Formada em Joinville, SC em 2021 (sob o nome Catnip), com influências da cena hardcore dos anos 2000, a banda surge como a urgência da juventude em transmitir suas inquietações.
É difícil nomear a sensação que nós, perto dos 40, sentimos ao ver uma banda de jovens com vontade visceral, mas podemos dizer que renova o fogo no nosso peito hc.
Em 2025 planoreal lançou seu primeiro álbum, “Nativos da Era da Mentira”, gravado, mixado e masterizado em casa pelos próprios integrantes. Hoje, após mudança de nome e contando com João Italik (vocal), Vitor Weber (guitarra), Lucas Duarte (batera), Caio Mafra (baixo) e Pedro Dias (guitarra), a banda lançou o EP “Mérito”.
Conversamos com João sobre a história da banda, o novo EP e mais, na entrevista que você lê a seguir:
Vocês podem falar sobre a banda pra quem não conhece?
A planoreal surgiu em dezembro de 2021, mas lançou o seu primeiro trabalho em janeiro de 2025 e essa é a banda que a galera conhece até hoje. Somos uma banda de hardcore, que tem muitas influências de outros estilos, alguns toques de emo, das suas variações, do post-hardcore, e tudo que envolve ali aquela cena brasileira e estadunidense de emo e hardcore dos anos 2000. Também misturamos outras coisas, pegadas de nu-metal, música experimental, jazz, pra ficar um som relativamente único e com uma identidade forte.
Como a planoreal começou? Hardcore é bem nicho na geração z, de onde surgiu a vontade de fazer esse som?
A vontade de fazer esse som surgiu de mim. Eu tive inicialmente essa vontade porque sempre estive muito inserido na cena emo, gostava de ouvir bandas tipo My Chemical Romance, Silverstein, The Used, Pierce the Veil, The Fall of Troy e outras mais nichadas na época.
Isso quando eu tinha uns 15, 16 anos, hoje tô com 20. Quando fui crescendo, comecei a gostar da vertente mais original do hardcore, que vinha com a parada política. Comecei a gostar de bandas de hardcore melódico, então veio Dead Fish, que foi um som que marcou muito, é a minha banda favorita até hoje, e a questão das letras foi muito impactante.
Ela tem suas semelhanças com as outras bandas que eu citei: guitarra bem trabalhada, as baterias, mas tem a questão do hardcore ser mais rápido que as bandas emo, e isso me agradou mais. Comecei a me apaixonar pelo estilo.
Daí, quando estávamos desenvolvendo a banda, a galera acabou curtindo a ideia de fazer esse som mais “hardcoreano”. Mas sempre todos com as suas outras influências, e eu acho que estamos sempre dispostos a evoluir o estilo e querer ir pra caminhos únicos.
Eu gosto que todo mundo dê uma dispersada e faça coisas completamente diferentes, e eu ajudo a galera a fazer isso soar meio hardcore, meio emo, pra ficar dentro da estética, sabe? Acho que é um pouco disso.
Quais são algumas das suas influências?
Vou falar um pouco pelos meus companheiros de banda, mas acredito que eu esteja falando corretamente. Uma banda, por exemplo, que não era muito a minha influência, mas acabou se tornando porque é uma influência geral dentro da banda é o Charlie Brown Jr., que tem um pouco dessa onda de misturar gêneros diferentes. Nós partilhamos com eles dessa coisa. E um pouco da essência, do jeito de pensar o som, também. Acaba que o produto que sai é diferente, mas temos uma alma meio Charlie Brown Jr.
Fora as que eu já citei, tem outras bandas brasileiras de antigamente: Sugar Kane, Zander, Noção de Nada, Fresno.
Também tem uma coisa que a galera fala muito: que temos uma veia meio aberturas de anime. Isso porque nós também nos inspiramos muito nas bandas de hardcore melódico do Japão. Então tem bandas como Shank, Tracks, Hi-STANDARD, ENTH, The Cabs, sem contar músicas propriamente de abertura de anime, tem Asian Kung Fu Generation e tudo mais. Isso tá presente na nossa essência.
E tem umas de midwest emo e metalcore, tipo Hot Mulligan e Bring Me the Horizon.

A Juvi Chagas comparou o show de vocês com os primeiros shows de Alexisonfire e Underoath, o que vocês acharam dessa comparação?
Total, a gente é essa onda mesmo. São bandas que eu não citei aqui, mas elas são, sim, influências nossas. São muitas bandas, né? Estamos sempre ouvindo coisas diferentes. Vai nesse balaio aí também La Dispute, que também tem essa onda.
São ótimas bandas e a gente tem esse “que”, assim visceral, essa coisa intensa, muito pessoal, ser o que é e mostrar você mesmo ao máximo. Acho que estamos conseguindo construir algo novo a partir disso e estamos fazendo uma coisa interessante.
O primeiro lançamento da banda foi o álbum “Nativos da Era da Mentira” (2025). Nos dias de hoje geralmente as bandas optam inicialmente por lançar um single ou EP, como vocês chegaram à escolha de se apresentar já com um disco de 14 faixas?
Olha, foi algo juvenil. Digo assim, uma inocência, mas uma inocência muito positiva, sabe? Nós tínhamos uns 17 anos, o Lucas era um pouco mais velho, mas sem experiência também. Eu tava terminando a escola e já tava com a banda, levando a sério. Só que não tínhamos grana pra gravar algo bom, nem sabíamos como fazer isso.
Mas o desejo de ir atrás e fazer a coisa acontecer tava lá desde o início, então nós arrumamos um equipamento muito básico, uma coisa bem precária, caseira, e começamos a gravar um disco em cima disso. Mesa de som analógica e tudo mais, com uma série de complicações na hora de mixar a bateria, e tudo mixado pela gente. Eu produzi o disco, mixei e masterizei.
E queríamos fazer um disco, né? É um sonho de criança assim, “Não, pô, quero fazer um disco!”, tá ligado? Quando sentamos pra gravar, era isso que a gente queria fazer.
Acho que não tem muito mais que isso, não tem nada pensado materialmente, mercadologicamente, porque comecei a prestar atenção nessas questões depois de lançar o “Nativos”, não enquanto estava fazendo ele.

Em Abril vocês lançaram o EP “Mérito”. Como foi o processo de composição e gravação?
O processo de fazer o EP “Mérito” foi um pouco conturbado, mas bem mais certo que o “Nativos”. Já tínhamos uma ideia do que queríamos fazer, já entendíamos melhor como fazer música, e ele surgiu muito de uma necessidade, porque o Caio e o Pedro não gravaram o “Nativos”, eles entraram quando o disco estava prestes a ser lançado.
Imagina: lançar um disco com uma banda que não é a mesma que gravou ele, sabe? É uma nova banda, uma nova formação. Já lançamos ele querendo fazer uma coisa nova. Então, desde o dia que o “Nativos” saiu, já estávamos fazendo as músicas do EP.
Daí usamos tudo o que aprendemos, mais a qualidade aí do play dos meninos novos pra fazer uma obra mais certa, mais enxugada, com menos rebarbas, sabe? E temos bastante orgulho do que fizemos, ficou bem legal, ficou um trabalho bem maneiro.
E como é a cena em Joinville hoje?
A cena de Joinville hoje é meio difícil de explicar, mas acho que é muito semelhante às cenas de outras cidades menores do Brasil: tem bastante banda cover, tem uma dificuldade muito grande de lugar pra tocar. As casas de shows aqui, vira e mexe, abrem e fecham. Só desses, sei lá, uns cinco anos que trabalho com isso, já vi fechar mais de cinco casas de shows diferentes.
Mas nossa movimentação aqui tá fomentando uma galera muito legal, uma galera jovem tá começando a se interessar por esse tipo de coisa, de banda tocando, e eu acho que a gente tem um peso nisso. Conseguimos ver como a nossa influência fez novas bandas surgirem, e bandas que estão chegando bem longe. Isso é bem legal.
E acho que isso acaba dando uma imagem melhor da cidade. Parece que a cidade é menos racista, tá ligado? Estamos aqui fazendo alguma coisa e acho que faz uma diferença, porque essa é uma cidade bem complicada nesse sentido. Tem bastante preconceito, a galera é muito anti-imigração, apesar dos imigrantes que chegam aqui em Joinville serem uma grande força produtiva pra cidade.
A gente vê e passa por muita coisa enquanto vive aqui, é uma cidade operária, é uma cidade que não se dá o tempo pra curtir um show, saca? Porque é trabalho, descanso, trabalho, descanso. Não tem cultura fora do ortodoxo, não tem espaço. Então a galera jovem alternativa tá vivendo nas beiradas disso.
Últimas considerações? Algum recado?
Em novembro vamos fazer nosso primeiro show grande em arena, vamos abrir o show da Fresno em Florianópolis, SC. Se você for de Floripa, vá nesse show porque vai ser bem explosivo. E logo mais começamos a divulgar músicas novas.
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Ex colaboradore das antigas Six Seconds e Calliope Magazine, entre alguns blogs de música. Resolveu fazer o próprio site enquanto não tem dinheiro o suficiente pra fazer uma versão BR do Audiotree Live.
