Bus Ride Notes

Posts by Fernando

Resenhas

Sobre o dia em que ouvi o disco “Sintoma”, da In Venus

Esse tem sido o ano que mais tenho lido resenhas. Isso é ótimo, mostra que as pessoas continuam criando, “apesar de você”. E hoje chegou meu dia de fazer minha primeira resenha pra valer. Não sei usar os nomes corretos, os gêneros musicais, descrever panoramas e apostas. Então vou usar o estilo “Mama Rachmuth” e resenhar com o coração. Com atropelo, com a paixão das coisas, com o que atravessa a gente quando ouvimos a música que nos toca.

E essa resenha é, nada mais nada menos, do que do disco mais esperado desse ano. Não importa o tipo de música que você ouve dentro do punk, a bolachona da In Venus é o gatilho mais foda que tá rolando, que rememora os dias de shows e encontros. E que prepara o coração pros dias que virão, cheios de raiva e afeto.

Acho que falar desse disco é falar do que queremos pro punk que vivemos. Porque eu sei que você também quer mais autonomia e controle da música que você cria, mais trocas nas relações e espaços que fazem parte desse meio. Falar desse disco é falar do quanto precisamos da arte punk, dos fazeres coletivos, das construções fugindo de algoritmos. Mas também é falar de acesso, de quem pode pagar, da música enquanto produto. É um disco pra gente repensar o que temos feito enquanto comunidade.

Em abril as músicas já estavam rolando na internet, parte da arte do disco também. E aos poucos foram aparecendo entrevistas e o disco foi criando uma forma na cabeça de quem estava ouvindo devagarzinho e esperando o físico sair. Tenho certeza que nesse momento as músicas passaram por muita gente e nem ficaram. Não dá mesmo pra separar a música punk de todo resto. Eu nunca escuto música olhando pro nada, coloco o som e olho a capa, viro pro outro lado, tiro o encarte, olho a capa de novo, procuro a letra pra cantar junto, vi ali que tem participação na música, “Ah, bem que sabia que era ela”, olho a capa de novo, “Que arte mais loca”. Não dá pra ouvir música punk olhando pro nada. Até mesmo na internet, tem sempre que passar um olho na telinha pra ver a imagem e reafirmar a memória e o afeto da coisa.

E foi nesse ritmo que, mesmo escutando meses antes na internet, ouvi pela primeira vez o disco “Sintoma”, da banda In Venus. Sábado agora chegou a bolacha toda linda aqui em casa e vou tentar juntar tudo isso que eu queria falar com a pira de ouvir na vitrola.

Capa perfeita do disco “Sintoma”, da In Venus

Quando abri o pacote e vi aquela capa enorme, deu um misto de “Que foda!” com “Que punk!” porque é bem essa ideia que esse disco traz, algo esteticamente incrível que só um LP dá, com a confusão e beleza das cores e forma da colagem da capa. Arte feita por Erikat, da Coletiva Formas, que tem uma história massa por trás, algo como uma intervenção com os livros que cada uma da banda deu pra ela envolver a coisa toda. Eu li na resenha que saiu na Música Pavê, lê lá.

E aí não soube o que fazer primeiro, as letras estão impressas num poster gigante, já coloquei no chão igual um mapa, botei a bolacha na vitrola e a mágica aconteceu.

A primeira música já vem com uma rasteira, “Hen to Pan” fala sobre oroboro, a serpente comendo o próprio rabo, na hora lembrei da zine da Ju Gama. A roda da existência, esse é o nosso rolê nessa vida, nada perfeitinho e vivendo as glórias e tristezas disso tudo. O som é frenético, um ritmo alucinado, se eu fizesse um filme colocaria essa música na cena correndo num beco escuro, com uma faca na mão, que é a melhor descrição de viver que existe. É pós punk? Não sei, pra mim é punk.

A segunda é “Ninguém se Importa”, quase um anúncio dos anos de pandemia nesse Brasil governado por fascistas. “Tá tudo uma merda, e não é só pra mim, é pra mim e pra você, então o que fazer além de reclamar e divagar? Às vezes tenho vontade de gritar!”. Caraca, quem não tá com vontade de cantar esses versos num show? A música tem um pegada Mercenárias que amo.

Depois vem a “Quatro Segundos” e nossa, já veio um manguetown na cabeça, aquele sonzinho do agogô no fundo é lindo. A própria letra e a forma como ela foi colocada ali dá esse climão Chico e dedo na ferida. “O paladar, a gula e o prazer só pra quem detém o poder”. Eu tô na terceira música e já tomei vários tapas, volto pro mapa no chão e rio sozinho de tão foda que é.

Aí vem “Cores”, que pra mim é mais forte do disco. Porque ela é denúncia, mas ela também é muito reconhecimento da existência e luta, que é diária. É tipo hino, e como todo hino é ferida, mas é levante também. A mais foda.

“Bordas” é a ultima do lado A, e nessa hora eu já tô tão dentro do disco que acho que elas criaram seu próprio movimento e sonoridade e não consigo mais comparar com nenhuma banda, as músicas se parecem com In Venus e é isso hehe. Eu danço fácil essa, sem passinho definido, só na levada da coisa. “Bordas” fala de propriedade, território e toda essa ideia merda que vem sustentando modos de vida sem sentido algum, que só gera morte. Quando a música acaba rola uma parte de outra música e Rodrigo falando “Quebrou a corda”.

Amo esses extras de fim de música, na moral <3

E essa beleza de bolacha?

Hora de virar o disco. É um 180g translúcido, pesadinho e lindo de ver. Veio também um poster incrível feito por Rodrigo Lima e Erikat, uma intervenção em cima de alguns trampos já feitos pela Coletiva Formas. Digno de emoldurar e jogar pra cima da parede. Eu já imaginei um lambe foda dele pela cidade, em preto e branco e com as rugas de dobrado na cola.

A sexta faixa se chama “Ansiedade” e acho que ninguém vai escapar dessa. É a minha dor e vida nesses últimos anos, e acredito que a sua também. O baixo é lindo, difícil não se deixar levar por ele em todas as músicas. No show vou ficar do lado da Patricia só pra ouvir ele batendo no coração.

Depois vem “Silêncio”, o baixo aqui tá lindo também e junta com um synth (eu acho) bem no destaque. Quase hipnotizante, só que com a energia lá em cima. Tipo transe né, essa é pra escutar bem alto.

“Velocidade Líquida” vem no mesmo clima, guitarrinha dando um loop na sua mente, bateria frenética. Batera que, por sinal, deu uma identidade perfeita no disco. A real é que cada instrumento ali se fez de um jeito único.

E aí vem “Hipócritas”, a música mais música, a letra mais letra. Já aproveita que aumentou o volume nas de antes e se acaba nessa, que tem o sax do Rafael Nyari, quase desconcertante. Pega o encarte e canta junto, essa é de tomar tapa, eu e você.

E quando olho já é a última do disco, “Ancestrais”. Pesadíssima, fala sobre ancestralidade e formas de vida que se perdem, ou melhor, são destruídas pelo branco capital. Ela tem participação de Renato Kuaray, que também participa da composição da música. Essa é linda demais, fecha o disco de uma forma incrível, junto com um quase som-imagem, daqueles que você fecha o olho e imagina a dança e a vida se fazendo.

Encarte tamanho mapa, capa e pôster tamanho lindo

“Sintoma” foi lançado pela No gods, No masters e parte da pré-venda foi revertida pro Vivência na Aldeia, um projeto social de apoio às comunidades indígenas no litoral sul de São Paulo. O disco, a banda, No Gods, No Masters, nós que acreditamos no punk como espaço e momento de pensar outras formas, está tudo ligado e é isso que nos faz comunidade.

E aí, ter essa bolacha em mãos faz a gente pensar em todo esse boom de mídias analógicas e como tem se dado o acesso a elas. É inquestionável a força que a mídia física tem pro punk, a gente poderia cair por cima de mil ideias em torno disso, muito da base que temos do hardcore/punk é sobre ter o controle da nossa música, seja decidindo o que e como criar, até como fazer tudo isso circular e se manter vivo, sem qualquer viés de mercado apontando dedo e enchendo o bolso. É foda demais ver as bandas lançando discos e fitas, a galera criando seus selos. Mas também causa incômodo ver o valor de tudo, não tem como.

Que a gente consiga entender onde estamos nisso, de todas as formas. As bandas continuam lançando CD-R com capinha xerocada, CDs no papelão, gravando em fitas velhas, K7s novas e também em discos maravilhosos como esse da In Venus. Esse é o ponto, criar fora do algoritmo e fazer existir no chão de um show, na troca de mãos, no abraço e no “Que foda, vi o show de vocês e amei, tem material?” e tudo isso acontecer no encontro, longe da tela. Não tem como não ser bom.

Como eu disse lá no começo, pra mim esse é o disco mais esperado do ano, porque esse é o punk mais apaixonante que temos e que queremos que nunca deixe de existir. Vivo e ativo, feito por nós, invertendo a lógica e dançando com a nossa revolta.

Terminei o disco assim, querendo tramar e confabular, derrubar tudo e partir daí.

Porque eles nos devem uma vida.

É claro que devem.

“Sintoma” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas / Selos

Big Cry Records – The kids will have their say

O punk é da juventude, fazendo por ela mesma, mostrando o quanto pode criar e fazer barulho por aí.

É bem nesse clima que surge a Big Cry, um coletivo faça-você-mesmo da capital paulista que bebe da água da Dischord do nosso amigo Ian, do punk com melodia e sentimento e da ideia de uma cena menos hétero topzera.

É uma movimentação de extrema importância, nos moldes da cena “pop punk queer feminista” independente que se formou nos EUA e Inglaterra, de bandas como RVIVR, Sourpatch, Aye Nako, Peeple Watchin’, Martha, Worriers e inúmeras outras, que reforçaram o punk como um espaço necessariamente além/fora do padrão cis-branco-macho que se fez durante muito tempo. Um pop punk político em oposição ao vendido pelo mainstream, por vezes bobo e distante do próprio punk.

Segue abaixo uma entrevista que fizemos com eles, sobre os projetos e os feitos do coletivo até aqui. Com vocês, Vini, Lucas, Miguel e Luke:

Ei gente, como vocês estão? Queria que vocês contassem um pouco sobre o começo da Big Cry, quem faz parte e a ideia por trás do projeto. Um selo? Um coletivo? O que seria?

Miguel: Primeiro queria dizer que é um prazer tá podendo contar um pouco da nossa jornada até agora. Estamos no comecinho ainda, mas já tem bastante história!

Bom, o projeto inicial da Big Cry era ser um selo independente pra dar suporte pra bandas e artistas, com foco nas que não tem muita experiência, não tem um bom suporte, tão muito no começo, não tem ideia de como seguir, por onde seguir, enfim… E fazer tudo isso de uma forma bem acessível, que fosse bom tanto paras bandas quanto pra nós. Levantar uma nova cena, inclusiva, respeitosa, diversificada, abolir aquele velho HC “hétero top” de sempre.

Grande parte dessa vontade é pela experiência que nós passamos quando mais novos. Primeira banda, aquela energia adolescente, doidos pra tocar por aí à fora, registrar nossos sons, participar de festivais, tocar com outras bandas, agregar mesmo, montar uma cena local. E aí a gente dá de cara com a realidade, né? Tudo muito caro, inacessível, difícil de achar lugar pra tocar, difícil de encontrar gente pra tocar junto, difícil de gravar.

Esse é justamente o sentimento que faz a gente levar nosso projeto pra frente, é trazer essa molecada toda que tá começando e que tá com aquele tesão de fazer o negócio acontecer. Fazer essa ponte entre os artistas e eventos, shows, gravação de qualidade por um preço justo. Levantar toda essa galera pra uma cena nova, esse é o grande sonho.

Aí também entra a questão do nosso projeto de coletivo. Nós já começamos com uma grande parceira que é a Modern Souds, produtora de eventos da nossa grande amiga Clara Ferreira, ela já entrou de cabeça nessa loucura com a gente.

E queremos expandir ainda mais e trazer outras vertentes, além das cenas emo, pop punk e hardcore. Somar cenas do rap, trap, alternativo, tudo ligado à contracultura, o undergound num geral. Fortalecer toda essa gama de artistas independentes que não tem suporte.

Nosso trampo preza a coletividade, fazer tudo junto. As bandas, os artistas se apoiam, se divulgam, se ajudam, de igual pra igual. É uma parada que a gente não vê mais.

E também uma das pautas mais importantes é nossa luta pelo fim dessa cena predominantemente masculina, hétero e branca. Essa sede de reformular, dar espaço pras mulheres, pros pretos, pra toda comunidade LGBTQIA+.

O punk é isso, é a revolta dos humilhados, dos abandonados. Mostrar que a gente tá aqui presente e que não vamos desistir de levar nossa arte, nosso som. Dar aquela varrida nessa gente machista, racista, homofóbica, toda essa podridão que tá entranhada na cena atual.

Miguel, Vini, Lucas e Luke

Quando o Lucas me contou sobre a Big Cry, pensei no quanto isso era incrível! Eu estava comentando com ele sobre uma cena “pop punk queer feminista” específica que rolou a partir de 2008 lá nos EUA, que juntou uma galera massa, não branca, latina e que foi um boom enorme pro que conheço e entendo por pop punk underground hoje. E saber que existe uma movimentação assim aqui, feita por jovens, é pra gente ficar feliz mesmo, né? Conta um pouco das referências de vocês, tanto na música emo e pop punk, quanto na forma de fazer tudo isso.

Vini: Acho que a principal influência que une nós quatro é o Ian Mackaye, junto com suas bandas Minor Threat e Fugazi, e principalmente a Dischord Records.

Sempre foi uma cena que nós admiramos muito, e eles começaram justamente como nós começamos: tentando gravar as próprias bandas, com o pouco que tinham, e fazendo tudo de forma independente e pelo DIY.

Agora citando referências brasileiras, apreciamos muito o trabalho da Modern Sound, da Clara Ferreira, aqui em SP. Ela faz um role muito foda, praticamente sozinha, e já trouxe até banda gringa pra cá.

Também nos inspiramos muito com o trampo das minas da PWR Records, que tem um trabalho lindo como selo e produtora, além da Bangue Records, um selo e gravadora voltado para bandas do Vale do Paraíba e região, e que apareceram em 2020 construindo uma cena muito massa por lá.

Aproveitando que falei dessa cena, tem uma coisa que sempre vi aqui e que não mudou muito hoje, que é a forma como as pessoas veem o pop punk: desvinculando do punk na maioria das vezes, por falta de um discurso político panfletário e pela melodia das músicas. O mainstream ajudou muito pra se criar essa ideia de pop punk como coisa de adolescente bobo, mas a gente sabe o quanto ele pode ser político, principalmente por acolher uma galera que se sente excluída do hardcore macho branco. Vocês acham necessário essa reafirmação do pop punk enquanto punk ou foda-se essa galera e bóra criar nosso rolê? Qual sentimento de vocês quanto a isso?

Vini: Eu acredito muito na gente criar o nosso próprio rolê, mas isso não implica necessariamente na desvinculação com o lado político do punk, até porque tudo é político, e mesmo grande parte das letras de pop punk não tratando sobre assuntos políticos, isso não significa que a banda não tenha posicionamento.

Devemos, sim, criar nossa própria cena, mas sem esquecer nossas raízes, que sempre foi algo voltado à contestação, à ir contra o status quo. A ideia com a Big Cry sempre foi a criação de uma cena que trouxesse abrigo pra essa galera excluída, que não tem suporte, e erguer isso por nós mesmos, e isso por si só já é um ato político.

Estúdio e QG da Big Cry

Em março de 2020 ia rolar o primeiro fest Big Cry, mas a pandemia adiou o rolê. Qual era expectativa pro evento na época? Poderiam contar um pouco sobre ele?

Miguel: Bicho, nossa expectativa tava incrivelmente alta! Era a festa de estreia do selo e nosso primeiro trampo de fato.

Fizemos toda correria pra conseguir o equipamento, juntamos o que nós já tínhamos, uma galera emprestou o que faltava, as bandas iam ajudar com uma parte também, foi aquela loucura haha.

Nós fechamos com três bandas, Ment que é uma banda parceiraça nossa e deu todo suporte logo no início, Nâmbula Mangueta, nossas amigonas e vizinhas de estúdio e Zero to Hero, banda de pop punk e emo de Taubaté que já tínhamos contato há tempos.

Também ia tocar a Lights Out (atual Lovemedead), banda que eu e o Carmo fazemos parte. As bandas iam se apresentar de tarde e de noite ia ter discotecagem com a Clara.

Uns amigos nossos se responsabilizaram em montar uma cantina vegan, porque o evento ia rolar o dia todo. Estávamos pra fechar com duas tatuadoras também, pra lançar umas flash tattoos. Montamos um esquema pra venda de merch das bandas, enfim, tava tudo lindo de mais… Nossa expectativa era que passassem por volta de 100 pessoas durante todo o evento. Inacreditável pra gente haha.

Mas aí o soco no estômago, né? Cancelamos o evento umas duas semanas antes dele acontecer, devido a pandemia, e aqui estamos sonhando com a queda desse governo e com a vacina pra gente poder retomar o projeto da festa, que dessa vez vai ser muito maior e mais legal!

Dia 12 de maio saiu o primeiro single produzido por vocês. Como foi tudo? Gostaram do resultado? Musicalmente falando, o que marca uma produção da Big Cry?

Luke: Então, na verdade “I Never Wanna Sleep Again” foi a primeira produção inteiramente feita no nosso estúdio, que montamos em março. O resultado foi ótimo, a acústica do lugar ficou bem boa, e a música foi muito bem recebida!

O que marca uma produção da Big Cry exatamente eu não sei te dizer, mas o que eu posso falar é que todas as pessoas que gravaram e gravam com a gente viram nossos amigos, o processo é sempre muito divertido, e tenho certeza de que isso influencia bastante na personalidade e sonoridade que os sons trazem!

Sei que vocês curtem um mainstream, mesmo vivendo o D.I.Y. e fazendo as coisas por ele. E aí eu queria fazer uma reflexão daqueles anos do pop punk emo no Brasil, os anos da Trama Virtual, dos festivais e do Rick Bonadio emocionado com tudo isso haha. Porque pensar que hoje aquela movimentação não existe mais, não dá mais a grana e mídia que dava, faz a gente pensar na cilada que pode ter sido aquilo. Vocês conseguem criar um cenário ideal pra gente que faz e vive esse tipo de música?

Lucas: Eu particularmente acho que a música é muito cíclica, soa como uma matemática exata, as vezes o rap tá em alta, as vezes o pop, as vezes o rock e geralmente isso acontece com roupagens diferentes, como foi o trap ou como tá sendo esse pop punk atual. Então talvez os “boss” que comandam essa mídia possam achar que a gente precisa de um descanso e assim vão mudando as coisas.

Mas ainda assim, eu acho que o mainstream é uma porta de entrada muito interessante, afinal muita gente do hardcore nem ouviria falar de underground se não tivesse ouvido Pitty lá nos anos 2000.

Porém, mesmo sendo uma vitrine e talvez uma forma de representatividade pra animar as pessoas a fazerem, quem amava de verdade sempre acabou seguindo pelo independente e pelo underground. Com raras exceções de bandas como Fresno que foram, se mantiveram no mainstream, e hoje se tornaram praticamente um marco na história da música brasileira.

QG Big Cry de fora (pegou a referência? <3)

Hora da lista. Cinco bandas de cada um, de coisa nova que vocês tem ouvido:

Luke: Be Like Max, Futuro, Anti-Queens, The Carolyn e Can’t Swim.

Lucas: Destroy Boys, Creeper, Grumpster, Salem e Pity Party (menção especial pros singles novos do Fiddlehead).

Miguel: Pinkshift, Meet Me @ The Altar, Yours Truly, Mod Sun e Double Play.

Vinicius: Desventura, De Carne e Flor, Nothing, Charmer e Gulfer.

Acho que é isso, gente. Se quiserem falar sobre algo que não comentei, fiquem a vontade. Vi que está rolando uma camisa linda de vocês e tal <3 Vida longa à Big Cry!

Lucas: A gente agradece demais pela oportunidade, queria agradecer você e todo mundo do site por isso! Essa é talvez nossa primeira aparição pública haha e tô muito feliz de fazer isso com você!

A nossa primeira leva de camisetas foi encerrada no último dia 12, agora estamos na fase de produzir.

Ainda estamos entendendo como tudo funciona e como fazer de uma forma melhor, mas é isso, fiquem ligados no nosso Instagram que em breve vão rolar muitos lançamentos. Beijos e leiam zines.


Entrevistas

Madellena – Punk Riot Capixaba

Quando se fala em hardcore/punk capixaba, o que vem primeiro na sua mente? Espero que tenha sido Funny Feeling, Inside Reality e toda a leva de bandas incríveis que foram influenciadas por elas. A gente pode fazer vários recortes do que aconteceu e do que tem rolado no Espírito Santo, todo mundo conhece os selos e as bandas famosas dos caras, e os estilos que fizeram a fama de Vila Velha. Mas aqui também tem muita banda inspirada na cena riot e queer, como a The Truckers e Whatever Happened to Baby Jane atualmente e Lady Laura num passado não tão distante. E é desse cenário que vem a Madellena, banda nova que estreou ano passado com uma sequência de shows incríveis.
Segue abaixo uma pequena entrevista respondida pela banda.

Madellena começou a tocar em 2019, mas ela de alguma forma foi pensada e os primeiros passos se deram bem antes, certo? Conta um pouco como foi esse início e como vocês tem percebido esses primeiros shows, a resposta das pessoas e a percepção de vocês da banda, já é a Madellena que gostariam de ser?

Livia: Na real a ideia da banda começou no finalzinho de 2017 ou início de 2018 (não me recordo), ela surgiu de um papo que Alexandre estava trocando comigo e acabou me perguntando se eu sabia de alguém que cantava pois ele queria formar uma banda com vocal feminino mais voltado pro punk e alternativo, eu respondi que sim, eu mesma. Demoramos um pouco pra achar alguém que topasse tocar bateria, depois ficamos sem batera novamente por um bom tempo. Então, Alexandre conversou com Vanessa e ela decidiu entrar. Os shows foram todos bem especiais, sempre vi muita gente curtindo o som, em especial as meninas. A banda, formada e completa, ainda tá bem no início, e apesar de eu já estar super satisfeita e orgulhosa do som que a gente vem fazendo, acho que ainda vamos evoluir muito e tomar cada vez mais forma ao longo da nossa trajetória.

Antes do mundo começar a acabar, vocês postaram que a banda ia começar a ensaiar com uma baixista. Essa necessidade surgiu dos shows ou era uma vontade desde o começo? Acho que a gente sabe quem é a baixista hehe como foi o contato com ela?

Desde o início a ideia era ter alguém no baixo, de preferência alguém que também pudesse fazer segunda voz. Mas, a gente não quis deixar a falta de um baixista atrasar ainda mais o projeto, e seguimos sem por um tempo. Vanessa, que inclusive já tocou com Ignez, trocou ideia com ela. Ela, para nossa felicidade, acabou topando assumir o baixo. Inclusive estamos super animadas pra ter um ensaio com os quatro integrantes presentes, o que até então não foi possível.

A pergunta é cliche, mas vamos lá. Musicalmente, da onde vem a influência? Bandas e cenas e tal. E pelo pouco que conheço de vocês (pelo menos o Ale e a Livia), sei que vocês tem um pé no metal e música mais extrema. E aí como é construir as músicas da Madellena respirando e vivendo outros rolês de música? Rola de conciliar ou vocês conseguem separar bem as influências?

Nossas maiores influências estão no movimento riot grrl e punk em geral, com um carinho especial pelas bandas Bikini Kill, Sonic Youth, Fugazi, Babes in Toyland, Dominatrix, Pin Ups e Violet Soda. A banda é formada por pessoas muito ecléticas, que curtem tanto som extremo como uma parada mais “água com açúcar”, e acho que todas as nossas influências nos trouxeram onde a gente tá hoje, mesmo que algumas não sejam tão presentes na hora de compor uma música. Por isso, curtir e ter conhecimento de outros roles é importante, não só pra apoiar o movimento como um todo, mas também pra tirar a gente da mesmice, incorporando elementos novos nas nossas composições.

Na banda tem gente que toca em outras bandas, que organiza shows, que frequenta e faz parte de outros undergrounds além do punk. Então não tem pessoas melhores pra eu perguntar sobre o rolê aqui no ES do que vocês. Como vocês tem visto a movimentação aqui? De alguma forma vocês acham que a gente tem acompanhado o que tem rolado nas outras capitais? No sentido de como se organizar e abraçar algumas ideias. Como público, como banda e como “produtores” de shows, o que vocês acham que tem dado certo e o que a gente precisar mudar?

Apesar do machismo e das panelinhas que infelizmente fazem parte da maioria das cenas, eu vejo o underground da Grande Vitória de modo positivo. Nos últimos anos surgiram várias bandas novas e alguns novos lugares pra tocar. O mais bacana de testemunhar é que a própria galera das bandas está organizando os seus shows. É comum ver que certos eventos são concebidos pelas próprias bandas, cada um leva uma coisa (bateria, amplificador, mesa de som) e o show acontece. Surgiram alguns coletivos que fizeram eventos fantásticos, como o “Coletivo Comuna” e o “Matilha Punx”. Acredito que a cena local é composta por poucas pessoas devido à uma população pequena comparada com SP, por isso basicamente todos se conhecem. Veremos como tudo ficará após a pandemia.

E como estão os planos de gravar? Quer dizer, com a pandemia acho que as coisas pararam pra muita banda. Mas vocês tinham alguma movimentação de gravar? E aproveitando a pergunta, como vocês veem essa era do streaming, que já vem de um tempo, mas que acho que agora firmou no underground? Vocês acham legal esse jeito da gente lidar com a música que a gente produz? A gente que eu digo, punk, contracultura.

A banda já estava com projeto de gravação antes da pandemia, mas tivemos que adiar esse desejo. O streaming é uma ferramenta interessante de interação com o público, pois aproxima o que está longe, nesse momento de quarentena tem sido a maneira de alguns músicos sobreviverem do próprio trabalho, o que por si só é extremamente relevante. Agora, dizer que é melhor que o contato com as pessoas no show, acho que ninguém vai concordar com isso, rs. E também não é a única maneira de usar a tecnologia para produzir musica, estamos rascunhando uma maneira de interagirmos através da tecnologia sem perder a essência das criações.

Esses últimos anos o hardcore punk cresceu em vários sentidos, mesmo muita gente dizendo que antigamente era melhor. Cresceu porque deixou de ser menos heteromacho, se criou uma movimentação muito forte queerfeminista, muitas vezes até à parte do que estava rolando. Vários festivais grandes feitos por elas e elus, várias bandas queer e foi bem um atropelo mesmo. Como vocês tem visto esse role todo? Enquanto banda, enquanto pessoas envolvidas no que existia antes e no que tem rolado agora.

Houve uma época em que tínhamos mais bandas com mulheres aqui na cena capixaba. Bandas como Kamomila e Inside Reality fizeram história. Recentemente a Whatever Happened to Baby Jane foi muito importante pra reafirmar e fortalecer o papel das meninas e mulheres na cena. Na maioria dos nossos shows tocamos com outras bandas que têm membros femininos ou só com mulheres, como a The Truckers. Creio que todo mundo já notou que nos últimos anos várias bandas com essa característica ganharam bastante destaque na cena. Grupos como Violet Soda, Bioma, Anti-Corpos, Miêta, Pata, Weedra, Time Bomb Girls, Eskrota, Nervosa, Ema Stoned e várias outras vêm fazendo um belo trabalho, com músicas de qualidade e atitude. Além disso, foi lindo ver Dominatrix e Pin Ups voltando a fazer shows no ano passado. Creio que a tendência daqui pra frente é que a cena de diversos lugares se torne cada vez mais feminina. Eu particularmente não aguento mais ouvir macho cantando, rsrs

Madellena é Lívia nos vocais, Vanessa na bateria, Alexandre na guitarra e futuramente a Ignez no baixo.
Essa entrevista também saiu em formato físico no zine Herencia, lançado esse mês.