinham nos anos 80”. Em 2018 eles lançaram o primeiro EP “Stay Heavy”. “Strong As Steel” faz parte do EP “Stay Heavy” (2018).


Cigarros Indios (Araçatuba)

Formada em 2012 e hoje com Ana Lídia (voz), Herivelto Medeiros (baixo), Ricardo Storti (guitarra) e Tico (bateria), Cigarros Indios é um power trio roqueiro comandado por uma voz feminina e apresenta um repertório onde a trilha sonora é o rock, sem qualquer outro adjetivo. Em 2020 lançaram o primeiro EP, “Gravidade”. “Carnaval” foi lançada como single no dia 21 de Fevereiro de 2020.


Clandestinas (Jundiaí)

Formada em 2017 pelas militantes feministas e LGBTQIA+ Alline Lola (guitarra e voz), Camila Godoi (baixo e voz) e Natália Benite (bateria e voz), a banda surge da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, utilizando a música como ferramenta de luta, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas. “Rotina” faz parte do recém lançado primeiro disco da banda, “Clandestinas”.


Crasso Sinestésico (Bom Jesus dos Perdões)

Formada em 2014 por Diego Fernandes (guitarra e vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria), o duo já lançou um disco e dois EPs. “Cassandra”, o EP mais recente da banda, foi gravado ao vivo em Fostex no rolo de fita, é cru e sem muitos efeitos. “Encontramos na sonoridade de alguns discos (Coloração Desbotada, Giallos, Hüsker Dü e Sonic Youth) um norte de como gostaríamos que fosse: noise rock, sujo, lo-fi, intenso e verdadeiro”. “Bhaskara” faz parte do EP “Cassandra” (2019).


Dead Parrot (Campinas)

Formada por Mariana Ceriani (vocal), Victor Vianna (guitarra), Matheus Stoshy (baixo) e Bruno Giacomini (bateria), a banda de stoner e hard rock já lançou três EPs, o mais recente, “Strange Times Are Coming”, em 2020. “Strange Times Are Coming” faz parte do novo EP da banda, de mesmo nome.


Derrota (Americana)

Derrota é uma banda de post-rock instrumental, formada em agosto de 2012 por Leonardo Cucatti (guitarra), Nathalia Motta Oliveira (guitarra), Eduardo Camargo (baixo) e Marcel (bateria). Além do primeiro álbum “Parece Insuportável” (2019), a banda já lançou dois EPs e três singles. “Sinestesia” faz parte do EP “XXX” (2018).


Estado Imaginário (Itupeva)

Formada em 2015 por Douglas Valente (vocal), Maurilio Babão (guitarra), Andressa Kaam (baixo) e Marcos Salles Lopes (bateria), a banda tem várias influências do cenário musical, abrangendo também a apreciação literária de grandes nomes da poesia universal como Rimbaud, Chesterton, Pessoa e Neruda. “Nada Pode Ser em Vão” faz parte do EP “Estado Imaginário” (2017).


La Burca (Bauru/Araraquara)

Fundada em 2011 por Amanda Rocha (voz, violão, composição) a banda de post-punk-tropicaos ou post-punklore estreia nova formação em 2020 como trio com o baterista Ed Paolow e o guitarrista Denial Guedes. A banda já lançou dois discos e um EP, “suas influências vão desde o punk DIY, amansando no folk, bebendo no post-punk, regurgitando no grunge e se recompondo nos temas introspectivos instrumentais”. No momento a banda mescla novo repertório cantado em português à releituras sonoras de alguns sons e experimentações libertárias lesbopunk. “Flowers of Romance” faz parte do disco “Kurious Eyes” (2016).


Mar de Lobos (Iperó)

Formada em 2013 e hoje com Kaue Marques (baixo), Judy Rocha (vocal), Bruno Canal (guitarra) e Yuri Naoto (bateria) a banda que se identifica como “algo entre tropical grunge post-hardcore screamo punk suburbano” já lançou um EP e um álbum. “Acenda” faz parte do disco “Criaterra” (2019).


Nada de Novo no Front (São Jose do Rio Preto)

Powertrio formado em 2018 por Rafael Nascimento (guitarra, vocal), Taiane Campos (baixo, vocal) e Caio RPS (bateria). A banda tem algumas músicas que podem ser ouvidas no seu canal do Youtube.


Pinscher Attack (Monte Azul Paulista)

Duo de fastcore formado em novembro de 2018 pelo casal Thaysa Zuccherato (bateria) e Danilo Zuccherato (guitarra e voz). Sua discografia é composta pelas “Canil Sessions” (que você pode assistir no Youtube). Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui. “A Carta” faz parte do EP “Suicida” (2018).


S.E.T.I.  (Campinas)

Duo que pira nos samples, reverbs, eletronika e guitarradas. Uns chamam de dreampop, outros de synthpop. É tudo isso e um pouco mais. Formado em 2012 por Roberta Artiolli (voz e sintetizadores) e Bruno Romani (baixo, guitarra e programação), eles já lançaram dois EPs e um álbum. O grupo tirou seu nome da sigla em inglês para “Search for Extraterrestrial Intelligence” (busca por inteligência extraterrestre), utilizada para projetos e pesquisas sobre a vida fora da Terra. “Popfobia” faz parte do disco “Supersimetria” (2018).


S.U.C. (Sádica Utopia Convergente) (São Carlos)

Formada em 2014 e hoje com Letícia (vocal), Egiliane (baixo), André (guitarra) e Guilherme (bateria) a banda de deathgrind já lançou dois EPs e um split ao vivo com P.S.G (Poluição Sonora Gratuita), gravado no 3º Interior Brutal Noise em Sorocaba em 2017. Depois de um hiato, a banda voltou em 2019 e acaba de lançar seu primeiro álbum, “Cartilha da Dor”, que reúne músicas dos EPs anteriores e novas composições dos atuais integrantes. “Corporation’s Slaves (Work for Death)” está no disco “Cartilha da Dor” (2020).


Spiral Guru (Piracicaba)

Formada em 2013 e hoje com Andrea Ruocco (vocal), Samuel Pedrosa (guitarra), José Ribeiro Jr. (baixo) e Alexandre Garcia (bateria), a banda toca stoner com temáticas voltadas à ficção científica, vida extraterrestre, a psicodelia dos anos 60 e o som vintage e pesado dos anos 70. Eles já lançaram três EPs e um álbum. “Holy Mountain” faz parte do disco “Void” (2019).


Tatuajë DiCarpa (São Jose do Rio Preto)

Banda de powerviolence debochado formada em Maio de 2018 por Júlia (vocal), Vitor (guitarra), Rizzutti (baixo e vocal) e Renan (bateria). Eles já lançaram um disco e um split com a banda Prayana de Vitória, ES. Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui. “Bate em nazi” faz parte do disco “Satisfação Garantida ou Foda-se” (2019).


TØSCA (Campinas)

Recentemente formada e hoje com Alica (baixo) e Fran (guitarra), Tosca é uma banda que mescla punk rock com indie com experimental com post-punk e com mais algumas coisas. Até o momento a banda lançou um EP “Não Repara a Bagunça” (2018) e um single. “Na Cidade Inteira” foi lançada como single em Julho de 2019.


Travelling Wave (Piracicaba)

Duo de synthpop formado por Thiago Altafini (guitarra e voz) e Carol Alleoni (voz e synth) que “faz rock para estados alterados de consciência abusando de climas soturnos e ruidosos construídos por camadas de reverbs, guitarras sujas, sintetizadores, vocais assombrados e loops tribais de bateria”. A banda já lançou dois albuns, um EP e vários singles. “The Strike” foi lançada como single em Abril de 2020.


Untraps (Peruíbe)

Duo de de punk rock vegan straight edge formado em 2017 por Geisxe Paula (guitarra, vocal) e Nelsinho Edge (bateria, vocal) . Em 2018 lançaram o primeiro EP, “Mútua”. Suas letras falam sobre “tomar de volta o controle de nossas vidas, introspecção sobre patriarcado, a vida engolida pelo cinza/cidade, veganismo, luta anticapitalista, inspirando formas práticas de luta e resistência”. “Propaganda Homicida” faz parte do EP “Mútua” (2018).


Vermenoise (Sorocaba)

Trio de grindcore formada em 2009 e hoje com Chris (vocal), Victor (guitarra) e Mauro (bateria). No começo a banda tinha um som indefinido e adicionava integrantes convidados e musica biotecnológica experimental em apresentações únicas e diferentes de uma para outra. Em 2017 aconteceram shows em parceria com o 00projeto: projeto, que resultou no split “201964”, lançado em 2019. Em Março de 2020 a banda lançou seu novo EP “O Outro”. “Epitáfio” foi lançada como single em 2019.


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Resenha

Pata – Shit & Blood

Pata é um powertrio de Belo Horizonte, formada em 2017 por Lúcia Vulcano (guitarra e voz), Luís Friche (baixo) e Beatriz Moura (bateria), e no mesmo ano lançaram seu primeiro EP “Wild and Cabeluda”. Em Junho de 2019 lançaram o primeiro disco “Shit & Blood”.

“‘Shit & Blood’ é a construção de um subjetivo feminino que foi concebido com merda e sangue. São dez músicas que constroem a narrativa de uma persona que se tornou mulher – assim como disse Simone de Beauvoir – e está imersa nesse mundo com suas estruturas sufocantes e deterministas”.

Primeiramente, a capa do disco (por Lorena Bonna, também das bandas Whatever Happened to Baby Jane e Roberta de Razão) traz a ilustração de uma mulher sentada no vaso sanitário de um banheiro desarrumado com a calcinha abaixada mostrando um absorvente sujo de sangue e merda (“blood” e “shit” em inglês).

“Shit & Blood” é grunge puro e, assim sendo, é claro que as letras são um tanto pessimistas. O disco começa com “Downer” falando “não diga que eu não avisei!”.

Mas isso não quer dizer que as letras são tristes, se você prestar atenção nas letras de grunge você vê que a maioria é, na verdade, um desabafo. E o que a gente vê no disco todo é um tom de desabafo e deboche, “Selvagem e Cabeluda”, a única música em português do album, mostra bem isso. Entre gritos de “Ô seu bosta! Para de olhar pra minha bunda!”, ela narra o que as mulheres começam a enfrentar na adolescência e têm que aturar a vida toda: os padrões impostos pela sociedade.

“Eu era uma criança e de repente eu era mulher adulta e tinha que fazer coisas que os outros achavam que eu deveria fazer? Feche as pernas, não fale alto, não engorde. Eu quero ser livre, eu quero ser porca, eu quero ser eu. Eu quero destruir o patriarcado”.
Ela é uma das três músicas do disco que tiveram um clipe.

“Downer” foi lançada como single em Abril de 2019, a letra da música tem tudo o que você diz (ou quer dizer) naquele dia bosta quando você já tá exausto da vida acumulada. A barulheira e gritaria ajuda no “descarrego” por que é energizante. Ela também ganhou um clipe, ele segue uma menina-demônia que sai pentelhando todo mundo que ela encontra pela frente.

Algumas músicas têm nomes auto explicativos, além da já citada “Downer”, temos “Life Doesn’t Get Better (It Gets Worse)” e “Therapy Session”.
“I wish you could give up on me. And I could finally give up on myself too”.
Quando você começa a fazer terapia ou quando ela não tá funcionando a frustração é enorme e, acredito que, o sentimento universal. Sempre que ouço essa música lembro de “Therapy” da banda israelense Not On Tour e vice-versa. “After all this, say I need a psychiatrist?!

“Monster” é uma das músicas do disco que mistura várias sonoridades, começa com riffs sujos e guitarras distorcidas pra se tornar uma balada com violão enquanto a letra narra a transformação de uma garotinha em um monstro.
“The years, they passed. But I didn’t. I stood just where I wanted to, just where you need me to. Kneel before your god, before your monster”.

“The Witches” tem um som denso e sombrio e traz a narrativa de vingança das bruxas contra seus opressores.
“Look out for the shadow, you might see something you don’t wanna stare at so long”.

Em Abril de 2020 a banda lançou o clipe da música que começa com imagens de filmes de terror antigos misturadas a imagens ao vivo da banda. A segunda parte do clipe mostra cenas de protestos recentes, protestos contra a brutalidade das injustiças e desigualdades (que ironicamente é recebido com mais brutalidade policial), o que remete à imagem de “bruxas” modernas enquanto, em coro, a letra canta “We are gonna burn your house. We are gonna pray for the Sun. We are gonna make you pay for your crimes and it will be so fun”.

O disco que começa com “I hate every single day I lived so far” termina meio como uma resolução de ano novo com a melancólica e otimista “Next Year”, em um resumo que eu acho que posso descrever como o popular “vamo que vamo”:“Next year everything won’t be the same, I won’t be up all night with my regrets, I will forgive myself and try again”.

“Shit & Blood” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Essa semana a banda lançou a música “blsnr pnt mrch”.