Bus Ride Notes
Entrevistas

Entrevista: Inoutside

Muito se fala do momento que o rock tem vivido, rejeitado pela indústria musical, esquecido pelos jovens e pela mídia e como essa fase tem refletido até mesmo no cenário underground. O que pode soar confuso já que a gente que vive nesse submundo da música nunca deu a mínima pra indústria.

O fato é que sobra pra todo mundo, até mesmo pra saudade. E se tem uma banda atual que me faz lembrar de toda essa fase MTV Rock Brasil, é a Inoutside. Não só me faz lembrar, como também acende aquela esperança de que o rock br possa voltar a ser da juventude no fundão do ônibus, da garotada na pracinha com o violão, da galera camisa preta no fundo da sala.

Anime seu coração, bons dias barulhentos estão por vir.

Ei gente, como vocês estão? Pra começar gostaria que falassem sobre vocês e o começo da banda, como se deu tudo até hoje. Sobre a relação Vitória/Juiz de Fora e como essas duas cidades têm influenciado os caminhos da Inoutside.

Mariana: Bom, a banda como ideia surgiu lá em 2012, da cabeça de uma Mariana de 15 anos que se juntou com meros conhecidos com o interesse comum de fazer música. Que tipo de música, ainda era um mistério haha.

Saía de tudo: de Bruno Mars a Paramore, cada um trazendo seus interesses, ainda que tão divergentes. A maioria era adepta do rock (como eu) e, com o tempo e com várias pessoas saindo e entrando na banda, ela se fixou como um power trio em 2017, e aí as coisas começaram a caminhar num mesmo sentido.

Eu e meus grandes amigos Remy e Sofia, todos naturais da grande Vitória, começamos a escrever o que a Inoutside viria a se tornar. Eu e Remy viemos morar juntos em Juiz de Fora pra estudar na UFJF, e Sofia fazia essa ponte entre as duas cidades. Shows em JF e em Vitória, gravações em Vitória e mixagem em JF: estava feita a ponte. A banda viveu essa desafiadora dinâmica até 2019, quando os interesses de todos seguiram caminhos diferentes e a banda quase se desfez, sobrando apenas eu que vos falo.

Confesso que quase me desesperei, pois não queria deixar esse sonho morrer. Chamei amigos músicos para me acompanhar nos shows ainda pendentes, e foi em decorrência desses últimos shows, quase desesperançosos, que surgiu a primeira esperança.

Um dos organizadores do API, festival em São João Nepomuceno (MG), me apresentou quem viria a ser a nova dona dos graves da Inoutside: grandessíssima Duda Gielo. No mesmo intervalo de tempo, um amigo me apresenta a Leticya pelo Twitter (vejam só). Aproveitei e marquei um teste conjunto e foi a coisa mais linda do mundo haha. Na primeira música que tocamos já parecia que ensaiávamos há anos, foi emocionante e nem pestanejei: tomava forma a nova e alinhada Inoutside, em dezembro de 2019.

Gosto de dizer que foi quando renascemos, porque nunca antes haviam tantos interesses em comum, nunca antes fizemos tanto sentido. A ponte com Vitória, ES agora sou apenas eu, que, em um cenário pós-pandêmico, pretendo garantir que sejamos cada vez mais presentes na cena do rock capixaba.

Musicalmente, vocês se definem como hard rock alternativo e se permitem criar em cima de outras vertentes, como é o caso da versão da Letrux que vocês fizeram lindamente. Quais são as influências da banda na hora de criar e como é esse processo? Vocês sentem que já criaram uma identidade musical ou ainda é um caminho a percorrer?

Duda: As nossas influências continuam abrangendo vários estilos musicais. Apesar de termos o rock como um “norte”, a música pop também é muito presente no nosso cotidiano. Nós acreditamos que música boa vai além de definições de gênero e sempre tentamos pegar o melhor de cada estilo para criar o nosso próprio.

Sentimos hoje, com os arranjos do nosso primeiro álbum de estúdio já prontos (e em processo de gravação), que criamos, sim, uma identidade e estamos muito felizes com o resultado. Não medimos esforços para colocar o melhor que tínhamos em cada uma das músicas e fizemos tudo com muito carinho. Queremos que todos sintam isso quando ouvirem nosso álbum.

Vamos falar sobre clipes. O primeiro contato que tive com vocês foi pelo clipe da música Run (que por sinal é foda!) e me fez lembrar da importância dos clipes pra cena rock alternativa/independente no Brasil nos anos 2000, MTV. Por algum motivo a gente perdeu esse contato com todo esse lance do audiovisual, justo no momento do boom, né? Tanto que outros cenários musicais têm usado bastante. Enfim, como vocês veem isso tudo? É possível e necessário esse resgate? Aproveitem e contem um pouquinho de como foi o processo de produção do clipe.

Mariana: Começando pelo final, o clipe de Run foi uma grande aventura. Confesso que a maioria de nós (se não todos) não sabia muito bem o que estava fazendo, mas fomos com fé, vontade e muitos voluntários haha.

Foi tudo feito sem nenhum orçamento e muito improvisado. Por sorte tivemos o apoio da UFJF, que disponibiliza equipamentos para projetos dos estudantes dos cursos de Artes e Cinema, como eu. O pessoal foi uma porção de amigos e colegas de curso animados o suficiente pra embarcar na aventura.

Escrevemos o argumento do clipe em cima da ideia original de uma dessas colegas, a Monique Oliveira, adaptamos e trabalhamos arduamente pra que pudéssemos estrear nosso rosto nas plataformas digitais. Afinal, como apontado acima, os clipes têm, há décadas, uma grande e importante participação na divulgação e na criação de uma identidade artística ao redor do mundo inteiro.

Com o crescimento da internet, e tendo seu boom nos anos 2000, graças à MTV, o videoclipe se tornou o principal portfólio da música popular. Basicamente, se você não tem trabalhos audiovisuais, é bem mais difícil notarem que você existe. Vê-se tanto quanto escuta-se, ou até mais.

Com isso em mente, mais a vontade de criar nossa própria identidade, que investimos nosso suor na criação de Run. A nova fase da Inoutside, entretanto, promete muito em relação ao conteúdo audiovisual como um todo, e não apenas videoclipes. Pra quem se liga na importância desse tipo de produção, sugiro que não perca nossos próximos lançamentos hehe.

Foto por Pedro Soares

Em 2018 vocês tocaram na Porca Fest e no mesmo ano quase entraram no cast do festival da Laja Records, por votação. Como é pra vocês, uma banda de hard rock, tocar em evento punk? Vocês percebem diferenças e semelhanças entre um show de rock “normal” e um show punk? De público, de estrutura, de expectativas. E como foi essa experiência da Porca Fest?

Mariana: O Porca Fest foi o máximo! Muitíssimo divertido em todos os aspectos. Fomos muito bem recebidos, num geral.

O festival contou com outras apresentações fora do punk, como a falecida Miêta, que trazia um rock bem progressivo e ótimo pra viajar assistindo. Ao mesmo tempo, tivemos os shows clássicos de punk da Whatever Happened to Baby Jane e Errática, por exemplo, nos quais o público ia à loucura nas rodinhas: pulava e se empurrava como ninguém, independente do calor de dezembro.

A gente ficou ali no meio, tivemos todo tipo de recepção do público, de rodinha a coro, do jeito que a gente gosta, e acho que foi justamente essa “mistureba” toda que fez o festival ser divertido como foi!

Quanto ao quase do Laja Fest, acredito que esse distanciamento do punk talvez tenha sido o fator determinante pra não termos, de fato, entrado na lista do festival, mas o quase já me deixou bem feliz. É bom saber que nosso som é capaz de agradar várias vertentes do rock, porque é justamente delas que nós nascemos.

Aproveitando que falei dos shows aqui em Vitória, e como parte da banda também é daqui, queria falar um pouco sobre o rock ES. Aqui sempre foi um Estado com uma movimentação do rock muito grande, do metal, hardcore ao rock e misturas com o regional. Dia D, Festival de Alegre, as dezenas de festivais com banda mainstream de fora, o underground no Entre Amigos. E aos poucos tudo foi se perdendo sem ninguém entender o porquê. Como vocês veem esse processo todo que aconteceu aqui? Vocês acham que foi algo parecido no Brasil inteiro ou aqui teve algo em especial? O quanto essa oscilação de mídia e público afetou na vontade de montar banda e investir em uma carreira musical?

Mariana: A verdade é que pegamos pouco essa mudança. Quando, de fato, consolidamos uma presença no ES, já havia uma certa estabilidade de desvalorização do rock, eram poucos os lugares que se propunham a organizar um evento exclusivo de rock e, quando havia, era difícil adentrar a “panelinha” (principalmente de indie rock e masculina) que dominava os poucos eventos que se via. Era muito uma questão de estar na moda, a meu ver (e machismo, claro), e isso muda com muita facilidade ao longo dos anos.

Entretanto, ainda tínhamos representações com uma base forte, como a própria galera da organização do Porca Fest, que atuavam como uma certa resistência ao mainstream e abrem espaço para bandas como nós, e dessa forma não permitindo que as outras vertentes do rock perdessem sua relevância.

Ser uma banda só de mulheres, agora, traz mais alguns desafios que antes não precisávamos ultrapassar. A cena ainda é bem machista, independente de qual vertente do rock, e quando entramos nas listas, é quase como cota, e isso nós pretendemos mudar ativamente e permear cada vez mais espaços da cena do rock capixaba.

Assistindo o minidoc Voices (que está disponível no canal do Youtube da Inoutside) e vendo a história da Paola, dá um calorzinho no coração, né! Queria que vocês contassem como foi esse encontro e a importância dele <3

Duda: Nós conhecemos a Paola no nosso primeiro show com a nova formação e foi quase como um sinal de que estávamos no caminho certo. Ela ficou bem na frente do palco, pulou, dançou, passou uma energia incrível pra gente. No final ela e a mãe vieram falar com a gente e então descobrimos que foi o primeiro show de rock dela.

Nós três crescemos com uma maioria esmagadora de referências masculinas e, quando você não se enxerga em quem te inspira, fica fácil pensar em desistir. Então ver ela toda animada, curtindo o nosso som e, na primeira experiência dela, vendo mulheres no palco, não só no vocal, mas também nos instrumentos, foi muito gratificante e esperançoso.

Nós queremos inspirar gerações mais novas que compartilham do mesmo sentimento pela música, queremos mostrar para as meninas que elas podem fazer o que elas quiserem, podem pegar um instrumento e serem ótimas com ele, serem elas mesmas, livre de qualquer julgamento.

O caminho é longo, mas se nós conseguirmos contribuir o mínimo que seja na vida de meninas como a Paola, então vai valer muito a pena!

Foto por Pedro Soares

Quais são os próximos passos da banda? EP novo, algum single, clipe? Imagino que deve ser um desafio manter uma banda ativa, com perspectivas, nesse cenário de pandemia. Mas quais são os planos pra esse ano?

Lets: No momento, nós estamos trabalhando no nosso primeiro álbum. Já gravamos os instrumentos, para em seguida pegar nas vozes. A gente está muito empolgada com o que está vindo por aí e doida para lançar logo, mas isso deve acontecer mais no final do ano.

Eu, particularmente, nunca tive essa experiência de estúdio antes da Inoutside, de construir músicas do zero, de criar as partes da bateria, e sempre parece que é um sonho pensar que estamos colocando uma coisa nossa no mundo, algo que vai ficar eternizado, de certa forma.

A pandemia atrasou um pouco esse processo, que tinha começado em janeiro/fevereiro de 2020. Fizemos uma pausa, voltamos a ensaiar quando foi possível, tentando manter a segurança nesse momento, e entre outras pausas e voltas, tivemos um “gás” de maio para cá e resolvemos focar na produção do álbum.

Já temos duas músicas em mente para serem lançadas como single – com videoclipes -, mas estamos esperando o cenário da pandemia melhorar para conseguirmos tirar essas ideias do papel, considerando que precisaremos de bastante gente trabalhando nesse processo. Mas, se tudo der certo, vamos conseguir lançar ainda esse ano ou, ao menos, no primeiro trimestre do ano que vem.

Muito obrigado, gente! Se tem algo que não comentei e queiram falar, fiquem à vontade. Que tudo isso passe o quanto antes pra gente ver um show de vocês por aqui! <3

Lets: A pandemia teve muitos efeitos negativos, em especial, para a classe artística. Por mais que temos a tecnologia ao nosso favor, ela não substitui o calor do público te vendo e ouvindo tocar ao vivo, cantando ali com você. Não vemos a hora disso tudo passar para podermos voltar aos palcos logo, em Juiz de Fora, em Vitória, e onde mais quiserem a gente.

Acho que vale o nosso agradecimento ao Bus Ride Notes por estar dando esse espaço para falarmos sobre nosso som e nossos projetos. Essa visibilidade dá uma força muito boa para artistas independentes.

E, se nos permite, queria aproveitar para convidar o pessoal para nos acompanhar porque, como falamos, logo teremos várias novidades. Mas enquanto elas ainda não vêm, temos músicas no Spotify e um material bem bacana no YouTube e nas nossas redes sociais para apreciar até lá 🙂


Lançamentos / Playlists

VEIO AÍ – Lançamentos de Setembro

Já devo ter falado isso antes, mas não vi setembro passar. Tô ficando véio ou sendo vencido pelo capitalismo – bem possível as duas coisas. Tento ficar de olho diariamente na interwebs pra poder trazer conteúdos legais aqui, mas nem sempre a rotina permite. Normalmente a gente tem que editar essa lista, mas neste mês ela foi um pouco mais curta. Talvez a gente tenha perdido alguma coisa, ou talvez não tenha rolado muita coisa mesmo.

Só pra reforçar: 1) para ter seu material publicado aqui, escreve pra gente no busridenoteszine@gmail.com; 2) se gosta do que fazemos aqui, temos uma campanha recorrente no Apoia-se. Ajuda nóis a continuar produzindo! E 3) Disponibilize seus materiais em TODAS as plataformas! Seu público escolhe onde quer te ouvir. Procuramos colocar aqui na coluna links do Youtube por ser democrático, acessível e GRATUITO.
Bora pra mais uma!

4n4 Not Found – Tired

Nova integrante do roster da Big Cry Records, a artista 4n4 Not Found (aka Ana Ishihara) chegou chegando com seu pop punk gótico suave fofinho – que a gente mal espera pra ouvir mais!
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Charlotte Matou um Cara – Atentas

– saiu o disco da Charlotte
– A
– já começa BRABO
– RAPAIZ
– top 5 do ano fácil

– me senti levando voadora na cara (gif da Chun-Li)
Trecho de um diálogo real entre o editorial do Busão, no dia do lançamento de “Atentas”. Será que curtimos? Ouve aí e tire tuas conclusões.
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Coletânea Panela de Pressão

Bastante ativo há algum tempo no noroeste paulista, promovendo e apoiando roles, o coletivo Panela de Pressão publicou sua primeira coletânea, com 24 bandas – muitas das quais já falamos na Discografia Caipirópolis.
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Constantina – Haveno (Edição 10° Aniversário)

Uma das minhas bandas instrumentais preferidas de todos os tempos, os belorizontinos lançaram uma reedição bonitassa remasterizada do “Haveno”, contando também com algumas versões inéditas ao vivo e acústicas. Lindo!
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Eugênio – Espelho Invisível

Quem acompanha o Busão já conhece a banda de Sorocaba que apareceu por aqui em resenha e na Discografia Caipirópolis. Depois de dois EPs, agora eles se preparam pro lançamento do primeiro disco, “Dentro Da Caixa, Fora Do Mundo”, previsto ainda pra 2021. “Espelho Invisível” é seu primeiro single.
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Existentialisters – Mr.Flipper

Single de estreia da galera de Fortaleza – aquele grunge punk garage riot grrrl que a gente já quer muito ficar suado dançando no show.
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Labrador – Um Devaneio no Centro do Rio de Janeiro

Emo com influências de bossa e samba antigos? Temos. O single de estreia do projeto Labrador é, claro, mais uma empreitada da incansável Big Cry Records (em breve a fornecedora oficial dessa coluna).
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Marginal Zero – Só Fé

A banda de emo rap (?) de Canoas, RS traz em seu som uma mistureba de gêneros. Em setembro eles lançaram seu segundo EP, “Só Fé”. Segundo a banda, “A estrutura da capa, apresenta um conceito trabalhado desde o primeiro EP, ‘A Verdade Vai Bater’ (2020), em que temos um personagem que vaga pelas favelas num intuito de um dia mudar o cenário da sua comunidade. Se nele o personagem era mais jovem e revoltado, agora ele é apresentado como um adolescente, numa fase de mudanças e transformações, e também a realidade de uma forma mais sensível aos ouvidos de quem não está acostumado a escutar o ponto de vista oposto”.
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MIDRA – Maré

Climão gostoso, ambient com boas camadas de guitarras e synths – assim é o novo single de MIDRA, expoente da música alternativa e independente nacional. De forma introspectiva e bastante pessoal, “Maré” tange sentimentos como angústias, solidão, ansiedade, vulnerabilidade, luto e ademais questões de saúde mental agravadas pela pandemia.
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Peixe Frito – Humanos em Conserva

Desde 2018 tocando o terror em Pau dos Ferros, RN, a Peixe Frito lançou seu primeiro disco. São seis faixas cheias de indignação e zueira embaladas naquele punk rock que a gente pira.
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SLVDR – 結び

Cinco anos após o disco “Presença”, os cariocas trazem o EP 結び (leia “Musubi”), com suas tradicionais influências no math- e post-rock e experimental. Quatro boníssimas faixas pra curtir uma brisa – seja lá qual for a tua.
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Social Breakdown – Yellow September

Primeiro material após o EP “Just My Lazy Way to Be” (2019), os punk rockers paulistanos soltaram o single “Yellow September”, que endossa a campanha importantíssima pela saúde mental promovida durante este mês. Procure ajuda e use a música como ferramenta para lidar com seus demônios – bom demais, te garanto.
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The Daily Spreadsheets – Keep

Fazendo um indie/powerpop alla Superdrag, o projeto The Daily Spreadsheets (alcunha do artista baiano radicado em Minas Gerais, Henrique Neves) trouxe ao mundo “Keep”, que é o primeiro single do disco “A Thing Again”, previsto para janeiro próximo.
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Resenhas

Campbell Trio – ///

Barra-barra-barra? Traço-traço-traço? Não sei como se pronuncia o nome, mas o fato é que hoje vamos falar de “///”, álbum do Campbell Trio lançado em junho desse ano. Com 14 faixas, esse é o primeiro disco completo da banda Porto Alegrense, sucedendo os EPs “The Campbell Trio Sings The Blues” (2011), “The Campbell Trio Does The Bebop” (2015), e “3-Way Split With Zat & Quiebre” (2015). Já dá pra sacar que de nomes eles são bons, né?

O álbum foi financiado coletivamente pelo Catarse e era considerado um disco perdido. O motivo é que as gravações foram iniciadas em lá em 2012 e acabaram sendo interrompidas, até que oito anos depois surgiu a ideia de concluir o trabalho e lançar o disco. Segundo a banda, um dos membros que também é aluno do mestrado Entrepreneurial Design do MFA em Interaction Design da faculdade School of Visual Arts de Nova Iorque (essa é uma resenha cheia de nomes interessantes), teve a ideia de resgatar o projeto e transformar em um trabalho acadêmico para o curso.

Espero que tenham recebido uma boa nota porque o trabalho ficou realmente espetacular e já canto a pedra de que pode entrar nas listas de melhores lançamentos do ano, ein? Mergulhada no post hardcore e emo, a banda lembra bastante sons como o At The Drive In. Destaco aqui as faixas “Lesson Never Learned” e “Devil Verse/Palindrome”. Segundo a descrição da própria banda, o álbum tem como tema a perda, um fantasma de um disco que nunca existiu.

“///” é uma montanha russa de emoções alternando entre momentos serenos e de explosão. Apesar de todos esses anos guardado nos HDs antigos da banda, não envelheceu em nada e que bom que finalmente veio à luz. Como diz o nome de uma das faixas, seria uma perda suprema se tivesse continuado no esquecimento. Isso me faz pensar na quantidade de obras incríveis que estão guardadas por aí esperando serem redescobertas.

Rafael Poloni é o responsável pelo baixo, bem como todo o trabalho gráfico do disco; o irmão Diego Poloni é guitarrista, vocalista, letrista, pianista, produtor, engenheiro de som, além de mixar e masterizar as faixas; e André Zinelli assina a bateria, percussões, piano, saxofone e a coprodução.

Participam também Júlia Piccoli (vocais na faixa “A Loss Supreme”), Felipe Vicente (trompete em “A Loss Supreme”) e Ronaldo Pereira (saxofone nas faixas “Our Names Forever on that Wall”, “A Canceled Future”, “A Loss Supreme”, “To a Friend” e “La Douleur”).

Os selos Yeah You! e Overall Records assinam o lançamento de “///”. O disco está disponível nas redes de stream.


Lançamentos / Playlists

VEIO AÍ – Lançamentos de Agosto

Agosto costuma durar todo um semestre, mas esse ano foi diferente. Talvez porque estamos com as vidas deveras ocupadas, ou talvez porque o mundo esteja acabando mesmo. Como estamos precisando de um alento diante de tanta notícia ruim, não poderíamos deixar de trazer mais uma edição de novidades no seu webzine nacional preferido.

Lembrando que: 1) para ter seu material publicado aqui, escreve pra gente no busridenoteszine@gmail.com; 2) se gosta do que fazemos aqui, temos uma campanha recorrente no Apoia-se. Ajuda nóis a continuar produzindo! E 3) Disponibilize seus materiais em TODAS as plataformas! Seu público escolhe onde quer te ouvir. Procuramos colocar aqui na coluna links do Youtube por ser democrático, acessível e GRATUITO.
Vem com a gente!

Adorável Clichê – Mar aberto

Quase um ano após o single “Derrota”, os blumenauenses retornam com “Mar Aberto”, lançado pela Nuzzy Records. Neste single, a já conhecida sensibilidade do grupo desabrocha e transborda, abarcando uma sonoridade (super bem produzida, por sinal) indie-pop-encontra-dream-pop. Queria que aqui tivesse mar para ouvir no fim da tarde tomando algo geladinho…
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BAR – No Rest for the Parents

Os curitibanos tocam um pub punk divertido, pra dançar com uma cerveja na mão. Me transportou pra uma época em que ouvia muito Thee Butchers’ Orchestra e The Boom Boom Chicks. EP de estreia pela Zoom Discos.
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Cama Rosa – Contrário do Medo

“Contrário do Medo” é o primeiro single do próximo EP do “duo punk abstrato” de Campinas. Conheça mais sobre a banda, que trabalha bastante com improviso, na nossa entrevista com eles sobre seu último lançamento, o split “cama rosa gruta”.
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Cérebro de Galinha – Norte em Chamas

A já lendária banda de metal punk, de Marabá, PA, lançou um discasso, recheado com 8 faixas/pauladas para moshar e contestar o sistema. A ~cena fora do sul-sudeste é foda demais e merece mais atenção!
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Devastadoras – Anti-nazi

Ativa há quase uma década, mas com poucos sons online, as minas hc/crust de Porto Alegre lançaram não somente um single, mas também um vídeo BRABO o acompanhando. Se ainda não ficou claro, este site também é anti-nazi até a morte!
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Heartlistener – Wolf Among Us

Falamos sobre “Counterfeit”, o último single da rapaziada de Ponta Grossa não faz muito tempo. “Wolf Among Us” dá sequência no hardcore moderno, colocando a Heartlistener como uma boa aposta pra levar a cena nacional mundo afora – e uma sede enorme pra ouvir isso ao vivo.
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homeninvisivel – Todo Sonho se Destrói

Também falamos sobre o retorno da homeninvisivel há alguns meses, mas dessa vez é material inédito (GOSTAMOS!). Um belíssimo grungemo pra quem ficou órfão de Title Fight. Lançamento da Big Cry Records.
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Luke Mello – He Was So Ugly That Everyone Died, The End!

Mais um lançamento da Big Cry – dessa vez, de um dos fundadores do selo. Multitalentoso, Luke faz praticamente tudo sozinho, trazendo o faça-você-mesme pro pop punk.
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Micah – Nada Ficou (ou Espelho)

A artista carioca lançou seu terceiro EP, “Nada Ficou (ou Espelho)” tem como principais temas o autoconhecimento e o empoderamento feminino. As canções narram o encontro da artista consigo mesma durante o período de isolamento social. A obra nos convida a olhar para dentro e iluminar nossas sombras. O EP foi gravado no estúdio FluxRoom entre abril e junho de 2021, e tem participação de Philip Sanchez e Gênesis Chagas. A arte da capa foi feita pela própria artista, e contou com design de Suéllen Moreira.
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Millo – Rememorar

“Rememorar” é o novo single da banda carioca Millo, que tem como influências math rock, emo e post hardcore. “A música tem como conceito as lembranças, as memórias de momentos. É uma pequena homenagem ao começo de tudo, rumo ao futuro da banda”. Eles também prestam tributo ao Rancore, banda de rock paulistana que fez parte da formação musical de todos os integrantes da banda.
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Quando o Oceano Nos Engoliu – Sobre Drogas, Ansiedade e Depressão

Single de estreia do novo nome do roque emocional brazuca, diretamente de Fortaleza. Os riffs e refrão mais cativantes dessa lista, sem dúvidas!
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Quazimorto – Amanhã Foi Ontem

Retornando às atividades depois do hiato desde 2019, o trio de Floripa lançou no começo do ano o single “Desgosto no Talo”, e agora em agosto este EP, pela Urtiga Records. Rockão doido pra cantar junto e balangar a cabeça.
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Remédio Sem Causa – Controle

Tem uns puristas para quem o punk é um quadrado, estático, que não pode mexer nem mudar. Mas aí vem uns jovens e piram no conceito, atualizam, tomam para si e têm uma pegada própria. Assim é a RSC, de São João del-Rei (alô Minas Gerais, bora fazer a Discografia Caipirópolis local!). “Controle” surge depois de uma série de singles, tudo lançado pela Rapadura Records, selo fundado pela própria banda.
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Sendo Fogo – Caos-Povo

“Caos-Povo” é o segundo EP da banda Sendo Fogo, que segue a linha entre o fast/thrashcore com alguns blast beats e letras com tom político carregadas de crítica. “Esse disco acabou sendo sobre os anos de guerra em que estamos perdendo alguns dos nossos melhores combatentes. Embora sejam composições de 2019, muita coisa acabou sendo revisitada durante esse período”. A expressão “Caos-povo” está nos escritos de Antonio Gramsci, filósofo marxista que alertava que é desse caos-povo que deve nascer a autoconsciência e o conhecimento da força que o povo tem. “Gramsci falava da Rússia, nós falamos do Capão Redondo e de Paraisópolis”. O EP também conta com as três músicas presentes no split com Punho de Mahin, lançado em maio.
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Slowhaze – Slowhaze

Realmente, o grunge e o shoegaze estão vivíssimos e andam de mãos dadas. Prova disso é o EP de estreia auto-intitulado dos jovens de Bauru, SP. Da cidade-sanduíche prontos para tomar o mundo!
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Taunting Glaciers – Ostinato

Sumidos desde o disco “Bloom”, de 2018, a também blumenauense Taunting Glaciers está de volta com um single cheio de guitarronas e ambiências. Mal podemos esperar o que mais vem por aí.
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TØSCA – Shakespeare Cowboy

O duo pós-punk do interior, formado por Alice Gauto (baixo) e Letícia Fran Soto (guitarra), que aliás, participou do primeiro volume da Discografia Caipirópolis, lança um single conversando justamente sobre isso. “Shakespeare Cowboy” evoca a contradição, a sofisticação e o rústico, a cidade e o campo e, como conta Letícia, “que extrapolam em outras contradições, mas em muito se encaixam com as condições da vida numa região metropolitana como é Campinas e tantas outras cidades. É uma homenagem ao interior paulista, mas o desespero e a angústia de nascer e viver no limbo do interior urbanizado: grande demais para ser campo, pequeno demais pra ser cosmopolita.”
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Vacilant – Tempo Bravo

“Tempo Bravo” é o segundo álbum da banda Vacilant, um dos nomes recentes da música alternativa cearense. O trabalho é fruto de uma residência artística da banda na escola de artes Porto Iracema das Artes, que teve como produto final o filme que compõe o álbum visual de “Tempo Bravo”, lançado no YouTube. Ao longo de pouco mais de 30 minutos de música, o disco passeia por uma miríade de gêneros da música contemporânea e experimental. Para a banda, o álbum é sobre “investigar a ressonância do tempo em nossos corpos e mentes. Poderíamos estender, dilatar, ressonar, demorar, retomar, destruir e reconstruir. Não em truque sonoro e imagético, mas em experiência dividida”.
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Vermes do Limbo – 1bu

Sendo oficialmente o 16º (!!!) lançamento da banda paulistana, ativa há mais de duas décadas, “1bu” continua o legado noise/ experimentação torta/ poesia fragmentada dos Vermes. Porém, aqui se percebe até uma certa estrutura e estética – ouso dizer que me remete em alguns (bons) momentos a Akira S. & as Garotas que Erraram.
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Yael Carvalho Torres – Aberturas e Encerramentos

“‘Aberturas e Encerramentos’ tem como proposta essa sonoridade um tanto quanto nostálgica dos animes da década de 2000”. O novo disco do artista carioca saiu pelo selo, também carioca, creepmachine. Dois clipes de músicas do álbum já foram lançados, “Banguense” e “Gasparzinha”, e outros estão no forno.
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Discografia Caipirópolis / Playlists

Discografia Caipirópolis Volume 3

A Discografia Caipirópolis nasceu pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital.

Somos do interior de São Paulo e um dia decidimos fazer uma lista de bandas daqui, como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Bom, lista feita, fizemos as edições necessárias e entre elas tiramos bandas com letras machistas, violentas, reacionárias ou coisas do tipo. Gostaríamos de pedir que vocês nos avisem caso deixarmos algo parecido passar.

No primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação, então tem de tudo, punk, crust, indie, synthpop, hard rock, folk, instrumental, etc.

A partir daí os volumes são divididos por gênero musical, o segundo volume contou com bandas de punk rock e hardcore melódico e esse terceiro volume com indie rock.

Acho que podemos dizer que o indie é bem amplo e um dos gêneros musicais mais mistos. A gente vê isso nessa coletânea, selecionamos bandas que acreditamos que se encaixam no gênero e elas soam muito diferentes umas das outras, mas você consegue ouvir o que elas têm em comum.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse terceiro volume:

acho melhor não (Piracicaba)

Formada em 2011 e hoje com Ana Pi (baixo), Fabio Moretti (guitarra, programação), Fernando Bisan (bateria, synth, voz) e Rodrigo Toledo (guitarra), acho melhor não referencia no nome o conto “Bartleby, o escrivão”, de Hermann Melville. Dentre as misturas sonoras que a banda faz estão indie, garage, post-rock, lo-fi e música eletrônica. “Valorizamos o método ‘faça você mesmo’: gravamos, editamos e produzimos todos os nossos sons”.
“Dois Quartos” foi lançada como single em março de 2021.



Aldersgate (Santa Bárbara d’Oeste)

Formado pelos irmãos Gesiel e Gesse em 2016, Aldersgate é um duo de rock alternativo. Os irmãos tinham um projeto chamado G35, que inicialmente era um projeto solo de Gesse e contava com a participação de seu irmão e amigos. Após uma pausa de alguns meses, os dois resolveram fazer um novo projeto baseado em uma leitura artística e filosófica distinta, que nortearam tanto a composição dos arranjos quanto das letras. A banda já lançou dois singles, “Amanheceu” (2016) e “7 a 1” (2017), e um EP, “Farol” (2018).
“Avenida Dois” faz parte do EP “Farol” (2018).


Ceano (Campinas)

Formada em 2014 e hoje com André Vinco (guitarra e voz), Leonardo Rodrigues (baixo), Rafael Lira (guitarra) e Arthur Balista (bateria), a banda já lançou dois discos, “O Último Andar” (2014) e “Índice” (2016). “Repaginando influências como Delta Sleep, TTNG, Death Cab for Cutie e R.Sigma, o grupo entrega canções sobre o amadurecimento nos tempos atuais, desejos e a busca pela felicidade”. Hoje Ceano está no selo Eu Te Amo Records, por onde lançarão seu próximo disco.
“O Homem que Chorava” faz parte do disco “Índice” (2016).


Crime Caqui (Sorocaba)

Crime Caqui foi formada em 2017 por Fernanda Fontolan, May Manão, Yolanda Oliva e Larissa Lobo. O gênero musical proposto pelo grupo pode ser encaixado no indie/dream pop/post-rock, mas sem sombra de dúvida, as “caixinhas” sonoras são incapazes de medir a capacidade inventiva do quarteto. “Das descobertas da adolescência até o retorno de Saturno, os vocais e instrumentais bem elaborados e executados trazem como temas das composições o drama, a efemeridade das relações, os sentimentos que se embaralham, o empoderamento, a transformação e a construção da autoconfiança, dando voz ao que estava guardado e tornando quem ouve cúmplice dessas histórias, envolvendo o público em uma atmosfera etérea, sensível e confessional”.
“Naufragar” fará parte do primeiro disco da banda, “Atenta”, previsto para 2021.


Depois da Tempestade (Santos)

Formada em 2012 e hoje com Victor Birkett (voz), Mily Taormina (baixo, voz), Gutto de Albuquerque (guitarra), Maru Mowhawk (teclados, synth) e Bruno Andrade (bateria, beats), a banda tem três EPs, “Mutáv3l” (2015), “Eleva” (2013), “O Sol Nascerá” (2012) e um disco, “Multiverso” (2017), lançados. A banda mistura no seu som as influências de rock alternativo, post-hardcore, música latina e alt-pop.
“Transe” foi lançada como single em março de 2021, a faixa foi gravada ao vivo na live “Depois da Experience”.


Eugênio (Sorocaba)

Formada em 2017, hoje Eugênio é Sthé Caroline, Paulo Lins, Murilo Shoji e Ludmila Maroli. A banda tem dois EPs lançados, “Um Pouquinho de Nada” (2018) e “Longa História, Breves Fins” (2020), esse produzido por Mário Wry, da banda Wry, e gravado no estúdio Deaf Haus. “Em 2021 nascerá o nosso primeiro disco, ainda sem título, que contou com a produção de Martin Mendonça (Pitty), gravação do laureado de Grammys Eric Yoshino, com supervisão técnica de Fabio Pinczowski, mixado e masterizado pela lenda André T.”
“Foi Mal” faz parte do EP “Longa História, Breves Fins” (2020) e teve seu clipe gravado durante a pandemia com cada integrante mostrando um pouco de sua rotina no isolamento.


Infante (Jundiaí)

Formada por Caio Molena (vocal, guitarra), Fernando Lodi (vocal, guitarra), Guilherme Lucas (baixo) e Danilo Guarniero (bateria), a banda tem dois EPs, “Murphy” (2015) e “Retalhos e Pensamentos Mal Costurados” (2020), e um disco, “1991” (2016), lançados. Misturando influências que vão de Beatles ao rock alternativo e indie dos anos 90, são “rapazes de Jundiaí com instrumentos, tocando músicas e xingando fascistas desde 2012”.
“Paraíso Particular” faz parte do EP “Retalhos e Pensamentos Mal Costurados” (2020).


Íntimo Cotidiano (Águas de Lindóia)

Formada em 2018 e hoje com Guilherme Gotardelo (vocal), Marcelo Pereira (baixo, back vocal), Bruno Pennacchi (Guitarra) e Lucas Zampieri (bateria), a banda tem dois EPs, “Entre Cigarros e Cafés” (2018), “Vazio” (2020), e dois singles “Carnaval de Cinzas” (2018), “Darma” (2019) lançados. “Escrevemos música para expressarmos a confusão que é lidar com a vida incluindo os problemas internos como ansiedade e depressão. Temos uma sonoridade anos 90 e estamos sempre flertando com o pop, no entanto, soamos como uma banda de rock alternativo”. Apesar de não ser uma banda punk ou hardcore, estão envolvidos no cenário underground junto com outras bandas do circuito das águas que participam do evento Abbey Roça na cidade de Socorro, SP.
“Vazio” faz parte do EP de mesmo nome, lançado em dezembro de 2020.


Jupta (Jundiaí)

Formada em 2018 por Mateus Flores (vocais), Henrique Oliveira (bateria) e Daniel Martinho (baixo), a banda tem dois discos lançados, “Um Pouco de Paz Antes Que Tudo Acabe” (2019) e “Minha Casa é Longe Daqui” (2020). Inspirada por bandas como Foals, Muse e as brasileiras Fresno e Scalene, Jupta apresenta sonoridade moderna e por vezes familiar para os ouvintes menos atentos, criando identificações quase instantâneas junto ao público. Em 2019, a banda viu “Tarja Preta”, faixa do primeiro disco, ser eleita Hit do Ano no Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira, dentro da programação da SIM São Paulo.
“Mosca” faz parte do disco “Minha Casa é Longe Daqui” (2020).


Letty (Jundiaí)

Letty é cantora, compositora, guitarrista e inquieta. Criada no interior de SP, atirou-se na capital em 2015 com seu primeiro EP, “Anywhere But Here” – concebido e produzido por ela. Desde então, seguiram-se participações em importantes festivais como Distúrbio Feminino (2016) e Virada Feminista (2016), e mais dois EPs, “songs i should never have written” (2016) e “The Rolling Stones Were Always Wrong” (2018). Seu som incorpora elementos que flertam com punk, garage e grunge; um gênero híbrido que ela batizou de garagrunge.
“Aposentadoria” foi lançada como single em maio de 2020 e a versão que você ouve no nosso Bandcamp foi gravada exclusivamente pra essa coletânea!


Nosedive (Bauru)

Formada em 2019 e hoje com Gabriel (voz), Danilo (guitarra), João (guitarra), Ricardo (baixo) e Lucas (bateria), a banda lançou seu primeiro EP, “Dull Days”, em abril de 2020. “Com a proposta de criar um repertório intenso que mesclasse influências como o hardcore, post-rock e o rock alternativo dos anos 90, a sonoridade da Nosedive encontrou uma atmosfera carregada de tensão que flerta entre a agressividade e a sutileza”.
“Anxiety” faz parte do EP “Dull Days” (2020).


Os Últimos Escolhidos do Futebol (Bauru)

Formada em 2018 por João Albino, Léo Pacheco, Paulo Nunes, Pedro Nunes e Sinuhe LP, Os Últimos Escolhidos do Futebol é “uma banda marcada pela irreverência jovem no palco e a criatividade nas canções curiosas. Transitando entre o pop, o rock e o indie”. Em maio de 2020 eles lançaram seu primeiro EP, homônimo, gravado em 2019 no estúdio Gargolândia em Alambari (SP). Em novembro de 2020, lançaram o single “Bom Bom” sobre os tempos sombrios enfrentados na pandemia, e para 2021, planejam lançar mais três singles, antes do aguardado primeiro álbum.
“Berrini” foi lançada como single em junho de 2021.


Personas (São José dos Campos)

Formada em 2016 por Rodrigo Cerqueira (baixo, vocal), João Capecce (guitarra) e Fernando Cerqueira (Bateria), a banda lançou um EP, “Vazio” (2017), e um disco, “Nunca Foi pra Dar Certo” (2019). Em 2020, com a entrada de Pablo Hanzo (guitarra), a banda se tornou um quarteto e lançaram seu segundo EP, “Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã”, em abril de 2021. “Personas mergulha em referências do underground brasileiro e americano, e faz um som que flerta com o emo, o indie e o rock alternativo, mescladas com letras em português que transmitem angústia e urgência, inspiradas em relacionamentos e conflitos pessoais”.
“Mar De Problemas” faz parte do EP “Das Luzes Que Se Fundem com a Manhã” (2021).


Quarto Escuro (Bauru)

Formada em 2019 e hoje com Willians (vocal, guitarra), Gustavo (guitarra), Joslui (baixo) e Júlio (bateria), a banda tem dois singles lançados, “Consequências” (2019) e “Dentes” (2020). “Com o intuito de fazer música autoral, a Quarto Escuro nasceu através de canções intimistas escritas como uma forma de expressar momentos e sentimentos. Fazendo rock alternativo com influencias de post-hardcore, transitando entre o leve e o pesado, tem como inspiração bandas como Thrice, Deftones e Fresno”.
“Dentes” foi lançada como single em janeiro de 2020.


ventilas (Sorocaba)

Formada em 2017, o duo João Marcos (guitarra) e Matheus Zanetti (bateria) tem um disco lançado, “brinks” (2018).“O duo ventilas não tem o capital de giro necessário para estar entre os principais nomes do rolê alternativo, mas é uma banda completa, com bons riffs, letras sinceras, repertório consistente e fãs que cantam suas músicas durante os shows. Canções como “calejadão”, “gameplay” e “toestory” revelam um passado emo nos dedilhados, influência jazz nos ritmos e semelhanças com Jimi Hendrix, Unknown Mortal Orchestra e Tim Maia.”database.fm.
“toestori” faz parte do disco “brinks” (2018).


Ventos (Votuporanga)

Formada em 2019 por Leo Abe (baixo, guitarra), Fernando Jesus (guitarra), Victor Vieira (bateria) e Maicon Lisboa (vocal, guitarra, baixo), a banda transita entre o indie, o rock triste e o dream pop. Ventos surgiu com o ideal de “transgredir” a cena do noroeste paulista, onde a maioria das bandas são de metal e punk rock. Os integrantes são remanescentes dessa mesma cena e se juntaram para tentar criar novas músicas, com novas camadas, melodia e timbres de forma despretensiosa e sem virtuosidade alguma. As duas músicas disponíveis no canal da banda foram gravadas no quarto do vocalista, com apenas um microfone e mixadas pelos mesmos. A banda segue em atividade, ainda que meio devagar por motivos de pandemia, porém, com algumas músicas a serem finalizadas.
Você pode ouvir as músicas no canal do Youtube da banda.


WRY (Sorocaba)

Formada em 1994 e hoje com Mario Bross (vocal, guitarra), Luciano Marcello (guitarra, backing vocal), William Leonotti (baixo, backing vocal) e Italo Ribeiro (bateria, backing vocal), WRY já lançou seis discos, quatro EPs e vários singles. A banda, influenciada por post-punk e shoegaze, tem músicas em português e inglês e já fez turnês pelo Brasil e Europa. Seu disco mais recente, “Noites Infinitas” (2020), lançado pela OAR (Boogarins, Particle Kid) “explora temas de ansiedade, desespero e caminhos não convencionais em direção à esperança enquanto se vive no mundo dividido de hoje”.
“Sister” faz parte do EP “Whales and Sharks” (2007).


Zero To Hero (Taubaté)

Formada em 2017 e hoje com Pedro Cursino (baixo, voz), Danilo Camargo (guitarra, voz) e Nicolas Brown (bateria), a banda tem dois EPs, “Bad Situations” (2018) e “Do Anything” (2018), e um disco, “Breakwalls & Buildbridges” (2019), lançados. “Nascida em Taubaté, SP, berço de Cid Moreira, Hebe Camargo e, claro, da grávida, a Zero To Hero é uma banda de rock’n’roll um cadinho mais pesado que Engenheiros do Hawaii. Desde 2017, o projeto mistura elementos de diversas vertentes do emo, punk e rock em composições sobre o cotidiano, relacionamentos, conflitos pessoais e problemas psicológicos”.
“Self-medication” faz parte do disco “Breakwalls & Buildbridges” (2019).


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Entrevistas

The Biggs: 25 years and running

Esse foi um dos textos mais difíceis que eu já escrevi. Tenho tanta coisa pra falar sobre The Biggs que eu não conseguia traçar uma linha de raciocínio.

A banda de Sorocaba, SP completa 25 anos em 2021 (pois é, caro leitor, é possível que a banda seja mais velha que você) e os convidamos pra falar sobre isso, e mais, em uma entrevista.

Formada por Flavia (vocal, guitarra), Mayra (baixo, vocal) e Brown (bateria), Biggs toca um punk influenciado pelo grunge. Eles têm dois discos lançados, “Wishful Thinking” (2001) e “The Roll Call” (2007), além de duas demos, um EP e vários singles. A banda também fez parte da efervescente cena riot grrrl brasileira no começo dos anos 2000.

Abaixo você confere nossa entrevista com a vocalista Flavia e a importância que a banda tem pra cena independente.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Nós somos um trio, eu (Flávia), Mayra e Brown. A banda começou em 96. A primeira formação tinha a Janaína no baixo, em 2001 entrou a Mayra e tá até hoje, já passaram 20 anos, né?

Fazemos um som que passeia entre o grunge e punk, com influências do riot grrrl, do empoderamento feminista e rock ‘n’ roll. A gente gosta mesmo é do bate cabelo.

Como a banda começou? E quais foram algumas das suas influências?

Eu gostava de rock e era envolvida com o movimento punk de Sorocaba. A gente ia nos shows, assistia as bandas e eu sempre achei muito legal, só que percebia que havia uma ausência de mulheres tocando e aquilo me incomodava bastante. Eu percebi que tinha que mudar isso.

Naquele mesmo contexto, do começo dos anos 90, tinham diversas bandas influentes que vinham pro Brasil, L7, Nirvana… eu vi e falei: quero muito tocar em uma banda.

Eu sempre gostei de tocar, mas nunca quis ser virtuosa, aí comecei a me envolver com o punk e ele dá essa liberdade, do “faça você mesma”, você poder fazer um som com três acordes, poder se expressar musicalmente independente de ter conhecimento de teoria musical.

Então a influência foi mais do punk, riot grrrl, grunge, do “faça você mesma”, poder se expressar através da música independente de ter conhecimento de técnica é uma maneira mais livre de se expressar.

O que tava rolando na cena naquela época no Brasil? E em Sorocaba?

Sorocaba sempre teve uma cena efervescente de bandas independentes, sempre tinha algo rolando. Tem uma banda do começo dos anos 80, chamada Vzyadoq Moe, que ficou bem famosa no underground. Depois teve WRY, contemporânea da gente, que também existe até hoje.

A cena principal em 98 eram o que a gente chamava de guitar bands, essas bandas com referências como Sonic Youth, por exemplo, onde o som da guitarra fica na frente. Nós fazíamos muitos shows em casas noturnas em São Paulo, Campinas, Piracicaba… E muitas bandas com as quais a gente sempre tocava junto, mesmo em São Paulo, ainda existem, como Pin Ups.

Também haviam as bandas da cena riot grrrl de São Paulo. Dominatrix, em que eu toquei de 2001 até 2007, Hats, Las Dirces… São tantas bandas daquele período, a gente tinha uma cena bem forte, sempre fazíamos festivais no Hangar. Foi um momento bem massa pra bandas com mulheres na formação.

Por que vocês escolheram falar sobre feminismo?

Na verdade não tem como separar uma coisa da outra. Somos mulheres, vivemos em uma sociedade machista, sob o patriarcado… Então toda expressão que venha da gente tem essa influência de querer romper com esses dogmas e padrões que nos oprimem durante a vida.

Nós nunca fomos de usar jargões nas letras, o conteúdo era mais implícito, mas a postura, a militância sempre foi algo inerente na nossa vida.

Como isso foi recebido pelo público no começo da banda?

Tivemos bastante dificuldade. Hoje, em 2021, ainda temos resquícios de uma cena majoritariamente masculina e naquele período, fim dos anos 90, era muito mais.

O riot grrrl como movimento feminista dentro da cena punk, do alternativo, do hardcore, surgiu justamente pra isso, pra romper com o status quo, com esse modelo.

Uns caras ignorantes sempre apareciam nos shows e hostilizavam a banda, gritavam coisas pra gente, tentavam dimimuir ou subestimar a nossa capacidade, mas acabavam tendo que engolir seco. E não só o público, como caras bêbados falando besteira, mas também técnicos de som.

Ainda bem que hoje em dia cada vez mais mulheres e pessoas não binárias têm tomado conta da graxa, que é como chamamos a parte técnica, e isso é importantíssimo pro empoderamento de todo mundo. Mas durante muito tempo tivemos que conviver com técnicos de som que não botavam fé nas bandas ou queriam mexer no nosso equipamento, “deixa que eu arrumo pra você”, como se a gente não soubesse.

Haviam também os cumprimentos, durante muito tempo eu ouvi “Nossa, que legal sua banda, você toca bem, você toca igual homem”.

Isso era antigamente, eu percebi que mudou muita coisa em relação ao respeito e valorização das mulheres na música, mas isso foi uma luta árdua durante muitos anos.

Fico feliz que hoje os festivais e todo tipo de mídia têm tido essa preocupação de colocar mais mulheres, mais pessoas negras, pessoas LGBTs nas suas programações e isso é uma conquista do movimento feminista, do movimento punk, da contra cultura, dessa luta que passamos durante todos esses anos.

Já fazem 20 anos e certamente evoluímos um tanto quanto cena, hoje quando vocês tocam em uma cidade onde o pessoal não necessariamente conhece a banda vocês veem muita diferença na recepção do público?

No nosso último disco de estúdio, “The Roll Call”, as letras são sobre loucura, rock ‘n’ roll, se jogar no role, relacionamentos… Então acho que o que mais faz o público se engajar com a gente é a nossa energia ao vivo.

Porque nós cantamos em inglês, a maioria do público nem sabe o que a gente tá falando. Eu costumo dizer no começo das músicas “A música fala sobre isso, isso e isso”, mas a energia da apresentação ao vivo é o que faz as pessoas se jogarem.

Hoje em dia o público recebe muito bem porque, modéstia à parte, a gente derruba o teto do role. E nos últimos anos os convites têm sido devido a isso mesmo, por já conhecerem a banda, por já ter um público… e quem nunca viu paga um pau.

E eu fico feliz por existirem muitas bandas com mulheres, mas não tem muitas de rock pesado. Tem muitas no metal, mas na cena indie e independente dá pra contar na mão. Quer dizer, isso as que a gente conhece. Deve ter umas 20? Num país desse tamanho…

Esses dias eu tava conversando, “Será que o rock saiu de moda?”. Mas acho que sempre vai ter, enquanto tiver alguém fazendo um som numa garagem, tocando uma guitarra alta e distorcida, vai ter rock.

Antes e depois da formação da Biggs vocês tocaram em várias bandas e tocaram outros projetos também. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Eu toquei no Dominatrix durante muitos anos, e já tive outros projetos como Caos Dentro, Great Great Comet, que são duos de som alternativo.

O Brown e a Mayra já tocaram com muitos outros projetos também. Mayra tem o Human Trash, The Dealers, Lost Cuts que é o projeto solo dela.

A gente tá aí se expressando nas diversas formas que a música proporciona.

Você foi a idealizadora do Girls Rock Camp Brasil, certo? Você pode falar um pouco sobre ele e como começou? O Girls Rock Camp Brasil também se mistura muito com a cena Riot Grrrl brasileira, não?

Tem tudo a ver. O Rock and Roll Camp For Girls começou nos EUA em 2001, em Portland que é a cidade berço do riot grrrl mundial. Eu conheci o projeto em 2003, quando fui fazer turnê com o Dominatrix nos EUA, e falei “Nossa, que coisa maravilhosa”. Porque tem tudo a ver você juntar essa proposta de poder se expressar através da música e esse posicionamento feminista, e naquele momento eu me apaixonei.

Voltei pro Brasil e comecei a fazer uma atividade chamada Oficina de Guitarra Para Meninas, baseada nessa ideia. Depois disso fui ser voluntária no Rock and Roll Camp For Girls de Portland algumas vezes, aí fiquei com essa ideia “Preciso fazer aqui no Brasil”.

Então eu fiz um chamamento nas redes sociais e entre minhas amigas da cena feminista daqui, e foi uma adesão total porque tem tudo a ver com a gente. A gente também sabia que precisava se articular de alguma forma pra passar esse bastão de empoderamento feminista através da música, e nesse chamamento todo mundo dessa cena entrou na brincadeira. O Facebook ajudou muito pra fazer essa articulação online.

Eu ofereci pra fazer em Sorocaba, pois sou professora de sociologia aqui e pedi pra direção da escola pra fazer lá. E foi mara. Tem sido muito legal até hoje.

Nós paramos devido à pandemia, fizemos a última atividade em 2019. Fazemos o Girls Rock Camp para meninas e menines de 7 a 17 anos e o Ladies Rock Camp para adultes acima de 21 anos.

Em 2019 nos organizamos pra alugar um espaço, pois até então fazíamos de maneira itinerante em escolas e sindicatos da cidade. Alugamos em dezembro de 2019, fizemos a reforma e todas as adaptações em janeiro de 2020 e em março, na semana que iríamos inaugurar, veio a pandemia. Ainda estamos com o prédio, mas não fizemos nenhuma atividade, temos feito todas online.

Girls Rock Camp Brasil

Em 2021 Biggs completa 25 anos e isso é uma vida inteira, são histórias demais pra contar. O que vocês acham que foi marcante como banda ou o que vocês gostariam de compartilhar?

Eu acho que o mais legal é que nós somos amigos. A gente gosta de fazer som junto, a gente se diverte, a gente se ama. A gente sente a energia de estar junto quando estamos fazendo um som, é uma energia muito boa que flui desse trio.

E ao longo do tempo podemos dizer que o rock e ter uma banda de rock proporcionou os melhores roles, sabe? Os melhores amigos, os melhores amores… Você poder viajar, conhecer gente, trocar experiências, as turnês… Você se conectar com as pessoas através da música é uma coisa muito poderosa e um prazer muito grande.

Eu sempre recomendo pra todo mundo ter banda porque é muito legal. E também como forma de empoderamento, acredito que ter uma banda e tocar um instrumento me ajudou demais a ser quem eu sou, como cidadã, como militante, como mulher, como pessoa.

Acho que você poder se expressar através de um instrumento, poder compartilhar com outras pessoas a energia da música e estar com seus amigos, não tem coisa melhor.

Turnê argentina, 2007 (Mayra, Brown, Flavia)

O que podemos esperar nesse ano comemorativo pra banda?

Estamos com planos pra esse ano, mas com a pandemia a gente acaba se perdendo no tempo.

Estamos planejando um livro de fotos e textos sobre a história da banda, planejamos também um mini documentário e quem sabe um disco de vinil. Em todos esses anos ainda não tivemos nenhum lançamento nesse formato.

Demos

Estamos em parceria com a Lastro Musical, um selo aqui de Sorocaba, e também contando com a força da comunidade reunindo fotos e juntando esses materiais.

Já demos início a tudo isso e planejamos concluir até dezembro, mas se não der, estamos tranquilos, não tem problema sair no ano que vem.

Últimas considerações? Algum recado?

A mensagem que eu deixo é: a música faz bem pra todo mundo e registrar é super importante, acho que produção de material é historia, é nossa vida, é a vida da comunidade. Quanto mais pessoas produzirem material, não só música, mas registros em geral, melhor é pra todo mundo.

E que a gente possa se encontrar em breve num show bem cheio, todo mundo encostado, com muita aglomeração.

A discografia do Biggs está disponível nas redes de stream. Não deixe de seguir a banda nas redes sociais pra acompanhar as novidades e colabore com o Girls Rock Camp Brasil.


Lançamentos / Playlists

VEIO AÍ – Lançamentos de Julho

sobre fundo escuro e dinâmico,fitas cassetes atravessando a imagem, abaixo do título "lançamentos de julho"

Esse mês passou voando que nem vi, mas nem por isso deixou de ser movimentado. Entre estreias e materiais novos de veteranos, passamos por várias cidades e estados – sim, isso é importante! Na Discografia Caipirópolis a gente já afirma que tem muito som massa sendo feito fora dos grandes centros urbanos, e nessa coluna não pode ser diferente.

Lembrando que: 1) para ter seu material publicado aqui, escreve pra gente no busridenoteszine@gmail.com; 2) se gosta do que fazemos aqui, temos uma campanha recorrente no Apoia-se. Ajuda nóis a continuar produzindo! E 3) Disponibilize seus materiais em TODAS as plataformas! Seu público escolhe onde quer te ouvir. Procuramos colocar aqui na coluna links do Youtube por ser democrático, acessível e GRATUITO.
Sem mais delongas, vamos ao que importa:

aurata – IUNO

Conforme dito no post anterior, IUNO chegou ao mundo com todos seus (muitos) detalhes intrínsecos, que vale ouvir e reouvir até desbravá-los todos.
Acompanhe aurata pelo Instagram.

Boats – Canvas

Após o single Calmin, lançado em maio, adiantar o que estava por vir, os ícones indie de Pau dos Ferros, RN trazem seu novo e excelente EP. Uma nesga ensolarada pra aquecer o coraçãozinho esses dias frios.
Acompanhe Boats pelo Instagram.

Born Strong – O Avesso da Verdade

Bastante prolífica desde 2018, neste novo single a Born Strong grita bem na tua cara toda a revolta contra o desgoverno vigente e toda sua rede de mentiras. Uma pedrada. (PS: participamos da mesma coletânea, Punkadaria Antifascista – ainda tenho alguns CDs disponíveis, entre em contato para adquirir uma cópia!).
Acompanhe Born Strong pelo Instagram.

Cigarros Indios – De Perto

A banda de Araçatuba, SP lançou seu novo single, o segundo com a nova formação. A banda também tem anunciado “grandes novidades em breve”, será que vem disco por aí?
Acompanhe Cigarros Indios pelo Instagram.

coletânea Alforge Records no. 1

O compilado conta com oito bandas que fazem parte do selo gaúcho (cxs/poa, Marinas Found, No Reply, Solana Star, Borduna, Descartes, TeTo e Zava), cada uma com um som inédito, transitando entre sonoridades diversas que têm o hardcore como pilar central.
Acompanhe Alforge Records pelo Instagram.

Debia – Debia. S/T

Gabriel Debia chega ao fim de um ciclo com o EP Debia. Em 2017, junto do baterista Silas Araújo, Gabriel fez várias composições e no fim de 2018 gravou nove músicas, finalizadas, mixadas e masterizadas por Maurício A. Caetano no Estúdio Traquitana em São Paulo. Algumas foram lançadas como singles durante 2020 e outras, agora, na forma do EP Debia. O EP também conta com participações de Rael Brian (Decurso Drama) e Breno Honório (Giant Love).
Acompanhe Debia pelo Instagram.

em agosto chove – Dimetil

Universal, experimental e psicodélica na medida, a banda de Palmas, TO lançou o single Dimetil, que faz parte do álbum Ritus Movedissus, confirmado pra sair no próximo sábado (7). Faça o pré-save aqui.
Acompanhe em agosto chove pelo Instagram.

Entrequadras – Nenhuma Dor

Abordando jornadas pessoais, seus percalços e eventuais convergências, a banda brasiliense traz seu novo single Nenhuma Dor, que faz parte do EP Recomeço, que está previsto para o mês de agosto.
Acompanhe Entrequadras pelo Instagram.

Facing Death – 7 Vidas

Marcando a transição para letras em português, 7 Vidas é a paulada que sucede From Here to the Unknown (2019). O trio já não é tão novidade por aqui: os jundiaienses estão presentes na Discografia Caipirópolis vol. 2.
Acompanhe Facing Death pelo Instagram.

Garage Fuzz – Let the Chips Fall

A banda que inspirou o nome do nosso site lançou seu novo EP estreando nova formação. Uma grande mudança, depois de 30 anos o vocalista Alexandre Sesper deixa a banda e em seu lugar entra Victor Franciscon (Dharma Numb, ex-Bullet Bane).
Acompanhe Garage Fuzz pelo Instagram.

La Burca – Desaforo

Há exatos cinco anos, eu recebia Amanda & cia. em casa para a minitour do disco Kurious Eyes no cerrado. Desaforo traz toda a maturação experienciada nesse meio tempo, encorpando o caldo com guitarras – não só uma, como duas!, agora que a banda baseada entre Araraquara e Bauru, SP é um power trio.
Acompanhe La Burca pelo Instagram.

Lascaux – Agora Lascaux

O novo álbum do quinteto cearense, junto do primeiro EP, Lascaux P/ Todos (2018), representa uma espécie de capítulo final de uma era de intensas festas e lutas. O som em maior parte é inspirado por e uma homenagem ao rock e punk brasileiro dos anos 80. “Um disco que carrega nossos amores, medos, desabafos, lutas e que registra nossa vontade sufocada de transformação do Agora”.
Acompanhe Lascaux pelo Instagram.

Letty – Nota de Repúdio

Utilizando-se de tweets de políticos do centrão lidos pela ~moça do google, Letty encerra a fase sócio-política de uma série de singles (Aposentadoria e Golpista) para dar início à produção de seu primeiro álbum cheio, ainda sem previsão de lançamento.
Acompanhe Letty pelo Instagram.

O Leopardo – Dia do Caos em Belo Horizonte

Mesclando punk, ska e mambo, os selvagens belorizontinos d’O Leopardo se jogaram num formato inusitado: o single Dia de Caos em Belo Horizonte é triplo, já que também tem versões em inglês (BH City Caos) e espanhol (Día del Caos en Belo Horizonte).
Acompanhe O Leopardo pelo Instagram.

Ousel – Coffee break

O quarteto de Goiânia aposta numa pegada alternativa noventista, tingida de dream pop neste novo single – ouvi Cranberries, amém? DE-LÍ-CI-A. Você vai se pegar cantarolando o refrão mais tarde.
Acompanhe Ousel pelo Instagram.

Personas – nfpdc

Comemorando os dois anos do álbum Nunca Foi pra Dar Certo, a rapaziada de São José dos Campos, SP montou um EP com versões inéditas de algumas faixas. Entre roupagens lo-fi e chillwave, acústico e ao vivo, nfpdc se apresenta como um presente de agradecimento àqueles que acompanham a banda.
Acompanhe Personas pelo Instagram.

Sòdio – Paulada

Sujo, pesado, direto e na tua cara, conduzido pela voz forte de Esté Revoltz. Esse é o hardcore/crossover do pessoal de Arapongas, PR, sendo Paulada seu segundo EP.
Acompanhe Sòdio pelo Instagram.

Storia – Espelho

Retornando após cinco anos de hiato, os paulistanos da Storia lançaram este mês o EP Espelho, apostando numa sonoridade (post-)hardcore bastante contemporânea.
Acompanhe Storia pelo Instagram.

tarde mais densa – Abissal

Quando ouvi os singles Surtos e Paixões Transientes, imediatamente pensei que estava no TramaVirtual ou no MySpace. Nostálgico, mas atual. Hardcore melódico diretamente de Vitória-Vila Velha, ES.
Acompanhe tarde mais densa pelo Instagram.

terraplana – Na sua estante

Consegue imaginar Slow Crush ou Bliss Fields tocando um cover de Pitty? Pois é isso que os shoegazers de Curitiba fizeram. Arrepiei!
Acompanhe terraplana pelo Instagram.


Sites

Sobre jornalismo de música, projeto editorial e leitores

Por Revista O Inimigo e Bus Ride Notes

Na semana passada, o site Hits Perdidos publicou um artigo bastante oportuno sobre o futuro do jornalismo cultural no pós-pandemia. Entre questões válidas, como a precarização das redações, a velocidade irrefreável das redes sociais, a avalanche semanal de lançamentos de singles e álbuns nas plataformas de streaming e o embate entre o “relevante” e o “novo”, dois pontos que julgamos fundamentais acabaram ficando de fora do debate: a importância de uma proposta editorial e da formação de público leitor.

O jornalismo musical não existe mais em grande escala no Brasil, isso é um fato. Hoje existem poucos sites que cobrem a cena de música independente, e cada um faz de sua forma. Isso acaba confundindo todo mundo envolvido na cadeia, tanto o leitor quanto o jornalista, e também os próprios artistas. É por isso que acreditamos que antes de se preocupar com algoritmos e plataformas de streaming, é fundamental pensar na mensagem que queremos passar e com quem queremos falar.

Será que é tão importante assim “dar conta” de tudo que sai às sextas-feiras? O próprio texto do Hits Perdidos observa que mesmo um leitor dedicado e interessado vai ouvir, se muito, 10% da lista com os 250 singles da semana. Então, vale perguntar: quem se interessa por esse tipo de informação?

Claro que o registro é importante, mas o registro pelo registro não pode ser o objetivo final. É preciso definir a linha editorial e construir uma base de leitores. Sites/blogs que cobrem “tudo” correm risco de cobrir “nada”. Em geral, esse tipo de abordagem acaba atraindo um público disperso e pontual, que não vai virar leitor frequente do site. Tampouco ajuda o trabalho do artista, sobretudo dos mais novos, a chegar a quem possa se interessar por ele. Ou seja, vira um depósito de conteúdo, uma vitrine sem comprador.

Basta olhar meia dúzia de posts do Bus Ride Notes ou da Revista O Inimigo para ver o tipo de música que cobrimos, que é basicamente o que gostamos de ouvir e o que nós entendemos. Consequentemente, nossos leitores são pessoas que também gostam e se interessam por esses estilos. Mesmo assim, praticamente todos os dias recebemos sugestões de pautas sobre artistas de estilos musicais que não têm nada a ver com o que cobrimos.

De que adianta publicar se o nosso público leitor não curte esse som? Não vai ter alcance nenhum. O tempo que o artista gasta mandando o material pra gente, poderia ser gasto mandando para um site que publica o estilo dele. Faz sentido você mandar teu disco de MPB pra um site de metal?

O problema que colocamos em debate aqui é esse modelo de “publicar tudo”, não o meio onde você publica o conteúdo (isso é outro problema para outra conversa). A gente está vendo que ele não funciona, mas ainda vamos continuar insistindo?

A lógica da produção de conteúdo não pode pautar o jornalismo cultural, são coisas diferentes. Há muito conteúdo de música e pouco jornalismo de música. Há sites que simplesmente não cobrem bandas nacionais, mas noticiam cada peido dos gringos como se fosse site de celebridades.

Quer escrever sobre cultura? Primeiro, pense no seu projeto editorial. Se você prefere ou manja mais de um estilo, ótimo – pesquise e foque nele. Quer falar de muita coisa? Beleza, você pode criar um público que acompanha as coisas mais diversas que você publica. Separa por temas, editorias, sei lá, mas SE ORGANIZE.

E a gente precisa, sim, de mais pessoas fazendo jornalismo musical. Tem bandas demais hoje (só na lista do Bus Ride Notes com bandas do interior de SP tem mais de 250 na ativa), e acreditamos que esse é um dos fatores que gerou essa bagunça.

A saída do jornalismo cultural é voltar a fazer jornalismo. Por jornalismo, entenda fazer entrevistas, reportagens, críticas, levantar discussões e dialogar com o leitor. Como? Ninguém sabe. O importante é manter a discussão viva, trocar ideias para construir saídas.

Seguimos em frente.


Resenhas

Zero to Hero – breakwalls & buildbridges

Nós raramente publicamos algo perto da data de lançamento, um dos motivos é que publicamos uma vez por semana (tem 52 semanas num ano e centenas de lançamentos), outro motivo é que a gente se embanana tudo com prazos.

Por isso, e vários outros motivos, o formato webzine funciona melhor que o formato site de notícias pra nós. E por isso, também, as vezes a gente atrasa demais um assunto, mas ainda precisamos falar sobre ele. Hoje é outro desses dias.

Bom, primeiramente, pra falarmos de Zero to Hero, precisamos falar sobre emo, esse gênero musical um tanto confuso.

O emo dos anos 2000 que a gente conhece é só uma vertente. Na verdade o emo dos anos 2000 é bem estranho, uma vez vi uma comparação com o metal farofa (ou hair metal) dos anos 80 e achei que fazia todo o sentido: hair metal não é metal, é hard rock e o visual é muito importante. O emo 2000 não é emo, é pop punk e o visual também é muito importante.

Por que as pessoas chamavam todo um gênero musical pelo nome de outro gênero sonoramente muito diferente, nunca iremos saber.

Dito isso, o emo é bem distinto em cada década, nos anos 80 é mais hardcore, nos anos 90 é bem melódico e misturado com math rock, nos anos 2000 é o que todos conhecemos e a partir daí rolou um revival inspirado no som dos anos 90 com um toque de indie rock.

Se você for pesquisar sobre isso vai se divertir, tem bandas incríveis, incluindo muitas bandas brasileiras. Aliás, algumas delas estarão no terceiro volume da Discografia Caipirópolis.

Zero to Hero se encaixa em quase todas as categorias acima, e “breakwalls & buildbridges” (2019) faz parte da nova leva de sons inspirados no emo anos 90, ou “real emo” como alguns chamam.

O disco foi pensado pra cuidadosamente se encaixar num gênero musical, vemos isso antes mesmo de ouvir, em nomes de faixas como “emotional flatlining”, “being lost is part of getting there” e “only cowards skip interludes”.

As letras cantadas em inglês com vocal e aquele timbre de guitarra um tanto agudo caracterizam esse disco junto do som muito melódico em todas as faixas, das aceleradas às mais lentas.

O conteúdo das letras é diverso, algumas falam sobre relacionamentos.

“And I try so hard to do whats right for you and me but I’m always wrong, and being lost is part of getting there”.

Outras falam sobre saúde emocional, como “anxiety”, uma das minhas músicas preferidas do disco.

“It’s like she’s singing inside your head except she doesn’t know how it goes. She keeps humming out so loud, just gibberish, there’s no lyrics at all”.

E a gente associa emo à tristeza pela maneira como o emo 2000 foi comercializado, mas não é um gênero triste. É, sim, bem sentimental “sem vergonha de demonstrar”.

“I ask myself why my senses are so numb and in my core I know that I am so dull. Hard to feel love, most days I feel nothing at all, the only emotion I’m in touch with is sadness after all”.

A banda de Taubaté, SP, formada por Pedro Cursino (baixo, voz), Danilo Camargo (guitarra, voz) e Nicolas Brown (bateria) lançou o single “queen of ashes” em fevereiro de 2021 e recentemente participaram do EP ”Isolation” da Decline com um feat. na música “Summer 2”.

Ouça Zero to Hero no Bandcamp e nas plataformas de stream.


Resenhas

Sobre o dia em que ouvi o disco “Sintoma”, da In Venus

Esse tem sido o ano que mais tenho lido resenhas. Isso é ótimo, mostra que as pessoas continuam criando, “apesar de você”. E hoje chegou meu dia de fazer minha primeira resenha pra valer. Não sei usar os nomes corretos, os gêneros musicais, descrever panoramas e apostas. Então vou usar o estilo “Mama Rachmuth” e resenhar com o coração. Com atropelo, com a paixão das coisas, com o que atravessa a gente quando ouvimos a música que nos toca.

E essa resenha é, nada mais nada menos, do que do disco mais esperado desse ano. Não importa o tipo de música que você ouve dentro do punk, a bolachona da In Venus é o gatilho mais foda que tá rolando, que rememora os dias de shows e encontros. E que prepara o coração pros dias que virão, cheios de raiva e afeto.

Acho que falar desse disco é falar do que queremos pro punk que vivemos. Porque eu sei que você também quer mais autonomia e controle da música que você cria, mais trocas nas relações e espaços que fazem parte desse meio. Falar desse disco é falar do quanto precisamos da arte punk, dos fazeres coletivos, das construções fugindo de algoritmos. Mas também é falar de acesso, de quem pode pagar, da música enquanto produto. É um disco pra gente repensar o que temos feito enquanto comunidade.

Em abril as músicas já estavam rolando na internet, parte da arte do disco também. E aos poucos foram aparecendo entrevistas e o disco foi criando uma forma na cabeça de quem estava ouvindo devagarzinho e esperando o físico sair. Tenho certeza que nesse momento as músicas passaram por muita gente e nem ficaram. Não dá mesmo pra separar a música punk de todo resto. Eu nunca escuto música olhando pro nada, coloco o som e olho a capa, viro pro outro lado, tiro o encarte, olho a capa de novo, procuro a letra pra cantar junto, vi ali que tem participação na música, “Ah, bem que sabia que era ela”, olho a capa de novo, “Que arte mais loca”. Não dá pra ouvir música punk olhando pro nada. Até mesmo na internet, tem sempre que passar um olho na telinha pra ver a imagem e reafirmar a memória e o afeto da coisa.

E foi nesse ritmo que, mesmo escutando meses antes na internet, ouvi pela primeira vez o disco “Sintoma”, da banda In Venus. Sábado agora chegou a bolacha toda linda aqui em casa e vou tentar juntar tudo isso que eu queria falar com a pira de ouvir na vitrola.

Capa perfeita do disco “Sintoma”, da In Venus

Quando abri o pacote e vi aquela capa enorme, deu um misto de “Que foda!” com “Que punk!” porque é bem essa ideia que esse disco traz, algo esteticamente incrível que só um LP dá, com a confusão e beleza das cores e forma da colagem da capa. Arte feita por Erikat, da Coletiva Formas, que tem uma história massa por trás, algo como uma intervenção com os livros que cada uma da banda deu pra ela envolver a coisa toda. Eu li na resenha que saiu na Música Pavê, lê lá.

E aí não soube o que fazer primeiro, as letras estão impressas num poster gigante, já coloquei no chão igual um mapa, botei a bolacha na vitrola e a mágica aconteceu.

A primeira música já vem com uma rasteira, “Hen to Pan” fala sobre oroboro, a serpente comendo o próprio rabo, na hora lembrei da zine da Ju Gama. A roda da existência, esse é o nosso rolê nessa vida, nada perfeitinho e vivendo as glórias e tristezas disso tudo. O som é frenético, um ritmo alucinado, se eu fizesse um filme colocaria essa música na cena correndo num beco escuro, com uma faca na mão, que é a melhor descrição de viver que existe. É pós punk? Não sei, pra mim é punk.

A segunda é “Ninguém se Importa”, quase um anúncio dos anos de pandemia nesse Brasil governado por fascistas. “Tá tudo uma merda, e não é só pra mim, é pra mim e pra você, então o que fazer além de reclamar e divagar? Às vezes tenho vontade de gritar!”. Caraca, quem não tá com vontade de cantar esses versos num show? A música tem um pegada Mercenárias que amo.

Depois vem a “Quatro Segundos” e nossa, já veio um manguetown na cabeça, aquele sonzinho do agogô no fundo é lindo. A própria letra e a forma como ela foi colocada ali dá esse climão Chico e dedo na ferida. “O paladar, a gula e o prazer só pra quem detém o poder”. Eu tô na terceira música e já tomei vários tapas, volto pro mapa no chão e rio sozinho de tão foda que é.

Aí vem “Cores”, que pra mim é mais forte do disco. Porque ela é denúncia, mas ela também é muito reconhecimento da existência e luta, que é diária. É tipo hino, e como todo hino é ferida, mas é levante também. A mais foda.

“Bordas” é a ultima do lado A, e nessa hora eu já tô tão dentro do disco que acho que elas criaram seu próprio movimento e sonoridade e não consigo mais comparar com nenhuma banda, as músicas se parecem com In Venus e é isso hehe. Eu danço fácil essa, sem passinho definido, só na levada da coisa. “Bordas” fala de propriedade, território e toda essa ideia merda que vem sustentando modos de vida sem sentido algum, que só gera morte. Quando a música acaba rola uma parte de outra música e Rodrigo falando “Quebrou a corda”.

Amo esses extras de fim de música, na moral <3

E essa beleza de bolacha?

Hora de virar o disco. É um 180g translúcido, pesadinho e lindo de ver. Veio também um poster incrível feito por Rodrigo Lima e Erikat, uma intervenção em cima de alguns trampos já feitos pela Coletiva Formas. Digno de emoldurar e jogar pra cima da parede. Eu já imaginei um lambe foda dele pela cidade, em preto e branco e com as rugas de dobrado na cola.

A sexta faixa se chama “Ansiedade” e acho que ninguém vai escapar dessa. É a minha dor e vida nesses últimos anos, e acredito que a sua também. O baixo é lindo, difícil não se deixar levar por ele em todas as músicas. No show vou ficar do lado da Patricia só pra ouvir ele batendo no coração.

Depois vem “Silêncio”, o baixo aqui tá lindo também e junta com um synth (eu acho) bem no destaque. Quase hipnotizante, só que com a energia lá em cima. Tipo transe né, essa é pra escutar bem alto.

“Velocidade Líquida” vem no mesmo clima, guitarrinha dando um loop na sua mente, bateria frenética. Batera que, por sinal, deu uma identidade perfeita no disco. A real é que cada instrumento ali se fez de um jeito único.

E aí vem “Hipócritas”, a música mais música, a letra mais letra. Já aproveita que aumentou o volume nas de antes e se acaba nessa, que tem o sax do Rafael Nyari, quase desconcertante. Pega o encarte e canta junto, essa é de tomar tapa, eu e você.

E quando olho já é a última do disco, “Ancestrais”. Pesadíssima, fala sobre ancestralidade e formas de vida que se perdem, ou melhor, são destruídas pelo branco capital. Ela tem participação de Renato Kuaray, que também participa da composição da música. Essa é linda demais, fecha o disco de uma forma incrível, junto com um quase som-imagem, daqueles que você fecha o olho e imagina a dança e a vida se fazendo.

Encarte tamanho mapa, capa e pôster tamanho lindo

“Sintoma” foi lançado pela No gods, No masters e parte da pré-venda foi revertida pro Vivência na Aldeia, um projeto social de apoio às comunidades indígenas no litoral sul de São Paulo. O disco, a banda, No Gods, No Masters, nós que acreditamos no punk como espaço e momento de pensar outras formas, está tudo ligado e é isso que nos faz comunidade.

E aí, ter essa bolacha em mãos faz a gente pensar em todo esse boom de mídias analógicas e como tem se dado o acesso a elas. É inquestionável a força que a mídia física tem pro punk, a gente poderia cair por cima de mil ideias em torno disso, muito da base que temos do hardcore/punk é sobre ter o controle da nossa música, seja decidindo o que e como criar, até como fazer tudo isso circular e se manter vivo, sem qualquer viés de mercado apontando dedo e enchendo o bolso. É foda demais ver as bandas lançando discos e fitas, a galera criando seus selos. Mas também causa incômodo ver o valor de tudo, não tem como.

Que a gente consiga entender onde estamos nisso, de todas as formas. As bandas continuam lançando CD-R com capinha xerocada, CDs no papelão, gravando em fitas velhas, K7s novas e também em discos maravilhosos como esse da In Venus. Esse é o ponto, criar fora do algoritmo e fazer existir no chão de um show, na troca de mãos, no abraço e no “Que foda, vi o show de vocês e amei, tem material?” e tudo isso acontecer no encontro, longe da tela. Não tem como não ser bom.

Como eu disse lá no começo, pra mim esse é o disco mais esperado do ano, porque esse é o punk mais apaixonante que temos e que queremos que nunca deixe de existir. Vivo e ativo, feito por nós, invertendo a lógica e dançando com a nossa revolta.

Terminei o disco assim, querendo tramar e confabular, derrubar tudo e partir daí.

Porque eles nos devem uma vida.

É claro que devem.

“Sintoma” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.