Bus Ride Notes

Date archives agosto 2020

Entrevista

LesboPunk

É pouco provável que você nunca tenha ouvido falar em fanzine porque a maioria das bandas que já publicamos fazem parte da contracultura onde eles foram criados, mas em todo caso: fanzines (mais conhecidos como zines) são pequenas (em tamanho, mesmo) publicações feitas por fãs, geralmente falando de música independente, mas também com os mais diversos assuntos.

Ainda hoje muita gente gosta de fazer da maneira clássica: à mão, geralmente com colagens e xerox, mas muitos também são feitos no computador, até pra facilitar a distribuição online.

Inclusive tem uma reportagem do podcast do Nexo, sobre o movimento riot grrrl, onde falam um pouco sobre zines em uma entrevista com Camila Puni, artista e pesquisadora de zines que já participou de residência artística no LA Zine Fest e deu aulas sobre na Universidade de Tulane (EUA).

“Toda sapa tem um pouco de punk”

O LesboPunk foi lançado no Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (29 de Agosto), como o nome já diz, ele é um zine sobre lésbicas no punk.

Amanda Cox, mulher lésbica, ativa na cena punk de São Paulo há sete anos, resolveu criá-lo “pela minha vontade de ver uma cena underground mais ocupada por lésbicas, pra mostrar que o punk rock também é pra nós, sapatas, e, principalmente, pelo meu desejo de encontrar outras sapatonas iguais a mim, apaixonadas por tudo que o punk é e pode vir a ser”.

“Minha ideia pro LesboPunk começou em 2017, e inicialmente era fazer um coletivo; juntar lésbicas da cena pra tentar criar um espaço nosso, organizar eventos só com bandas de sapatão, formar um grupo mesmo. Não deu certo porque quase todo mundo que convidei acabou desistindo, rolaram divergências de ideias e eu não tinha conseguido encontrar muitas lésbicas pra convidar de toda forma. Isso ficou na minha cabeça e fui percebendo que sempre me incomodou a questão de terem tão poucas lésbicas no punk, e no fato de que, pelo menos aqui, não vejo muita união e iniciativas especificamente lesbocentradas na cena. Tentei pensar em formas de transformar essa ideia inicial em algo que desse pra eu desenrolar sozinha, e me veio a ideia de fazer o zine”.

O LesboPunk tem uma leitura bem fácil e dinâmica, são pequenos textos que, em conjunto, servem meio como um guia e ele é bem dividido.

“Comecei escrevendo um pouco sobre a minha experiência pessoal dentro da cena, pra estruturar bem a perspectiva pela qual esse projeto foi idealizado. Na primeira parte falo um pouco sobre gangues dos anos 80 e algumas bandas pioneiras do ‘dykecore’, com o intuito de mostrar que desde o início dessa contracultura já existiam lésbicas criando seu espaço dentro dela”.

A segunda parte é dedicada à indicações de bandas brasileiras com lésbicas na formação.

“Nessa parte eu preferi usar textos que as próprias bandas me enviaram, pra ter a certeza de transmitir a expressão própria de cada uma e deixar um espaço para que pudessem falar o que desejassem divulgar a respeito dos seus projetos”.

A terceira e última parte fala sobre obras de literatura e filmes lésbicos, ainda dentro do punk.

“Produções nesse tom específico não foram fáceis de achar, então as indicações são poucas (porém muito boas)”.

“Meu objetivo foi juntar histórias de grupos lésbicos que surgiram em meio ao punk e trazer visibilidade pras sapatonas que estão na cena hoje em dia; fazer a palavra circular e mostrar pra outras lésbicas que o punk é algo muito mais próximo da nossa realidade do que a maioria imagina (conforme elaboro no texto de abertura), e, sendo um pouco ambiciosa, incentivar mais lésbicas a se interessarem pelo punk e começar a criar dentro dele, desde bandas, artes em geral, eventos e grupos, assim como as iniciativas mencionadas no projeto”.

Assim como Amanda, eu espero que mais pessoas se inspirem e comecem a criar os seus (manda pra gente!), afinal de contas é sempre assim, né? A gente vê algo que curte, se inspira e sai fazendo o nosso.

“Ainda não sei pra onde o projeto irá depois desse primeiro lançamento, mas pelo retorno que tive até agora penso na possibilidade de criar edições futuras”.

No linktree você encontra além do zine (original e em inglês pra você mandar pras amigas de internet que conheceu no antigo perfil do Personals), os agradecimentos, fontes e playlists no Spotify e Youtube.


Resenha

Bioma – União e Rebeldia

“Banda de queercore feminista formada em 2017, a Bioma surge a partir do encontro de mulheres da cidade de São Paulo com discurso feminista e posicionamento libertário, anti-racista, anti-LGBTfóbico e anti-CIStêmico”.

Formada por Julia Kaffka (baixo), Letícia Figueiredo (bateria), Mayra Vasconcellos (guitarra) e Natália Pinheiro (Natoka) (vocal), em Maio de 2020 a Bioma lançou seu primeiro disco, “União e Rebeldia” e vamos falar um pouco sobre ele aqui.

Primeiramente, se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre.

“União e Rebeldia” tem aquela característica que é difícil colocar em palavras e daí surgem resenhas dizendo que é um disco “potente”. Nada contra esse termo, mas é vago e eu quero tentar não ser vaga, assim como esse disco.

Punk e hardcore são conhecidos por suas letras políticas, mas não é tão comum vermos bandas que se expressam bem, na maior parte vemos letras que mencionam um assunto e não elaboram ideias, por que é difícil se expressar bem numa letra curta de música, olha só o tamanho desse parágrafo.
É por isso que a gente fica feliz quando encontra bandas que conseguem fazer isso, creio que esse é o tal do “potente”.

Bioma é uma daquelas bandas que te faz parar pra pensar, podemos escrever um artigo grande sobre cada música desse disco. Aliás, eles já existem, mas acho que o que importa é você ouvir, procurar saber mais e tirar suas próprias conclusões.

“Violência Invisível” fala sobre lesbocídio, a morte sistemática de mulheres lésbicas, assassinato e suicídio de lésbicas que são permeados pela lesbofobia.
“Sociedade patriarcal, violenta e irracional. Daniela, Fabiana, Priscila, Luana! Todas que não vamos esquecer. Lésbicas presentes!”

“Falsas Causas” fala sobre “pink money”, uma estratégia de marketing de empresas que focam o público LGBTQ+ em suas campanhas. Mas não se engane, isso é só uma estratégia mesmo.
“Não trate como revolução quem te trata como nicho de mercado”.

“Disforia”, o nome já diz tudo, “Um espelho sem reflexo, incoerente sentimento. Disforia do meu próprio ser”.

“Pedalar” é outra música em que o nome já diz tudo, “O suor que pinga enferruja as engrenagens da máquina que gira e para nossas vidas”. Você pode até não ser contra carros, mas você não pode discordar disso.

“O silêncio não protege, ele te consome. Esse corpo é revolta, revolta que revida”.

A banda também regravou para o disco as músicas de sua Demo (2018), “Descontrolar” e “77 Cobaias”.
“Enquanto se escolhe quem vive ou quem morre, nós desmascaramos seu fascismo democrático”.

Eu acho que “Cidade Perdida” é a música que melhor resume esse disco, tanto que ela foi lançada como single, junto de seu clipe, em Abril de 2020.

Dirigido e editado por Julia Gimenes (profissional do audiovisual, feminista, que há dez anos atua como colaboradora na causa indígena), ele é composto por trechos de registros feitos por ela durante o “Festival Guarani” (2017) e o primeiro “Encontro das Mulheres Indígenas” (2018), e imagens de arquivo, cedidas pelos canais canais “De olho nos ruralistas”, “Mídia Ninja” e outros portais de jornalismo independente, retratando o crime cometido pela Vale em Brumadinho e a crise das queimadas na Amazônia que ocorreram em 2019. Também com falas de Tamikuā Txihi, Julieta Paredes Carvajal, Sônia Barbosa e Ailton Krenak.

O disco termina com “2019”, “Olhar pra trás é tão difícil, as dores voltam de tentar. Todas (as) perdas que tivemos… Seguir em frente apesar disso, nada vai nos derrubar. Pode vir qualquer Jair, a resistência vai ficar”.

“União e Rebeldia” foi produzido pela própria banda junto de Mari Crestani (Bloody Mary Une Queer Band, Weedra) e tem participações de Mari Crestani, Célia Regina, Cint Murphy (In Venus) e Karine Campanille (Transviada Distro, Mau Sangue, Messias Empalado, Violence Increases Fear).

O disco foi lançado pelos selos Efusiva, Howlin Records, Läjä Records, Oxenti Records, Vertigem discos, Carniça Distro, Good Things Distro e está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Deixo aqui também a entrevista com Natoka sobre o Dyke Fest #4, onde tem muito sobre a Bioma.


Resenha

Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins

Eugênio é uma banda indie formada em 2017 em Sorocaba e hoje composta por Sthé Caroline, Murilo Shoji, Lud Marolli e Paulo Lins.

“Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins”, lançado em Junho de 2020, é o segundo EP de uma trilogia sobre dor, perda e superação.

O primeiro EP, “Como Diria Eugênio: Um Pouquinho de Nada”, foi lançado em 2018 quando a banda era um trio e foi regravado e relançado em 2019, depois da entrada da baixista Lud.

Quando há uma mudança de integrantes, a mudança na sonoridade da banda nem sempre é óbvia, mas aqui a gente consegue ver uma grande diferença, não só no baixo que ficou mais “visível”, mas em todo o resto. O som do novo EP é mais encorpado, enche todo o ambiente e não deixa espaço pra distrações. Se isso foi planejado ou não, resta perguntar à banda.

Nesse EP eles focaram no instrumental e eu usei indie pra descrever o som dele, mas dentro disso cabe um mundo de coisas. Algumas vezes a sonoridade me faz pensar no rock ‘n’ roll psicodélico (também focado no instrumental).

Já no começo vemos a lenta “Sentir” seguida da mais animada do EP, “O Homem Que Não Respira”, que vai deixar o refrão grudado na sua cabeça.

“Foi Mal” foi lançada como single em Maio, junto de seu clipe (dirigido e editado por Murilo Shoji), gravado já durante a quarentena.

“Curta Estadia” foi a segunda música a ganhar clipe, também lançada como single antes do lançamento do EP. O clipe foi dirigido por Eduardo Guerra e produzido em parceria entre Egrégora Filmes e Bonobo Produções.

“Um dos principais fatores enfrentados durante o reconhecimento de uma grande dor é ter de lidar com a ideia da solidão. Por vezes, após percebermos que somos nosso próprio inimigo, nos direcionamos para o perigoso caminho que indica que devemos nos odiar. Odiar nossa mente; nosso corpo e nossa história. ‘Curta Estadia’ reflete o momento em que Eugênio se olha diante de um espelho invisível e entende que, acima de seu próprio inimigo, é também a sua maior companhia”.

Segundo a banda, “A ideia é mostrar nesta trilogia o ciclo de sentimentos. O primeiro trabalho foca em tratar a dor em todos os seus formatos, seja emocional, física, passional, cognitiva. O segundo trata do reconhecimento dessa dor e o conflito entre a aceitação e o plano de fuga. E o terceiro trata da superação, seja ela com ou sem final feliz”.

“Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins” está disponível nas redes de stream.


Entrevista

Gravando na quarentena

Em Março o Covid-19 pegou todo mundo de surpresa e virou tudo de cabeça pra baixo. Tivemos que nos adaptar, quem ainda não sabia, aprendeu que a internet é uma senhora ferramenta e cinco meses depois, a quarentena ainda tá longe de acabar.

Curiosos sobre como o pessoal tá lidando com essas adaptações, conversamos com algumas pessoas que estão gravando em casa. Tivemos a sorte de falar com pessoas de cidades diferentes, que sempre gravaram por home studio, que nunca haviam mexido com isso e até bandas que nasceram durante a quarentena, como Matura (Mossoró), Mastema (São Paulo), que já lançou dois EPs, um álbum e um single, e o projeto solo de Sisie Soares (Curitiba).

Mastema é o projeto solo de Guilherme (que também toca na banda Ravir).

“O Mastema surgiu na quarentena, no começo, mais precisamente de uma aventura solo. Teve inicio como uma experimentação solo de um projeto eletrônico, que evolui para um disco misto de pós-punk e poesia, e atualmente voltou a se tornar um projeto de eletrônico e viagens minhas. Ele tem uma estética baseada totalmente nos meus sonhos e experiências pessoais, algumas líricas um pouco mais abstratas e outras um pouco mais diretas. Eu dediquei os trabalhos a pessoas que fizeram e fazem parte da minha vida, como uma forma de lembrar delas nesse momento em que estou distante das mesmas”, diz Guilherme.

“Senti a necessidade, e o tempo livre que me surgiu também foi uma grande mão na roda. Senti que as músicas eram razoavelmente boas, que poderiam dizer algo para mais de uma pessoa, e então decidi me focar e mergulhar nas minhas próprias ideias finalmente. Gravo canções e projetos, recortes e tudo mais desde 2012, mas nunca havia me sentido a vontade para lançar algo ao público no formato de um disco completo”.

O projeto solo de Sisie Soares (que também toca nas bandas Naome Rita e Um Deus Blusa) nasceu da necessidade de se gravar em casa em confinamento, mesmo com poucos recursos.

“Comecei a composição em Abril, pois estava de férias que acabaram sendo emendas com os primeiros lockdowns. A ideia era compor e gravar o que me viesse na telha sem me prender a gêneros ou perfeccionismo. Uma viagem por tudo que ouço ou me inspira”, diz ela.

“Não sei se foi uma bem uma escolha gravar durante a quarentena. Com isolamento, as incertezas financeiras e o governo inescrupuloso, eu precisava voltar a minha atenção para algo que me faz bem, que é fazer música. A ideia de ter que esperar isso acabar nesse país está cada vez mais frustrante, pois não há previsão concreta de término”.

Matura também surgiu da inquietação.

“Não foi muito bem pensado, porém a quarentena acabou unindo todo mundo, pois estávamos isolados e inquietos. Isso impulsionou todos a extrair um pouco desse momento, sentimentos que foram surgindo em meio a esse cenário triste e caótico, e a necessidade de buscarmos calma, paciência e reflexão. A sensação de que esse período iria ser longo, foi cada vez mais agravado pelas inconsequências e absurdos desse desgoverno atual”, diz Nixon.

“Rafaum e Yuri já vinham incubando essa ideia quando eu apareci, e tudo fluiu muito rápido, soltávamos o que dava na telha e acontecia. No meu caso especifico, eu estava em um processo de desconstrução musical e o Matura apareceu como uma oportunidade de me desprender de qualquer regra ou formalidade na hora de tocar e compor. Era o puro e simples fazer o que estava sentindo sem muita preocupação”.

Lucca Gonsí (São Vicente), HAYZ (São Paulo) e Tigre Robô (Brasília) não quiseram esperar a quarentena terminar pra continuar as gravações.

“Depois de gravar um EP ano passado, esse seria o ano em que iria começar a escrever as músicas para um álbum. Seria pós pandemia. Surpreendentemente, me deu um up de inspiração e eu escrevi muita coisa nova durante esse período, mas não teria condição de ir para estúdio gravar com a situação atual. Então, para não ficar tanto tempo “parado”, decidi começar a investir em um home studio e “Intimidade” foi o teste perfeito” diz Lucca.

“Nós fizemos a pré-produção em Fevereiro e continuamos a ensaiar as músicas. Bem quando íamos começar a gravar no estúdio, o mundo se fechou e tivemos que adiar”, diz Bruna (HAYZ).

“O plano inicial era lançar o novo EP no primeiro semestre de 2020. Quando veio a pandemia, em um primeiro momento decidimos apenas suspender todos os planos de gravação e lançamento, pois estava tudo muito incerto. Só sabíamos que era importante ficar em casa o máximo de tempo possível e cuidar das pessoas próximas e de nós mesmas. Conforme o tempo foi passando, entendemos que teríamos que nos adaptar à nova realidade e que o jeito de continuar as gravações seria fazer tudo em casa e à distância. Assim como o primeiro EP, esses sons novos também refletem experiências que tivemos e coisas que sentimos, então achamos importante dar continuidade agora. Além disso, acreditamos que compartilhar nosso som e nossas mensagens também é uma forma de abraçar quem a gente não pode abraçar agora”.

Formada no final de 2018, Tigre Robô está gravando seu primeiro EP.

“O Rafa normalmente mixa e produz uns sons em casa; Na verdade, antes da quarentena a gente sempre gravava na casa dele”, diz Junio.

“Quando a quarentena começou a gente viu que ia ficar mais parado e eu comprei a interface de som pra gravar uns baixos e vocais. Acabei decidindo finalizar as gravações que tínhamos deixado pela metade. Ninguém sabe quando vamos sair disso, a gente queria deixar esse registro e aproveitamos agora para dar continuidade”.

“Depois da quarentena, eu tive que gravar coisas pelo celular. A gente teve que mudar a forma como fazíamos as músicas porque antes eram os três sempre juntos, meio que se ajudando, e agora tá cada um na sua casa. O Junio teve que aprender a usar a placa de som, eu provavelmente vou ter que aprender a usar também. Agora mesmo a gente tá respondendo a entrevista falando pelo celular. Provavelmente faríamos isso juntos”, diz Isabela.

Trash No Star (Rio de Janeiro) gravou um cover de “Quando te Encontrei” (Raça Negra) pro Rock Triste contra o Coronavírus, uma coletânea para arrecadar fundos e ajudar famílias que estão enfrentando dificuldades causadas pela pandemia. O projeto foi encabeçado por Vitor Brauer em parceria com o Movimento de Lutas Nos Bairros. Toda Sexta sai uma música.

“Íamos esperar o isolamento social terminar, mas tem rolado tão bem com a gravação do cover de Raça Negra pro Rock Triste, que estamos pensando em começar a gravação do novo disco da Trash No Star no mesmo formato à distância” diz Lety.

“Estamos gravando eu e Felipe aqui em casa e enviando guias para o Pedro gravar as baterias na casa dele. Ele está captando a bateria através de um Iphone. Pra assim enviar para a Lizz mixar e masterizar, definindo os detalhes através do Whattsapp e encontros a distância por chamadas de vídeo“.

Já outras pessoas nem sentiram diferença nessa questão, como Paul, da Tio Sam e os Homens-bomba (São José do Rio Preto).

“Na real, o normal para a gente sempre foi o home studio, desde o começo da banda em 2012. Nos especializamos em auto produzir e isto é melhor no meu entendimento. Não tem hora pra começar, nem para acabar uma gravação. Fazemos com calma e do nosso jeito. É um caminho sem volta”.

Porém, como todo mundo, eles também tiveram que aprender a fazer as lives, que no caso da Tio Sam e os Homens-bomba contam com a banda toda.

No caso das adaptações que o pessoal teve de fazer, a resposta foi quase unânime: aprender a usar essa tecnologia.

“Acredito que a maior diferença tenha sido me forçar a estudar mais e entender como o software funciona, ficar menos dependente na produção, sabe? Não largo meus parceiros e produtores por nada, mas é bem interessante conseguir ir testando sozinho e criando novas sonoridades” , Lucca.

“Eu já possuía meu home studio, e já havia produzido alguns artistas, Nixon também já se arriscava em produções em casa, e Yuri foi se enveredando pelos beats” , Rafaum (Matura).

“Me adaptei no quesito de ter que administrar meu tempo, pensar em como trabalhar, editar e formular as músicas corretamente. E também em todo o trabalho de como divulgar e lançar o disco de um modo que atraísse o público de uma forma razoável para que algumas pessoas escutassem o disco”, Guilherme (Mastema).

Perguntei pra todos se eles gostaram do resultado e processo do home studio ou preferem voltar às gravações normais assim que possível e as respostas foram um tanto parecidas:

“A maior diferença nem é o fato de ser um home studio adaptado, mas sim de gravarmos sozinhas e à distância. Hoje em dia é possível ter um resultado incrível usando pouquíssimos recursos, e o lado positivo é que a gente aprende e se empodera ainda mais da tecnologia, mas por outro lado perdemos a troca que rola no estúdio quando estamos juntas.Gravar pra gente é um processo de criação coletiva, de apoio mútuo, essa energia que rola não tem vídeo-chamada que substitua. Apesar disso, acreditamos que é super importante continuar produzindo e compartilhando música neste momento, e esperamos que essa experiência dê certo e que possa inspirar outras mulheres a gravarem em casa”, Bruna (HAYZ).

“Era muito mais divertido e inspirador quando estávamos juntos. O processo era mais interessante, mas na situação atual a gente prefere fazer alguma coisa do que esperar”, Junio (Tigre Robô).

“Tem ajudado muito no nosso caso que temos que conciliar filhos e trabalho, mas sinto falta da troca que tínhamos no início das gravações da Trash No Star, por exemplo. A gente se encontrava com as amigas. E também garantia uma qualidade melhor na captação da bateria”, Lety (Trash No Star).

“Se tratando de uma era lo-fi, acredito que as músicas tenham ficado satisfatórias. O feedback está favorável. Claro que não substitui um lugar apropriado, com um profissional experiente. Mas dizem que a necessidade é a mãe da invenção e a música não pode parar”, Sisie Soares.

Use máscara e se puder, fique em casa.