Bus Ride Notes
Resenhas

Atentas: o legado de Charlotte Matou um Cara

A Charlotte Matou um Cara foi formada em agosto de 2015 em São Paulo por Andrea (vocalista), Dori (baterista), Camila (baixista) e Nina (guitarrista), e se destacaram na cena pela atitude e pelas letras combatentes. 

Inspiradas em Charlotte Corday, pelo movimento riot girrrl e pelo feminismo interseccional, a banda lançou um álbum homônimo em 2017 e, em 2021, criou um financiamento coletivo para lançar “Atentas”, segundo disco de sua trajetória.  

“Atentas” foi lançado em outubro daquele ano, tem 10 faixas e aproximadamente 23 minutos, porque é um disco punk como deve ser: direto, sem meias palavras. Tanto que já começa com Andrea gritando, em alto e bom som, “Você quer me matar”, na faixa que leva este nome, e termina com outro grito: “Eu vou te ver queimar”, mostrando desde o início que o tom aqui não é apenas expor os problemas e sim lutar contra eles. Estamos vivas, apesar de vocês. 

Aliás, o clamor por uma revolução social é a pauta presente do disco. A segunda faixa, “Epidemia”, uma crítica direcionada aos falsos religiosos que tomaram conta da política nacional e usam religião para dominar corpos e mentes, termina dizendo que do povo virá a revolução. E não há como ser de outro jeito, a gente sabe e os últimos anos de absurdos validados pela mídia de massa confirma a tese. 

E esses absurdos que ouvimos e vimos nos últimos anos, se ligam ao tema da terceira faixa do disco, “Angry People Click More”, afinal, já é fato comprovado que a extrema direita moderna se esconde por trás de telas.

O disco segue com “Buceta Dentada”, faixa sobre a qual nem consigo falar nada. Só vou deixar a letra aqui: “Me querem em pedaços, bunda, coxa e teta. Me querem bem quietinha, enquanto me violentam. Meu corpo não é dócil e nem é governável. Não vou pedir desculpas por te deixar desconfortável” 

PESADO! 

E como estamos nesse ritmo, “Veneno” já começa afirmando “Todo dia que eu acordo, tenho um direito a menos”. Mais uma faixa que chama as mulheres para lutar por mudanças, “Veneno” é a síntese do sentimento que nós, mulheres, vivenciamos há anos, mas especialmente nos últimos quatro, assistindo à eleição de um homem que já disse para uma mulher, em tom de superioridade, que não a estupraria porque ela não merecia e que vetou uma lei que distribuiria absorventes para pessoas de baixa renda. 

E se falamos deste que não deve ser nomeado, falamos de uma série de homens que acham que estamos ficando mais chatas, por não aceitarmos mais assédio travestido de elogios e piadinhas machistas. “Todas Juntas” é direcionada a eles.  

“Festa Punk” é a mais “leve” do álbum, clamando, de forma descontraída, por mais músicas feitas por mulheres sendo tocadas em festas, trocando Stones por Mercenárias e Beatles por Dominatrix. Aparentemente, inofensiva, é possível ligar a letra da música a uma crítica necessária sobre a falta de mulheres nos line ups de festivas. E não estou falando do mainstream apenas, o underground ainda tem muito o que melhorar nesse aspecto. 

As três últimas músicas do disco, “1964”, “Revolução Popular” e “Atentas” encerram relembrando as mulheres que foram torturadas (algumas foram mortas na ocasião) por lutar por nossos direitos no passado, incluindo a ex-presidente Dilma Rousseff, e a necessidade de nunca esquecermos seus nomes e nem a violência que sofreram, para que as futuras gerações entendam a força da revolução popular, como e porque se deu o mais recente golpe de Estado no Brasil e o quanto o machismo ainda está forte nas raízes deste país que parecia, à primeira vista, tão libertário e progressista tempos atrás. 

“Atentas” foi e é importante por mostrar a força do punk feminista. Foi um disco feito por mulheres, para mulheres, em um financiamento coletivo. E ficará como legado da banda até que um dia, quem sabe, ela volte aos estúdios e palcos com todas as integrantes juntas, já que no início de 2022, a vocalista Andrea se mudou do país e a Charlotte fez seu último show em março, na Fenda 315, em São Paulo. 

Além de pedir as fotos para ilustrar essa resenha, pedi para Paola, mais conhecida como @aminadasbandas, falar sobre o show e ela me mandou essa mensagem, que sintetiza o legado que a Charlotte deixou junto de “Atentas”:

Acho que falar de um show de Charlotte Matou Um Cara é mais do que falar de algumas músicas cantadas. É sobre olhar pro lado e ver todas as minas berrando junto, é sobre sentir a indignação em cada nota tocada, é acolhimento, pertencimento e identificação. A gente sabe que o mundo tá horrível, mas é estar ali na frente, no meio de tanta gente, e se dar conta de que (por pior que esteja) a gente sempre tem alguém pra expressar os nossos sentimentos raivosos da maneira mais direta e sincera possível.


Entrevistas

Entrevista: Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo

Vez ou outra, um álbum se torna o meu “álbum oficial de ouvir no busão”. Nos últimos meses, esse álbum tem sido o primeiro da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. O single “Idas e Vindas do Amor” apareceu aleatoriamente numa daquelas playlists que o Spotify cria de músicas recomendadas e, desde então, a banda não saiu mais do meu fone de ouvido.

Em meados de abril, eu soube que a Sophia Chablau (voz/guitarra), Téo Serson (baixo), Theo Ceccato (bateria) e Vicente Tassara (guitarra/teclados) iriam fazer o primeiro show da banda em Brasília, no Espaço Infinu. Animadíssimo pela volta dos shows com plateia e com as músicas da banda tocando no repeat no meu celular, fui lá entrevistar Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo numa tarde bonita de 24 de abril, horas antes do show (a gente ama escrever sobre bandas que somos fãs, não dava pra perder a chance).

Show esse que, com certeza, vai ficar marcado pra muita gente. Após a apresentação de abertura intimista voz e violão do Kelton, a banda chegou com tudo no palco. O público bem jovem não deixou por menos: cantaram praticamente todas as músicas, formaram rodas punk (há quanto tempo a gente não via uma dessas, ein?) e rolou até a Sophia se jogando do palco direto pra galera.

Brasília andava meio na seca de bons shows assim e Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo mataram essa sede.

Abaixo, você confere um bate papo com a banda sobre o disco, a turnê, Ana Frango Elétrico e muito mais.

Vocês todos já tinham bandas antes de se juntarem, né. A Sophia era da Besouro Mulher, certo?

Sophia: É, eu sou. Ainda toco com eles.

Boto fé, e vocês?

Theo: Eu já toquei em várias bandas, mas hoje em dia toco só nessa.

Vicente: Eu e o Theo temos uma outra banda, chamada Pelados.

Téo: Ah, eu tenho uma com a minha namorada, É Menos Clichê Que Isso.

Vicente: Na verdade a gente tinha várias bandas. O Téo e o Theo tocam há muito tempo juntos. Já tiveram, sei lá, dez bandas diferentes.

E como é que vocês se juntaram?

Sophia: Eu, Theo e Vicente fomos para o Rio de Janeiro conhecer as bandas de lá (em 2018). Aí o negócio é o seguinte, conheci a Ana Frango Elétrico e o Santiago Perlingeiro, produtor dela. Ele falou pra mim: “Eu vou arranjar um show pra você no Rio, você quer?”, eu falei “Quero”.

Show solo?

Sophia: É, show solo. E aí, eu precisava de uma banda pra me acompanhar, a gente já tinha viajado e tal. Falei com o Théo e ele falou “Pô, tem a Uma Enorme Perda de Tempo”, que eram os três, e aí a gente se juntou pra fazer esse show. Por isso que é Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. E aí, fizemos esse show no Rio de Janeiro. Foi essencial e extraordinário, não porque a gente tocou bem, mas porque foi uma puta vibe.

Théo: E grande parte do show foi repertório do disco mesmo, só não tinha “Delícia/Luxúria” e “Moças e Aeromoças”.

“Não tenha vergonha de escrever uma letra que você acha que é muito romântica e que as pessoas não vão entender, elas vão entender”

Então as músicas do disco já vêm dessa época?

Sophia: Já, rodamos um ano com as músicas do disco em São Paulo e Rio de Janeiro.

Téo: E a gente arranjou elas super rápido, já pensando no show. Não foi tipo “vamos formar uma banda”. A Sophia tinha essas músicas, fizemos um arranjo para o show.

Sophia: A gente não tinha ideia de que iriamos virar nada depois disso.

Téo: Aí depois daquele show, a gente já virou e falou “somos uma banda”.

Vicente: No Rio, um amigo nosso de São Paulo já falou “Vai ter show de vocês na Casa do Mancha”, aí já topamos. Teve esse show e um mês depois a gente já estava gravando “Idas e Vindas”.

Desse encontro até decidir gravar um disco, como foi?

Sophia: Fizemos muito shows, ganhando muito pouco, inclusive. E aí, com esse pouco que a gente ganhava, resolvemos guardar. A gente foi guardando esse dinheiro de, sei lá, treze shows em 2019. Fizemos um show com a Ana lá no Centro Cultural São Paulo. A Ana quando viu o show ficou falando pra mim “Vocês têm um disco, vou produzir seu disco!”.

Eu vi que a Lucinha Turnbull participa de uma música (Moças e Aeromoças), como foi esse encontro?

Theo: A gente estava ouvindo a música e estava faltando alguma coisa, aquele momento da Lucinha, sabe? Aí a Ana falou “Vamos chamar a Lucinha”. Ela foi no estúdio quando a gente estava gravando, rolou uma vibe boa, o santo bateu e ela gravou. Sentou lá a Lucinha com a Ruby, a guitarra dela. A Lucinha é foda.

Vicente: Realmente, a chance que a gente teve de ficar na mesma sala com a Lucinha tocando guitarra… é incrível, impressionante.

Vocês gravaram o disco lá em São Paulo?

Sophia: Sim, no Estúdio Canoa.

E como foi a produção da Ana?

Theo: Foi essencial também, foi o grande link da coisa. Tanto de entender o que a gente estava pensando, o que a gente tinha feito pra coisa, quanto colocando realmente uma unidade geral. Foi bem construtivo o trabalho. Se entender, conseguir questionar, se ouvir, fazer o bagulho rodar bem.

Téo: Também foi um bocado de experimental, a Ana tinha produzido só o disco dela.

Foi a primeira produção dela?

Téo: Produção que não de um disco dela, sim. Hoje em dia ela já está produzindo várias coisas. Então ela também foi experimentando muito, “Vamos jogar o bumbo pra esquerda”, coisas assim. Ao mesmo tempo, a ideia de gravar o disco era pra fazer uma coisa como a gente tocava nos shows, então tinha que soar um pouco como ao vivo. Teve esse lado mais de estúdio, mas também foi bem pá pum.

Theo: Foram oito, nove dias só. O nono dia teve churrasco e a audição.

Sophia: Uma coisa que acho interessante da produção da Ana é que o “Mormaço Queima” foi produzido por ela e outras três pessoas, e foi tipo assim, doidera produzir com tantas pessoas. Acho que a Ana aprendeu muitas coisas sobre produzir em coletivo em algum ponto ali.

Theo: Uma turma né, porque não só tiveram outros produtores, mas também outros músicos que ela estava gerenciando.

Antes do disco vocês lançaram um single, o “Idas e Vindas do Amor”. Também foi a Ana que produziu?

Sophia: Não teve produtor, foi gravado em um dia.

Como foi a gravação?

Vicente: O Thales Castanheira era assistente de estúdio do Guilherme Jesus. O Gui falou pro Thales: “Você deveria chamar alguém pra fazer uma diária grátis”. E aí ele falou que tinha essa galera que ele conhecia, que estava começando, e ia gravar. A gente foi lá e foi absurdo, a gente tinha dois meses de banda, achei muito louco que deu tudo certo.

Theo: A gente foi lá e tocou o que a gente já fazia nos shows.

Sophia: E nessa época a gente tinha feito, sei lá, três ou quatro shows.

Vicente: Foi muito foda, fazer uma diária em estúdio e gravar um single inteiro.

E o que vocês estavam ouvindo quando vocês gravaram o disco? O que vocês captavam de referências?

Theo: Várias referências, a gente escuta muita música juntos. Cada um tem sua vibe e elas se misturam, a gente entra em vibes coletivas, vibes de dupla, trio. Em certo sentido, cada música tem um mundinho de referências. Então tem de tudo, tem o nosso grande Guilherme Arantes, tem o Caetano, tem Sonic Youth, tem My Bloody Valentine.

Sophia: Tem Mutantes, Nego Léo pra caralho.

Téo: A gente estava ouvindo o “Muito”, do Caetano. Bastante “Loveless” (My Bloody Valentine) também.

Sophia: Os discos da Ana, o “Mormaço Queima”. Acho que o nosso disco tem muito do “Mormaço”, se você escutar ele e o nosso disco, tem tudo a ver. Mais que com o “Little Eletric”.

Téo: O jeito que ela escreve também te influenciou bastante, aquele som meio sujo, orgânico.

Sophia: Tem um lance de composição da Ana que a gente se encontrou. Nós fazíamos coisas muito diferentes uma da outra, agora estamos fazendo coisas mais parecidas. Tem uma troca intensa de vibe entre nós duas, cada vez mais a gente está habitando o mesmo universo.

Vocês se encontram em 2018 e de lá pra cá já rolou single, dois clipes, o disco e agora a turnê. É a primeira turnê de vocês?

Theo: É, a gente só tinha ido pro Rio.

Vocês já passaram por onde nessa turnê?

Vicente: A gente fez Rio de novo, São Paulo, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Campinas, Sorocaba, Piracicaba, Tatuí, Uberaba, Goiânia ontem e agora Brasília. Hoje é o 11º show.

Sophia: Teve mais outros dois shows em São Paulo, a gente tocou no SESC.

A banda no palco da Infinu com o público cantando letra por letra.

E como tá sendo a recepção da galera?

Sophia: Muito foda, impressionante!

Téo: Inesperadamente boa.

Theo: Uma coisa é em São Paulo, lá a gente está em casa. No Rio também. Mas quando você chega em Uberaba e a galera canta o refrão da música é porque o bagulho tá massa.

Sophia: Ou tipo a galera em Campinas, no interior assim, foi muito foda. Juiz de Fora foi animadíssimo, a galera canta tudo. No Spotify não dá pra gente ter noção da realidade total. Uma coisa que eu fico muito chocada é que a galera canta “Moças e Aeromoças” no final comigo ou “Hello”. As vezes são umas letras que não são um puta refrão. “Idas e Vindas” é uma frase, você aprende até no show, mas tem letras maiores que a galera canta junto.

Theo: “Debaixo do Pano” é difícil pra caralho de cantar.

Vicente: Muitas vezes a galera faz o show. A turnê é exigente, tem dias que a gente tá meio exausto, mas depois no show a galera tá cantando junto e a gente fica muito animado, muito feliz.

Theo: E até agora foi 100% de highlights, galera sempre legal, animada.

Voltando um pouquinho pro processo de gravação, como acontecem as composições de vocês? Quem faz o quê?

Sophia: Num primeiro momento, quem escrevia tudo era eu. A única que eu não fiz parte do processo de composição foi a vinheta do Téo, “Se Eu Fiz Uma Não Canção”. Nas outras, até pelo processo de ser o primeiro disco e chamar eles, foi meio assim. Eu ainda continuo compondo a maioria das músicas, mas agora a gente está se consolidando como banda, e nos shows a gente tá tocando música que é só do Vicente. Estamos virando uma banda mais equilibrada.

Téo: A gente está experimentando mais pra compor.

E esse rolê de fazer shows vai mudando a dinâmica né, vão surgindo músicas novas?

Theo: Acho que sim, não necessariamente músicas novas.

Téo: Uma frase de uma passagem de uma música.

Theo: Músicas que a gente está tocando e que não são do disco, ou até são e de vez em quando eu repenso uma parte de bateria. Testo de um jeito e depois faço diferente.

Vicente: A gente estava conversando sobre isso ontem. Você pensa “putz, podia fazer essa coisa aqui diferente“, aí dá errado ou muito certo.

Sophia: E a gente gravou o disco em 2019. Então, da minha parte, a minha voz quando eu tinha 19 anos e agora que eu tenho 22 já não é a mesma voz. Muda muito. Por essa coisa da turnê, da gente fazer muito shows, eu sinto muito essa exigência de dar umas mudadas até pra ficar mais confortável pra mim.

Theo: Sim, até músicas que a gente muda o tom, coisas que depois a gente tem que ir arrumando.

Sophia: A gente gosta muito de arranjar música.

Téo: Diria que é um dos negócios que a gente mais tem prazer, falo pessoalmente. O momento que a gente está lá com uma música que a gente tem que inventar o arranjo, acho muito mais divertido.

Sophia: O arranjo no ensaio e no show não são a mesma coisa. No ensaio é o arranjo entre nós quatro, no show é entre nós e o mundo. A performance é o arranjo dos corpos que estão juntos num espaço.

Vicente: Arranjo chapado (risos).

E os planos futuros?

Vicente: Futuro estratosférico, cara. Mais show, mais gente cantando, mais som.

Mais gravações?

Téo: A gente ia gravar esse ano. Não vai lançar esse ano, mas a gente quer gravar.

Sophia: A gente já tem as músicas.

Téo: E os arranjos, inclusive.

Theo: A gente estava ensaiando pra um dia gravar. Agora é conseguir levar esse disco o mais longe possível.

Sophia: E mudar o nome da banda pra Banda Fogo no Cu (risos).

E daqui a turnê vai pra onde?

Theo: Pra São Paulo, em primeiro lugar é voltar pra casa.

Sophia: E tocar lá com o Antônio Neves, que é um grande cara.

Theo: Grande cara. Não tá tudo confirmado, não fechou tudo, mas provavelmente vai rolar uma coisa meio Sul. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nada confirmado, mas por enquanto esses são os planos.

Sophia: E a gente quer muito sair do circuito Sul e Sudeste.

Theo: A gente quer Nordeste, Norte. Vamo lá galera!

Téo: A gente tem que vencer a barreira da passagem de avião.

Sophia: Sim, a gente veio aqui de louco. A gente não tá aqui pra ganhar dinheiro, o nome da banda mesmo já foi Uma Enorme Perda de Tempo e Dinheiro (risos).

Uma pergunta que a gente sempre gosta de fazer no Bus Ride: o que vocês gostariam de dizer pra galera que está começando agora? Galera que está começando banda?

Sophia: Três coisas que quero falar pras pessoas que estão compondo agora: não tenha vergonha de escrever uma letra que você acha que é muito romântica e que as pessoas não vão entender, elas vão entender. Vai ler poesia, preste atenção nas letras que você gosta. Não tenha medo de ser romântico, dramático, abrir o coração. Não ache que a sua varanda é o mundo todo, as vezes você acha que as pessoas não vão entender, mas você está menosprezando as pessoas, elas entendem.

Vicente: Cola em show, assista todas os shows que você puder, conheça a galera. O ao vivo é a coisa mais importante que tem. Tem uma coisa muito contemporânea de achar que tudo se faz pela internet, tudo se resolve pelo Instagram, mas nada se resolve ali.

Theo: Vou falar que estou achando que tá faltando banda punk de colégio, vamo botar pra quebrar nessa porra.

Téo: Um pouco que tem a ver com o que a Sophia falou: não ter medo de tentar. Escreve uma letra, releia algumas vezes, se escuta, entenda que é um processo e não tenha medo disso. Você escreve uma canção e isso já é uma viagem, no momento que vai pro mundo já é outra viagem. Entra nessa viagem e aprenda a gostar dela. Menos perfeccionismo e mais tesão.

Theo: Não se leve muito a sério, só faz o negócio.

Essa coisa da galera ter medo de escrever coisas românticas demais, vocês têm músicas bem pessoais e fortes nesse sentido. A galera as vezes tem uma resistência com esse tipo de música, né?

Sophia: Acho que todo mundo tem essa resistência, porque no fundo as pessoas querem ser mais do que são. Eu sou apaixonada pelo Emicida, fazemos coisas muito diferentes, mas tem uma música dele que é muito linda e ele fala tipo “Eu já dormi na rua, eu já sofri por amor”. Quando ele fala que sofreu por amor numa posição tão forte na vida dele, que é totalmente diferente da minha, eu percebo que sofrer por amor é uma coisa universal. Se você tem uma letra falando sobre sofrer por amor, você está falando com muita gente.

Tem algum artista que vocês sentem muita vontade de trabalhar?

Vicente: Uma coisa muito louca que a gente tá aprendendo com a turnê, é que você vai lá e encontra artistas que você nunca imaginou e são muito fodas.

Sophia: Isso é uma coisa muito doida, eu poderia dizer aqui o Emicida, Billie Eilish. Mas quando você vai pra Piracicaba, conhece Chão de Taco, que é uma banda maravilhosa, você pensa “Eu quero continuar tocando, pra continuar conhecendo gente e a partir daí construir alguma coisa”. A gente não tem uma meta de artista, a gente quer conhecer os que estão aí, e os que estão aí as vezes não são os que estão aí.

Téo: Você nunca vai saber como fazer a coisa, antes de fazer. A gente aprendeu a fazer show, fazendo show. A gente aprendeu a gravar um disco, gravando disco.

Vicente: Os feats que a gente quer fazer são os que a gente está fazendo.

Sophia: Salve pro Jack Will.

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda De Tempo está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Texto e fotos por Junio Silva.


Entrevistas

Entrevista: Güettoh 

Posso dizer seguramente que o skate foi a minha porta de entrada para o universo underground. Talvez no início não tão underground, levando em consideração que o rock nos anos 90 circulava no top 10 da MTV, e assim o foi até a década seguinte.

Mas imagens do skate em clipes de bandas como Fu Manchu, Offspring, assim como a trilha sonora presente em vídeos de skate na época se tornaram emblemáticas, deixando bem claro, pelo menos para mim, que o skate nasceu para ser punk, assim como o punk nasceu para ser skate.

Apesar do Güettoh ter uma década de existência, confesso que conheço a banda de Guarulhos há apenas alguns meses. Com uma sonoridade pesada e rápida, uma mistura de stoner, metal e skate punk a banda vem fazendo seu papel na cena, resistindo a todos os contras que desanimam qualquer banda brasileira ativa no circuito, e levantando essa bandeira do skate punk e letras carregadas de críticas político sociais.

Vamos começar pela pré-história da Güettoh, como se desenrolou esse início de banda?

A banda foi formada em 2011 na cidade de Guarulhos (grande São Paulo) por mim (Fábio) e pelo nosso primeiro baterista, Beg. Eu tinha algumas composições sobrando de um antigo projeto, já fazia um bom tempo que eu e o Beg éramos amigos, andávamos de skate em uma pista local da cidade.

Eu tinha comentado que queria voltar a tocar e estava sem banda na época, estava procurando um pessoal pra começar um projeto novo e na hora ele se ofereceu para tocar bateria.

Começamos as primeiras sessões de ensaio, eu e ele só com baixo e bateria. De primeira já rolou uma sintonia foda entre nós e depois de alguns ensaios fomos atrás de um guitarrista.

Depois de alguns testes chegamos ao Renato, fizemos alguns ensaios como power trio e daí começamos a se apresentar com o nome GHC, que era uma sigla para o nosso nome original, Guetto Hardcore. Daí começou a caminhada do Güettoh nesse mundo do rock underground brazuca.

Atualmente a banda é formada por Fabio Braga (vocal, baixo), Ronaldo Moura (guitarra), Alexandre Barros (guitarra) e Carlos Cordeiro (bateria).

Vocês já tinham em mente fazer esse hardcore com pegada stoner? Quais as principais influências da banda?

Desde do início já tínhamos essa intenção de fazer uma mistura do hardcore com o stoner rock e pitadas de skate punk com uma pegada crossover.

As nossas referências são muitas bandas desses estilos, vão das internacionais as nacionais como Kyuss, Fu Manchu, Corrosion Of Confirmity, High on Fire, Sleep, D.R.I, Discharge, Suicidal Tendencies, Black Flag, Bad Brains, Circle Jerks, Helmet, Melvins, Cólera, Olho Seco, Gritando HC, Lobotomia, Ratos de Porão, Devotos, Inocentes, D.F.C, Ação Direta, Agrotóxico.

Recentemente vocês lançaram o single “Skate Nas Veias”. Muitas pessoas com quem já conversei tiveram seu primeiro contato com o punk rock através do skate, inclusive comigo não foi diferente. Gostaria de saber qual a relação da banda com o skate?

A banda nasceu em sessões de skate, como te disse, a nossa relação com o carrinho não é diferente da maioria da galera da música que conheceu muita coisa do lado musical através do skate.

Sou muito feliz por esse universo ter me proporcionado muito disso, muitas das coisas que eu conquistei e amigos que fiz nessa vida foi através do skate.

Eu e o Carlos andamos de skate antes dele entrar na banda, o encontrava direto fazendo suas sessões de skate, nem imagina que íamos tocar juntos futuramente.

Quando escrevi a letra “Skate Nas Veias” quis passar uma mensagem que o skate tem universos múltiplos e que é para todos. Não o vejo como um esporte, mas sim como estilo e filosofia de vida.

Graças as vacinas, e apesar do bozo, estamos começando a ter eventos novamente, com cautela é claro. Inclusive vi que vocês já estão na atividade. Gostaria de saber como foi voltar aos palcos depois desse tempo tão difícil, principalmente para o cenário da música independente. E o que podemos esperar da Güettoh nesse ano de 2022?

Foi incrível poder voltar a tocar e trocar essa energia com o público, estávamos sentindo muita falta disso, do calor humano, daquele friozinho na barriga antes de uma apresentação.

Com essa fase que passamos, esses dois anos foram muito complicados principalmente para as bandas independentes. Mas apesar de tudo isso conseguimos focar para trabalhar no nosso segundo álbum de estúdio “Paranóia Cibernética Artificial”.

Estamos nesse momento trabalhando em divulgação de singles e clipes, fazendo algumas apresentações esporádicas, para fazer o lançamento oficial no segundo semestre de 2022, e logo poder cair na estrada e divulgar esse trabalho para o mundo.

Em meio a esse turbilhão que o Brasil vem passando nessa última década em que a banda iniciou sua trajetória, o que vocês acham de suma importância transmitir em suas letras?

Somos uma banda com origens no punk e no hardcore, então temos em nossas raízes a consternação, sejam elas sociais, raciais, políticas, e tudo que influencia em nosso cotidiano, isso tudo impacta diretamente as nossas músicas e letras. Então tudo que nos indigna e nos faz sentir injustiçado se transforma em música.

Temos letras como “Violência Urbana” e “Vida Suicida” que tratam de temas de conflitos sociais, letras como “Foda-se” que é uma crítica da intolerância racial e ideológica.

Letras como “Cegos de Ódio” e “Indústria do Medo” que contesta a manipulação do sistema, e temos letras que também discutem sobre o cotidiano que vivemos. E sempre queremos transmitir que somos muito importantes em todas as nossas atitudes para esse mundo, sejam atitudes positivas ou ruins.

Vocês veem uma luz no fim do túnel?

Claro que vemos uma luz no fim do túnel e um mundo melhor para todos nós, temos a possibilidade de fazer desse mundo um lugar melhor para todos, apesar de todas as desigualdades, injustiças e miséria que o poder e o sistema causam através da guerra e manipulação.

Acredito que união, autogestão e equilíbrio espiritual e mental, são essenciais para que tornemos esse mundo algo mais justo, com um pouco mais de dignidade para todos.

Temos que sempre nos manter positivos, mesmo com todas as dificuldades e adversidades expostas pelo sistema frio, cruel e violento em que vivemos. P.M.A. sempre estará com nós.

Gostaria de agradecer, foi uma grande descoberta pra mim conhecer uma banda como a Güettoh, com essa pegada stoner e skate punk. Com certeza quero ir a um show de vocês, ansioso para ouvir esse novo álbum também. E deixo esse espaço aberto para se manifestarem livremente.

Nós que agradecemos a Bus Ride Notes pelo espaço e o trabalho que vocês fazem divulgando a cultura underground, seja ela através da música, arte, escrita ou da mídia impressa e digital. Admiramos muito esse trabalho especial de resistência que vocês exercem.

Para nós do Güettoh é uma satisfação saber que nossa música está atingindo pessoas e que a mensagem está chegando a tantos lugares. Temos a consciência de que ter uma banda de rock pesado nesse Brasil não é tarefa das mais fácil, mas fazemos tudo isso por que amamos toda essa bagaça, é feita de coração e muita dedicação apesar de todo contratempo.

Estamos aí fortes e vivos, não vemos a hora de cairmos na estrada para divulgarmos esse nosso novo trabalho, para espalhar ainda mais a nossa música.

Muito obrigado a todos que de uma forma direta e indireta sempre nos apoiam, tudo isso só é combustível para nós continuarmos sempre com nosso objetivo, que é poder tocar e alcançar o maior público com a nossa música.

A discografia de Güettoh está disponível nas redes de stream.


Lançamentos

VEIO AÍ – Lançamentos de Abril, pt. 2

A comemoração de um ano desta coluna não poderia ter sido melhor! Sério, pela primeira vez tivemos que fazer duas postagens de TANTO lançamento! E isso não é uma reclamação. É ótimo ver que a vida em geral tá reengrenando e que nossa bolha punk/indie/emo(/metal também pois tô nessa fase agora depois de véio) continua vivíssima <3

Espero que você tenha tirado/regularizado teu título de eleitor. Também aproveito pra dizer que: 1) Pra ter teu material publicado aqui, escreve pra gente no busridenoteszine@gmail.com; 2) Se curte o Busão, temos uma campanha recorrente no Apoia-se. Ajuda nóis a continuar produzindo! E 3) Disponibilize teus materiais em TODAS as plataformas! Teu público escolhe onde quer te ouvir. Procuramos colocar aqui na coluna links do Youtube por ser democrático, acessível e GRATUITO.
Pega teu café e vem comigo!

Abraskadabra – Closer to the Ground

A banda curitibana de ska punk lançou seu novo single. “Closer to the Ground” faz parte da coletânea “The Shape of Ska Punk to Come, Vol II”, lançada pela Bad Time Records, EUA.
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Adorável ClichêPapel de Trouxa

Mais um single impecável da banda mais fofa de Blumenau. Esse play recheado de synths bem oitentistas é perfeito pra torar o som, afastar os móveis e dançar sozinho na sala à meia-luz.
Acompanhe Adorável Clichê pelo Instagram.

Amargo – Amargo 1

O powertrio porto-alegrense manda o que chamam de “fusion punk”, entrelaçando dinâmicas imprevisíveis do progressivo com a visceralidade do punk. Este é seu álbum de estreia, que já contava com o single “É isso ou suicídio” (2021) como carro-chefe.
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The DamnnationThe Greed

O powertrio fuderoso das mina do metal extremo lançou “The Greed”, segundo single do disco “Way of Perdition”, a ser lançado ainda essa semana (sexta, 6) pela brabíssima Xaninho Discos.
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DesditoSegunda

Sonzera de estreia dos cariocas que, mesmo sendo uma demo, já dá pra sacar um post-hardcore boníssimo. Imagino que certamente falaremos mais deles num futuro próximo. E certamente também seria um lançamento da Share This Breath, meu extinto selo, se ainda existisse.
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Drive to GloryVivificar

Há uma década colocando minha Araraquara na rota do hardcore, a rapaziada da Drive lança seu primeiro material desde o EP de estreia, “Protesto” (2015). Que delícia de linha de baixo! E vem mais novidades em breve!
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Família Estranha – Família Estranha

Há anos tocando banjo, baixo acústico e violino e fazendo das ruas de Londrina, PR seu principal palco; a banda folk abraça outros instrumentos também inusitados (com várias participações especiais) e lança seu álbum de estreia.
Acompanhe Família Estranha pelo Instagram.

MEE – 12:00

Single novo com videoclipe igualmente brabíssimo: CURTIMOS. Até me faltam de palavras mais elaboradas, “pesado” e “denso” são adjetivos rasos pra descrever esse trampo dos paulistanos. Prepare-se pra bater cabeça até ficar com torcicolo.
Acompanhe MEE pelo Instagram.

MoscolêsFrenesi

Reforçando Brasília como berço de bons nomes do indie, essa é uma banda relativamente ~nova formada por veteranos da cena. “Frenesi” é seu segundo EP, um sonzinho suuuper gostoso que é a cara do saudoso Landscape.
Acompanhe Moscolês pelo Instagram.

PartyGrind – Otário do Caralho

A one-man band do carioca Igor Goularth, já conhecida por suas letras cheias de sarcasmo e ironia, nos presenteou com esta ~belíssima homenagem a este senhor que em nada contribuiu pra nossa sociedade (aliás, muito pelo contrário). Como uma festa não se faz sem convidados, a faixa tem participação de Balthazar (Nefarious D-saster, Disbömber) e Vinicius Braga (SDM [Saldo Desigual Mora]).
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Pic-NicEletrônica 2.0

Ícone da cena alternativa carioca no início dos anos 2000, a Pic-Nic está de volta e traz uma nova roupagem pro hit “Eletrônica”, originalmente lançado em 2002. Dessa vez, tem participação de Beto Bruno (Cachorro Grande).
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OdradekCanary Wharf

O trio math rock piracicabano lançou o primeiro single do novo disco, “Liminar”, mais uma empreitada da Balaclava Records. Importante dizer que estão levando nosso BR para o festival ArcTanGent em Bristol (Reino Unido) em agosto próximo. BRABO!
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split Desmorto e Cäbrä – Descabra

Pesado e rápido, o split de Desmorto (Atibaia, SP) e Cäbrä (Itatiba, SP) [já conferiu a Discografia Caipirópolis?] traz 16 músicas em 17 minutos. Todas as faixas são inéditas e são o puro suco do powerviolence e hardcore antifascista.
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trema¨BR Lockdown

Projeto no-wave do produtor Lucas Lippaus, este disco teve um formato inusitado: todas segundas e quintas-feiras passadas saía um single novo. Divulgado na íntegra no dia 18, conta com participações nos vocais e letras em todas as faixas: Sandrox (Cristo Bomba), Amanda Rocha (La Burca), May Manão (Crime Caqui), Claudio Cox (Giallos), Victor Meira (Bratislava), Fernanda Gamarano (Der Baum), entre outres. Lançamento do Coletivo Lança.
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UhrutauMemory

Depois de um par de singles avassaladores lançados nos últimos meses, o álbum dos prog-metaleiros de Campinas finalmente está entre nós!
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Understand – Crise Ideológica

Os paulistanos trazem um segundo single com a nova formação (confira o primeiro aqui), que ainda conta com a participação de Rodrigo Lima (Dead Fish). Seguimos aguardando o novo EP! Mais uma arte bonitassa de Felipe Fogaça (Make It Stop).
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Coletivos / Selos

Entrevista: Coletivo Panela de Pressão

Panela de Pressão é um coletivo bastante ativo há algum tempo no interior de São Paulo, mais precisamente na região de Ribeirão Preto e um pouco também na região de São José do Rio Preto.

A principal atividade do coletivo é promover e apoiar roles, mas em setembro de 2021 eles lançaram sua primeira coletânea, com 24 bandas (já falamos sobre algumas delas na Discografia Caipirópolis).

Pra conhecer um pouco mais sobre eles conversamos com Emerson, da banda Radiação X, na entrevista que você lê a seguir.

Vocês podem falar um pouco sobre o coletivo para quem não conhece?

O Coletivo Panela de Pressão surgiu praticamente no final de 2018 com a intenção de, sem fins lucrativos, propagar arte através de bandas autorais, utilizando um gerador de energia para viabilizar os itinerários por onde passa, seja um local amplo ou até mesmo uma praça.

Os festivais são realizados de forma coletiva e colaborativa, o curador do evento local organiza o alvará para facilitar a construção e apresentação do evento.

Como surgiu o Panela de Pressão?

O Coletivo Panela de Pressão surgiu com a ideia de disseminar os gêneros musicais autorais e juntar as bandas que sempre se encontravam em festivais na região da metrópole Ribeirão Pretana.

Como esses festivais aconteciam em datas aleatórias surgiu a ideia de realizar nosso primeiro festival próprio com a intenção de ocupar os espaços públicos, como fazia a antiga banda Que Miras Chicón (hoje Pinscher Attack).

Eu costumo dizer que se você quiser ver um show de banda independente em qualquer lugar longe dos grandes centros, você tem que montar um. E é isso que o Panela de Pressão faz, né? Vocês podem falar um pouco sobre esse aspecto “faça você mesmo” do coletivo?

Os festivais organizados pelo Panela de Pressão são realizados através de amigos que já têm experiência com curadoria de eventos underground. Nisso incluem os alvarás para coibir problemas com vizinhança, locais comerciais, horários e etc.

Uma outra ideia é a comodidade para os artistas que farão as apresentações, passando informes como mapa de palco e itens que serão disponibilizados, é tudo composto em um fechamento antes da data prevista.

Com tudo organizado, é só realizar a construção do festival, organizar parcerias como tendas comerciais e materiais próprios para venda com variedades desde discos, zines, camisetas, etc.

Tocar hardcore no interior de SP foi sempre uma experiência distinta, sempre teve muito metal e sertanejo, mas o restante era escasso. Mas eu percebi uma movimentação maior de todos os gêneros musicais nos últimos anos. Como vocês veem a cena hoje?

Alguns gêneros sempre se organizaram para se manterem vivos e essa contracultura dentro do punk, hardcore e grindcore sempre existiu, desde anos 70.

Claro que a mídia fonográfica investe nos moldes do que vende, mas há quem segue uma linha real, que não cai na ilusão de status, que realmente faz o que gosta e se preocupa em levar a ideia para locais de difícil acesso e tão pouco explorados.

As comunidades precisam de arte, a arte muda e dá uma perspectiva melhor para o cidadão que sonha em ter dignidade e respeito.

“Rolê no Gerador” – Catanduva, SP

Vocês podem falar um pouco sobre a primeira coletânea Panela de Pressão? Como surgiu a ideia, como foi a seleção de bandas?

A primeira coletânea do Panela surgiu como uma inspiração (até soa estranho, né? Inspiração com essa catástrofe) nesse período de pandemia, com tantas coisas que param de ser vinculadas e houve a renovação das plataformas para dar suporte a bandas autorias como podcasts, distros e as lives, convidamos algumas bandas parceiras a participar de algumas lives e disso surgiu a coletânea.

Pensamos em realizar a coletânea só com as bandas que estão no grupo do coletivo no WhatsApp, mas decidimos ampliar para todas as bandas interessadas, porém há um limite de tempo no disco físico, de 60 minutos, então lançamos a primeira e organizamos o projeto para a segunda coletânea que já está em andamento, compondo outros 60 minutos. Aproximadamente 25 bandas autorais.

Vocês têm planos para mais coletâneas e movimentação fora de eventos? Quais os próximos planos do coletivo?

Estamos com algumas ideias, ainda só no papel, de como manter as lives em funcionamento e a coletânea nesse ano de 2022.

Os festivais são como combustível para manter esse veículo transitando pelas cidades propagando arte, manifesto visceral e com muita força na pauta do Hardcore Contra o Fascismo e outras linguagens dentro do underground.

Últimas considerações? Algum recado?

O Panela de Pressão deixa aqui os sinceros abraços. Se cuidem, usem máscara, viva o SUS, fora Bozo, Hardcore Contra o Fascismo.

Se você tem uma banda autoral desde rock até o extremo metal, nos envie o material, participe da 2ª coletânea do Panela de Pressão.

Caso tenha interesse de organizar um festival com gerador de energia na sua cidade, entre em contato pelo Instagram.