Bus Ride Notes

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Entrevistas

Anti-Corpos – We Keep On Living

Creio que todo mundo que acompanha o Bus Ride Notes conhece Anti-Corpos, banda de São Paulo formada em 2002, hoje em Berlin e composta por Adriessa Oliveira (guitarra), Helena Krausz (bateria), Marina Pandelo (baixo) e Rebeca Domiciano (vocal).

Anti-Corpos foi uma das primeiras bandas de queercore (se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre) do Brasil, numa época onde praticamente ninguém, nem mesmo a banda, usava o termo.

Em Outubro de 2020 elas lançaram seu novo EP, “We Keep On Living”, cujas músicas foram feitas e gravadas em momentos diferentes, inclusive com diferentes membros na banda.

Conversamos com Anti-Corpos sobre “We Keep On Living”, a história da banda e mais. Confira:

Primeiramente, como estão nessa pandemia? Todo mundo bem? Como andam as coisas aí na Alemanha?

Adriessa: Olá! Bom, a pandemia na Alemanha estava bem controlada até o final das férias de verão, quando os casos começaram a crescer assustadoramente e agora está novamente num lockdown mais severo.
Junta isso com temperaturas negativas e dias que escurecem as 16h, bicho, é tenso! Mas estamos bem e tentando passar por cima de tudo isso.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Adriessa: Anti-Corpos é uma banda queer feminista que faz som rápido e pesado que flerta com o hardcore, punk e metal, aquele famoso crossover.

Helena: A banda existe desde 2002 e ao longo de todo esse tempo tocamos em diferentes cidades brasileiras e vários países da Europa e América do Sul.

Desde 2015 a banda teve várias mudanças, alguns integrantes se mudaram pra Alemanha e formaram uma nova banda. Vocês podem falar sobre isso? E a escolha de continuar com Anti-Corpos?

Adriessa: A banda em toda a sua história teve muitas mudanças, essa é a real.
Em 2015 quando me mudei pra Alemanha e teoricamente a banda tinha acabado porque Rebeca tinha voltado para o Brasil, sabia que a primeira coisa que eu precisava era de uma banda nova, aí conheci Andrzej e Andrea e montamos o Eat My Fear, que na sua formação original tinha o Dirk no baixo. Após três anos ele deixou a banda e a Helena (baterista da Anti-Corpos) assumiu o baixo do Eat My Fear.

Mas logo em 2016, quando Rebeca também se mudou pra Berlin e estávamos reunides novamente, resolvemos dar continuidade e escalamos a Marina pro baixo, que já vinha nos acompanhando por alguns shows que fizemos na Europa.

Acho que o Anti-Corpos sempre vai existir enquanto estivermos na pilha de tocar e sempre nos adaptamos para que isso continue acontecendo.

As músicas do “We Keep On Living” foram feitas durante todas essas mudanças, né? Vocês podem falar um pouco sobre cada faixa?

Adriessa: Esse EP é uma junção de quatro sons gravados em momentos diferentes. Alguns comigo e outros com Re no vocal.
Pouco antes de Rebeca deixar a banda, em 2017 (Rebeca já está de volta hehe), tínhamos recebido um convite para gravar um som para um tributo ao Bulimia e junto com esse som do Bulimia gravamos “Herança” e “Brincando de Igualdade”.

Em 2019, quando eu assumi os vocais, gravamos “Borders of Fear” e “Keep On”. Eu escrevi “Borders of Fear” em uma das viagens que fiz para ensaiar com uma banda que toco na Suécia, que tem uma das fronteiras mais brutais que já passei pela Europa. Sempre que eu atravessava me dava pânico, porque sabia que ia ser controlada de forma agressiva por causa do meu passaporte brasileiro. Pessoas com passaportes de origem africanas ou árabes então… era muito sinistro.

“Keep On” é sobre continuar dia após dia a viver nesse mundo caótico que te cobra demais e que é difícil não pensar em desistir. A letra é da Marina e foi nosso primeiro som em inglês, se não me engano.

Helena: “Brincando de Igualdade” é uma música feita em 2005 que resolvemos regravar. Ela fala basicamente sobre pessoas que são bem desconstruídas na teoria, mas que suas atitudes não condizem com o que falam.
Sempre existiram vários exemplos na cena punk/hardcore de caras com um discurso lindo em cima do palco, mas na realidade eram bem diferentes.

E como tá a banda hoje?

Adriessa: Voltou a ser Adriessa na guitarra, Rebeca no vocal, Marina no baixo e Helena na bateria.
Estávamos voltando a compor para um novo disco, querendo tocar muito e aí veio a pandemia.
Enfim, estamos como a maioria das bandas, na espera louca da vacina.

Não dá pra falar de Anti-Corpos sem falar de queercore. Conheci a banda em 2015 e tenho um adesivo da época onde se lê “lesbian feminist hardcore from brazil” e desde aquela época vocês já usavam o termo “queer” em alguns lugares. Vocês podem falar da relação da banda com o queercore?

Adriessa: Acho que no Brasil o termo queercore nunca foi propriamente usado até tipo Teu Pai Já Sabe?. O queercore é parte da nossa identidade e influências.

Bandas como Limp Wrist, Team Dresch, G.L.O.S.S., TPJS? são super importantes na nossa caminhada. Em 2019 tocamos com o Limp Wrist em Berlin e foi tipo WOW, realização de sonho!

Usar o termo “hardcore lésbico” ou “queercore” sempre foi muito importante para nós como luta mesmo, nesse espaço ainda super machista e homofóbico que é o hardcore punk.

Quem ouve punk e hardcore tem a impressão que é uma comunidade unida e linda, mas sempre que nos aproximamos da cena vemos que a realidade não é nada disso. Mas uma coisa visível na Anti-Corpos, até pra quem acompanha só pela internet, é um senso grande de comunidade. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Adriessa: Acho que a letra da música “Anti-Corpos” fala muito bem o que a banda representa para nós. É a nossa forma prática de luta.

Eu costumava tocar em uma banda que evitava ao máximo essa relação pessoal do público/banda. Acho que as bandas mais ”mainstream do underground” do hardcore punk dos anos 90 ainda tentavam ter essa divisão banda/público.

Eu vejo Anti-Corpos como uma grande comunidade queer, feminista, das mina, das mona, dos roqueiros e roqueiras que se encontram, curtem, pensam, trocam. O palco não nos separa e gostamos da interação em shows, trocando instrumento, chamando galera pra cantar, etc.
No final somos todes ”outcasts” que procuram nesses ambientes de shows queer feminista se divertir e sentir segure na medida do possível.

Eu acho que o que consegui com Anti-Corpos nunca consegui com nenhuma banda e muito vem desse apoio mútuo da nossa comunidade.

Helena: Total, esse apoio é essencial para nos fortalecermos ainda mais enquanto cena queer feminista.
O que não significa que quando vemos algo que achamos errado ficamos quietas. Pelo contrário, sempre que algo ou alguém é denunciado dentro da cena procuramos falar sobre isso, mesmo que não agrade a todes.

Vocês são o tema do documentário “Anti-Corpos, Pedaços de uma Turnê Cúir”, que foi exibido em Novembro no festival Mix Brasil. Vocês podem falar sobre ele?

Adriessa: Meu, isso foi muito surpresa! A nossa amigona Brunella Martina, que gravou todos os nossos clipes, já tocou na banda e gravou a segunda guitarra do disco “Meninas pra Frente”, assim que soube da nossa tour na América do Sul em 2019 falou sobre fazer um registro e usar de alguma forma o material.

Um ano depois, ela nos escreveu com o primeiro corte do mini doc, já nem lembrávamos mais dele. Fomos surpreendidas por um material super massa e ficamos ainda mais surpresas por terem aprovado o doc no Mix Brasil.

Foi interessante ver nossas entrevistas logo após a posse do Bolsonaro, falando de uma forma super pessimista, mas mesmo assim o tom da nossa fala não se compara com a realidade que está sendo vivida hoje. É tipo nossos medos que foram multiplicados por mil.
Triste demais, espero que tenha um ponto de virada em todo esse pior pesadelo.

Últimas considerações? Algum recado?

Adriessa: Obrigada demais pelo convite e sigam seus sonhos, chequem como seus amigues estão passado e fiquem bem! Vamos resistir e fazer a mudança! Quando tudo isso passar nos vemos na estrada.

Helena: Valeu pelo espaço! Força sempre!

“We Keep On Living” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Lançamentos / Playlists

VEM AÍ – O que esperar de lançamentos para 2021?

Não sei você, mas pessoalmente tenho pequenas crises de ansiedade às quintas-feiras, antecedendo o Radar de Novidades do Spotify da sexta. Já faz parte da minha rotina – inclusive, minha playlist do ano de 2021 tá rolando. Pra dar uma amenizada nisso, costumo organizar uma lista do que tá pra sair, até pra não acabar esquecendo.

Ano passado tivemos uma baixa considerável no âmbito de lançamentos. Não preciso entrar nos méritos de dificuldades pandêmicas e etc., né? Foi e ainda tá foda pra todo mundo. Mas precisamos apoiar quem teve e tem condições de trabalhar de forma segura nesse período. E também esperar que todo mundo retome as atividades, o mais breve possível <3

Enquanto isso, bati um papo com contatinhos de bandas e selos nacionais, e abaixo elenco alguns lançamentos confirmados, previstos ou mesmo especulados – a esperança é a última que morre. Pega seu café e vem comigo!


A Trip to Forget Someone
Poucas semanas depois de publicar o single “Portão 14”, em setembro passado, a banda instrumental de Belém/PA anunciou a gravação de uma nova música, que ainda não saiu. Será que agora vai? Acompanhe A Trip to Forget Someone pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Agreste – Super Abalada (EP)
O trio belorizontino formado por remanescentes da amada Miêta soltou o (viciante) single “Cíclica em agosto passado. Podemos concluir ou presumir que, a qualquer momento, saia o EP completo? Acompanhe a Agreste pelo Instagram e Spotify.

The Biggs
Os últimos singles, “Breech Delivery” e “(Battle)Fields” saíram em 2015. Numa live recente, apresentaram uma música nova, “See You”. Será que podemos esperar mais novidades pra esse ano? Tá na hora né? Afinal o último álbum saiu há longos 12 anos… Acompanhe o Biggs pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Charlotte Matou um Cara
Nada oficial, mas algumas músicas inéditas (como “Lembrar Para Não Repetir” e “Farsantes Com a Bíblia na Mão”) foram apresentadas em shows passados e lives no último ano. Podemos sonhar com uma tão esperada voadora na cara como foi o disco homônimo de 2017? Acompanhe a Charlotte pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Deadtrack
Meus queridos crust punk metal brabo de Uberlândia estão em fase de gravação do material novo, sucessor do disco pedrada “Rupture”. Ainda sem data prevista de lançamento. Acompanhe a Deadtrack pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Enema Noise
Trabalhando em um novo EP de remixes e versões de músicas antigas, já tendo como uma prévia “Bayer + Monsanto” (an_tnio remix), a incansável e barulhenta banda candanga logo menos tem novidades – prevista pra esse primeiro semestre. Vem na sequência do EP “Aquilo que já é meu/ Hora mais fria”, que também saiu em vinil 7″. Acompanhe a Enema pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Escolta
O quarteto de rap metal brasiliense começou a gravar o novo material há poucos dias. Os shows do disco “Efeito Moral” foram incríveis, super energéticos. Que continue nessa pegada! Acompanhe a Escolta pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Eskröta – Vida Artificial (single)
Poucos meses após o discasso “Cenas Brutais”, a Eskröta retorna com um novo single, disponível no dia 28, próxima quinta! Acompanhe a Eskröta pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Gagged
Chegando em seu 17º (!) ano de estrada, os interioranos da Gagged estão em fase de composição com uma nova formação e (alerta de spoiler) preparando várias novidades. Seu último trabalho foi o disco “Sobre Nós”, de 2018 – veja o clipe de “Cidade Sem Lugar”. Acompanhe a Gagged pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Hayz
Com a possibilidade de gravar em casa, como foi o caso do excelente single “A Soma de Todos os Medos”, lançado há pouco mais de dois meses, seria correto supor que vem mais coisa por aí em breve? Por favor, nunca te pedi nada! <3 Acompanhe a Hayz pelo Instagram, Facebook e Spotify.

In Venus – Sintoma (álbum)
Com o belíssimo clipe do single Ansiedade, o quarteto pós-punk anunciou seu novo disco, Sintoma – com vinil já em pré-venda. Acompanhe a In Venus pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Jova – Nada é Fixo (EP)
O artista de Belford Roxo/RJ lançou em 2020 seu primeiro EP, “Músicas Para Ouvir Perdido na Floresta” e o segundo EP de Jova, “Nada é Fixo”, que será lançado dia 29 de janeiro já tem pré-save. Embalado pela pandemia de Covid-19, ele traz como temas situações com as quais fomos obrigados a lidar por causa do isolamento social. Acompanhe Jova pelo Instagram e Spotify.

La Burca – Desaforo (álbum)
Organizei uma minitour do lançamento do último disco, “Kurious Eyes”, em 2016 aqui pelo cerrado (DF e Goiânia). Portanto, “Desaforo” é muito esperado! Já tem um single instrumental, também chamado “Desaforo”, rolando por aí – e o disco vai sair em vinil! Acompanhe a La Burca pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Manger Cadavre?
Uma das mais ativas, prolíficas e turnêzantes bandas da última década, também está com nova formação e postou recentemente que logo terão novidades. Aguardamos o que vem em sequência do excelente disco “AntiAutoAjuda” (2019). Acompanhe a Manger Cadavre? pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Movva – Depois da Tempestade (EP)
Meus meninos da nova geração do hardcore de Jaboticabal/SP terminaram recentemente a gravação de seu EP de estreia. Já experientes na cena do interior, lançaram o single “Alento” ano passado como uma prévia do que está por vir. Acompanhe a Movva pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Naja White – desabafEMOs (EP)
Depois da estreia com o single O emo tá de volta em 2020, a drag queen revelação do emo nacional se prepara para lançar o primeiro EP. Disponível no próximo dia 29, sexta – e já tem como prévia as faixas “Pontes” e “Vida de Adulto”. Acompanhe Naja White pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Nada em Vão
Os bonitos do punk rock melódico delicinha brasiliense começaram a gravar seu primeiro álbum, dois anos após o último single, “Chegou a Hora”. Porém como nem tudo são flores, precisaram dar uma pausa enquanto o baixista César se recupera de dois braços quebrados. Acompanhe a Nada em Vão pelo Instagram, Facebook e Spotify.

Paciente Anônimo
Dividi palco com eles em 2019 e olha, que sonzeira! Esperam entrar em estúdio nos próximos meses para registrar seu primeiro material. Acompanhe a Paciente Anônimo pelo Instagram.

Saving Lipe
Projeto solo de rock noventista do jovem Felipe Casquet, baterista da Casquetaria, em que ele assume todos os instrumentos e vocais. O single If I Had to Stay Alone já está disponível, e é uma prévia do EP homônimo previsto pra esse primeiro semestre de 2021. Acompanhe a Saving Lipe pelo Instagram e Spotify.

Trash No Star
Já tem alguns meses que tem um destaque no Instagram da banda indicando que rolou uma gravação… então cedo ou tarde vai pipocar por aí a sequência riot garageira do maravilhoso Stay Creepy (No) Summer Hits, de 2014. Acompanhe a Trash pelo Instagram, Facebook e Spotify.


ENFIM! É isto, amiguinhes. A lista não é muito longa se colocarmos em perspectiva tudo que acontece nesse Brasilzão véio sem porteira. O conteúdo dela se restringe à minha humilde bolha existencial. Se não conhece as bandas citadas, vale a pena ir atrás! E caso saiba de mais próximos ou possíveis lançamentos, manda pra gente no busridenoteszine@gmail.com. Quem sabe não sai uma parte 2?

Nota: Estamos com problemas nos links. Nesse post, estão todos em negrito. #AJUDALUSIANO


Entrevistas

LesboPunk

É pouco provável que você nunca tenha ouvido falar em fanzine porque a maioria das bandas que já publicamos fazem parte da contracultura onde eles foram criados, mas em todo caso: fanzines (mais conhecidos como zines) são pequenas (em tamanho, mesmo) publicações feitas por fãs, geralmente falando de música independente, mas também com os mais diversos assuntos.

Ainda hoje muita gente gosta de fazer da maneira clássica: à mão, geralmente com colagens e xerox, mas muitos também são feitos no computador, até pra facilitar a distribuição online.

Inclusive tem uma reportagem do podcast do Nexo, sobre o movimento riot grrrl, onde falam um pouco sobre zines em uma entrevista com Camila Puni, artista e pesquisadora de zines que já participou de residência artística no LA Zine Fest e deu aulas sobre na Universidade de Tulane (EUA).

“Toda sapa tem um pouco de punk”

O LesboPunk foi lançado no Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (29 de Agosto), como o nome já diz, ele é um zine sobre lésbicas no punk.

Amanda Cox, mulher lésbica, ativa na cena punk de São Paulo há sete anos, resolveu criá-lo “pela minha vontade de ver uma cena underground mais ocupada por lésbicas, pra mostrar que o punk rock também é pra nós, sapatas, e, principalmente, pelo meu desejo de encontrar outras sapatonas iguais a mim, apaixonadas por tudo que o punk é e pode vir a ser”.

“Minha ideia pro LesboPunk começou em 2017, e inicialmente era fazer um coletivo; juntar lésbicas da cena pra tentar criar um espaço nosso, organizar eventos só com bandas de sapatão, formar um grupo mesmo. Não deu certo porque quase todo mundo que convidei acabou desistindo, rolaram divergências de ideias e eu não tinha conseguido encontrar muitas lésbicas pra convidar de toda forma. Isso ficou na minha cabeça e fui percebendo que sempre me incomodou a questão de terem tão poucas lésbicas no punk, e no fato de que, pelo menos aqui, não vejo muita união e iniciativas especificamente lesbocentradas na cena. Tentei pensar em formas de transformar essa ideia inicial em algo que desse pra eu desenrolar sozinha, e me veio a ideia de fazer o zine”.

O LesboPunk tem uma leitura bem fácil e dinâmica, são pequenos textos que, em conjunto, servem meio como um guia e ele é bem dividido.

“Comecei escrevendo um pouco sobre a minha experiência pessoal dentro da cena, pra estruturar bem a perspectiva pela qual esse projeto foi idealizado. Na primeira parte falo um pouco sobre gangues dos anos 80 e algumas bandas pioneiras do ‘dykecore’, com o intuito de mostrar que desde o início dessa contracultura já existiam lésbicas criando seu espaço dentro dela”.

A segunda parte é dedicada à indicações de bandas brasileiras com lésbicas na formação.

“Nessa parte eu preferi usar textos que as próprias bandas me enviaram, pra ter a certeza de transmitir a expressão própria de cada uma e deixar um espaço para que pudessem falar o que desejassem divulgar a respeito dos seus projetos”.

A terceira e última parte fala sobre obras de literatura e filmes lésbicos, ainda dentro do punk.

“Produções nesse tom específico não foram fáceis de achar, então as indicações são poucas (porém muito boas)”.

“Meu objetivo foi juntar histórias de grupos lésbicos que surgiram em meio ao punk e trazer visibilidade pras sapatonas que estão na cena hoje em dia; fazer a palavra circular e mostrar pra outras lésbicas que o punk é algo muito mais próximo da nossa realidade do que a maioria imagina (conforme elaboro no texto de abertura), e, sendo um pouco ambiciosa, incentivar mais lésbicas a se interessarem pelo punk e começar a criar dentro dele, desde bandas, artes em geral, eventos e grupos, assim como as iniciativas mencionadas no projeto”.

Assim como Amanda, eu espero que mais pessoas se inspirem e comecem a criar os seus (manda pra gente!), afinal de contas é sempre assim, né? A gente vê algo que curte, se inspira e sai fazendo o nosso.

“Ainda não sei pra onde o projeto irá depois desse primeiro lançamento, mas pelo retorno que tive até agora penso na possibilidade de criar edições futuras”.

No linktree você encontra além do zine (original e em inglês pra você mandar pras amigas de internet que conheceu no antigo perfil do Personals), os agradecimentos, fontes e playlists no Spotify e Youtube.


Resenhas

Bioma – União e Rebeldia

“Banda de queercore feminista formada em 2017, a Bioma surge a partir do encontro de mulheres da cidade de São Paulo com discurso feminista e posicionamento libertário, anti-racista, anti-LGBTfóbico e anti-CIStêmico”.

Formada por Julia Kaffka (baixo), Letícia Figueiredo (bateria), Mayra Vasconcellos (guitarra) e Natália Pinheiro (Natoka) (vocal), em Maio de 2020 a Bioma lançou seu primeiro disco, “União e Rebeldia” e vamos falar um pouco sobre ele aqui.

Primeiramente, se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre.

“União e Rebeldia” tem aquela característica que é difícil colocar em palavras e daí surgem resenhas dizendo que é um disco “potente”. Nada contra esse termo, mas é vago e eu quero tentar não ser vaga, assim como esse disco.

Punk e hardcore são conhecidos por suas letras políticas, mas não é tão comum vermos bandas que se expressam bem, na maior parte vemos letras que mencionam um assunto e não elaboram ideias, por que é difícil se expressar bem numa letra curta de música, olha só o tamanho desse parágrafo.
É por isso que a gente fica feliz quando encontra bandas que conseguem fazer isso, creio que esse é o tal do “potente”.

Bioma é uma daquelas bandas que te faz parar pra pensar, podemos escrever um artigo grande sobre cada música desse disco. Aliás, eles já existem, mas acho que o que importa é você ouvir, procurar saber mais e tirar suas próprias conclusões.

“Violência Invisível” fala sobre lesbocídio, a morte sistemática de mulheres lésbicas, assassinato e suicídio de lésbicas que são permeados pela lesbofobia.
“Sociedade patriarcal, violenta e irracional. Daniela, Fabiana, Priscila, Luana! Todas que não vamos esquecer. Lésbicas presentes!”

“Falsas Causas” fala sobre “pink money”, uma estratégia de marketing de empresas que focam o público LGBTQ+ em suas campanhas. Mas não se engane, isso é só uma estratégia mesmo.
“Não trate como revolução quem te trata como nicho de mercado”.

“Disforia”, o nome já diz tudo, “Um espelho sem reflexo, incoerente sentimento. Disforia do meu próprio ser”.

“Pedalar” é outra música em que o nome já diz tudo, “O suor que pinga enferruja as engrenagens da máquina que gira e para nossas vidas”. Você pode até não ser contra carros, mas você não pode discordar disso.

“O silêncio não protege, ele te consome. Esse corpo é revolta, revolta que revida”.

A banda também regravou para o disco as músicas de sua Demo (2018), “Descontrolar” e “77 Cobaias”.
“Enquanto se escolhe quem vive ou quem morre, nós desmascaramos seu fascismo democrático”.

Eu acho que “Cidade Perdida” é a música que melhor resume esse disco, tanto que ela foi lançada como single, junto de seu clipe, em Abril de 2020.

Dirigido e editado por Julia Gimenes (profissional do audiovisual, feminista, que há dez anos atua como colaboradora na causa indígena), ele é composto por trechos de registros feitos por ela durante o “Festival Guarani” (2017) e o primeiro “Encontro das Mulheres Indígenas” (2018), e imagens de arquivo, cedidas pelos canais canais “De olho nos ruralistas”, “Mídia Ninja” e outros portais de jornalismo independente, retratando o crime cometido pela Vale em Brumadinho e a crise das queimadas na Amazônia que ocorreram em 2019. Também com falas de Tamikuā Txihi, Julieta Paredes Carvajal, Sônia Barbosa e Ailton Krenak.

O disco termina com “2019”, “Olhar pra trás é tão difícil, as dores voltam de tentar. Todas (as) perdas que tivemos… Seguir em frente apesar disso, nada vai nos derrubar. Pode vir qualquer Jair, a resistência vai ficar”.

“União e Rebeldia” foi produzido pela própria banda junto de Mari Crestani (Bloody Mary Une Queer Band, Weedra) e tem participações de Mari Crestani, Célia Regina, Cint Murphy (In Venus) e Karine Campanille (Transviada Distro, Mau Sangue, Messias Empalado, Violence Increases Fear).

O disco foi lançado pelos selos Efusiva, Howlin Records, Läjä Records, Oxenti Records, Vertigem discos, Carniça Distro, Good Things Distro e está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.

Deixo aqui também a entrevista com Natoka sobre o Dyke Fest #4, onde tem muito sobre a Bioma.


Resenhas

Tuíra – Calma e Força

Tuíra é uma banda do Rio de Janeiro, formada em 2017 e atualmente com Amanda Azevedo (voz e guitarra), Hanna Halm (baixo e voz), Juliana Marques (bateria) e Thaís Catão (guitarra).

É uma das bandas que a gente coloca no subgênero queercore apesar delas não tocarem hardcore, nem as letras falarem exclusivamente sobre a vivência LGBTQ+ (se você não sabe do que eu tô falando, leia aqui nosso texto sobre).

Em Dezembro elas lançaram o primeiro EP, Calma e Força, e além das nossas impressões, as músicas têm muitas referências.

As letras, que não foram escritas sobre você, mas falam sobre você, são melancólicas, indignadas e otimistas e se contrastam com o som animado que dá vontade de dançar com influências de indie e emo (anos 90 e revival), cheio daquele timbre de guitarra estalado característico desses gêneros.

O nome “Calma e Força” reflete muito bem tudo isso. Pega a caixa de lenço e vamo ouvir.

Desde a escolha do nome à composição das músicas, a banda aposta no protagonismo das mulheres em suas diferentes formas.

Começando por “Tuíra”, escolhido em homenagem à indígena Kayapó, que com seu facão barrou a construção da barragem de Belo Monte na década de 80.

A música Kararaô (que vai ficar dias grudada na sua cabeça) fala sobre isso. Essa é a única música do EP que não abre espaço pra várias interpretações.
“Eu vou botar meu facão na sua cara injusta, eu bem sei que essa água vai nos afogar. Kararaô vai matar os filhos da santa terra, sua história alagada demarca o fim”

Kararaô era o nome original da usina de Belo Monte, que foi modificado em respeito aos indígenas, pois “Kararaô” é o grito de guerra do povo Kayapó.

A gente consegue escrever um texto longo sobre Crimeia. É difícil até escolher só uma parte da letra pra citar. É uma música sobre resiliência, praticamente uma catarse.
Eu sempre acho incrível quando conseguem expressar esse conceito e monte de sentimentos numa curta letra de música.
“Existe um eu de calma e força persistente entre entranhas de agonia e medo”

Segundo a banda “é um grito urgente por resistência, mas também uma evocação ao acalento e força que encontramos nas nossas relações leais, em quem nos dá gás e nos inspira perseverança pra continuar reagindo as violações do cotidiano e realizando nossos projetos”.

Não à toa ela foi escolhida pra ser o primeiro single da banda, lançado em Agosto.
“Quem vai dizer ou julgar não sabe de nada, não quer dizer nada”

O título da música faz referência a Crimeia de Almeida, militante política e ex-guerrilheira no Araguaia, presa e torturada pela ditadura militar brasileira quando estava grávida de sete meses, em 1972.

Quando ouvi Ella não entendi muito bem a letra. Parece um relacionamento mal resolvido? Mas “Seus donos nem se deram conta da ruína que você criou” me deu ainda mais dúvida.

Segundo a banda “”Ella” fala sobre a inteligência artificial, os algoritmos das redes sociais. A nossa inspiração era o Teste de Turing sendo Ella um chatbot criado pra testá-lo (é um algoritmo de processamento de linguagem que pode reproduzir a fala humana analisando padrões em grandes coleções de texto). Acontece que com o tempo algumas pessoas trouxeram novas interpretações pra letra da música, levantando que também parecia tratar sobre relacionamentos abusivos, romances mal acabados, etc. A gente recebeu super bem essas interpretações, afinal a relação que temos com os algoritmos hoje tem muito dessa sensação de abuso.”
Depois de ler isso tudo fez sentido, inclusive minha confusão inicial.

Só o Fim, o nome já diz tudo. Geralmente a gente vê finais retratados com raiva, rancor e “sofrência” (para um minuto pra pensar em quase todas as músicas e filmes que você já viu). Aqui a gente vê mais cansaço e aceitação.
“Certas coisas o fim resolve e não vale a pena a discussão”

Tem muita coisa pra falar sobre esse EP, mas ao mesmo tempo você tem vontade de só dizer: ouve, só ouve ele. Porque esse aspecto catártico, de melancolia e otimismo ao mesmo tempo, é muito presente nas letras e cada um tira uma coisa diferente disso.

Por isso também não consigo falar sobre Corda Bamba, talvez minha música preferida do EP, só citar:
“Já contou as glórias da semana, as tristezas diluiu em seu batom azul e suspirou com ar de quem prevê. Garrafa na metade, corda bamba, caos total. Na rua ela tá pronta, ela que sabe dela, ela não é você”

Então respira, põe o fone e vai ouvir. Calma e força.


Eventos / Resenhas

Sinta A Liga e Bruxaria

O DF se movimentou no último feriadão e távamos lá pra curtir alguns desses eventos. Foram eles o festival Sinta A Liga, no dia 15/11 e o festival Bruxaria, no dia 16/11, que apesar de serem duas coisas distintas tiveram muito em comum e aconteceram no mesmo fim de semana, então falo aqui sobre ambos.

Primeiramente a coisa mais importante que aprendi esse fim de semana é que o DF não é composto só por Brasília.

O festival Sinta A Liga foi em Brazlândia, uma cidade satélite de Brasília, coisa de 50 km do centro. Ele é um evento idealizado pela Tuttis Souza que roda o Distrito Federal para incentivar o protagonismo feminino na cena musical.
“Hardcore só é hardcore quando é libertário, quando é ato político e não só música. E no contexto social em que vivemos, poucas ações são tão libertárias quanto mulheres fazendo elas mesmas, ou seja, produzindo, tocando e espalhando mensagens riot grrrls, antirracistas e anti-CIStema”.

Penúria Zero começou a noite de shows com o pé na porta, quase pogo (o espaço era pequeno), bate cabelo e muito punk. Aquele showzinho divertido 10/10. A banda foi (re)formada em 2011 e lançou seu primeiro disco em 2017, vale a pena ouvir.

Mantendo a Identidade é um grupo que toca reggae, rap e outras misturas. Eu pensei muito e só consigo descrever o show deles como extremamente agradável que semeou boas energias pra noite. Saca só:

XXIII é uma banda do DF que toca algo parecido com post punk e grunge na sua mistura sem gênero musical. O vocal grave nas músicas mais lentas faz ser impossível não prestar atenção ao show. Como eles mesmos se descrevem nas redes: “Nós somos a banda XXIII e viemos pra deprimir vocês”.

Se você lê nosso site provavelmente já conhece a Xavosa, banda de punk rock de Brasília que lançou seu primeiro EP no começo desse ano. Como todas as bandas desse evento, foi o primeiro show delas que eu vi e não sabia o que esperar. O show foi muito bom, divertido e o toque final foi um cover de Rebel Girl em que elas chamaram as meninas todas das bandas pro palco pra cantar junto. Foi lindo. Também parabéns pra Sand (da Supervibe) que substituiu a batera Rita.

O show da Bertha Lutz no Sinta A Liga foi só uma das coisas marcadas pelo Mercúrio retrógado (dizem que é quando tudo dá errado) esse fim de semana. A guitarrista, Gabi, não chegou à cidade a tempo, então Sara, guitarrista da Estamira, durante o evento aprendeu algumas das músicas da banda e elas fizeram um show reduzido e improvisado que foi bem legal. Ainda estou pasma com as habilidades de Sara.

Klitores Kaos é uma banda de crust/hardcore de Belém, elas tocaram em forma de trio e fecharam a noite com um show poderoso.

Além da música o festival contou com um bate papo sobre experiências de ser mulher na cena underground com a professora de música e guitarrista da banda Estamira, Sara Abreu, uma exposição da artista Veronica Popov, que fez o flyer do fest e esteve presente no evento fazendo caricaturas, uma exposição da Ninfa Sex Store e sorteios para as garotas presentes de vários produtos e serviços feitos por mulheres.

Já o Festival Bruxaria foi em Brasília, ele é feito pela Coletiva Bruxaria, “formada por mulheres que se juntaram para construir locais seguros e solidários, espaço para todas se jogarem na música, no palco, na produção, e em todos os espaços que quiserem ocupar. Essa é nossa estratégia de sobrevivência nesse mundo que nos silencia e tenta nos matar todos os dias. Bruxaria é nosso momento de criar, produzir, tocar, se apoiar. Ver e viver um apoio mútuo em que mulheres deixam de ser rivais para cuidarem umas das outras e celebrarem essa união”.

Os shows começaram com Bertha Lutz, agora completa. A banda de Belo Horizonte faz um show nada menos que incrível, começaram estapeando a nossa cara com “Sangue Negro”, “Seu privilégio sustenta essa porra toda, sua indiferença sustenta essa porra toda, sua branquitude financia essa porra toda. Sempre, desde sempre!”, e terminaram com “Funk da Xoxota” que ficou na cabeça quase uma semana.

Em certo momento do show a vocalista, Bah, disse “a gente é cria de Bulimia”, uma homenagem à Ieri da Bulimia que faz parte da Coletiva Bruxaria e estava presente, mas eu acho que isso se aplica a todas nós, a maioria das bandas punk/hardcore que eu vi esse ano, não só no DF, fazem um cover da banda.

Klitores Kaos também tocou mais uma vez. A banda foi formada em 2015 “a partir de uma vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade de Belém”. Com um som pesado e cru elas se descrevem nas redes como uma banda “feminista, de esquerda, antifascista, vândala e baderneira”. E dito isso, não sei mais o que falar sobre o show sem ficar redundante. Bóra ouvir elas no Bandcamp.

Estamira é uma banda de Metal do DF, formada em 2007 por mulheres que “já contribuíram de diferentes formas para a produção artística de Brasília e decidiram, mais uma vez, criar um som original e de qualidade”.
Após seis anos de hiato (com um show aqui e outro ali) a banda “volta com o objetivo de fazer o que sempre se propôs: unir mulheres incríveis para ocupar o palco, produzindo um som pesado e visceral, além de transmitir uma mensagem profunda e crítica”. E o show não foi nada menos do que isso. Puro ódio.

Além de shows o festival tem exposições e feirinha (enorme, vão no perfil do festival ver tudo o que rolou, é muita coisa pra colocar aqui) com produções de mulheres e atividades exclusivas para mulheres, nessa edição elas foram a oficina sobre racismo e privilégio branco mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), oficina de manutenção de bike pelo Calangas Cycling Crew (coletivo feminino ciclístico do DF), apresentação de shibari pelo projeto Entre Nós, apresentação da palhaça Kuia. E teve também espaço pra crianças, algo muito importante.

Em conclusão esse foi um fim de semana muito agradável e valeu a pena ter ido pro DF conhecer as bandas, o pessoal e os projetos que a galera de lá tá fazendo.

Esses espaços são muito importantes e é bom demais ver que em todo lugar as pessoas se importam e resistem. Vamo todo mundo se unir.


Entrevistas

Olha como elas são más! Conheçam a GULABI

“GULABI é uma banda Punk feminista e antifascista de São Paulo que se inspira na resistência das mulheres da Gulabi Gang”

No dia 17/08/2019 a banda se apresentou no Badaroska Fest e nos cedeu uma entrevista maravilhosa! Conheçam essas mulheres más! As minas falam sobre Punk, feminismo e como a cena tem mudado.

POGS – GUITARRA/BACKING VOCAL
CIBS – “TOCO O TERROR” | VOCALISTA #1
CAROL – BAIXO
MAYA – VOCALISTA #2
MAY – BATERIA

Da esquerda para direita: As fãs Isabela e Leticia. E as integrantes: May, Maya, Cibs, Carol e Pogs

BUS RIDE NOTES: Como a Gulabi surgiu? 

Carol – Eu já era amiga da Maya e da Cibs, daí um dia eu comentei que estava com vontade de tocar, só que eu estava numa fase insegura. Só queria voltar a tocar quando me sentisse bem mesmo, mas como eu tava com muita vontade a Maya e a Cibs falaram: “Vamos montar uma banda! Vamos, vamos!” Insistiram um pouco pra eu voltar a tocar e a gente decidiu montar uma banda. A Ideia de formar a Gulabi surgiu daí. 

Pogs: Acho que é relevante falar que eu caí de paraquedas no rolê. Eu não sou de São Paulo e depois de bastante tempo eu resolvi colar num show só de minas, o Apoia Mútua. Eu conheci a outra banda da Maya [Lili Carabina]… E a Carol, nos roles da vida a gente acabou se encontrando. 

Cibs: A gente adotou a Pogs para o nosso rolê.

Pogs: Elas me adotaram! (risos) 

Maya: E a May também… A gente conheceu a May tentando formar uma outra banda, não era? De Ska…

May: Foi antes disso ainda, eu vi a Maya e a Cibs num show do Teu Pai Já Sabe? e depois surgiu o convite para eu possivelmente tocar na Gulabi, mas elas ainda estavam decidindo com a antiga baterista se ela iria ficar ou não. E aí acabou que eu fiquei e tamo aí. E viramos amigas. (risos)

BRN – O que chamou vocês para a zona de confronto? 

Maya: O que move nessa parte do protesto, todas aqui, para além do som que a gente curte é o machismo, o sexismo, a lesbofobia, o racismo e o elitismo. Porque cada uma de nós tem um histórico de opressão dessas que eu citei, isso é o que nos faz utilizar o Punk.

May: A gente tem na banda mulheres periféricas. A Maya que é preta, tem eu que sou não-branca e periférica e tem a Carol que também é periférica. Enfim, cada uma tem uma história fodida e isso dá muita força para a gente continuar.

Maya: Então, eu acho que isso na atual sociedade e até dentro do Punk é o que move a gente para esse confronto, para tentar mudar algumas coisas, como esses tipos de opressão.

BRN – Quais maiores inspirações da Gulabi dentro e fora da cena atual? 

Maya: Eu tenho muita influência de bandas de Punk e Hardcore gringas. Eu ouvia muito Bad Religion, No Fun At All… Do Punk eu ouvia Addcits, muito Punk 77, Social Distortion e colava nesses shows de banda de fora que não era tão caro antigamente, né? Era acessível. E da cena brasileira eu colava muito em roles… Não tinha muita banda de mina para a gente prestigiar, das poucas que tinham que eu lembro de prestigiar era o Útero Punk.

Pogs: Acho que Bulimia….

Maya: Bulimia! É uma influência, mas eu colava basicamente em sons brasileiros de bandas Punk e Hardcore que eu não colo mais hoje porque tem histórico de integrantes com abuso, com declarações homofóbicas, declarações racistas, agressores… Então praticamente todas as bandas que eu curtia de Punk “histórica” brasileira eu não colo mais por uma questão ideológica.

Pogs: Cara se não fosse Cólera na minha vida, se não fosse DZK, Psicose. Se não fossem um monte dessas outras bandas eu talvez não estaria aqui agora e tivesse ido para outras vertentes. Elas tiveram sua importância na minha opinião, embora, hoje em dia precisa ser mais do que era a uns 14 anos atrás. 

BRN: E é difícil se afastar de um som que ajudou a te formar por causa de posições de algum integrante da banda? 

Carol: Chega uma hora que você vai ouvir uma música de certa banda e você não consegue não associar, não pensar naquilo. Que seja um caso machismo, racismo… Para mim essa parte é um pouco mais fácil porque a maioria das bandas que eu escuto são de mulheres, então, eu não tenho tanto histórico de rompimento com bandas que fizeram parte da minha formação. 

Pogs:  Eu já tenho um pouco mais de dificuldade em separar por conta de memória afetiva com banda, sabe? Até brinco com as meninas quando elas falam assim “Ah então, sabe essa banda?” Eu já peço pra nem falar porque dá uma tristeza. (risos) 

May: É muita hipocrisia né? 

Pogs: Claro que é importante, mas o bom é que as letras continuam fazendo sentido. O que não faz sentido é essas pessoas estarem falando o que estão falando porque elas são hipócritas. Nós nunca conseguimos só falar “Sim” para um show, sabe? É sempre “Tá beleza, quais são as bandas? Beleza, qual tem alguma fita com essa banda? Aonde vai ser?”.

Cibs: [Difícil] pra caralho pra mim! Eu acho triste! Mas assim eu não tenho, sei lá eu acho que é um rompimento tão foda que é tipo impossível [não romper]…

Maya: Eu achava difícil antigamente porque justamente não existia essa cena de minas e tantas bandas de mulheres despontando. Então quando você rompia, saía do rolê. E acontecia isso com um monte de mina e que justamente por isso que acabou dando mais força para essa cena. Porque a gente gosta de Punk, a gente gosta de Hardcore e ao mesmo tempo a gente é feminista e a gente não quer ficar num rolê bosta. Os caras passam pano para agressor e o caramba! Agora é mais tranquilo porque nós temos muitas opções e nós mesmas estamos nos organizando para produzir. 

Cibs: Antigamente as mulheres eram simplesmente segredadas por diversas razões, especialmente quando existia assédio, abuso, estupro e coisas desse tipo. Você curte o som e gosta da cena, mas não vai querer colar, e as vezes pagar, para entrar num lugar e ver o homem que abusou de você circulando livremente ali. Então acaba que as minas deixavam de colar e iam se afastando, o que corrobora para o que sempre acontece: Que é só macho tocando, só macho vendo, só macho convidando a bandinha do amigo. Como a Maya falou, agora a gente conseguiu se organizar e tem todo final de semana banda com mina. Aliás, evento de banda com mina. Hoje inclusive eu tava vendo que deve ter tipo uns 3 ou 4 rolando esse final de semana, sabe?  Antigamente tinha Lady Fest e o Distúrbio Feminino… Uma vez por ano você ia sair? Não né!  

Pogs: O que não significa que tá muito mais fácil, tem mais opção porque são as minas que organizam… Então fica meio que a gente pela gente. E não é só aquele discurso de “tem que estar todo mundo junto”. Seria interessante que nós não precisássemos parar e ficar pesquisando toda vez que alguém chama a gente para tocar ou que a gente procura uns shows para fazer, para ver a lista enorme de bandas com macho abusivo, com macho-merda. 

BRN: Quais seus objetivos como artistas?  

May: Atualmente é inspirar as outras minas, é tipo: Mano, você pode tocar também! Você pode ser alguém também! Você pode ser da hora pra caralho! Foda-se tudo que acontece com você ou que aconteceu durante a sua vida, toda falta de oportunidade que você teve para aprender um instrumento, só vai!

Carol: Incentivar as minas. Mesmo que nunca tenham pegado num instrumento, vai lá, pega o instrumento, dá sua ideia porque muitas bandas começaram assim. Os homens são incentivados desde cedo a tocar e mina não.

Maya: E desde os anos 70, tá ligado?

Pogs: E acabamos fazendo isso com nós mesmas. Ninguém aqui tem uma vasta experiência. Eu e a May somos as que tocam há mais tempo. Eu comecei com uns 10 anos e aprendi sozinha porque por sorte eu tenho uma mãe que me incentivou quando eu quis aprender. Peguei o violão e não tive os mesmos incentivos que os outros caras tiveram. Acredito que nenhuma das meninas teve. Mas o próprio som fala por si só, que é esse punkzão carniça que nós fazemos.

Cibs:  É, e o Punk é assim: Vai e faz! Você não precisa ser virtuoso, o importante é a mensagem que você vai passar. Paralelo a isso o que a gente tem muito forte é sermos poucas e falar na cara, direto e reto. Especialmente quando o homem está ali, a gente vai falar mesmo. E se cobrar, como já aconteceu, a gente vai descer [do palco] e voar na cara, sabe?

Pogs: E a recompensa maior é que minas vieram falar com a gente enquanto banda e se identificam, tipo “Valeu por falarem!”.

Maya: A gente falou uma coisa que ela também gostaria de falar e isso é muito da hora. Queremos essas meninas com a gente, a gente quer essas minas organizadas, andando juntas.

BRN: Quais os maiores impactos que integrar a Gulabi causou na vida de  vocês? 

Cibs: Acaba virando uma família.  

May: De qualquer forma é uma [sempre] apoiando a outra. As vezes eu tenho crises de pânico no metrô daí mando uma mensagem no grupo, e mano, as mina vai lá e conversa comigo (risos). Enfim, é. Tem essa fita também.

Pogs; Não é só banda, é amizade, é família. 

Carol: Sim, eu recentemente perdi meu irmão e a banda foi uma parte muito importante para eu não enlouquecer porque não foi e não está sendo um momento fácil. Mas [a Gulabi] além de ser o meio por onde minha voz, a nossa voz, é ouvida também é aquilo que me ajuda a ficar em pé nos momentos difíceis, tanto a parte de fazer música quanto a amizade com as meninas.

Maya: E sobre a diversão, eu acho que também tem a fita da musicalidade, que é muito terapêutica. Você dar uns gritos, tocar uns instrumentos, isso faz muita parte também…

May: Ter uma distração no final de semana e saber que você não está sozinha. 

Maya: É uma válvula de escape na parte da diversão. A gente toca e depois ensaia, a gente vai dar um rolê, vai almoçar juntas. Isso também é prazeroso para além da política que a gente quer fazer para a cena.

BRN: Como vocês escolheram esse nome? 

Maya: Antigamente, quando comecei a ter contato com o feminismo eu li sobre essas minas e achei muito foda o que elas faziam e o nome, eu sempre falei “Mano, eu quero ter uma banda com esse nome, velho!”. Daí toda organização que rolava de ter banda eu falava “GULABI!” e ninguém queria. Acho que todo mundo já ouviu falar dessas minas. Elas são umas minas da Índia que fazem autodefesa com bambus. Tem mulheres tanto de 13 até de 60 anos. Elas fazem ações diretas aonde elas vão buscar os homens agressores e descer a bambuzada! A gente achou que tinha tudo a ver com o nome e com essa coisa do confronto que a gente quer trazer. Que, de fato, se precisar a gente vai descer do palco e vai descer o cacete num cara dependendo do que ele fizer, como já deu vontade. Se precisar, a gente vai partir para a violência, tá ligado? Não tem como a gente ser só discurso num momento que realmente precisamos nos defender, defender nossas amigas, nossos familiares e as mulheres na rua. Nós precisamos dessa força no dia a dia e que seja mais ativa por necessidade, inclusive, de sobrevivência. 

Pogs: Com certeza! E até em coisas mais simples, como por exemplo: alguns meses atrás passei por uma situação que eu vi uma mina sendo agredida no metrô, então eu fui e peitei [o homem]. Não que eu tenha ido bater nele, mas cheguei e falei “Moça, você precisa de ajuda?”. [O homem] me ameaçou e falou que iria me matar, me enterrar viva porque ele me identificou como sapatão. Não que seja difícil… (risos). Mas sofri bastante agressão verbal e se eu não tivesse ficado esperta teria sido agredida fisicamente, sabe? E com o cu na mão fui lá e cobrei e teria sido muito mais fácil se as pessoas que estavam no metrô, se os guardas do metrô tivessem ajudado. Então acho que essas pequenas coisas são importantes, não é que a gente vai sair catando bambu e sentando a bambuzada em todo mundo…

Maya: Mas se quiser, pode!

Pogs: Mas se quiser, pode.

BRN: Como vocês se descobriram guerreiras feministas? 

Pogs: Desde quando eu era pequena e os [meninos] falavam que eu não podia jogar bola [com eles] (risos). 

Maya: Eu sofri muito calada, durante minha adolescência, todos os tipos de opressão. Tanto racismo quanto o sexismo, assédio que eu sofri até na rua. Fui tomar força me organizando com mulheres feministas e conhecendo feminismo muito tarde, com uns 27 anos e eu tenho 33, então fazem tipo uns 7 anos. As minas, a May por exemplo, é de uma geração depois de mim, [elas] tem 20 e poucos anos. Essas minas já estão chegando com um background muito mais legal do que a gente, antes que o feminismo começou a despontar e nós começamos se organizar e ter visibilidade. A fita da internet também, quando eu nasci não tinha internet, quando eu tinha 10 anos não tinha internet, então era mais difícil para você se organizar.

Cibs: Mas de fato eu demorei. Fico bem em choque em como isso demorou para chegar até mim e como teria sido 100% diferente se tivesse sido antes.  Tipo, diversas situações e eu sempre fui meio reativa de partir para, não sei se para agressão. Eu sempre tentei ser explosiva, mas ter essa consciência toda política foi uma coisa que aconteceu muito tarde também, tipo uns 26, sei lá…
 
Carol: Comigo foi igual a Cibs. Tudo bem, eu tenho 26 agora, porém apesar de desde de criança descer o cacete nos moleques que vinham me encher o saco, só fui ter essa consciência política com uns 16/17 anos e é uma coisa que eu queria que tivesse acontecido antes. E olha que eu já escutava bandas feministas e as letras me tocavam. Já fiz parte de coletivo feminista e achava legal quando nas rodas de conversa colavam as minas de 14 anos. É muito bom ver isso chegando cada vez mais cedo na vida das meninas. 

May: Eu tenho 23 agora, conheci feminismo e a militância a partir dos 15. Mesmo eu tendo consciência política feminista desde os 15 anos, ainda assim eu tive relacionamento abusivo de anos. Por exemplo, eu fiz uma camiseta do it yourself feminista e o meu namorado na época fez de pano de chão e falou “Olha você não vai usar isso, vai ser meu pano de chão.” E literalmente foi o pano de chão do banheiro dele. Isso [consciência] nem sempre é o suficiente porque [machismo] é uma coisa tão enraizada que simplesmente acontece, eu tive um relacionamento abusivo durante 3 anos e fiquei fora da cena durante 3 anos justamente por conta desse relacionamento. 

BRN: O que podemos fazer pelo cenário político atual? 

Pogs: Organização. Eu acho que é a palavra. Parar de achar que as coisas vão só mudar. E não é dando “rage” na internet! Não é reclamando! São as pequenas atitudes que a gente tenta ter como banda, por exemplo. Acredito que é um passo. Conscientização e organização como militância até mesmo no dia a dia. Uma coisa que a esquerda tem que entender é que não adianta a gente ficar fazendo discurso para outras pessoas de esquerda, para outras pessoas militantes, temos que pular essas barreiras… Não necessariamente abrir o diálogo com a galera de direita, mas por exemplo quando vou comprar um lanche e converso com a pessoa que está atendendo, é isso que eu tento fazer no dia a dia, trocar uma idéia. Facho não tem muito como conversar, né? Mas os indecisos, as pessoas que acham que “Ah, realmente tá uma merda, mas não tenho o que fazer…”.

May: As pessoas mal informadas, que não tem acesso a informação, pessoal da periferia… 

Maya: Levando essa fita que a gente faz fica muito restrito a um grupo de pessoas, mas quando chega [nas periferias] é legal ver as pessoas que não tem contato com isso se identificarem ou acharem foda e ver que tem outras coisas acontecendo. E conhecer também, tá ligado? Porque esse mundo Punk é muito pequeno.

May: É uma bolha, mano! 

Maya: As pessoas que nem sabem o que é Punk, o que você faz. E para essas pessoas, que não tem acesso, ver isso é uma coisa muito nova, tá ligado? E pode despertar a vontade da pessoa fazer parte daquilo. 

May: Para finalizar, o que eu tenho de objetivo mesmo, como banda, é fazer chegar a mensagem de consciência principalmente para a população que não é informada. Lá na minha quebrada ninguém sabe o que é consciência política, ninguém sabe o que é guerra de classes.

Maya: Ninguém sabe o que é Punk, Skin, tá ligado? Essas tretas de militância e de contracultura os caras não sabem.

May: Eu acho que é muito mais além. O meu vizinho, ele não sabe que tá sendo explorado porque na vida inteira dele ele [não estudou] o suficiente para saber o que o governo faz e o que o sistema faz com ele. O dia em que essa mensagem chegar lá onde eu moro, na periferia, nos extremos, seria gratificante. Apesar de eu achar muito difícil sair da cena Punk, da cena Feminista que é uma porra de uma bolha. Eu chego no rolê, é mina privilegiada, é mina branca. Enquanto não chegar na minha favela não é o suficiente. Enquanto não discutirem gente discutindo sobre “Ah o governo fez isso, isso, isso e o caramba! Olha só como isso vai prejudicar a gente.”  Esse é o meu objetivo real. É isso.

Nossos agradecimentos as mulheres da Gulabi que toparam gravar essa entrevista e me ensinaram muito através dela, muito obrigada meninas! Fogo nos fascistas!

Ouça GULABI no Bandcamp ou nos sites de stream :


Resenhas

Sapataria lança seu primeiro video clipe!

Clipe foi lançado celebrando um ano do EP da banda

Expulsão do banheiro feminino é tema da música M.S.B (Movimento das Sem Banheiro) 

Foto: Marina Ciccone

“Após um ano de estrada com o EP homônimo, a banda paulistana de punk/hardcore Sapataria lança nesta Sexta-Feira (13) seu primeiro videoclipe com a música M.S.B. (Movimento das Sem Banheiro). A letra relata em primeira pessoa a situação de quando as integrantes foram expulsas de um banheiro feminino por serem confundidas com homens. No clipe, elas ironizam esse fato e mandam uma mensagem ácida: “Se não nos querem no banheiro, então vamos levar ele conosco”.

Gravado no centro de São Paulo, as integrantes andam com uma privada de rodinhas pelo Minhocão, praça Roosevelt e outros pontos icônicos da cidade, sob os olhares curiosos e chocados dos transeuntes. A pé ou de skate, Zu Medeiros (vocal), Marina Garcia (guitarra), Dan Cox (baixo) e Isa Miranda (bateria), fazem questão de mostrar nas ruas que o banheiro é lugar para elas também, tocando em meio a paisagem urbana com a privada como amplificador ou banco da bateria. “Curiosamente, os olhares que as pessoas fizeram pra gente andando com a privada é o mesmo que recebemos toda vez que entramos em um banheiro feminino”, aponta Zu.

Diretora do vídeo e guitarrista da banda, Marina Garcia propôs um desafio: gravar o clipe com uma equipe 100% feminina. “M.S.B. foi a primeira música que eu escrevi na vida, o primeiro clipe que eu dirigi, além de ser o primeiro lançado pela Sapataria. Não tínhamos muitos recursos, só um sonho. E ele só saiu do papel graças às mulheres incríveis que acreditaram conosco e nos ajudaram a tornar esse desafio possível”, conta.”

Sapatas de todo mundo, uni-vos!

Eu particularmente pago um pau para Sapataria! A banda nunca decepciona no quesito qualidade e com seu primeiro vídeo não foi diferente. Sendo uma mulher que cresceu em meio a questionamentos sobre minha orientação sexual, me identifico e aprecio de coração o trampo dessas minas e o significado dessa música.

O vídeo super bem produzido, mas com aquela pegada independente é agradável de assistir. Som acelerado e batida animadíssima, M.S.B. tem o tipo de letra que gruda na cabeça e sem perceber estou aqui cantando que não vou me adaptar, não vou me esconder! Não vou… Com um vídeo de primeira linha no melhor estilo “punk rock skatista” Sapataria segue como um forte exemplo do que a cena tem de melhor para oferecer. Consumir esse vídeo será de lei em todos os rolês lésbicos, e tenho dito!

Com isso, devo dizer que foi um prazer imenso ter tido o privilégio de prestigiar o lançamento do primeiro vídeo clipe dessa grande promessa do punk nacional.

Elenco: 
Marina Garcia (guitarra)
Zu Medeiros (vocalista)
Isa Miranda (baterista)
Dan Cox (baixista)

Equipe técnica:
Marina Garcia – Direção, Fotografia, Roteiro, Edição
Luíza Fazio – Roteiro e produção executiva
Bruna Caratti – Coordenadora de produção
Nathalia Bancalero – Produção 
Marcella Uehara – Produção 
Iolanda Depizzol – Operadora de câmera 
Paula Torres – Maquiagem 
Beatriz Garcia – Produção de objetos 
Marina Ciccone – Fotos still 
Amanda Cox – Segurança 
Caroline Rocha – Segurança  
Soraya Bussiki – Agradecimentos


Entrevistas / Eventos / Resenhas

Dyke Fest #4

Punk rock/hardcore por definição seria um lugar de acolhimento pra todo mundo, você vê isso em todas as letras de música desses gêneros e os fãs são (quase) sempre pessoas que não se encaixam na maioria dos lugares.

Ter um refúgio do mundo é empoderador e por isso esse gênero segue firme e forte, mas há décadas (ou desde sempre?) a cena no mundo todo é hostil, vide o movimento riot grrrl ter sido revolucionário, e há pouco tempo parecia que não tinha mudado muita coisa desde os anos 90. Aliás, vocês já pararam pra pensar que várias riot grrrls migraram pra música eletrônica? O afastamento da cena não foi por acaso.

Felizmente o diálogo aumentou, as pessoas começaram a se movimentar e parece que a cena tá mudando. Em São Paulo especificamente, parece (pelo menos vendo de longe) tar se criando uma cena paralela levada pelas mulheres e LGBTQ+ e o Dyke Fest é a materialização disso.

Ele é um festival queer feminista realizado por lésbicas com o objetivo de fortalecer a cena LGBTQ+ underground. Idealizado por Nati Pinheiro, ele teve sua primeira edição em 2017.

“A minha militância por muito tempo foi feita em espaços mais tradicionais, reuniões de muitas horas, construção de políticas públicas e atos como a Caminhada Lésbica, que organizei durante dez anos, e cada vez mais fui me apaixonando pela possibilidade de passar uma mensagem de resistência e acolhimento por meio do som, poesia e intervenções. Comecei a introduzir tudo que aprendi na produção do encerramento da Caminhada Lésbica de São Paulo, acho que ali nasceu o Dyke Fest de alguma forma”.

“Em 2016, junto com outras mulheres construí o primeiro Maria Bonita Fest que é um festival com foco em hardcore/punk das minas, conheci cada vez mais mulheres e descobri que as minas juntas conseguem fazer qualquer coisa. A relação entre as bandas e produtoras é muito solidária e todas se ajudam muito. Me retirei do Maria Bonita Fest, que segue com outras pessoas, e resolvi fazer um fest direcionado para as mulheres lésbicas, que sempre foi meu espaço de atuação com o hardcore/punk que sempre esteve presente na minha vida. A intenção era o festival “dos meus sonhos” e foi lindo perceber que outras mulheres também sonhavam a mesma coisa. Com o Dyke Fest consigo unir as militantes que mais admiro em rodas de conversa e as bandas que me inspiram”.

O Dyke Fest foi uma das várias iniciativas que surgiu na enorme multiplicação da cena musical underground brasileira nos últimos anos.

“Na ‘cena’ a diferença é absurda, a três anos atrás tive que pesquisar muito e fazer escolhas estratégicas pro festival funcionar, tinha muita banda boa parada e outras que estavam bem no começo. Agora na quarta edição daria pra montar um fest de três dias com várias bandas incríveis”.

E com esse monte de banda nova, uma cena queercore tá se formando. Como no mundo todo, a gente geralmente chama de queercore as bandas que cantam sobre a vivência LGBTQ+ ou que apenas tem membros LGBTQ+, mesmo elas não necessariamente sendo da vertente punk/hardcore e no Dyke Fest isso não é diferente, há bandas de todos os gêneros musicais.

Perguntei pra Nati sobre esse período:
“O Dyke Fest surgiu junto com a minha banda (Bioma), foi uma mudança bem grande na minha vida, fui influenciada por textos anarquistas da América Latina e da Europa, saí da militância lésbica clássica por não concordar com o andamento de algumas pautas e a postura de algumas mulheres e decidi reformular o meu discurso, rompi com dez anos da minha vida. Quando disse que estava fazendo um festival Queer e tinha uma banda Queer e queria começa a falar das nossas vivências e lesbianidade a partir dessa ótica Queer muitas mulheres racharam comigo, mas fiz o dobro de amizades. Depois de um ano outras bandas brasileiras começaram a adotar o termo Queer e queercore, isso foi mágico. Sinto que estamos criando espaços únicos e horizontais, repensando a nossa autogestão, presando a união e a rebeldia a partir da ótica das mulheres, rompendo com o machismo, racismo, classismo e a mercantilização das nossas pautas que sempre foi muito presente no movimento LGBTQI+”.

Festivais de música nunca tem só música e nessa quarta edição o Dyke Fest teve a roda de conversa “Branquitude é Privilégio Branco” mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), exposições das artistas e produtoras independentes Editora Malagueta, Empodera Distra, Underline, Thamú Candylust, Transilvegan, Carol Mendes, Thaís e Elo Torrão, Mulheres Adultas Têm Pelos, Erika Araújo e Mari Crestani, que fez toda a identidade visual dessa edição do Fest. Aquelas colagens me hipnotizaram por um bom tempo.

Houveram também projeções da Concha, que é um trabalho com ilustrações e animações em 3D.
“O que uma lésbica quiser propor será mais que bem vinda”, diz Nati.

Mas falando da música, que é o motivo de vocês tarem lendo até agora, essa edição contou com as seguintes bandas:

Sânias (Sorocaba) era a única banda do lineup que eu não conhecia. Elas são um duo de stoner recém formado e fizeram um show incrível. Sigam elas nas redes que é certeza que vem coisa boa por aí.

Crime Caqui (São Paulo/Sorocaba) é uma banda que mistura dreampop, indie e post-rock. Sua “atmosfera etérea e quase hipnótica”, como se descrevem na bio das redes sociais, casou muito bem com as animações de Concha, projetadas ao fundo do palco durante todo o Fest.
Elas publicaram na internet alguns vídeos ao vivo e pretendem lançar o primeiro EP (ou disco, não sei ao certo) ainda esse ano.

Crust não é muito a minha praia, mas o disco da Rastilho (São Paulo) foi talvez o único que eu sentei em casa e ouvi inteiro mais de uma vez. Agora ao vivo é outra história e o show deles foi lindão. Entre outras coisas, a vocalista Elaine falou bastante sobre brigas dentro da própria militância e eu também acho que a gente devia parar pra pensar um pouco sobre isso.

Miêta (Belo Horizonte) colocou todo mundo pra dançar quase em sincronia. Foi a primeira vez que vi um show delas, foi apaixonante e unanimamente pediram pra ele não acabar. Se você não conhece a banda, tá perdendo tempo, é sério. Elas também tocaram várias músicas novas do próximo disco, que já está sendo gravado.

A última apresentação foi da Tuíra (Rio de Janeiro), que é uma banda com muito a dizer e cheia de referências, é pra você chegar em casa e pesquisar o que você ouviu no show. Como não dá pra não falar de política hoje, a maioria das letras (e o nome da banda) é inspirada por ou homenageia mulheres militantes que se tornaram símbolo de luta. Isso tudo é embalado por uma mistura delicinha de indie, “real” emo e mais alguma coisa.
O primeiro EP da banda, “Calma e Força”, será lançado nesse segundo semestre e após ver o show, eu digo: preparem-se!

Eu fui pelas bandas (tenho ido mais vezes pra São Paulo ver bandas locais do que bandas internacionais, vocês tão de parabéns), mas o Dyke Fest não foi só um show, foi um lugar surpreendentemente acolhedor e acho que o motivo disso pode ser explicado com uma frase da Adriessa, vocalista da Anti-Corpos, no show da edição de Março: “Isso aqui foi lindo. Esse foi o melhor lugar que eu já toquei porque esse aqui é um lugar pra todo mundo”.

“O objetivo é criar um lugar acolhedor pra real fazer amizades e conexões”, disse Nati.
Objetivo alcançado.


Resenhas

Sapataria

Eu creio que Sapataria é a banda brasileira que melhor representa o queercore (se você tá perdido, leia aquinosso texto sobre o gênero). É a típica banda “tapa na cara” que você ama, afinal de contas, não há outro jeito de falar sobre a vivência LGBTQ+.

Em 2016 quatro garotas se juntaram pra formar uma banda que aborda temas referentes à lesbianidade e feminismo, influenciadas pela cena riot grrrl e punk/HC (reza a lenda que mais especificamente depois de um show da Charlotte Matou um Cara).

Hoje a banda é formada por Marina (guitarra), Dan (baixo), Isa (bateria), Zu (vocal) e em Setembro de 2018 lançaram o primeiro EP homônimo.

Eu não entendo nada de técnica musical, mas considero qualidade se você fica surpreso quando descobre que “aquela sonzeira” é feita por apenas três pessoas.

Sapataria não é a primeira banda brasileira a falar sobre lesbofobia, mas é a primeira a citar muitas coisas e é difícil falar sobre esse EP, pois as músicas são muito claras, fica redundante.

Elas conseguiram se expressar extremamente bem e sabem da importância disso, pois distribuem zines com as letras das músicas nos shows. Porém lá vamos nós tentar, dá o play:


ORGULHO, a intro do EP, é simples e forte. É comum mulheres passarem por uma verdadeira jornada antes de conseguir pronunciar em alto e bom som uma frase aparentemente simples: “Eu tenho orgulho de ser sapatão, eu tenho orgulho de ser lésbica”.

CARTA AOS PAIS trata do relacionamento familiar emocionalmente abusivo “Tantos muros feitos por vocês todo esse tempo, cada dia um pouco mais dentro de casa me escondendo”. Que, infelizmente, as vezes é uma batalha que dura a vida toda “O amor de vocês não é incondicional, é violento”.

AA LOURDES foi escrita por Zu sobre sua ex sogra, que nunca aceitou o namoro de sua filha. “Lourdes, eu não quero te chocar, mas eu e sua filha amamos nos amar. Sei que deve ter preocupação de sobra, me avise quando puder te chamar de sogra”.
Curiosidade: “aa” no título da música não é um erro de digitação como imaginei na primeira vez que li, “Aa Lourdes” é como o contato estava salvo no celular da ex de Zu, pra aparecer primeiro em caso de emergência. A pessoa mais importante da vida dela só era conhecida por Zu como um contato de celular.

TEXTO fala da homofobia perpetuada pelas religiões “Não venha me convencer de que o seu Texto é melhor. Da onde eu vim não se escreve, levanta”. A música fala pra mais uma vez, resistir “Eu não vou mais me calar por vocês… Eu não vou mais aceitar viver de coisas tóxicas escritas por vocês”.

MUITO TARDE fala sobre a sensação de deslocamento e não pertencimento no mundo, da falta de representatividade, da solidão “Sou menina sem reflexo, fora da definição… Eu olho a minha volta, vejo filmes e vitrines. Sou menina sem reflexo, não caibo nas magazines”.
Não posso deixar de mencionar que independente da orientação sexual grande parte das mulheres já tiveram esse sentimento “Pra ser sincera, o rosa ainda me arde”.

M.S.B. (MOVIMENTO DAS SEM BANHEIRO) fala sobre a dificuldade de algo que não deveria ser complicado: usar o banheiro. “Me expulsam do banheiro, onde eu vou fazer xixi?”.
Já vi incontáveis pessoas na internet (porque moro no meio do mato) dizendo ter crises de ansiedade por isso. “Chegando no rolê nunca sei o que esperar, é sempre a mesma treta: como é que vão lidar”.
Se você não se encaixa perfeitamente nos padrões da sociedade, a violência é constante. “Me tiram dos lugares, não sei o que fazer. Não posso ser eu mesma, vai se fuder”.

Em seus shows, além das músicas do EP, em que no começo de quase todas as integrantes fazem uma introdução na qual contam sua origem, Sapataria também faz covers de clássicos do HC nacional mudando a letra pra temática da banda: “Punk Rock Também é Pra Sapata” da Bulimia, “Quero Ser Sapa Com Você” da Gritando HC e “Sapabonde” numa versão punk.

Recentemente elas também tocam novas músicas que ainda não foram gravadas, como “Existir”, “Levanta e Faz”, que tem o nome auto explicativo: “Se não tem exemplo, seja!“.
“175” que começa com a frase “Sem essa de porrada pra deixar de ser viado. Apanhamos muito e esse é o nosso relato” e fala de situações de violência contra a comunidade LGBTQ+ pela História “Nossa lesbianidade não é nenhuma novidade, não nascemos ontem, não é só diversidade”.
E “Ódio”, escrita pela guitarrista Marina após ter tido seu trabalho desmerecido e ser assediada por seu patrão. Trata do… gaslighting do patriarcado? Aquela ladainha que ouvimos a vida toda de que somos incapazes de absolutamente tudo.
“Desconforto crescente, nunca segura. Se sentir incapaz, sempre confusa. O tempo passa, isso acumula. Acreditar em si mesma é a única cura”.
Porém vai se fuder “Quem disse que eu não vou tentar? Quem disse que eu não vou fazer? Quem disse que eu não vou aguentar e quem disse que eu não posso falhar?”.

Normalmente ver o show de uma banda é bem melhor do que ouvir em casa e o show da Sapataria é lindo. A única outra palavra que eu consigo pensar pra descrever é divertido, inclusive pra banda, visivelmente (por mais bandas que se divirtam tocando!).

Elas tem uma enorme presença de palco e conseguem usar com maestria aquela energia do punk/hardcore que te faz canalizar o ódio e revolta contra as injustiças do mundo em algo construtivo: resistência.

“Eu vou levantar, eu vou construir, eu vou me aceitar”