Bus Ride Notes

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Entrevistas

Delipe Fantaos – Embalo Maravilhoso

Delipe Fantaos é um compositor brasileiro que mora na Espanha já há alguns anos.
Em Outubro de 2020 ele lançou seu primeiro álbum, “Embalo Maravilhoso”, um disco de samba e MPB que “é o meu abraço bem forte na minha família e no Brasil. Longe de patriotismo. É minha homenagem a um Brasil de gente, não de fronteiras e nem de bandeira. Um disco da minha saudade”.

“Embalo Maravilhoso” realmente te leva em um embalo, um mergulho nas músicas, que quando você para pra anotar algum detalhe, percebe que o disco já tá quase no fim.

Conversamos com Felipe sobre o disco, a cena musical independente na Espanha e mais.

Você pode se apresentar, pra quem não o conhece? E contar um pouco da sua trajetória na música?

Me chamo Felipe e sou lá da baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Tenho 33, e faz uns anos, não lembro bem quantos, que decidi fazer minhas músicas. Delipe Fantaos é maneira que encontrei pra fazer minhas coisas sozinho. Adoro tocar com meus amigos músicos e tudo, mas as vezes não é possível, e aí, entra o “Delipe Fantaos” na minha vida.
Atualmente moro em Barcelona, e toco na banda Espacea. É o projeto que eu pessoalmente mais gosto de fazer. Porém, com essa coisa horrível da pandemia, a Espacea tá caminhando a passos largos. Mas tá caminhando.

Você pode falar sobre a cena musical independente na Espanha? É muito diferente do Brasil?

Viver aqui na Espanha tem sido uma experiência muito bacana. A vida musical independente aqui é bem movimentada. Ou pelo menos era antes de tudo isso que tá rolando no mundo agora. A cena underground é bastante viva, existem bandas de todos os tipos pra todo mundo. As vezes fica até meio difícil conseguir datas nas casas de show por causa das agendas super lotadas… Ou porque as bandas já tem tantos shows marcados que complica conseguir montar uma noite pra dividir os palcos.
Acho que o Brasil é tão grande que a comunicação entre bandas, público e as casas de show é mais complicada. Isso não quer dizer que a vida aqui pros músicos independentes seja mais fácil. A gente tá remando contra a corrente igual no Brasil, só que de um jeito diferente.

Como foi a concepção de “Embalo Maravilhoso”, e a vontade de fazer um disco solo? Você diz que o disco “é uma homenagem ao povo suburbano do Rio de Janeiro e ao Brasil”, pode falar mais sobre isso?

Ano passado (2020), fui ver minha família no Brasil e me dei conta que todo aquele sentimento de saudade e admiração que eu tenho pela cultura brasileira poderia se converter em alguma coisa. Nessa ida ao Brasil, ali mesmo, comecei a compor a primeira canção e a trabalhar na estética que eu queria desenvolver.
Sim! “Embalo Maravilhoso” é um disco de saudade e homenagem à cultura popular suburbana. Coloquei no disco um pouco das coisas que ouvi e vivi nas ruas, nos bares, nas casas e no cotidiano do povo.
Abusei de referências como Jorge Ben (da pra ver na capa do disco), Caetano, Bethânia, João Bosco, Gil, Zeca Pagodinho e etc. Queria um disco com uma estética Tropicalista, carnavalesca e suburbana e acho que consegui.

E como foram as gravações? Como foi feita a parte instrumental, quais músicos participaram?

O disco foi completamente gravado em casa com um microfone shure 58. Mas confesso que se não fosse a ajuda do meu grande amigo espanhol Manu G. Sanz, eu teria lançado um disco medíocre. Manu foi responsável por dar esse “ar fresco” com saxofone, órgão, algumas baterias e claro, a mix e master. Também contei com o meu amigo baterista que mora lá no Rio, Leo Oliveira, que gravou “Zé Canela” e com os músicos da minha banda Espacea, pra dar aquela pincelada em algumas músicas.

Como anda a situação durante a pandemia? As adaptações foram tranquilas?

Eu tive sorte! Pude passar um confinamento confortável e seguro. Mas sei que muita gente viveu e vive muito mal. Aproveitei todo o tempo livre que tive pra pensar e gravar o “Embalo Maravilhoso”.

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de dizer ao povo brasileiro uma coisa… Brasil! Você é foda. Aqui, morando longe, percebo o privilégio de ter nascido numa terra tão rica culturalmente. Uma puta sorte. Tem muita gente tentando dividir a gente. Pode ser piegas e os carai… Mas a gente tem muito mais motivos pra se unir do que pra se odiar. Os tempos são difíceis, mas a gente vai sair dessa.
Alô, Alô, Brasil! Aquele abraço.
Gratidão pelo espaço a todos colaboradores de Bus Ride Notes e a você, Livia, pelo convite. Brigadão!

“Embalo Maravilhoso” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenhas

Neon Dharmas – Cavalos Selvagens

Neon Dharmas é uma banda de “pós-punk doidão do Rio de Janeiro/Niterói”. Formada em 2017 por Rafael Trevisani (guitarra e voz), Helder Martins (baixo e voz) e Alberto “Tie Dye” (bateria).

Em julho de 2017 eles lançaram o “EP #1” e em Novembro de 2019 lançaram o primeiro disco da banda, “Cavalos Selvagens”. O disco conta com a regravação das cinco músicas do EP e mais seis músicas inéditas. Ele foi lançado online e em K7 pela Oxenti Records.

Dharma, ou darma, é um conceito-chave com múltiplos significados nas religiões indianas. Na minha pesquisa na internet (posso tar errada, me corrijam, por favor) o significado mais amplo e atual disso é: aquilo que mantém elevado. Também é entendido como a missão de vida, o que a pessoa veio para fazer no mundo. “O Dharma budista diz respeito aos ensinamentos do Buddha Gautama, e é uma espécie de guia para a pessoa alcançar a verdade e a compreensão da vida. Pode ser chamado também de ‘lei natural’ ou ‘lei cósmica'”.

Dito isso, quando vi o nome da banda já pensei na maior viagem.

A banda faz letras poéticas e sem amarras, diferente da fala mais direta (tentar ser direto é uma amarra) que eu me acostumei a ouvir nos últimos anos, tanto em letras políticas quanto em puro sentimentalismo. Me fez lembrar de muita coisa que eu ouvia a uns anos atrás.

Isso embalado por um pós-punk meio garage bem lo-fi vira mesmo uma viagem. A capa do disco (por Emerson Folharini) também ajuda a passar essa impressão: uma colagem com cavalos, soldados, multidões, um mapa e a frase “Governo baixa Ato Institucional e coloca Congresso em recesso por tempo ilimitado” em um fundo rosa claro com o nome da banda e do disco.

As músicas falam de tudo um pouco, a capa do disco e a faixa que dá nome a ele deixam bem claro que há bastante política aqui, “Lutando por igualdade, contra o ódio e repressão. Cavalos selvagens são gritos da revolução”.

“Gosto de Morte”, com um título bem literal, fala sobre veganismo.

Várias músicas do disco falam sobre um anseio por liberdade “Órfãos da destruição, não vamos nos ajoelhar. Vejo dentro dos seus olhos quem nos traz a mentira. Vejo dentro dos seus olhos quem quer nos controlar”.

Mas a maioria é meio pessimista e fala sobre frustrações. Pós-punk, né?
“Tentando achar caminhos e respostas, vivemos na escuridão, nosso ciclo se fechou”.

Em Setembro de 2020 eles lançaram o primeiro clipe da banda, da música “Cavalos Selvagens”, feito por Leonardo Mariani.

Assim como a capa do disco, o clipe é uma colagem (uma imagem em cima da outra) de imagens da banda ao vivo, cavalos em campos e manifestações da época da ditadura. “Em memória de Carlos Barroso, Walmir Monteiro e William Leite. Eles também foram cavalos selvagens”.

E em 13 de Novembro de 2020 a banda lançou um novo single, “O Vazio”.

“Cavalos Selvagens” está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Resenhas

Split Rosa Idiota + Please Come July

Dezembro de 2019, o fim de uma década. Parece que faz muito tempo né? Na verdade, nem é tanto tempo assim, tá logo ali. E o que aconteceu em dezembro daquele ano? Bom, se você gosta de hardcore, deveria saber que foi o mês em que a Bahia e o Rio de Janeiro fizeram conexão no ótimo Split com Rosa Idiota e Please Come July!

Com oito músicas no total, quatro pra cada, o split foi lançado pela High Fidelity Stereo, em parceria com a Tropical Death, Estopim e Eletric Funeral.

Pra quem gosta de detalhes técnicos, aqui vai o primeiro destaque desse álbum: a qualidade do som. Ambas as bandas foram muito bem gravadas, você consegue ouvir cada detalhe do som direitinho. E os responsáveis por essa produção de primeira estão aqui: o lado do Rosa Idiota foi gravado, mixado e masterizado por Dill Pereira no estúdio Ruído Rosa, em Salvador – BA; Já o lado do Please Come July, ficou por conta de Cris, no estúdio La Cueva, Rio de Janeiro – RJ.

Não tem pra onde fugir da influência do hardcore norte americano dos anos 80 e 90 aqui. Quem abre o Split é “Don’t Disappear”, do Rosa Idiota. Seguida de “Behind Bars”, “Aerophobia” e “The Stars Don’t Care About Us”. As músicas são bem coesas, funcionando muito bem juntas. A minha favorita dessa primeira parte é “Aerophobia”, música pra ficar no repeat. O refrão emociona com “Let’s make a deal and start again. I promise you, you promise me. You lose your fear of flying. Then I lose my fear of falling”.

Esse é o terceiro lançamento da banda, sucedendo Somatic (2018) e Circle (2017). A banda formada em 2015, junta veteranos da cena hardcore brasileira em sua formação: Marcelo Adam (vocal, guitarra), Diego Dill (vocal e guitarra), Fabiano Passos (baixo) e Rodrigo Gagliano (bateria).

Com a deixa da primeira parte do álbum, o Please Come July chega e não deixa a desejar. Lembrando o som do Hüsker Dü, a banda entrega “Running”, “Let’s Start Today”, “Inside” e “Figure Out” sem tirar o pé do acelerador. Acho que vale destacar “Let’s Start Today”, com um final que dá aquela vontade de subir no palco e se jogar em cima de desconhecidos (há quanto tempo isso não acontece, hein?). “Let’s start today. This is something. This feels so right. Let’s start today” é pra cantar junto.

Please Come July, assim como o Rosa Idiota, é uma banda relativamente nova. O grupo foi formado em 2016, no Rio de Janeiro e conta com Marcus Menezes (guitarra, voz), Marcelo Pineschi (baixo) e Gabriel Isidoro (baixo). O álbum que antecede o slipt, é o Life’s Puzzle (2016).

A arte do slipt é assinada por Leo Villas e, diga-se de passagem, é uma belíssima arte. Se houver uma lançamento da versão física desse álbum, essa capa com certeza vai ser uma daquelas que dá gosto de ver na estante.

Rosa Idiota + Please Come July está disponível no Spotify, Deezer, Bandcamp, Youtube, Apple Music e Google Play. Como vocês já devem saber: ouçam, compartilhem com amigos, apoiem as bandas independentes e façam seus próprios rolês.


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Unicórnio Maravilha – Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras

O nome da banda é estranho: Unicórnio Maravilha. O nome do segundo EP deles também é estranho: Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras. Tudo meio esquisito, né? Isso é ruim? Na verdade é muito bom!

Lançado em 2018, o EP conta com o trio Higor Machado (guitarra), Isis Cardoso (vocal/guitarra/baixo) e Thais Barbosa (bateria); além da produção de Igor Demétrio e da própria banda.

A banda carioca define o “Gatos Voadores…” como “um ambiente mágico em que qualquer coisa pode acontecer, em que seus maiores sonhos e medos convivem lado a lado”. E o disco é realmente uma viagem, já começando pela bela arte da capa que é assinada pela ilustradora Anna Brandão.

A faixa que abre o disco é “Blues Genérico #1”. O instrumental lembra de longe as guitarras do White Stripes e uma coisinha ou outra do The Cramps. Essa é uma das clássicas letras botando o dedo na cara de alguém. “Para de graça. Para de agir como se fosse amigável. Porque você não vai com a minha cara e eu também não gosto de você”, canta Isis Cardoso.

A letra de “Sobre as Fogueiras e as Morsas”, segunda faixa, é assinada por João Rosa. A música com o tom de despedida amorosa é levada por um instrumental já meio pop dançante que, se não fossem as guitarras distorcidas, até lembraria uma bossa nova em certos momentos.

“Blues Genérico #2 (Blues Kawaii)” é bem “Kawaii” (algo como “bonitinho” em japonês) mesmo. Letra romântica e sexy com outra levada blues bem envolvente. Destaque aqui pro instrumental do disco inteiro inclusive: a Unicórnio Maravilha sabe fazer um som que tinha tudo pra ser piegas e manjado, mas que na verdade acaba sendo bem imersivo e divertido. “E quero olhar o céu segurando sua mão. Sua pele é o abrigo onde eu quero me esconder e pernoitar até amanhecer”, bonitinho não?

O EP fecha com “Gatos Voadores”, assinada por Isis Cardoso, Thais Barbosa e Rita Valentim. É a faixa que mais foge do pop, tanto na letra, que inclui citações de Immanuel Kant, quanto no instrumental meio post punk, que cria um ambiente bem paranoico. “Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?”, pergunta Isis com uma charada tirada de “Alice no País das Maravilhas”. Existem várias respostas para essa pergunta, a Unicórnio Maravilha não se preocupa em te responder. Ficam no ar várias possibilidades e um gostinho de quero mais de um EP que em tão poucas músicas viaja por tantos lugares diferentes.

“Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras” está disponível no Spotify, Deezer, Youtube, Bandcamp e Soundcloud.


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Pretos Novos de Santa Rita – Se Chegar na Esquina é Checkpoint

Será que vai sobrar algo amanhã?: Uma resenha de “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”, a estreia dos Pretos Novos de Santa Rita.

Pretos Novos de Santa Rita são Bing (vocal), Gênesis (bateria), Sonic (baixo) e Ton (guitarra). Em 2019, o grupo carioca botou a cara na cena com o EP “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”. O trabalho foi gravado no estúdio Fluxroom e produzido por Philip Sanchez.

Em entrevista ao Nada Pop, Bing explica que o nome do grupo, tirado de uma estação do VLT que liga a região portuária e o centro histórico do Rio, evidencia a cultura negra e a posição de não se furtar da responsabilidade que é carregar essa bandeira em suas músicas nesses tempos de resistência.

O nome da estação Pretos Novos/Santa Rita homenageia o cemitério onde escravos eram enterrados próximo a igreja de Santa Rita, no Rio. O Rio, que inclusive, alcançou a marca de 885 mortos em ações policiais no primeiro semestre de 2019. Desses 885, 711 eram negros ou pardos. A Cidade Maravilhosa continua enterrando mais e mais corpos negros, não se sabe, porém, se esses 711 serão homenageados com estações, praças ou ruas.

Com apenas cinco músicas e muita poesia nas letras sobre o amor, o ódio e a vida na sua forma mais crua, “Se Chegar…” é um belo encontro entre o trap/rap com o jazz que remete à sons como Tyler The Creator e Nill. A primeira música “Jazzada” é de um groove hipnotizante embalado pelos versos de Bing. “Acaba o show. Só os pretos vêm e agradecem. Se eu rezasse, eu pediria isso nas minhas preces”, abre a faixa.

Em “Ouvindo Of” o dedo já vai direto na ferida. Dramas familiares, sexualidade, paixões e frustrações aflorando mas sem nunca perder o deboche. “Eu vou rir mesmo, foda-se. Esqueço das merdas e acho graça das coisas. Mas dentro tô que nem frozen”. Mantra de quem sabe o que é marcar um Checkpoint em cada esquina no caminho.

Na faixa “Slowfunkmetal”, apesar dos instrumentais que parecem ter saído de um sonho, Bing não perde a oportunidade de alfinetar figuras conhecidas da cena do trap/rap nacional. O recado fica dado em trechos como “Raffa vai ficar rico com sua burrice no Insta. Lamentável IIIx achar que o Froid é terraplanista”.

Fica aqui o destaque para a banda que providencia o “morde-assopra” das músicas, trazendo a atmosfera leve e até sensual que serve de base para as pedradas que Bing dispara nas letras. Não se engane, não: se você se descuidar, periga perder o ponto aqui . “Não sou filho da sua mãe. Não encosta no meu black. Eu sou artista mermão”, diz a letra de Slowfunkmetal.

“Janela”, a melhor do EP, é de uma sinceridade brutal sobre a relação entre paternidade e maturidade. É prestar atenção para sair catando as referências espalhadas na letra: aqui tem Kendrick Lamar, filosofia, cinema e Samba. Mas, de novo, nada disso tenta mascarar a dor guardada nas letras. “Todo dia eu acordo, puta que pariu. É o peso do mundo todo, bala de fuzil. Viagem no tempo podia rolar, ia ser da hora. Mandar um e-mail pro meu pai: na moral, goza fora”, desabafa Bing.

O EP se encerra com “Te Traz de Volta” deixando aquela sensação de desconforto e inquietação. Os Pretos Novos de Santa Rita fazem questão de pôr tudo à mesa, sem muitos rodeios. O amor não fica ileso das tretas que nos cercam e que carregamos desde o nascimento, as coisas não estão tão distantes assim em “Se Chegar…”. Antes de tudo, o amor aqui é real, é cru. Não esquece: “Dorme bem, que já vem o amanhã e nada vai sobrar”.


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DEF – Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)

Meu coração anda mais apertado que os trens da central: a DEF retorna triunfante na segunda parte de “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia”.

Três anos após surgir com o EP “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 1)”, lançado pela finada Bichano Records, a DEF está de volta com a segunda parte do trabalho. “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)” foi lançado em Setembro de 2019, dessa vez pela PWR Records.

Agora um quarteto, a banda carioca conta com Deborah F. (guitarra, voz, violão, teclado), Eduarda Ribeiro (voz, guitarra), Dennis Santos (bateria) e Victor Oliver (baixo). Já fica aqui o primeiro destaque do álbum: a nova formação da banda se mostra afiadíssima alternando entre momentos serenos e dançantes, sem perder a beleza das melodias.

O espaço de tempo entre um lançamento e outro parece ter feito bem ao amadurecimento e sofisticação do som do grupo, e isso fica explícito logo na primeira faixa.

“Alarmes de Incêndio” foi o primeiro single do novo álbum, com direito à videoclipe. Talvez seja a faixa que mais lembra a parte 1 de “Sobre os Prédios…”, porém, aqui a banda já dá sinais de maior confiança para explorar o próprio som.

Deborah narra momentos inquietantes em que incêndios irrompem dentro de nós, a sensação de sufocar em si mesmo e de se perder em lugares antes tão comuns.
“Meu coração anda mais apertado que os trens da central”, canta a vocalista acompanhada da explosiva bateria de Dennis Santos.

A segunda faixa, “Descanso”, é um belíssimo e breve instrumental de violão que suavemente deságua em “A Cidade em que Apenas eu Existo”. O nome da faixa foi tirado do anime “Boku Dake ga Inai Machi”, lançado em em 2016. Aqui vemos Deborah se firmar como a letrista de expressões intensas que já se anunciava desde o primeiro EP.

A angústia em meio a prédios e ruas, e o sentimento de urgência para salvar o dia nesse emaranhado urbano acompanha todo o álbum. As letras soam como cartas brutalmente sinceras e confessionais e, no seu tom monótono, Deborah parece se dirigir a si mesma em diversos momentos sem medo de soar vulnerável, “como quem põe Deus para descansar”.

“Nada” é um exemplo do potencial letrista de Deborah, compositora de todas as músicas, exceto “Sardas”. Assinada por Eduarda Ribeiro, essa é uma ótima surpresa no meio do álbum. As estações do ano recebem o peso de uma tonelada quando o refrão marcante reivindica “a calma de ter mais um verão”.

A banda pode até ter puxado o freio nas distorções que ouvíamos em músicas como “Bad Trip” do primeiro EP, mas agora põe o pé em recursos eletrônicos (como nos teclados de “Sardas”) e mergulha fundo nas melodias com as duas guitarras da nova formação.

“Casa (Paulo)” é  um ponto fora da curva cravado entre as demais músicas do álbum, e isso não é ruim! A banda parece ter guardado as melodias mais criativas para as faixas finais.  O baixo à la The Smiths brilha e também não dá trégua na faixa seguinte, “Abutre”.

“Paraquedas (Boddah)” segue com vocais emendados num tocante spoken word, marca registrada da leva de bandas do emo brasileiro saídas da Bichano Records.

A última música é “Arranha-Céu”, uma das mais belas já feitas pela banda. Enquanto esbarra em prédios altos, Deb continua se questionando sobre os céus e os medos que descem de lá. “Mas se o avião me atropelar? Se meu amor não souber voar?”, questiona.

A parte mais difícil de salvar o dia derrubando prédios é que no dia seguinte teremos de encarar os escombros deixados por nós mesmos ali. “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)” reconhece isso em cada uma de suas músicas. Reconhece que salvar o dia também é conseguir um refúgio para respirar em paz, longe desse ar que às vezes parece ser feito de chumbo e concreto.

A arte da capa é assinada por Virgínia Moura, a mesma ilustradora do primeiro EP. A mixagem, masterização e gravação tem novamente a assinatura de Pedro Garcia (Planet Hemp/ Estúdio Canto dos Trilhos), além da própria Deborah F.


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Tuíra – Calma e Força

Tuíra é uma banda do Rio de Janeiro, formada em 2017 e atualmente com Amanda Azevedo (voz e guitarra), Hanna Halm (baixo e voz), Juliana Marques (bateria) e Thaís Catão (guitarra).

É uma das bandas que a gente coloca no subgênero queercore apesar delas não tocarem hardcore, nem as letras falarem exclusivamente sobre a vivência LGBTQ+ (se você não sabe do que eu tô falando, leia aqui nosso texto sobre).

Em Dezembro elas lançaram o primeiro EP, Calma e Força, e além das nossas impressões, as músicas têm muitas referências.

As letras, que não foram escritas sobre você, mas falam sobre você, são melancólicas, indignadas e otimistas e se contrastam com o som animado que dá vontade de dançar com influências de indie e emo (anos 90 e revival), cheio daquele timbre de guitarra estalado característico desses gêneros.

O nome “Calma e Força” reflete muito bem tudo isso. Pega a caixa de lenço e vamo ouvir.

Desde a escolha do nome à composição das músicas, a banda aposta no protagonismo das mulheres em suas diferentes formas.

Começando por “Tuíra”, escolhido em homenagem à indígena Kayapó, que com seu facão barrou a construção da barragem de Belo Monte na década de 80.

A música Kararaô (que vai ficar dias grudada na sua cabeça) fala sobre isso. Essa é a única música do EP que não abre espaço pra várias interpretações.
“Eu vou botar meu facão na sua cara injusta, eu bem sei que essa água vai nos afogar. Kararaô vai matar os filhos da santa terra, sua história alagada demarca o fim”

Kararaô era o nome original da usina de Belo Monte, que foi modificado em respeito aos indígenas, pois “Kararaô” é o grito de guerra do povo Kayapó.

A gente consegue escrever um texto longo sobre Crimeia. É difícil até escolher só uma parte da letra pra citar. É uma música sobre resiliência, praticamente uma catarse.
Eu sempre acho incrível quando conseguem expressar esse conceito e monte de sentimentos numa curta letra de música.
“Existe um eu de calma e força persistente entre entranhas de agonia e medo”

Segundo a banda “é um grito urgente por resistência, mas também uma evocação ao acalento e força que encontramos nas nossas relações leais, em quem nos dá gás e nos inspira perseverança pra continuar reagindo as violações do cotidiano e realizando nossos projetos”.

Não à toa ela foi escolhida pra ser o primeiro single da banda, lançado em Agosto.
“Quem vai dizer ou julgar não sabe de nada, não quer dizer nada”

O título da música faz referência a Crimeia de Almeida, militante política e ex-guerrilheira no Araguaia, presa e torturada pela ditadura militar brasileira quando estava grávida de sete meses, em 1972.

Quando ouvi Ella não entendi muito bem a letra. Parece um relacionamento mal resolvido? Mas “Seus donos nem se deram conta da ruína que você criou” me deu ainda mais dúvida.

Segundo a banda “”Ella” fala sobre a inteligência artificial, os algoritmos das redes sociais. A nossa inspiração era o Teste de Turing sendo Ella um chatbot criado pra testá-lo (é um algoritmo de processamento de linguagem que pode reproduzir a fala humana analisando padrões em grandes coleções de texto). Acontece que com o tempo algumas pessoas trouxeram novas interpretações pra letra da música, levantando que também parecia tratar sobre relacionamentos abusivos, romances mal acabados, etc. A gente recebeu super bem essas interpretações, afinal a relação que temos com os algoritmos hoje tem muito dessa sensação de abuso.”
Depois de ler isso tudo fez sentido, inclusive minha confusão inicial.

Só o Fim, o nome já diz tudo. Geralmente a gente vê finais retratados com raiva, rancor e “sofrência” (para um minuto pra pensar em quase todas as músicas e filmes que você já viu). Aqui a gente vê mais cansaço e aceitação.
“Certas coisas o fim resolve e não vale a pena a discussão”

Tem muita coisa pra falar sobre esse EP, mas ao mesmo tempo você tem vontade de só dizer: ouve, só ouve ele. Porque esse aspecto catártico, de melancolia e otimismo ao mesmo tempo, é muito presente nas letras e cada um tira uma coisa diferente disso.

Por isso também não consigo falar sobre Corda Bamba, talvez minha música preferida do EP, só citar:
“Já contou as glórias da semana, as tristezas diluiu em seu batom azul e suspirou com ar de quem prevê. Garrafa na metade, corda bamba, caos total. Na rua ela tá pronta, ela que sabe dela, ela não é você”

Então respira, põe o fone e vai ouvir. Calma e força.