Bus Ride Notes

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Entrevista

Reles Córtex – Operações Psicológicas

Reles Córtex é uma banda de punk acústico, anti-folk, criada em São José do Rio Preto em 2015 por Matheus Moura.

Em fevereiro de 2021 ele lançou seu segundo disco, “Operações Psicológicas”.

É meio difícil falar sobre folk punk, pois é um gênero bem direto, tanto no som quanto nas letras.

É claro que poderíamos falar sobre elas, mas fomos direto à fonte e convidamos Matheus pra conversar sobre o novo disco e mais. Confira:

Você pode se apresentar pra quem não conhece?

Meu nome é Matheus Moura (conhecido também por Mourarc), 29 anos, natural de São José do Rio Preto, SP, doutorando em ciências sociais. A Reles Córtex é um projeto de punk rock acústico iniciado por mim em 2015.

Como surgiu Reles Córtex?

Reles Córtex surgiu da contínua e incansável propriedade criativa de composição musical.
Desde pelo menos 2006 eu já esboçava diversas canções, bem toscas na época, gravava num toca-mp3 e ficava insistindo para os amigos escutarem

Nos anos seguintes participei de algumas bandas de punk e hardcore, mas que não duraram muito, por diversos motivos. Entre 2009 e 2015 foram anos meio estagnados na música pra mim.

No interior de SP é bastante difícil encontrar uma galera séria pra fazer um punk rock mais cabeça. Nesses anos todos as tentativas foram frustradas, mas as composições continuavam a vir, então resolvi colocar o projeto pra funcionar sozinho, mas sem a guitarra distorcida.

Abandonei todas as composições antigas e me concentrei em letras mais sérias, mais poéticas e filosóficas. Ainda que talvez não tenha conseguido cumprir esse objetivo muito bem (risos).

O nome “Reles Córtex” veio antes de eu ter qualquer coisa pronta. Era uma tentativa de dizer “pra que um cérebro se na maior parte do tempo a gente não o usa satisfatoriamente pra refletir?”.

Em 2015 eu tinha o nome, em 2016 eu tinha duas demos, que trabalhei sem noção de gravação nenhuma em um estúdio da cidade. Foi aí que resolvi gravar as músicas eu mesmo. Comprei uma aparelhagem mínima, um condensador, e comecei as gravações fuçando num programa de mixagem gratuito.

Em 2018 saiu o “Causas Vazias” no pior do “faça você mesmo”.

Quais são algumas das suas influências?

Minhas bandas de coração são Anti-Flag e Bad Religion. Não é coincidência esse projeto ser um punk acústico, os vocalistas dessas duas bandas, Justin Sane e Greg Graffin, possuem projetos acústicos paralelos. Minha grande inspiração vem daí.

Recentemente descobri também um cara chamado Pat The Bunny, que faz um anti-folk muito semelhante ao meu. Talvez seja essa minha mais nova fonte motivadora.

“Operações Psicológicas” é mais direto, digamos assim, que “Causas Vazias”. Ele tem menos instrumentos, é menos melódico… Como foi o processo de composição?

Esse segundo álbum traz mais agressividade tanto nas letras quanto na pegada. Eu comecei a compô-lo durante as eleições de 2018 (logo após o lançamento do “Causas Vazias”), e bom, não é preciso dizer muito mais…

Foi uma forma de colocar pra fora o que toda pessoa sensata e sensível estava sentindo naquele momento (esse sentimento talvez tenha se intensificado até o dia de hoje).

Das 11 faixas inéditas, somente duas foram feitas posteriormente às eleições, “Sua Imagem” e “Rio Preto”, essa última é uma versão de uma música que compus com a Refluxo Mental, na qual eu era vocalista até o começo desse ano.

Comparado ao álbum anterior esse está mais próximo do punk, com seu teor político e músicas mais rápidas e diretas, do que o primeiro.

Ele foi todo gravado em home studio. Como foi esse processo? Você costuma gravar em casa ou isso foi devido a pandemia?

Como mencionei anteriormente, desde o começo eu fiz músicas em home studio (à parte daquela experiência não muito feliz com duas demos).

Me sinto mais livre fazendo eu mesmo as gravações. O resultado não tem a mesma qualidade do estúdio, mas eu ainda prefiro, me sinto mais à vontade.

Também porque eu não tenho muita grana, e a música pra mim é um hobby, então gravar em estúdio não é muito atrativo.

E a parte de produção, mix e master? Foi tudo feito por você?

Durante a experiência com a Refluxo Mental eu aprendi bastante com o Lucas Dias, ex-guitarrista, que mixou e masterizou o álbum “Socialização das Perdas”.

Acho que é nítida a diferença entre “Causas Vazias” e “Operações Psicológicas”. Tudo que aprendi com esse brother eu consegui usar pra aprimorar as minhas gravações caseiras.

“Trágica Comédia” foi inspirada pelas eleições de 2018, você pode falar mais sobre essa música?

Era pra esse música chamar “Caquistocracia”, mas aí eu iria estar admitindo que acompanho o Foro de Teresina (risos). Não há problema em admitir isso, pelo contrário, mas não iria soar muito criativo, o termo já virou quase patente deles.

A letra representa essa comédia da vida real que estamos vivendo, em que o bobo da corte assumiu o trono, e dança e sapateia pra somente seu público aplaudir. Está tudo escancarado, não há necessidade nem mais de representar papéis. Quem enxerga, sofre, quem não enxerga ou se beneficia de alguma forma, aplaude. E assim seguimos…

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de agradecer ao Bus Ride Notes pela oportunidade de responder a essa entrevista. E aproveitar também para agradecer a todos aqueles que me apoiam nesse projeto.

Novas composições estão por vir. E não vejo a hora de poder estar por aí fazendo apresentações desses trabalhos. Sigam-me nas redes! Abraços!

“Operações Psicológicas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Refluxo Mental

Refluxo Mental é uma banda de punk rock de São José do Rio Preto, interior de SP, formada em 2019 e hoje composta por Ariel “Joio” (bateria), Everton “Facada” (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício “Mau” (baixo).

Em 10 de Outubro de 2020 eles lançaram seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”, “gravado e mixado com a ajuda do Estúdio Jardim Elétrico, do ex-integrante (mas para sempre integrante) da Refluxo Mental, Lucas Dias”.

Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”

Abaixo você confere nossa entrevista com eles:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Mau: A banda surgiu há uns dois anos? Quando eu vi que foi a menos que isso eu realmente fiquei surpreso, sabe? Foi Joio e eu conversando num dia chuvoso sobre fazer um som subversivo e eu mostrei a letra da musica “Crente” pra ele. A gente tinha uma outra banda que o vocalista não queria cantar musica com critica política, saca? E eu conhecia um cara que iria querer, que era o Matheus. A banda faz esse punk 77 com um pouco da influência de cada um e acaba saindo bem característico.

Em mais de uma ocasião vocês disseram que a banda veio pra combater o reacionarismo que tá tomando conta de tudo. Vocês começaram a banda pensando nisso ou foi algo que veio depois?

Matheus: Desde o início tínhamos a intenção de fazer crítica social. O próprio nome da banda foi uma intenção de demonstrar isso. Refluxo Mental é a tentativa de fazer a galera refletir sobre certas questões presentes na realidade brasileira, colocar a mente pra pensar sobre outros ângulos, que não costumam chegar a todos os espaços. O combate à barbárie e ao obscurantismo vem com informação e reflexão. É o que procuramos fazer.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Socialização das Perdas”? Houveram mudanças de formação na banda nesse período, né?

Matheus: Ideias para composições foram muitas. Como a inspiração das nossas músicas surge dos problemas sociais que impactam nossa realidade, temos (infelizmente) conteúdo de sobra para trabalhar. A parte difícil é filtrar nossas ideias de uma forma mais ou menos coerente, a caber numa melodia bacana, na velocidade do punk rock. Cada ideia finalizada começava a ser gravada de imediato. Como gravamos em home studio, íamos criando e gravando, criando e gravando, até chegar o momento de dizermos: bom, melhor a gente fechar um CD aqui, finalizando esse primeiro momento da banda (que contou com diversas mudanças).

Mau: Mudança de formação foi apenas que a banda começou como um trio Matheus, Joio e eu e depois entrou o Lucas Dias, que acabou saindo para montar o Estúdio Jardim Elétrico em Lençóis Paulista, onde foi mixado e masterizado nosso CD, e entrou o Facada que já tocava com o Joio.

Rio Preto é interior, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí?

Matheus: A cena do punk rock de maneira nacional já não é muito forte. O punk não é um estilo que agrada muita gente. No interior é ainda mais difícil. É complicado manter um ciclo constante de pessoas nos shows. Nem se fala sobre captar galera nova para ouvir o som. A internet tem ajudado bastante a esse respeito.

Vocês têm uma música chamada “Rio Preto” no disco, né?

Matheus: “Rio Preto” surgiu da indignação ao alto número de eleitores do Bolsonaro nas últimas eleições. Nossa região teve no segundo turno das eleições de 2018 uma taxa de 78% de apoiadores do dito-cujo (que é um dado presente nos primeiros versos da música). Não é fácil sair nas ruas sob o alto risco de trombar com o retrocesso. É claro que nem todo mundo compactua com as barbaridades que vem nesse pacote. Tem muita falta de informação (e desinformação) que ronda a cabeça das pessoas. É o preço de um país que investe parcamente em educação pública de qualidade. “Rio Preto”, apesar de levar o nome da cidade, representa diversas cidades que sofrem do mesmo problema.

E como vocês foram, do interior de SP, parar em Moçambique?

Mau: Cara, é uma história bem legal. Um youtuber moçambicano chamado Miguel Jorge viu um comentário que eu deixei com o Youtube da banda em uma notícia sobre a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) em Angola e entrou para ver os vídeos do canal, curtiu as músicas e marcou em uma postagem no Facebook que estava ouvindo Refluxo em Moçambique. Daí pra frente o pessoal foi pesquisando sobre e foram curtindo a página e ouvindo as músicas.

Últimas considerações? Algum recado?

Mau: Queria falar pro pessoal curtir as nossas redes sociais, dar uma força, que é disso que sobrevive uma banda autoral mesmo. Compartilhem, curtam, comentem! A gente faz nosso som aí com muita humildade e é verdadeiro, é o que a gente gosta, né? Afinal de contas se fosse apenas por publicidade pra barzinho a gente fazia cover de rock dos anos 80. Refluxo é Matheus, Facada, Mau e Joio.

“Socialização das Perdas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Tatuajë DiCarpa – Satisfação Garantida ou Foda-se

No Brasil atual, comandado por milicianos mafiosos e evangélicos fanáticos, sobre a complacência de um povo bovino, idiotizado pelas redes virtuais, a banda Tatuajë DiCarpa surge como uma mancha de ácido nesse mar de chorume.

Surgida em Rio Preto, interior de SP, pela mentes insanas do veterano Anderson Rizutti (Dischord, Academic Worms) no baixo e backing vocals, junto com a vocalista Julia, Vitor na Guitarra e Renan na bateria, a banda se propõe ao sarcasmo e ironia, tocando o dedo na ferida da falta de coerência do povo. O deboche já começa pelo nome da banda, que foi escolhido em votação numa postagem do Facebook.

O Tatuajë DiCarpa se intitula powerviolence debochado, mas lembra o grindnoise rústico do New York Against Belzebu, principalmente na fase com a vocalista Ana, com aquele tempero do punk brazuca (a cover que tem neste CD, de “Buracos Suburbanos” do Psykoze, foi uma bela sacada).
No entanto, o Tatuajë é muito mais ácido em suas críticas que os veteranos do NYAB. Em seu debut, “Satisfação Garantida ou Foda-se”, o Tatujë solta 21 pertados, contando a Intro e Outro, que raramente ultrapassam um minuto, socado em um pouco mais de 15 minutos.

Quer belas melodias? Elaborados solos de guitarra? Letras construtivas? Sem tempo, irmão. O bagulho aqui é caminhão desgovernado descendo o barranco. E a metralhadora cospe pra todo lado: esquerda cirandeira Paz & Amor (“Música Popular Cirandeira”), os lacradores de internet (“Muita Lacração pra Pouco Debate”), a indigência cognitiva dos bolsominions (“Vosê é Buro! Sofreu Doutrinassaum!”), a soberba do ‘jeitinho brasileiro’ (“Brasileiro Não é Malandro Você Que é Otário”), Sertanejo universitário (“As Três Fases do eu Lírico do Sertanejo Universitário”) e claro, não poderiam faltar temas anticapitalistas (“Desgraças do Capitalismo”) e pró feministas (“A Mina do Fulano”, “Cultura do Estupro”). Tem ainda muito deboche como em “Istrei edi Não Praticante”, “Ateu de Horóscopo”, “Urubu Guaraná” (essa bem NYAB), e também “Bate em Nazi”.
A gravação do CD está naquela rusticidade tão apreciada pelo pessoal punk/grindcore.

Um destaque interessante vai para a capa que utiliza um unicórnio com uma tatuagem (de carpa) na bunda dançando em um arco-íris. O que poderia passar despercebido ou como mera brincadeira alguns anos atrás, hoje, em tempos obscurantistas e homofóbicos, a arte surge como uma provocação aos carolas e reacionários, mais um ponto para a banda.

Uma das relevâncias do Tatuajë DiCarpa foi a sacada de somar os velhos ideais punks conectando com problemas e contradições atuais, o que parece uma simples progressão, mas muita gente se perdeu nessa curva aí. A outra relevância é, claro, o som caótico, barulhento e rápido. Ao vivo deve ser uma desgraceira infernal de fazer qualquer punk/grinder/noise abrir o sorriso.
Vida longa ao Tatuajë DiCarpa e seu deboche.

Essa resenha foi feita por Paulo Blob e também vai sair na próxima edição da Insulto Magazine. Quem se interessar em adquirir ela, entre em contato com a banda.

“Satisfação Garantida ou Foda-se” pode ser ouvido no Bandcamp:


Evento / Resenha

Inferno na Terra II

Pra fechar nosso ano de posts, vamos falar da festa da firma que aconteceu em Rio Preto: a segunda edição do festival Inferno na Terra.

A multiplicação de bandas e cenas dos últimos anos felizmente tá acontecendo em todo lugar e aqui não é diferente.
Eu considero Rio Preto minha casa, apesar de não morar mais lá, e essa renovação da cena pra quem ouve muita música e só fala disso gera muitos sentimentos.

No começo dos anos 2000 a gente tinha uns 15 anos de idade e haviam quase dez bandas de moleque fazendo música autoral. Quando eu paro pra pensar nisso acho incrível, já que é uma cidade de tamanho médio. Bom, logo apareceu a indústria do “tem que vender ingresso pra tocar” e dos bares de banda cover que acabaram com tudo isso por anos. Foi de gelar o coração. Como eu disse: muitos sentimentos.
Se algo sobreviveu durante esse tempo, eu não fiquei sabendo.

Há uns três anos conheci novos amigos, as bandas que eles têm criado e o mais importante: os espaços que têm conseguido criar. Afinal de contas, quem mora no interior sabe que precisamos usar o “faça você mesmo” e armar um show no quintal se quisermos ver um, já que a única outra opção é viajar pra outra cidade, o que é longe e caro.

O coletivo RPHC, formado por amigos das bandas locais, tem realizado eventos na cidade e o Inferno na Terra é um deles. Essa segunda edição ocorreu no Centro Cultural Vasco, um lugar extremamente agradável: tem o salão de shows, uma praça de alimentação ao ar livre onde haviam o bar e comidas (opções veganas incluso, claro) do lado de uma área arborizada com bancos pra você sentar e beber uma água se escondendo do Sol (calor infernal).

Essa edição do festival contou com as bandas:

D-Compositores, banda de punk rock de Rio Preto, formada em 2018. No seu repertório eles tocam as músicas dos antigos projetos solos de alguns integrantes e as novas músicas que eles vêm compondo.

Pinscher Attack, duo de HC rábico de Monte Azul Paulista – SP. Eles têm vários EPs que podem ser ouvidos no Bandcamp ou nas redes de stream. Fizemos uma entrevista com eles, que você pode ler nesse link.

Tatuajë DiCarpa, banda Rio Pretense de powerviolence debochado. Eles têm um CD e um Split lançados, que podem ser ouvidos no Bandcamp. Também fizemos uma entrevista com eles, que você pode ler aqui.

Nada de Novo no Front, power trio de punk rock de Rio Preto, recentemente formada. No canal do Youtube da banda você pode ouvir várias músicas.

Dischord, banda crust formada em 1996. Após um tempo parados eles recentemente voltaram com uma nova formação fazendo vários shows e prestes a lançar material novo. No Facebook da banda há alguns links pra ouvir os sons já lançados.

Gagged, banda de hardcore melódico formada em 2004 em São Carlos que tem dois discos lançados. Recomendo ouvir a banda onde for que você ouve música e ir a um show quando possível. Ouça no Spotify.

Surra dispensa apresentações, creio que se você gosta de hardcore (ou trash) já pelo menos ouviu falar da banda. Eles fecharam a noite com aquele show rápido, pesado e barulhento que a gente adora.

O Inferno na Terra foi um local de bons encontros e tamos precisando disso, nesses tempos fachos a gente precisa construir, não só resistir.

Procure as bandas. Se você for da região, tente ir a um show, se você tiver passando por aqui vale a pena procurar um.

E anotem a data: 8 de Fevereiro tem Eskröta e bandas locais no festival Respeita as Minas, Fogo nos Machistas.


Entrevista

Pinscher Attack

Pinscher Attack é um duo de Monte Azul Paulista, SP, formado em Novembro de 2018 por Thaysa e Danilo Zuccherato na bateria e guitarra.
A sua discografia é composta pelas “Canil Sessions” (que você pode assistir no Youtube) e quase todas as músicas têm letras sobre doenças mentais/emocionais.

Eles têm uma agenda bem diferente das bandas de interior, pois fazem uma das coisas mais legais que eu já ouvi falar: levar um gerador pra ocupar espaços públicos com shows (o que mais tem no interior é praça, né?).
Recentemente foi lançado o mini documentário “Guerrilha Gerador” em que a banda participa e fala um pouco sobre isso (você pode assistir ele ao fim desse texto).

Eles gentilmente nos cederam uma entrevista, que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Opa. Pinscher Attack aqui, somos um casal de HC rábico de Monte Azul Paulista – SP. Thaysa Zuccherato na batera e Danilo Zuccherato na guita e nos berros.

As Canil Sessions são o equivalente aos seus EPs, certo? Vocês têm vídeos delas e há pouco tempo colocaram os EPs nas redes de stream. Vocês podem explicar um pouco mais?

Sim, são séries equivalentes aos EPs. Quando começamos não queríamos colocar o áudio nas plataformas, pensávamos que não iriam escutar, queríamos ter tudo já com vídeo, mas algumas pessoas que curtiam os vídeos queriam ouvir off-line e falavam que não tinha como, aí colocamos nas plataformas e Bandcamp.

E cada uma delas tem um tema, certo?

Sim. Cada série tem 3 capítulos ou 3 músicas sobre o mesmo tema.

As animações pro EP/Session “Suicida” foram feitas por vocês mesmos? Ela foi a primeira Session, não?

Isso mesmo. Nosso primeiro trampo é animado pelo Danilo. Gostamos muito do resultado. Bem manual, cru e simples.

Vocês empregam bastante artes plásticas na estética da banda, podem falar um pouco sobre?

A Thaysa é artista visual, pra nós não há como desvincular a arte da vida, por isso utilizamos a arte em tudo e não poderia ser diferente na banda. Nossa casa é um ateliê.

A agenda de vocês é bem cheia pra uma banda do interior, como vocês conseguiram isso?

A maioria dos nossos shows são guerrilhas que nós mesmos organizamos com nosso gerador em cidades diferentes aqui em nossa região. Juntamos algumas bandas que topam a ideia, correr o risco e mandamos ver. De uns 15 rolês tivemos que parar por conta da polícia só uma vez, mas foi tranquilo e acabou numa boa.

Isso me leva a uma pergunta que tenho feito demais, mas é impossível não perguntar: a cena tem mudado muito nesses últimos anos, como estão as coisas no interior de SP?

Tá a mesma coisa. Casas abrem, casas fecham. Bandas começam, bandas acabam. Uma coisa que reparamos muito é que falta tesão nas bandas mesmo. Curtir ensaiar, gravar e ter a banda mais como prioridade na vida deles, nem que for um hobbie, mas um hobbie levado a sério, feito com o mínimo de organização e respeito.

Últimas considerações? Algum recado?

Valeu demais pela préza. Ficamos felizes pra kct. Valeu mesmo!

Ouça Pinscher Attack no Bandcamp ou nos sites de stream:

Documentário “Guerrilha Gerador”:


Entrevista

Tatuajë DiCarpa

Tatuajë DiCarpa é uma banda Rio Pretense de powerviolence, ou como eles mesmos se definem: “Aquela banda ruim de powerviolence debochado com um tiquinho assim de influências do carimbó”.
Formada em Maio de 2018 por Júlia (Vocal), Vitor (Guitarra), Rizzutti (Baixo/Vocal) e Renan (Bateria) eles lançaram em Fevereiro de 2019 seu primeiro disco, “Satisfação Garantida ou Foda-se”, “feito na mão sem capricho nenhum”.

Como toda boa banda de sub gêneros punk eles têm letras políticas ácidas e satíricas. Delas eu particularmente destaco “Ateu do Horóscopo”, “As Três Fases do Eu Lírico do Sertanejo Universitário” e “Istrei Edi Não Praticante”.

Eles gentilmente cederam uma entrevista pra nós, que você lê a seguir:

É impossível não perguntar sobre o nome da banda. Como vocês chegaram a ele?

Na verdade colocar nome em banda é uma parte bem complicada e chata pra mim. Ensaiamos um tempo para ver como o som tava soando, tínhamos uma proposta de realizar um lance experimental que definimos como “powerviolence debochado”. As letras são críticas e satíricas, seguindo um estilo bem conciso, tipo um meme mesmo. Surgiram alguns nomes como Madrugagrinder, Looser Manos, Faster Than Miojo, Cocaine Before Sex, dentre outros. No final, no bar em que nos reuníamos após os ensaios acabamos ficando com o Tatuajë DiCarpa que acho que exprime bem o espírito da banda.

Como e quando a banda começou?

Eu (Rizzutti) organizei um evento na escola que eu era diretor envolvendo toda comunidade escolar num sábado no ano passado, com várias atividades e uma delas foi uma mesa redonda sobre descriminalização de drogas, o Vitor tava mediando essa mesa. Após isso trocamos ideia e ele falou que tava afim de montar uma banda. Como eu tava sem tocar nessa época, falei que se ele arrumasse um baterista a gente começava a banda e assim foi.

Quais são algumas das referências da banda? Tanto no som, como no geral?

Musicalmente é uma miscelânea já que cada um escuta coisas diferentes. Mas o som é influenciado por bandas hcpunx que fazem um som mais cru, direto e barulhento. No geral, as letras são feitas sobre política e cultura atual, discutindo desde os aspectos macros como os micros desses assuntos da atualidade. Na maioria das vezes com um humor ácido, que é uma característica. Também achamos de suma importância posicionar-se de forma clara contra o fascismo, o preconceito, a intolerância, o machismo, racismo, etc, de forma clara, especialmente no momento sinistro em que vive o nosso país. E como diz o lema da banda: Tatuajë DiCarpa, satisfação garantida ou foda-se!

Eu já morei em Rio Preto e sempre voltei pra visitar os amigos, mas essa cena underground é novidade pra mim. Ela é recente mesmo? Vocês podem falar sobre?

Realmente a cena em Rio Preto tem se renovado e atraindo o interesse de cada vez mais pessoas pelo movimento, pelas ideias e pelos eventos. Temos produzido materiais e temos algumas bandas tocando sempre por aqui. Estamos procurando ocupar vários espaços para propagar ideias e tal. Também foi criado um coletivo chamado Coletivo Panela De Pressão que reúne bandas de uma ampla região aqui do interior e tem realizado vários eventos, especialmente em espaços públicos. E é isso, vamos pra cima! Fascistas não passarão!

Como surgiu a parceria com a Prayana pra lançar um split?

Tem uma explicação muito legal que eles deram numa entrevista, até colocamos o trecho na pagina do Facebook da banda. Eles conheceram o Tatuajë DiCarpa pela net e tiveram uma identificação grande conosco. Daí entraram em contato conosco e fizemos esse split virtual que foi muito gratificante pra gente. A gente também se identificou muito com o Prayana. Também tivemos a oportunidade de conhecer a Edenir Aprigio que fez o desenho da capa do split. Os desenhos dela são muito foda!

Entrevista concedida ao Raro Zine

Últimas considerações? Algum recado?

Vamo que vamo. Em breve estaremos gravando material novo. Estamos trocando de guitarrista após a saída do Vitor, mas vamos dando sequência. Ainda temos cópias do nosso CD “Satisfação Garantida ou Foda-se”, adesivos, bottons e camisetas. Quem tiver interesse é só entrar em contato.

Além do “Satisfação Garantida ou Foda-se”, eles lançaram um split com a banda Prayana de Vitória, ES, ambos podem ser ouvidos no Bandcamp da banda.


Evento / Resenha

Ventos e The Overalls no Podrão

Pra contexto: Fernandópolis é uma cidade de 68 mil habitantes no noroeste paulista, uma região de cidades “gêmeas”, pois são todas iguais: pequenas e sem muita coisa, o famoso cu do mundo onde nada acontece. Alguns amigos costumam brincar que literalmente nada acontece, nada de bom e nada de ruim.

Foi aqui que há poucos anos surgiu o Podrão Underground Bar. Diferente da maioria dos bares alternativos (eu detesto quando essa palavra é usada nesse contexto) daqui que exclusivamente contratam bandas covers e/ou exigem um mínimo de horas de show, como se estivessem alugando uma jukebox, o Podrão é um lugar bem agradável. E pequeno.
Além de eventualmente hospedarem shows de bandas autorais (coisa que não tem muito na região) vez ou outra trazem bandas internacionais pra cidade.
Quando anunciaram o show fiquei surpresa e feliz com a presença da Overalls, que não é uma banda de metal (basicamente é só isso que tem por aqui).

Foi aqui, também, que surgiu a Ventos, banda recém nascida, de Votuporanga.
Conhecidos de outras bandas, eles se juntaram pra agora fazer um som com as novas influências e diferente do que tem por aqui.
Eles misturam emo com dreampop e as vezes bebem na fonte da MPB, um amigo descreveu como “um som bom pra colocar no fim de tarde e fumar um apreciar”.
É mesmo um som bem gostosinho com guitarra aguda estalada, de letra “triste, melódica e sincera”, por vezes também falando de um certo mito que foi quebrado.
Eu diria que assistir ao show num lugar pequeno e com pouca luz, como o Podrão, foi aconchegante. Esse, que inclusive, foi um dos primeiros shows da banda. Com oito músicas prontas, eles pretendem gravar algo ainda esse ano e por isso coloco aqui um video:

Eu não conhecia a Overalls antes do anúncio do show, ouvi algumas músicas na internet e não formei opinião nenhuma. Imaginei que o show seria ao menos interessante, jamais imaginei que seria tão divertido. Essa é a única palavra que consigo pensar pra descrever o show: divertido. Com direito a tentativa de crowd surfing e wall of death carinhosa (pois ninguém machucou ninguém).
Eu não sei descrever o som da Overalls, mas as vezes me aparenta uma mistura de Muse e nu metal (provavelmente vou ler isso daqui uns dias e dar risada, é melhor você mesmo ouvir).

Depois do show, no disputado sofá ao lado da mesa de merch, eu virei intérprete dos meus amigos e a banda sem ao menos perceber. Pessoal muito simpático (ambos).
Foi uma noite bem agradável, com a sensação respirar ar fresco depois de muito tempo fechada em casa.