Bus Ride Notes

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Resenha

Zero to Hero – breakwalls & buildbridges

Nós raramente publicamos algo perto da data de lançamento, um dos motivos é que publicamos uma vez por semana (tem 52 semanas num ano e centenas de lançamentos), outro motivo é que a gente se embanana tudo com prazos.

Por isso, e vários outros motivos, o formato webzine funciona melhor que o formato site de notícias pra nós. E por isso, também, as vezes a gente atrasa demais um assunto, mas ainda precisamos falar sobre ele. Hoje é outro desses dias.

Bom, primeiramente, pra falarmos de Zero to Hero, precisamos falar sobre emo, esse gênero musical um tanto confuso.

O emo dos anos 2000 que a gente conhece é só uma vertente. Na verdade o emo dos anos 2000 é bem estranho, uma vez vi uma comparação com o metal farofa (ou hair metal) dos anos 80 e achei que fazia todo o sentido: hair metal não é metal, é hard rock e o visual é muito importante. O emo 2000 não é emo, é pop punk e o visual também é muito importante.

Por que as pessoas chamavam todo um gênero musical pelo nome de outro gênero sonoramente muito diferente, nunca iremos saber.

Dito isso, o emo é bem distinto em cada década, nos anos 80 é mais hardcore, nos anos 90 é bem melódico e misturado com math rock, nos anos 2000 é o que todos conhecemos e a partir daí rolou um revival inspirado no som dos anos 90 com um toque de indie rock.

Se você for pesquisar sobre isso vai se divertir, tem bandas incríveis, incluindo muitas bandas brasileiras. Aliás, algumas delas estarão no terceiro volume da Discografia Caipirópolis.

Zero to Hero se encaixa em quase todas as categorias acima, e “breakwalls & buildbridges” (2019) faz parte da nova leva de sons inspirados no emo anos 90, ou “real emo” como alguns chamam.

O disco foi pensado pra cuidadosamente se encaixar num gênero musical, vemos isso antes mesmo de ouvir, em nomes de faixas como “emotional flatlining”, “being lost is part of getting there” e “only cowards skip interludes”.

As letras cantadas em inglês com vocal e aquele timbre de guitarra um tanto agudo caracterizam esse disco junto do som muito melódico em todas as faixas, das aceleradas às mais lentas.

O conteúdo das letras é diverso, algumas falam sobre relacionamentos.

“And I try so hard to do whats right for you and me but I’m always wrong, and being lost is part of getting there”.

Outras falam sobre saúde emocional, como “anxiety”, uma das minhas músicas preferidas do disco.

“It’s like she’s singing inside your head except she doesn’t know how it goes. She keeps humming out so loud, just gibberish, there’s no lyrics at all”.

E a gente associa emo à tristeza pela maneira como o emo 2000 foi comercializado, mas não é um gênero triste. É, sim, bem sentimental “sem vergonha de demonstrar”.

“I ask myself why my senses are so numb and in my core I know that I am so dull. Hard to feel love, most days I feel nothing at all, the only emotion I’m in touch with is sadness after all”.

A banda de Taubaté, SP, formada por Pedro Cursino (baixo, voz), Danilo Camargo (guitarra, voz) e Nicolas Brown (bateria) lançou o single “queen of ashes” em fevereiro de 2021 e recentemente participaram do EP ”Isolation” da Decline com um feat. na música “Summer 2”.

Ouça Zero to Hero no Bandcamp e nas plataformas de stream.


Resenha

Sobre o dia em que ouvi o disco “Sintoma”, da In Venus

Esse tem sido o ano que mais tenho lido resenhas. Isso é ótimo, mostra que as pessoas continuam criando, “apesar de você”. E hoje chegou meu dia de fazer minha primeira resenha pra valer. Não sei usar os nomes corretos, os gêneros musicais, descrever panoramas e apostas. Então vou usar o estilo “Mama Rachmuth” e resenhar com o coração. Com atropelo, com a paixão das coisas, com o que atravessa a gente quando ouvimos a música que nos toca.

E essa resenha é, nada mais nada menos, do que do disco mais esperado desse ano. Não importa o tipo de música que você ouve dentro do punk, a bolachona da In Venus é o gatilho mais foda que tá rolando, que rememora os dias de shows e encontros. E que prepara o coração pros dias que virão, cheios de raiva e afeto.

Acho que falar desse disco é falar do que queremos pro punk que vivemos. Porque eu sei que você também quer mais autonomia e controle da música que você cria, mais trocas nas relações e espaços que fazem parte desse meio. Falar desse disco é falar do quanto precisamos da arte punk, dos fazeres coletivos, das construções fugindo de algoritmos. Mas também é falar de acesso, de quem pode pagar, da música enquanto produto. É um disco pra gente repensar o que temos feito enquanto comunidade.

Em abril as músicas já estavam rolando na internet, parte da arte do disco também. E aos poucos foram aparecendo entrevistas e o disco foi criando uma forma na cabeça de quem estava ouvindo devagarzinho e esperando o físico sair. Tenho certeza que nesse momento as músicas passaram por muita gente e nem ficaram. Não dá mesmo pra separar a música punk de todo resto. Eu nunca escuto música olhando pro nada, coloco o som e olho a capa, viro pro outro lado, tiro o encarte, olho a capa de novo, procuro a letra pra cantar junto, vi ali que tem participação na música, “Ah, bem que sabia que era ela”, olho a capa de novo, “Que arte mais loca”. Não dá pra ouvir música punk olhando pro nada. Até mesmo na internet, tem sempre que passar um olho na telinha pra ver a imagem e reafirmar a memória e o afeto da coisa.

E foi nesse ritmo que, mesmo escutando meses antes na internet, ouvi pela primeira vez o disco “Sintoma”, da banda In Venus. Sábado agora chegou a bolacha toda linda aqui em casa e vou tentar juntar tudo isso que eu queria falar com a pira de ouvir na vitrola.

Capa perfeita do disco “Sintoma”, da In Venus

Quando abri o pacote e vi aquela capa enorme, deu um misto de “Que foda!” com “Que punk!” porque é bem essa ideia que esse disco traz, algo esteticamente incrível que só um LP dá, com a confusão e beleza das cores e forma da colagem da capa. Arte feita por Erikat, da Coletiva Formas, que tem uma história massa por trás, algo como uma intervenção com os livros que cada uma da banda deu pra ela envolver a coisa toda. Eu li na resenha que saiu na Música Pavê, lê lá.

E aí não soube o que fazer primeiro, as letras estão impressas num poster gigante, já coloquei no chão igual um mapa, botei a bolacha na vitrola e a mágica aconteceu.

A primeira música já vem com uma rasteira, “Hen to Pan” fala sobre oroboro, a serpente comendo o próprio rabo, na hora lembrei da zine da Ju Gama. A roda da existência, esse é o nosso rolê nessa vida, nada perfeitinho e vivendo as glórias e tristezas disso tudo. O som é frenético, um ritmo alucinado, se eu fizesse um filme colocaria essa música na cena correndo num beco escuro, com uma faca na mão, que é a melhor descrição de viver que existe. É pós punk? Não sei, pra mim é punk.

A segunda é “Ninguém se Importa”, quase um anúncio dos anos de pandemia nesse Brasil governado por fascistas. “Tá tudo uma merda, e não é só pra mim, é pra mim e pra você, então o que fazer além de reclamar e divagar? Às vezes tenho vontade de gritar!”. Caraca, quem não tá com vontade de cantar esses versos num show? A música tem um pegada Mercenárias que amo.

Depois vem a “Quatro Segundos” e nossa, já veio um manguetown na cabeça, aquele sonzinho do agogô no fundo é lindo. A própria letra e a forma como ela foi colocada ali dá esse climão Chico e dedo na ferida. “O paladar, a gula e o prazer só pra quem detém o poder”. Eu tô na terceira música e já tomei vários tapas, volto pro mapa no chão e rio sozinho de tão foda que é.

Aí vem “Cores”, que pra mim é mais forte do disco. Porque ela é denúncia, mas ela também é muito reconhecimento da existência e luta, que é diária. É tipo hino, e como todo hino é ferida, mas é levante também. A mais foda.

“Bordas” é a ultima do lado A, e nessa hora eu já tô tão dentro do disco que acho que elas criaram seu próprio movimento e sonoridade e não consigo mais comparar com nenhuma banda, as músicas se parecem com In Venus e é isso hehe. Eu danço fácil essa, sem passinho definido, só na levada da coisa. “Bordas” fala de propriedade, território e toda essa ideia merda que vem sustentando modos de vida sem sentido algum, que só gera morte. Quando a música acaba rola uma parte de outra música e Rodrigo falando “Quebrou a corda”.

Amo esses extras de fim de música, na moral <3

E essa beleza de bolacha?

Hora de virar o disco. É um 180g translúcido, pesadinho e lindo de ver. Veio também um poster incrível feito por Rodrigo Lima e Erikat, uma intervenção em cima de alguns trampos já feitos pela Coletiva Formas. Digno de emoldurar e jogar pra cima da parede. Eu já imaginei um lambe foda dele pela cidade, em preto e branco e com as rugas de dobrado na cola.

A sexta faixa se chama “Ansiedade” e acho que ninguém vai escapar dessa. É a minha dor e vida nesses últimos anos, e acredito que a sua também. O baixo é lindo, difícil não se deixar levar por ele em todas as músicas. No show vou ficar do lado da Patricia só pra ouvir ele batendo no coração.

Depois vem “Silêncio”, o baixo aqui tá lindo também e junta com um synth (eu acho) bem no destaque. Quase hipnotizante, só que com a energia lá em cima. Tipo transe né, essa é pra escutar bem alto.

“Velocidade Líquida” vem no mesmo clima, guitarrinha dando um loop na sua mente, bateria frenética. Batera que, por sinal, deu uma identidade perfeita no disco. A real é que cada instrumento ali se fez de um jeito único.

E aí vem “Hipócritas”, a música mais música, a letra mais letra. Já aproveita que aumentou o volume nas de antes e se acaba nessa, que tem o sax do Rafael Nyari, quase desconcertante. Pega o encarte e canta junto, essa é de tomar tapa, eu e você.

E quando olho já é a última do disco, “Ancestrais”. Pesadíssima, fala sobre ancestralidade e formas de vida que se perdem, ou melhor, são destruídas pelo branco capital. Ela tem participação de Renato Kuaray, que também participa da composição da música. Essa é linda demais, fecha o disco de uma forma incrível, junto com um quase som-imagem, daqueles que você fecha o olho e imagina a dança e a vida se fazendo.

Encarte tamanho mapa, capa e pôster tamanho lindo

“Sintoma” foi lançado pela No gods, No masters e parte da pré-venda foi revertida pro Vivência na Aldeia, um projeto social de apoio às comunidades indígenas no litoral sul de São Paulo. O disco, a banda, No Gods, No Masters, nós que acreditamos no punk como espaço e momento de pensar outras formas, está tudo ligado e é isso que nos faz comunidade.

E aí, ter essa bolacha em mãos faz a gente pensar em todo esse boom de mídias analógicas e como tem se dado o acesso a elas. É inquestionável a força que a mídia física tem pro punk, a gente poderia cair por cima de mil ideias em torno disso, muito da base que temos do hardcore/punk é sobre ter o controle da nossa música, seja decidindo o que e como criar, até como fazer tudo isso circular e se manter vivo, sem qualquer viés de mercado apontando dedo e enchendo o bolso. É foda demais ver as bandas lançando discos e fitas, a galera criando seus selos. Mas também causa incômodo ver o valor de tudo, não tem como.

Que a gente consiga entender onde estamos nisso, de todas as formas. As bandas continuam lançando CD-R com capinha xerocada, CDs no papelão, gravando em fitas velhas, K7s novas e também em discos maravilhosos como esse da In Venus. Esse é o ponto, criar fora do algoritmo e fazer existir no chão de um show, na troca de mãos, no abraço e no “Que foda, vi o show de vocês e amei, tem material?” e tudo isso acontecer no encontro, longe da tela. Não tem como não ser bom.

Como eu disse lá no começo, pra mim esse é o disco mais esperado do ano, porque esse é o punk mais apaixonante que temos e que queremos que nunca deixe de existir. Vivo e ativo, feito por nós, invertendo a lógica e dançando com a nossa revolta.

Terminei o disco assim, querendo tramar e confabular, derrubar tudo e partir daí.

Porque eles nos devem uma vida.

É claro que devem.

“Sintoma” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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sonhos tomam conta – wierd

“wierd” é o primeiro album de sonhos tomam conta, projeto solo de Lua Viana.

Inicialmente lançado de forma independente, em abril de 2021 ele foi lançado nas plataformas digitais pelo Selo Preto, SP, e também teve uma tiragem limitada em fita cassete pela Longinus Recordings, EUA.

“Entre dissociações e fugas da realidade, ‘wierd’ é um album sobre ciclos. Uma tentativa de canalizar todas as angústias e feridas em um grito de desespero pela própria vida”, diz Lua.

Assim como os dois EPs anteriores, “eu queria ser qualquer outra pessoa” (2020) e “pesadelos” (2020), o disco foi todo escrito, arranjado, gravado, mixado e masterizado por Lua em seu quarto. A arte da capa foi feita por Kaylan Leite.

O som de sonhos tomam conta é influenciado por post-hardcore, shoegaze e blackgaze, e caso você nunca tenha ouvido falar desses sub-gêneros, é um som focado em distorções de guitarra que tenta preencher o ambiente e muitas vezes parece ter sido gravado em um enorme cômodo vazio, assim como em “wierd”. Slowdive, Envy e Deafheaven são alguns nomes que acredito que ajudam a ilustrar.

O disco foi composto no último ano e é desnecessário dizer que esse tempo tem sido emocionalmente brutal pra maioria das pessoas.

“Presa dentro de casa, isolada das pessoas e reabsorta nos próprios pensamentos, em muitos momentos quis acreditar que nada do que estava ao meu redor era real. E, perdida nesses pensamentos, me descolei de meu próprio corpo para flutuar no vazio da minha cabeça, onde meus sentidos não poderiam mais chegar até mim”.

Mas, infelizmente, além disso Lua passou por um período de depressão e com letras em inglês e em português tenta traduzir todos esses sentimentos.

“Esses sonhos vão me maltratar, mas ainda é melhor do que acordar e olhar pra cama vazia, sem rastros de amor que nem eu posso me dar”.

As letras do disco expressam esses sentimentos de cansaço, frustração e angústia que muitas vezes nem conseguimos descrever. Mas ao mesmo tempo elas encontram uma força pra seguir em frente, afinal a vida é feita de ciclos.

“Seus sonhos são a prova de que algo melhor pode vir. Você ainda pode sentir, portanto, ainda existe”.

“Para todas as pessoas que, como eu, se perguntam se vão chegar ao final desse ano vivas, se lembrem que ainda são humanas. Nosso corpo pode ser gelado, mas nosso sangue ainda é quente… Estamos vivos, e enquanto existirmos, vamos sentir tristeza, ódio, felicidade, amor, desespero. E essa é a beleza da nossa humanidade”, conclui Lua.

“wierd” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Punho de Mahin + Sendo Fogo – Racistas Otários Nos Deixem em Paz

Eu não sei quando essa resenha será publicada, mas no momento em que a escrevo, estou dentro de um barril de pólvora chamado América.

A Colômbia pega fogo, o Chile se liberta da constituição de Pinochet; é o mês de um ano do assassinato de George Floyd por policiais norte americanos; semana passada a Polícia Militar de Goiás (estado onde moro) algemou e apontou uma arma pra um ciclista negro sem qualquer motivo aparente; ontem a noite (30 de maio) recebi vídeos que mostram um policial de São Paulo esmurrando o rosto de um jovem negro; garimpeiros atiram nos índios Yanomami e invadem suas terras; e como se não bastasse, fazem dois dias que fomos às ruas, em plena pandemia, protestar contra um governo genocida que assassina brasileiros como se fossemos nada.

É, leitor do futuro, não sei como esse barril de pólvora vai estar quando você ler isso. Espero que já tenha explodido. Por enquanto, continuamos criando e procriando dentro deste barril.

E é nesse contexto que foi criado o split “Racistas Otários Nos Deixem em Paz”, das bandas Punho de Mahin (Natália Matos, Camila Araújo, Paulo Tertuliano, Du Costa) e Sendo Fogo (Robinho, Alemão, Diogo).

A ideia do álbum nasceu no fim de 2020, a convite do projeto Seja Independente ou Morra, Percursos Entre Acordes e Rimas. O projeto, criado pelo 1º Andar Studio & Produções, pretende organizar um calendário de atividades voltadas para a música independente na periferia.

As duas bandas dividem, meio à meio, as seis faixas desse split lançado em 25 de maio de 2021. A gravação, mixagem e masterização ficaram a cargo do 1º Andar Studio & Produções por Kleber Luis. Kurt Pfeffer é responsável pela edição e a arte da capa é de autoria da artista Monica Marques. O nome do álbum referencia a música dos Racionais Mc’s, “Racistas Otários”, do álbum “Holocausto Urbano”.

Como vocês já devem ter sacado, aqui temos 12 minutos de punk rock e hardcore que reúnem letras sobre a violência do racismo à luta dos povos originários da floresta contra a invasão e o genocídio.

A primeira parte do slipt é com a banda Sendo Fogo, e a faixa que abre é “Libertar”. A letra fala sobre as correntes do sistema que aprisiona corpos pretes e clama pela libertação dos indivíduos que são barbarizados pelo racismo estrutural.

Não dá tempo de respirar e já entra a segunda faixa, “Placebo”, falando sobre a apatia e a cura para uma doença inexistente que nos enfiam goela abaixo todo dia. “Não se faça de idiota!”, repete a música nos segundos finais.

“Enterrem Meu Coração na Curva do Rio” é uma pancada sobre a invasão de ruralistas em terras indígenas. Quem diria que o mais selvagem é o homem branco, não é mesmo? A letra questiona quem tem o direito dessa terra chamada Brasil, uma terra invadida e violada continuamente desde 1500.

Aos quatro minutos e vinte segundos de álbum, a banda Punho de Mahin abre a segunda metade do split.

A música “Xingú” continua o grito da faixa anterior e responde o que sobrou da invasão dessa terra Brasil e da devastação ambiental: fumaça e destruição. O descobrimento aqui é tratado pelo nome correto: roubo.

Luiza Mahin é o nome de uma mulher negra, quituteira em Salvador e ex-escrava. É uma figura lendária da resistência negra no Brasil; articulou revoltas de escravos como a Revolta dos Malês e a Sabinada. É ela quem dá nome à banda e à segunda música dessa metade do álbum. “Punho de Mahin” referencia a história de Luiza e as demais mulheres que resistem.

“Racistas Otários Nos Deixem em Paz” termina com a faixa “Navio Negreiro”. Uma triste memória dos negros sequestrados na África e escravizados nas Américas. Seres humanos tratados como mercadoria. A letra cita um desses navios que tinha por nome “Boa Intenção”. O Brasil é de um ironia sádica, né? Esse navio fazia o trajeto Brasil – Angola e transportou cerca de 845 escravos. Desses, desembarcaram vivos no Rio de Janeiro, 769. Também é citado na música um escravo chamado Cosme Damião, que retorna à Angola após uma revolução apenas para ser novamente condenado.

O split das bandas Punho de Mahin e Sendo Fogo é bem curto, mas carrega consigo o peso de séculos de opressão e injustiça. São doze minutos que se espera que reverberem por muitos e muitos anos, semeando a resistência e acendendo esse barril de pólvora chamado América.

“Racistas Otários Nos Deixem em Paz” está disponível nas redes de stream.


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Clandestinas

Clandestinas foi formada em 2017 em Jundiaí, SP por Alline Lola (guitarra, voz), Camila Godoi (contrabaixo, voz) e Natalia Benite (bateria, voz), militantes feministas e LGBTQIA+.

Quando eu ouço Clandestinas, lembro do movimento Riot Grrrl. O Riot Grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.
As primeiras bandas do movimento queriam chamar atenção pra sua mensagem e escolheram a música pra isso.

Clandestinas surgiu “da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas”, e por isso acho que Clandestinas é mais um movimento artístico do que uma banda.

Toda banda é um movimento artístico, mas a escolha de priorizar um pouco a música ou a mensagem ou misturar igualmente é bem sutil, mas a gente enxerga.

Seu primeiro album, “Clandestinas”, foi lançado em 2020. Produzido por Mari Crestani, ele conta com participações de Aline Maria, Luana Hansen e Mariah Duarte.

A gente tá acostumado a ouvir letras políticas no punk e no rap, mas Clandestinas não escolheu um gênero musical e por isso o som é bem distinto, é rock, é punk, é MPB e mais um pouco de inúmeras influências.

A banda também mistura português e inglês na faixa de abertura, “Clandestinas”, e “Lovely Lola” é a única música em inglês do disco.

“Even if she is just my best friend and I must understand another meaning of love”

Sobre as letras é difícil falar, pois é muita informação. Esse é um disco que eu recomendo pra toda pessoa ouvir pelo menos uma vez na vida. “Clandestinas” é um album interessante em muitos aspectos.

“O não lugar me ocupa, o não pertenço me define. A não família me acolhe, a solidão me oprime”

“O nome ‘Clandestinas’ remete a ‘pessoa que vive fora da lei’, na banda o termo surge como essência e traz novos significados: ser clandestina é gritar quando disseram que se deveria estar calada, é amar sem medo e sem pudor quando disseram que seu amor era doentio, é fazer música mesmo achando que não se sabe cantar nem tocar, é estar com outras mulheres e se mover, é ter a consciência de que, para a hetero-cis-normatividade compulsória que rege a sociedade, os corpos e afetos distintos da norma não devem existir”.

Ainda em 2020 a banda participou do curta “Pluma Forte”, nele há um trecho de um show e podemos literalmente ver o formato de militância da banda.

E em janeiro de 2021 a banda lançou seu primeiro clipe, da música “Nenhuma a Menos”, um video que é mais que um clipe e menos que um curta.

“Com as nossas músicas, nossos corpos e nossos afetos, questionamos o machismo, o patriarcado, a hétero-cis-normatividade e o capitalismo. A revolução será feminista & LGBT”.

“Clandestinas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Crasso Sinestésico – Eco

Formada em 2014 em Bom Jesus Dos Perdões, SP, por Diego Fernandes (guitarra, vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria, vocal), Crasso Sinestésico é um duo que toca noise rock, lo-fi, meio garage, meio pós punk.

Em novembro de 2020 eles lançaram seu novo EP, “Eco”, gravado ao vivo em novembro, mixado e masterizado no Estúdio Quadrophenia por Sandro Garcia.

“Eco” tem a sonoridade característica da banda, mas busca também a essência do rock psicodélico e da música brasileira. Mais especificamente é influenciado por Clube da Esquina, Lô Borges, Novos Baianos, Momento 68, Continental Combo, The Beatles e The Velvet Underground.

“As canções retratam a sensação de impotência, elas imprimem não só o período em que vivemos, mas também a atual situação política na qual nos encontramos sitiados”, diz Diego Fernandes.

“Nostalgia” o nome já diz tudo, “Nostalgia do tempo tardio que habita escondido na memória encardida, no limbo da vida”.

“Hospital dos Esquecidos” aborda o descaso e desumanidade nos manicômios (ou hospícios), hospitais psiquiátricos muito populares no século 20.

Segundo o dicionário, ‘diáspora’ significa “dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica” e é disso que se trata a música “Diáspora”, “um vórtice que pega dos remotos tempos até nossa triste atualidade”.

“B.B. King” fala sobre a morte, “Como se deparar com ela e nem ao menos duvidar”.

O disco termina com a instrumental, “Eco”, “O mito de Eco revela que a pior prisão é aquela em que o ser humano não pode expressar o que pensa ou o que sente; é a tortura de conviver com seus pensamentos e sentimentos presos pelo medo ou pelas convenções ameaçadoras”.

“Eco” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Messias Empalado – O Evangelho dos Tempos de Ódio

O nome da banda, Messias Empalado, e do disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”, já diz muito, a descrição “banda LGBTQ formada em 2017 [em São Paulo] com temática anti-cristã, anti-fundamentalismo religioso, contra toda opressão social”, diz ainda mais.

Messias Empalado é Vee Wayward (voz), Gustavo Knup (baixo e voz), Karine Profana (teclado) e Letícia Figueiredo (bateria). Em fevereiro de 2020 lançaram seu primeiro disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”.

Ainda segundo a banda, “a força de nossa criação é a blasfêmia, que de maneira alguma é um discurso de ódio ou intolerância religiosa, é tão somente reação contra os representantes religiosos que usam suas crenças e seus interesses pra nos condenar, criar leis pra deixar nossa vida ainda mais à margem e a mercê de todo tipo de exclusões e agressões”.

Estamos mesmo vivendo em tempos de ódio incitado por certos religiosos e isso é um perigo real pra maioria de nós (inclusive pra quem não se sente marginalizado), por isso sinto um certo alívio vendo uma banda falar dedicadamente sobre o assunto. Parece que é algo que quase ninguém dá a devida atenção (talvez isso seja só na minha bolha), ao mesmo tempo em que existe a angústia de “como deixamos chegar a esse ponto?”.

“Sangue de Jesus tem poder. Poder de nos dividir, poder de nos odiar, poder de nos discriminar, poder de nos execrar”.

O som nos remete à estética clássica de igreja, muitas vezes com órgão e canto lírico, é bem dark wave e industrial. A banda também cita como influências EBM, post punk e noise.

“O Messias tão esperado caiu. Reprovou os atos dos líderes, religiões sob sua mortalha, templos de exploração da fé”.

Em 2019 vi um show da banda e minha amiga disse “gostei e não gostei“. Depois de ouvir o disco e entender melhor as letras, eu acho que essa reação é proposital, a banda busca a reação de choque e as vezes um certo repúdio.

“Enforquem os pastores nas tripas dos senhores, cortem as cabeças da Santa Inquisição. Cuspimos em seu livro de abominação” é uma frase bem gráfica (assim como a maioria das literaturas sobre religião organizada).

“Bolsonazi” é a música que resume o disco, ela faz referência a um dos líderes que incita todo esse ódio e violência.

“O sangue tá nas suas mãos, não adianta tentar se esconder… Suas palavras são cheias de ódio. Autoritário, chefe de milícia. Bolsonazi, assassino de viado, Bolsonazi, higienista do caralho, Bolsonazi, tirou os fachos do armário”.

E falando em Bolsonazi, nos shows de bandas com letras políticas sempre rola um grito de “Bolsonaro, vai tomar no cu!” e no show da Messias Empalado, Vee nos ensinou que não devemos desejar coisa boa pra gente ruim. É sempre bom lembrar.

“O Evangelho dos Tempos de Ódio” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Neon Dharmas – Cavalos Selvagens

Neon Dharmas é uma banda de “pós-punk doidão do Rio de Janeiro/Niterói”. Formada em 2017 por Rafael Trevisani (guitarra e voz), Helder Martins (baixo e voz) e Alberto “Tie Dye” (bateria).

Em julho de 2017 eles lançaram o “EP #1” e em Novembro de 2019 lançaram o primeiro disco da banda, “Cavalos Selvagens”. O disco conta com a regravação das cinco músicas do EP e mais seis músicas inéditas. Ele foi lançado online e em K7 pela Oxenti Records.

Dharma, ou darma, é um conceito-chave com múltiplos significados nas religiões indianas. Na minha pesquisa na internet (posso tar errada, me corrijam, por favor) o significado mais amplo e atual disso é: aquilo que mantém elevado. Também é entendido como a missão de vida, o que a pessoa veio para fazer no mundo. “O Dharma budista diz respeito aos ensinamentos do Buddha Gautama, e é uma espécie de guia para a pessoa alcançar a verdade e a compreensão da vida. Pode ser chamado também de ‘lei natural’ ou ‘lei cósmica'”.

Dito isso, quando vi o nome da banda já pensei na maior viagem.

A banda faz letras poéticas e sem amarras, diferente da fala mais direta (tentar ser direto é uma amarra) que eu me acostumei a ouvir nos últimos anos, tanto em letras políticas quanto em puro sentimentalismo. Me fez lembrar de muita coisa que eu ouvia a uns anos atrás.

Isso embalado por um pós-punk meio garage bem lo-fi vira mesmo uma viagem. A capa do disco (por Emerson Folharini) também ajuda a passar essa impressão: uma colagem com cavalos, soldados, multidões, um mapa e a frase “Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado” em um fundo rosa claro com o nome da banda e do disco.

As músicas falam de tudo um pouco, a capa do disco e a faixa que dá nome a ele deixam bem claro que há bastante política aqui, “Lutando por igualdade, contra o ódio e repressão. Cavalos selvagens são gritos da revolução”.

“Gosto de Morte”, com um título bem literal, fala sobre veganismo.

Várias músicas do disco falam sobre um anseio por liberdade “Órfãos da destruição, não vamos nos ajoelhar. Vejo dentro dos seus olhos quem nos traz a mentira. Vejo dentro dos seus olhos quem quer nos controlar”.

Mas a maioria é meio pessimista e fala sobre frustrações. Pós-punk, né?
“Tentando achar caminhos e respostas, vivemos na escuridão, nosso ciclo se fechou”.

Em Setembro de 2020 eles lançaram o primeiro clipe da banda, da música “Cavalos Selvagens”, feito por Leonardo Mariani.

Assim como a capa do disco, o clipe é uma colagem (uma imagem em cima da outra) de imagens da banda ao vivo, cavalos em campos e manifestações da época da ditadura. “Em memória de Carlos Barroso, Walmir Monteiro e William Leite. Eles também foram cavalos selvagens”.

E em 13 de Novembro de 2020 a banda lançou um novo single, “O Vazio”.

“Cavalos Selvagens” está disponível no Bandcamp e redes de stream.


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Split Rosa Idiota + Please Come July

Dezembro de 2019, o fim de uma década. Parece que faz muito tempo né? Na verdade, nem é tanto tempo assim, tá logo ali. E o que aconteceu em dezembro daquele ano? Bom, se você gosta de hardcore, deveria saber que foi o mês em que a Bahia e o Rio de Janeiro fizeram conexão no ótimo Split com Rosa Idiota e Please Come July!

Com oito músicas no total, quatro pra cada, o split foi lançado pela High Fidelity Stereo, em parceria com a Tropical Death, Estopim e Eletric Funeral.

Pra quem gosta de detalhes técnicos, aqui vai o primeiro destaque desse álbum: a qualidade do som. Ambas as bandas foram muito bem gravadas, você consegue ouvir cada detalhe do som direitinho. E os responsáveis por essa produção de primeira estão aqui: o lado do Rosa Idiota foi gravado, mixado e masterizado por Dill Pereira no estúdio Ruído Rosa, em Salvador – BA; Já o lado do Please Come July, ficou por conta de Cris, no estúdio La Cueva, Rio de Janeiro – RJ.

Não tem pra onde fugir da influência do hardcore norte americano dos anos 80 e 90 aqui. Quem abre o Split é “Don’t Disappear”, do Rosa Idiota. Seguida de “Behind Bars”, “Aerophobia” e “The Stars Don’t Care About Us”. As músicas são bem coesas, funcionando muito bem juntas. A minha favorita dessa primeira parte é “Aerophobia”, música pra ficar no repeat. O refrão emociona com “Let’s make a deal and start again. I promise you, you promise me. You lose your fear of flying. Then I lose my fear of falling”.

Esse é o terceiro lançamento da banda, sucedendo Somatic (2018) e Circle (2017). A banda formada em 2015, junta veteranos da cena hardcore brasileira em sua formação: Marcelo Adam (vocal, guitarra), Diego Dill (vocal e guitarra), Fabiano Passos (baixo) e Rodrigo Gagliano (bateria).

Com a deixa da primeira parte do álbum, o Please Come July chega e não deixa a desejar. Lembrando o som do Hüsker Dü, a banda entrega “Running”, “Let’s Start Today”, “Inside” e “Figure Out” sem tirar o pé do acelerador. Acho que vale destacar “Let’s Start Today”, com um final que dá aquela vontade de subir no palco e se jogar em cima de desconhecidos (há quanto tempo isso não acontece, hein?). “Let’s start today. This is something. This feels so right. Let’s start today” é pra cantar junto.

Please Come July, assim como o Rosa Idiota, é uma banda relativamente nova. O grupo foi formado em 2016, no Rio de Janeiro e conta com Marcus Menezes (guitarra, voz), Marcelo Pineschi (baixo) e Gabriel Isidoro (baixo). O álbum que antecede o slipt, é o Life’s Puzzle (2016).

A arte do slipt é assinada por Leo Villas e, diga-se de passagem, é uma belíssima arte. Se houver uma lançamento da versão física desse álbum, essa capa com certeza vai ser uma daquelas que dá gosto de ver na estante.

Rosa Idiota + Please Come July está disponível no Spotify, Deezer, Bandcamp, Youtube, Apple Music e Google Play. Como vocês já devem saber: ouçam, compartilhem com amigos, apoiem as bandas independentes e façam seus próprios rolês.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: hoje

Essa é a segunda parte da nossa matéria sobre a Cosmogonia, se você não viu a primeira, leia aqui antes de começar esse texto.

Hoje formada por Gabi (vocal), Teté (guitarra), Andressa (baixo) e Dani (bateria), em 2017, dez anos após o início do hiato, Cosmogonia voltou e em 8 de Março de 2019 lançaram o EP “Reviva!”.

Sonoramente “Reviva!” é bem parecido com “O Sentir Que Violenta”, o que faz todo sentido, já que foi a última coisa que elas gravaram antes do hiato. As letras continuam tendo foco no empoderamento feminino.

“Grite, fale, jamais desista. Grite, ria, lute e resista que amanhã haverá sua paz, que dias ruins ficaram para trás”.

“Tempo” é a música mais rápida do EP e o clipe dela é o primeiro da Cosmogonia, lançado em 10 de Outubro de 2019, Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ele consiste em imagens ao vivo da banda desde que voltaram.

Abaixo você confere nossa entrevista com a banda:

Acho que podemos começar falando sobre o início da banda. Nenhuma das meninas estava na formação original dos anos 90, né? Como foi a entrada de cada uma?

Atualmente não há nenhuma menina da formação original. A Elis (fundadora) ficou até 2007, quando a banda entrou em hiato. Teté entrou em 2002, Gabi entrou em 2004 e Dani entrou em 2005. Em 2017 revivemos com três integrantes dos anos 2000: Teté, Gabi e Dani (batera) e logo depois Karol (baixista) entrou. No final de 2018 a Karol saiu e entrou o Fernando. Em 2019 a Dani saiu, entrou a Andressa no baixo e o Fernando foi pra batera. Agora, em 2020, a Dani voltou pra bateria e o Fernando saiu.

Teté: Em 2002 eu estudava na escola do menino que tocava bateria na época para a Cosmogonia e também na escola da ex-guitarrista, Raquel. Aí souberam que eu tocava guitarra, me disseram que estavam procurando uma mina guitarrista. Foi aí que conheci a banda, mas cheguei a enrolar um pouco pra ir fazer o teste por insegurança. Quando finalmente criei coragem, fui e foi perfeito. Me apaixonei pelas meninas, por tocar com elas, pela história da banda e aí me disseram que já tínhamos um show marcado no Hangar 110, que na época era o sonho de qualquer banda da cena, né? Então minha entrada já foi logo de cara tocando num show do Hangar!

Gabi: Eu entrei pouco depois em 2004, já tinha relacionamento com a banda desde 98 e morávamos no mesmo bairro. Quando recebi o convite de fazer um teste para tocar nessa formação dos anos 2000, apenas a fundadora Elis, estava na banda. Nessa época, também contávamos com o Paulo, que integrava a lendária banda Punk Atitude.

Andressa: A minha entrada foi com uma responsabilidade enorme. Eu estava entrando em uma banda que tem uma puta história, e que eu curtia muito. Fora isso, eu estava substituindo a Karol, que é uma excelente baixista, com uma base musical maravilhosa. Eu tinha a obrigação de estudar pra me sair bem. Tanto que, quando fui convidada a primeira vez pela Gabi, fiquei com muito receio de não estar no mesmo nível. Mas depois de pensar direito, voltei atrás e deu muito certo. Isso foi ano passado, 2019.

Fernando: O Fernando já era amigo da Teté de muitos anos e quando a Karol saiu da banda, chamamos ele pra nos ajudar e cumprir a agenda de shows. Não conseguimos achar nenhuma baixista e ele foi continuando com a gente. Quando a Andressa assumiu o baixo, o Fernando foi pra batera, substituindo nossos dois amigos Roberto e Nautilus, que estavam se revezando como substitutos da Dani.

E como é manter a banda mesmo sem ninguém da formação original?

Inicialmente, achávamos que não faria sentido a banda sem a Elis. Porém, ela mesma nos incentivou a retornar e nos lembrou que a Cosmogonia sempre foi uma banda aberta à novas integrantes e que ao longo dos anos, muitas meninas passaram pela banda e deixaram sua marca, experiência de vida e luta. A particularidade mais importante da Cosmogonia é resistir ao longo dos anos e trazer a vivência de diversas mulheres, que são unidas em torno do mesmo propósito. Apesar da Elis não estar presencialmente na banda, ela é também um membro que mantemos contato constante e que nos aconselha, dá opiniões, apoia e é responsável por muita coisa que fizemos desde o retorno.

Vocês fizeram um hiato em 2007, né? O que esse hiato representou para vocês?

Em 2007 cada integrante da época estava passando por coisas diversas em suas vidas pessoais que foi impossibilitando de conseguirem conciliar com a banda. Além da questão financeira que era complicada para todas (pagar ensaio, transporte, manutenção de instrumentos, etc), havia também trabalho, estudo, filhos e família. Então o hiato representou um tempo que precisávamos naquela época, para ser mais compatível com a nossa condição de vida daquele momento e com as dificuldades financeiras e psicológicas que cada uma enfrentava.  Esse tempo foi extremamente triste, pois sempre sentimos muita saudade da banda em si e de estarmos em uma banda. E nesse tempo, algumas de nós tivemos que lidar com relacionamentos abusivos, violência doméstica, dentre tantas outras coisas que as pessoas não enxergam em vidas que não estão expostas de alguma forma.

Como vocês decidiram que era hora de voltar?

Em 2017, após um período maior sem se verem, Gabi e Teté se reencontraram num show e como elas sempre sentiram saudades de tocar, mencionaram que seria legal montarem uma banda. De longe a Elis percebeu essa movimentação entre as duas, e também estava muito ligada na movimentação das mulheres no cenário underground, que aumentava a cada dia. Ela então nos reuniu em um grupo de Whatsapp e praticamente exigiu que voltássemos com a banda, mesmo sem ela, que mora no exterior.

No Bandcamp da Cosmogonia a gente percebe que todos os álbuns ali são bem curtos. Existe algum motivo pra essa escolha?

Cosmogonia é uma banda que nasceu na periferia e bandas de periferia, mais ainda, bandas com mulheres sempre foram invisibilizadas pela falta de recursos e também pelo próprio machismo e misoginia, que também existem na música e na cena punk/hardcore. Sempre dependemos do corre de cada uma, dos amigos de outras bandas e de coletivos que se juntavam para gravar coletâneas (no início ainda em fitas K7). Nunca tivemos grana pra bancar gravação, produção e até o final dos anos 90, a produção de tudo foi com o “faça você mesma”. Em 2006 lançamos um single, que conseguimos gravar graças a um cachê que nos foi dado de um show. Agora em 2019 lançamos um EP gravado pelo projeto Experiência Family Mob. Fomos selecionadas para participar do projeto, o que nos possibilitou a gravação. A mixagem e masterização foi arcada com nossos próprios recursos e venda de merch.

O que vocês têm escutado nos últimos tempos?

Gabi: Eu tenho ouvido muito folk, bandas clássicas de hardcore dos anos 90, algumas bandas novas e bandas que carrego em playlists ao longo dos anos, como Converge, Million Dead, Pennywise, bandas nacionais como Bioma e Miêta.

Teté: Hardcore sempre! Desde os clássicos que sempre me acompanham (Pennywise, NOFX, Bad Religion) até bandas nacionais: Mar Morto, Garage Fuzz, Bioma.

Andressa: Eu sou extremamente eclética, por mais que dizer isso pareça clichê. Nacional tenho escutado bastante Violet Soda, Miami Tiger, Hayz, Radical Karma. Internacional tenho um carinho mais que especial por uma cantora pop, a Dua Lipa. Acho a sonoridade e influências dela do Disco no último álbum maravilhosas, principalmente no baixo haha. Também o álbum solo da Hayley Williams, tá bem “diferentão”.

O gosto musical de vocês mudou muito do começo da banda até agora? Como vocês incrementam essas influências no som de vocês?

Teté: O gosto continua bem parecido. Claro que sempre surgem bandas novas, mas até hoje ouço praticamente tudo o que eu ouvia desde que entrei na banda. Para compor, obviamente trago todas as coisas que ouço, porém é algo bem espontâneo. Desde que comecei a tocar guitarra, sempre gostei de criar bases e riffs muito mais do que ficar tirando músicas e aí as brincadeirinhas na guitarra vão se transformando em som.

Gabi: Minhas experiências e influências para compor são vivências de silenciamento, violência doméstica e o sentimento de como eu gostaria de que as coisas fossem diferentes na sociedade em que vivemos.

Andressa: Eu comecei a ouvir mais hardcore. Eu sempre escutei um rock alternativo, muita coisa de pop rock e pop. Acho que sou a única a ter influências totalmente diferentes. E isso que é o interessante de fazer parte de uma banda, poder criar coisas novas juntando um pouco de cada gosto, cada influência. Cada um coloca uma pitada do que curte. Eu depois que entrei já andei dando umas pequenas modificadas no baixo nos shows.

Estamos num momento de bastante ebulição em questões políticas e sociais, com os protestos tomando conta dos Estados Unidos e agora estourando de volta no resto do mundo. As letras da Cosmogonia sempre fizeram questão de falar abertamente de assuntos assim, principalmente na questão feminista. Como a obra da banda se comunica com um momento tão intenso como o que está acontecendo agora?

Gabi: Cosmogonia sempre foi uma banda de periferia, de mulheres guerreiras que sempre tiveram que correr atrás pra se sustentar, sustentar filhos, família, a si próprias, levar o feminismo para aquelas que nunca puderam falar e se expressar. Falar dessas experiências coletivas e individuais é um ato político. Desde as criações antigas até as novas, sempre levamos a contestação do quanto é difícil a sobrevivência das mulheres na sociedade. Ser mulher é um ato político.

Teté: Estamos num momento em que fica cada vez mais exposto o engano do capitalismo: ele não é um sistema para todos e nós, mulheres, vemos, vivenciamos e sentimos na pele isso todos os dias. Como disse Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Como o próprio capitalismo coloca em xeque o tempo todo as questões das minorias, que no sentido quantitativo é a maioria, fica cada vez mais difícil aceitar as condições que esse sistema nos impõe. Como a banda e suas integrantes ao longo dos tempos sempre fizeram parte dessas minorias, não apenas por serem mulheres, todas essas pautas estiveram sempre presentes nas letras, canções e ideais.

E como vocês observam a evolução de debates assim na cena underground durante a trajetória da banda?

Sempre houve a invisibilização de atos e atividades lideradas por mulheres ao longo da história, e no cenário underground não é diferente. E hoje, mesmo que com uma visibilidade um pouco maior por conta das mídias sociais, ainda estamos em uma posição de falar para nós mesmas, de criarmos nossos espaços paralelos porque ainda há muita resistência de estarmos igualmente nos espaços “comuns”, que são majoritariamente masculinos. E o que mais chama a atenção é que as poucas pessoas que parecem estar preocupadas com a maior visibilidade dessas minorias em canais de divulgação, somente fazem isso para não se sentirem cobradas e não por acreditarem e respeitarem o nosso trabalho.

Há uma comunicação com outras bandas Riot Grrrl em outros estados?

Sim, sempre. No passado, mesmo antes da internet e depois, quando só poucos tinham acesso, as bandas de mulheres sempre se comunicaram. Cosmogonia tocou em diversos estados antes dos anos 2000 e também trazia as bandas de mulheres de outros locais para tocar em São Paulo. Mas com a internet, foi possível ampliar muito essa rede e união.

Em tempos de quarentena, como estão os projetos futuros?

Fica um pouco complicado pensar em futuro nesse momento. Acho que o foco maior agora é sobreviver a essa pandemia e a esse desgoverno. Sobreviver financeiramente e emocionalmente. Mas estamos compondo remotamente e nos falando diariamente.

Gostariam de dizer algo para as demais mulheres que estão ou querem entrar numa banda?

Quando o assunto é mulheres assumindo papéis em projetos, o direcionamento é sempre insistência, persistência e paciência. Nada acontece da noite para o dia, e, principalmente para nós mulheres os obstáculos são maiores. É importante buscar redes de apoio com as mulheres que já fazem qualquer tipo de trabalho artístico.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.