Bus Ride Notes
Entrevistas

Entrevista: HISS

Formada em 2024 por musicistas da cena underground uberlandense e hoje com Herison Borges (vocal e guitarra), Leonardo Mendes (baixo), João Felipe Prestes (guitarra) e Michel Fagner (bateria), HISS (Hushed, Incessant, Sharp and Shrill) lançou em março seu segundo EP, “This Exhaustion is Not Ours!”.

Com influências do screamo e post-hardcore, o EP explora conceitos ligados à exaustão, falha, colapso e transformação, não como condições individuais, mas coletivas.

Conversamos com a banda sobre sua história, o novo lançamento e mais, na entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar sobre a banda pra quem não conhece?

Herison: Olá! Antes de tudo, obrigado pelo espaço. A HISS é uma banda de post-hardcore de Uberlândia, mas também uma banda de screamo de Uberlândia. Gostamos de fazer esse jogo de conceitos porque acreditamos que os gêneros importam, mas não como fronteiras rígidas. Eles carregam histórias, ideias e formas de fazer música. A nossa intenção é contribuir para essa história, sem tratá-la como algo estático ou fechado.

Como a HISS começou? Ela é formada por músicos que já eram ativos na cena de Uberlândia, né?

Herison: A HISS começou em dezembro de 2023, numa conversa entre mim e o Leonardo. Para mim, aquela conversa já conta como a data de fundação da banda. Nosso primeiro ensaio aconteceu cerca de três meses depois, e tudo nasceu da vontade que o Leonardo tinha de voltar a tocar esse tipo de som.

Acho que também existia uma vontade de fazer isso de uma forma mais madura. Não no sentido técnico, mas entendendo que montar uma banda também é uma forma de criar uma obrigação de continuar se vendo. A vida, o trabalho e todas as outras responsabilidades acabam afastando até pessoas que são muito importantes umas para as outras.

Todos os integrantes da HISS já eram ativos na cena de Uberlândia. Eu e o João Felipe (guitarra) tocamos juntos desde 2011. O Michel (bateria) toca em bandas desde 2003; inclusive, tivemos uma banda juntos em 2010, e ele permaneceu nela por mais de quinze anos. O Leonardo também já vinha de outras bandas da cena, assim como o João.

Se você juntar todas as bandas pelas quais nós quatro já passamos, dá para montar um verdadeiro Hellfest do Cerrado.

Falando nisso, como é a cena da cidade hoje?

Leonardo: Uberlândia tem uma peculiaridade muito louca: há um ano, a cena era totalmente diferente da deste ano, e provavelmente, no ano que vem, vai ser diferente de novo.

2026, em questão de shows e movimentação, está um pouco parado. O que é até engraçado, porque têm surgido muitas bandas novas com material bom e que, infelizmente, não têm muitos lugares para tocar, porque os espaços estão tomados por bandas cover tocando “Toxicity” todo sábado (risos).

Mas o underground, quando feito com carinho e tentando ser o mais profissional possível, ainda rende muita coisa. Acho que este ano fizemos somente um show aqui na nossa cidade e, de longe, foi o show com mais público da HISS. Isso foi satisfatório demais.

Apesar de ter só um ano entre os dois lançamentos, eles soam um tanto diferentes, particularmente, acho que “…And Everything Is Falling Again” tem uma pegada screamo e “This Exhaustion Is Not Ours!” puxa pro post-rock (me lembra um pouco Envy). Essa mudança foi proposital?

Herison: Bem doido isso, e que massa que você tenha percebido dessa forma. De fato, as músicas do primeiro EP têm uma certa crueza. Elas carregam uma urgência diferente, talvez menos construída e mais voltada para o impacto imediato, para o ataque, na falta de uma palavra melhor.

Quando aquelas músicas foram compostas, a banda tinha outra formação. Éramos um trio e contávamos com outro guitarrista, que gravou o EP, mas nunca chegou a se apresentar ao vivo com a gente. Depois disso, o João Felipe entrou para a banda e nos tornamos um quarteto.

O João trouxe uma característica que sempre fez parte dele: a obsessão por timbres. Ele está sempre buscando o melhor som possível, e isso acabou contaminando todos nós de uma forma muito positiva. Hoje, nós também nos pegamos completamente obcecados por isso.

Durante a turnê do primeiro EP, já começamos a pensar em composições com uma direção mais definida, em músicas que respirassem mais e explorassem melhor as dinâmicas. Então, sim, essa mudança foi totalmente proposital.

E foi muito legal você citar o Envy. É uma banda clássica e, sem dúvida, uma referência importante para a gente.

“This Exhaustion Is Not Ours!” é um EP conceitual, né? Vocês podem falar sobre isso?

Herison: Sim, o EP parte da ideia de exaustão como uma condição contemporânea. Uma exaustão entendida não como um problema individual, mas como consequência de uma estrutura cada vez mais incapaz de sustentar a vida.

A partir daí, as músicas exploram aquilo que deveria ser caro a todos nós, o corpo, a linguagem, a identidade e a memória, quando entram em colapso. Mas esse colapso não é entendido apenas como destruição, ele é uma fenda por onde se pode correr.

Colapsar é, talvez, a consequência inevitável de tudo, mas não a forma de morrer. É uma forma de nascer novamente, reconfigurado. Entendendo como essa estrutura funciona, entendendo que ela não é você. E, justamente por não ser você, e por não ser sua, como uma pessoa comum, ela pode ser usada, se necessário, como uma arma.

Em vez de buscar retorno, equilíbrio ou restauração, as músicas tentam imaginar outras formas de existir, de produzir desejo e de construir novas possibilidades de vida.

Fotos ao vivo: @nat.raw_

Ele foi mixado e masterizado pelo Jack Shirley (Deafheaven, Frail Body, State Faults). Como rolou esse contato?

Leonardo: Quando nós terminamos a composição das músicas, a primeira coisa foi pensar em como nós queríamos que elas soassem mixadas. Aí entra muita decisão: mais crua, mais limpa, mais intensa.

E levamos em consideração bastante bandas que ouvimos nesse ciclo, como State Faults, Frail Body e algumas coisas de Deafheaven. Todas elas tinham uma coisa em comum: era o Jack Shirley.

Então entramos em contato para entender como era o processo de trabalho dele e os valores praticados. Para a nossa surpresa, era um preço justo. Não é um valor trivial, mas com certeza, depois do resultado, valeu muito a pena.

Últimas considerações? Algum recado?

Herison: Obrigado pelo convite e pelo espaço. Cuidem da cena onde vocês vivem, apoiem as bandas locais e continuem criando.

Siga HISS nas redes sociais.