Bus Ride Notes

Date archives outubro 2019

Entrevista

Naome Rita

Naome Rita é um duo de Curitiba, formado pela baterista Sisie Soares e a guitarrista Ivy Sumini, que toca músicas que grudam na cabeça. Começou como banda em 2013 e a primeira demo, lançada em 2014 como power trio, eu diria que é meio um “rock sujo”. Seis baixistas depois, e acredito que também alguma frustração, elas resolveram se transformar em duo e em 2017 lançaram o EP “Tropical Punk” com a nova formação.
Esse EP foi a primeira coisa que ouvi delas e enquanto ouvia pensei “…mas o que é iss” e comecei a dar risada, pois as letras são engraçadas. Segundo elas essa é a influência do pop punk.
Sonoramente o “Tropical Punk” talvez possa ser descrito como um “grunge dançante cafona com influências punk”, com letras abordando “desde a incoerência de alguns religiosos, lugar da mulher na sociedade, feminicídio, veganismo até a não devolução de tupperwares”.

Assim que comecei a pensar em escrever sobre a banda percebi que eu tinha mais dúvidas do que o que escrever, por isso pedi uma entrevista que elas gentilmente concederam e você lê a seguir:

Vocês começaram como banda e hoje são um duo, tem alguma diferença entre os dois? Tanto pra compor quanto no resto.

Sim, como sempre gostamos muito de escutar o som do baixo nas músicas, sentimos um pouco a ausência dele, mas acabamos suprindo essa falta com pedais, mais tambores e vimos que conseguimos fazer o som acontecer com o que tínhamos. Recebemos alguns feedbacks da galera nos shows. Sempre fui fã de duos. Na prática é tudo um pouco mais difícil, principalmente a questão de dividir custos. Por outro lado é libertador a ideia das decisões como duo não despenderem de tanta gente que talvez não esteja na mesma vibe, o que acontecia muito com outros integrantes.

Vocês tiveram alguma influência pra essa nova formação?

Hoje ouvimos de tudo, do grunge/punk dos anos 90/trash/doom até Marília Mendonça. Não nos limitamos. A gente escuta tudo que nos representa de alguma forma, seja nas letras, na melodia, no instrumental, no protesto como um todo. Bandas como Skating Polly, Gulabi, o duo gorduratrans, Nervosa, Test, Molho Negro, é o que escutamos ultimamente.

As composições do “Tropical Punk” vieram todas depois disso?

Nós duas tínhamos um projeto de HC que viveu por um curto período de tempo, as músicas “Alice Odeia Ovo”, porque queria falar sobre não termos necessidade de matar e torturar animais pra comer e a “Tupperware”, sobre o clichê de “lugar de mulher é na cozinha”, compomos pra esse projeto. “Ai que gostoso” veio da vontade de fazer um instrumental mais leve, mas querendo a morte do humano hipócrita. “Atividade Policial” fizemos após os eventos do dia 23/04 de 2015, onde os professores sofreram toda aquela violência na nossa cidade, nessa época já éramos um duo.

Os processos de composição e gravação geralmente são sempre a mesma coisa, mas tem algo que vocês queiram compartilhar sobre os processos do “Tropical Punk”?

O “Tropical Punk” foi um EP gravado as pressas, não tínhamos grana suficiente pra pagar estúdio e o resultado ficou longe do esperado, mas queríamos lançar logo. Depois, um pouco antes das eleições, descobrimos que quem gravou nosso EP tinha ideias, diguemos, bem contrárias as nossas. O legal é que musicas surgiram durante as gravações, como a “Tropical Punk” e a “Bostas Fididas”.

Vocês tem vários videoclipes, o que não é comum pra bandas underground, a que se deve isso?

Isso se deve a nós sempre querermos fazer tudo do nosso jeito, meio podrera mesmo, sem ter que depender de outrem, pois a maioria dos produtores querem padronizar a maneira como nos comunicamos, como fazemos arte. E também, temos amigos que acreditam na gente que manjam muito de audiovisual e dão um help quando precisamos. O clipe de “Dado” foi captado editado por Nicole Micaldi que fez um trampo delicado que curtimos muito.

A cena tem mudado muito nos últimos anos, como andam as coisas em Curitiba?

A passos lentos e árduos. Estão surgindo mais bandas com integrantes que estão fazendo a diferença, estamos nos juntando mais pra fazer os shows e festivais acontecerem. Há também mais bandas com mulheres do que quando começamos. Antes na ativa era apenas nós, o que dificultava realizar eventos seguros pra nós mulheres, que até na roda punk somos deixadas de lado ou “expulsas” do pogo.

Últimas considerações? Algum recado?

Que tenham cada vez mais mulheres no palco, na produção, na estrada em tour. Que esse ambiente seja libertário. Sem espaço para machistas, racistas, homofóbicos e qualquer tipo de opressão disfarçada. Esperamos que de fato o underground seja acolhedor para todes.
Girls to the front!

Ouça Naome Rita no Spotify ou nos sites de stream :


Entrevista

Tatuajë DiCarpa

Tatuajë DiCarpa é uma banda Rio Pretense de powerviolence, ou como eles mesmos se definem: “Aquela banda ruim de powerviolence debochado com um tiquinho assim de influências do carimbó”.
Formada em Maio de 2018 por Júlia (Vocal), Vitor (Guitarra), Rizzutti (Baixo/Vocal) e Renan (Bateria) eles lançaram em Fevereiro de 2019 seu primeiro disco, “Satisfação Garantida ou Foda-se”, “feito na mão sem capricho nenhum”.

Como toda boa banda de sub gêneros punk eles têm letras políticas ácidas e satíricas. Delas eu particularmente destaco “Ateu do Horóscopo”, “As Três Fases do Eu Lírico do Sertanejo Universitário” e “Istrei Edi Não Praticante”.

Eles gentilmente cederam uma entrevista pra nós, que você lê a seguir:

É impossível não perguntar sobre o nome da banda. Como vocês chegaram a ele?

Na verdade colocar nome em banda é uma parte bem complicada e chata pra mim. Ensaiamos um tempo para ver como o som tava soando, tínhamos uma proposta de realizar um lance experimental que definimos como “powerviolence debochado”. As letras são críticas e satíricas, seguindo um estilo bem conciso, tipo um meme mesmo. Surgiram alguns nomes como Madrugagrinder, Looser Manos, Faster Than Miojo, Cocaine Before Sex, dentre outros. No final, no bar em que nos reuníamos após os ensaios acabamos ficando com o Tatuajë DiCarpa que acho que exprime bem o espírito da banda.

Como e quando a banda começou?

Eu (Rizzutti) organizei um evento na escola que eu era diretor envolvendo toda comunidade escolar num sábado no ano passado, com várias atividades e uma delas foi uma mesa redonda sobre descriminalização de drogas, o Vitor tava mediando essa mesa. Após isso trocamos ideia e ele falou que tava afim de montar uma banda. Como eu tava sem tocar nessa época, falei que se ele arrumasse um baterista a gente começava a banda e assim foi.

Quais são algumas das referências da banda? Tanto no som, como no geral?

Musicalmente é uma miscelânea já que cada um escuta coisas diferentes. Mas o som é influenciado por bandas hcpunx que fazem um som mais cru, direto e barulhento. No geral, as letras são feitas sobre política e cultura atual, discutindo desde os aspectos macros como os micros desses assuntos da atualidade. Na maioria das vezes com um humor ácido, que é uma característica. Também achamos de suma importância posicionar-se de forma clara contra o fascismo, o preconceito, a intolerância, o machismo, racismo, etc, de forma clara, especialmente no momento sinistro em que vive o nosso país. E como diz o lema da banda: Tatuajë DiCarpa, satisfação garantida ou foda-se!

Eu já morei em Rio Preto e sempre voltei pra visitar os amigos, mas essa cena underground é novidade pra mim. Ela é recente mesmo? Vocês podem falar sobre?

Realmente a cena em Rio Preto tem se renovado e atraindo o interesse de cada vez mais pessoas pelo movimento, pelas ideias e pelos eventos. Temos produzido materiais e temos algumas bandas tocando sempre por aqui. Estamos procurando ocupar vários espaços para propagar ideias e tal. Também foi criado um coletivo chamado Coletivo Panela De Pressão que reúne bandas de uma ampla região aqui do interior e tem realizado vários eventos, especialmente em espaços públicos. E é isso, vamos pra cima! Fascistas não passarão!

Como surgiu a parceria com a Prayana pra lançar um split?

Tem uma explicação muito legal que eles deram numa entrevista, até colocamos o trecho na pagina do Facebook da banda. Eles conheceram o Tatuajë DiCarpa pela net e tiveram uma identificação grande conosco. Daí entraram em contato conosco e fizemos esse split virtual que foi muito gratificante pra gente. A gente também se identificou muito com o Prayana. Também tivemos a oportunidade de conhecer a Edenir Aprigio que fez o desenho da capa do split. Os desenhos dela são muito foda!

Entrevista concedida ao Raro Zine

Últimas considerações? Algum recado?

Vamo que vamo. Em breve estaremos gravando material novo. Estamos trocando de guitarrista após a saída do Vitor, mas vamos dando sequência. Ainda temos cópias do nosso CD “Satisfação Garantida ou Foda-se”, adesivos, bottons e camisetas. Quem tiver interesse é só entrar em contato.

Além do “Satisfação Garantida ou Foda-se”, eles lançaram um split com a banda Prayana de Vitória, ES, ambos podem ser ouvidos no Bandcamp da banda.


Resenha

Lili Carabina – Pistolar Y Pogar

A Lili Carabina, pessoa, realmente existiu, segundo a Wikipedia “Foi uma assaltante de bancos brasileira, infamemente notória nos anos 1970 e 1980 por participar de uma quadrilha que usava fantasias em suas ações criminosas. Ela, particularmente, usava uma peruca loira, maquiagem pesada, óculos escuros e roupas justas para seduzir os guardas de segurança das agências enquanto seus comparsas entravam para executar o roubo”. Tem até um filme.

Já Lili Carabina, a banda, hoje composta por Ká Explosiva (vocal), Julia (vocal e guitarra), Bia (bateria), Maia (baixo) e Rude (guitarra) é de São Paulo, formada em 2017 e em Fevereiro de 2019 lançaram o primeiro EP.

Pistolar y Pogar é uma verdadeira viagem no tempo emocional pra mim e deixa eu tentar explicar: a primeira impressão que me passa é de simplicidade e anti conformismo. A essência do punk, eu sei, mas nem sempre você vê isso claramente. Também não é tão comum ficar com uma música ou linha de baixo grudada na cabeça o dia inteiro. Além de inexplicavelmente eu, que não me mexo há anos, sentir vontade de pogar. Se isso tudo é proposital eu não sei, mas o produto final ficou 10/10.

Ouvir Lili Carabina me faz lembrar porque eu sempre achei punk tão divertido. As vezes chega uma hora que você começa a ouvir muita banda militante e isso te consome do mesmo jeito que você se sentiria se só absorvesse notícias. Não que essas bandas não te energizem e inspirem e muito menos quero dizer que as músicas da Lili não são sérias, mas o jeito de se expressar é diferente e passa uma certa leveza. É pra pistolar e pogar mesmo.

Quando comecei a escrever esse texto tentei lembrar da representação feminina que eu conhecia na adolescência e me surpreendi quando percebi que consiste apenas no rock alternativo dos anos 90. E Killi.

Fiquei anos sem internet e lá pros 18, quando voltei a baixar música e me atualizar, a cada nova banda eu mandava uma mensagem pra uma amiga perguntando se ela conhecia, ela dizia que sim e eu ficava surpresa. São todas bandas incríveis que mudaram a minha vida, mas não consigo comparar nenhuma com Lili Carabina.

Pensei nisso, pois me passou pela cabeça “Como teria sido se eu ouvisse uma banda dessas quando era nova?”. Eu nunca vou saber a resposta, mas certamente “Mary Jane Punk” teria sido um hino e mudado alguma coisa.

A Ká Explosiva, vocalista da banda, deu uma entrevista pro Huffpost Brasil em Novembro de 2018 que eu acho importante linkar: LEIA AQUI.


Entrevista

O novo punk!

Porque a nova geração está se separando do punk “clássico”

Se tem uma coisa “nova” no horizonte do mundo subversivo é o fato de que a cena está se renovando e se reconstruindo a partir das pautas atuais.

Conheçam o “novo punk”, que é formado por uma galera mais nova que vem regendo a cena e eles procuram representatividade em si próprios. São elas, mulheres, pessoas periféricas, não-brancas e não conformistas com as imposições de gênero e sexualidade. 

O que temos percebido é que essa galera, principalmente mulheres negras, periféricas e que fazem parte da comunidade LGBTQ+, têm se retirado dos roles tradicionais e, desse modo, criado uma cena alternativa da alternativa. E isso é bom para caramba!

Pensando nisso, a Bus Ride Notes conversou com uma mina que viveu essa mudança e contou para gente porque resolveu trocar o role punk “clássico” para colar em eventos majoritariamente feministas.

Abaixo vocês podem conferir a breve entrevista concedida pela Letícia, punk desde os 12 anos e que não se via representada nos roles “clássicos”. 

Jovem Letícia “pogando” na ação educativa “Punk Pelo Espaço do Saber”

BRN: Eu te conheci no show da Gulabi (foto). Você era uma das pessoas mais animadas e dançantes do role.

Letícia: (risos) 

Você comentou comigo no dia que você era do role já faz um tempo, né? 

Eu sempre gostei muito de punk e hardcore. Principalmente punk na verdade, põe um parêntesis aí depois porque hardcore eu coloquei só para incluir (risos). A questão mesmo era o punk.
Na verdade, eu fui fazer uma pesquisa para faculdade sobre as mulheres na cena punk e hardcore de São Paulo. Eu sempre ia nos eventos desde novinha e queria falar sobre isso, reparei que o punk é uma contracultura e que na verdade a galera não sabe o que é, não sabe como está, não sabe se existe. 

Quantos anos você tinha quando começou a frequentar esses roles? 

Eu curto punk desde os 12 anos. A minha tia me levava nos roles do ABC quando dava, aí dentro disso eu comecei a descobrir bandas. Uma banda que me influenciou muito foi o DZK e Cólera, que era minha banda favorita. Daí eu comecei a perceber que eu e minha tia éramos basicamente as únicas mulheres presentes no role. E mais ainda, eu não-branca e minha tia negra.
Começamos a notar isso mais ainda em um show do Surra, onde eu estava no mosh e o vocalista no meio do show teve de parar e salientar para a galera: “Toma cuidado com essa mina…”. Eu precisei ouvir ele me falando que eu era a única mina daquele mosh para minha ficha cair.  
Isso também aconteceu quando eu tentei formar uma banda e toda vez que procurava por integrantes só apareciam homens! E assim, homens mais velhos, homens que não gostam de punk, homens que falam mal da minha voz e que diziam que eu não poderia tocar guitarra. Então foi a partir daí que eu comecei minha pesquisa em busca de bandas de mulheres, de algumas eu já gostava e uma dessas era a Charlotte Matou Um Cara. Ainda dentro desse role eu conversei com uma menina, também do ABC, que era vocalista do Condenados, a Natália, que não faz mais parte da banda. Eu perguntei se ela sabia de algum evento de mulheres e ela me falou sobre o Maria Bonita Fest, aí nesse role eu conheci a Maia que é vocalista da Gulabi e baixista da Lili Carabina e comecei a colar nos roles.  

E nos roles de mulher, além de não ter só macho, qual a maior diferença que você notou?

Eu entendi que a cena punk acaba se dividindo entre a cena punk/hardcore e a cena punk. Dentro desta (punk) existe a cena de caras e a cena de minas. Como, por exemplo, o movimento Riot Grrrl onde as meninas procuraram dentro da cena dos caras por um espaço para reivindicar e se articular. Então elas usam um artefato que é do punk para contestar o próprio punk. O que acontece é que os caras não dão esse espaço para as mulheres e nunca deram.

Mesmo na teoria tendo que dar né?

Apesar de ser um ambiente contestador e supostamente subversivo, que era para dar espaço as mulheres, as pessoas negras, periféricas e LGBTQ+, acaba excluindo essa galera. No hardcore mais ainda, pois acredito que seja muito elitizado.
Quando eu era novinha e comecei a conhecer a cena punk eu pensava; “Nossa, vai ser muito louco! Vamos quebrar e contestar tudo!” E quando eu cheguei nesse ambiente, principalmente o dos caras, fiquei tipo… Cadê a articulação? Eu procurava pela ação. 
Já dentro do role de mina eu vi muito mais isso (essa ação).  
Por exemplo, existem bandas de punk antigas que o pessoal vai lá, faz o show e vai embora logo em seguida. Não vejo uma articulação ou um ato político. Apesar de acreditar que algumas bandas “novas” de homens realmente fazem isso. E tem algumas que chegam a se juntar com as meninas para fazer um role, mas é daquele jeito… 

É tão dividido assim que em role de macho só vai macho e em role de mina só vai mina?

Não. É algo que acaba acontecendo. Se prestar atenção consegue ver que isso está estruturado. Quando eu chego num role de minas eu vejo que tem uma articulação política maior, tem uma função. Já no dos homens, principalmente quando se trata de bandas mais antigas, eles não mudam a estrutura da letra, não mudam sua estrutura política. Falam de coisas que aconteceram lá atrás, sobre letras que foram escritas há 30 anos e não escrevem uma letra nova para falar do que acontece na atualidade! Aí esse espaço punk acaba se mantendo igual e não dá lugar para essas mulheres, para a galera preta. Essa galera composta de mulheres pretas, LGBTs, periféricas acabam “tendo” que criar um espaço novo para poder discutir os temas contemporâneos porque no role antigo só tem ideia antiga. Eles não tem interesse nos novos discursos.