Bus Ride Notes

Date archives novembro 2019

Evento / Resenha

Sinta A Liga e Bruxaria

O DF se movimentou no último feriadão e távamos lá pra curtir alguns desses eventos. Foram eles o festival Sinta A Liga, no dia 15/11 e o festival Bruxaria, no dia 16/11, que apesar de serem duas coisas distintas tiveram muito em comum e aconteceram no mesmo fim de semana, então falo aqui sobre ambos.

Primeiramente a coisa mais importante que aprendi esse fim de semana é que o DF não é composto só por Brasília.

O festival Sinta A Liga foi em Brazlândia, uma cidade satélite de Brasília, coisa de 50 km do centro. Ele é um evento idealizado pela Tuttis Souza que roda o Distrito Federal para incentivar o protagonismo feminino na cena musical.
“Hardcore só é hardcore quando é libertário, quando é ato político e não só música. E no contexto social em que vivemos, poucas ações são tão libertárias quanto mulheres fazendo elas mesmas, ou seja, produzindo, tocando e espalhando mensagens riot grrrls, antirracistas e anti-CIStema”.

Penúria Zero começou a noite de shows com o pé na porta, quase pogo (o espaço era pequeno), bate cabelo e muito punk. Aquele showzinho divertido 10/10. A banda foi (re)formada em 2011 e lançou seu primeiro disco em 2017, vale a pena ouvir.

Mantendo a Identidade é um grupo que toca reggae, rap e outras misturas. Eu pensei muito e só consigo descrever o show deles como extremamente agradável que semeou boas energias pra noite. Saca só:

XXIII é uma banda do DF que toca algo parecido com post punk e grunge na sua mistura sem gênero musical. O vocal grave nas músicas mais lentas faz ser impossível não prestar atenção ao show. Como eles mesmos se descrevem nas redes: “Nós somos a banda XXIII e viemos pra deprimir vocês”.

Se você lê nosso site provavelmente já conhece a Xavosa, banda de punk rock de Brasília que lançou seu primeiro EP no começo desse ano. Como todas as bandas desse evento, foi o primeiro show delas que eu vi e não sabia o que esperar. O show foi muito bom, divertido e o toque final foi um cover de Rebel Girl em que elas chamaram as meninas todas das bandas pro palco pra cantar junto. Foi lindo. Também parabéns pra Sand (da Supervibe) que substituiu a batera Rita.

O show da Bertha Lutz no Sinta A Liga foi só uma das coisas marcadas pelo Mercúrio retrógado (dizem que é quando tudo dá errado) esse fim de semana. A guitarrista, Gabi, não chegou à cidade a tempo, então Sara, guitarrista da Estamira, durante o evento aprendeu algumas das músicas da banda e elas fizeram um show reduzido e improvisado que foi bem legal. Ainda estou pasma com as habilidades de Sara.

Klitores Kaos é uma banda de crust/hardcore de Belém, elas tocaram em forma de trio e fecharam a noite com um show poderoso.

Além da música o festival contou com um bate papo sobre experiências de ser mulher na cena underground com a professora de música e guitarrista da banda Estamira, Sara Abreu, uma exposição da artista Veronica Popov, que fez o flyer do fest e esteve presente no evento fazendo caricaturas, uma exposição da Ninfa Sex Store e sorteios para as garotas presentes de vários produtos e serviços feitos por mulheres.

Já o Festival Bruxaria foi em Brasília, ele é feito pela Coletiva Bruxaria, “formada por mulheres que se juntaram para construir locais seguros e solidários, espaço para todas se jogarem na música, no palco, na produção, e em todos os espaços que quiserem ocupar. Essa é nossa estratégia de sobrevivência nesse mundo que nos silencia e tenta nos matar todos os dias. Bruxaria é nosso momento de criar, produzir, tocar, se apoiar. Ver e viver um apoio mútuo em que mulheres deixam de ser rivais para cuidarem umas das outras e celebrarem essa união”.

Os shows começaram com Bertha Lutz, agora completa. A banda de Belo Horizonte faz um show nada menos que incrível, começaram estapeando a nossa cara com “Sangue Negro”, “Seu privilégio sustenta essa porra toda, sua indiferença sustenta essa porra toda, sua branquitude financia essa porra toda. Sempre, desde sempre!”, e terminaram com “Funk da Xoxota” que ficou na cabeça quase uma semana.

Em certo momento do show a vocalista, Bah, disse “a gente é cria de Bulimia”, uma homenagem à Ieri da Bulimia que faz parte da Coletiva Bruxaria e estava presente, mas eu acho que isso se aplica a todas nós, a maioria das bandas punk/hardcore que eu vi esse ano, não só no DF, fazem um cover da banda.

Klitores Kaos também tocou mais uma vez. A banda foi formada em 2015 “a partir de uma vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade de Belém”. Com um som pesado e cru elas se descrevem nas redes como uma banda “feminista, de esquerda, antifascista, vândala e baderneira”. E dito isso, não sei mais o que falar sobre o show sem ficar redundante. Bóra ouvir elas no Bandcamp.

Estamira é uma banda de Metal do DF, formada em 2007 por mulheres que “já contribuíram de diferentes formas para a produção artística de Brasília e decidiram, mais uma vez, criar um som original e de qualidade”.
Após seis anos de hiato (com um show aqui e outro ali) a banda “volta com o objetivo de fazer o que sempre se propôs: unir mulheres incríveis para ocupar o palco, produzindo um som pesado e visceral, além de transmitir uma mensagem profunda e crítica”. E o show não foi nada menos do que isso. Puro ódio.

Além de shows o festival tem exposições e feirinha (enorme, vão no perfil do festival ver tudo o que rolou, é muita coisa pra colocar aqui) com produções de mulheres e atividades exclusivas para mulheres, nessa edição elas foram a oficina sobre racismo e privilégio branco mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), oficina de manutenção de bike pelo Calangas Cycling Crew (coletivo feminino ciclístico do DF), apresentação de shibari pelo projeto Entre Nós, apresentação da palhaça Kuia. E teve também espaço pra crianças, algo muito importante.

Em conclusão esse foi um fim de semana muito agradável e valeu a pena ter ido pro DF conhecer as bandas, o pessoal e os projetos que a galera de lá tá fazendo.

Esses espaços são muito importantes e é bom demais ver que em todo lugar as pessoas se importam e resistem. Vamo todo mundo se unir.


Entrevista

Marinas Found

Marinas Found é uma banda de Pelotas – RS, formada em 2014 e hoje composta por Pedro Soler (voz/guitarra), Eduardo Walerko (voz/guitarra), Pietro Strickler (baixo) e Arthur Feltraco (bateria).

Em 2017 eles lançaram o primeiro disco, “Marinas Found”, e em Maio desse ano lançaram o disco “Ansiolítico”, foi quando eu conheci a banda.
Eu sou suspeita pra falar por que hardcore melódico é provavelmente o meu gênero musical preferido, mas o “Ansiolítico” é muito bom. A banda toca aquele HC bom pra toda hora, sonoramente eles são bem concisos.

O primeiro disco é bem pop punk e contrasta com o segundo. Faz sentido dizer que o disco novo é um “amadurecimento” (eu tenho uma certa birra dessa palavra, mas se encaixa aqui): o “Marinas Found” tem muitas falas sobre “não quero envelhecer e me conformar” (coisa de jovem) e no “Ansiolítico” a mudança é visível, mas a essência é a mesma.

Como eu comentei na entrevista, o mundo hoje tá tão doente que é difícil saber o que é traço de personalidade e o que é sintoma e isso se reflete nas letras do disco“Por que é tão difícil se libertar das entranhas que nós mesmos criamos?”.
Acredito que muita gente pode se identificar com as letras dele, além dos problemas coletivos tem as músicas como “Vegan Youth” (assisti um documentário e algo me acordou) e quem não conhece um “Jorge”, não é mesmo?

Se você gosta desse som, eu recomendo muito ouvir esse disco.

A banda gentilmente nos cedeu uma entrevista, que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco da banda pra quem não conhece?

A Marinas Found é uma banda de hardcore formada em 2014 na cidade de Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul. Somos quatro amigos que curtem tocar musicas tristes de esquerda juntos haha. A gente lançou nosso primeiro álbum em 2017, reunindo músicas do início da banda, e o “Ansiolítico” este ano com uma proposta de lançar um álbum coeso mesmo, pensado e preparado, diferente do outro que juntamos tudo que tínhamos até então.
Somos Pedro Soler (guitarra e voz), Eduardo Walerko (guitarra e voz) e Pietro Strickler (baixo).
A banda surgiu e se estruturou ao longo do tempo porque eu (Soler) e o Arthur gostávamos de tocar juntos desde crianças. A gente se apaixonou por punk na mesma época e desde então seguimos nesse role. Até lá teve muita coisa de brincadeira até nos firmarmos na Marinas Found, junto com o Walerko. No meio dessa brincadeira precisávamos de um novo baixista e o Walerko assumiu a responsabilidade. Com ele a gente virou a Marinas Found mesmo, lançamos os álbuns e começamos a levar a coisa mais seriamente com shows e tal. Então basicamente a banda surgiu de amizade e de uma pulga atrás da orelha com várias coisas, com nós mesmos, com problemas sociais, com o que a gente tava vivendo ou observando. A gente foi muito ligado um com o outro desde que nos tornamos amigos e também pensamos parecido musicalmente e politicamente, então, tudo caiu como uma luva. Com o tempo o Walerko quis voltar a tocar guitarra e entrou o Pietro no baixo. Com essa formação lançamos o “Ansiolítico”. Agora o Arthurzinho saiu de novo porque foi fazer o mestrado longe de nós e estamos sem baterista, mas logo logo já divulgaremos o novo integrante.

Pouco antes de lançar o disco novo vocês mudaram a formação da banda, né? Como foi essa mudança no processo de composição (e no geral também)?

Então, a de antes do disco foi de boa porque na verdade a mudança não excluiu ninguém, ela só adicionou o Pietro. Nós éramos eu, Walerko e Arthur e viramos eu, Walerko, Arthur e Pietro. A gente não perdeu em nada nesse sentido, só ganhamos. A composição do “Ansiolítico” foi muito massa porque nós todos nos soltamos bem mais do que no primeiro álbum, ousamos mais e tivemos uma produção mais ganha também. Fizemos uma pré produção do álbum com o Augusto Santos (ex vocalista da Suburban Stereotype) e isso também foi muito importante. A gente costuma se entender bastante nas composições, cada um soma com o que acha massa e vamos nos acertando.

“Ansiolítico” é um disco temático? Várias músicas falam de frustrações ou de problemas mentais/emocionais (o mundo hoje tá tão doente que é difícil saber o que é traço de personalidade e o que é sintoma), isso foi planejado?

Cara, acho que dá pra dizer que é temático dependendo do ponto de vista, mas isso não foi intencional. A gente teve momentos bem deprimidos e ansiosos entre o primeiro álbum e o segundo e isso acabou influenciando muito. As nossas letras costumam ser bem sinceras e pessoais, então acaba que não é planejado, mas é simplesmente o que sai de nós. Falando particularmente pelas minhas letras, nos últimos anos foi difícil fugir destes temas e tratar outros assuntos. Quando a gente fez o álbum a gente juntou todas músicas novas que tínhamos e trabalhamos com o Augusto em cima delas, mas no final nada foi planejado, foi só sons que a gente já tinha feito meio que espontaneamente. Acho que por esses motivos que falei acabou que todos os sons são meio ligados, por remeterem a mesma época e aos mesmos compositores. Quando nós terminamos o álbum não sabíamos que nome colocar e pensamos umas semanas só nisso. Quando todo mundo já tava cansando, acho que o Walerko perguntou como se chamava o remédio pra ansiedade e percebemos que ansiolítico faria muito sentido com a temática do álbum. Eu não sei exatamente como é a comparação de hoje com o de outras épocas em questão de números de pessoas com problemas mentais, mas sei que a depressão e a ansiedade só crescem no mundo há algum tempo. Eu sei que as pessoas hoje em dia tomam muito mais remédio do que jamais tomaram, eu sei que nós, nossos amigos e familiares muitas vezes são vítimas de problemas assim, pessoas que tomam remédio, bastante remédio, pessoas que já pensaram em se matar ou até já foram adiante, que não conseguem trabalhar ou estudar e que na real eu acho que tá muito ligado a sociedade como um todo, esses problemas não aparecem numa porrada de gente com as mesmas características e sintomas por nada, existe um fator social ou vários importantes. Então o álbum tenta tratar esses dois lados, o individual e o coletivo.

Pelotas é interior, né? Vocês podem falar um pouco da cena daí? Ela também tem mudado muito nos últimos anos como no Sudeste?

Sim! Então a gente teve muita sorte que quando a gente tava entrando na adolescência tinha uma gurizada que organizava role aqui e que tinha um coletivo chamado Hardcore Pride. Por causa desses caras deu pra ver que uma banda daqui podia ser muito afudê como a Suburban Stereotype era e também nós pudemos ver muitas bandas na nossa frente e nos aprofundar nos roles de HC mesmo como Zander, Dead Fish, Sugar Kane, Bullet Bane e que na época era algo incrível pra nós. A gente não sabia de role de punk e HC e do nada esses caras tavam fazendo esses shows muito foda. Sem falar que os roles que eles organizavam só com banda daqui eram muito do caralho também, eles tinham a mão pra chamar muita gente pros eventos. Então essas coisas nos colocaram no role lá com 14 anos haha. Por mais que a gente tenha demorado a virar amigo do pessoal, era algo que nos impressionava e marcou demais. Hoje em dia o role é bem mais parado, mas a gente segue tentando movimentar, dia 23 estamos trazendo o Surra pro terceiro Nosco Fest que é um role que a gente da Marinas organiza. Então a gente segue tentando com o pessoal que curte fazer evento aqui e tá sendo bem massa. Sobre estar mudando, ela mudou um pouco pra pior nos últimos anos porque parece que ficou parada, mas felizmente, de algum tempo pra cá parece que o pessoal tá se mexendo mais de novo, então, veremos mais pra frente haha.

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaríamos de divulgar nossa maravilhosa agenda se possível hahaha.
Dia 23 agora em Pelotas teremos o Surra no Galpão e dia 30 fecharemos o mês com o Audiocore Festival com Sugar Kane, Chuva Negra, Violet Soda, Radical Karma, Suerte, Inimigo Eu, nós e a Atria, em Porto Alegre no Oculto. Vai ser muito foda e vale a pena procurar qualquer um desses eventos! Dezembro também iremos a POA, mas ainda não saiu o evento no Facetruque então vamos aguardar pra soltar o verbo, mas pode salvar a data: dia 13, Sexta Feira de Dezembro vamos a POA again.
Gostaríamos de dizer para todos tentarem ficar bem, porque a situação brasileira tá muito fudida! Precisamos estar unidos pra enfrentarmos nossos problemas pessoais e coletivos juntos! Sempre em frente com solidariedade e loucurada! A loucurada liberta, experimentem! Muito obrigado Bus Ride Notes pelo espaço e parabéns pelo corre!
Seguimos!

Ouça Marinas Found no Bandcamp ou nas redes de stream:


Entrevista

Pinscher Attack

Pinscher Attack é um duo de Monte Azul Paulista, SP, formado em Novembro de 2018 por Thaysa e Danilo Zuccherato na bateria e guitarra.
A sua discografia é composta pelas “Canil Sessions” (que você pode assistir no Youtube) e quase todas as músicas têm letras sobre doenças mentais/emocionais.

Eles têm uma agenda bem diferente das bandas de interior, pois fazem uma das coisas mais legais que eu já ouvi falar: levar um gerador pra ocupar espaços públicos com shows (o que mais tem no interior é praça, né?).
Recentemente foi lançado o mini documentário “Guerrilha Gerador” em que a banda participa e fala um pouco sobre isso (você pode assistir ele ao fim desse texto).

Eles gentilmente nos cederam uma entrevista, que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Opa. Pinscher Attack aqui, somos um casal de HC rábico de Monte Azul Paulista – SP. Thaysa Zuccherato na batera e Danilo Zuccherato na guita e nos berros.

As Canil Sessions são o equivalente aos seus EPs, certo? Vocês têm vídeos delas e há pouco tempo colocaram os EPs nas redes de stream. Vocês podem explicar um pouco mais?

Sim, são séries equivalentes aos EPs. Quando começamos não queríamos colocar o áudio nas plataformas, pensávamos que não iriam escutar, queríamos ter tudo já com vídeo, mas algumas pessoas que curtiam os vídeos queriam ouvir off-line e falavam que não tinha como, aí colocamos nas plataformas e Bandcamp.

E cada uma delas tem um tema, certo?

Sim. Cada série tem 3 capítulos ou 3 músicas sobre o mesmo tema.

As animações pro EP/Session “Suicida” foram feitas por vocês mesmos? Ela foi a primeira Session, não?

Isso mesmo. Nosso primeiro trampo é animado pelo Danilo. Gostamos muito do resultado. Bem manual, cru e simples.

Vocês empregam bastante artes plásticas na estética da banda, podem falar um pouco sobre?

A Thaysa é artista visual, pra nós não há como desvincular a arte da vida, por isso utilizamos a arte em tudo e não poderia ser diferente na banda. Nossa casa é um ateliê.

A agenda de vocês é bem cheia pra uma banda do interior, como vocês conseguiram isso?

A maioria dos nossos shows são guerrilhas que nós mesmos organizamos com nosso gerador em cidades diferentes aqui em nossa região. Juntamos algumas bandas que topam a ideia, correr o risco e mandamos ver. De uns 15 rolês tivemos que parar por conta da polícia só uma vez, mas foi tranquilo e acabou numa boa.

Isso me leva a uma pergunta que tenho feito demais, mas é impossível não perguntar: a cena tem mudado muito nesses últimos anos, como estão as coisas no interior de SP?

Tá a mesma coisa. Casas abrem, casas fecham. Bandas começam, bandas acabam. Uma coisa que reparamos muito é que falta tesão nas bandas mesmo. Curtir ensaiar, gravar e ter a banda mais como prioridade na vida deles, nem que for um hobbie, mas um hobbie levado a sério, feito com o mínimo de organização e respeito.

Últimas considerações? Algum recado?

Valeu demais pela préza. Ficamos felizes pra kct. Valeu mesmo!

Ouça Pinscher Attack no Bandcamp ou nos sites de stream:

Documentário “Guerrilha Gerador”: