Bus Ride Notes

Posts by Junio Silva

Entrevista / Selo

Tudo Muda Music: É nois na fita K7 (de novo)!

Você já ouviu música em fita? Já encontrou uma fita do seu artista preferido? Sim, fita mesmo. Fitas cassete! Leitores novinhos, vão agora lá nos seus pais e perguntem pra eles o que diabos é uma fita cassete (ou k7 mesmo).

Essas fitas viveram seu auge durante os anos 80 e 90, e depois caíram em desuso com a chegada do CD. Mas quando ninguém mais esperava, elas voltaram! Pra ter uma ideia, de acordo com a British Phonography Industry, cerca de 156,542 fitas foram vendidas em 2020 no Reino Unido (um aumento de 94.7% em relação à 2019).

Mas e aqui no Brasil? Bom, aqui se você quer falar desse revival das clássicas fitinhas, você vai ter que falar sobre a Tudo Muda Music. Esse selo independente de Brasília vem lançando material dos seus artistas em belíssimas fitas cassetes, tudo feito por eles mesmos. E eles estão a todo gás, viu? Foram 30 títulos no catálogo do selo só em 2020 e, pelo visto, o selo só tem a crescer.

Pra falar sobre o Tudo Muda Music e bater um papo sobre formatos analógicos, o Bus Ride Notes entrevista Mauro Rocha, fundador do selo e um legítimo nerd de música. Confira:

Como começou a Tudo Muda Music?

A Tudo Muda Music é um pequeno selo musical de Brasília, que começou em 2015.  Desde o princípio até meados de 2019 o selo lançou apenas meus projetos musicais. Sou músico, toco baixo e sintetizador, sendo meu projeto principal o Transistorm. Por conta da minha atividade com essa banda e outros projetos paralelos, comecei a produzir discos a partir de 2015, quando criei a Tudo Muda.

Em 2019, após o selo acumular alguma experiência na produção de fitas, vinis e CDs (dos meus projetos) no Brasil e no exterior, surgiram as primeiras possibilidades de parcerias para produzir lançamentos de outros artistas-amigos do selo, com Abismo, Stvz, Frank Sidarta, e Signo XIII, chegando ao fim do ano com 11 títulos lançados em 20 formatos físicos.

Em 2020, apesar da pandemia da covid-19, o selo seguiu trabalhando a todo vapor, chegando ao fim do ano com 30 títulos no catálogo. Uma importante parceria também foi acrescentada: a associação com a Torto Disco, selo de música instrumental/experimental de Brasília que passou a lançar CDs e fitas em conjunto com a TMM.

Agora em 2021, seguimos lançando ótimos sons, como Joe Silhueta, Groupies do Papa, Visiorama, entre outros, sendo que tudo sai em formato digital mas também é lançado em fitas e/ou CDs. Já chegamos a 40 títulos no catálogo, que pode ser visto e ouvido gratuitamente no nosso Bandcamp, nossa principal “janela”.

Também estamos iniciando uma nova parceria com o selo Maxilar, do Gabriel Thomaz, do Autoramas, que deve trazer uma série de novos artistas muito interessantes ao catálogo do selo, o que é uma alegria e uma honra pra nós!

De onde surgiu a ideia de produzir as fitas k7 dos artistas do selo?

Da necessidade! Em 2015, 2016 eu comprei algumas produções de bandas brasileiras em fita (acho que era algo da Desmonta Discos), daí tentei obter os contatos pra produzir e constatei que as fitas na verdade eram feitas na Argentina. Lembro que pensei, “não é possível que em um país do tamanho do Brasil ninguém produza fita cassete! Tem até fábrica de vinil no país!”. Mas era verdade e não tinha mesmo onde produzir, aí no fim de 2016 eu comecei a tentar comprar tape decks e fitas virgens pra produzir eu mesmo, estilo D.I.Y..

Durante 2017 me dei mal várias vezes, comprando sons antigos e tentando consertar, sempre dando tudo errado, até que comprei um tape deck novo, gringo, de qualidade razoável, mas no qual consegui fazer as primeiras fitas da Tudo Muda. Também precisei desenvolver toda a parte gráfica, como templates e facas das capas e rótulos, e por fim conseguir o canal de importar as mídias, ou seja, as fitas “virgens”, o que é outro processo bem chatinho até hoje, mas que felizmente o selo vem conseguindo dominar nos últimos anos.

Em 2018, logo após eu conseguir fazer tudo isso, a Polysom começou a produzir fitas de forma industrial. Apesar de aparentemente isso ser um “banho de água fria” no meu esforço, foi algo excelente. Como eles trabalham com pedidos a partir de 50 cópias, isso trouxe uma alternativa para trabalho que não teríamos como fazer com nosso sistema de duplicação. A Tudo Muda produz com a Polysom sempre que necessário, mas hoje em dia também conseguimos fazer as nossas pequenas produções. Além disso, como não conseguimos atender encomendas de artistas interessados, sempre recomendamos a Polysom quando nos procuram nesse sentido.

E a aproximação com os artistas que são lançados pela Tudo Muda? Como ela acontece? Como é feita a curadoria de vocês?

Nossa capacidade de produção é bem limitada, então a gente se atém a uma linha de curadoria dentro da proposta do selo, que é de lançar música contemporânea, em geral que traga algo de novo/diferente em termos de sonoridade. Muitos sons que “não se encaixam” em apenas um estilo são lançados pelo selo. Também damos ênfase aos sons eletrônicos e instrumentais.

A aproximação com os artistas acontece de várias formas, no início era algo mais proativo nosso, atualmente recebemos propostas pelo email (info@tudomudamusic.com) que podem ou não se adequar à linha do selo, daí entramos em contato quando é o caso. Felizmente, agora já temos um cronograma de lançamentos pros próximos três meses, com muita coisa excelente vindo por aí até o fim do ano. Mas continuamos abertos e interessados em ouvir novos sons, especialmente que tenham a ver com nossa “linha editorial”. Basta mandar pro email acima (a gente responde sempre que tem a ver).

Você tem alguma memória afetiva com formatos físicos? Conta pra gente.

Sim, muita! Desde criança eu amo música e com 9 anos comecei a comprar fitas cassete. Na época, minha família foi morar no exterior (Lima, Peru) e meu pai só comprou um tape deck, não tive toca-discos até voltarmos ao Brasil, três anos depois, então na minha infância era só fita. Também dava pra gravar e ouvir no walkman e no carro, então essa coisa da portabilidade era ótima. Depois, na adolescência, fiz muito tape trading na época de ouro dos zines e fitinhas caseiras.

E até hoje coleciono vinis, CDs e fitas cassete, tenho uma coleção de mais de 3300 discos, devidamente cadastrados no Discogs (user: volume22).

Esse envolvimento afetivo com os discos desde a infância e o colecionismo ativo de discos até hoje me ajudam muito a obter resultados interessantes na construção do aspecto visual dos discos da Tudo Muda, claro.

A gente vê que as fitas tem todo um trabalho estético muito bem feito né, como é esse processo de produção?

Sim, tem a ver com nossas referências estéticas, de selos – principalmente Warp Records, ECM, Tzadík, Magaibutsu e, aqui no Brasil, Wop Bop e Essence Music.

Aí tentamos ser o mais criativos possível, levando em conta as artes dos discos, tentando selecionar fitas e caixas que combinem bem.

Você, Mauro, tem alguma fita preferida lançada pela Tudo Muda? Uma que você olhe e pense “Putz, esse trabalho aqui ficou lindo”.

Sim, mais de uma, na verdade. As principais seriam: Os Gatunos (2020), tem um contraste muito bom entre a fita, caixa e arte; Stano Sninský (2020), primeira experiência com rótulos em vinil translúcido, nessa fita funcionou muito bem; Transistorm (2021), fita translúcida, caixa não-translúcida e capa adesivada na fita; Fita Groupies do Papa (2021), com “luva” externa.

É meio difícil achar quem tenha um toca fitas hoje em dia, mas também está acontecendo todo um revival de formatos físicos, né? As fitas da Tudo Muda são mais como souvenirs? Como vocês pensam essa questão?

Sim, diferente do vinil (que em geral quem compra, ouve), com as fitas cassete dificilmente quem compra vai escutar. Nossas fitas vêm até com código de download pra quem compra já baixar.

Mas tem bastante a coisa do colecionismo, sim, eu costumo comparar com comprar um brinquedo antigo, que você não vai jogar mas acha legal ter na prateleira.

As fitas cassete também têm até hoje muito apelo, mesmo com pessoas muito mais jovens e que não tiveram esse formato como sua principal forma de consumir música. Talvez pelo design, talvez justamente por remeter a uma época que foi muito importante na música e na cultura (anos 70 e principalmente 80).

Recentemente o Discogs publicou uma lista das 100 fitas mais caras já vendidas no site (a mais cara foi uma do Linkin Park por 4.500 dólares), e começam com o seguinte comentário, traduzido:

Os cassetes estão voltando. Não, sério.
O vinil como uma forma de colecionar e compartilhar música já não é mais novidade em 2021. (…) Ao contrário de seus equivalentes de cera, os cassetes são bastante baratos para produzir (como artista) e comprar (como fã). Este formato de baixo custo é atraente para os músicos independentes, que podem lançar música sem investir milhares de dólares. Isso, por sua vez, torna os preços baixos e atraentes para os fãs e colecionadores mais jovens, que muitas vezes são a força motriz por trás das novas vendas de cassetes.

Esse seria outro aspecto importante, a meu ver, de ser mais acessível em termos de preço que o vinil.

Como vocês veem o papel do selo musical para com o público e os artistas? Ainda tem muitos campos a serem explorados nesse sentido? Tipo, muita coisa interessante que pode surgir dessa conexão?

É um orgulho poder colaborar com tantos artistas interessantes, poder contribuir para que tenham um lançamento legal na sua discografia e ao mesmo tempo ter sua música e sua arte no catálogo do selo.

Na Tudo Muda fazemos uma construção conjunta, bem de parceria mesmo, e bem diferente do conceito tradicional das grandes gravadoras. Selos independentes têm sim, muito mais essa vocação pra criar uma conexão com os artistas e com o público, e isso é muito bom.

No caso da TMM, como é um selo “de músicos”, vemos que isso traz também legitimidade e tranquiliza artistas parceiros, que sabem que não estão lidando com uma mentalidade voltada apenas ao lucro financeiro, mas sim à integridade artística.

E o futuro da Tudo Muda Music? Dá pra dar uma ideia do que vocês estão bolando?

Sim, como mencionei, já temos uma boa lista de artistas interessantíssimos a lançar. Isso inclui as parcerias com os selos Maxilar e Torto.

Além disso, teremos vários lançamentos de artistas da vanguarda da música japonesa, por meio de uma ponte estabelecida pelo Fredy Xistecê (produtor, ex-Lombra Records), que recentemente se aliou à Tudo Muda.

Por fim, estamos iniciando um sub-selo voltado apenas a sons pesados, em parceria com o Tulio DFC. Vai se chamar Catacumba Records e em breve estará em operação.

E assim que a pandemia passar, a ideia é organizar um evento com as bandas do selo, algo que queríamos ter feito no fim do ano passado, quando “completamos” 5 anos de vida.  Ou seja, vem muita coisa legal por aí!

Obrigado pelo espaço no site, e aos leitores. Acompanhem nosso trabalho, toda semana tem novidade.

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Resenha

Punho de Mahin + Sendo Fogo – Racistas Otários Nos Deixem em Paz

Eu não sei quando essa resenha será publicada, mas no momento em que a escrevo, estou dentro de um barril de pólvora chamado América.

A Colômbia pega fogo, o Chile se liberta da constituição de Pinochet; é o mês de um ano do assassinato de George Floyd por policiais norte americanos; semana passada a Polícia Militar de Goiás (estado onde moro) algemou e apontou uma arma pra um ciclista negro sem qualquer motivo aparente; ontem a noite (30 de maio) recebi vídeos que mostram um policial de São Paulo esmurrando o rosto de um jovem negro; garimpeiros atiram nos índios Yanomami e invadem suas terras; e como se não bastasse, fazem dois dias que fomos às ruas, em plena pandemia, protestar contra um governo genocida que assassina brasileiros como se fossemos nada.

É, leitor do futuro, não sei como esse barril de pólvora vai estar quando você ler isso. Espero que já tenha explodido. Por enquanto, continuamos criando e procriando dentro deste barril.

E é nesse contexto que foi criado o split “Racistas Otários Nos Deixem em Paz”, das bandas Punho de Mahin (Natália Matos, Camila Araújo, Paulo Tertuliano, Du Costa) e Sendo Fogo (Robinho, Alemão, Diogo).

A ideia do álbum nasceu no fim de 2020, a convite do projeto Seja Independente ou Morra, Percursos Entre Acordes e Rimas. O projeto, criado pelo 1º Andar Studio & Produções, pretende organizar um calendário de atividades voltadas para a música independente na periferia.

As duas bandas dividem, meio à meio, as seis faixas desse split lançado em 25 de maio de 2021. A gravação, mixagem e masterização ficaram a cargo do 1º Andar Studio & Produções por Kleber Luis. Kurt Pfeffer é responsável pela edição e a arte da capa é de autoria da artista Monica Marques. O nome do álbum referencia a música dos Racionais Mc’s, “Racistas Otários”, do álbum “Holocausto Urbano”.

Como vocês já devem ter sacado, aqui temos 12 minutos de punk rock e hardcore que reúnem letras sobre a violência do racismo à luta dos povos originários da floresta contra a invasão e o genocídio.

A primeira parte do slipt é com a banda Sendo Fogo, e a faixa que abre é “Libertar”. A letra fala sobre as correntes do sistema que aprisiona corpos pretes e clama pela libertação dos indivíduos que são barbarizados pelo racismo estrutural.

Não dá tempo de respirar e já entra a segunda faixa, “Placebo”, falando sobre a apatia e a cura para uma doença inexistente que nos enfiam goela abaixo todo dia. “Não se faça de idiota!”, repete a música nos segundos finais.

“Enterrem Meu Coração na Curva do Rio” é uma pancada sobre a invasão de ruralistas em terras indígenas. Quem diria que o mais selvagem é o homem branco, não é mesmo? A letra questiona quem tem o direito dessa terra chamada Brasil, uma terra invadida e violada continuamente desde 1500.

Aos quatro minutos e vinte segundos de álbum, a banda Punho de Mahin abre a segunda metade do split.

A música “Xingú” continua o grito da faixa anterior e responde o que sobrou da invasão dessa terra Brasil e da devastação ambiental: fumaça e destruição. O descobrimento aqui é tratado pelo nome correto: roubo.

Luiza Mahin é o nome de uma mulher negra, quituteira em Salvador e ex-escrava. É uma figura lendária da resistência negra no Brasil; articulou revoltas de escravos como a Revolta dos Malês e a Sabinada. É ela quem dá nome à banda e à segunda música dessa metade do álbum. “Punho de Mahin” referencia a história de Luiza e as demais mulheres que resistem.

“Racistas Otários Nos Deixem em Paz” termina com a faixa “Navio Negreiro”. Uma triste memória dos negros sequestrados na África e escravizados nas Américas. Seres humanos tratados como mercadoria. A letra cita um desses navios que tinha por nome “Boa Intenção”. O Brasil é de um ironia sádica, né? Esse navio fazia o trajeto Brasil – Angola e transportou cerca de 845 escravos. Desses, desembarcaram vivos no Rio de Janeiro, 769. Também é citado na música um escravo chamado Cosme Damião, que retorna à Angola após uma revolução apenas para ser novamente condenado.

O split das bandas Punho de Mahin e Sendo Fogo é bem curto, mas carrega consigo o peso de séculos de opressão e injustiça. São doze minutos que se espera que reverberem por muitos e muitos anos, semeando a resistência e acendendo esse barril de pólvora chamado América.

“Racistas Otários Nos Deixem em Paz” está disponível nas redes de stream.


Entrevista / Site

A extrema direita no palco: Derrubando bandas fascistas na internet

Na última década, a guinada conservadora no Brasil e no mundo trouxe a urgência de um posicionamento político contra o fascismo. Na música independente tivemos pessoas se posicionando ao bolsonarismo ou à direita, o que naturalmente abalou toda essa de rede de amigues e parcerias de palco.

Assim, produtoras de eventos, jornais digitais de música e bandas assumiram o compromisso de falar sobre o assunto. Aliás, a palavra “fascismo” foi finalmente trazida ao debate, e tivemos até o episódio em que o Dead Kennedys foi derrotado por um panfleto na tour brasileira, pois foram incapazes de assumirem um compromisso antifascista (com os fãs e contra Bolsonaro).

Mas se enxergamos apenas o bolsonarismo, deixamos de ver outros fascismos correndo por aí. A real é que o Brasil está repleto de bandas à direita como skinheads e punks nacionalistas, de NS Black Metal, “fashwave”, muitas realmente ligadas a partidos políticos, movimentos radicais e organizações como integralistas e nazistas.

Nessa matéria entrevistamos a Natália, do Rio de Janeiro, que coordena o Mapa do Ódio, projeto que analisa grupos radicais brasileiros e que nesse mês se dedicou a denunciar bandas neofascistas, com a ajuda dos sites Cifra Club e Letras.

O Mapa do Ódio pode ser acompanhado em tempo real no Twitter e traz uma compreensão mais realista do fascismo atual e como ele se apresenta no Brasil. O capítulo atual, sobre a presença dessas ideias na música, é urgente para nós que trabalhamos com isso; é necessário que nossos shows e nossas redes sejam espaços antimachistas, antirracistas, e seguros para pessoas LGBTQIA+.

Como começou o Mapa do Ódio? E como ele é feito?

Natália: O Mapa do Ódio começou muito a partir de pesquisa de rua que eu fazia com outros militantes antifascistas, mapeávamos principalmente integralistas aqui do Rio.

Na verdade, o grupo integralista começou a ser um ponto modal nos círculos de extrema direita aqui. Bandas “Rock Against Communism”, motoclubes neonazistas, etc. Isso nos levou a perceber que haviam muitos grupos assim e que eles estavam se relacionando.

Durante a pandemia, essa pesquisa obviamente teve que parar e eu comecei a me ocupar mais entendendo esses grupos na internet. Fui olhar grupos bolsonaristas no Whatsapp e vi que tinham algumas conexões entre eles.

A partir disso, comecei a entrar num lugar da internet que chamam de “machosfera”, que é um reduto de incel. Assim como o grupo integralista, foi um ponto modal onde consegui achar outros grupos de extrema direita aqui no Rio, na internet a “machosfera” também teve esse papel. Então, esses dois mundos acabaram se juntando, o online permeia o offline e vice versa.

A partir disso, a pesquisa focou em entender as relações desses grupos aqui na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

O que levou vocês a irem atrás das bandas?

O que me levou a elas foi justamente a pesquisa de rua, esse grupo integralista tinha muita gente do “Rock Against Communism”. Eu tenho proximidade com a galera punk, então já conhecia bastante do meio underground aqui do Rio. 

Essa pesquisa foi muito de amigos que foram indicando e, a partir disso, fui achando bandas parecidas nos sites. Tem bandas skinheads integralistas, por exemplo, então eles estão sempre interligados.

Não tem como falar da atuação de rua da extrema direita sem falar dos skinheads. Por mais que seja uma subcultura que tem dado uma diminuída, ainda existe.

Qual é a maior dificuldade no rastreamento de bandas como as que tiveram suas músicas apagadas desses sites?

Como muitas dessas bandas são do início dos anos 2000 e final dos anos 90, elas não tem tanto material online, é mais difícil conseguir provar que a banda é neonazista. A Resistence 88 a gente sabe que é uma banda neonazista, mas tem pouquíssima coisa na internet, só consegui no Last Fm.

Algumas eu sei que são neonazistas, mas não tem nada nesse sentido na presença online deles para que eu possa apontar. Talvez a galera do underground vá sentir falta de algumas bandas no Mute do Ódio, mas é porque não tem como provar. Algumas são fáceis, o Zurzir faz questão de botar o Hitler na capa, mas nem todos os grupos são assim.

Outra dificuldade também são as bandas integralistas. O integralismo no Brasil não é visto como uma ideologia fascista. Inicialmente, com o Plínio Salgado, eles se diziam fascistas e tinham relações com o Mussolini na Itália, mas eles fizeram um “rebranding”. Então, se você fala hoje em dia que o integralismo é fascista, vai surgir um “PlínioSalgado_66” pra te encher o saco no Twitter.

Vai ser uma dificuldade que vou encontrar futuramente, mas vou falar assim mesmo porque é uma coisa bem forte.

Os Carecas do Subúrbio tem muita relação com o integralismo, eles iam fazer um festival em Curitiba em 2015 para criar uma frente nacionalista com muita iconografia fascista. Estou deixando os integralistas por último, justamente para ter uma base de confiança no nosso trabalho.

Você esperava a resposta que obteve do Cifra Club e do Letras? E como é a resposta de sites maiores, como o Youtube, por exemplo?

O Cifra Club e o Letras foram muito parceiros, eu não esperava. Foram super solícitos e estão tirando todas as bandas que eu peço. O Last Fm não me respondeu, mas vou continuar enchendo o saco.

O Youtube também não respondeu, mas quando eu denuncio alguma coisa lá, os vídeos caem. Inclusive, quando eu colocar uma banda que esteja lá e a galera quiser denunciar todos os vídeos, seria incrível.

Eu acho que é importante essas plataformas terem noção do tipo de coisa que está sendo colocada nos sites delas. Eu sei que o Cifra Club e o Letras são colaborativos e qualquer um pode escrever, mas não dá para ter músicas como as do Comando Blindado numa plataforma tão grande de música. Eles precisam rever, criar um algoritmo, talvez passar por um censor humano.

Bandas bizarras com letras horríveis vão surgir, então essas plataformas grandes tem que ter uma maneira de proteger a audiência deles, de não dar palco para essa galera de maneira alguma.

E no underground? Como essas bandas ocupam espaços em lugares mais obscuros da internet?

Como o underground da internet é uma galera jovem, até mais nova do que eu, eles tem outros gostos musicais. Banda skin não faz tanto sucesso na “machosfera”. Acho que a galera que ainda procura essas bandas é mais velha, que teve na juventude essa referência. Os sites que eu tenho aqui geralmente são antigos, do início dos anos 2000.

Então na “machosfera” e no undeground nazista mais atuante é uma galera mais nova, “cripto neonazistas”, digamos assim. Essas bandas não são tão referenciadas lá, mas no underground de rua a gente sabe que tem, ainda toca Virus 27 e Confronto 72 pra cacete.

Então, na internet é uma questão etária mesmo e na rua continuam ouvindo. É importante a gente não deixar isso rolar e falar que o Confronto 72 é uma banda integralista porque o 7 é o G, o 2 é o B, que é a porra do Gustavo Barroso, um integralista antissemita.

Essas bandas vão tocar e a gente precisa saber, se você vai num bar e elas estão tocando, talvez não seja o melhor lugar pra você beber sua cerveja.

Fale um pouco mais sobre o Mute no Ódio

O Mute no Ódio é uma campanha que está no Mapa do Ódio para divulgar a informação sobre o que são os grupos skinheads. Desde a origem, grupos também de esquerda, depois a guinada para a extrema direita no Reino Unido com o “Rock Against Communism”, até como está acontecendo hoje em dia.

Ao mesmo tempo é uma ação para juntar isso e tirar essas bandas dessas plataformas (Cifras, Letras, Last Fm, Youtube). Essas bandas existem há muito tempo e mesmo que algumas delas não estejam ativas (por exemplo, o Zurzir tá todo mundo preso), eles tinham músicas no Letras e no Cifra Club. Alguém colocou isso lá.

Me perguntam muito se eu não estou dando plataforma para eles, na verdade o Mapa o Ódio é muito pequeno e deixar essa galera correr solta não tem funcionado. Diferente do Morgan Freeman, não acho que se a gente não falar do racismo ele vai simplesmente sumir. A gente tem que fazer ele sumir.

Tem algo mais que você gostaria de acrescentar?

Só agradecer pelo espaço, foi muito maneiro. O Mute no Ódio está sendo pensado para ter várias edições, essa primeira é dos skinheads, mas vou falar de outros estilos musicais, como o black metal que tem uma influência neonazista, vou falar do fashwave (o vaporwave fascista), tudo isso em edições futuras.

Então quem quiser conhecer o sacolé de chorume que são os grupos de extrema direta aqui do Rio e quiser acompanhar o mapa, a gente já é bem atuante no Twitter (@MapaDoOdio) e vamos criar um site em algum momento esse ano.


Lançamentos / Playlist

Lançamentos de Abril

Sentiu esse cheiro? São eles, os singles recém saídos do forno que o Bus Ride Notes traz pra vocês hoje!

Tá uma época bem complicada, então o melhor que a gente pode fazer agora é aquietar o facho e ficar em casa ouvindo música, ou se você está tendo que trabalhar, aproveita e já escuta esses lançamentos no caminho (ou até no banheiro do seu local de trabalho, pra dar aquele migué no patrão).

Sem mais delongas, vamos a eles:

Andressa Nunes – AlgorID

Não faz muito tempo que a Andressa apareceu aqui no blog para uma entrevista. E ela já está de volta para abrir nossa lista! (Até rimou rsrs).

Dessa vez, apresentando o novo single, “AlgorID”. Lançado no dia 27 de abril, a música fala, entre outros temas, sobre psicanálise e algoritmos.

Bateu a curiosidade? Aproveita que já tem até clipe!
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Rebecca Nora –  Labirinto

“Labirinto” é o segundo single do EP “Amor” da Rebecca Nora. A faixa lançada em 30 de abril possui elementos do lo-fi e indie pop.  

O EP, que ainda está para ser lançado, faz parte do projeto “Transmutação” que será composto por quatro EPs, seguindo uma narrativa de autoconhecimento e cura.

O primeiro da série, e também da carreira da cantora, foi lançado em 2020 e se chama “Propósito”.
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Lyra Blues – Contra Maré

Outro single que faz parte de um projeto bem maior! No primeiro semestre de 2021, Lyra inicia uma fase nova na carreira e pretende lançar quatro músicas novas. A primeira dela já está entre nós e se chama “Contra Maré”.

Fica aqui o destaque para o lyric video ilustrado do single. Amigos e colegas próximos da cantora receberam trechos da letra e tiveram liberdade de criar uma ilustração com o que eles sentissem sobre.
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Cervelet – Presentes

A banda paulista Cervelet lançou a sua primeira música de 2021. “Presentes” fará parte do álbum “Remoto”, que está sendo lançado desde 2020. A faixa sucede os dois singles anteriormente lançados, “Utopias” e “Coach”.

E se tem uma coisa que essa banda está caprichando para o novo álbum, são seus clipes. As três músicas receberam clipes muito bem produzidos e assinados pelo diretor Guilherme Constant.

O vídeo de “Presentes” se passa no centro histórico da cidade de São Paulo e tem toda uma narrativa em volta da cor vermelha.

Na letra, vemos nomes de ativistas brasileiros assassinados durante a luta por direitos fundamentais.

“A canção busca homenagear alguns daqueles que lutaram por direitos e por justiça nos diferentes momentos do nosso país”, explica o compositor Tiko Previato.
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Vida Cinza – Nada Mudou

O som neocrust/skramz no lançamento “Nada Mudou”, do projeto solo “Vida Cinza”, fala sobre estar preso em memórias e conceitos passados que mantém um loop de processos não evolutivos.

Diretamente do ABC Paulista, o projeto já conta com dois singles (“Cárcere contra o tempo”, “Dissipar”) e uma demo. Escuta que é pedrada!

Superbrava – Natural

Pop Punk? Temos também! Os paulistas da Superbrava lançaram o single “Natural” para o EP homônimo que será lançado pela Artico Music.

Segundo a banda, a música fala sobre “alguém sufocado dentro de algo que não é, que se manteve nesse padrão para agradar os outros, esquecendo-se de si. Até chegar o momento de libertação“.

O lyric video para “Natural” você confere aqui:
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Storia – Essência

São Paulo vem marcando presença nessa leva de lançamentos, ein? Agora com o single “Essência”, da banda de post hardcore/pop punk Storia.

A faixa faz parte de um novo EP que será lançado ainda em 2021. Nas referências da banda nós temos grupos como Citizen, Bring Me The Horizon e The Story So Far.

A música fala sobre pedaços de nós mesmos que deixamos em nossos relacionamentos. E veio com clipe assinado pelo diretor Phellip Atila.
Acompanhe Storia no Instagram.

AIUKÁ – Refúgio

“Refúgio” é o primeiro single de AIUKÁ, projeto solo de Guilherme Krema, e fala sobre encontrar conforto e abrigo em meio ao caos que vivemos no Brasil afetado pela pandemia. Ela faz parte do EP “tigres vermelhos em marte caçando estrelas cadentes”, a ser lançado em breve.

AIUKÁ nasce do processo de composição de Guilherme no isolamento social em decorrência da pandemia e tem referências como AIYÉ, Boogarins e Vitor Brauer.

O EP conta com sete canções produzidas, gravadas e mixadas em seu quarto, resultando do mergulho em seu imaginário pessoal e criativo para abordar temas como solidão e afeto na pós-modernidade.
Acompanhe AIUKÁ no Instagram.

Dêhh feat. Noze – Nunca Tô Só

Fechando nossa lista, temos o novo som do beatmaker, produtor e cantor, Dêhh.

“Nunca Tô Só” tem a participação especial do Noze e é um trap de responsa vindo diretamente do Distrito Federal.
Acompanhe Dêhh e Noze no Instagram.

É isso, pessoal! O mês de abril trouxe muita coisa boa pra gente ouvir e já canta a pedra de que vem mais por aí. Fiquem seguros, cuidem dos seus e não vão dar mole por aí não. Salve!


Entrevista

All The Postcards, uma banda do Terceiro Mundo

A banda entrevistada da vez já é uma das veteranas do hardcore nacional. Com 15 anos de carreira e sete álbuns lançados, All The Postcards não mede palavras na hora de marcar posição nas letras de suas músicas.

De Angra dos Reis, o grupo é formado por Vitor (vocal, guitarra), Marcelo (baixo), Berg (bateria) e João (guitarra). O som bem característico do hardcore melódico embala letras bem diretas sobre temas sociais e a luta política da esquerda. Para não deixar nenhuma dúvida, o álbum “Fearless” estampa na capa a famosa imagem do guerrilheiro comunista Carlos Marighella denunciando a violência do golpe militar de 1964.

Destaco aqui minha música preferida da banda, “Thanksgiving”. A canção trata do ponto de vista de nós, moradores de um país de terceiro mundo, para com os países de onde importamos tanta coisa e, mesmo sem querer, tentamos imitar.

“There’s no such thing as thanksgiving. There’s no trick or treats in halloween. In a third world country we learn it all, in a third world country you don’t know about. In a third world country when we sing, it’s in english”.

Em 2020 All The Postcards lançou “Não é o Momento Para Ser Intelectual”, o primeiro EP da banda cantado em português, mostrando uma nova cara para o som deles. E, recentemente, nos trouxe, não um, mas dois singles: a versão acústica de “Thanksgiving” e a nova, “Trinta e Nova Milhões”, com direito a um clipe colaborativo dos fãs com seus bichinhos de estimação.

Pra falar sobre tudo isso, o Bus Ride Notes recebe aqui All The Postcards.

Como a banda começou?

A banda começou em meados de 2006. A ideia partiu do baixista Marcelo, que convidou o Vitor (vocal e guitarra) para montar uma banda. Marcelo já conhecia e tinha uma outra banda com o Berg (baterista).

No terceiro álbum, “Fearless”,  uma foto do Marighella estampa a capa e em “Third World Country” vocês falam sobre a visão daqui, um país de terceiro mundo, para com a influência cultural que recebemos do primeiro mundo. Como é para a banda trazer esse lado mais político para as letras? E como vocês, enquanto artistas e indivíduos, encaram essa percepção de sermos habitantes do terceiro mundo?

Felizmente, hoje a banda tem quatro cabeças bem politizadas e com o senso bem igual.

O rock, de uma forma geral, sempre foi uma forma de protesto, principalmente o hardcore. E não iríamos contra isso, jamais.

Somos quatro caras com vidas normais e que representam muito o terceiro mundo. Quatro assalariados lutando por direitos.

O que inspira vocês, tanto musicalmente quanto demais influências para a banda?

Musicalmente há um número perto do infinito de tantas referências. Cada um de nós tem um lado que puxa mais. E, sem dúvida alguma, a política é o tema mais conversado e o que mais nos instiga a escrever.

Em “Não é o Momento Para Ser Intelectual” todas as letras são em português. Por que essa mudança?

Há anos a banda tinha essa ideia de explorar músicas em português. Dessa vez colocamos a vontade pra fora e fizemos o álbum.

A mensagem que queremos passar, agora, fica mais direta de entender e bem na cara. Felizmente quem ouviu, gostou. Ufa!

Como vocês veem essa questão de bandas brasileiras cantando em inglês?

Acho impossível ter alguém que goste de rock e não se identifique com músicas em inglês. Não tem como evitar isso! Toda a base que as bandas tem vem de fora. É normal você seguir nesse seguimento. E, lógico, que não há problema algum nisso.

A gente percebe que nas capas de todos os álbuns da banda sempre rola um trabalho gráfico muito interessante. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas de capas? 

Felizmente temos grandes parceiros e amigos que nos acolhem na hora de rolar uma capa, uma imagem, uma logo.

As capas sempre surgem de ideias em comum na banda e passamos para o artista fazer. A última foi o Marcelo mesmo que fez. 

O single “Trinta e Nove Milhões” fala sobre abandono animal. Vocês tem envolvimento com a causa? Como veio a ideia pra música?

Temos um bom envolvimento na causa. Marcelo tem uns cinco gatos resgatados, Molina tem mais uns quatro, Vitor tem dois cachorros. Todos que viviam em situação de rua.

A ideia veio desse convívio mesmo e da necessidade. Durante a pandemia, o número de abandonos subiu exponencialmente. As pessoas ainda acham que ter um animalzinho é só para te fazer rir. Animal é custo, é carinho, é atenção. Demanda tudo que um filho precisa. 

Quais as novidades que vocês podem adiantar para 2021?

Em 2021 a banda completa 15 anos! As ideias são muitas. Infelizmente o Brasil está afundado em uma pandemia, impossibilitando de fazermos shows.

A ideia básica ainda é lançar um álbum este ano, com dez músicas, em português. E em setembro tem o “We Are One”, onde tocaríamos com Millencolin, Satanic Surfers, entre outros. Diante da pandemia, ainda não temos noção do que vai acontecer.

Agora, a pergunta de sempre nesses tempos de fim do mundo: como está sendo para vocês se manterem ativos como banda durante a pandemia?

Muito difícil. Participamos de algumas lives e aproveitamos esse conteúdo pra movimentar as redes, mesmo assim fica difícil criar e ter essa criatividade sem poder tocar e tudo mais.

Logo no início da pandemia lançamos o “Não É O Momento Para Ser Intelectual”, perto do final do ano lançamos uma versão acústica de “Thanksgiving”, e no início do ano o single “Trinta e Nove Milhões”. Tudo com muito custo e correria, não está sendo fácil. Fiquem em casa e usem máscara!

Você pode ouvir o som da All The Postcards no Spotify, Bandcamp e Youtube.


Entrevista

Medrado – “Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda”

Esse texto vai ser um pouco pessoal, espero que vocês me desculpem pela falta de distanciamento aqui. Já explico o motivo. Eu quero começar contando do sorriso de ponta à ponta que abri na primeira vez que escutei os primeiros versos de “Varal de Dentes”, faixa que abre o single “Pântano”:  “Pelo horário de Brasília, relógio quebrado. Eu moro no Entorno, sou mais o Entorno”.

Foi a primeira vez que ouvi alguém cantando sobre a área em que eu moro, Entorno Sul de Brasília. Como a maioria das periferias, tão perto mas tão longe dos grandes centros. Um lugar meio “cidade dormitório”, com invasões que viraram bairros e cidades. E, claro, com todas as particularidades periféricas desse país: vielas, ruas de terra, igreja, pobreza, violência, gente que vai embora cedo demais, gente que fica e fala de quem foi, tudo isso que já sabemos e nos incomodamos de saber.

A voz nos versos era do André Felipe, vulgo Medrado. André em homenagem ao avô falecido, Medrado é sobrenome de parte de pai mesmo. Nascido em Mato Grosso e vindo parar bem cedo no Lunabel 3C, bairro criado numa área de risco do Novo Gama, a uns 40km de Brasília.

Logo no início da entrevista fiquei surpreso e feliz de saber das origens do André, porque é muito parecido com o que eu vivi aqui também. Nossos bairros são divididos por um córrego e nossas experiências de crescer aqui quase se confundem de tão parecidas às vezes. Fiquei surpreso e feliz também por conhecer alguém daqui com tanta coisa pra cantar, coisas que a gente vive e, como ele diz, ainda nem viveu.

Escrevendo sobre música, você se acostuma a ver muita gente do eixo Sul – Sudeste, vez ou outra (bem vez ou outra mesmo) alguém do Nordeste. Mas, no meu caso, nunca era alguém próximo. Não existia essa proximidade geográfica e nem de vivência. Nunca achei que à poucas ruas, um córrego e umas ladeiras, houvesse um artista tão interessante que eu escreveria sobre um dia. Não só escreveria, como teria o prazer de entrevistar para falar dessa vivência periférica e de arte. É por isso que essa entrevista é tão especial para mim pessoalmente e espero que seja para vocês também. Confira:

Bom, Medrado, acho que podemos começar falando um pouco de você. Como foi seu primeiro contato com a música? Como foram as tuas primeiras gravações?

Meu primeiro contato com a música, com a arte, eu nem lembro. Foi uma percepção do meu pai quando eu era de colo. Ele conta que em todos os lugares que a gente passava e tinha alguma música eu imitava o som da bateria com a boca, o mesmo ritmo e tal. É algo que já veio comigo no sangue: meu avô tocava pife e minha mãe cantava na igreja. Uma família de músicos, saca? Meu pai é guitarrista, se dedicou muito aos estudos, as escalas. Eu comecei a tocar na igreja bem novo, com uns três anos já fazia barulho.

Quando a gente morava na invasão, meu pai passou uma cota desempregado e minha mãe trabalhava de diarista em Brasília. Aí eu ficava em casa com meu pai e ele comprou uma bateria pra mim, fiquei louco. Ele tinha baixo e uns amplificadores, tinha guitarra. Então, a gente tocava junto e meu pai é o cara mais eclético que eu conheço. Ele ouvia BB King, Tribo de Jah, Oscar Valdez, Mortification, que é tipo “UAAAGHHHH”, uma bagaceira.

Lá em 2014, comecei compondo alguns desejos e percepções que eu queria pra minha vida espiritual, meu foco cristão. Eu ia pro estúdio de um brother, Jonathan Mocher, aqui no Lunabel mesmo. Escrevia em casa e marcava lá, ficava atrapalhando enquanto ele produzia outras coisas. Quando tinha um tempo livre, chegava com a letra, tocava violão, cantava, tocava baixo e bateria. Foi lá que eu percebi o quão mágico era tudo aquilo e que eu queria fazer aquilo pelo resto da minha vida. Ali foi uma escola pra mim.

A gente é praticamente da mesma área, Entorno Sul de Brasília. É um lugar onde é muito perceptível a exclusão de periferia para com o centro, a gente acaba ficando de fora de muitos rolês do Distrito Federal. Como isso se reflete na tua música? Você encara mais como um empecilho ou uma motivação? E como é ser um artista vivendo tão perto, mas tão distante da capital do país?

Mano, a minha visão sobre o Entorno Sul é a seguinte: eu vejo um garimpo muito grande e rico, pedras muito valiosas que nem sabem o seu valor. Ponto Final, Morro do Lago Azul, Lunabel 3C, 3B, 3A, Boa Vista, Cidade Nova, Residencial Brasília, Novo Gama, Negreiros, Pedregal, Céu Azul, Valparaíso, Ingá, tá ligado? Pedras preciosas que descobrem seu valor exercendo sua arte.

Brasília fechou portas pra mim em vários sentidos. Até na Escola de Música de Brasília. O que eu mais fiz foi tocar bateria, estudar partitura, estudar tudo. Fiz a prova e não passei. O bagulho que eu mais fiz na vida. Cheguei lá, fiz três ritmos, fiz uns rudimentos. Depois fui ver o resultado e voltei pra casa frustadíssimo. Todo mundo  falando “Velho, você não pode parar, faz lá até passar”. E eu não quis tentar de novo pra preservar algo que até hoje eu não sei ao certo o que era. Mas meu rolê é a prática, tipo me deixa num estúdio com todos os instrumentos pra tu ver uma coisa. Me deixa com um violão e um mic, uma bateria e um baixo, ou sei lá só um mic. Velho, vai sair um CD, saca?

O rolê daqui não é nem escrever o som de fato, é tu acreditar no teu som. Eu escrevi “A Lei da Semeadura“, escrevi “Alarme Natural”, escrevi o single “Lamaçal” numa tarde. Toquei a bateria, o violão, captei as vozes. E eu não acreditava, tá ligado? Não tinha aquela firmeza, eu sabia que era massa, mas aquela auto estima não chegava. Depois de fazer vários trampos eu comecei a perceber isso. Fui vendo como se faz, a garra do pessoal daqui assistindo o show do Pretinho. Vendo o Isaac Cavilia fazer freestyle comigo, vendo o Grijo rimar, o Lucas aqui do lado de casa tá lá captando o som dele no celular, faz vídeo e lança no IGTV. Vendo o Akumas colando e mandando uma mensagem tipo “Mano, não para não, tu é raro”, saca? Vendo o Dhu 7 falando “Poxa mano, primeira vez que ouvi ‘A Lei da Semeadura’ eu tava num fim de tarde e fiquei emocionado”. É um garimpo unido que vai se revelando, crescendo e aprendendo com seu próprio povo.

Como o “não olhar pra gente” do quadradinho reflete na minha música é o que eu quero mais falar. Falar das ruas esburacadas, esse esgoto que corre na porta da minha casa, falar de todos que já se foram, da pureza de mesmo quem já perdeu os familiares na vida bandida mantêm. São coisas muito maiores, são coisas que motivam e nos tornam mais ricos, saca? Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda, cantar nossa prosperidade, cantar nossa união cada vez mais. Ser um artista vivendo tão perto e tão distante da capital do país é ser um brasileiro que acredita no sonho e sabe o quão tenso é viver nesse país, o tanto de coisa imposta que a gente tem que engolir, o tanto de coisa que a gente sabe e a nem pode falar.

Quais são suas maiores influências? Tanto musicais quanto visuais, coisas que te dão pilha para compor.

Meu pais, mano. Eles são a minha maior influência. Eu fazia meu pai gravar as fitas de rádio de rap que eu gostava. Sempre curti muito a história, a família, o “Castelo de Madeira”. Eu ouvia essa música e falava “Esse cara é parecido comigo, eu sou o príncipe do gueto”, tá ligado? Olha onde eu moro, no barracão de madeira! Aí me fascinava não conhecer o cara, mas ver tudo o que ele escrevia e sentir a energia da música. Me aprofundei em todos os estilos, MPB, muito Belchior. Country com Willie Nelson, muito antes do Snoop Dogg fazer ele ser conhecido. Ouvir cada estilo buscando aprender com a riqueza de cada um.  A princípio, essas são as minhas referências, as labutas, minha mãe trabalhando e a gente em casa ouvindo música.

Falei muito das influências sonoras, agora de visual tem um quadro que eu acho muito louco. É o “Duelo com Porretes” (Francisco de Goya), que são dois malucos brigando com pedaços de pau na areia movediça. Acho que esse é o quadro mais expressivo que eu já tive contato. Também tem o Francisco Galeno, pra mim é a maior referência visual. Eu tenho muito problema de vista, mas o vermelho dele e o tom dele pra mim é muito saturado, eu piro. O rolê dele com a infância também, me identifico muito.

Desde os seus primeiros singles sempre rolou muita parceria com outros artistas, certo? Ano passado teve o single “Lamaçal” com o Alice Piink e o Graça, por exemplo. Como estão sendo essas parcerias?

A Organdi me adotou, nem diria que é meu selo mas é minha família. O Graça, Alice Piink, a Mirela, Débora, essas parcerias sempre vão existir. Cada um é de um estado e, com o rolê da pandemia, a gente tem se mantido um pouco distante, mas sempre mantendo o contato. Esses caras sempre vão estar trabalhando juntos, Medrado e Organdi, Organdi e Medrado.

Esse ano tá em produção um trampo seu com o An_tnio, certo? Como tão as expectativas pra esse trabalho? O que você pretende trazer de novidade?

Essa colaboração com o An_tnio é muito importante pra mim porque vai ser meu primeiro EP. Não vou mais lançar singles duplos, serão trabalhos maiores, ou EPs ou álbuns. Eu quero trabalhar melhor com projetos grandes, e a novidade principal vai ser que esse EP será todo de freestyle.

Você toca vários instrumentos, já fez algum som acompanhado de banda? Pretende tentar algo assim futuramente?

O single duplo “Lamaçal” é um belo exemplo disso, toquei violão e bateria. Tinha esses elementos acústicos, mas de fato esse ano eu quero gravar um disco cantando e tocando bateria. To começando a escrever esse trabalho e vai ser meu primeiro trampo com banda gravado ao vivo. Não faixa por faixa, saca?

Pergunta clichê ultimamente, mas é interessante falar: como tá sendo pra se manter produzindo e divulgando seu som agora nesse período de pandemia e caos total?

A pandemia tem sido um aprendizado. Os momentos bons têm sido muito bons e intensos, os difíceis têm sido muito duros. Ano passado eu perdi minha avó e esse ano minha tia avó. Apesar de muitas perdas familiares, eu tenho buscado o equilíbrio mental, espiritual e profissional. Eu tenho aprendido muito e tenho exercido muito a minha fé, isso vai passar e colheremos bons frutos apesar de tudo.

Acredito que até mesmo essa pandemia veio para nos unir. Essa é a minha primeira entrevista e tenho muito a agradecer por isso, por vocês reconhecerem meu trabalho. O melhor e o que mais me motiva nisso é ser entrevistado por um cara do Entorno Sul que sabe como é caminhar com a cabeça na mira.

Você pode ouvir Medrado no Soundcloud, Spotify e Youtube.


Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.


Entrevista

Andressa Nunes – O Mandacaru Intergaláctico

“O Mandacaru Intergaláctico” é uma carta de amor ao sertão escrito pela cantora baiana Andressa Nunes. Lançado em 2020, o álbum contêm 13 faixas que fluem como um abraço, como em “A Bahia é Grande”. Isso sem perder a mão nas experimentações, como a technobrega “Bagaceira”.

O álbum foi gravado em Juazeiro (BA) com coprodução de Iago Guimarães, da Casinha Lab. Todas as letras, bem como a arte da capa e as artes personalizadas das músicas no Youtube, são assinadas pela própria cantora.

Andressa canta que “o sertão é a resposta”. Então, fazendo o caminho contrário, fizemos um monte de perguntas sobre “O Mandacaru Intergaláctico”. Confira:

Andressa, a gente pode começar falando sobre o caminho que levou até “O Mandacaru Intergaláctico”. Em 2019 você lançou vários singles, certo? Como foi esse período entre os singles e a composição do álbum? 

Sim, em 2019 eu decidi publicar algumas experimentações caseiras que estava fazendo sozinha e sem muitas pretensões. Dessas, a minha preferida é Ana(r)coluto, que é uma música bem antiga mas que gosto bastante da letra, cheia de referências à filosofia da mente e à gramática da língua portuguesa. Como meu processo de composição é bem aleatório, não houve um ponto específico em que eu decidi compor “O Mandacaru Intergaláctico”. A música título, por exemplo, foi escrita há mais de cinco anos, enquanto “Bagaceira” foi escrita na hora de entrar no estúdio, praticamente.

Algumas músicas (talvez o álbum inteiro, até) são verdadeiras cartas de amor ao sertão, à Bahia, ao Nordeste como um todo. Na primeira música você já canta que “o sertão é a resposta”. O que te motivou a compor essas letras? O que você estava sentindo nesse período?

O sertão, principalmente por sua adaptabilidade e riqueza cultural, pode ser a resposta para muitas das questões sociais que temos enfrentado. O sertão é a resposta num sentido geopolítico, de olharmos para as riquezas e para os modos de vida da população dos vários sertões do Brasil (os rincões da Amazônia, do Centro-Oeste, dos Pampas, das Caatingas), que num geral conseguem conviver melhor com a natureza e produzir seu próprio alimento. Mas também o sertão pode ser uma resposta mais íntima: compreender de onde vim e a linguagem que me habita foi um processo importante para me deixar levar pela música que há tanto tempo componho.
A motivação maior para reunir essas canções foi justamente olhar no espelho da palavra, já que na época eu estava sentindo uma saudade de mim que tomou a forma (espinhosa, mas bonita) de um mandacaru. Há também uma motivação política – toda arte é política, inclusive a “neutra”. Falar do nordeste como algo contemporâneo, sem saudosismos, sem estereótipos, é uma forma de trazer luz a questões que estão em voga como a xenofobia e o machismo. Eu quis trazer um sertão que se deixa permear pela modernidade, mas sem medo de criticá-lo também, como em “A Última Cajuína do Sertão”. Vale ressaltar que não é uma questão de fazer o nordeste virar uma pauta identitária, pelo contrário: quero falar das suas pluralidades e das suas contradições, da ignorância e do saber, com consciência e sem vitimismo. O sertão não precisa de narrativas sensacionalistas. Fico com as narrativas sensoriais.

Quais foram suas referências musicais e de outras fontes? 

Na música, posso citar Cátia de França, Alceu Valença, Tom Zé, Luís Gonzaga, Dominguinhos, Caetano Veloso, Daniela Mercury, os Beatles, Björk, Zé Ramalho, Baiana System.
De outras fontes, acredito que Guimarães Rosa tem uma presença marcante na minha relação com o sertão feito de palavra. Também gosto bastante de cinema, e obras como “Bacurau” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” atravessaram bastante meu processo criativo.

Pode falar um pouco da parte instrumental do álbum? Quais os demais músicos que participaram? Como foi bolar esse som? 

Eu toquei violão em todas e guitarra em algumas das músicas. O restante (bateria, baixo, teclas) ficou por conta de Iago Guimarães, do Casinha Lab em Juazeiro, BA (que coproduziu e mixou as músicas) e do Wagner (percussões diversas) como representante da Camerata Matingueiros de Petrolina, PE. Bolamos o som seguindo o fluxo das letras, eu já tinha em mente o clima e a instrumentação que desejava e os meninos foram geniais e muito generosos ao me escutar e trazer novos elementos para a brincadeira.

O álbum foi lançado no ano em que a pandemia chegou. Já que os shows estão inviabilizados, como foi feita a divulgação do trabalho?  

Divulguei apenas pela internet e também entre amigos e familiares. As novas pessoas que têm chegado para escutar têm sempre me surpreendido positivamente, já que infelizmente não pude fazer nenhuma ação de marketing mais grandiosa. Mas o fluxo da vida, dos algoritmos e das canções tem uns mistérios interessantes.

Tem previsão para clipe?  

Tenho gravados takes de clipes para “Mulher Apocalíptica” e para “Manequim”, mas te confesso que sou eu que faço tudo na minha “carreira”, então a falta de tempo para editar está pesando bastante nesse aspecto. Quem sabe esse ano ao menos esses dois não saem, né?

Num momento em que o Brasil parece estar sendo atacado diariamente pelo que tem de pior nele mesmo, é realmente um respiro ouvir algo que fale com a gente assim, né? Na música “O Absurdo” você escancara esse clima que a gente vive. Você vê alguma esperança pra esse absurdo tanto na via artística, social ou política?

Nem medo, nem esperança: tenho confiança na ética e na capacidade de se transformar que o Brasil tem. Certamente é um processo lento e meu grito de “não me deixe achar normal o absurdo” resume esse chamado para que não deixemos a ignorância e a necropolítica se tornarem a voz da vez, como se fossem uma certeza fatal contra a qual teremos que lutar o tempo inteiro. Não. Não é normal, não é o nosso normal e não existe um “novo normal”: esse desmonte da coisa pública e o descaso com tantas vidas é uma aberração. Tenho fé em grande parte da população que se preocupa consigo mesma, mas que também busca ajudar o próximo. Tenho confiança na ciência e nas instituições de ensino e no seu papel político tão fundamental e de tanta resistência. Tenho fé nos artistas independentes, principalmente nos que produzem arte em vez de produto: a revolução também virá pela beleza, pelo sublime e pela coragem. Mas a mudança é silenciosa e lenta, e enquanto ela não vem, vamos agindo aos poucos para combater os fascismos que nós mesmos reproduzimos com arte, muita solidariedade e muita paciência.

O álbum está disponível no Youtube, Deezer, Spotify e Itunes.


Entrevista

Cama Rosa Gruta

Em agosto de 2018, no Caffeine Studio, São Paulo, algo começava a ser gerado. Bruno Trchnmm e Cindy Lensi (Cama Rosa) passaram pela cidade e toparam com Analena Toku (Gruta), o resultado desse encontro nós só veríamos dois anos depois. Já dá pra adiantar aqui que valeu a pena a espera.

É interessante pensar nesse espaço entre esse encontro e o fruto dele, é como se o próprio tempo tivesse um papel importante no resultado final tanto quanto o ato de compor e tocar. E o tempo mexe com a gente. Nesse caso, de tanto mexer com os três, em 1 de outubro de 2020, saiu o EP “Cama Rosa Gruta”.

O álbum, mixado e masterizado por Juliana R., conta com quatro faixas: Vértice Osso Jade; Cipó Ouriço Beat; Passo Cravo Cipó; Melancia Vapor Cigarro. Tão abstrato quanto os nomes das faixas denunciam, no Bandcamp o álbum é definido como um caleidoscópio vivo, um animal que se move mas deixa um rastro de imagens coloridas, um rastro que tem mais de dois anos de metamorfoses antes de se cristalizar, e até mesmo como uma explosão em câmera lenta.

Pra olhar um pouco mais de perto esse caleidoscópio ambulante que, após tanto tempo se cristalizando, agora explode lentamente, convidamos os envolvidos na obra para uma entrevista. Confira:

Primeiramente, como estão nessa quarentena? Todos saudáveis?

Anelena Toku: Por aqui tudo sempre na linha entre estar “bem”, ter a possibilidade de ficar em casa e ao mesmo tempo sentindo todas as sensações que vem com esse momento tão crítico e com tantos acontecimentos que nos revoltam.

Cindy Lensi: Tudo bem, sim. No começo da pandemia estava tenso, um ar denso que impregnou o dia-a-dia com nóias e incertezas. Agora estou me sentindo um pouco mais tranquila, e conseguindo pensar com mais clareza.

Bruno Trchnmm: Eu sou professor da rede municipal aqui em Campinas e tenho um filho de 6 anos, então por aqui a quarentena tem alguns tons particulares de desespero . Mas não dá pra reclamar não, pelo menos podemos trabalhar em casa.

Como surgiu a ideia do EP? Por que as duas bandas decidiram trabalhar juntas?

Anelena: Esse encontro foi bem espontâneo, aproveitando uma vinda da Cindy e do Bruno pra São Paulo, marcamos essa sessão no estúdio. A gente já tinha vontade de produzir algo junto. A uns anos atrás eu já tinha gravado um som chamado “Ruínas” com uns samples de guitarra do Bruno. No início de tudo, Gruta era só guitarra/violão e voz, depois fui fazendo mais coisas com eletrônicos e deixei a guitarra, então esse reencontro com as guitarras foi ótimo.

Cindy: Já tínhamos ouvido alguns sons da Anelena (Gruta) e também já vimos ao vivo uma apresentação do Fronte Violeta (Anelena Toku e Carla Boregas). Achamos muito legal. Foi o Bruno quem deu a ideia de convidá-la, e quando um dia estávamos indo tocar em São Paulo no Hotel Bar, isso em Agosto de 2018, fizemos o convite para gravarmos um improviso juntos lá no estúdio Caffeine no mesmo dia. A Anelena topou e assim surgiu o EP. Só tivemos noção melhor do som quando ouvimos depois mesmo. Esse ano convidamos a Juliana R. para fazer a mixagem do disco, então na verdade esse disco foi construído por quatro pessoas.

Bruno: Tem muito o lance de que o meio que a gente circula mistura muitas dessas abordagens de som, o noise, o improviso livre, a música eletrônica, performance… meio que tudo ao mesmo tempo. Então apesar de ser um percurso estranho, é muito natural porque tem um pouco desse trânsito: a gente gravou um improviso totalmente livre sem combinar nada, e depois trabalhou nesse som fazendo umas colagens, que é meio que o modo de trabalho da música eletrônica. Depois a Anelena gravou as vozes, que trazem pra mais perto de um tipo de canção, mesmo que abstrata.

Fronte Violeta

Como foi o processo de gravação? O que vocês buscavam transmitir durante as sessões?

Anelena: Foi tudo bem rápido, a base do disco foi gravada em uma sessão de improviso. Ali a gente passou por vários processos ao mesmo tempo, de cada um achar seu espaço no som, testar os timbres e como eles se relacionam. Depois disso o Bruno ainda mexeu nas faixas e foi inserindo mais coisas e revelando as músicas no meio desse material. Esse ano resolvemos finalizar e eu gravei umas vozes pra compor com os eletrônicos e guitarras.

Cindy: Quando buscamos colaborar com alguém, nunca damos nenhum direcionamento. A ideia é deixar acontecer na hora. Nunca dá errado, é incrível haha. Isso que é legal de improvisar. Talvez no começo, sei lá, leva uma meia hora pra nos encaixarmos todos no som, mas depois ficamos bem conectados, tanto que as vezes eu acho até legal dar uma “desconectada” no processo, começar algo sonoramente diferente do que já estava acontecendo. Acho que nesse EP “Cama Rosa Gruta” aconteceu isso, tanto que foram criadas quatro faixas nele, cada uma com sua forma, sem muito destoar uma da outra ao mesmo tempo. O EP acabou ficando com um desenho bastante orgânico, me remete a coisas naturais como estalactites, lavas e ao mesmo tempo tem uns samples de jazz que deixam com uma cara bem única. Também tem presença de linhas vocais, que até então não tínhamos colocado. Cada vez que eu ouço um pouquinho mais, se transforma em outra coisa, outras imagens ou outros tempos talvez.

As gravações ocorreram em 2018, certo? Qual o motivo de ter demorado dois anos para serem lançadas?

Anelena: Talvez esse tempo tenha servido para maturar os sons. Acho que a gente que costuma gravar sessões de improviso com as pessoas, o que mais temos é faixas e mais faixas gravadas de diversas épocas. Quando eles falaram que estavam retomando foi uma surpresa boa. A gente voltou a mexer nesse material em Março desse ano, então de lá até Outubro ainda foram alguns meses de atenção pra tudo isso. Pra mim ouvir gravações de outros tempos sempre traz uma nostalgia, porque o som também cria nossas memórias, mas também coloca a gente pra perceber o que tá ali com uma outra escuta. A primeiras vezes que eu ouvi as gravações de 2018, eu tive a sensação de estar diante de um horizonte distante, olhando por um binóculo, e quando gravei as vozes esse ano, eu sinto que estava tentando trazer esse horizonte pra mais perto, para o agora.

Cindy: Demoramos porque naquele mesmo ano começamos tocar bastante nos lugares e também precisávamos juntar um dinheiro talvez, além de outros contratempos da vida pessoal, mas rolou. Queríamos que uma pessoa mixasse pra gente com carinho, pois não temos essa habilidade. Esse ano por mais difícil que está sendo por conta da pandemia, coincidiu de dar certo a continuidade desse material.

Bruno: É aquela coisa também, o nosso tempo pra trabalhar em música é sempre o tempo da sobra, geralmente. Tem trabalho, casa pra limpar, coisa pra estudar. Então tem que se acostumar com a ideia de que as coisas vão se estender no tempo, porque no momento é a única forma que elas podem sobreviver. A gente tem aqui uma ideia muito fixa que ser artista é viver de arte, o que é uma farsa, porque a maior parte de quem produz arte (no mundo inteiro, inclusive), não vive de arte. Mas mesmo assim produz. Esse método de trabalho, inclusive, de lidar com improviso, colagem, tem a ver com esse tempo que sobra. É uma forma de trabalho que, apesar de soar ou parecer meio “torta”, é muito dócil a esse tempo do dia-a-dia, sabe? É uma forma de fazer música que entende quando você chega cansado do trabalho ou só tem tempo livre no final de semana.

Cama Rosa

De onde surgiram os nomes para cada faixa?

Anelena: Pra mim as músicas todas me trazem uma sensação de trilha sonora, me remete a muitas imagens. Ao mesmo tempo são imagens bem abstratas, fluídas e não lineares. Como se o sentido delas fosse construído a partir de uma organização própria. Essa ideia de cada um sugerir uma palavra pra cada som surgiu um pouco disso, de serem nomes que trouxessem mais uma sensação do que nomear propriamente a música.

Cindy: Para dar um contexto para entender esses nomes – no nosso Bandcamp tem o registro de todas as nossas improvisações que gravamos. Colocamos duas faixas e damos dois nomes para cada uma, por exemplo “Hibisco/Navalha”. A escolha desses nomes são mais aleatórias, em uma vibe parecida com um jogo de palavras, tipo aqueles exercícios de automatismo que os surrealistas usavam, mas nada profundo. Em algum nível nosso som surge na mesma maneira em que nossas palavras surgem ou vice versa. A gente decidiu (por grupo no Whatsapp) que seria legal para o EP “Cama Rosa Gruta” usar três palavras dessa vez para cada faixa, já que somos em três. Foi interessante, teve até palavra que repetiu e deixamos. As palavras foram; vértice osso jade — cipó ouriço beat — passo cravo cipó — melancia vapor cigarro.

 O que vocês buscaram fazer de diferente em relação à uma gravação “tradicional”?

Anelena: Acho que meus processos de gravação com Gruta sempre foram zero tradicionais, sempre gravando do jeito mais caseiro possível porque era como eu tinha como fazer. E foi assim com as vozes que gravei. Somado a isso, toda a troca de arquivos e comunicação durante um início de quarentena/pandemia com certeza marcaram essa gravação. Acho que outra parte do processo importante foi a mixagem e masterização que a Juliana R. realizou. Foi importante ter alguém de fora, mas ao mesmo tempo que nos conhece bastante pra desenhar a forma que isso teria.

Cindy: Boa pergunta, pois eu não acho que a gente fuja da gravação tradicional. Inclusive a maioria de nossas gravações são bem lo-fi. E nesse a gente gravou em estúdio, para seguir a tradição. Mas a gente sempre dá uma mexidinha aqui e ali depois que estamos com o material.

Bruno: A gente faz o que pode com o que pode né haha. A gente gravou essa sessão em um esquema de “ensaio gravado”, que é uma gravação ao vivo bem simples. Essa sessão depois ficou comigo e eu aos poucos fui editando o que pareciam as partes mais legais, cortando uns trechos, montando uns loops com partes mais bacanas. Eu cheguei até a achar que perdi esse disco uma vez, quando meu PC pifou. Esse ano, no choque do começo da quarentena eu peguei pra ouvir essas faixas, dei uma mexida última e parece bem legal. Coloquei os samples (um do Sun Ra e de uma videoaula de bateria ensinando a levada do Elvin Jones haha) , só que feito do meu jeito, muito tosco. Então a gente mandou para a Juliana transformar aquela colagem tosca em algo mais coerente, o que deu esse espaço pra Anelena gravar as vozes.

Podem falar um pouco da arte da capa?

Anelena: Quando começamos a pensar a arte logo me veio a imagem de colagens e recortes, mas como o Bruno escreveu no texto que divulgamos, era uma idéia de uma colagem em movimento, que se alterava. Eu busquei umas fotos minhas de 2015 e criei essa montagem a partir desses fragmentos. Uma tentativa de recriar memórias e experimentar esse horizonte que não é estático, um horizonte que escapa.

Cindy: A capa é um projeto gráfico da própria Anelena Toku. Uma colagem que casou muito bem com os sons. A combinação das palavras, o som e mais a arte da capa conversam tão bem que eu acredito que por conta disso o disco conquistou vida própria.

Bruno: Eu gosto muito de todos trabalhos visuais da Anelena, muito mesmo. A colagem tem um lance como o do sample, é uma parada que parece meio dura, porque é uma imagem fixa que você pega de um lugar e põe no outro, não tem muito o que mexer. Mas a colagem e o sample também tem o lance da repetição, que você pode jogar no espaço e vira uma coisa muito fluida, que você pode mergulhar.

E os projetos futuros de cada um dos grupos? Pretendem fazer mais coisas juntos futuramente?

Anelena: Gruta é um projeto meu bem pessoal e que nos últimos tempos esteve meio dormente principalmente porque tenho desenvolvido bastante coisa com o Fronte Violeta, que é meu projeto com a Carla Boregas. Acho que Gruta, Cama Rosa e Fronte Violeta sempre tiveram uma proximidade por habitarem um mesmo universo de som, então com certeza imagino que continuaremos essas trocas.

Cindy: Seria muito legal continuarmos fazendo coisas juntos, assim espero. O Cama Rosa está pra lançar um disco com as canções, nós temos composições com letras que gravamos no final de 2019. Também está sendo mixado e o lançamento será em breve. Então temos todo esse material de improviso no nosso Bandcamp, mas geralmente quando nos apresentamos, tocamos nossas canções que considero um desdobramento das improvisações, já que muitas bases saíram de lá.

Bruno: Eu sempre brinco com a Anelena e a Carla que a gente tinha que fazer um disco ou um festival com projetos que tem cores no nome, Cama Rosa, Fronte Violeta, Objeto Amarelo… talvez montar tipo uma big band.

“Cama Rosa Gruta” está disponível no Bandcamp.


Entrevista

Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso.

Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo.

A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal.

Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018.

Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições.

Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos.

Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado.

Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha!

E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso.

Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado.

A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos.

A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi.

O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha!

O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz.
Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum.

Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal.

Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre.

Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai.

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro.

Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão.

Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!

Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos.

É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”.

Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico.

A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha.

Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto.

São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza, mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”.

Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos.

Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país, mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.