Bus Ride Notes
Entrevista

Penúria Zero – Não Me Representa

Penúria Zero é uma banda de punk-hardcore do DF, hoje composta por Tuttis (vocal), Sopão (guitarra), Biscoito (bateria) e Ismael (baixo).

A banda tem um disco lançado, “Manipulado” (2017), e em Outubro de 2020 eles lançaram seu novo EP “Não Me Representa”.

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o EP “Não Me Representa”, a cena do DF e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá, primeiramente, muito obrigada pelo convite.
Penúria Zero é uma banda de punk hardcore que tem o intuito de falar do nosso cotidiano e de situações do nosso país. As vezes com músicas engraçadas, as vezes com ar de deboche e outras vezes só pagação de sapo mesmo.

Foi formada em 2005 na cidade de Luziânia, GO, porém só começamos a desenrolar o som mesmo em 2011 e desde então não paramos mais.
Hoje a banda é: eu (Tuttis, vocal), Sopão (guitarra), Biscoito (bateria) e Ismael (baixo).

Uma das primeiras coisas que percebemos ouvindo Penúria Zero são algumas letras engraçadas. Deboche é quase pré-requisito no punk-hc, mas muita gente diz que precisa ser sério. Vocês podem falar sobre isso?

Nós brasileiros somos um povo que consegue fazer graça com a nossa própria desgraça, a prova disso são os milhares de memes na internet.

Concordo que o punk deveria e é para ser sério, porém muito mais do que música, o punk é a atitude. Eu creio que a banda tem essa atitude de poder falar com um pouco mais de leveza sobre a nossa situação atual.

Vocês podem falar um pouco sobre cada música do “Não Me Representa”?

Tratamos muito as falas do imundo do presidente na música “Não Me Representa” e como ele ganhou uma eleição na música “Fake News”.

Já “Cidade do Caos” fala um pouco sobre a cidade de Ceilândia e de sonhos de nordestinos que saem da sua cidade e estado natal para tentar uma vida melhor. Foi uma música feita pelo o guitarrista Sopão, que também é nordestino.

E como foi o processo de gravação? Vocês tiveram que fazer alguma adaptação devido à pandemia ou ele foi feito antes?

Gravamos antes da pandemia, porém lançamos na pandemia mesmo porque sabíamos que ia demorar pra poder lançar em shows…

E o clipe da música “Não Me Representa”? Ele foi gravado e lançado no segundo semestre de 2020, né?

Sim. Como sempre, fazemos as coisas por conta própria. Gravamos um pouco na lan house onde o biscoito trabalhava e as minhas partes gravei em casa mesmo. E o Sopão, que sempre fez essa parte de áudio e vídeo, editou em casa também.

Pensando no mundo antes do Covid, como é a cena no DF?

Ahhh saudades, inclusive, de ir aos shows.
Creio que a cena daqui não é muito diferente de outros lugares: produtores fazendo tudo na raça, sem apoio, bandas fazendo seu próprio corre para lançar material, tocar e etc… Saudades dos bons tempos!

Inclusive, Tuttis é organizadora do “Sinta a Liga”, né? Vocês podem falar sobre o festival?

Sim, esse festival é meu amor! rsrs
Ele foi criado com intuito de divulgar e enaltecer as bandas com mulheres na cena, só pode tocar banda que tem ao menos uma mina na formação.

Infelizmente o espaço para nós mulheres é pequeno, então pra mim é importante ter um show dedicado só a nós.

Nisso já conseguimos trazer várias bandas de fora pro festival, como Escrota (SP), Manger Cadavre (SP), Trash no Star (RJ), Benária (RJ), Klitores Kaos (PA), Bertha Lutz (MG), fora as bandas do DF.
Enfim, mais uma saudade: produzir esse festival que amo tanto!

Últimas considerações? Algum recado?

Se cuidem, usem máscara, não subestimem o vírus! E uma hora esse pesadelo todo passa.

“Não Me Representa” está disponível nas redes de stream, e não deixe de acessar o canal do Youtube da banda pra assistir os clipes.


Entrevista

All The Postcards, uma banda do Terceiro Mundo

A banda entrevistada da vez já é uma das veteranas do hardcore nacional. Com 15 anos de carreira e sete álbuns lançados, All The Postcards não mede palavras na hora de marcar posição nas letras de suas músicas.

De Angra dos Reis, o grupo é formado por Vitor (vocal, guitarra), Marcelo (baixo), Berg (bateria) e João (guitarra). O som bem característico do hardcore melódico embala letras bem diretas sobre temas sociais e a luta política da esquerda. Para não deixar nenhuma dúvida, o álbum “Fearless” estampa na capa a famosa imagem do guerrilheiro comunista Carlos Marighella denunciando a violência do golpe militar de 1964.

Destaco aqui minha música preferida da banda, “Thanksgiving”. A canção trata do ponto de vista de nós, moradores de um país de terceiro mundo, para com os países de onde importamos tanta coisa e, mesmo sem querer, tentamos imitar.

“There’s no such thing as thanksgiving. There’s no trick or treats in halloween. In a third world country we learn it all, in a third world country you don’t know about. In a third world country when we sing, it’s in english”.

Em 2020 All The Postcards lançou “Não é o Momento Para Ser Intelectual”, o primeiro EP da banda cantado em português, mostrando uma nova cara para o som deles. E, recentemente, nos trouxe, não um, mas dois singles: a versão acústica de “Thanksgiving” e a nova, “Trinta e Nova Milhões”, com direito a um clipe colaborativo dos fãs com seus bichinhos de estimação.

Pra falar sobre tudo isso, o Bus Ride Notes recebe aqui All The Postcards.

Como a banda começou?

A banda começou em meados de 2006. A ideia partiu do baixista Marcelo, que convidou o Vitor (vocal e guitarra) para montar uma banda. Marcelo já conhecia e tinha uma outra banda com o Berg (baterista).

No terceiro álbum, “Fearless”,  uma foto do Marighella estampa a capa e em “Third World Country” vocês falam sobre a visão daqui, um país de terceiro mundo, para com a influência cultural que recebemos do primeiro mundo. Como é para a banda trazer esse lado mais político para as letras? E como vocês, enquanto artistas e indivíduos, encaram essa percepção de sermos habitantes do terceiro mundo?

Felizmente, hoje a banda tem quatro cabeças bem politizadas e com o senso bem igual.

O rock, de uma forma geral, sempre foi uma forma de protesto, principalmente o hardcore. E não iríamos contra isso, jamais.

Somos quatro caras com vidas normais e que representam muito o terceiro mundo. Quatro assalariados lutando por direitos.

O que inspira vocês, tanto musicalmente quanto demais influências para a banda?

Musicalmente há um número perto do infinito de tantas referências. Cada um de nós tem um lado que puxa mais. E, sem dúvida alguma, a política é o tema mais conversado e o que mais nos instiga a escrever.

Em “Não é o Momento Para Ser Intelectual” todas as letras são em português. Por que essa mudança?

Há anos a banda tinha essa ideia de explorar músicas em português. Dessa vez colocamos a vontade pra fora e fizemos o álbum.

A mensagem que queremos passar, agora, fica mais direta de entender e bem na cara. Felizmente quem ouviu, gostou. Ufa!

Como vocês veem essa questão de bandas brasileiras cantando em inglês?

Acho impossível ter alguém que goste de rock e não se identifique com músicas em inglês. Não tem como evitar isso! Toda a base que as bandas tem vem de fora. É normal você seguir nesse seguimento. E, lógico, que não há problema algum nisso.

A gente percebe que nas capas de todos os álbuns da banda sempre rola um trabalho gráfico muito interessante. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas de capas? 

Felizmente temos grandes parceiros e amigos que nos acolhem na hora de rolar uma capa, uma imagem, uma logo.

As capas sempre surgem de ideias em comum na banda e passamos para o artista fazer. A última foi o Marcelo mesmo que fez. 

O single “Trinta e Nove Milhões” fala sobre abandono animal. Vocês tem envolvimento com a causa? Como veio a ideia pra música?

Temos um bom envolvimento na causa. Marcelo tem uns cinco gatos resgatados, Molina tem mais uns quatro, Vitor tem dois cachorros. Todos que viviam em situação de rua.

A ideia veio desse convívio mesmo e da necessidade. Durante a pandemia, o número de abandonos subiu exponencialmente. As pessoas ainda acham que ter um animalzinho é só para te fazer rir. Animal é custo, é carinho, é atenção. Demanda tudo que um filho precisa. 

Quais as novidades que vocês podem adiantar para 2021?

Em 2021 a banda completa 15 anos! As ideias são muitas. Infelizmente o Brasil está afundado em uma pandemia, impossibilitando de fazermos shows.

A ideia básica ainda é lançar um álbum este ano, com dez músicas, em português. E em setembro tem o “We Are One”, onde tocaríamos com Millencolin, Satanic Surfers, entre outros. Diante da pandemia, ainda não temos noção do que vai acontecer.

Agora, a pergunta de sempre nesses tempos de fim do mundo: como está sendo para vocês se manterem ativos como banda durante a pandemia?

Muito difícil. Participamos de algumas lives e aproveitamos esse conteúdo pra movimentar as redes, mesmo assim fica difícil criar e ter essa criatividade sem poder tocar e tudo mais.

Logo no início da pandemia lançamos o “Não É O Momento Para Ser Intelectual”, perto do final do ano lançamos uma versão acústica de “Thanksgiving”, e no início do ano o single “Trinta e Nove Milhões”. Tudo com muito custo e correria, não está sendo fácil. Fiquem em casa e usem máscara!

Você pode ouvir o som da All The Postcards no Spotify, Bandcamp e Youtube.


Entrevista

Reles Córtex – Operações Psicológicas

Reles Córtex é uma banda de punk acústico, anti-folk, criada em São José do Rio Preto em 2015 por Matheus Moura.

Em fevereiro de 2021 ele lançou seu segundo disco, “Operações Psicológicas”.

É meio difícil falar sobre folk punk, pois é um gênero bem direto, tanto no som quanto nas letras.

É claro que poderíamos falar sobre elas, mas fomos direto à fonte e convidamos Matheus pra conversar sobre o novo disco e mais. Confira:

Você pode se apresentar pra quem não conhece?

Meu nome é Matheus Moura (conhecido também por Mourarc), 29 anos, natural de São José do Rio Preto, SP, doutorando em ciências sociais. A Reles Córtex é um projeto de punk rock acústico iniciado por mim em 2015.

Como surgiu Reles Córtex?

Reles Córtex surgiu da contínua e incansável propriedade criativa de composição musical.
Desde pelo menos 2006 eu já esboçava diversas canções, bem toscas na época, gravava num toca-mp3 e ficava insistindo para os amigos escutarem

Nos anos seguintes participei de algumas bandas de punk e hardcore, mas que não duraram muito, por diversos motivos. Entre 2009 e 2015 foram anos meio estagnados na música pra mim.

No interior de SP é bastante difícil encontrar uma galera séria pra fazer um punk rock mais cabeça. Nesses anos todos as tentativas foram frustradas, mas as composições continuavam a vir, então resolvi colocar o projeto pra funcionar sozinho, mas sem a guitarra distorcida.

Abandonei todas as composições antigas e me concentrei em letras mais sérias, mais poéticas e filosóficas. Ainda que talvez não tenha conseguido cumprir esse objetivo muito bem (risos).

O nome “Reles Córtex” veio antes de eu ter qualquer coisa pronta. Era uma tentativa de dizer “pra que um cérebro se na maior parte do tempo a gente não o usa satisfatoriamente pra refletir?”.

Em 2015 eu tinha o nome, em 2016 eu tinha duas demos, que trabalhei sem noção de gravação nenhuma em um estúdio da cidade. Foi aí que resolvi gravar as músicas eu mesmo. Comprei uma aparelhagem mínima, um condensador, e comecei as gravações fuçando num programa de mixagem gratuito.

Em 2018 saiu o “Causas Vazias” no pior do “faça você mesmo”.

Quais são algumas das suas influências?

Minhas bandas de coração são Anti-Flag e Bad Religion. Não é coincidência esse projeto ser um punk acústico, os vocalistas dessas duas bandas, Justin Sane e Greg Graffin, possuem projetos acústicos paralelos. Minha grande inspiração vem daí.

Recentemente descobri também um cara chamado Pat The Bunny, que faz um anti-folk muito semelhante ao meu. Talvez seja essa minha mais nova fonte motivadora.

“Operações Psicológicas” é mais direto, digamos assim, que “Causas Vazias”. Ele tem menos instrumentos, é menos melódico… Como foi o processo de composição?

Esse segundo álbum traz mais agressividade tanto nas letras quanto na pegada. Eu comecei a compô-lo durante as eleições de 2018 (logo após o lançamento do “Causas Vazias”), e bom, não é preciso dizer muito mais…

Foi uma forma de colocar pra fora o que toda pessoa sensata e sensível estava sentindo naquele momento (esse sentimento talvez tenha se intensificado até o dia de hoje).

Das 11 faixas inéditas, somente duas foram feitas posteriormente às eleições, “Sua Imagem” e “Rio Preto”, essa última é uma versão de uma música que compus com a Refluxo Mental, na qual eu era vocalista até o começo desse ano.

Comparado ao álbum anterior esse está mais próximo do punk, com seu teor político e músicas mais rápidas e diretas, do que o primeiro.

Ele foi todo gravado em home studio. Como foi esse processo? Você costuma gravar em casa ou isso foi devido a pandemia?

Como mencionei anteriormente, desde o começo eu fiz músicas em home studio (à parte daquela experiência não muito feliz com duas demos).

Me sinto mais livre fazendo eu mesmo as gravações. O resultado não tem a mesma qualidade do estúdio, mas eu ainda prefiro, me sinto mais à vontade.

Também porque eu não tenho muita grana, e a música pra mim é um hobby, então gravar em estúdio não é muito atrativo.

E a parte de produção, mix e master? Foi tudo feito por você?

Durante a experiência com a Refluxo Mental eu aprendi bastante com o Lucas Dias, ex-guitarrista, que mixou e masterizou o álbum “Socialização das Perdas”.

Acho que é nítida a diferença entre “Causas Vazias” e “Operações Psicológicas”. Tudo que aprendi com esse brother eu consegui usar pra aprimorar as minhas gravações caseiras.

“Trágica Comédia” foi inspirada pelas eleições de 2018, você pode falar mais sobre essa música?

Era pra esse música chamar “Caquistocracia”, mas aí eu iria estar admitindo que acompanho o Foro de Teresina (risos). Não há problema em admitir isso, pelo contrário, mas não iria soar muito criativo, o termo já virou quase patente deles.

A letra representa essa comédia da vida real que estamos vivendo, em que o bobo da corte assumiu o trono, e dança e sapateia pra somente seu público aplaudir. Está tudo escancarado, não há necessidade nem mais de representar papéis. Quem enxerga, sofre, quem não enxerga ou se beneficia de alguma forma, aplaude. E assim seguimos…

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de agradecer ao Bus Ride Notes pela oportunidade de responder a essa entrevista. E aproveitar também para agradecer a todos aqueles que me apoiam nesse projeto.

Novas composições estão por vir. E não vejo a hora de poder estar por aí fazendo apresentações desses trabalhos. Sigam-me nas redes! Abraços!

“Operações Psicológicas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Anti-Corpos – We Keep On Living

Creio que todo mundo que acompanha o Bus Ride Notes conhece Anti-Corpos, banda de São Paulo formada em 2002, hoje em Berlin e composta por Adriessa Oliveira (guitarra), Helena Krausz (bateria), Marina Pandelo (baixo) e Rebeca Domiciano (vocal).

Anti-Corpos foi uma das primeiras bandas de queercore (se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre) do Brasil, numa época onde praticamente ninguém, nem mesmo a banda, usava o termo.

Em Outubro de 2020 elas lançaram seu novo EP, “We Keep On Living”, cujas músicas foram feitas e gravadas em momentos diferentes, inclusive com diferentes membros na banda.

Conversamos com Anti-Corpos sobre “We Keep On Living”, a história da banda e mais. Confira:

Primeiramente, como estão nessa pandemia? Todo mundo bem? Como andam as coisas aí na Alemanha?

Adriessa: Olá! Bom, a pandemia na Alemanha estava bem controlada até o final das férias de verão, quando os casos começaram a crescer assustadoramente e agora está novamente num lockdown mais severo.
Junta isso com temperaturas negativas e dias que escurecem as 16h, bicho, é tenso! Mas estamos bem e tentando passar por cima de tudo isso.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Adriessa: Anti-Corpos é uma banda queer feminista que faz som rápido e pesado que flerta com o hardcore, punk e metal, aquele famoso crossover.

Helena: A banda existe desde 2002 e ao longo de todo esse tempo tocamos em diferentes cidades brasileiras e vários países da Europa e América do Sul.

Desde 2015 a banda teve várias mudanças, alguns integrantes se mudaram pra Alemanha e formaram uma nova banda. Vocês podem falar sobre isso? E a escolha de continuar com Anti-Corpos?

Adriessa: A banda em toda a sua história teve muitas mudanças, essa é a real.
Em 2015 quando me mudei pra Alemanha e teoricamente a banda tinha acabado porque Rebeca tinha voltado para o Brasil, sabia que a primeira coisa que eu precisava era de uma banda nova, aí conheci Andrzej e Andrea e montamos o Eat My Fear, que na sua formação original tinha o Dirk no baixo. Após três anos ele deixou a banda e a Helena (baterista da Anti-Corpos) assumiu o baixo do Eat My Fear.

Mas logo em 2016, quando Rebeca também se mudou pra Berlin e estávamos reunides novamente, resolvemos dar continuidade e escalamos a Marina pro baixo, que já vinha nos acompanhando por alguns shows que fizemos na Europa.

Acho que o Anti-Corpos sempre vai existir enquanto estivermos na pilha de tocar e sempre nos adaptamos para que isso continue acontecendo.

As músicas do “We Keep On Living” foram feitas durante todas essas mudanças, né? Vocês podem falar um pouco sobre cada faixa?

Adriessa: Esse EP é uma junção de quatro sons gravados em momentos diferentes. Alguns comigo e outros com Re no vocal.
Pouco antes de Rebeca deixar a banda, em 2017 (Rebeca já está de volta hehe), tínhamos recebido um convite para gravar um som para um tributo ao Bulimia e junto com esse som do Bulimia gravamos “Herança” e “Brincando de Igualdade”.

Em 2019, quando eu assumi os vocais, gravamos “Borders of Fear” e “Keep On”. Eu escrevi “Borders of Fear” em uma das viagens que fiz para ensaiar com uma banda que toco na Suécia, que tem uma das fronteiras mais brutais que já passei pela Europa. Sempre que eu atravessava me dava pânico, porque sabia que ia ser controlada de forma agressiva por causa do meu passaporte brasileiro. Pessoas com passaportes de origem africanas ou árabes então… era muito sinistro.

“Keep On” é sobre continuar dia após dia a viver nesse mundo caótico que te cobra demais e que é difícil não pensar em desistir. A letra é da Marina e foi nosso primeiro som em inglês, se não me engano.

Helena: “Brincando de Igualdade” é uma música feita em 2005 que resolvemos regravar. Ela fala basicamente sobre pessoas que são bem desconstruídas na teoria, mas que suas atitudes não condizem com o que falam.
Sempre existiram vários exemplos na cena punk/hardcore de caras com um discurso lindo em cima do palco, mas na realidade eram bem diferentes.

E como tá a banda hoje?

Adriessa: Voltou a ser Adriessa na guitarra, Rebeca no vocal, Marina no baixo e Helena na bateria.
Estávamos voltando a compor para um novo disco, querendo tocar muito e aí veio a pandemia.
Enfim, estamos como a maioria das bandas, na espera louca da vacina.

Não dá pra falar de Anti-Corpos sem falar de queercore. Conheci a banda em 2015 e tenho um adesivo da época onde se lê “lesbian feminist hardcore from brazil” e desde aquela época vocês já usavam o termo “queer” em alguns lugares. Vocês podem falar da relação da banda com o queercore?

Adriessa: Acho que no Brasil o termo queercore nunca foi propriamente usado até tipo Teu Pai Já Sabe?. O queercore é parte da nossa identidade e influências.

Bandas como Limp Wrist, Team Dresch, G.L.O.S.S., TPJS? são super importantes na nossa caminhada. Em 2019 tocamos com o Limp Wrist em Berlin e foi tipo WOW, realização de sonho!

Usar o termo “hardcore lésbico” ou “queercore” sempre foi muito importante para nós como luta mesmo, nesse espaço ainda super machista e homofóbico que é o hardcore punk.

Quem ouve punk e hardcore tem a impressão que é uma comunidade unida e linda, mas sempre que nos aproximamos da cena vemos que a realidade não é nada disso. Mas uma coisa visível na Anti-Corpos, até pra quem acompanha só pela internet, é um senso grande de comunidade. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Adriessa: Acho que a letra da música “Anti-Corpos” fala muito bem o que a banda representa para nós. É a nossa forma prática de luta.

Eu costumava tocar em uma banda que evitava ao máximo essa relação pessoal do público/banda. Acho que as bandas mais ”mainstream do underground” do hardcore punk dos anos 90 ainda tentavam ter essa divisão banda/público.

Eu vejo Anti-Corpos como uma grande comunidade queer, feminista, das mina, das mona, dos roqueiros e roqueiras que se encontram, curtem, pensam, trocam. O palco não nos separa e gostamos da interação em shows, trocando instrumento, chamando galera pra cantar, etc.
No final somos todes ”outcasts” que procuram nesses ambientes de shows queer feminista se divertir e sentir segure na medida do possível.

Eu acho que o que consegui com Anti-Corpos nunca consegui com nenhuma banda e muito vem desse apoio mútuo da nossa comunidade.

Helena: Total, esse apoio é essencial para nos fortalecermos ainda mais enquanto cena queer feminista.
O que não significa que quando vemos algo que achamos errado ficamos quietas. Pelo contrário, sempre que algo ou alguém é denunciado dentro da cena procuramos falar sobre isso, mesmo que não agrade a todes.

Vocês são o tema do documentário “Anti-Corpos, Pedaços de uma Turnê Cúir”, que foi exibido em Novembro no festival Mix Brasil. Vocês podem falar sobre ele?

Adriessa: Meu, isso foi muito surpresa! A nossa amigona Brunella Martina, que gravou todos os nossos clipes, já tocou na banda e gravou a segunda guitarra do disco “Meninas pra Frente”, assim que soube da nossa tour na América do Sul em 2019 falou sobre fazer um registro e usar de alguma forma o material.

Um ano depois, ela nos escreveu com o primeiro corte do mini doc, já nem lembrávamos mais dele. Fomos surpreendidas por um material super massa e ficamos ainda mais surpresas por terem aprovado o doc no Mix Brasil.

Foi interessante ver nossas entrevistas logo após a posse do Bolsonaro, falando de uma forma super pessimista, mas mesmo assim o tom da nossa fala não se compara com a realidade que está sendo vivida hoje. É tipo nossos medos que foram multiplicados por mil.
Triste demais, espero que tenha um ponto de virada em todo esse pior pesadelo.

Últimas considerações? Algum recado?

Adriessa: Obrigada demais pelo convite e sigam seus sonhos, chequem como seus amigues estão passado e fiquem bem! Vamos resistir e fazer a mudança! Quando tudo isso passar nos vemos na estrada.

Helena: Valeu pelo espaço! Força sempre!

“We Keep On Living” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Gali Galó – “O queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também”

Queer é uma palavra que tem sido muito usada ultimamente, é uma gíria ofensiva em inglês que foi ressignificada já há algum tempo. É também o Q da sigla LGBTQIA+. Dia desses me perguntaram o que significa e, depois de parar pra pensar, respondi “é tudo o que não é heterossexual ou cisgênero” (essa você vai ter que procurar no Google).

Quando li o termo queernejo eu pensei “como assim?!”. Depois de lembrar onde morei minha vida toda, pensei “por que ninguém fez isso antes?”. Minha reação foi a única possível.

Eu só posso falar pelo interior de SP, aqui em todo lugar público que você passa, o povo ouve exclusivamente sertanejo. Tenho 33 anos e o único momento que consigo lembrar onde isso foi um pouco diferente foi nos anos 90, quando pagode e axé faziam muito sucesso.

Nas cidades menores a festa de peão* é o evento do ano. No ensino médio, a escola onde estudei fazia um horário especial pro turno da manhã poder chegar mais tarde, já que os alunos todos iam pra festa e faltavam no dia seguinte.

É claro que tem gente que detesta tudo isso, mas o impacto cultural é inegável. E eu falo isso pra quem não conhece o interior entender a dimensão disso tudo.

A música sertaneja sempre foi um lugar muito masculino e consequentemente machista, as mulheres têm mudado o cenário há pouco tempo e depois que Gabeu lançou seu primeiro single, “Amor Rural”, em 2019, um grupo de artistas se autodenominou queernejo e estão criando um movimento.

Em outubro de 2020 eles transmitiram a primeira edição do “Fivela Fest”, primeiro festival de queernejo do Brasil.

Convidamos Gali Galó, cantore e um dos organizadores do “Fivela Fest”, pra trocar uma ideia sobre queernejo e mais.

*As festas de peão são feiras agrícolas e agropecuárias com exposições, artesanato, muita comida, parque de diversões, rodeio e shows (raramente com alguém que não toque sertanejo).

“É, uns me chamam de caminhoneira, outros me chamam de cowboy viado, mas no fundo, lá no fundo, yo soy libre!”

Você pode se apresentar, pra quem não conhece?

Eu sou Gali Galó, cantore, compositore, empresarie. Atualmente canto dentro do queernejo, um subgênero do sertanejo. É uma música com uma narrativa LGBTQIA+, envolvendo também outros ritmos musicais, como o pop, o indie, o brega, que são estilos que tivemos de referência enquanto o sertanejo era esse ambiente tão machista e heterocisnormativo.

Além da minha carreira artística, também criei a SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e o “Fivela Fest”, que é o primeiro festival queernejo do Brasil.

Você não começou na música tocando queernejo, você tinha uma carreira no indie rock e inclusive foi idealizadore da SÊLA, né? Você pode falar sobre isso?

Eu comecei compondo, a composição veio antes da interpretação. A escrita era muito forte em mim, eu também sou redatora, publicitária, jornalista, então comecei compondo minhas músicas e essa música ganhou uma roupagem indie rock porque eu acabei caindo no cenário da música independente em São Paulo.

O indie rock foi quem me abraçou, tenho um disco lançado com outro nome artístico, Camila Garofalo. Comecei no indie e depois fui a fundo buscar minhas raízes, já faz uns quatro ou cinco anos que estou nessa busca pelo queernejo que se moldou hoje.

Sim, sou idealizadore da SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e é muito louco dividir essa persona artística com essa persona empreendedora. Por muito tempo, quando a SÊLA surgiu, eu parei minha atividade artística. Tive que, realmente, durante três anos, me dedicar ao selo.

Lançamos vários projetos, como mostras, festivais, mini documentários, Sessão SÊLA, uma coletânea SÊLA de produtoras musicais, diversos projetos que tomaram bastante o meu tempo, energia e dedicação.

E foi, inclusive, antes de me descobrir uma pessoa não-binárie. Eu tenho essa vivência como mulher e me sinto mulher as vezes, me considero gênero fluido, então a SÊLA é um dos projetos que sou mais feliz e orgulhose de ter criado.

E como surgiu Gali Galó? Você conhecia artistas de queernejo antes de começar a fazer essas músicas?

Gali Galó surgiu justamente depois dessa caminhada com a SÊLA. Quando tive um momento pra respirar e pensar de novo na minha vida artística, entendi que eu precisava ali renascer, então mudei meu nome artístico.

Procurei uma numeróloga, comecei a buscar outros nomes artísticos, demorou muito essa empreitada, foram uns três, quatro anos também. Eu também demorei muito tempo porque tava tentando entender.

No fim descobri que eu tava procurando não só uma persona artística, mas também um nome social, sabe? Tava procurando meu nome não-binárie, eu queria um nome andrógino mesmo.

Então Gali veio dessa mistura de entender quem eu sou com o que eu queria cantar e o queernejo chegou depois.

O termo queernejo foram vocês mesmos quem criaram, certo? É meio sobre artistas LGBTQIA+ “fazendo as pazes” com sua própria cultura, não?

Sim, fomos nós mesmos quem inventamos o termo queernejo, mais precisamente eu e Gabeu.
O Gabeu tinha inventado o pocnejo e eu já acompanhava. Na verdade ele tinha lançado “Amor Rural” e eu fiquei muito atente aquilo, pensei que eu precisava conhecê-lo porque entendi que eu já tava fazendo e queria fazer algo parecido.

Aí mandei uma mensagem dizendo que queria conhecê-lo e a gente se encontrou durante a “Semana Internacional de Música”. Ali surgiu uma amizade, uma identificação e logo de cara chamei ele pra ser meu sócio no “Fivela Fest”. Já fui com o nome pronto porque ele fez muito sentido pra mim.

Ele seria o primeiro festival queernejo do Brasil, que foi quando inventamos o termo. Se pocnejo era pra “bicha” e “viado” no sertanejo, então queernejo abrangeria toda a sigla da comunidade LGBTQIA+.

E é exatamente isso que você falou, é tipo umas pazes mesmo que a gente faz com as nossas raízes, as pazes que a gente faz com o sertanejo depois de vivenciar tanta coisa e depois de ficar marginalizades em outros estilos musicais. Entendemos que a gente podia, sim, fazer parte daquele movimento.

Os artistas de queernejo dão bastante atenção à estética. Vestuário, performance… a gente vê bastante isso nos seus clipes também.

Acredito que os artistas do queernejo se apropriam de uma estética pra poder entregar um produto completo. E eu tenho certeza que as pessoas LGBTQIA+ acabam sendo instigados pela vida para aflorarem sua criatividade de uma maneira mais intensa e até perigosa, eu diria.

Então acredito que não só o vestuário, mas as letras, a produção musical, acho que toda a estética dentro do queernejo é muito bem pensada, não é nada por acaso o que estamos fazendo. Temos essa consciência tanto política, quanto estética. Sabemos muito bem o que queremos entregar, então temos cuidado com esses signos.

E coincidentemente ou ironicamente o Gabeu, a Alice Marcone, Zerzil, Bemti, Reddy Allor, acredito que todo mundo já tem um encontro com a arte e com as artes visuais.
É esse negócio de não ter preconceito com outros gêneros e outras linguagens, mesmo. A gente traz elas pra complementar nosso som.

Se a gente assume uma linguagem pop misturada com sertanejo em questão de produção musical, se assume o brega, o indie, também vamos incluir nessa estética o elemento visual e outras linguagens que vão enriquecer a narrativa que queremos passar.

Falando nisso, você pode falar um pouco sobre os singles que você já lançou? É o mesmo artista, mesmo estilo musical, mas eles são bem distintos.

Sim, são bem diferentes porque eles contemplam esse período de três, quatro anos que fiquei sem lançar nada, então são músicas feitas em momentos diferentes e eu quis mostrar esses lados distintos antes de lançar um disco.

Acredito que quando o disco for lançado vou conseguir entregar a linguagem que imagino pra Gali Galó de forma mais clara, mas eu quis mostrar ali que Gali Galó pode ir tanto do rock psicodélico até um arrocha, que é “Fluxo (Mulher do Futuro)”.

É música brega, ao mesmo tempo tem uma psicodelia, só que não deixa de ser pautado sempre pelo sertanejo, pela forma de cantar, pelas melodias, instrumentos e arranjos.

Esses singles vão fazer parte do seu primeiro disco? O que você pode nos contar sobre ele?

Desses singles, só “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” farão parte do disco, já vou dando spoiler. “Raiz” realmente é um pouco distinto porque foi o primeiro a ser gravado, apesar de ter sido lançado depois.
Então “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” entram no disco com mais oito músicas inéditas.

O disco é um compilado de tudo o que eu escrevi nos últimos cinco anos e de muita coisa que ficou pra trás também. Gali se reinventou muitas vezes nesse período e hoje eu consigo encontrar uma linha curatorial dentro desse turbilhão de coisas que é fazer as pazes com as suas raízes, entender exatamente o que se é, seu gênero, de onde você veio, enfim.

Exatamente como se é não, porque acho que ainda tenho uma grande busca pra descobrir quem eu sou e os milhões de gêneros que existem dentro da não binariedade. Também acho que é complexo a gente colocar uma coisa tão certa.

Mas acredito que é o retrato da minha caminhada agora, fala exatamente do queernejo, de como estou contente em ter encontrado pessoas que estão fazendo coisas parecidas com o que estou fazendo e de como esse som já faz parte de um movimento tão forte.

Em outubro de 2020 foi transmitida a primeira edição do “Fivela Fest”, festival em que você foi um dos organizadores. Você pode falar um pouco sobre ele?

Ter feito o “Fivela Fest” foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, como artista e como empresárie.

Ele não só reuniu artistas que têm um movimento parecido com o meu e levantam a bandeira LGBTQIA+, que é um assunto que tá em primeiro lugar nos meus debates e na minha música, mas também foi muito importante pra entendermos sobre o mercado, como o público realmente tá sedento por esse assunto e como estão interessados.

Porque sertanejo sendo o estilo musical mais ouvido no Brasil, e tão heteronormativo, cis e branco, a gente entende que fazer queernejo não é como fazer música pop, que é LGBT. O pop aceita o LGBTQIA+, é como um abraço confortável, o sertanejo já não é assim. Então foi muito importante termos dado esse primeiro passo e se fortalecido como grupo, como movimento.

Eu acredito que nas próximas edições vamos descobrir outros artistas, assim como foi nessa primeira, onde praticamente apadrinhamos a primeira dupla queernejo do Brasil, Mel & Kaleb, que surgiu pra se apresentar no festival e continuam aí se apresentando e vão lançar o primeiro EP.

Então “Fivela Fest” foi uma aventura incrível. E ter feito e produzido ao lado do Gabeu e da Alice Marcone, que são pessoas que admiro tanto e que são tão inteligentes, acho que foi muito rico também pra minha experiência pessoal.

Tentando terminar a conversa com um pouco de otimismo, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo? Últimas considerações? Algum recado?

Bom, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo é esse disco que eu prometo já há tanto tempo. Mas agora realmente tá rolando, estamos na pré-produção e em breve começamos a gravar. Espero que saia nesse primeiro semestre.

E video clipes. Como você disse, o apelo visual é muito importante.
Acho que nós, pessoas LGBTQIA+, estamos de olho no que está acontecendo, nas tendências, temos que estar, precisamos usar todas ferramentas ao nosso alcance pra poder entregar um trabalho, uma mensagem interessante.

E, claro, o queernejo dentro do Fivela só tende a crescer e o nosso grupo tá super fortalecido. Somos muito amigues, dividimos experiências e eu acho que o queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também.

Você pode ouvir Gali Galó no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Medrado – “Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda”

Esse texto vai ser um pouco pessoal, espero que vocês me desculpem pela falta de distanciamento aqui. Já explico o motivo. Eu quero começar contando do sorriso de ponta à ponta que abri na primeira vez que escutei os primeiros versos de “Varal de Dentes”, faixa que abre o single “Pântano”:  “Pelo horário de Brasília, relógio quebrado. Eu moro no Entorno, sou mais o Entorno”.

Foi a primeira vez que ouvi alguém cantando sobre a área em que eu moro, Entorno Sul de Brasília. Como a maioria das periferias, tão perto mas tão longe dos grandes centros. Um lugar meio “cidade dormitório”, com invasões que viraram bairros e cidades. E, claro, com todas as particularidades periféricas desse país: vielas, ruas de terra, igreja, pobreza, violência, gente que vai embora cedo demais, gente que fica e fala de quem foi, tudo isso que já sabemos e nos incomodamos de saber.

A voz nos versos era do André Felipe, vulgo Medrado. André em homenagem ao avô falecido, Medrado é sobrenome de parte de pai mesmo. Nascido em Mato Grosso e vindo parar bem cedo no Lunabel 3C, bairro criado numa área de risco do Novo Gama, a uns 40km de Brasília.

Logo no início da entrevista fiquei surpreso e feliz de saber das origens do André, porque é muito parecido com o que eu vivi aqui também. Nossos bairros são divididos por um córrego e nossas experiências de crescer aqui quase se confundem de tão parecidas às vezes. Fiquei surpreso e feliz também por conhecer alguém daqui com tanta coisa pra cantar, coisas que a gente vive e, como ele diz, ainda nem viveu.

Escrevendo sobre música, você se acostuma a ver muita gente do eixo Sul – Sudeste, vez ou outra (bem vez ou outra mesmo) alguém do Nordeste. Mas, no meu caso, nunca era alguém próximo. Não existia essa proximidade geográfica e nem de vivência. Nunca achei que à poucas ruas, um córrego e umas ladeiras, houvesse um artista tão interessante que eu escreveria sobre um dia. Não só escreveria, como teria o prazer de entrevistar para falar dessa vivência periférica e de arte. É por isso que essa entrevista é tão especial para mim pessoalmente e espero que seja para vocês também. Confira:

Bom, Medrado, acho que podemos começar falando um pouco de você. Como foi seu primeiro contato com a música? Como foram as tuas primeiras gravações?

Meu primeiro contato com a música, com a arte, eu nem lembro. Foi uma percepção do meu pai quando eu era de colo. Ele conta que em todos os lugares que a gente passava e tinha alguma música eu imitava o som da bateria com a boca, o mesmo ritmo e tal. É algo que já veio comigo no sangue: meu avô tocava pife e minha mãe cantava na igreja. Uma família de músicos, saca? Meu pai é guitarrista, se dedicou muito aos estudos, as escalas. Eu comecei a tocar na igreja bem novo, com uns três anos já fazia barulho.

Quando a gente morava na invasão, meu pai passou uma cota desempregado e minha mãe trabalhava de diarista em Brasília. Aí eu ficava em casa com meu pai e ele comprou uma bateria pra mim, fiquei louco. Ele tinha baixo e uns amplificadores, tinha guitarra. Então, a gente tocava junto e meu pai é o cara mais eclético que eu conheço. Ele ouvia BB King, Tribo de Jah, Oscar Valdez, Mortification, que é tipo “UAAAGHHHH”, uma bagaceira.

Lá em 2014, comecei compondo alguns desejos e percepções que eu queria pra minha vida espiritual, meu foco cristão. Eu ia pro estúdio de um brother, Jonathan Mocher, aqui no Lunabel mesmo. Escrevia em casa e marcava lá, ficava atrapalhando enquanto ele produzia outras coisas. Quando tinha um tempo livre, chegava com a letra, tocava violão, cantava, tocava baixo e bateria. Foi lá que eu percebi o quão mágico era tudo aquilo e que eu queria fazer aquilo pelo resto da minha vida. Ali foi uma escola pra mim.

A gente é praticamente da mesma área, Entorno Sul de Brasília. É um lugar onde é muito perceptível a exclusão de periferia para com o centro, a gente acaba ficando de fora de muitos rolês do Distrito Federal. Como isso se reflete na tua música? Você encara mais como um empecilho ou uma motivação? E como é ser um artista vivendo tão perto, mas tão distante da capital do país?

Mano, a minha visão sobre o Entorno Sul é a seguinte: eu vejo um garimpo muito grande e rico, pedras muito valiosas que nem sabem o seu valor. Ponto Final, Morro do Lago Azul, Lunabel 3C, 3B, 3A, Boa Vista, Cidade Nova, Residencial Brasília, Novo Gama, Negreiros, Pedregal, Céu Azul, Valparaíso, Ingá, tá ligado? Pedras preciosas que descobrem seu valor exercendo sua arte.

Brasília fechou portas pra mim em vários sentidos. Até na Escola de Música de Brasília. O que eu mais fiz foi tocar bateria, estudar partitura, estudar tudo. Fiz a prova e não passei. O bagulho que eu mais fiz na vida. Cheguei lá, fiz três ritmos, fiz uns rudimentos. Depois fui ver o resultado e voltei pra casa frustadíssimo. Todo mundo  falando “Velho, você não pode parar, faz lá até passar”. E eu não quis tentar de novo pra preservar algo que até hoje eu não sei ao certo o que era. Mas meu rolê é a prática, tipo me deixa num estúdio com todos os instrumentos pra tu ver uma coisa. Me deixa com um violão e um mic, uma bateria e um baixo, ou sei lá só um mic. Velho, vai sair um CD, saca?

O rolê daqui não é nem escrever o som de fato, é tu acreditar no teu som. Eu escrevi “A Lei da Semeadura“, escrevi “Alarme Natural”, escrevi o single “Lamaçal” numa tarde. Toquei a bateria, o violão, captei as vozes. E eu não acreditava, tá ligado? Não tinha aquela firmeza, eu sabia que era massa, mas aquela auto estima não chegava. Depois de fazer vários trampos eu comecei a perceber isso. Fui vendo como se faz, a garra do pessoal daqui assistindo o show do Pretinho. Vendo o Isaac Cavilia fazer freestyle comigo, vendo o Grijo rimar, o Lucas aqui do lado de casa tá lá captando o som dele no celular, faz vídeo e lança no IGTV. Vendo o Akumas colando e mandando uma mensagem tipo “Mano, não para não, tu é raro”, saca? Vendo o Dhu 7 falando “Poxa mano, primeira vez que ouvi ‘A Lei da Semeadura’ eu tava num fim de tarde e fiquei emocionado”. É um garimpo unido que vai se revelando, crescendo e aprendendo com seu próprio povo.

Como o “não olhar pra gente” do quadradinho reflete na minha música é o que eu quero mais falar. Falar das ruas esburacadas, esse esgoto que corre na porta da minha casa, falar de todos que já se foram, da pureza de mesmo quem já perdeu os familiares na vida bandida mantêm. São coisas muito maiores, são coisas que motivam e nos tornam mais ricos, saca? Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda, cantar nossa prosperidade, cantar nossa união cada vez mais. Ser um artista vivendo tão perto e tão distante da capital do país é ser um brasileiro que acredita no sonho e sabe o quão tenso é viver nesse país, o tanto de coisa imposta que a gente tem que engolir, o tanto de coisa que a gente sabe e a nem pode falar.

Quais são suas maiores influências? Tanto musicais quanto visuais, coisas que te dão pilha para compor.

Meu pais, mano. Eles são a minha maior influência. Eu fazia meu pai gravar as fitas de rádio de rap que eu gostava. Sempre curti muito a história, a família, o “Castelo de Madeira”. Eu ouvia essa música e falava “Esse cara é parecido comigo, eu sou o príncipe do gueto”, tá ligado? Olha onde eu moro, no barracão de madeira! Aí me fascinava não conhecer o cara, mas ver tudo o que ele escrevia e sentir a energia da música. Me aprofundei em todos os estilos, MPB, muito Belchior. Country com Willie Nelson, muito antes do Snoop Dogg fazer ele ser conhecido. Ouvir cada estilo buscando aprender com a riqueza de cada um.  A princípio, essas são as minhas referências, as labutas, minha mãe trabalhando e a gente em casa ouvindo música.

Falei muito das influências sonoras, agora de visual tem um quadro que eu acho muito louco. É o “Duelo com Porretes” (Francisco de Goya), que são dois malucos brigando com pedaços de pau na areia movediça. Acho que esse é o quadro mais expressivo que eu já tive contato. Também tem o Francisco Galeno, pra mim é a maior referência visual. Eu tenho muito problema de vista, mas o vermelho dele e o tom dele pra mim é muito saturado, eu piro. O rolê dele com a infância também, me identifico muito.

Desde os seus primeiros singles sempre rolou muita parceria com outros artistas, certo? Ano passado teve o single “Lamaçal” com o Alice Piink e o Graça, por exemplo. Como estão sendo essas parcerias?

A Organdi me adotou, nem diria que é meu selo mas é minha família. O Graça, Alice Piink, a Mirela, Débora, essas parcerias sempre vão existir. Cada um é de um estado e, com o rolê da pandemia, a gente tem se mantido um pouco distante, mas sempre mantendo o contato. Esses caras sempre vão estar trabalhando juntos, Medrado e Organdi, Organdi e Medrado.

Esse ano tá em produção um trampo seu com o An_tnio, certo? Como tão as expectativas pra esse trabalho? O que você pretende trazer de novidade?

Essa colaboração com o An_tnio é muito importante pra mim porque vai ser meu primeiro EP. Não vou mais lançar singles duplos, serão trabalhos maiores, ou EPs ou álbuns. Eu quero trabalhar melhor com projetos grandes, e a novidade principal vai ser que esse EP será todo de freestyle.

Você toca vários instrumentos, já fez algum som acompanhado de banda? Pretende tentar algo assim futuramente?

O single duplo “Lamaçal” é um belo exemplo disso, toquei violão e bateria. Tinha esses elementos acústicos, mas de fato esse ano eu quero gravar um disco cantando e tocando bateria. To começando a escrever esse trabalho e vai ser meu primeiro trampo com banda gravado ao vivo. Não faixa por faixa, saca?

Pergunta clichê ultimamente, mas é interessante falar: como tá sendo pra se manter produzindo e divulgando seu som agora nesse período de pandemia e caos total?

A pandemia tem sido um aprendizado. Os momentos bons têm sido muito bons e intensos, os difíceis têm sido muito duros. Ano passado eu perdi minha avó e esse ano minha tia avó. Apesar de muitas perdas familiares, eu tenho buscado o equilíbrio mental, espiritual e profissional. Eu tenho aprendido muito e tenho exercido muito a minha fé, isso vai passar e colheremos bons frutos apesar de tudo.

Acredito que até mesmo essa pandemia veio para nos unir. Essa é a minha primeira entrevista e tenho muito a agradecer por isso, por vocês reconhecerem meu trabalho. O melhor e o que mais me motiva nisso é ser entrevistado por um cara do Entorno Sul que sabe como é caminhar com a cabeça na mira.

Você pode ouvir Medrado no Soundcloud, Spotify e Youtube.


Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.


Entrevista

Delipe Fantaos – Embalo Maravilhoso

Delipe Fantaos é um compositor brasileiro que mora na Espanha já há alguns anos.
Em Outubro de 2020 ele lançou seu primeiro álbum, “Embalo Maravilhoso”, um disco de samba e MPB que “é o meu abraço bem forte na minha família e no Brasil. Longe de patriotismo. É minha homenagem a um Brasil de gente, não de fronteiras e nem de bandeira. Um disco da minha saudade”.

“Embalo Maravilhoso” realmente te leva em um embalo, um mergulho nas músicas, que quando você para pra anotar algum detalhe, percebe que o disco já tá quase no fim.

Conversamos com Felipe sobre o disco, a cena musical independente na Espanha e mais.

Você pode se apresentar, pra quem não o conhece? E contar um pouco da sua trajetória na música?

Me chamo Felipe e sou lá da baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Tenho 33, e faz uns anos, não lembro bem quantos, que decidi fazer minhas músicas. Delipe Fantaos é maneira que encontrei pra fazer minhas coisas sozinho. Adoro tocar com meus amigos músicos e tudo, mas as vezes não é possível, e aí, entra o “Delipe Fantaos” na minha vida.
Atualmente moro em Barcelona, e toco na banda Espacea. É o projeto que eu pessoalmente mais gosto de fazer. Porém, com essa coisa horrível da pandemia, a Espacea tá caminhando a passos largos. Mas tá caminhando.

Você pode falar sobre a cena musical independente na Espanha? É muito diferente do Brasil?

Viver aqui na Espanha tem sido uma experiência muito bacana. A vida musical independente aqui é bem movimentada. Ou pelo menos era antes de tudo isso que tá rolando no mundo agora. A cena underground é bastante viva, existem bandas de todos os tipos pra todo mundo. As vezes fica até meio difícil conseguir datas nas casas de show por causa das agendas super lotadas… Ou porque as bandas já tem tantos shows marcados que complica conseguir montar uma noite pra dividir os palcos.
Acho que o Brasil é tão grande que a comunicação entre bandas, público e as casas de show é mais complicada. Isso não quer dizer que a vida aqui pros músicos independentes seja mais fácil. A gente tá remando contra a corrente igual no Brasil, só que de um jeito diferente.

Como foi a concepção de “Embalo Maravilhoso”, e a vontade de fazer um disco solo? Você diz que o disco “é uma homenagem ao povo suburbano do Rio de Janeiro e ao Brasil”, pode falar mais sobre isso?

Ano passado (2020), fui ver minha família no Brasil e me dei conta que todo aquele sentimento de saudade e admiração que eu tenho pela cultura brasileira poderia se converter em alguma coisa. Nessa ida ao Brasil, ali mesmo, comecei a compor a primeira canção e a trabalhar na estética que eu queria desenvolver.
Sim! “Embalo Maravilhoso” é um disco de saudade e homenagem à cultura popular suburbana. Coloquei no disco um pouco das coisas que ouvi e vivi nas ruas, nos bares, nas casas e no cotidiano do povo.
Abusei de referências como Jorge Ben (da pra ver na capa do disco), Caetano, Bethânia, João Bosco, Gil, Zeca Pagodinho e etc. Queria um disco com uma estética Tropicalista, carnavalesca e suburbana e acho que consegui.

E como foram as gravações? Como foi feita a parte instrumental, quais músicos participaram?

O disco foi completamente gravado em casa com um microfone shure 58. Mas confesso que se não fosse a ajuda do meu grande amigo espanhol Manu G. Sanz, eu teria lançado um disco medíocre. Manu foi responsável por dar esse “ar fresco” com saxofone, órgão, algumas baterias e claro, a mix e master. Também contei com o meu amigo baterista que mora lá no Rio, Leo Oliveira, que gravou “Zé Canela” e com os músicos da minha banda Espacea, pra dar aquela pincelada em algumas músicas.

Como anda a situação durante a pandemia? As adaptações foram tranquilas?

Eu tive sorte! Pude passar um confinamento confortável e seguro. Mas sei que muita gente viveu e vive muito mal. Aproveitei todo o tempo livre que tive pra pensar e gravar o “Embalo Maravilhoso”.

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de dizer ao povo brasileiro uma coisa… Brasil! Você é foda. Aqui, morando longe, percebo o privilégio de ter nascido numa terra tão rica culturalmente. Uma puta sorte. Tem muita gente tentando dividir a gente. Pode ser piegas e os carai… Mas a gente tem muito mais motivos pra se unir do que pra se odiar. Os tempos são difíceis, mas a gente vai sair dessa.
Alô, Alô, Brasil! Aquele abraço.
Gratidão pelo espaço a todos colaboradores de Bus Ride Notes e a você, Livia, pelo convite. Brigadão!

“Embalo Maravilhoso” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Andressa Nunes – O Mandacaru Intergaláctico

“O Mandacaru Intergaláctico” é uma carta de amor ao sertão escrito pela cantora baiana Andressa Nunes. Lançado em 2020, o álbum contêm 13 faixas que fluem como um abraço, como em “A Bahia é Grande”. Isso sem perder a mão nas experimentações, como a technobrega “Bagaceira”.

O álbum foi gravado em Juazeiro (BA) com coprodução de Iago Guimarães, da Casinha Lab. Todas as letras, bem como a arte da capa e as artes personalizadas das músicas no Youtube, são assinadas pela própria cantora.

Andressa canta que “o sertão é a resposta”. Então, fazendo o caminho contrário, fizemos um monte de perguntas sobre “O Mandacaru Intergaláctico”. Confira:

Andressa, a gente pode começar falando sobre o caminho que levou até “O Mandacaru Intergaláctico”. Em 2019 você lançou vários singles, certo? Como foi esse período entre os singles e a composição do álbum? 

Sim, em 2019 eu decidi publicar algumas experimentações caseiras que estava fazendo sozinha e sem muitas pretensões. Dessas, a minha preferida é Ana(r)coluto, que é uma música bem antiga mas que gosto bastante da letra, cheia de referências à filosofia da mente e à gramática da língua portuguesa. Como meu processo de composição é bem aleatório, não houve um ponto específico em que eu decidi compor “O Mandacaru Intergaláctico”. A música título, por exemplo, foi escrita há mais de cinco anos, enquanto “Bagaceira” foi escrita na hora de entrar no estúdio, praticamente.

Algumas músicas (talvez o álbum inteiro, até) são verdadeiras cartas de amor ao sertão, à Bahia, ao Nordeste como um todo. Na primeira música você já canta que “o sertão é a resposta”. O que te motivou a compor essas letras? O que você estava sentindo nesse período?

O sertão, principalmente por sua adaptabilidade e riqueza cultural, pode ser a resposta para muitas das questões sociais que temos enfrentado. O sertão é a resposta num sentido geopolítico, de olharmos para as riquezas e para os modos de vida da população dos vários sertões do Brasil (os rincões da Amazônia, do Centro-Oeste, dos Pampas, das Caatingas), que num geral conseguem conviver melhor com a natureza e produzir seu próprio alimento. Mas também o sertão pode ser uma resposta mais íntima: compreender de onde vim e a linguagem que me habita foi um processo importante para me deixar levar pela música que há tanto tempo componho.
A motivação maior para reunir essas canções foi justamente olhar no espelho da palavra, já que na época eu estava sentindo uma saudade de mim que tomou a forma (espinhosa, mas bonita) de um mandacaru. Há também uma motivação política – toda arte é política, inclusive a “neutra”. Falar do nordeste como algo contemporâneo, sem saudosismos, sem estereótipos, é uma forma de trazer luz a questões que estão em voga como a xenofobia e o machismo. Eu quis trazer um sertão que se deixa permear pela modernidade, mas sem medo de criticá-lo também, como em “A Última Cajuína do Sertão”. Vale ressaltar que não é uma questão de fazer o nordeste virar uma pauta identitária, pelo contrário: quero falar das suas pluralidades e das suas contradições, da ignorância e do saber, com consciência e sem vitimismo. O sertão não precisa de narrativas sensacionalistas. Fico com as narrativas sensoriais.

Quais foram suas referências musicais e de outras fontes? 

Na música, posso citar Cátia de França, Alceu Valença, Tom Zé, Luís Gonzaga, Dominguinhos, Caetano Veloso, Daniela Mercury, os Beatles, Björk, Zé Ramalho, Baiana System.
De outras fontes, acredito que Guimarães Rosa tem uma presença marcante na minha relação com o sertão feito de palavra. Também gosto bastante de cinema, e obras como “Bacurau” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” atravessaram bastante meu processo criativo.

Pode falar um pouco da parte instrumental do álbum? Quais os demais músicos que participaram? Como foi bolar esse som? 

Eu toquei violão em todas e guitarra em algumas das músicas. O restante (bateria, baixo, teclas) ficou por conta de Iago Guimarães, do Casinha Lab em Juazeiro, BA (que coproduziu e mixou as músicas) e do Wagner (percussões diversas) como representante da Camerata Matingueiros de Petrolina, PE. Bolamos o som seguindo o fluxo das letras, eu já tinha em mente o clima e a instrumentação que desejava e os meninos foram geniais e muito generosos ao me escutar e trazer novos elementos para a brincadeira.

O álbum foi lançado no ano em que a pandemia chegou. Já que os shows estão inviabilizados, como foi feita a divulgação do trabalho?  

Divulguei apenas pela internet e também entre amigos e familiares. As novas pessoas que têm chegado para escutar têm sempre me surpreendido positivamente, já que infelizmente não pude fazer nenhuma ação de marketing mais grandiosa. Mas o fluxo da vida, dos algoritmos e das canções tem uns mistérios interessantes.

Tem previsão para clipe?  

Tenho gravados takes de clipes para “Mulher Apocalíptica” e para “Manequim”, mas te confesso que sou eu que faço tudo na minha “carreira”, então a falta de tempo para editar está pesando bastante nesse aspecto. Quem sabe esse ano ao menos esses dois não saem, né?

Num momento em que o Brasil parece estar sendo atacado diariamente pelo que tem de pior nele mesmo, é realmente um respiro ouvir algo que fale com a gente assim, né? Na música “O Absurdo” você escancara esse clima que a gente vive. Você vê alguma esperança pra esse absurdo tanto na via artística, social ou política?

Nem medo, nem esperança: tenho confiança na ética e na capacidade de se transformar que o Brasil tem. Certamente é um processo lento e meu grito de “não me deixe achar normal o absurdo” resume esse chamado para que não deixemos a ignorância e a necropolítica se tornarem a voz da vez, como se fossem uma certeza fatal contra a qual teremos que lutar o tempo inteiro. Não. Não é normal, não é o nosso normal e não existe um “novo normal”: esse desmonte da coisa pública e o descaso com tantas vidas é uma aberração. Tenho fé em grande parte da população que se preocupa consigo mesma, mas que também busca ajudar o próximo. Tenho confiança na ciência e nas instituições de ensino e no seu papel político tão fundamental e de tanta resistência. Tenho fé nos artistas independentes, principalmente nos que produzem arte em vez de produto: a revolução também virá pela beleza, pelo sublime e pela coragem. Mas a mudança é silenciosa e lenta, e enquanto ela não vem, vamos agindo aos poucos para combater os fascismos que nós mesmos reproduzimos com arte, muita solidariedade e muita paciência.

O álbum está disponível no Youtube, Deezer, Spotify e Itunes.


Resenha

Clandestinas

Clandestinas foi formada em 2017 em Jundiaí, SP por Alline Lola (guitarra, voz), Camila Godoi (contrabaixo, voz) e Natalia Benite (bateria, voz), militantes feministas e LGBTQIA+.

Quando eu ouço Clandestinas, lembro do movimento Riot Grrrl. O Riot Grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.
As primeiras bandas do movimento queriam chamar atenção pra sua mensagem e escolheram a música pra isso.

Clandestinas surgiu “da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas”, e por isso acho que Clandestinas é mais um movimento artístico do que uma banda.

Toda banda é um movimento artístico, mas a escolha de priorizar um pouco a música ou a mensagem ou misturar igualmente é bem sutil, mas a gente enxerga.

Seu primeiro album, “Clandestinas”, foi lançado em 2020. Produzido por Mari Crestani, ele conta com participações de Aline Maria, Luana Hansen e Mariah Duarte.

A gente tá acostumado a ouvir letras políticas no punk e no rap, mas Clandestinas não escolheu um gênero musical e por isso o som é bem distinto, é rock, é punk, é MPB e mais um pouco de inúmeras influências.

A banda também mistura português e inglês na faixa de abertura, “Clandestinas”, e “Lovely Lola” é a única música em inglês do disco.

“Even if she is just my best friend and I must understand another meaning of love”

Sobre as letras é difícil falar, pois é muita informação. Esse é um disco que eu recomendo pra toda pessoa ouvir pelo menos uma vez na vida. “Clandestinas” é um album interessante em muitos aspectos.

“O não lugar me ocupa, o não pertenço me define. A não família me acolhe, a solidão me oprime”

“O nome ‘Clandestinas’ remete a ‘pessoa que vive fora da lei’, na banda o termo surge como essência e traz novos significados: ser clandestina é gritar quando disseram que se deveria estar calada, é amar sem medo e sem pudor quando disseram que seu amor era doentio, é fazer música mesmo achando que não se sabe cantar nem tocar, é estar com outras mulheres e se mover, é ter a consciência de que, para a hetero-cis-normatividade compulsória que rege a sociedade, os corpos e afetos distintos da norma não devem existir”.

Ainda em 2020 a banda participou do curta “Pluma Forte”, nele há um trecho de um show e podemos literalmente ver o formato de militância da banda.

E em janeiro de 2021 a banda lançou seu primeiro clipe, da música “Nenhuma a Menos”, um video que é mais que um clipe e menos que um curta.

“Com as nossas músicas, nossos corpos e nossos afetos, questionamos o machismo, o patriarcado, a hétero-cis-normatividade e o capitalismo. A revolução será feminista & LGBT”.

“Clandestinas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.