Bus Ride Notes

Date archives março 2020

Resenha

Pretos Novos de Santa Rita – Se Chegar na Esquina é Checkpoint

Será que vai sobrar algo amanhã?: Uma resenha de “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”, a estreia dos Pretos Novos de Santa Rita.

Pretos Novos de Santa Rita são Bing (vocal), Gênesis (bateria), Sonic (baixo) e Ton (guitarra). Em 2019, o grupo carioca botou a cara na cena com o EP “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”. O trabalho foi gravado no estúdio Fluxroom e produzido por Philip Sanchez.

Em entrevista ao Nada Pop, Bing explica que o nome do grupo, tirado de uma estação do VLT que liga a região portuária e o centro histórico do Rio, evidencia a cultura negra e a posição de não se furtar da responsabilidade que é carregar essa bandeira em suas músicas nesses tempos de resistência.

O nome da estação Pretos Novos/Santa Rita homenageia o cemitério onde escravos eram enterrados próximo a igreja de Santa Rita, no Rio. O Rio, que inclusive, alcançou a marca de 885 mortos em ações policiais no primeiro semestre de 2019. Desses 885, 711 eram negros ou pardos. A Cidade Maravilhosa continua enterrando mais e mais corpos negros, não se sabe, porém, se esses 711 serão homenageados com estações, praças ou ruas.

Com apenas cinco músicas e muita poesia nas letras sobre o amor, o ódio e a vida na sua forma mais crua, “Se Chegar…” é um belo encontro entre o trap/rap com o jazz que remete à sons como Tyler The Creator e Nill. A primeira música “Jazzada” é de um groove hipnotizante embalado pelos versos de Bing. “Acaba o show. Só os pretos vêm e agradecem. Se eu rezasse, eu pediria isso nas minhas preces”, abre a faixa.

Em “Ouvindo Of” o dedo já vai direto na ferida. Dramas familiares, sexualidade, paixões e frustrações aflorando mas sem nunca perder o deboche. “Eu vou rir mesmo, foda-se. Esqueço das merdas e acho graça das coisas. Mas dentro tô que nem frozen”. Mantra de quem sabe o que é marcar um Checkpoint em cada esquina no caminho.

Na faixa “Slowfunkmetal”, apesar dos instrumentais que parecem ter saído de um sonho, Bing não perde a oportunidade de alfinetar figuras conhecidas da cena do trap/rap nacional. O recado fica dado em trechos como “Raffa vai ficar rico com sua burrice no Insta. Lamentável IIIx achar que o Froid é terraplanista”.

Fica aqui o destaque para a banda que providencia o “morde-assopra” das músicas, trazendo a atmosfera leve e até sensual que serve de base para as pedradas que Bing dispara nas letras. Não se engane, não: se você se descuidar, periga perder o ponto aqui . “Não sou filho da sua mãe. Não encosta no meu black. Eu sou artista mermão”, diz a letra de Slowfunkmetal.

“Janela”, a melhor do EP, é de uma sinceridade brutal sobre a relação entre paternidade e maturidade. É prestar atenção para sair catando as referências espalhadas na letra: aqui tem Kendrick Lamar, filosofia, cinema e Samba. Mas, de novo, nada disso tenta mascarar a dor guardada nas letras. “Todo dia eu acordo, puta que pariu. É o peso do mundo todo, bala de fuzil. Viagem no tempo podia rolar, ia ser da hora. Mandar um e-mail pro meu pai: na moral, goza fora”, desabafa Bing.

O EP se encerra com “Te Traz de Volta” deixando aquela sensação de desconforto e inquietação. Os Pretos Novos de Santa Rita fazem questão de pôr tudo à mesa, sem muitos rodeios. O amor não fica ileso das tretas que nos cercam e que carregamos desde o nascimento, as coisas não estão tão distantes assim em “Se Chegar…”. Antes de tudo, o amor aqui é real, é cru. Não esquece: “Dorme bem, que já vem o amanhã e nada vai sobrar”.


Resenha

DEF – Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)

Meu coração anda mais apertado que os trens da central: a DEF retorna triunfante na segunda parte de “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia”.

Três anos após surgir com o EP “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 1)”, lançado pela finada Bichano Records, a DEF está de volta com a segunda parte do trabalho. “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)” foi lançado em Setembro de 2019, dessa vez pela PWR Records.

Agora um quarteto, a banda carioca conta com Deborah F. (guitarra, voz, violão, teclado), Eduarda Ribeiro (voz, guitarra), Dennis Santos (bateria) e Victor Oliver (baixo). Já fica aqui o primeiro destaque do álbum: a nova formação da banda se mostra afiadíssima alternando entre momentos serenos e dançantes, sem perder a beleza das melodias.

O espaço de tempo entre um lançamento e outro parece ter feito bem ao amadurecimento e sofisticação do som do grupo, e isso fica explícito logo na primeira faixa.

“Alarmes de Incêndio” foi o primeiro single do novo álbum, com direito à videoclipe. Talvez seja a faixa que mais lembra a parte 1 de “Sobre os Prédios…”, porém, aqui a banda já dá sinais de maior confiança para explorar o próprio som.

Deborah narra momentos inquietantes em que incêndios irrompem dentro de nós, a sensação de sufocar em si mesmo e de se perder em lugares antes tão comuns.
“Meu coração anda mais apertado que os trens da central”, canta a vocalista acompanhada da explosiva bateria de Dennis Santos.

A segunda faixa, “Descanso”, é um belíssimo e breve instrumental de violão que suavemente deságua em “A Cidade em que Apenas eu Existo”. O nome da faixa foi tirado do anime “Boku Dake ga Inai Machi”, lançado em em 2016. Aqui vemos Deborah se firmar como a letrista de expressões intensas que já se anunciava desde o primeiro EP.

A angústia em meio a prédios e ruas, e o sentimento de urgência para salvar o dia nesse emaranhado urbano acompanha todo o álbum. As letras soam como cartas brutalmente sinceras e confessionais e, no seu tom monótono, Deborah parece se dirigir a si mesma em diversos momentos sem medo de soar vulnerável, “como quem põe Deus para descansar”.

“Nada” é um exemplo do potencial letrista de Deborah, compositora de todas as músicas, exceto “Sardas”. Assinada por Eduarda Ribeiro, essa é uma ótima surpresa no meio do álbum. As estações do ano recebem o peso de uma tonelada quando o refrão marcante reivindica “a calma de ter mais um verão”.

A banda pode até ter puxado o freio nas distorções que ouvíamos em músicas como “Bad Trip” do primeiro EP, mas agora põe o pé em recursos eletrônicos (como nos teclados de “Sardas”) e mergulha fundo nas melodias com as duas guitarras da nova formação.

“Casa (Paulo)” é  um ponto fora da curva cravado entre as demais músicas do álbum, e isso não é ruim! A banda parece ter guardado as melodias mais criativas para as faixas finais.  O baixo à la The Smiths brilha e também não dá trégua na faixa seguinte, “Abutre”.

“Paraquedas (Boddah)” segue com vocais emendados num tocante spoken word, marca registrada da leva de bandas do emo brasileiro saídas da Bichano Records.

A última música é “Arranha-Céu”, uma das mais belas já feitas pela banda. Enquanto esbarra em prédios altos, Deb continua se questionando sobre os céus e os medos que descem de lá. “Mas se o avião me atropelar? Se meu amor não souber voar?”, questiona.

A parte mais difícil de salvar o dia derrubando prédios é que no dia seguinte teremos de encarar os escombros deixados por nós mesmos ali. “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)” reconhece isso em cada uma de suas músicas. Reconhece que salvar o dia também é conseguir um refúgio para respirar em paz, longe desse ar que às vezes parece ser feito de chumbo e concreto.

A arte da capa é assinada por Virgínia Moura, a mesma ilustradora do primeiro EP. A mixagem, masterização e gravação tem novamente a assinatura de Pedro Garcia (Planet Hemp/ Estúdio Canto dos Trilhos), além da própria Deborah F.


Resenha

Zeitgeist – A Dança dos Mortos

FOTO: JÉSSIKA LIMA

Existem poucos segundos entre o início de uma música e o turbilhão instrumental que atropela os nossos ouvidos. O som que sacode e derruba  tudo ao redor logo recebe os vocais dilacerantes de David Dória, também responsável pelas guitarras. Acompanhado por Paulo Bruno (baixo) e Matheus Porto (bateria), o turbilhão toma a forma de Zeitgeist, banda aracajuense que em “A Dança dos Mortos” faz seu terceiro lançamento.

Zeitgeist é uma expressão em alemão que pode ser traduzida como “espírito de um tempo”. O nome da banda faz jus ao Brasil de 2019 (ano em que foi lançado o álbum) e as letras das músicas não deixam dúvidas. O espírito do nosso tempo atual é um espírito de morte. O Brasil fede o cheiro de morte e exige mais e mais mortos. Insaciável, segue dançando a dança dos mortos.

Quantas vezes morremos num dia só? De quantas formas morremos mesmo estando vivos diariamente? Morte pela rotina. Morte por paranoia. “Sou a estagnação que vai acabar comigo”, diz a letra de “Até o Fim”, música que abre o álbum. A primeira parte do álbum parece focar nessas questões, a lenta e constante dança dos mortos que dançamos todos os dias. “Eu não sei se vou suportar. O cansaço vai me matar. Rotina guilhotina” berra o refrão da quarta música, “Guilhotina”.

Destaque para “Not Good Enough”, única faixa em inglês. Apesar de parecer um tanto deslocada no meio das demais músicas pela escolha do idioma, a letra também se encaixa no clima de frustração, raiva e acidez do resto do álbum. “No matter the efford. I’m not good enough”.

A segunda parte do álbum aponta todos os dedos ao retrato do imbecil alt-right que prolifera a Internet, único espaço em que o tipo tem coragem de dar as caras sem armas ou faixa presidencial. Surdos de qualquer senso crítico, poderiam até simpatizar com a letra de “Pátria Amada” sem perceber os dedos apontados para si. “Fora o índio, fora o negro, fora o pobre. Brasil. Pátria amada, idolatrada, salve, salve. Brasil. Meu país, tradição e propriedade”, ironiza a letra.

A mensagem fica ainda mais clara nas músicas “(A Arte de Acreditar que Você Pode Esconder seu Fascismo sob a Máscara da) Opinião”, e “Retroceder Adiante”. Nessa última, David Dória assume a persona de um típico machão internauta que se intitula anarco-capitalista  mesmo sem capital.

Tão abrupto quanto se inicia, o álbum termina em “Depois do Fim”. São 12 músicas, a mais longa durando 3 minutos. “A Dança dos Mortos” é um álbum direto e impiedoso, sem espaço para recuos.

A capa foi ilustrada por Canijan Oliveira e faz referências aos nossos monstros cotidianos que dão as mãos na sinistra dança que rege o Brasil. O Curupira veste uma camisa que se assemelha ao uniforme da seleção brasileira, símbolo do golpismo covarde de 2016, um padre e um sujeito armado o acompanham. No centro da ciranda dos monstros, vemos livros sendo atirados à uma fogueira aos pés de uma mulher indígena. O recado foi dado.