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Entrevistas

Nauzen – Vai ter pra mim?

Emo, alternativo ou shoegaze? Esse duo de Pouso Alegre (MG) formado por Natália e Mateus, traz tudo isso na música (menos shoegaze, porque eu errei feio na categoria), junto com a vontade de criar e viver o underground do jeito mais legal que existe, que é na estrada, fazendo amizades e rock desajustado.

“Tempos Difíceis” é o nome do último material da banda, nada mais apropriado pra ouvir nos últimos tempos (difíceis). Segue uma conversa com os dois sobre a Nauzen e tudo mais.

E aí gente, como estão? Acho que essa entrevista é mais uma tentativa minha de chegar perto de vocês, desde a Demo (existiu uma Demo ou eu sonhei?) que vejo vocês pelas internete e penso “como parecem ser legais” haha. Mas é isso, se apresentem aí, contem um pouco do começo da Nauzen, como foi esse trajeto até hoje, de Pouso Alegre para o mundo.

Estamos aí, com vacininha no braço, esperando o fim da pandemia para fazer showzinho. Sobre a Demo, foi o ponto de partida, o ímpeto criativo, a nossa versão mais sincera e lo-fi.

A gente se conheceu nos bares da vida através de amizades em comum e logo estávamos trocando ideia de som e  surgiu uma influência em comum que era o gorduratrans, que na época (2016), fazia sucesso com os jovens tristes, em seu disco de estreia. A partir daí começamos a fazer um som, que no início era mais improviso, e só dois anos depois começamos a compor de fato.

Após muitos ensaios e lançamento da Demo, de forma despretensiosa, começamos a pegar firme em 2019, quando fizemos turnê, vários shows, gravamos EP, consolidando o nosso rolê.

Uma vez alguém me explicou que shoegaze é um som alternativo com a guitarra distorcida lá no talo. Se for isso vocês são muito shoegaze haha. A gravação do EP explode nas caixinhas. Como vocês definem a Nauzen musicalmente e o que vocês têm ouvido ultimamente que acabam influenciando na banda?

A gente nem se vê como uma banda de shoegaze, embora isso seja uma influência muito forte, graças ao My Bloody Valentine. Temos que comprar muito mais pedais para isso haha.

Nat: As influências mais indies e comerciais, Boogarins, Cidade Dormitório, Bikini Kill, Paramore, Willow (influência mais atual, devido aos últimos dois albuns “The Anxiety” e “Lately I Feel Everything”)

Mat: Eu sou de um rolê mais metal/HC e as influências que eu carreguei pra Nauzen quando estou compondo seriam as bandas L7, Black Flag, Nirvana, Test e Sepultura.

Recente saiu uma k7 com os dois EPs de vocês. Coisa mais linda, lançado pela Vlad e Belo Records. Como surgiu a ideia e como foi a resposta da galera, em tempos de streamming mandando ver no povo. Vocês pensam em lançar mais coisa física?

Rolou convite da Belo Records (selo do Mateus), que tava encomendando as fitas com o Vlad Tapes (perfeito sem defeitos), pra lançar esse k7.  A recepção foi excelente, vendemos tudo! É nois galera s2! Agora vamos gravar mais sons e provavelmente lançar em CD, fita novamente, vinil (quem sabe, alô selos independentes, chama nóis). 

Lá em 2019, no anúncio do primeiro EP, vocês escreveram umas coisas bem legais: o lance de ser uma banda dependente da galera que vai nos shows, das pessoas e bandas que já passaram e influenciaram, de todo mundo que tá no meio até a música realmente sair, um show acontecer. É real demais e é o melhor entendimento de punk e underground que pode existir. Porque comunidade é isso, né? E aí, dois anos depois, tá tudo um caos e confuso. O que vocês esperam disso tudo? Rola alguma expectativa em relação a banda, cena, shows, rock e essa coisa que a gente vive?

Muita ansiedade rolando para voltar com os rolês, ver a galera, até passar perrengues haha. Passamos um ano sem ensaios e contato, pois estávamos trabalhando na linha de frente do combate à pandemia e isso realmente deu uma brochada. Estamos voltando aos poucos e agora com o suporte do Estúdio Mesmo (estúdio do Mateus, bora gravar rapeize) vamos voltar com força total. A expectativa é que para o segundo semestre de 2022 já esteja rolando shows, oportunidade de tocar com as bandas amigas e viver o role real. 

Vocês fizeram muitos shows nesses anos de banda, várias cidades e turnês antes mesmo de lançar um material (oficialmente). Tem algum especial que vocês guardam no coração ou que tem uma história por trás? E vou aproveitar pra perguntar o que vocês acham mais difícil em fazer uma tour. E voltando os shows animam um aqui (Vitória/Vila Velha)? Montem o cast, valendo.

Todos os shows foram fodas, mas a turnê na Região dos Lagos está pra sempre nos nossos corações. Inclusive nesse rolê percebemos que o ponto mais complicado de uma tour é caber duas bandas no mesmo carro.

Vilha Velha é meta! Alô Nandolfo, alô Mozine, alô Roberta! Vamos tocar todas pra vocês.

A arte de capa do “Tempos Dificeis” é da Victória Colley, que imagino ser a mesma que tem as melhores histórias. Acho que uma das coisas mais legais do underground é que só tem gente foda perto da gente, conseguimos gravar um disco, aparecer nas artes e fazer show só com o talento dus amigues. Eu queria deixar esse espaço pra vocês falarem dos amigos, amigas e amigues que fazem coisas legais nesse nosso rolê massa.

Victoria é a nossa musa. E sobre a galera que tá com a gente, temos gratidão imensa por ter perto pessoas tão incríveis como o Samuca (aka Kdeira), a Panda, a Tay, o Thomaz, Tiaguinho, que sempre somaram com a gente e as bandas e produtores parceiros como A Cidade Atrás da Neblina, Passos Largos, Inês é morta, Tosca, Acruz Sesper Trio, DJ Racassi, Rafinha Rezende e muito mais. Vocês são foda!

Agora falando sério, o que Tom Jobim disse?

Haha nada naquele presente momento. 

Querem dizer alguma coisa nos finalmente?

Primeiramente: fora bolsonas. Segundamente: valeu galera! É nóis, em breve novo EP, saudades mil e obrigado pelo espaço! Terceiramente: apoie a cena local, quebre um violão na cabeça de um esquerdomacho de sarau!

A discografia de Nauzen está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenhas

Crasso Sinestésico – Eco

Formada em 2014 em Bom Jesus Dos Perdões, SP, por Diego Fernandes (guitarra, vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria, vocal), Crasso Sinestésico é um duo que toca noise rock, lo-fi, meio garage, meio pós punk.

Em novembro de 2020 eles lançaram seu novo EP, “Eco”, gravado ao vivo em novembro, mixado e masterizado no Estúdio Quadrophenia por Sandro Garcia.

“Eco” tem a sonoridade característica da banda, mas busca também a essência do rock psicodélico e da música brasileira. Mais especificamente é influenciado por Clube da Esquina, Lô Borges, Novos Baianos, Momento 68, Continental Combo, The Beatles e The Velvet Underground.

“As canções retratam a sensação de impotência, elas imprimem não só o período em que vivemos, mas também a atual situação política na qual nos encontramos sitiados”, diz Diego Fernandes.

“Nostalgia” o nome já diz tudo, “Nostalgia do tempo tardio que habita escondido na memória encardida, no limbo da vida”.

“Hospital dos Esquecidos” aborda o descaso e desumanidade nos manicômios (ou hospícios), hospitais psiquiátricos muito populares no século 20.

Segundo o dicionário, ‘diáspora’ significa “dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica” e é disso que se trata a música “Diáspora”, “um vórtice que pega dos remotos tempos até nossa triste atualidade”.

“B.B. King” fala sobre a morte, “Como se deparar com ela e nem ao menos duvidar”.

O disco termina com a instrumental, “Eco”, “O mito de Eco revela que a pior prisão é aquela em que o ser humano não pode expressar o que pensa ou o que sente; é a tortura de conviver com seus pensamentos e sentimentos presos pelo medo ou pelas convenções ameaçadoras”.

“Eco” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenhas

Neon Dharmas – Cavalos Selvagens

Neon Dharmas é uma banda de “pós-punk doidão do Rio de Janeiro/Niterói”. Formada em 2017 por Rafael Trevisani (guitarra e voz), Helder Martins (baixo e voz) e Alberto “Tie Dye” (bateria).

Em julho de 2017 eles lançaram o “EP #1” e em Novembro de 2019 lançaram o primeiro disco da banda, “Cavalos Selvagens”. O disco conta com a regravação das cinco músicas do EP e mais seis músicas inéditas. Ele foi lançado online e em K7 pela Oxenti Records.

Dharma, ou darma, é um conceito-chave com múltiplos significados nas religiões indianas. Na minha pesquisa na internet (posso tar errada, me corrijam, por favor) o significado mais amplo e atual disso é: aquilo que mantém elevado. Também é entendido como a missão de vida, o que a pessoa veio para fazer no mundo. “O Dharma budista diz respeito aos ensinamentos do Buddha Gautama, e é uma espécie de guia para a pessoa alcançar a verdade e a compreensão da vida. Pode ser chamado também de ‘lei natural’ ou ‘lei cósmica'”.

Dito isso, quando vi o nome da banda já pensei na maior viagem.

A banda faz letras poéticas e sem amarras, diferente da fala mais direta (tentar ser direto é uma amarra) que eu me acostumei a ouvir nos últimos anos, tanto em letras políticas quanto em puro sentimentalismo. Me fez lembrar de muita coisa que eu ouvia a uns anos atrás.

Isso embalado por um pós-punk meio garage bem lo-fi vira mesmo uma viagem. A capa do disco (por Emerson Folharini) também ajuda a passar essa impressão: uma colagem com cavalos, soldados, multidões, um mapa e a frase “Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado” em um fundo rosa claro com o nome da banda e do disco.

As músicas falam de tudo um pouco, a capa do disco e a faixa que dá nome a ele deixam bem claro que há bastante política aqui, “Lutando por igualdade, contra o ódio e repressão. Cavalos selvagens são gritos da revolução”.

“Gosto de Morte”, com um título bem literal, fala sobre veganismo.

Várias músicas do disco falam sobre um anseio por liberdade “Órfãos da destruição, não vamos nos ajoelhar. Vejo dentro dos seus olhos quem nos traz a mentira. Vejo dentro dos seus olhos quem quer nos controlar”.

Mas a maioria é meio pessimista e fala sobre frustrações. Pós-punk, né?
“Tentando achar caminhos e respostas, vivemos na escuridão, nosso ciclo se fechou”.

Em Setembro de 2020 eles lançaram o primeiro clipe da banda, da música “Cavalos Selvagens”, feito por Leonardo Mariani.

Assim como a capa do disco, o clipe é uma colagem (uma imagem em cima da outra) de imagens da banda ao vivo, cavalos em campos e manifestações da época da ditadura. “Em memória de Carlos Barroso, Walmir Monteiro e William Leite. Eles também foram cavalos selvagens”.

E em 13 de Novembro de 2020 a banda lançou um novo single, “O Vazio”.

“Cavalos Selvagens” está disponível no Bandcamp e redes de stream.