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Entrevista: ANGVSTIA

Lembro que estava programando muitos shows com minha antiga banda quando a pandemia impôs a quarentena. Assistir lives foi algo que me deprimia nesses dias, mas acontece que tive tempo para rever alguns discos e redescobrir um amor antigo, que era colecionar as famosas Demos, e nessa revisitação comecei a cair de cabeça a procura de bandas novas pelo Brasil e conheci muita coisa legal.

ANGVSTIA foi uma delas e me chamou atenção pela sua sonoridade bem noventista alá bandas como Street Bulldogs, que marcaram minha adolescência. Outro fato curioso foi a banda ter dado início justamente nesse tempo de “seca”, onde o underground brasileiro se encontrava sem perspectiva alguma, uma vez que a cena é vivenciada de verdade em encontros e pequenos shows em bares pelos cantos das cidades Brasil afora.

Apesar de tudo a cena independente insiste em sua teimosia.

Já conversei com algumas bandas sobre os efeitos da quarentena em sua jornada, muitos lançamentos e shows adiados, turnês, enfim. Mas confesso que vocês serão, a primeira banda que deu start durante a pandemia, que entrevistarei. Me conta como foram os primeiros passos da banda e nos apresenta o time?

Imagino que pra galera envolvida com música pareça mesmo contra producente produzir algo nesse momento bosta que começou em 2020, vem perdurando em 2021 e vai continuar em 2022, mas nem era essa a nossa intenção no inicio da ideia.

Estávamos confinados em casa Lucão (em Teresina – PI) e eu (Dave). Somos amigos a mais de uma década e como ele sempre posta vídeos tocando covers na guitarra e nosso gosto musical é praticamente o mesmo, nós pensamos em fazer um som tocando de casa pra aliviar o tédio, ele em Teresina e eu em São Paulo, sou do Maranhão mas moro em SP desde 2016.

Fizemos uns testes, a dificuldade da estrutura e de tudo que nós estávamos vivendo deu uma esfriada no que até então era só uma “brincadeira”. Lucas veio de mudança pra SP no início de 2021 e isso deu outro peso pro projeto.

Amadurecemos a ideia, chamei meu grande amigo Emiliano pra ajudar a gente a montar umas linhas de bateria e assim gravamos o primeiro EP, “Vivendo na Sujeira”, sem nunca ter tocado juntos uma vez sequer. Depois dessa gravação ele comprou a ideia, pra gente foi muito foda, pois o cara só toca em bandas de grind, crust e nem imaginávamos que ele também tinha um pé no hardcore melódico dos anos 90 e 2000.

Durante a gravação do segundo EP, “Devastado”, Emiliano perguntou se a gente não pretendia botar outra guitarra na banda, pois ele tinha um amigo que tinha pirado no que a gente tava fazendo e concordamos testar. Conhecemos melhor o Marcos e ele foi certeiro, o bicho mal chegou e já jogou o riff que hoje compõe a música “Esmagado Pelo Trem ou Duas Vidas” e desde então a formação é Dave (baixo e voz), Lucas (guitarra e voz), Emiliano (bateria) e Marcos (guitarra).

Pensando um pouco na letra da música “Pareidolia”, você diria que começar a compor sons novos, em uma banda nova, foi uma resposta a esse “desconforto” gerado no isolamento social durante a pandemia?

Lucão e eu somos do nordeste do país e lá a gente não tem muito costume de se juntar pra tocar covers, geralmente as bandas de lá já começam todas autorais, mesmo quando não se tem uma pretensão de ser algo que dure. A não ser que a intenção seja ser cover mesmo. Acho que é uma parada cultural.

Então é meio que natural pra gente escrever e tentar musicar nossas coisas. “Pareidolia” é um grito abafado de alguém que se sente preso e não vê uma perspectiva de melhora. De certa forma é um pessimismo que estamos vivenciando desde o início da pandemia, pelo menos do nosso ponto de vista.

Como funcionou e funciona o processo de composição das músicas?

Não sei se posso dizer que temos apenas um processo, ainda tocamos bastante de casa, gravando em interfaces e mandando uns pros outros. Mas também gostamos muito de se reunir pra tocar juntos e ver o que sai (essa é nossa forma favorita, mas nem sempre viável por vários motivos da vida adulta).

No mais tentamos ensaiar regularmente e durante o ensaio as vezes sai algo, bem naturalmente mesmo.

Já estão prontos para o rolê? Como tem sido a repercussão desses últimos singles lançados? Agora que houve abertura para eventos, vão cair pra estrada?

Acho que nossa maior vontade é fazer isso, mas estamos aguardando com cautela o desenrolar desse fim de ano (2021) pra ver como tudo vai acontecendo. Temos oito músicas e uma ainda não gravada que deve acontecer no começo do ano.

Pretendemos fazer nosso primeiro role a partir de março junto com bandas de amigos. Será 05 de março no Studio Rock Together e acredito que quando sair essa entrevista já teremos divulgado o rolê. Serão 5 bandas e visa ajudar o Projeto Colher Cheia, que trabalha distribuindo alimento e outras coisas para pessoas em situação de rua, um projeto muito foda que merece ser apoiado.

Sobre as músicas, acredito que somos bem pouco conhecidos ainda, surgimos numa situação inusitada e não nos apresentamos ao vivo também, mas hoje em dia com plataformas de streaming temos alcançado lugares que provavelmente não chegaríamos de outra forma.

O feedback de quem tem acompanhado tem deixado a gente muito feliz e empolgados, seguiremos fazendo o que a gente gosta da melhor forma que a gente consegue. Acho que essa é nossa fórmula.

Tirando isso, por enquanto estamos bem abertos e como toda banda, querendo tocar o que a gente se dedica tanto pra fazer para outras pessoas que queiram estar conosco nessa caminhada.

As letras trazem temas político/sociais de uma perspectiva intimista, sofrida, carregada de sentimentos que muitos vão se identificar, eu diria até que é algo universal. Queria que vocês comentassem um pouco sobre as letras, e apesar de ser bem direta a mensagem, deixassem aqui mais direto ainda, qual mensagem vocês consideram importante ser dita hoje?

Devo confessar que as letras são todas bem pessoais, de vivências nossas. A gente escreve e também interpreta textos e poesias de amigos bem próximos que foram cedidas pra gente musicar.

Se você interpreta como algo “universal” eu diria que a mensagem que considero importante ser dita hoje é que vocês que nos escutam e se identificam com algo, precisam se lembrar sempre que coisas ruins acontecem com muita gente, mas não precisamos vivenciá-las sozinhos.

Essa banda mesmo não é composta por quatro caras, ela é formada por muitos amigos nossos e isso é o mais importante. Os amigos próximos que correm com você merecem saber da importância deles em sua vida. Isso fortalece, inspira e impulsiona. É uma via de mão dupla.

Depois que me mudei para São Paulo eu peguei um choque com a quantidade de famílias em situação de rua, se colocar no lugar do próximo é o que te alavanca pra tomar alguma atitude, não precisa mudar o mundo, mas ajudar projetos, doar algo que você não precisa, prestar pelo menos atenção ou olhar nos olhos de alguém, muda o mundo dessa pessoa hoje. É um dia de cada vez, uma atitude por vez.

Houve uma época, como todo mundo criado no punk, que eu esperava mudar o mundo. Hoje acredito que faz muita diferença também tentar não ser um bosta.

Eu me lembro que entramos na pandemia com aquele papo de “será diferente”, “capitalistas bonzinhos” , “a natureza vai respirar durante esse tempo e voltaremos melhores”, no entanto o que vimos na prática, foi um maior distanciamento social entre os ricos e o resto da população no mundo, e aqui no Brasil um cenário distópico proporcionado por uma corja facho maldita. Eis a pergunta, e essa é pra tirar do fundo do peito, na sua opinião, existe esperança?

Preciso dizer que não tivemos esse sentimento de “será diferente” ou de melhora no futuro em nenhum momento durante a pandemia.

Desde 2018 o Brasil enfiou os dois pés na merda e o que se mostrou não foi o surgimento de gente escrota, mas sim um sentimento de representação da parte deles. Uma infinidade de discursos racistas, elitistas e fascistas disfarçados de moralismo de gente privilegiada que odeia pobre.

Acredito que o lixo que tá na cadeira da presidência não vai se reeleger, mas não vai melhorar nada com o senado recheado de gente alucinada crentalóide.

Além disso, ainda temos essa onda negacionista/conspiracionista atrasando a vida de todo mundo. O gênio toma vacina desde criança e agora, depois de velho, o cara pensa que tem um 5G criado pela China pra vigiar a vida medíocre dele enquanto ele vai trabalhar dirigindo o carro financiado em 64 vezes e janta miojo, mas o comunismo quer tomar tudo o que ele tem.

Fica bem difícil ter esperança hoje em dia, mas pra não deixar esse clima chato posso dizer no que tenho esperança. Tenho esperança que muitos movimentos que se viram obrigados a surgir pra ocupar o vácuo social que o estado deixou com o esse descaso total vão se fortalecer, crescer e mostrar pra muita gente que na prática dá pra fazer muita diferença de pouco em pouco.

Tem músicas novas no pente a serem lançadas? Um full talvez? Quais os planos?

Temos uma música nova em pré-produção, no início de 2022 deve estar em processo de gravação. O full é uma vontade presente, vamos ver o que acontece durante o ano pra ver nossas possibilidades. Vai acontecer, só não sabemos quando ainda.

Temos uma ideia de criar camisas com estampas variadas pra fazer um caixa pra um futuro full, mas tudo no campo das ideias ainda.

Por enquanto nossos planos se resumem em marcar algumas datas pra tocar e continuar produzindo nossas músicas em formatos menores (EP e single) até aquela vontade de fechar um full se tornar grande demais pra segurar.

Eu agradeço demais pela paciência e atenção, gostei muito da banda e espero poder vê-los por aqui em breve. Deixo esse espaço aberto para se manifestarem livremente.

Nós que agradecemos pelo espaço, estamos muito felizes de poder ter essa chance de falar um pouco sobre ANGVSTIA e poder falar um pouco de como a gente se sente e pensa.

Pode contar conosco e seria muito foda fazer um rolê por aí, em breve vai rolar! Grande abraço!

Você Pode ouvir ANGVSTIA no Bandcamp e nas redes de stream.


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Vacilant – Tempo Bravo

Lançado em 27 de agosto, Tempo Bravo é o segundo álbum da banda Vacilant. A banda conta com membros de outros projetos da cena alternativa do Ceará: Yuri Costa (Máquinas, Clau Aniz), Clau Aniz, Felipe Couto (Astronauta Marinho), Tuan Fernandes (Chinfrapala) e Tais Monteiro compõem o conjunto.

A união de grandes artistas acontece também no álbum visual dirigido pelos integrantes Taís Monteiro e Tuan Fernandes. Foram convidades Amorfas e insiraseunomeaqui para a produção dos clipes de Serviços Essenciais e Sopa de Ossada, respectivamente. Tanta gente boa junta só podia dar em uma viagem incrível né? Tempo Bravo é um deleite tanto para os ouvidos quantos para os olhos.

O lançamento é do selo Mercúrio Música, que possui entre seus destaques o álbum O Cão de Toda Noite do Máquinas, já conhecido de quem acompanha nossas entrevistas. A produção e mixagem é assinada pela própria banda. Klaus Sena assina a masterização. A capa, contra capa e encarte contam com fotografia de Tais Monteiro e edição de Johann Freitas.

O álbum que viaja pela experimentação e mistura do jazz, hyperpop, ritmos brasileiros e rock é fruto de uma residência artística na Escola de Artes do Porto de Iracema.

Curioso, né? Para entender mais de Tempo Bravo chamamos Taís Monteiro e Yuri Costa para uma conversa sobre o processo de criação do álbum. Confira:

A banda é formada por nomes já conhecidos da música alternativa cearense, né? Se não me engano, exceto pela Tais Monteiro, todos os demais integrantes já tocam em alguma outra banda. Como aconteceu esse primeiro encontro de artistas? E como foi mesclar as influências de cada um?

Tais Monteiro: Bom, a Vacilant começa em 2017 e é primeiramente idealizada por Yuri Costa e eu, que crio as imagens e vídeos. A ideia era trazer nas apresentações e nas participações especiais, amigos músicos e artistas visuais de Fortaleza. Aos poucos, Clau, Felipe e Tuan, que participavam em apresentações, foram se aproximando mais ainda. Yuri, por exemplo, está na formação da banda de Clau Aniz; eu fiz a capa do álbum Filha de Mil Mulheres (2018) e fiz os clipes de Clau Aniz também junto a Tuan, nós dois dividimos a direção de fotografia de Uru Iuá, videoclipe de 2019 de clau aniz, entre outras coisas que fizemos de audiovisual juntos. Já Felipe Couto, já era amigo próximo de todos nós e aos poucos, nos shows e nos ensaios, fomos nos tornando um grupo. De certa forma, já nos encontrávamos em outros espaços e criamos tanta coisa juntos em outros projetos que a Vacilant se torna um lugar de experimentações.

O álbum foi fruto de uma residência artística na Escola de Artes do Porto Iracema com a tutoria da multiartista Maria Beraldo, certo? Fale um pouco de como foi essa experiência.

Tais: O Porto Iracema é uma experiência única. No momento de isolamento social devido à pandemia de Covid-19, ter a Vacilant como um dos projetos escolhidos para o laboratório de música foi essencial para continuarmos criando. A princípio, intentávamos criar um espetáculo, um show, pensar no palco. Aos poucos, fomos percebendo que ainda não conseguiríamos dar conta disso nesse momento. O laboratório, coordenado por Mona Gadelha, foi compreensivo com a mudança da proposta inicial e embarcou na nova proposta, do vídeo-álbum. A tutoria com Maria Beraldo, apesar de ter sido feita toda a distância, nos trouxe outra perspectiva de timbres e de estrutura das músicas.

Maria Beraldo acompanhou o processo por e-mail e chamadas de vídeo, viu os vídeos durante o processo de montagem, conversamos sobre as imagens e os conceitos sobre tempo que perpassam o álbum também. As tutorias propostas pelo Porto Iracema caminham neste propósito: aproximação, troca de experiências, um olhar sobre o trabalho.

Fotos por Tais Monteiro

A gente nota toda uma mistura de sons no álbum, indo do jazz ao eletrônico, bastante experimentação. Como foi o processo de composição?

Yuri Costa: Buscamos sempre levar as composições para lugares menos reconhecíveis e previsíveis. Quando notamos que está muito parecido com algum gênero, tentamos levar os arranjos para outros lugares. Ao mesmo tempo, naturalmente todos esses gêneros se entrelaçam pelas diversas influências que todos nós temos. Todos nós gostamos de jazz, rock, samba e MPB, mas sabemos que a Vacilant é música eletrônica. Então, a partir dessa perspectiva vamos colocando essas influências dentro desta estética proposta. O caráter experimental do grupo também contribuí para essa mistura, já que nossa pesquisa parte de um lugar onde não existe compromissos com formas fechadas, estamos sempre procurando novas maneiras de produzir.

Há inclusive um cover de “Minha Imagem Roubada” do Cidadão Instigado. O que motivou a escolha dessa música?

Tais: Cidadão Instigado está presente na memória afetiva de todos os membros da Vacilant. Os shows, os álbuns. Minha Imagem Roubada foi lançada em 2002 e todos nós sabíamos cantar a música. O Catatau é um artista muito importante para nossas obras. A ideia de gravar um cover de Cidadão já era uma conversa que acontecia há um tempo e quando essa música foi proposta por alguém (não lembro ao certo quem), todos topamos de cara. Inclusive, é a única música do álbum que contém as vozes de todos os integrantes (gravamos cada um três vozes diferentes, talvez no desejo de estar no meio de um show do Cidadão).

Além desse fator da memória que dialoga diretamente com o tema do tempo que perpassa o álbum, conversa diretamente com as ideias que temos sobre imagem (na época de criação do vídeo-álbum, conversamos sobre dois textos importantes para o nosso processo criativo: Em Defesa da Imagem Pobre da Hito Stereyel e Por um Cinema Imperfeito de Juan García Espinosa).

Vamos falar do álbum visual agora. O release diz que o filme foi dirigido por Tais Monteiro e Tuan Fernandes. As músicas foram feitas já pensando no filme e vice versa? Como surgiu o filme?

Tais: Há um tempo, Tuan e eu já pesquisávamos e pirávamos em projeções, em usar imagens de arquivo de internet, buscar transformar nossas próprias imagens de arquivo, os destroços da produção audiovisual, nos divertir de alguma forma com essa tormenta de imagens disponíveis. Usamos ao nosso favor a materialidade de pensar dispositivos diferentes e suportes múltiplos como busca de uma memória em comum. Por exemplo: em Sangradouro são imagens do açude de Orós (CE) sendo inaugurado em 1964, disponível no YouTube e tem imagens de desenhos do Tuan também; e em Minha Imagem Roubada, são vídeos de baile em várias cidades nordestinas da década de 1990 e 2000 que estão disponíveis também no YouTube; em Corredeira, projetamos nas falésias em Icapuí (CE) cenas de filmes que marcam nossa memória e assim criamos um outro tempo dentro do tempo na textura milenar das falésias.

Durante as apresentações antes do isolamento por conta da Covid-19, já trabalhávamos também com uma pesquisa de luz e laser que trouxemos para o vídeo e para as fotos. E desde o primeiro EP, temos um “ser” que aparece nas fotografias, mas não nos shows. Desta vez, ele está em movimento, nos introduzindo suas memórias, seu caminho no início do vídeo, seu tempo outro do que estamos acostumados a experimentar como seres humanos.

As músicas já vinham sendo trabalhadas anteriormente. A Vacilant tem um processo de música que é constante e não para um trabalho específico, até o momento que é decidido criar um álbum. A forma do vídeo-álbum é que foi conjunta, de pensar ordem e caminho de escuta e visualidade, qual música vem primeiro, de que maneira a gente mostra na imagem o que queremos mostrar… Isso, foi pensado junto.

Como foram decididas as participações dos artistas convidados no filme (AMORFAS e insiraseunomeaqui)?

Tais: Ambas participações foram incríveis e imprescindíveis para o vídeo-álbum. AMORFAS tinha enviado um trabalho de colagem para uma revista de fotografia de arte nordestina na qual eu fui editora e curadora, a revista NERVA. No momento que vi a arte de AMORFAS, enviei para todos da Vacilant e concordamos no convite imediatamente.

insiraseunomeaqui já tinha trabalhado anteriormente com Felipe Couto e já conhecíamos o seu trabalho com cinema 3D e modelagem. Com o convite feito, nos reunimos, mostramos as duas músicas, e es artistes decidiram de que maneira fariam, a ordem e a maneira como criariam.

Fizemos reuniões semanais somente para acompanhar processo ou sanar dúvidas, mas de qualquer forma, o trabalho de AMORFAS e insiraseunomeaqui são maduros e firmes, quase não teve modificação do que foi proposto por elus. Para nós, da Vacilant, foi um encontro alargador de significado das músicas.

É interessante um álbum musical que também é um trabalho acadêmico. Como vocês enxergam essa conexão entre esses dois mundos?

Tais: Acho que ainda não é um trabalho acadêmico hahaha. Tempo Bravo (2021) é um vídeo-álbum apenas ainda. Em breve, vai ser um show e quem sabe uma experiência imersiva, pode ser que vire outra coisa depois. Tempo Bravo (2021) ainda está em processo e isso é interessante, talvez pelas pesquisas que fizemos para criar, influenciados pelo que lemos e o que conversamos sobre, não é possível fechar um trabalho assim. Ele vai ser sempre mutante.

Fotos por Tais Monteiro

Tempo Bravo é um álbum para ser tanto escutado quando assistido, né? O que vocês acharam dessa experiência de ter um álbum visual? O que isso diz sobre o ato de ouvir e fazer música atualmente?

Tais: Desde o início, a Vacilant é uma proposta de conversa entre som e imagem e, pela primeira vez, conseguimos criar um vídeo para o álbum inteiro. O desejo de criar um álbum visual sempre esteve latente em todos os outros momentos anteriores da Vacilant, o que acontecia era que não tínhamos tempo ou estrutura para criar da maneira que queríamos.

Acho que faz algumas décadas que a imagem e o som trilham espaços comuns e assim, projetam experiências conjuntas. Talvez, nos últimos anos, por conta dos aportes tecnológicos, os processos entre linguagens estejam mais diluídos e as barreiras que dividiam as experiências sensoriais não existam mais como antes. É possível enxergar projetos em que luz, imagem, vídeo, música, cheiro e presentificação estejam em uma mesma ideia e sejam criadas para serem experienciadas juntas, o que não significa que, cada linguagem, alcança a nossa percepção de uma maneira específica.

E por fim, quais são os planos da banda para o futuro?

Tais: Nesse momento, estamos ansiosos com uma apresentação presencial. Elaborando algo ao vivo. Pirando com essa possibilidade de trazer algo do vídeo para o show, de qual maneira, de que forma, como fazer, como não fazer. Programar iluminação, estudando isso. Estamos também, nos encontrando com muita gente de forma online ainda vendo essas possibilidades, a instigação tá grande. Pensando em turnê, pensando em prensagem física de k7 que é um desejo, instalações sonoras também é outro, um monte de coisa. E continuar fazendo!

Ouça Vacilant no Bandcamp e nas redes de stream.


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Nauzen – Vai ter pra mim?

Emo, alternativo ou shoegaze? Esse duo de Pouso Alegre (MG) formado por Natália e Mateus, traz tudo isso na música (menos shoegaze, porque eu errei feio na categoria), junto com a vontade de criar e viver o underground do jeito mais legal que existe, que é na estrada, fazendo amizades e rock desajustado.

“Tempos Difíceis” é o nome do último material da banda, nada mais apropriado pra ouvir nos últimos tempos (difíceis). Segue uma conversa com os dois sobre a Nauzen e tudo mais.

E aí gente, como estão? Acho que essa entrevista é mais uma tentativa minha de chegar perto de vocês, desde a Demo (existiu uma Demo ou eu sonhei?) que vejo vocês pelas internete e penso “como parecem ser legais” haha. Mas é isso, se apresentem aí, contem um pouco do começo da Nauzen, como foi esse trajeto até hoje, de Pouso Alegre para o mundo.

Estamos aí, com vacininha no braço, esperando o fim da pandemia para fazer showzinho. Sobre a Demo, foi o ponto de partida, o ímpeto criativo, a nossa versão mais sincera e lo-fi.

A gente se conheceu nos bares da vida através de amizades em comum e logo estávamos trocando ideia de som e  surgiu uma influência em comum que era o gorduratrans, que na época (2016), fazia sucesso com os jovens tristes, em seu disco de estreia. A partir daí começamos a fazer um som, que no início era mais improviso, e só dois anos depois começamos a compor de fato.

Após muitos ensaios e lançamento da Demo, de forma despretensiosa, começamos a pegar firme em 2019, quando fizemos turnê, vários shows, gravamos EP, consolidando o nosso rolê.

Uma vez alguém me explicou que shoegaze é um som alternativo com a guitarra distorcida lá no talo. Se for isso vocês são muito shoegaze haha. A gravação do EP explode nas caixinhas. Como vocês definem a Nauzen musicalmente e o que vocês têm ouvido ultimamente que acabam influenciando na banda?

A gente nem se vê como uma banda de shoegaze, embora isso seja uma influência muito forte, graças ao My Bloody Valentine. Temos que comprar muito mais pedais para isso haha.

Nat: As influências mais indies e comerciais, Boogarins, Cidade Dormitório, Bikini Kill, Paramore, Willow (influência mais atual, devido aos últimos dois albuns “The Anxiety” e “Lately I Feel Everything”)

Mat: Eu sou de um rolê mais metal/HC e as influências que eu carreguei pra Nauzen quando estou compondo seriam as bandas L7, Black Flag, Nirvana, Test e Sepultura.

Recente saiu uma k7 com os dois EPs de vocês. Coisa mais linda, lançado pela Vlad e Belo Records. Como surgiu a ideia e como foi a resposta da galera, em tempos de streamming mandando ver no povo. Vocês pensam em lançar mais coisa física?

Rolou convite da Belo Records (selo do Mateus), que tava encomendando as fitas com o Vlad Tapes (perfeito sem defeitos), pra lançar esse k7.  A recepção foi excelente, vendemos tudo! É nois galera s2! Agora vamos gravar mais sons e provavelmente lançar em CD, fita novamente, vinil (quem sabe, alô selos independentes, chama nóis). 

Lá em 2019, no anúncio do primeiro EP, vocês escreveram umas coisas bem legais: o lance de ser uma banda dependente da galera que vai nos shows, das pessoas e bandas que já passaram e influenciaram, de todo mundo que tá no meio até a música realmente sair, um show acontecer. É real demais e é o melhor entendimento de punk e underground que pode existir. Porque comunidade é isso, né? E aí, dois anos depois, tá tudo um caos e confuso. O que vocês esperam disso tudo? Rola alguma expectativa em relação a banda, cena, shows, rock e essa coisa que a gente vive?

Muita ansiedade rolando para voltar com os rolês, ver a galera, até passar perrengues haha. Passamos um ano sem ensaios e contato, pois estávamos trabalhando na linha de frente do combate à pandemia e isso realmente deu uma brochada. Estamos voltando aos poucos e agora com o suporte do Estúdio Mesmo (estúdio do Mateus, bora gravar rapeize) vamos voltar com força total. A expectativa é que para o segundo semestre de 2022 já esteja rolando shows, oportunidade de tocar com as bandas amigas e viver o role real. 

Vocês fizeram muitos shows nesses anos de banda, várias cidades e turnês antes mesmo de lançar um material (oficialmente). Tem algum especial que vocês guardam no coração ou que tem uma história por trás? E vou aproveitar pra perguntar o que vocês acham mais difícil em fazer uma tour. E voltando os shows animam um aqui (Vitória/Vila Velha)? Montem o cast, valendo.

Todos os shows foram fodas, mas a turnê na Região dos Lagos está pra sempre nos nossos corações. Inclusive nesse rolê percebemos que o ponto mais complicado de uma tour é caber duas bandas no mesmo carro.

Vilha Velha é meta! Alô Nandolfo, alô Mozine, alô Roberta! Vamos tocar todas pra vocês.

A arte de capa do “Tempos Dificeis” é da Victória Colley, que imagino ser a mesma que tem as melhores histórias. Acho que uma das coisas mais legais do underground é que só tem gente foda perto da gente, conseguimos gravar um disco, aparecer nas artes e fazer show só com o talento dus amigues. Eu queria deixar esse espaço pra vocês falarem dos amigos, amigas e amigues que fazem coisas legais nesse nosso rolê massa.

Victoria é a nossa musa. E sobre a galera que tá com a gente, temos gratidão imensa por ter perto pessoas tão incríveis como o Samuca (aka Kdeira), a Panda, a Tay, o Thomaz, Tiaguinho, que sempre somaram com a gente e as bandas e produtores parceiros como A Cidade Atrás da Neblina, Passos Largos, Inês é morta, Tosca, Acruz Sesper Trio, DJ Racassi, Rafinha Rezende e muito mais. Vocês são foda!

Agora falando sério, o que Tom Jobim disse?

Haha nada naquele presente momento. 

Querem dizer alguma coisa nos finalmente?

Primeiramente: fora bolsonas. Segundamente: valeu galera! É nóis, em breve novo EP, saudades mil e obrigado pelo espaço! Terceiramente: apoie a cena local, quebre um violão na cabeça de um esquerdomacho de sarau!

A discografia de Nauzen está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


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Entrevista: Inoutside

Muito se fala do momento que o rock tem vivido, rejeitado pela indústria musical, esquecido pelos jovens e pela mídia e como essa fase tem refletido até mesmo no cenário underground. O que pode soar confuso já que a gente que vive nesse submundo da música nunca deu a mínima pra indústria.

O fato é que sobra pra todo mundo, até mesmo pra saudade. E se tem uma banda atual que me faz lembrar de toda essa fase MTV Rock Brasil, é a Inoutside. Não só me faz lembrar, como também acende aquela esperança de que o rock br possa voltar a ser da juventude no fundão do ônibus, da garotada na pracinha com o violão, da galera camisa preta no fundo da sala.

Anime seu coração, bons dias barulhentos estão por vir.

Ei gente, como vocês estão? Pra começar gostaria que falassem sobre vocês e o começo da banda, como se deu tudo até hoje. Sobre a relação Vitória/Juiz de Fora e como essas duas cidades têm influenciado os caminhos da Inoutside.

Mariana: Bom, a banda como ideia surgiu lá em 2012, da cabeça de uma Mariana de 15 anos que se juntou com meros conhecidos com o interesse comum de fazer música. Que tipo de música, ainda era um mistério haha.

Saía de tudo: de Bruno Mars a Paramore, cada um trazendo seus interesses, ainda que tão divergentes. A maioria era adepta do rock (como eu) e, com o tempo e com várias pessoas saindo e entrando na banda, ela se fixou como um power trio em 2017, e aí as coisas começaram a caminhar num mesmo sentido.

Eu e meus grandes amigos Remy e Sofia, todos naturais da grande Vitória, começamos a escrever o que a Inoutside viria a se tornar. Eu e Remy viemos morar juntos em Juiz de Fora pra estudar na UFJF, e Sofia fazia essa ponte entre as duas cidades. Shows em JF e em Vitória, gravações em Vitória e mixagem em JF: estava feita a ponte. A banda viveu essa desafiadora dinâmica até 2019, quando os interesses de todos seguiram caminhos diferentes e a banda quase se desfez, sobrando apenas eu que vos falo.

Confesso que quase me desesperei, pois não queria deixar esse sonho morrer. Chamei amigos músicos para me acompanhar nos shows ainda pendentes, e foi em decorrência desses últimos shows, quase desesperançosos, que surgiu a primeira esperança.

Um dos organizadores do API, festival em São João Nepomuceno (MG), me apresentou quem viria a ser a nova dona dos graves da Inoutside: grandessíssima Duda Gielo. No mesmo intervalo de tempo, um amigo me apresenta a Leticya pelo Twitter (vejam só). Aproveitei e marquei um teste conjunto e foi a coisa mais linda do mundo haha. Na primeira música que tocamos já parecia que ensaiávamos há anos, foi emocionante e nem pestanejei: tomava forma a nova e alinhada Inoutside, em dezembro de 2019.

Gosto de dizer que foi quando renascemos, porque nunca antes haviam tantos interesses em comum, nunca antes fizemos tanto sentido. A ponte com Vitória, ES agora sou apenas eu, que, em um cenário pós-pandêmico, pretendo garantir que sejamos cada vez mais presentes na cena do rock capixaba.

Musicalmente, vocês se definem como hard rock alternativo e se permitem criar em cima de outras vertentes, como é o caso da versão da Letrux que vocês fizeram lindamente. Quais são as influências da banda na hora de criar e como é esse processo? Vocês sentem que já criaram uma identidade musical ou ainda é um caminho a percorrer?

Duda: As nossas influências continuam abrangendo vários estilos musicais. Apesar de termos o rock como um “norte”, a música pop também é muito presente no nosso cotidiano. Nós acreditamos que música boa vai além de definições de gênero e sempre tentamos pegar o melhor de cada estilo para criar o nosso próprio.

Sentimos hoje, com os arranjos do nosso primeiro álbum de estúdio já prontos (e em processo de gravação), que criamos, sim, uma identidade e estamos muito felizes com o resultado. Não medimos esforços para colocar o melhor que tínhamos em cada uma das músicas e fizemos tudo com muito carinho. Queremos que todos sintam isso quando ouvirem nosso álbum.

Vamos falar sobre clipes. O primeiro contato que tive com vocês foi pelo clipe da música Run (que por sinal é foda!) e me fez lembrar da importância dos clipes pra cena rock alternativa/independente no Brasil nos anos 2000, MTV. Por algum motivo a gente perdeu esse contato com todo esse lance do audiovisual, justo no momento do boom, né? Tanto que outros cenários musicais têm usado bastante. Enfim, como vocês veem isso tudo? É possível e necessário esse resgate? Aproveitem e contem um pouquinho de como foi o processo de produção do clipe.

Mariana: Começando pelo final, o clipe de Run foi uma grande aventura. Confesso que a maioria de nós (se não todos) não sabia muito bem o que estava fazendo, mas fomos com fé, vontade e muitos voluntários haha.

Foi tudo feito sem nenhum orçamento e muito improvisado. Por sorte tivemos o apoio da UFJF, que disponibiliza equipamentos para projetos dos estudantes dos cursos de Artes e Cinema, como eu. O pessoal foi uma porção de amigos e colegas de curso animados o suficiente pra embarcar na aventura.

Escrevemos o argumento do clipe em cima da ideia original de uma dessas colegas, a Monique Oliveira, adaptamos e trabalhamos arduamente pra que pudéssemos estrear nosso rosto nas plataformas digitais. Afinal, como apontado acima, os clipes têm, há décadas, uma grande e importante participação na divulgação e na criação de uma identidade artística ao redor do mundo inteiro.

Com o crescimento da internet, e tendo seu boom nos anos 2000, graças à MTV, o videoclipe se tornou o principal portfólio da música popular. Basicamente, se você não tem trabalhos audiovisuais, é bem mais difícil notarem que você existe. Vê-se tanto quanto escuta-se, ou até mais.

Com isso em mente, mais a vontade de criar nossa própria identidade, que investimos nosso suor na criação de Run. A nova fase da Inoutside, entretanto, promete muito em relação ao conteúdo audiovisual como um todo, e não apenas videoclipes. Pra quem se liga na importância desse tipo de produção, sugiro que não perca nossos próximos lançamentos hehe.

Foto por Pedro Soares

Em 2018 vocês tocaram na Porca Fest e no mesmo ano quase entraram no cast do festival da Laja Records, por votação. Como é pra vocês, uma banda de hard rock, tocar em evento punk? Vocês percebem diferenças e semelhanças entre um show de rock “normal” e um show punk? De público, de estrutura, de expectativas. E como foi essa experiência da Porca Fest?

Mariana: O Porca Fest foi o máximo! Muitíssimo divertido em todos os aspectos. Fomos muito bem recebidos, num geral.

O festival contou com outras apresentações fora do punk, como a falecida Miêta, que trazia um rock bem progressivo e ótimo pra viajar assistindo. Ao mesmo tempo, tivemos os shows clássicos de punk da Whatever Happened to Baby Jane e Errática, por exemplo, nos quais o público ia à loucura nas rodinhas: pulava e se empurrava como ninguém, independente do calor de dezembro.

A gente ficou ali no meio, tivemos todo tipo de recepção do público, de rodinha a coro, do jeito que a gente gosta, e acho que foi justamente essa “mistureba” toda que fez o festival ser divertido como foi!

Quanto ao quase do Laja Fest, acredito que esse distanciamento do punk talvez tenha sido o fator determinante pra não termos, de fato, entrado na lista do festival, mas o quase já me deixou bem feliz. É bom saber que nosso som é capaz de agradar várias vertentes do rock, porque é justamente delas que nós nascemos.

Aproveitando que falei dos shows aqui em Vitória, e como parte da banda também é daqui, queria falar um pouco sobre o rock ES. Aqui sempre foi um Estado com uma movimentação do rock muito grande, do metal, hardcore ao rock e misturas com o regional. Dia D, Festival de Alegre, as dezenas de festivais com banda mainstream de fora, o underground no Entre Amigos. E aos poucos tudo foi se perdendo sem ninguém entender o porquê. Como vocês veem esse processo todo que aconteceu aqui? Vocês acham que foi algo parecido no Brasil inteiro ou aqui teve algo em especial? O quanto essa oscilação de mídia e público afetou na vontade de montar banda e investir em uma carreira musical?

Mariana: A verdade é que pegamos pouco essa mudança. Quando, de fato, consolidamos uma presença no ES, já havia uma certa estabilidade de desvalorização do rock, eram poucos os lugares que se propunham a organizar um evento exclusivo de rock e, quando havia, era difícil adentrar a “panelinha” (principalmente de indie rock e masculina) que dominava os poucos eventos que se via. Era muito uma questão de estar na moda, a meu ver (e machismo, claro), e isso muda com muita facilidade ao longo dos anos.

Entretanto, ainda tínhamos representações com uma base forte, como a própria galera da organização do Porca Fest, que atuavam como uma certa resistência ao mainstream e abrem espaço para bandas como nós, e dessa forma não permitindo que as outras vertentes do rock perdessem sua relevância.

Ser uma banda só de mulheres, agora, traz mais alguns desafios que antes não precisávamos ultrapassar. A cena ainda é bem machista, independente de qual vertente do rock, e quando entramos nas listas, é quase como cota, e isso nós pretendemos mudar ativamente e permear cada vez mais espaços da cena do rock capixaba.

Assistindo o minidoc Voices (que está disponível no canal do Youtube da Inoutside) e vendo a história da Paola, dá um calorzinho no coração, né! Queria que vocês contassem como foi esse encontro e a importância dele <3

Duda: Nós conhecemos a Paola no nosso primeiro show com a nova formação e foi quase como um sinal de que estávamos no caminho certo. Ela ficou bem na frente do palco, pulou, dançou, passou uma energia incrível pra gente. No final ela e a mãe vieram falar com a gente e então descobrimos que foi o primeiro show de rock dela.

Nós três crescemos com uma maioria esmagadora de referências masculinas e, quando você não se enxerga em quem te inspira, fica fácil pensar em desistir. Então ver ela toda animada, curtindo o nosso som e, na primeira experiência dela, vendo mulheres no palco, não só no vocal, mas também nos instrumentos, foi muito gratificante e esperançoso.

Nós queremos inspirar gerações mais novas que compartilham do mesmo sentimento pela música, queremos mostrar para as meninas que elas podem fazer o que elas quiserem, podem pegar um instrumento e serem ótimas com ele, serem elas mesmas, livre de qualquer julgamento.

O caminho é longo, mas se nós conseguirmos contribuir o mínimo que seja na vida de meninas como a Paola, então vai valer muito a pena!

Foto por Pedro Soares

Quais são os próximos passos da banda? EP novo, algum single, clipe? Imagino que deve ser um desafio manter uma banda ativa, com perspectivas, nesse cenário de pandemia. Mas quais são os planos pra esse ano?

Lets: No momento, nós estamos trabalhando no nosso primeiro álbum. Já gravamos os instrumentos, para em seguida pegar nas vozes. A gente está muito empolgada com o que está vindo por aí e doida para lançar logo, mas isso deve acontecer mais no final do ano.

Eu, particularmente, nunca tive essa experiência de estúdio antes da Inoutside, de construir músicas do zero, de criar as partes da bateria, e sempre parece que é um sonho pensar que estamos colocando uma coisa nossa no mundo, algo que vai ficar eternizado, de certa forma.

A pandemia atrasou um pouco esse processo, que tinha começado em janeiro/fevereiro de 2020. Fizemos uma pausa, voltamos a ensaiar quando foi possível, tentando manter a segurança nesse momento, e entre outras pausas e voltas, tivemos um “gás” de maio para cá e resolvemos focar na produção do álbum.

Já temos duas músicas em mente para serem lançadas como single – com videoclipes -, mas estamos esperando o cenário da pandemia melhorar para conseguirmos tirar essas ideias do papel, considerando que precisaremos de bastante gente trabalhando nesse processo. Mas, se tudo der certo, vamos conseguir lançar ainda esse ano ou, ao menos, no primeiro trimestre do ano que vem.

Muito obrigado, gente! Se tem algo que não comentei e queiram falar, fiquem à vontade. Que tudo isso passe o quanto antes pra gente ver um show de vocês por aqui! <3

Lets: A pandemia teve muitos efeitos negativos, em especial, para a classe artística. Por mais que temos a tecnologia ao nosso favor, ela não substitui o calor do público te vendo e ouvindo tocar ao vivo, cantando ali com você. Não vemos a hora disso tudo passar para podermos voltar aos palcos logo, em Juiz de Fora, em Vitória, e onde mais quiserem a gente.

Acho que vale o nosso agradecimento ao Bus Ride Notes por estar dando esse espaço para falarmos sobre nosso som e nossos projetos. Essa visibilidade dá uma força muito boa para artistas independentes.

E, se nos permite, queria aproveitar para convidar o pessoal para nos acompanhar porque, como falamos, logo teremos várias novidades. Mas enquanto elas ainda não vêm, temos músicas no Spotify e um material bem bacana no YouTube e nas nossas redes sociais para apreciar até lá 🙂


Entrevistas

The Biggs: 25 years and running

Esse foi um dos textos mais difíceis que eu já escrevi. Tenho tanta coisa pra falar sobre The Biggs que eu não conseguia traçar uma linha de raciocínio.

A banda de Sorocaba, SP completa 25 anos em 2021 (pois é, caro leitor, é possível que a banda seja mais velha que você) e os convidamos pra falar sobre isso, e mais, em uma entrevista.

Formada por Flavia (vocal, guitarra), Mayra (baixo, vocal) e Brown (bateria), Biggs toca um punk influenciado pelo grunge. Eles têm dois discos lançados, “Wishful Thinking” (2001) e “The Roll Call” (2007), além de duas demos, um EP e vários singles. A banda também fez parte da efervescente cena riot grrrl brasileira no começo dos anos 2000.

Abaixo você confere nossa entrevista com a vocalista Flavia e a importância que a banda tem pra cena independente.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Nós somos um trio, eu (Flávia), Mayra e Brown. A banda começou em 96. A primeira formação tinha a Janaína no baixo, em 2001 entrou a Mayra e tá até hoje, já passaram 20 anos, né?

Fazemos um som que passeia entre o grunge e punk, com influências do riot grrrl, do empoderamento feminista e rock ‘n’ roll. A gente gosta mesmo é do bate cabelo.

Como a banda começou? E quais foram algumas das suas influências?

Eu gostava de rock e era envolvida com o movimento punk de Sorocaba. A gente ia nos shows, assistia as bandas e eu sempre achei muito legal, só que percebia que havia uma ausência de mulheres tocando e aquilo me incomodava bastante. Eu percebi que tinha que mudar isso.

Naquele mesmo contexto, do começo dos anos 90, tinham diversas bandas influentes que vinham pro Brasil, L7, Nirvana… eu vi e falei: quero muito tocar em uma banda.

Eu sempre gostei de tocar, mas nunca quis ser virtuosa, aí comecei a me envolver com o punk e ele dá essa liberdade, do “faça você mesma”, você poder fazer um som com três acordes, poder se expressar musicalmente independente de ter conhecimento de teoria musical.

Então a influência foi mais do punk, riot grrrl, grunge, do “faça você mesma”, poder se expressar através da música independente de ter conhecimento de técnica é uma maneira mais livre de se expressar.

O que tava rolando na cena naquela época no Brasil? E em Sorocaba?

Sorocaba sempre teve uma cena efervescente de bandas independentes, sempre tinha algo rolando. Tem uma banda do começo dos anos 80, chamada Vzyadoq Moe, que ficou bem famosa no underground. Depois teve WRY, contemporânea da gente, que também existe até hoje.

A cena principal em 98 eram o que a gente chamava de guitar bands, essas bandas com referências como Sonic Youth, por exemplo, onde o som da guitarra fica na frente. Nós fazíamos muitos shows em casas noturnas em São Paulo, Campinas, Piracicaba… E muitas bandas com as quais a gente sempre tocava junto, mesmo em São Paulo, ainda existem, como Pin Ups.

Também haviam as bandas da cena riot grrrl de São Paulo. Dominatrix, em que eu toquei de 2001 até 2007, Hats, Las Dirces… São tantas bandas daquele período, a gente tinha uma cena bem forte, sempre fazíamos festivais no Hangar. Foi um momento bem massa pra bandas com mulheres na formação.

Por que vocês escolheram falar sobre feminismo?

Na verdade não tem como separar uma coisa da outra. Somos mulheres, vivemos em uma sociedade machista, sob o patriarcado… Então toda expressão que venha da gente tem essa influência de querer romper com esses dogmas e padrões que nos oprimem durante a vida.

Nós nunca fomos de usar jargões nas letras, o conteúdo era mais implícito, mas a postura, a militância sempre foi algo inerente na nossa vida.

Como isso foi recebido pelo público no começo da banda?

Tivemos bastante dificuldade. Hoje, em 2021, ainda temos resquícios de uma cena majoritariamente masculina e naquele período, fim dos anos 90, era muito mais.

O riot grrrl como movimento feminista dentro da cena punk, do alternativo, do hardcore, surgiu justamente pra isso, pra romper com o status quo, com esse modelo.

Uns caras ignorantes sempre apareciam nos shows e hostilizavam a banda, gritavam coisas pra gente, tentavam dimimuir ou subestimar a nossa capacidade, mas acabavam tendo que engolir seco. E não só o público, como caras bêbados falando besteira, mas também técnicos de som.

Ainda bem que hoje em dia cada vez mais mulheres e pessoas não binárias têm tomado conta da graxa, que é como chamamos a parte técnica, e isso é importantíssimo pro empoderamento de todo mundo. Mas durante muito tempo tivemos que conviver com técnicos de som que não botavam fé nas bandas ou queriam mexer no nosso equipamento, “deixa que eu arrumo pra você”, como se a gente não soubesse.

Haviam também os cumprimentos, durante muito tempo eu ouvi “Nossa, que legal sua banda, você toca bem, você toca igual homem”.

Isso era antigamente, eu percebi que mudou muita coisa em relação ao respeito e valorização das mulheres na música, mas isso foi uma luta árdua durante muitos anos.

Fico feliz que hoje os festivais e todo tipo de mídia têm tido essa preocupação de colocar mais mulheres, mais pessoas negras, pessoas LGBTs nas suas programações e isso é uma conquista do movimento feminista, do movimento punk, da contra cultura, dessa luta que passamos durante todos esses anos.

Já fazem 20 anos e certamente evoluímos um tanto quanto cena, hoje quando vocês tocam em uma cidade onde o pessoal não necessariamente conhece a banda vocês veem muita diferença na recepção do público?

No nosso último disco de estúdio, “The Roll Call”, as letras são sobre loucura, rock ‘n’ roll, se jogar no role, relacionamentos… Então acho que o que mais faz o público se engajar com a gente é a nossa energia ao vivo.

Porque nós cantamos em inglês, a maioria do público nem sabe o que a gente tá falando. Eu costumo dizer no começo das músicas “A música fala sobre isso, isso e isso”, mas a energia da apresentação ao vivo é o que faz as pessoas se jogarem.

Hoje em dia o público recebe muito bem porque, modéstia à parte, a gente derruba o teto do role. E nos últimos anos os convites têm sido devido a isso mesmo, por já conhecerem a banda, por já ter um público… e quem nunca viu paga um pau.

E eu fico feliz por existirem muitas bandas com mulheres, mas não tem muitas de rock pesado. Tem muitas no metal, mas na cena indie e independente dá pra contar na mão. Quer dizer, isso as que a gente conhece. Deve ter umas 20? Num país desse tamanho…

Esses dias eu tava conversando, “Será que o rock saiu de moda?”. Mas acho que sempre vai ter, enquanto tiver alguém fazendo um som numa garagem, tocando uma guitarra alta e distorcida, vai ter rock.

Antes e depois da formação da Biggs vocês tocaram em várias bandas e tocaram outros projetos também. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Eu toquei no Dominatrix durante muitos anos, e já tive outros projetos como Caos Dentro, Great Great Comet, que são duos de som alternativo.

O Brown e a Mayra já tocaram com muitos outros projetos também. Mayra tem o Human Trash, The Dealers, Lost Cuts que é o projeto solo dela.

A gente tá aí se expressando nas diversas formas que a música proporciona.

Você foi a idealizadora do Girls Rock Camp Brasil, certo? Você pode falar um pouco sobre ele e como começou? O Girls Rock Camp Brasil também se mistura muito com a cena Riot Grrrl brasileira, não?

Tem tudo a ver. O Rock and Roll Camp For Girls começou nos EUA em 2001, em Portland que é a cidade berço do riot grrrl mundial. Eu conheci o projeto em 2003, quando fui fazer turnê com o Dominatrix nos EUA, e falei “Nossa, que coisa maravilhosa”. Porque tem tudo a ver você juntar essa proposta de poder se expressar através da música e esse posicionamento feminista, e naquele momento eu me apaixonei.

Voltei pro Brasil e comecei a fazer uma atividade chamada Oficina de Guitarra Para Meninas, baseada nessa ideia. Depois disso fui ser voluntária no Rock and Roll Camp For Girls de Portland algumas vezes, aí fiquei com essa ideia “Preciso fazer aqui no Brasil”.

Então eu fiz um chamamento nas redes sociais e entre minhas amigas da cena feminista daqui, e foi uma adesão total porque tem tudo a ver com a gente. A gente também sabia que precisava se articular de alguma forma pra passar esse bastão de empoderamento feminista através da música, e nesse chamamento todo mundo dessa cena entrou na brincadeira. O Facebook ajudou muito pra fazer essa articulação online.

Eu ofereci pra fazer em Sorocaba, pois sou professora de sociologia aqui e pedi pra direção da escola pra fazer lá. E foi mara. Tem sido muito legal até hoje.

Nós paramos devido à pandemia, fizemos a última atividade em 2019. Fazemos o Girls Rock Camp para meninas e menines de 7 a 17 anos e o Ladies Rock Camp para adultes acima de 21 anos.

Em 2019 nos organizamos pra alugar um espaço, pois até então fazíamos de maneira itinerante em escolas e sindicatos da cidade. Alugamos em dezembro de 2019, fizemos a reforma e todas as adaptações em janeiro de 2020 e em março, na semana que iríamos inaugurar, veio a pandemia. Ainda estamos com o prédio, mas não fizemos nenhuma atividade, temos feito todas online.

Girls Rock Camp Brasil

Em 2021 Biggs completa 25 anos e isso é uma vida inteira, são histórias demais pra contar. O que vocês acham que foi marcante como banda ou o que vocês gostariam de compartilhar?

Eu acho que o mais legal é que nós somos amigos. A gente gosta de fazer som junto, a gente se diverte, a gente se ama. A gente sente a energia de estar junto quando estamos fazendo um som, é uma energia muito boa que flui desse trio.

E ao longo do tempo podemos dizer que o rock e ter uma banda de rock proporcionou os melhores roles, sabe? Os melhores amigos, os melhores amores… Você poder viajar, conhecer gente, trocar experiências, as turnês… Você se conectar com as pessoas através da música é uma coisa muito poderosa e um prazer muito grande.

Eu sempre recomendo pra todo mundo ter banda porque é muito legal. E também como forma de empoderamento, acredito que ter uma banda e tocar um instrumento me ajudou demais a ser quem eu sou, como cidadã, como militante, como mulher, como pessoa.

Acho que você poder se expressar através de um instrumento, poder compartilhar com outras pessoas a energia da música e estar com seus amigos, não tem coisa melhor.

Turnê argentina, 2007 (Mayra, Brown, Flavia)

O que podemos esperar nesse ano comemorativo pra banda?

Estamos com planos pra esse ano, mas com a pandemia a gente acaba se perdendo no tempo.

Estamos planejando um livro de fotos e textos sobre a história da banda, planejamos também um mini documentário e quem sabe um disco de vinil. Em todos esses anos ainda não tivemos nenhum lançamento nesse formato.

Demos

Estamos em parceria com a Lastro Musical, um selo aqui de Sorocaba, e também contando com a força da comunidade reunindo fotos e juntando esses materiais.

Já demos início a tudo isso e planejamos concluir até dezembro, mas se não der, estamos tranquilos, não tem problema sair no ano que vem.

Últimas considerações? Algum recado?

A mensagem que eu deixo é: a música faz bem pra todo mundo e registrar é super importante, acho que produção de material é historia, é nossa vida, é a vida da comunidade. Quanto mais pessoas produzirem material, não só música, mas registros em geral, melhor é pra todo mundo.

E que a gente possa se encontrar em breve num show bem cheio, todo mundo encostado, com muita aglomeração.

A discografia do Biggs está disponível nas redes de stream. Não deixe de seguir a banda nas redes sociais pra acompanhar as novidades e colabore com o Girls Rock Camp Brasil.


Entrevistas / Selos

Tudo Muda Music: É nois na fita K7 (de novo)!

Você já ouviu música em fita? Já encontrou uma fita do seu artista preferido? Sim, fita mesmo. Fitas cassete! Leitores novinhos, vão agora lá nos seus pais e perguntem pra eles o que diabos é uma fita cassete (ou k7 mesmo).

Essas fitas viveram seu auge durante os anos 80 e 90, e depois caíram em desuso com a chegada do CD. Mas quando ninguém mais esperava, elas voltaram! Pra ter uma ideia, de acordo com a British Phonography Industry, cerca de 156,542 fitas foram vendidas em 2020 no Reino Unido (um aumento de 94.7% em relação à 2019).

Mas e aqui no Brasil? Bom, aqui se você quer falar desse revival das clássicas fitinhas, você vai ter que falar sobre a Tudo Muda Music. Esse selo independente de Brasília vem lançando material dos seus artistas em belíssimas fitas cassetes, tudo feito por eles mesmos. E eles estão a todo gás, viu? Foram 30 títulos no catálogo do selo só em 2020 e, pelo visto, o selo só tem a crescer.

Pra falar sobre o Tudo Muda Music e bater um papo sobre formatos analógicos, o Bus Ride Notes entrevista Mauro Rocha, fundador do selo e um legítimo nerd de música. Confira:

Como começou a Tudo Muda Music?

A Tudo Muda Music é um pequeno selo musical de Brasília, que começou em 2015.  Desde o princípio até meados de 2019 o selo lançou apenas meus projetos musicais. Sou músico, toco baixo e sintetizador, sendo meu projeto principal o Transistorm. Por conta da minha atividade com essa banda e outros projetos paralelos, comecei a produzir discos a partir de 2015, quando criei a Tudo Muda.

Em 2019, após o selo acumular alguma experiência na produção de fitas, vinis e CDs (dos meus projetos) no Brasil e no exterior, surgiram as primeiras possibilidades de parcerias para produzir lançamentos de outros artistas-amigos do selo, com Abismo, Stvz, Frank Sidarta, e Signo XIII, chegando ao fim do ano com 11 títulos lançados em 20 formatos físicos.

Em 2020, apesar da pandemia da covid-19, o selo seguiu trabalhando a todo vapor, chegando ao fim do ano com 30 títulos no catálogo. Uma importante parceria também foi acrescentada: a associação com a Torto Disco, selo de música instrumental/experimental de Brasília que passou a lançar CDs e fitas em conjunto com a TMM.

Agora em 2021, seguimos lançando ótimos sons, como Joe Silhueta, Groupies do Papa, Visiorama, entre outros, sendo que tudo sai em formato digital mas também é lançado em fitas e/ou CDs. Já chegamos a 40 títulos no catálogo, que pode ser visto e ouvido gratuitamente no nosso Bandcamp, nossa principal “janela”.

Também estamos iniciando uma nova parceria com o selo Maxilar, do Gabriel Thomaz, do Autoramas, que deve trazer uma série de novos artistas muito interessantes ao catálogo do selo, o que é uma alegria e uma honra pra nós!

De onde surgiu a ideia de produzir as fitas k7 dos artistas do selo?

Da necessidade! Em 2015, 2016 eu comprei algumas produções de bandas brasileiras em fita (acho que era algo da Desmonta Discos), daí tentei obter os contatos pra produzir e constatei que as fitas na verdade eram feitas na Argentina. Lembro que pensei, “não é possível que em um país do tamanho do Brasil ninguém produza fita cassete! Tem até fábrica de vinil no país!”. Mas era verdade e não tinha mesmo onde produzir, aí no fim de 2016 eu comecei a tentar comprar tape decks e fitas virgens pra produzir eu mesmo, estilo D.I.Y..

Durante 2017 me dei mal várias vezes, comprando sons antigos e tentando consertar, sempre dando tudo errado, até que comprei um tape deck novo, gringo, de qualidade razoável, mas no qual consegui fazer as primeiras fitas da Tudo Muda. Também precisei desenvolver toda a parte gráfica, como templates e facas das capas e rótulos, e por fim conseguir o canal de importar as mídias, ou seja, as fitas “virgens”, o que é outro processo bem chatinho até hoje, mas que felizmente o selo vem conseguindo dominar nos últimos anos.

Em 2018, logo após eu conseguir fazer tudo isso, a Polysom começou a produzir fitas de forma industrial. Apesar de aparentemente isso ser um “banho de água fria” no meu esforço, foi algo excelente. Como eles trabalham com pedidos a partir de 50 cópias, isso trouxe uma alternativa para trabalho que não teríamos como fazer com nosso sistema de duplicação. A Tudo Muda produz com a Polysom sempre que necessário, mas hoje em dia também conseguimos fazer as nossas pequenas produções. Além disso, como não conseguimos atender encomendas de artistas interessados, sempre recomendamos a Polysom quando nos procuram nesse sentido.

E a aproximação com os artistas que são lançados pela Tudo Muda? Como ela acontece? Como é feita a curadoria de vocês?

Nossa capacidade de produção é bem limitada, então a gente se atém a uma linha de curadoria dentro da proposta do selo, que é de lançar música contemporânea, em geral que traga algo de novo/diferente em termos de sonoridade. Muitos sons que “não se encaixam” em apenas um estilo são lançados pelo selo. Também damos ênfase aos sons eletrônicos e instrumentais.

A aproximação com os artistas acontece de várias formas, no início era algo mais proativo nosso, atualmente recebemos propostas pelo email (info@tudomudamusic.com) que podem ou não se adequar à linha do selo, daí entramos em contato quando é o caso. Felizmente, agora já temos um cronograma de lançamentos pros próximos três meses, com muita coisa excelente vindo por aí até o fim do ano. Mas continuamos abertos e interessados em ouvir novos sons, especialmente que tenham a ver com nossa “linha editorial”. Basta mandar pro email acima (a gente responde sempre que tem a ver).

Você tem alguma memória afetiva com formatos físicos? Conta pra gente.

Sim, muita! Desde criança eu amo música e com 9 anos comecei a comprar fitas cassete. Na época, minha família foi morar no exterior (Lima, Peru) e meu pai só comprou um tape deck, não tive toca-discos até voltarmos ao Brasil, três anos depois, então na minha infância era só fita. Também dava pra gravar e ouvir no walkman e no carro, então essa coisa da portabilidade era ótima. Depois, na adolescência, fiz muito tape trading na época de ouro dos zines e fitinhas caseiras.

E até hoje coleciono vinis, CDs e fitas cassete, tenho uma coleção de mais de 3300 discos, devidamente cadastrados no Discogs (user: volume22).

Esse envolvimento afetivo com os discos desde a infância e o colecionismo ativo de discos até hoje me ajudam muito a obter resultados interessantes na construção do aspecto visual dos discos da Tudo Muda, claro.

A gente vê que as fitas tem todo um trabalho estético muito bem feito né, como é esse processo de produção?

Sim, tem a ver com nossas referências estéticas, de selos – principalmente Warp Records, ECM, Tzadík, Magaibutsu e, aqui no Brasil, Wop Bop e Essence Music.

Aí tentamos ser o mais criativos possível, levando em conta as artes dos discos, tentando selecionar fitas e caixas que combinem bem.

Você, Mauro, tem alguma fita preferida lançada pela Tudo Muda? Uma que você olhe e pense “Putz, esse trabalho aqui ficou lindo”.

Sim, mais de uma, na verdade. As principais seriam: Os Gatunos (2020), tem um contraste muito bom entre a fita, caixa e arte; Stano Sninský (2020), primeira experiência com rótulos em vinil translúcido, nessa fita funcionou muito bem; Transistorm (2021), fita translúcida, caixa não-translúcida e capa adesivada na fita; Fita Groupies do Papa (2021), com “luva” externa.

É meio difícil achar quem tenha um toca fitas hoje em dia, mas também está acontecendo todo um revival de formatos físicos, né? As fitas da Tudo Muda são mais como souvenirs? Como vocês pensam essa questão?

Sim, diferente do vinil (que em geral quem compra, ouve), com as fitas cassete dificilmente quem compra vai escutar. Nossas fitas vêm até com código de download pra quem compra já baixar.

Mas tem bastante a coisa do colecionismo, sim, eu costumo comparar com comprar um brinquedo antigo, que você não vai jogar mas acha legal ter na prateleira.

As fitas cassete também têm até hoje muito apelo, mesmo com pessoas muito mais jovens e que não tiveram esse formato como sua principal forma de consumir música. Talvez pelo design, talvez justamente por remeter a uma época que foi muito importante na música e na cultura (anos 70 e principalmente 80).

Recentemente o Discogs publicou uma lista das 100 fitas mais caras já vendidas no site (a mais cara foi uma do Linkin Park por 4.500 dólares), e começam com o seguinte comentário, traduzido:

Os cassetes estão voltando. Não, sério.
O vinil como uma forma de colecionar e compartilhar música já não é mais novidade em 2021. (…) Ao contrário de seus equivalentes de cera, os cassetes são bastante baratos para produzir (como artista) e comprar (como fã). Este formato de baixo custo é atraente para os músicos independentes, que podem lançar música sem investir milhares de dólares. Isso, por sua vez, torna os preços baixos e atraentes para os fãs e colecionadores mais jovens, que muitas vezes são a força motriz por trás das novas vendas de cassetes.

Esse seria outro aspecto importante, a meu ver, de ser mais acessível em termos de preço que o vinil.

Como vocês veem o papel do selo musical para com o público e os artistas? Ainda tem muitos campos a serem explorados nesse sentido? Tipo, muita coisa interessante que pode surgir dessa conexão?

É um orgulho poder colaborar com tantos artistas interessantes, poder contribuir para que tenham um lançamento legal na sua discografia e ao mesmo tempo ter sua música e sua arte no catálogo do selo.

Na Tudo Muda fazemos uma construção conjunta, bem de parceria mesmo, e bem diferente do conceito tradicional das grandes gravadoras. Selos independentes têm sim, muito mais essa vocação pra criar uma conexão com os artistas e com o público, e isso é muito bom.

No caso da TMM, como é um selo “de músicos”, vemos que isso traz também legitimidade e tranquiliza artistas parceiros, que sabem que não estão lidando com uma mentalidade voltada apenas ao lucro financeiro, mas sim à integridade artística.

E o futuro da Tudo Muda Music? Dá pra dar uma ideia do que vocês estão bolando?

Sim, como mencionei, já temos uma boa lista de artistas interessantíssimos a lançar. Isso inclui as parcerias com os selos Maxilar e Torto.

Além disso, teremos vários lançamentos de artistas da vanguarda da música japonesa, por meio de uma ponte estabelecida pelo Fredy Xistecê (produtor, ex-Lombra Records), que recentemente se aliou à Tudo Muda.

Por fim, estamos iniciando um sub-selo voltado apenas a sons pesados, em parceria com o Tulio DFC. Vai se chamar Catacumba Records e em breve estará em operação.

E assim que a pandemia passar, a ideia é organizar um evento com as bandas do selo, algo que queríamos ter feito no fim do ano passado, quando “completamos” 5 anos de vida.  Ou seja, vem muita coisa legal por aí!

Obrigado pelo espaço no site, e aos leitores. Acompanhem nosso trabalho, toda semana tem novidade.

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas / Selos

Big Cry Records – The kids will have their say

O punk é da juventude, fazendo por ela mesma, mostrando o quanto pode criar e fazer barulho por aí.

É bem nesse clima que surge a Big Cry, um coletivo faça-você-mesmo da capital paulista que bebe da água da Dischord do nosso amigo Ian, do punk com melodia e sentimento e da ideia de uma cena menos hétero topzera.

É uma movimentação de extrema importância, nos moldes da cena “pop punk queer feminista” independente que se formou nos EUA e Inglaterra, de bandas como RVIVR, Sourpatch, Aye Nako, Peeple Watchin’, Martha, Worriers e inúmeras outras, que reforçaram o punk como um espaço necessariamente além/fora do padrão cis-branco-macho que se fez durante muito tempo. Um pop punk político em oposição ao vendido pelo mainstream, por vezes bobo e distante do próprio punk.

Segue abaixo uma entrevista que fizemos com eles, sobre os projetos e os feitos do coletivo até aqui. Com vocês, Vini, Lucas, Miguel e Luke:

Ei gente, como vocês estão? Queria que vocês contassem um pouco sobre o começo da Big Cry, quem faz parte e a ideia por trás do projeto. Um selo? Um coletivo? O que seria?

Miguel: Primeiro queria dizer que é um prazer tá podendo contar um pouco da nossa jornada até agora. Estamos no comecinho ainda, mas já tem bastante história!

Bom, o projeto inicial da Big Cry era ser um selo independente pra dar suporte pra bandas e artistas, com foco nas que não tem muita experiência, não tem um bom suporte, tão muito no começo, não tem ideia de como seguir, por onde seguir, enfim… E fazer tudo isso de uma forma bem acessível, que fosse bom tanto paras bandas quanto pra nós. Levantar uma nova cena, inclusiva, respeitosa, diversificada, abolir aquele velho HC “hétero top” de sempre.

Grande parte dessa vontade é pela experiência que nós passamos quando mais novos. Primeira banda, aquela energia adolescente, doidos pra tocar por aí à fora, registrar nossos sons, participar de festivais, tocar com outras bandas, agregar mesmo, montar uma cena local. E aí a gente dá de cara com a realidade, né? Tudo muito caro, inacessível, difícil de achar lugar pra tocar, difícil de encontrar gente pra tocar junto, difícil de gravar.

Esse é justamente o sentimento que faz a gente levar nosso projeto pra frente, é trazer essa molecada toda que tá começando e que tá com aquele tesão de fazer o negócio acontecer. Fazer essa ponte entre os artistas e eventos, shows, gravação de qualidade por um preço justo. Levantar toda essa galera pra uma cena nova, esse é o grande sonho.

Aí também entra a questão do nosso projeto de coletivo. Nós já começamos com uma grande parceira que é a Modern Souds, produtora de eventos da nossa grande amiga Clara Ferreira, ela já entrou de cabeça nessa loucura com a gente.

E queremos expandir ainda mais e trazer outras vertentes, além das cenas emo, pop punk e hardcore. Somar cenas do rap, trap, alternativo, tudo ligado à contracultura, o undergound num geral. Fortalecer toda essa gama de artistas independentes que não tem suporte.

Nosso trampo preza a coletividade, fazer tudo junto. As bandas, os artistas se apoiam, se divulgam, se ajudam, de igual pra igual. É uma parada que a gente não vê mais.

E também uma das pautas mais importantes é nossa luta pelo fim dessa cena predominantemente masculina, hétero e branca. Essa sede de reformular, dar espaço pras mulheres, pros pretos, pra toda comunidade LGBTQIA+.

O punk é isso, é a revolta dos humilhados, dos abandonados. Mostrar que a gente tá aqui presente e que não vamos desistir de levar nossa arte, nosso som. Dar aquela varrida nessa gente machista, racista, homofóbica, toda essa podridão que tá entranhada na cena atual.

Miguel, Vini, Lucas e Luke

Quando o Lucas me contou sobre a Big Cry, pensei no quanto isso era incrível! Eu estava comentando com ele sobre uma cena “pop punk queer feminista” específica que rolou a partir de 2008 lá nos EUA, que juntou uma galera massa, não branca, latina e que foi um boom enorme pro que conheço e entendo por pop punk underground hoje. E saber que existe uma movimentação assim aqui, feita por jovens, é pra gente ficar feliz mesmo, né? Conta um pouco das referências de vocês, tanto na música emo e pop punk, quanto na forma de fazer tudo isso.

Vini: Acho que a principal influência que une nós quatro é o Ian Mackaye, junto com suas bandas Minor Threat e Fugazi, e principalmente a Dischord Records.

Sempre foi uma cena que nós admiramos muito, e eles começaram justamente como nós começamos: tentando gravar as próprias bandas, com o pouco que tinham, e fazendo tudo de forma independente e pelo DIY.

Agora citando referências brasileiras, apreciamos muito o trabalho da Modern Sound, da Clara Ferreira, aqui em SP. Ela faz um role muito foda, praticamente sozinha, e já trouxe até banda gringa pra cá.

Também nos inspiramos muito com o trampo das minas da PWR Records, que tem um trabalho lindo como selo e produtora, além da Bangue Records, um selo e gravadora voltado para bandas do Vale do Paraíba e região, e que apareceram em 2020 construindo uma cena muito massa por lá.

Aproveitando que falei dessa cena, tem uma coisa que sempre vi aqui e que não mudou muito hoje, que é a forma como as pessoas veem o pop punk: desvinculando do punk na maioria das vezes, por falta de um discurso político panfletário e pela melodia das músicas. O mainstream ajudou muito pra se criar essa ideia de pop punk como coisa de adolescente bobo, mas a gente sabe o quanto ele pode ser político, principalmente por acolher uma galera que se sente excluída do hardcore macho branco. Vocês acham necessário essa reafirmação do pop punk enquanto punk ou foda-se essa galera e bóra criar nosso rolê? Qual sentimento de vocês quanto a isso?

Vini: Eu acredito muito na gente criar o nosso próprio rolê, mas isso não implica necessariamente na desvinculação com o lado político do punk, até porque tudo é político, e mesmo grande parte das letras de pop punk não tratando sobre assuntos políticos, isso não significa que a banda não tenha posicionamento.

Devemos, sim, criar nossa própria cena, mas sem esquecer nossas raízes, que sempre foi algo voltado à contestação, à ir contra o status quo. A ideia com a Big Cry sempre foi a criação de uma cena que trouxesse abrigo pra essa galera excluída, que não tem suporte, e erguer isso por nós mesmos, e isso por si só já é um ato político.

Estúdio e QG da Big Cry

Em março de 2020 ia rolar o primeiro fest Big Cry, mas a pandemia adiou o rolê. Qual era expectativa pro evento na época? Poderiam contar um pouco sobre ele?

Miguel: Bicho, nossa expectativa tava incrivelmente alta! Era a festa de estreia do selo e nosso primeiro trampo de fato.

Fizemos toda correria pra conseguir o equipamento, juntamos o que nós já tínhamos, uma galera emprestou o que faltava, as bandas iam ajudar com uma parte também, foi aquela loucura haha.

Nós fechamos com três bandas, Ment que é uma banda parceiraça nossa e deu todo suporte logo no início, Nâmbula Mangueta, nossas amigonas e vizinhas de estúdio e Zero to Hero, banda de pop punk e emo de Taubaté que já tínhamos contato há tempos.

Também ia tocar a Lights Out (atual Lovemedead), banda que eu e o Carmo fazemos parte. As bandas iam se apresentar de tarde e de noite ia ter discotecagem com a Clara.

Uns amigos nossos se responsabilizaram em montar uma cantina vegan, porque o evento ia rolar o dia todo. Estávamos pra fechar com duas tatuadoras também, pra lançar umas flash tattoos. Montamos um esquema pra venda de merch das bandas, enfim, tava tudo lindo de mais… Nossa expectativa era que passassem por volta de 100 pessoas durante todo o evento. Inacreditável pra gente haha.

Mas aí o soco no estômago, né? Cancelamos o evento umas duas semanas antes dele acontecer, devido a pandemia, e aqui estamos sonhando com a queda desse governo e com a vacina pra gente poder retomar o projeto da festa, que dessa vez vai ser muito maior e mais legal!

Dia 12 de maio saiu o primeiro single produzido por vocês. Como foi tudo? Gostaram do resultado? Musicalmente falando, o que marca uma produção da Big Cry?

Luke: Então, na verdade “I Never Wanna Sleep Again” foi a primeira produção inteiramente feita no nosso estúdio, que montamos em março. O resultado foi ótimo, a acústica do lugar ficou bem boa, e a música foi muito bem recebida!

O que marca uma produção da Big Cry exatamente eu não sei te dizer, mas o que eu posso falar é que todas as pessoas que gravaram e gravam com a gente viram nossos amigos, o processo é sempre muito divertido, e tenho certeza de que isso influencia bastante na personalidade e sonoridade que os sons trazem!

Sei que vocês curtem um mainstream, mesmo vivendo o D.I.Y. e fazendo as coisas por ele. E aí eu queria fazer uma reflexão daqueles anos do pop punk emo no Brasil, os anos da Trama Virtual, dos festivais e do Rick Bonadio emocionado com tudo isso haha. Porque pensar que hoje aquela movimentação não existe mais, não dá mais a grana e mídia que dava, faz a gente pensar na cilada que pode ter sido aquilo. Vocês conseguem criar um cenário ideal pra gente que faz e vive esse tipo de música?

Lucas: Eu particularmente acho que a música é muito cíclica, soa como uma matemática exata, as vezes o rap tá em alta, as vezes o pop, as vezes o rock e geralmente isso acontece com roupagens diferentes, como foi o trap ou como tá sendo esse pop punk atual. Então talvez os “boss” que comandam essa mídia possam achar que a gente precisa de um descanso e assim vão mudando as coisas.

Mas ainda assim, eu acho que o mainstream é uma porta de entrada muito interessante, afinal muita gente do hardcore nem ouviria falar de underground se não tivesse ouvido Pitty lá nos anos 2000.

Porém, mesmo sendo uma vitrine e talvez uma forma de representatividade pra animar as pessoas a fazerem, quem amava de verdade sempre acabou seguindo pelo independente e pelo underground. Com raras exceções de bandas como Fresno que foram, se mantiveram no mainstream, e hoje se tornaram praticamente um marco na história da música brasileira.

QG Big Cry de fora (pegou a referência? <3)

Hora da lista. Cinco bandas de cada um, de coisa nova que vocês tem ouvido:

Luke: Be Like Max, Futuro, Anti-Queens, The Carolyn e Can’t Swim.

Lucas: Destroy Boys, Creeper, Grumpster, Salem e Pity Party (menção especial pros singles novos do Fiddlehead).

Miguel: Pinkshift, Meet Me @ The Altar, Yours Truly, Mod Sun e Double Play.

Vinicius: Desventura, De Carne e Flor, Nothing, Charmer e Gulfer.

Acho que é isso, gente. Se quiserem falar sobre algo que não comentei, fiquem a vontade. Vi que está rolando uma camisa linda de vocês e tal <3 Vida longa à Big Cry!

Lucas: A gente agradece demais pela oportunidade, queria agradecer você e todo mundo do site por isso! Essa é talvez nossa primeira aparição pública haha e tô muito feliz de fazer isso com você!

A nossa primeira leva de camisetas foi encerrada no último dia 12, agora estamos na fase de produzir.

Ainda estamos entendendo como tudo funciona e como fazer de uma forma melhor, mas é isso, fiquem ligados no nosso Instagram que em breve vão rolar muitos lançamentos. Beijos e leiam zines.


Entrevistas / Sites

A extrema direita no palco: Derrubando bandas fascistas na internet

Na última década, a guinada conservadora no Brasil e no mundo trouxe a urgência de um posicionamento político contra o fascismo. Na música independente tivemos pessoas se posicionando ao bolsonarismo ou à direita, o que naturalmente abalou toda essa de rede de amigues e parcerias de palco.

Assim, produtoras de eventos, jornais digitais de música e bandas assumiram o compromisso de falar sobre o assunto. Aliás, a palavra “fascismo” foi finalmente trazida ao debate, e tivemos até o episódio em que o Dead Kennedys foi derrotado por um panfleto na tour brasileira, pois foram incapazes de assumirem um compromisso antifascista (com os fãs e contra Bolsonaro).

Mas se enxergamos apenas o bolsonarismo, deixamos de ver outros fascismos correndo por aí. A real é que o Brasil está repleto de bandas à direita como skinheads e punks nacionalistas, de NS Black Metal, “fashwave”, muitas realmente ligadas a partidos políticos, movimentos radicais e organizações como integralistas e nazistas.

Nessa matéria entrevistamos a Natália, do Rio de Janeiro, que coordena o Mapa do Ódio, projeto que analisa grupos radicais brasileiros e que nesse mês se dedicou a denunciar bandas neofascistas, com a ajuda dos sites Cifra Club e Letras.

O Mapa do Ódio pode ser acompanhado em tempo real no Twitter e traz uma compreensão mais realista do fascismo atual e como ele se apresenta no Brasil. O capítulo atual, sobre a presença dessas ideias na música, é urgente para nós que trabalhamos com isso; é necessário que nossos shows e nossas redes sejam espaços antimachistas, antirracistas, e seguros para pessoas LGBTQIA+.

Como começou o Mapa do Ódio? E como ele é feito?

Natália: O Mapa do Ódio começou muito a partir de pesquisa de rua que eu fazia com outros militantes antifascistas, mapeávamos principalmente integralistas aqui do Rio.

Na verdade, o grupo integralista começou a ser um ponto modal nos círculos de extrema direita aqui. Bandas “Rock Against Communism”, motoclubes neonazistas, etc. Isso nos levou a perceber que haviam muitos grupos assim e que eles estavam se relacionando.

Durante a pandemia, essa pesquisa obviamente teve que parar e eu comecei a me ocupar mais entendendo esses grupos na internet. Fui olhar grupos bolsonaristas no Whatsapp e vi que tinham algumas conexões entre eles.

A partir disso, comecei a entrar num lugar da internet que chamam de “machosfera”, que é um reduto de incel. Assim como o grupo integralista, foi um ponto modal onde consegui achar outros grupos de extrema direita aqui no Rio, na internet a “machosfera” também teve esse papel. Então, esses dois mundos acabaram se juntando, o online permeia o offline e vice versa.

A partir disso, a pesquisa focou em entender as relações desses grupos aqui na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

O que levou vocês a irem atrás das bandas?

O que me levou a elas foi justamente a pesquisa de rua, esse grupo integralista tinha muita gente do “Rock Against Communism”. Eu tenho proximidade com a galera punk, então já conhecia bastante do meio underground aqui do Rio. 

Essa pesquisa foi muito de amigos que foram indicando e, a partir disso, fui achando bandas parecidas nos sites. Tem bandas skinheads integralistas, por exemplo, então eles estão sempre interligados.

Não tem como falar da atuação de rua da extrema direita sem falar dos skinheads. Por mais que seja uma subcultura que tem dado uma diminuída, ainda existe.

Qual é a maior dificuldade no rastreamento de bandas como as que tiveram suas músicas apagadas desses sites?

Como muitas dessas bandas são do início dos anos 2000 e final dos anos 90, elas não tem tanto material online, é mais difícil conseguir provar que a banda é neonazista. A Resistence 88 a gente sabe que é uma banda neonazista, mas tem pouquíssima coisa na internet, só consegui no Last Fm.

Algumas eu sei que são neonazistas, mas não tem nada nesse sentido na presença online deles para que eu possa apontar. Talvez a galera do underground vá sentir falta de algumas bandas no Mute do Ódio, mas é porque não tem como provar. Algumas são fáceis, o Zurzir faz questão de botar o Hitler na capa, mas nem todos os grupos são assim.

Outra dificuldade também são as bandas integralistas. O integralismo no Brasil não é visto como uma ideologia fascista. Inicialmente, com o Plínio Salgado, eles se diziam fascistas e tinham relações com o Mussolini na Itália, mas eles fizeram um “rebranding”. Então, se você fala hoje em dia que o integralismo é fascista, vai surgir um “PlínioSalgado_66” pra te encher o saco no Twitter.

Vai ser uma dificuldade que vou encontrar futuramente, mas vou falar assim mesmo porque é uma coisa bem forte.

Os Carecas do Subúrbio tem muita relação com o integralismo, eles iam fazer um festival em Curitiba em 2015 para criar uma frente nacionalista com muita iconografia fascista. Estou deixando os integralistas por último, justamente para ter uma base de confiança no nosso trabalho.

Você esperava a resposta que obteve do Cifra Club e do Letras? E como é a resposta de sites maiores, como o Youtube, por exemplo?

O Cifra Club e o Letras foram muito parceiros, eu não esperava. Foram super solícitos e estão tirando todas as bandas que eu peço. O Last Fm não me respondeu, mas vou continuar enchendo o saco.

O Youtube também não respondeu, mas quando eu denuncio alguma coisa lá, os vídeos caem. Inclusive, quando eu colocar uma banda que esteja lá e a galera quiser denunciar todos os vídeos, seria incrível.

Eu acho que é importante essas plataformas terem noção do tipo de coisa que está sendo colocada nos sites delas. Eu sei que o Cifra Club e o Letras são colaborativos e qualquer um pode escrever, mas não dá para ter músicas como as do Comando Blindado numa plataforma tão grande de música. Eles precisam rever, criar um algoritmo, talvez passar por um censor humano.

Bandas bizarras com letras horríveis vão surgir, então essas plataformas grandes tem que ter uma maneira de proteger a audiência deles, de não dar palco para essa galera de maneira alguma.

E no underground? Como essas bandas ocupam espaços em lugares mais obscuros da internet?

Como o underground da internet é uma galera jovem, até mais nova do que eu, eles tem outros gostos musicais. Banda skin não faz tanto sucesso na “machosfera”. Acho que a galera que ainda procura essas bandas é mais velha, que teve na juventude essa referência. Os sites que eu tenho aqui geralmente são antigos, do início dos anos 2000.

Então na “machosfera” e no undeground nazista mais atuante é uma galera mais nova, “cripto neonazistas”, digamos assim. Essas bandas não são tão referenciadas lá, mas no underground de rua a gente sabe que tem, ainda toca Virus 27 e Confronto 72 pra cacete.

Então, na internet é uma questão etária mesmo e na rua continuam ouvindo. É importante a gente não deixar isso rolar e falar que o Confronto 72 é uma banda integralista porque o 7 é o G, o 2 é o B, que é a porra do Gustavo Barroso, um integralista antissemita.

Essas bandas vão tocar e a gente precisa saber, se você vai num bar e elas estão tocando, talvez não seja o melhor lugar pra você beber sua cerveja.

Fale um pouco mais sobre o Mute no Ódio

O Mute no Ódio é uma campanha que está no Mapa do Ódio para divulgar a informação sobre o que são os grupos skinheads. Desde a origem, grupos também de esquerda, depois a guinada para a extrema direita no Reino Unido com o “Rock Against Communism”, até como está acontecendo hoje em dia.

Ao mesmo tempo é uma ação para juntar isso e tirar essas bandas dessas plataformas (Cifras, Letras, Last Fm, Youtube). Essas bandas existem há muito tempo e mesmo que algumas delas não estejam ativas (por exemplo, o Zurzir tá todo mundo preso), eles tinham músicas no Letras e no Cifra Club. Alguém colocou isso lá.

Me perguntam muito se eu não estou dando plataforma para eles, na verdade o Mapa o Ódio é muito pequeno e deixar essa galera correr solta não tem funcionado. Diferente do Morgan Freeman, não acho que se a gente não falar do racismo ele vai simplesmente sumir. A gente tem que fazer ele sumir.

Tem algo mais que você gostaria de acrescentar?

Só agradecer pelo espaço, foi muito maneiro. O Mute no Ódio está sendo pensado para ter várias edições, essa primeira é dos skinheads, mas vou falar de outros estilos musicais, como o black metal que tem uma influência neonazista, vou falar do fashwave (o vaporwave fascista), tudo isso em edições futuras.

Então quem quiser conhecer o sacolé de chorume que são os grupos de extrema direta aqui do Rio e quiser acompanhar o mapa, a gente já é bem atuante no Twitter (@MapaDoOdio) e vamos criar um site em algum momento esse ano.


Entrevistas

Umbilichaos – To Become Unreal

Umbilichaos é um projeto solo de Anna C. Chaos, iniciado em 2007, a banda de doom, post-hardcore, sludge tem 11 lançamentos entre discos, EPs e splits.

Em abril foi lançado o single “To Become Unreal” do trabalho homônimo com duas faixas de 25 minutos no total, agendado para junho.

Conversamos com Anna sobre a banda, seu processo de composição, como o “faça você mesmo” nem sempre é uma escolha, como nossa cena libertária não é bem assim e, claro, sobre “To Become Unreal”, numa entrevista que você lê a seguir:

Você pode se apresentar, pra quem não conhece?

Meu nome é Anna Claudia, vulgo Anna C. Chaos, toco guitarra e canto na Umbilichaos e Ismália, ambos solo. Também programo drum-machines, efeitos e ruídos. Sou feminista interseccional, mulher trans e lésbica.

Nós que ouvimos hardcore e metal underground quando vemos o nome Umbilichaos, se não conhecemos, temos a sensação de “esse nome é familiar” e só de olhar sua discografia, vemos que a banda é muito ativa. Você pode falar sobre isso? Ser um projeto solo tem alguma influência?

Muitas pessoas dizem isso, rsrs. Tocar e compor é minha grande paixão, eu passo a maior parte do meu tempo desperta pensando em música e acho que sou bem produtiva musicalmente. Quando lancei o primeiro disco, já tinha os próximos três prontos para gravar, e sigo nesse ritmo. Tudo que é lançado já tem alguns anos de idade e maturação.

Acho que ser solo tem alguma influência, sim. A logística é mais ágil do que depender de mais pessoas com rotinas diferentes, eu posso encaixar os processos no tempo que tenho, o que já não é possível com uma banda. Mas pode também ser um empecilho, pois não há outras ideias para somar, para apresentar saídas de labirintos criativos. E o processo de criação dos arranjos vai passando por etapas, ao invés de uma jam de banda, em que já pode surgir uma estrutura semi-definida.

Além de eu ser obcecada com detalhes, especialmente nas partes de bateria. Chego a montar uma batida com 20 variações diferentes, para gravar e decidir qual é a que gosto.

Outro aspecto disso é que é você mesma quem faz toda a parte técnica, gravação, mix, master e inclusive a arte dos primeiros discos. Como surgiu a escolha de fazer tudo?

Não foi bem uma escolha. Como tocar solo, foi um momento de “faça, ou desista.” Música é uma coisa cara, a maioria dos equipamentos vêm de fora, e nossa moeda não vale nada há algum tempo. O que inclusive, acredito ser um dos fatores que diminui o interesse das pessoas pelo rock no geral: não ter acesso a essas coisas.

Meu único disco gravado em estúdio, foi “Entrails” (2009), o primeiro. Quem cuidou disso foi o Bernardo Pacheco, guitarrista de duas das minhas bandas favoritas, Elma e Are You God?. Com o tempo fui adquirindo equipamentos mais simples, softwares gratuitos, perdendo o medo de computadores, fazendo experimentos, e comecei a cuidar dessa parte técnica também. Tem limitações, mas eu acredito firmemente em tentar tirar o melhor do que você tem em mãos. E fui melhorando com o tempo, inclusive em aspectos estruturais, graças a algumas coisinhas que trouxe quando toquei na Europa.

Sobre as artes, eu criei o logo e todos os layouts. Fiz as artes da trilogia “Entrails” (últimos desenhos da minha vida, depois abandonei), e a foto do “Samsara” (2013) é minha também. Mas a diagramação do segundo e terceiro, foi da queridíssima Carol Doro (Sisters Mindtrap e dona da Duende dos Cabos), e do “Samsara”, pelo Ricardo Faller (Água Pesada).

Do quinto ao oitavo, roubei de filmes que gosto e diagramei eu mesma (softwares gratuitos, nunca esqueçam deles). “Belong to Nothing” (2018), colaboração com o Kovtun, contava com arte do Marcos Varanelli.

Todos a partir daí, contaram com fotos de um dos meus baixistas favoritos, de uma das minhas bandas favoritas, Carlos Gomez (Vincebuz), encerrando esta parceria neste novo disco.

Como é o seu processo de composição?

Sempre começa com a guitarra, mas nem sempre com ela em mãos. Nos primeiros sete anos, sempre tinha de parar para tocar mesmo e deixar as coisas acontecerem. Com riffs definidos, eu começava a arranjar e programar a bateria.

Há alguns anos eu comecei a compor mentalmente, com ideias surgindo espontaneamente. Com as partes de guitarra meio definidas mentalmente, arranjo e programo a bateria, e duas ou três vezes por ano eu paro uma ou duas semanas para materializar as coisas.

Em ambos os casos, a partir da definição da guitarra base e bateria, componho harmonias e/ou experimento com acordes. Por último os vocais e talvez outros sons adicionais (samples, ruídos).

As letras vêm de poemas que fui escrevendo ao longo dos anos. E, claro, muito do processo se deve a escutar música. Cada disco meu fala de descobertas e obsessões musicais de períodos particulares.

Você pode falar um pouco sobre “To Become Unreal”? Uma das faixas acabou de ser lançada como single, né?

Sim, em 15 de abril saiu um single. Agora em 17 de junho, sai o disco inteiro, com duas faixas de 25 minutos no total.

A maior parte dos meus discos é uma única música dividida em várias faixas. A ideia sempre foi proporcionar uma experiência imersiva, uma jornada musical, ao invés das fórmulas tradicionais.

“To Become Unreal” é a quarta parte da “Tetralogia da Solidão” e uma progressão natural em termos de composição. É lento, grave, psicodélico, intenso e agressivo. Explora dissonâncias e texturas, com riffs e acordes estendidos e angulares. Tempos e dinâmicas estranhos, sempre tentando forçar mais a complexidade das programações de drum-machine. Elementos não muito convencionais como tablas e guitarra slide. Explorações com ruídos, efeitos e intervalos.

Nos quatro primeiros discos, havia um foco em harmonias de duas ou três guitarras fazendo coisas diferentes. Depois, a adição de uma cacofonia de ruídos e samples, do quinto ao oitavo disco.

A tetralogia atual foca em ser mais concisa, explorando colorações diferentes em acordes não convencionais, mais regrada no uso dos elementos citados anteriormente, tentando colocar mais feiura nas partes melódicas, e alguma beleza e harmonia nas dissonantes.

Liricamente, continua com muita influência de Jung, Joseph Campbell, João Cabral de Mello Neto e Vidas Secas. Tem muito dessa ideia de aridez desértica, desolação e isolamento.

Você já fez turnês fora do país, você vê alguma diferença marcante entre as cenas daqui e de fora?

Algumas, sim. Eu fiz turnê na Europa. O que posso dizer é que mesmo no menor circuito do rock independente é mais fácil encontrar estrutura de equipamentos com alguma qualidade.

Os países são pequenos, em 15 horas você atravessa a Alemanha de leste a oeste, de transporte coletivo. E há duas, três cidades para tocar em cada país, no mínimo. A logística é mais fácil, então. Também não rolou o “tocar de graça para divulgar seu trabalho”.

O público é um pouco mais entusiasta, tem mais interesse em comprar merchs das atrações e tem uma relação bem respeitosa com a arte. Eles agradecem entre as músicas. Até comentei sobre com organizadores de um festival em que toquei na Bélgica e eles me disseram que agradecem porque estamos dando algo pra eles.

Claro, acontecem problemas muito familiares também: organizadores que divulgam mal os eventos, ou não os planejam muito bem, operadores de som que não conhecem os equipamentos, passagens de som precárias ou inexistentes.

Mas as bebidas são melhores. Eu praticamente não bebo mais, mas tive que provar algumas vodcas russas e polonesas.

E tem a “Fuck Parade”, uma parada LGBT dos punks, em Berlim, onde quero muito voltar. Rsrs.

Você disse em entrevista ao site Rock em Síntese* que ficou um tempo afastada de shows, tanto tocando quanto assistindo, após sua transição. Isso foi devido a algo específico que você presenciou ou foi uma fase? E como estão as coisas nesse aspecto hoje?

Certamente, devido a muitos “algo” que presenciei. Não na cena em si, mas na sociedade como um todo. A gente vive numa cultura muito violenta e intolerante, que odeia mulheres, que odeia pessoas trans, entre muitos outros ódios. Então, acaba rolando essa inconsistência entre o discurso libertário do metal e hardcore, do rock em geral, e as práticas sociais que interiorizamos como seres pertencentes a uma sociedade opressora.

Não teve uma mulher ainda para me dizer que se sente completamente respeitada na cena, que nunca se sentiu subestimada, seja curtindo um som, seja fazendo música. Já ouvi falas de homens cis, como “banda de/com mulher sempre chama mais atenção”, num discurso super fetichizador e condescendente. E estou falando de mulheres cis, pois mulheres trans no rock brasileiro, quase nem conheço.

De cabeça, sei da Foxx Salema e da Karine Profana (Mau Sangue, Messias Empalado). Homens trans e pessoas transmasculinas, nem sei da existência nesse rolê. Se alguém souber, me indique. Rsrs.

Karine foi inclusive a primeira travesti que encontrei num show de metal/HC, show da Armagedom, cerca de um ano antes de eu transicionar, talvez. Na época acho que eu já sabia da Laura Jane Grace (Against Me!), Mina Capputo (Life of Agony) e Marissa Martinez, mas conhecer outra mulher trans pessoalmente, nesse espaço, fez perceber que era possível e real. Então, fica minha homenagem pra Karine, pois nunca disse isso a ela. Rsrs.

Mas, voltando à pergunta, apesar do discurso, nossa cena musical não tem um histórico de acolher todas as diferenças. Ainda é um espaço muito cis-hétero, com alguma abertura para mulheres cis (de preferência vendo a banda do namorado). Então, população LGBT no geral, não tá nem aí pro rock. Pra que adentrar mais um espaço de violência? A gente já aguenta tanta merda nos espaços que temos que estar para ter uma vida, que não sobra vontade ou energia para gastar com opcionais, sabe? E minha ausência veio um pouco disso, de não acreditar que seria bem-vinda nesses espaços e me poupar.

E mais uma vez, não por algo direcionado a mim, mas por tudo que observei dentro e fora da cena. Uns dez anos atrás, por exemplo, dentro do rock paulista usavam ainda o termo “pederasta” para se referir a homens gays. Os emos eram perseguidos por serem “viados”, porque todo som que o roqueiro não curte é viadagem.

Parece inimaginável ser uma pessoa trans e estar neste meio, diante dessas coisas. E também havia muita coisa pessoal acontecendo, eu não precisava de mais problemas, rsrs. Passadas as tempestades, e sendo teimosa, comecei a frequentar os shows, a ser convidada e me convidar para tocar. Posso dizer que me envolvo nos rolês mais críticos e/ou feministas, então não tenho tido muitos problemas na prática. Acredito que é um pouco de sorte também. E sou branca, isso já traz outro peso.

Mas nossa cena ainda tem muito o que aprender e crescer no sentido de acolher e proteger as diferenças, de proporcionar espaços seguros para todas as pessoas e formar verdadeiras comunidades. Perdemos muito a relevância em práxis libertária, acho. Por isso, em termos de Brasil, o rock está onde está. Mas acho que temos ainda potencial para ser mais do que um clube que só acolhe discussão sobre tatuagem, maconha e anarquia, e acha que o único inimigo é o neonazi.

Últimas considerações? Algum recado?

Quero agradecer pelo interesse e pelas perguntas. Espero que continuemos sãs e salvas para reconstruir o mundo no pós-apocalipse e guilhotinar o torturador do Planalto.

Se cuidem e se protejam, e que possamos nos encontrar em breve para fazer um som e criar espaços seguros e acolhedores para as pessoas que não se encaixam no patriarcado-classista-racista-LGBTfóbico. E não deixem de ouvir “To Become Unreal”!

* Link da entrevista para o Rock em Síntese.

Você pode ouvir Umbilichaos no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas / Selos

Entrevista: Mercúrio Música

Mercúrio Música é um selo que faz parte da produtora cultural Mercúrio, de Fortaleza, CE.
Fundado em 2018, o selo conta com bandas e artistas do experimentalismo.

Convidamos Allan Dias, um dos fundadores, pra uma conversa que você lê a seguir.

Não deixe de ouvir a playlist de Allan com artistas do selo e mais!

Pra começar, vocês podem se apresentar?

Meu nome é Allan Dias. Sou músico na banda cearense Maquinas, que fundei junto com meu amigo Roberto Borges, e estou na ativa com ela desde 2013.

Também sou um dos responsáveis pelo selo Mercúrio Música, dedicado a trazer alguns dos ótimos artistas de Fortaleza e do Ceará, mas com sonoridades que acreditamos ter um pé mais no experimentalismo e propostas artísticas mais únicas.

Como surgiu a Mercúrio Música?

Vale dizer que o selo Mercúrio Música é apenas um braço da produtora cearense Mercúrio, que já existe na cidade tempos antes do próprio selo.

Eu e meu amigo e parceiro Lenildo Gomes montamos o selo depois de vermos que a parceria de produção e consultoria com a banda Maquinas havia tido um ótimo sucesso: conseguimos trabalhar juntos para escrever bons editais de financiamento de turnês e outras questões da banda, além de a consultoria nos ajudar a sermos mais profissionais com os processos burocráticos que há por trás de uma banda.

Depois de um tempo vimos que poderíamos aplicar essa parceria com outras bandas que vimos que tinham potencial, mas poderiam precisar de ajuda da mesma forma que o Maquinas precisou. E assim criamos o selo Mercúrio Música em 2018.

Esse ano, infelizmente, o Lenildo teve que deixar o trabalho no selo por assumir um cargo que iria lhe tomar muito tempo e não teria como se dedicar ao selo, ficando atualmente eu e a Ravena Monte, amiga e parceria de anos para continuarmos os trabalhos da Mercúrio Música.

Pensando no mundo antes do covid, como é a cena em Fortaleza?

Eu creio que o cenário musical underground de Fortaleza, pelo menos nos anos recentes, nunca foi marcado por um determinado estilo de som. É uma cidade muito plural, com diversos movimentos de cenas musicais acontecendo ao longo dos anos.

A grande questão é que, por algum motivo, muitas bandas e artistas não conseguem sequer uma projeção modesta no país e até mesmo na própria cidade e eu acho isso uma pena, pois realmente acredito que Fortaleza talvez esteja fazendo o melhor da música atual no cenário alternativo.

Quando você vê que de uns cinco anos para cá Fortaleza viu artistas como Mateus Fazeno Rock, Clau Aniz, Mumutante, Glamourings, Damn Youth, Jack The Joker, Arquelano Jangada Pirata, Dronedeus e outros nomes ganhando destaque nacionalmente, você também nota que só esses nomes passam por diversos estilos musicais, do jazz ao thrash metal.

Existem diversas bolhas musicais em Fortaleza, umas com mais presença que outras, mas no geral, é como se estivessem disputando os mesmos espaços até então.

Com a pandemia fica difícil olhar para o amanhã, mas vejo que muito dos artistas estão ativos e criando, o que me deixa muito empolgado para ver o que vai surgir de música nova aqui na cidade.

O mesmo não se pode dizer dos espaços de shows que estão aos poucos se acabando em dívidas e tendo que fechar as portas. Só o pós-pandemia pode dizer como vamos nos articular nos poucos espaços que restarão na cidade.

Vocês podem falar sobre as bandas do selo num geral? Como foi se formando o cast ou o que faz uma banda entrar pra Mercúrio?

Nós basicamente tentamos trabalhar com algumas bandas que víamos que tinham potencial, possuíam uma sonoridade com piso no experimentalismo e acreditávamos que poderíamos contribuir para melhor promover o trabalho desses artistas.

Nosso primeiro álbum lançado foi o segundo disco do grupo instrumental Astronauta Marinho, “Perspecta” (2018), até hoje um dos meus álbuns favoritos de bandas de Fortaleza.

Com o tempo fomos nos aliando a outros artistas que estavam surgindo e lançamos o primeiro álbum da Clau Aniz, “Filha de Mil Mulheres”, que foi um destaque internacional impressionante, saindo inclusive na lista de melhores álbuns de música experimental da PopMatters de 2018.

A partir daí fomos trabalhando com algumas bandas ocasionalmente, atualmente nosso cast é composto por Maquinas, Clau Aniz, Vacilant, Dronedeus, Viramundo, OUSE e Jangada Pirata.

Também já lançamentos materiais de bandas como Terceiro Olho de Marte, Indigo Mood, O Jardim das Horas, Missjane, George Belasco & O Cão Andaluz, Dani de Azevedo, entre outros.

Vocês não trabalham só com lançamentos, né? Vocês podem falar sobre outros projetos do selo?

Como a Mercúrio Música é apenas uma parte da produtora, temos muitos outros projetos que realizamos fora do escopo musical. Atualmente a Mercúrio está em parceria com outras produtoras da cidade realizando diversos projetos em várias áreas culturais, nas quais vocês conseguem acompanhar via redes sociais da Mercúrio.

Na área musical, também realizamos o festival anual Barulhinho, composto por bandas do selo e outros artistas locais e nacionais. Com a pandemia, obviamente, o festival se encontra parado, mas temos muitas ideias que queremos aplicar no futuro para fazer a marca continuar a crescer.

Realizamos também a “Sessão Mercúrio”, um registro audiovisual ao vivo com alguns dos artistas do selo e que se encontram em nossa página do YouTube.

Já lançamos sessões das bandas Vacilant, Clau Aniz e Dronedeus, além de também atuarmos no suporte da sessão ao vivo de Maquinas, “O Cão de Toda Noite Ao Vivo”, lançado no começo desse ano via Edital Aldir Blanc.

Últimas considerações? Algum recado?

Convido todos a escutarem não apenas a música que lançamos na Mercúrio Música, mas descobrir os diversos artistas e bandas que o Ceará tem a oferecer. Somos um estado com muita música boa para se descobrir e acredito que teremos um maior reconhecimento no futuro.

Espero muito que esses tempos de pandemia passem logo, pois temos muitos planos e projetos grandes que queremos realizar com os artistas da cidade. Até lá, seguimos com os lançamentos do selo e pensando em ideias a mil!

Obrigado a todos pelo espaço!

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.