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Entrevista

De Carne e Flor

De Carne e Flor é uma banda de post-hardcore formada em São Paulo em 2016 e hoje composta por Bruno Araújo (voz), Dan Carelli (guitarra), André Jordão (guitarra) e Eliton Si (bateria/voz).

Em Novembro de 2018 eles lançaram o primeiro EP, “Teto Não Familiar”, e fizeram o primeiro show.

Como quase todo post-hardcore e post-rock o som é muito melódico e as letras emotivas e de natureza vulnerável, nesse caso sob um mesmo tema. Por esse motivo eu recomendo que você ouça antes de ler a nossa entrevista, porque esse aspecto pessoal faz cada um interpretar as letras de uma maneira diferente.

A banda cita como influências Alexisonfire (Canadá), Envy (Japão), Touché Amoré (EUA), Pianos Become the Teeth (EUA), Colligere (Brasil), Suis La Lune (Suécia) e Viva Belgrado (Espanha), inclusive o nome da banda foi inspirado na música deles de mesmo nome, assim como a “inspiração para a exclamação dos versos em idioma latino, o que aumenta a dramatização pois viabiliza uma maneira mais carregada de pronunciar os versos”.

E nem só de referências musicais é feito “Teto Não Familiar”, esse é também o título do segundo episódio do anime “Neon Genesis Evangelion”, exibido pela primeira vez em 1995 no Japão.

Entre todos os seus detalhes, o EP contém quatro faixas que, dispostas de modo linear, formam a frase “A âncora que jogamos nas poças se transforma em medo e em desejo de um teto não familiar”.

A capa do EP é uma ilustração de Cristal Ganda, baseada em uma foto do quarto do vocalista Bruno. A marca quadrada no canto superior direito é uma referência ao Selo Preto (fundado por integrantes da banda), representando seu primeiro lançamento inédito.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Bruno: A banda foi formada em 2016, com integrantes espalhados pela metrópole de SP (e continua sendo assim, mesmo com as mudanças de formação). O som é gritado, melódico e confessional.

“Teto Não Familiar” é um EP conceitual? O nome é uma referência e as letras seguem uma mesma linha de raciocínio. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas?

Bruno: “Teto não-familiar” é o nome do segundo episódio de Neon Genesis Evangelion. A ideia de lançar um EP com esse nome surgiu na minha cabeça já na época em que a Black Clovd estava na ativa, era pra ser o nome do próximo lançamento, só que em inglês. O tema não foi intencional nas letras, mas ao ver as quatro músicas prontas, enxergamos que elas compartilhavam essa sensação de despertencimento, daí de última hora surgiu a ideia de formar uma sentença com a ordem dos nomes, gerando essa interação entre todos os elementos do EP de forma espontânea.

O primeiro show da banda foi depois do lançamento do EP, certo? Isso não é muito comum, como vocês chegaram a essa escolha?

Bruno: Acho que foi uma questão de foco. Queríamos estar bem ensaiados já na estreia, pra marcar bem o lançamento. Ter o EP lançado também serviu pra atrair o público e o pessoal que andava curioso com a banda desde o início, já que ele levou dois anos pra ser lançado desde que a banda começou. Aconteceu também de o André (guitarra) entrar na banda na reta de finalização do EP, então foram necessários mais uns ensaios pra ele aprender os sons e se inteirar com todo mundo.

A última música do EP, “De um Teto Não Familiar”, tem uma história, né? Você pode falar sobre?

Bruno: Escrevi a letra inspirado numa conversa com a minha mãe, onde ela narrou a trajetória de uma parente próxima que fugiu de casa ainda muito jovem pra se estabelecer em São Paulo (toda a geração anterior à minha da minha família foi nascida e criada no Ceará, tanto do lado materno quanto paterno). A ideia era fazer uma crônica ou um conto mesmo, mas acabou virando uma homenagem aos familiares e ao mesmo tempo um desabafo, tendo a luta e sofrimento que motivaram a ação libertadora da parente e toda sua geração como contraste à letargia e deslocamento que sentia na época que escrevi, e que também vejo permeados coletivamente hoje em dia. Não é algo novo ou criado por nós, mas em discussões ou reuniões a gente vê a diferença de tratamento que as gerações dão para questões de saúde mental. Não dá pra dizer precisamente se é a maior consciência/importância que costumamos dar sobre o assunto que nos faz sofrer do mesmo problema de formas diferentes, mas vejo a discrepância. Enfim, quanto mais falo sobre, mais enrolado fico pra explicar, e acho que a música é sobre isso também (risos).

Em Dezembro vocês participaram da coletânea “Tentáculos” do Selo Preto, que foi fundado por alguns integrantes da banda. Vocês podem falar um pouco sobre ela e sobre o selo?

Eliton: Não tínhamos realizado nenhuma apresentação até a estreia da banda, no final de 2018, então ficamos na febre de tocar por aí. Planejávamos agitar um show por mês por aqui e tocar em todo lugar que nos convidassem. Para isso resolvemos batizar os eventos enquanto o nome de Selo Preto aparecia no meu imaginário e em algumas conversas com bafo de bebida. Ocorreram cerca de 15 apresentações e isso agitou nosso pessoal de alguma forma. Tínhamos do lado as bandas Ravir e Obscvre Ser, que trouxeram bandas de fora de São Paulo e superaram os desafios de atender os custos disso. A coletânea então representava, no fim daquele ano, a compilação de todas as bandas que cruzamos nos eventos que essas bandas tocaram. Me sinto particularmente realizado por ser uma coletânea eclética, afinal tinha anseio de tocar com bandas variadas, no nosso limite ficou um conjunto bem diverso de músicas. O nome veio justamente dos vários “braços” de um polvo, que ele usa para alcançar alimento e trazê-lo para a boca. O objetivo geral é aumentar a visibilidade das bandas que tem seus materiais muito bem produzidos e que duram horas ou poucos dias no feed. Por enquanto o Bandcamp vem contando a história de lançamento das bandas que me impulsionaram a criar algo como um selo, no formato de linha do tempo. Para facilitar que essas bandas de fora viessem tocar aqui, estávamos para reformar o espaço Névoa na zona leste para voltar a realizar eventos lá, ainda bem que não rolou, afinal a pandemia viria deixar tudo isso lá estacionado.

Como anda o aspecto musical nesse 2020 e os planos da banda?

Bruno: É desolador, pois ouvimos falar de picos e estúdios passando por dificuldades, alguns até fechando, e na “camada acima” da nossa no circuito, o pessoal que trabalha nos palcos e na estrada tendo que se sustentar de outras formas por não ser possível realizar shows. Por outro lado vemos bandas próximas com iniciativas legais acontecendo na cena, desde ações beneficentes e merch até lives e sessões caseiras pra manter o pessoal unido, tendo como exemplo o pessoal do Caoticagem, Lili Carabina, Obscvre Ser e Navio. Tem rolado também um interesse em lançar sons caseiros, o que é um grande aprendizado pra quem resolve se aprofundar. Com o equipamento que adquirimos recuperamos o fôlego e retomamos de forma remota, junto com o produtor Igor Porto (que também produziu o EP), as gravações que iniciamos em Fevereiro e ficaram paradas desde então por conta da pandemia.

Últimas considerações? Algum recado?

Bruno: Agradecemos o convite e o interesse na entrevista! Como foi adiantado, estamos trabalhando em dois novos sons e esperamos lançá-los o quanto antes. Esperamos que todo mundo se cuide e ao mesmo tempo lute contra a inércia. Sdds shows.

“Teto Não Familiar” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

enema noise

Enquanto eu ouvia o novo EP da enema noise (“aquilo que já é meu/a hora mais fria”, lançado em Abril de 2020) pensei “Que conceitual. Eu podia pedir uma entrevista“. Enquanto pensava na banda e lendo sobre ela, cheguei à conclusão que eles representam bem o underground (seja o estilo que for): você escolhe um gênero musical que te agrada e começa a trabalhar nele, muda o que não faz mais sentido e o que é necessário, sem pressa de fazer por fazer, as vezes com pausas, mas nunca parando e quando você vê já se passaram onze anos.

enema noise é uma banda muito reconhecida por um nicho, afinal de contas é uma década em atividade. Isso tudo reflete bem a ideia do que é o tal do underground: estar satisfeito em seguir criando por conta própria no seu quintal e dos amigos. Mainstream é outra história, fama, então, nem se fala.

Muito trabalho, diversão, conquistas e provavelmente muito rolê errado também. Pra contar um pouco sobre a banda, eles cederam uma entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Somos de Brasília e tocamos desde 2009, já tivemos várias formações e no momento somos eu (Rafael Lamim) e Murilo Barros. Temos alguns discos lançados: “eventos inevitáveis” (2017), “enema noise” (2016) e “manual pouco prático do desapego” (2014) e também um split chamado “Mais do Menos” com o Valdez em (2012). Antes disso também tocávamos outras músicas, em inglês.

No começo da banda as letras eram em inglês, o que fez vocês mudarem pra português?

Até 2010 por aí era muito comum na música independente você acreditar que o inglês projetaria bandas de alguma forma diferente na internet. E a gente se acostuma a achar o português difícil de encaixar em alguns estilos de som, mas quando você consegue, o resultado é sempre muito original. Depois de uns anos ficou claro que as pessoas de fora querem realmente escutar como é o português. Então é bem mais interessante mesmo. Também foi a forma de nos opormos a alguns estilos, que ficavam cada vez mais “americanizados” no momento que fizemos essa transição. Acho que hoje em dia ninguém percebe o quanto isso mudou, mas rola mais liberdade pra qualquer banda fazer o que quiser, tem público pra tudo também. Quem canta inglês é porque quer, já normatizou todas as possibilidades e isso é legal também.

Como uma banda que já lançou praticamente todos os formatos (CD, vinil, k7, etc) vocês têm alguma preferência ou sequer vêem diferença neles? (Como consumidor, a gente vai pelo gosto, né)

É muito bonito escutar o mesmo som em diferentes formatos! Até agora o lançamento mais legal de ouvir pra mim foi a fita k7 do “eventos inevitáveis” que lançamos na Ásia, pela terr records e a tenzenmen. Mas foi excelente escutar esse ultimo EP no vinil de 7” que lançamos com a Lombra Records e a Milo Recs. O Biu da Lombra tem uma máquina gravadora de vinil e fez o trabalho na nossa frente e ouvimos na hora. Além da enema noise, recentemente publiquei outro projeto musical meu (insone) em fita k7 colorida por um selo brasiliense chamado Tudo Muda Music, que lança em formatos físicos, k7 tem até aqueles mini CDs.

A formação da banda já mudou algumas vezes, mas esse é o único trabalho feito (ou só lançado?) como duo, isso influenciou a composição do novo EP?

A gente sempre foi acostumado a ter duas guitarras, compor em duas guitarras e as ideias vinham dessas segundas camadas, é como muitas bandas fazem.  Só que a gente fez isso demais e se você não quer repetir ideias, uma hora você precisa fazer algo mais complexo, acordes difíceis, aí eu acho que é quando esse estilo meio post-hardocre começa a ficar chato. Como a banda encolheu mais ainda, de 3 pra 2, secamos os instrumentos e fizemos tudo no baixo e na voz. A bateria tá ali como um ritmo acompanhando mesmo. Isso que eu e Murilo sempre compusemos mais as ideias, riffs de música, então não foi muito difícil concluir, só foi mais difícil pra mixar mesmo e preencher esse espaço. Tem mais algumas músicas gravadas nesse formato e com guitarras, só não conseguimos editar a tempo.

Vocês podem falar um pouco sobre o novo EP?

Que nem falei, cansamos de muitas guitarras e ao mesmo tempo quisemos a bateria eletrônica também. Só que sem ser “eletrônico”, usar sintetizador, industrial, etc. Então a primeira autoral que rolou foi “aquilo que já é meu” que é bem podre, sim, mas também é animada e com notas maiores, então é algo mais como Los Saicos, Screamin Jay Hawkins e Punks pra Frente. Inclusive o riff principal do baixo dessa música nós roubamos de Try a Little Tenderness da versão do Otis Redding (valeu). A outra música “hora mais fria”, tem mais influência de alguns trabalhos ambientes que mixei recentemente com o selo ANTINATURAL, os álbuns da heloísa (Surrounded by Fire / SrrnddBfr) e Malena Stefano.
Já os dois remixes surgiram porque disponibilizamos as tracks abertas do disco “eventos inevitáveis” e duas pessoas apresentaram versões ainda em 2018. Primeiro o Thiago Lourenço remixou “ordem” (e lançou num ótimo vídeo do Vinícius / Comuna Putrefata). O outro remix foi feito pelo Kleberg, que é um cara que também indicou a gente pro Anthony Phantano, um dia a gente apareceu recomendado por ele no Twitter sem saber o que estava rolando e o Kleberg se apresentou como responsável. Em seguida ele ainda nos entregou esse remix de “acabe sua banda ruim”!
Pra fechar o EP, gravamos um cover de “Bad Houses” do Big Black que foi uma das primeiras bandas esquisitas a usar bateria eletrônica e que gostamos bastante.

Já que Brasília sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Brasília mesmo sendo a capital não é distribuída igual Rio ou São Paulo. E a falta de transporte público, a lei do silêncio, associações de moradores e a polícia não dão muito espaço para a música e a vida noturna. Em 2018 e 2019 fizemos muitos eventos no Bar do Zé na 705 norte, um porão de um boteco que cabe até 60 pessoas, e esse tava sendo o nosso tipo de rolê até o começo da quarentena. Até agora já tocaram umas 100 bandas por lá, tudo entre produções independentes de amigos. Outro lugar muito massa do DF é a Esquina Preciosa no Paranoá, que organizou os Festivais de Cultura Punk também nos últimos dois anos.

Últimas considerações? Algum recado?

Vamos pensar no quanto nossas redes da música podem ser redes de solidariedade agora!
Queria também indicar outros sons empenados BR:

A discografia da enema noise está disponível no Bandcamp e redes de stream.