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Tudo Muda Music: É nois na fita K7 (de novo)!

Você já ouviu música em fita? Já encontrou uma fita do seu artista preferido? Sim, fita mesmo. Fitas cassete! Leitores novinhos, vão agora lá nos seus pais e perguntem pra eles o que diabos é uma fita cassete (ou k7 mesmo).

Essas fitas viveram seu auge durante os anos 80 e 90, e depois caíram em desuso com a chegada do CD. Mas quando ninguém mais esperava, elas voltaram! Pra ter uma ideia, de acordo com a British Phonography Industry, cerca de 156,542 fitas foram vendidas em 2020 no Reino Unido (um aumento de 94.7% em relação à 2019).

Mas e aqui no Brasil? Bom, aqui se você quer falar desse revival das clássicas fitinhas, você vai ter que falar sobre a Tudo Muda Music. Esse selo independente de Brasília vem lançando material dos seus artistas em belíssimas fitas cassetes, tudo feito por eles mesmos. E eles estão a todo gás, viu? Foram 30 títulos no catálogo do selo só em 2020 e, pelo visto, o selo só tem a crescer.

Pra falar sobre o Tudo Muda Music e bater um papo sobre formatos analógicos, o Bus Ride Notes entrevista Mauro Rocha, fundador do selo e um legítimo nerd de música. Confira:

Como começou a Tudo Muda Music?

A Tudo Muda Music é um pequeno selo musical de Brasília, que começou em 2015.  Desde o princípio até meados de 2019 o selo lançou apenas meus projetos musicais. Sou músico, toco baixo e sintetizador, sendo meu projeto principal o Transistorm. Por conta da minha atividade com essa banda e outros projetos paralelos, comecei a produzir discos a partir de 2015, quando criei a Tudo Muda.

Em 2019, após o selo acumular alguma experiência na produção de fitas, vinis e CDs (dos meus projetos) no Brasil e no exterior, surgiram as primeiras possibilidades de parcerias para produzir lançamentos de outros artistas-amigos do selo, com Abismo, Stvz, Frank Sidarta, e Signo XIII, chegando ao fim do ano com 11 títulos lançados em 20 formatos físicos.

Em 2020, apesar da pandemia da covid-19, o selo seguiu trabalhando a todo vapor, chegando ao fim do ano com 30 títulos no catálogo. Uma importante parceria também foi acrescentada: a associação com a Torto Disco, selo de música instrumental/experimental de Brasília que passou a lançar CDs e fitas em conjunto com a TMM.

Agora em 2021, seguimos lançando ótimos sons, como Joe Silhueta, Groupies do Papa, Visiorama, entre outros, sendo que tudo sai em formato digital mas também é lançado em fitas e/ou CDs. Já chegamos a 40 títulos no catálogo, que pode ser visto e ouvido gratuitamente no nosso Bandcamp, nossa principal “janela”.

Também estamos iniciando uma nova parceria com o selo Maxilar, do Gabriel Thomaz, do Autoramas, que deve trazer uma série de novos artistas muito interessantes ao catálogo do selo, o que é uma alegria e uma honra pra nós!

De onde surgiu a ideia de produzir as fitas k7 dos artistas do selo?

Da necessidade! Em 2015, 2016 eu comprei algumas produções de bandas brasileiras em fita (acho que era algo da Desmonta Discos), daí tentei obter os contatos pra produzir e constatei que as fitas na verdade eram feitas na Argentina. Lembro que pensei, “não é possível que em um país do tamanho do Brasil ninguém produza fita cassete! Tem até fábrica de vinil no país!”. Mas era verdade e não tinha mesmo onde produzir, aí no fim de 2016 eu comecei a tentar comprar tape decks e fitas virgens pra produzir eu mesmo, estilo D.I.Y..

Durante 2017 me dei mal várias vezes, comprando sons antigos e tentando consertar, sempre dando tudo errado, até que comprei um tape deck novo, gringo, de qualidade razoável, mas no qual consegui fazer as primeiras fitas da Tudo Muda. Também precisei desenvolver toda a parte gráfica, como templates e facas das capas e rótulos, e por fim conseguir o canal de importar as mídias, ou seja, as fitas “virgens”, o que é outro processo bem chatinho até hoje, mas que felizmente o selo vem conseguindo dominar nos últimos anos.

Em 2018, logo após eu conseguir fazer tudo isso, a Polysom começou a produzir fitas de forma industrial. Apesar de aparentemente isso ser um “banho de água fria” no meu esforço, foi algo excelente. Como eles trabalham com pedidos a partir de 50 cópias, isso trouxe uma alternativa para trabalho que não teríamos como fazer com nosso sistema de duplicação. A Tudo Muda produz com a Polysom sempre que necessário, mas hoje em dia também conseguimos fazer as nossas pequenas produções. Além disso, como não conseguimos atender encomendas de artistas interessados, sempre recomendamos a Polysom quando nos procuram nesse sentido.

E a aproximação com os artistas que são lançados pela Tudo Muda? Como ela acontece? Como é feita a curadoria de vocês?

Nossa capacidade de produção é bem limitada, então a gente se atém a uma linha de curadoria dentro da proposta do selo, que é de lançar música contemporânea, em geral que traga algo de novo/diferente em termos de sonoridade. Muitos sons que “não se encaixam” em apenas um estilo são lançados pelo selo. Também damos ênfase aos sons eletrônicos e instrumentais.

A aproximação com os artistas acontece de várias formas, no início era algo mais proativo nosso, atualmente recebemos propostas pelo email (info@tudomudamusic.com) que podem ou não se adequar à linha do selo, daí entramos em contato quando é o caso. Felizmente, agora já temos um cronograma de lançamentos pros próximos três meses, com muita coisa excelente vindo por aí até o fim do ano. Mas continuamos abertos e interessados em ouvir novos sons, especialmente que tenham a ver com nossa “linha editorial”. Basta mandar pro email acima (a gente responde sempre que tem a ver).

Você tem alguma memória afetiva com formatos físicos? Conta pra gente.

Sim, muita! Desde criança eu amo música e com 9 anos comecei a comprar fitas cassete. Na época, minha família foi morar no exterior (Lima, Peru) e meu pai só comprou um tape deck, não tive toca-discos até voltarmos ao Brasil, três anos depois, então na minha infância era só fita. Também dava pra gravar e ouvir no walkman e no carro, então essa coisa da portabilidade era ótima. Depois, na adolescência, fiz muito tape trading na época de ouro dos zines e fitinhas caseiras.

E até hoje coleciono vinis, CDs e fitas cassete, tenho uma coleção de mais de 3300 discos, devidamente cadastrados no Discogs (user: volume22).

Esse envolvimento afetivo com os discos desde a infância e o colecionismo ativo de discos até hoje me ajudam muito a obter resultados interessantes na construção do aspecto visual dos discos da Tudo Muda, claro.

A gente vê que as fitas tem todo um trabalho estético muito bem feito né, como é esse processo de produção?

Sim, tem a ver com nossas referências estéticas, de selos – principalmente Warp Records, ECM, Tzadík, Magaibutsu e, aqui no Brasil, Wop Bop e Essence Music.

Aí tentamos ser o mais criativos possível, levando em conta as artes dos discos, tentando selecionar fitas e caixas que combinem bem.

Você, Mauro, tem alguma fita preferida lançada pela Tudo Muda? Uma que você olhe e pense “Putz, esse trabalho aqui ficou lindo”.

Sim, mais de uma, na verdade. As principais seriam: Os Gatunos (2020), tem um contraste muito bom entre a fita, caixa e arte; Stano Sninský (2020), primeira experiência com rótulos em vinil translúcido, nessa fita funcionou muito bem; Transistorm (2021), fita translúcida, caixa não-translúcida e capa adesivada na fita; Fita Groupies do Papa (2021), com “luva” externa.

É meio difícil achar quem tenha um toca fitas hoje em dia, mas também está acontecendo todo um revival de formatos físicos, né? As fitas da Tudo Muda são mais como souvenirs? Como vocês pensam essa questão?

Sim, diferente do vinil (que em geral quem compra, ouve), com as fitas cassete dificilmente quem compra vai escutar. Nossas fitas vêm até com código de download pra quem compra já baixar.

Mas tem bastante a coisa do colecionismo, sim, eu costumo comparar com comprar um brinquedo antigo, que você não vai jogar mas acha legal ter na prateleira.

As fitas cassete também têm até hoje muito apelo, mesmo com pessoas muito mais jovens e que não tiveram esse formato como sua principal forma de consumir música. Talvez pelo design, talvez justamente por remeter a uma época que foi muito importante na música e na cultura (anos 70 e principalmente 80).

Recentemente o Discogs publicou uma lista das 100 fitas mais caras já vendidas no site (a mais cara foi uma do Linkin Park por 4.500 dólares), e começam com o seguinte comentário, traduzido:

Os cassetes estão voltando. Não, sério.
O vinil como uma forma de colecionar e compartilhar música já não é mais novidade em 2021. (…) Ao contrário de seus equivalentes de cera, os cassetes são bastante baratos para produzir (como artista) e comprar (como fã). Este formato de baixo custo é atraente para os músicos independentes, que podem lançar música sem investir milhares de dólares. Isso, por sua vez, torna os preços baixos e atraentes para os fãs e colecionadores mais jovens, que muitas vezes são a força motriz por trás das novas vendas de cassetes.

Esse seria outro aspecto importante, a meu ver, de ser mais acessível em termos de preço que o vinil.

Como vocês veem o papel do selo musical para com o público e os artistas? Ainda tem muitos campos a serem explorados nesse sentido? Tipo, muita coisa interessante que pode surgir dessa conexão?

É um orgulho poder colaborar com tantos artistas interessantes, poder contribuir para que tenham um lançamento legal na sua discografia e ao mesmo tempo ter sua música e sua arte no catálogo do selo.

Na Tudo Muda fazemos uma construção conjunta, bem de parceria mesmo, e bem diferente do conceito tradicional das grandes gravadoras. Selos independentes têm sim, muito mais essa vocação pra criar uma conexão com os artistas e com o público, e isso é muito bom.

No caso da TMM, como é um selo “de músicos”, vemos que isso traz também legitimidade e tranquiliza artistas parceiros, que sabem que não estão lidando com uma mentalidade voltada apenas ao lucro financeiro, mas sim à integridade artística.

E o futuro da Tudo Muda Music? Dá pra dar uma ideia do que vocês estão bolando?

Sim, como mencionei, já temos uma boa lista de artistas interessantíssimos a lançar. Isso inclui as parcerias com os selos Maxilar e Torto.

Além disso, teremos vários lançamentos de artistas da vanguarda da música japonesa, por meio de uma ponte estabelecida pelo Fredy Xistecê (produtor, ex-Lombra Records), que recentemente se aliou à Tudo Muda.

Por fim, estamos iniciando um sub-selo voltado apenas a sons pesados, em parceria com o Tulio DFC. Vai se chamar Catacumba Records e em breve estará em operação.

E assim que a pandemia passar, a ideia é organizar um evento com as bandas do selo, algo que queríamos ter feito no fim do ano passado, quando “completamos” 5 anos de vida.  Ou seja, vem muita coisa legal por aí!

Obrigado pelo espaço no site, e aos leitores. Acompanhem nosso trabalho, toda semana tem novidade.

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas / Selos

Big Cry Records – The kids will have their say

O punk é da juventude, fazendo por ela mesma, mostrando o quanto pode criar e fazer barulho por aí.

É bem nesse clima que surge a Big Cry, um coletivo faça-você-mesmo da capital paulista que bebe da água da Dischord do nosso amigo Ian, do punk com melodia e sentimento e da ideia de uma cena menos hétero topzera.

É uma movimentação de extrema importância, nos moldes da cena “pop punk queer feminista” independente que se formou nos EUA e Inglaterra, de bandas como RVIVR, Sourpatch, Aye Nako, Peeple Watchin’, Martha, Worriers e inúmeras outras, que reforçaram o punk como um espaço necessariamente além/fora do padrão cis-branco-macho que se fez durante muito tempo. Um pop punk político em oposição ao vendido pelo mainstream, por vezes bobo e distante do próprio punk.

Segue abaixo uma entrevista que fizemos com eles, sobre os projetos e os feitos do coletivo até aqui. Com vocês, Vini, Lucas, Miguel e Luke:

Ei gente, como vocês estão? Queria que vocês contassem um pouco sobre o começo da Big Cry, quem faz parte e a ideia por trás do projeto. Um selo? Um coletivo? O que seria?

Miguel: Primeiro queria dizer que é um prazer tá podendo contar um pouco da nossa jornada até agora. Estamos no comecinho ainda, mas já tem bastante história!

Bom, o projeto inicial da Big Cry era ser um selo independente pra dar suporte pra bandas e artistas, com foco nas que não tem muita experiência, não tem um bom suporte, tão muito no começo, não tem ideia de como seguir, por onde seguir, enfim… E fazer tudo isso de uma forma bem acessível, que fosse bom tanto paras bandas quanto pra nós. Levantar uma nova cena, inclusiva, respeitosa, diversificada, abolir aquele velho HC “hétero top” de sempre.

Grande parte dessa vontade é pela experiência que nós passamos quando mais novos. Primeira banda, aquela energia adolescente, doidos pra tocar por aí à fora, registrar nossos sons, participar de festivais, tocar com outras bandas, agregar mesmo, montar uma cena local. E aí a gente dá de cara com a realidade, né? Tudo muito caro, inacessível, difícil de achar lugar pra tocar, difícil de encontrar gente pra tocar junto, difícil de gravar.

Esse é justamente o sentimento que faz a gente levar nosso projeto pra frente, é trazer essa molecada toda que tá começando e que tá com aquele tesão de fazer o negócio acontecer. Fazer essa ponte entre os artistas e eventos, shows, gravação de qualidade por um preço justo. Levantar toda essa galera pra uma cena nova, esse é o grande sonho.

Aí também entra a questão do nosso projeto de coletivo. Nós já começamos com uma grande parceira que é a Modern Souds, produtora de eventos da nossa grande amiga Clara Ferreira, ela já entrou de cabeça nessa loucura com a gente.

E queremos expandir ainda mais e trazer outras vertentes, além das cenas emo, pop punk e hardcore. Somar cenas do rap, trap, alternativo, tudo ligado à contracultura, o undergound num geral. Fortalecer toda essa gama de artistas independentes que não tem suporte.

Nosso trampo preza a coletividade, fazer tudo junto. As bandas, os artistas se apoiam, se divulgam, se ajudam, de igual pra igual. É uma parada que a gente não vê mais.

E também uma das pautas mais importantes é nossa luta pelo fim dessa cena predominantemente masculina, hétero e branca. Essa sede de reformular, dar espaço pras mulheres, pros pretos, pra toda comunidade LGBTQIA+.

O punk é isso, é a revolta dos humilhados, dos abandonados. Mostrar que a gente tá aqui presente e que não vamos desistir de levar nossa arte, nosso som. Dar aquela varrida nessa gente machista, racista, homofóbica, toda essa podridão que tá entranhada na cena atual.

Miguel, Vini, Lucas e Luke

Quando o Lucas me contou sobre a Big Cry, pensei no quanto isso era incrível! Eu estava comentando com ele sobre uma cena “pop punk queer feminista” específica que rolou a partir de 2008 lá nos EUA, que juntou uma galera massa, não branca, latina e que foi um boom enorme pro que conheço e entendo por pop punk underground hoje. E saber que existe uma movimentação assim aqui, feita por jovens, é pra gente ficar feliz mesmo, né? Conta um pouco das referências de vocês, tanto na música emo e pop punk, quanto na forma de fazer tudo isso.

Vini: Acho que a principal influência que une nós quatro é o Ian Mackaye, junto com suas bandas Minor Threat e Fugazi, e principalmente a Dischord Records.

Sempre foi uma cena que nós admiramos muito, e eles começaram justamente como nós começamos: tentando gravar as próprias bandas, com o pouco que tinham, e fazendo tudo de forma independente e pelo DIY.

Agora citando referências brasileiras, apreciamos muito o trabalho da Modern Sound, da Clara Ferreira, aqui em SP. Ela faz um role muito foda, praticamente sozinha, e já trouxe até banda gringa pra cá.

Também nos inspiramos muito com o trampo das minas da PWR Records, que tem um trabalho lindo como selo e produtora, além da Bangue Records, um selo e gravadora voltado para bandas do Vale do Paraíba e região, e que apareceram em 2020 construindo uma cena muito massa por lá.

Aproveitando que falei dessa cena, tem uma coisa que sempre vi aqui e que não mudou muito hoje, que é a forma como as pessoas veem o pop punk: desvinculando do punk na maioria das vezes, por falta de um discurso político panfletário e pela melodia das músicas. O mainstream ajudou muito pra se criar essa ideia de pop punk como coisa de adolescente bobo, mas a gente sabe o quanto ele pode ser político, principalmente por acolher uma galera que se sente excluída do hardcore macho branco. Vocês acham necessário essa reafirmação do pop punk enquanto punk ou foda-se essa galera e bóra criar nosso rolê? Qual sentimento de vocês quanto a isso?

Vini: Eu acredito muito na gente criar o nosso próprio rolê, mas isso não implica necessariamente na desvinculação com o lado político do punk, até porque tudo é político, e mesmo grande parte das letras de pop punk não tratando sobre assuntos políticos, isso não significa que a banda não tenha posicionamento.

Devemos, sim, criar nossa própria cena, mas sem esquecer nossas raízes, que sempre foi algo voltado à contestação, à ir contra o status quo. A ideia com a Big Cry sempre foi a criação de uma cena que trouxesse abrigo pra essa galera excluída, que não tem suporte, e erguer isso por nós mesmos, e isso por si só já é um ato político.

Estúdio e QG da Big Cry

Em março de 2020 ia rolar o primeiro fest Big Cry, mas a pandemia adiou o rolê. Qual era expectativa pro evento na época? Poderiam contar um pouco sobre ele?

Miguel: Bicho, nossa expectativa tava incrivelmente alta! Era a festa de estreia do selo e nosso primeiro trampo de fato.

Fizemos toda correria pra conseguir o equipamento, juntamos o que nós já tínhamos, uma galera emprestou o que faltava, as bandas iam ajudar com uma parte também, foi aquela loucura haha.

Nós fechamos com três bandas, Ment que é uma banda parceiraça nossa e deu todo suporte logo no início, Nâmbula Mangueta, nossas amigonas e vizinhas de estúdio e Zero to Hero, banda de pop punk e emo de Taubaté que já tínhamos contato há tempos.

Também ia tocar a Lights Out (atual Lovemedead), banda que eu e o Carmo fazemos parte. As bandas iam se apresentar de tarde e de noite ia ter discotecagem com a Clara.

Uns amigos nossos se responsabilizaram em montar uma cantina vegan, porque o evento ia rolar o dia todo. Estávamos pra fechar com duas tatuadoras também, pra lançar umas flash tattoos. Montamos um esquema pra venda de merch das bandas, enfim, tava tudo lindo de mais… Nossa expectativa era que passassem por volta de 100 pessoas durante todo o evento. Inacreditável pra gente haha.

Mas aí o soco no estômago, né? Cancelamos o evento umas duas semanas antes dele acontecer, devido a pandemia, e aqui estamos sonhando com a queda desse governo e com a vacina pra gente poder retomar o projeto da festa, que dessa vez vai ser muito maior e mais legal!

Dia 12 de maio saiu o primeiro single produzido por vocês. Como foi tudo? Gostaram do resultado? Musicalmente falando, o que marca uma produção da Big Cry?

Luke: Então, na verdade “I Never Wanna Sleep Again” foi a primeira produção inteiramente feita no nosso estúdio, que montamos em março. O resultado foi ótimo, a acústica do lugar ficou bem boa, e a música foi muito bem recebida!

O que marca uma produção da Big Cry exatamente eu não sei te dizer, mas o que eu posso falar é que todas as pessoas que gravaram e gravam com a gente viram nossos amigos, o processo é sempre muito divertido, e tenho certeza de que isso influencia bastante na personalidade e sonoridade que os sons trazem!

Sei que vocês curtem um mainstream, mesmo vivendo o D.I.Y. e fazendo as coisas por ele. E aí eu queria fazer uma reflexão daqueles anos do pop punk emo no Brasil, os anos da Trama Virtual, dos festivais e do Rick Bonadio emocionado com tudo isso haha. Porque pensar que hoje aquela movimentação não existe mais, não dá mais a grana e mídia que dava, faz a gente pensar na cilada que pode ter sido aquilo. Vocês conseguem criar um cenário ideal pra gente que faz e vive esse tipo de música?

Lucas: Eu particularmente acho que a música é muito cíclica, soa como uma matemática exata, as vezes o rap tá em alta, as vezes o pop, as vezes o rock e geralmente isso acontece com roupagens diferentes, como foi o trap ou como tá sendo esse pop punk atual. Então talvez os “boss” que comandam essa mídia possam achar que a gente precisa de um descanso e assim vão mudando as coisas.

Mas ainda assim, eu acho que o mainstream é uma porta de entrada muito interessante, afinal muita gente do hardcore nem ouviria falar de underground se não tivesse ouvido Pitty lá nos anos 2000.

Porém, mesmo sendo uma vitrine e talvez uma forma de representatividade pra animar as pessoas a fazerem, quem amava de verdade sempre acabou seguindo pelo independente e pelo underground. Com raras exceções de bandas como Fresno que foram, se mantiveram no mainstream, e hoje se tornaram praticamente um marco na história da música brasileira.

QG Big Cry de fora (pegou a referência? <3)

Hora da lista. Cinco bandas de cada um, de coisa nova que vocês tem ouvido:

Luke: Be Like Max, Futuro, Anti-Queens, The Carolyn e Can’t Swim.

Lucas: Destroy Boys, Creeper, Grumpster, Salem e Pity Party (menção especial pros singles novos do Fiddlehead).

Miguel: Pinkshift, Meet Me @ The Altar, Yours Truly, Mod Sun e Double Play.

Vinicius: Desventura, De Carne e Flor, Nothing, Charmer e Gulfer.

Acho que é isso, gente. Se quiserem falar sobre algo que não comentei, fiquem a vontade. Vi que está rolando uma camisa linda de vocês e tal <3 Vida longa à Big Cry!

Lucas: A gente agradece demais pela oportunidade, queria agradecer você e todo mundo do site por isso! Essa é talvez nossa primeira aparição pública haha e tô muito feliz de fazer isso com você!

A nossa primeira leva de camisetas foi encerrada no último dia 12, agora estamos na fase de produzir.

Ainda estamos entendendo como tudo funciona e como fazer de uma forma melhor, mas é isso, fiquem ligados no nosso Instagram que em breve vão rolar muitos lançamentos. Beijos e leiam zines.


Entrevistas / Selos

Entrevista: Mercúrio Música

Mercúrio Música é um selo que faz parte da produtora cultural Mercúrio, de Fortaleza, CE.
Fundado em 2018, o selo conta com bandas e artistas do experimentalismo.

Convidamos Allan Dias, um dos fundadores, pra uma conversa que você lê a seguir.

Não deixe de ouvir a playlist de Allan com artistas do selo e mais!

Pra começar, vocês podem se apresentar?

Meu nome é Allan Dias. Sou músico na banda cearense Maquinas, que fundei junto com meu amigo Roberto Borges, e estou na ativa com ela desde 2013.

Também sou um dos responsáveis pelo selo Mercúrio Música, dedicado a trazer alguns dos ótimos artistas de Fortaleza e do Ceará, mas com sonoridades que acreditamos ter um pé mais no experimentalismo e propostas artísticas mais únicas.

Como surgiu a Mercúrio Música?

Vale dizer que o selo Mercúrio Música é apenas um braço da produtora cearense Mercúrio, que já existe na cidade tempos antes do próprio selo.

Eu e meu amigo e parceiro Lenildo Gomes montamos o selo depois de vermos que a parceria de produção e consultoria com a banda Maquinas havia tido um ótimo sucesso: conseguimos trabalhar juntos para escrever bons editais de financiamento de turnês e outras questões da banda, além de a consultoria nos ajudar a sermos mais profissionais com os processos burocráticos que há por trás de uma banda.

Depois de um tempo vimos que poderíamos aplicar essa parceria com outras bandas que vimos que tinham potencial, mas poderiam precisar de ajuda da mesma forma que o Maquinas precisou. E assim criamos o selo Mercúrio Música em 2018.

Esse ano, infelizmente, o Lenildo teve que deixar o trabalho no selo por assumir um cargo que iria lhe tomar muito tempo e não teria como se dedicar ao selo, ficando atualmente eu e a Ravena Monte, amiga e parceria de anos para continuarmos os trabalhos da Mercúrio Música.

Pensando no mundo antes do covid, como é a cena em Fortaleza?

Eu creio que o cenário musical underground de Fortaleza, pelo menos nos anos recentes, nunca foi marcado por um determinado estilo de som. É uma cidade muito plural, com diversos movimentos de cenas musicais acontecendo ao longo dos anos.

A grande questão é que, por algum motivo, muitas bandas e artistas não conseguem sequer uma projeção modesta no país e até mesmo na própria cidade e eu acho isso uma pena, pois realmente acredito que Fortaleza talvez esteja fazendo o melhor da música atual no cenário alternativo.

Quando você vê que de uns cinco anos para cá Fortaleza viu artistas como Mateus Fazeno Rock, Clau Aniz, Mumutante, Glamourings, Damn Youth, Jack The Joker, Arquelano Jangada Pirata, Dronedeus e outros nomes ganhando destaque nacionalmente, você também nota que só esses nomes passam por diversos estilos musicais, do jazz ao thrash metal.

Existem diversas bolhas musicais em Fortaleza, umas com mais presença que outras, mas no geral, é como se estivessem disputando os mesmos espaços até então.

Com a pandemia fica difícil olhar para o amanhã, mas vejo que muito dos artistas estão ativos e criando, o que me deixa muito empolgado para ver o que vai surgir de música nova aqui na cidade.

O mesmo não se pode dizer dos espaços de shows que estão aos poucos se acabando em dívidas e tendo que fechar as portas. Só o pós-pandemia pode dizer como vamos nos articular nos poucos espaços que restarão na cidade.

Vocês podem falar sobre as bandas do selo num geral? Como foi se formando o cast ou o que faz uma banda entrar pra Mercúrio?

Nós basicamente tentamos trabalhar com algumas bandas que víamos que tinham potencial, possuíam uma sonoridade com piso no experimentalismo e acreditávamos que poderíamos contribuir para melhor promover o trabalho desses artistas.

Nosso primeiro álbum lançado foi o segundo disco do grupo instrumental Astronauta Marinho, “Perspecta” (2018), até hoje um dos meus álbuns favoritos de bandas de Fortaleza.

Com o tempo fomos nos aliando a outros artistas que estavam surgindo e lançamos o primeiro álbum da Clau Aniz, “Filha de Mil Mulheres”, que foi um destaque internacional impressionante, saindo inclusive na lista de melhores álbuns de música experimental da PopMatters de 2018.

A partir daí fomos trabalhando com algumas bandas ocasionalmente, atualmente nosso cast é composto por Maquinas, Clau Aniz, Vacilant, Dronedeus, Viramundo, OUSE e Jangada Pirata.

Também já lançamentos materiais de bandas como Terceiro Olho de Marte, Indigo Mood, O Jardim das Horas, Missjane, George Belasco & O Cão Andaluz, Dani de Azevedo, entre outros.

Vocês não trabalham só com lançamentos, né? Vocês podem falar sobre outros projetos do selo?

Como a Mercúrio Música é apenas uma parte da produtora, temos muitos outros projetos que realizamos fora do escopo musical. Atualmente a Mercúrio está em parceria com outras produtoras da cidade realizando diversos projetos em várias áreas culturais, nas quais vocês conseguem acompanhar via redes sociais da Mercúrio.

Na área musical, também realizamos o festival anual Barulhinho, composto por bandas do selo e outros artistas locais e nacionais. Com a pandemia, obviamente, o festival se encontra parado, mas temos muitas ideias que queremos aplicar no futuro para fazer a marca continuar a crescer.

Realizamos também a “Sessão Mercúrio”, um registro audiovisual ao vivo com alguns dos artistas do selo e que se encontram em nossa página do YouTube.

Já lançamos sessões das bandas Vacilant, Clau Aniz e Dronedeus, além de também atuarmos no suporte da sessão ao vivo de Maquinas, “O Cão de Toda Noite Ao Vivo”, lançado no começo desse ano via Edital Aldir Blanc.

Últimas considerações? Algum recado?

Convido todos a escutarem não apenas a música que lançamos na Mercúrio Música, mas descobrir os diversos artistas e bandas que o Ceará tem a oferecer. Somos um estado com muita música boa para se descobrir e acredito que teremos um maior reconhecimento no futuro.

Espero muito que esses tempos de pandemia passem logo, pois temos muitos planos e projetos grandes que queremos realizar com os artistas da cidade. Até lá, seguimos com os lançamentos do selo e pensando em ideias a mil!

Obrigado a todos pelo espaço!

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas / Selos

Gali Galó – “O queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também”

Queer é uma palavra que tem sido muito usada ultimamente, é uma gíria ofensiva em inglês que foi ressignificada já há algum tempo. É também o Q da sigla LGBTQIA+. Dia desses me perguntaram o que significa e, depois de parar pra pensar, respondi “é tudo o que não é heterossexual ou cisgênero” (essa você vai ter que procurar no Google).

Quando ouvi o termo queernejo eu pensei “como assim?!”. Depois de lembrar onde morei minha vida toda, pensei “por que ninguém fez isso antes?”. Minha reação foi a única possível.

Eu só posso falar pelo interior de SP, aqui em todo lugar público que você passa, o povo ouve exclusivamente sertanejo. Tenho 33 anos e o único momento que consigo lembrar onde isso foi um pouco diferente foi nos anos 90, quando pagode e axé faziam muito sucesso.

Nas cidades menores a festa de peão* é o evento do ano. No ensino médio, a escola onde estudei fazia um horário especial pro turno da manhã poder chegar mais tarde, já que os alunos todos iam pra festa e faltavam no dia seguinte.

É claro que tem gente que detesta tudo isso, mas o impacto cultural é inegável. E eu falo isso pra quem não conhece o interior entender a dimensão disso tudo.

A música sertaneja sempre foi um lugar muito masculino e consequentemente machista, as mulheres têm mudado o cenário há pouco tempo e depois que Gabeu lançou seu primeiro single, “Amor Rural”, em 2019, um grupo de artistas se autodenominou queernejo e estão criando um movimento.

Em outubro de 2020 eles transmitiram a primeira edição do “Fivela Fest”, primeiro festival de queernejo do Brasil.

Convidamos Gali Galó, cantore e um dos organizadores do “Fivela Fest”, pra trocar uma ideia sobre queernejo e mais.

*As festas de peão são feiras agrícolas e agropecuárias com exposições, artesanato, muita comida, parque de diversões, rodeio e shows (raramente com alguém que não toque sertanejo).

“É, uns me chamam de caminhoneira, outros me chamam de cowboy viado, mas no fundo, lá no fundo, yo soy libre!”

Você pode se apresentar, pra quem não conhece?

Eu sou Gali Galó, cantore, compositore, empresarie. Atualmente canto dentro do queernejo, um subgênero do sertanejo. É uma música com uma narrativa LGBTQIA+, envolvendo também outros ritmos musicais, como o pop, o indie, o brega, que são estilos que tivemos de referência enquanto o sertanejo era esse ambiente tão machista e heterocisnormativo.

Além da minha carreira artística, também criei a SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e o “Fivela Fest”, que é o primeiro festival queernejo do Brasil.

Você não começou na música tocando queernejo, você tinha uma carreira no indie rock e inclusive foi idealizadore da SÊLA, né? Você pode falar sobre isso?

Eu comecei compondo, a composição veio antes da interpretação. A escrita era muito forte em mim, eu também sou redatore, publicitárie, jornalista, então comecei compondo minhas músicas e essa música ganhou uma roupagem indie rock porque eu acabei caindo no cenário da música independente em São Paulo.

O indie rock foi quem me abraçou, tenho um disco lançado com outro nome artístico, Camila Garofalo. Comecei no indie e depois fui a fundo buscar minhas raízes, já faz uns quatro ou cinco anos que estou nessa busca pelo queernejo que se moldou hoje.

Sim, sou idealizadore da SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e é muito louco dividir essa persona artística com essa persona empreendedora. Por muito tempo, quando a SÊLA surgiu, eu parei minha atividade artística. Tive que, realmente, durante três anos, me dedicar ao selo.

Lançamos vários projetos, como mostras, festivais, mini documentários, Sessão SÊLA, uma coletânea SÊLA de produtoras musicais, diversos projetos que tomaram bastante o meu tempo, energia e dedicação.

E foi, inclusive, antes de me descobrir uma pessoa não-binárie. Eu tenho essa vivência como mulher e me sinto mulher as vezes, me considero gênero fluido, então a SÊLA é um dos projetos que sou mais feliz e orgulhose de ter criado.

E como surgiu Gali Galó? Você conhecia artistas de queernejo antes de começar a fazer essas músicas?

Gali Galó surgiu justamente depois dessa caminhada com a SÊLA. Quando tive um momento pra respirar e pensar de novo na minha vida artística, entendi que eu precisava ali renascer, então mudei meu nome artístico.

Procurei uma numeróloga, comecei a buscar outros nomes artísticos, demorou muito essa empreitada, foram uns três, quatro anos também. Eu também demorei muito tempo porque tava tentando entender.

No fim descobri que eu tava procurando não só uma persona artística, mas também um nome social, sabe? Tava procurando meu nome não-binárie, eu queria um nome andrógino mesmo.

Então Gali veio dessa mistura de entender quem eu sou com o que eu queria cantar e o queernejo chegou depois.

O termo queernejo foram vocês mesmos quem criaram, certo? É meio sobre artistas LGBTQIA+ “fazendo as pazes” com sua própria cultura, não?

Sim, fomos nós mesmos quem inventamos o termo queernejo, mais precisamente eu e Gabeu.
O Gabeu tinha inventado o pocnejo e eu já acompanhava. Na verdade ele tinha lançado “Amor Rural” e eu fiquei muito atente aquilo, pensei que eu precisava conhecê-lo porque entendi que eu já tava fazendo e queria fazer algo parecido.

Aí mandei uma mensagem dizendo que queria conhecê-lo e a gente se encontrou durante a “Semana Internacional de Música”. Ali surgiu uma amizade, uma identificação e logo de cara chamei ele pra ser meu sócio no “Fivela Fest”. Já fui com o nome pronto porque ele fez muito sentido pra mim.

Ele seria o primeiro festival queernejo do Brasil, que foi quando inventamos o termo. Se pocnejo era pra “bicha” e “viado” no sertanejo, então queernejo abrangeria toda a sigla da comunidade LGBTQIA+.

E é exatamente isso que você falou, é tipo umas pazes mesmo que a gente faz com as nossas raízes, as pazes que a gente faz com o sertanejo depois de vivenciar tanta coisa e depois de ficar marginalizades em outros estilos musicais. Entendemos que a gente podia, sim, fazer parte daquele movimento.

Os artistas de queernejo dão bastante atenção à estética. Vestuário, performance… a gente vê bastante isso nos seus clipes também.

Acredito que os artistas do queernejo se apropriam de uma estética pra poder entregar um produto completo. E eu tenho certeza que as pessoas LGBTQIA+ acabam sendo instigados pela vida para aflorarem sua criatividade de uma maneira mais intensa e até perigosa, eu diria.

Então acredito que não só o vestuário, mas as letras, a produção musical, acho que toda a estética dentro do queernejo é muito bem pensada, não é nada por acaso o que estamos fazendo. Temos essa consciência tanto política, quanto estética. Sabemos muito bem o que queremos entregar, então temos cuidado com esses signos.

E coincidentemente ou ironicamente o Gabeu, a Alice Marcone, Zerzil, Bemti, Reddy Allor, acredito que todo mundo já tem um encontro com a arte e com as artes visuais.
É esse negócio de não ter preconceito com outros gêneros e outras linguagens, mesmo. A gente traz elas pra complementar nosso som.

Se a gente assume uma linguagem pop misturada com sertanejo em questão de produção musical, se assume o brega, o indie, também vamos incluir nessa estética o elemento visual e outras linguagens que vão enriquecer a narrativa que queremos passar.

Falando nisso, você pode falar um pouco sobre os singles que você já lançou? É o mesmo artista, mesmo estilo musical, mas eles são bem distintos.

Sim, são bem diferentes porque eles contemplam esse período de três, quatro anos que fiquei sem lançar nada, então são músicas feitas em momentos diferentes e eu quis mostrar esses lados distintos antes de lançar um disco.

Acredito que quando o disco for lançado vou conseguir entregar a linguagem que imagino pra Gali Galó de forma mais clara, mas eu quis mostrar ali que Gali Galó pode ir tanto do rock psicodélico até um arrocha, que é “Fluxo (Mulher do Futuro)”.

É música brega, ao mesmo tempo tem uma psicodelia, só que não deixa de ser pautado sempre pelo sertanejo, pela forma de cantar, pelas melodias, instrumentos e arranjos.

Esses singles vão fazer parte do seu primeiro disco? O que você pode nos contar sobre ele?

Desses singles, só “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” farão parte do disco, já vou dando spoiler. “Raiz” realmente é um pouco distinto porque foi o primeiro a ser gravado, apesar de ter sido lançado depois.
Então “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” entram no disco com mais oito músicas inéditas.

O disco é um compilado de tudo o que eu escrevi nos últimos cinco anos e de muita coisa que ficou pra trás também. Gali se reinventou muitas vezes nesse período e hoje eu consigo encontrar uma linha curatorial dentro desse turbilhão de coisas que é fazer as pazes com as suas raízes, entender exatamente o que se é, seu gênero, de onde você veio, enfim.

Exatamente como se é não, porque acho que ainda tenho uma grande busca pra descobrir quem eu sou e os milhões de gêneros que existem dentro da não binariedade. Também acho que é complexo a gente colocar uma coisa tão certa.

Mas acredito que é o retrato da minha caminhada agora, fala exatamente do queernejo, de como estou contente em ter encontrado pessoas que estão fazendo coisas parecidas com o que estou fazendo e de como esse som já faz parte de um movimento tão forte.

Em outubro de 2020 foi transmitida a primeira edição do “Fivela Fest”, festival em que você foi um dos organizadores. Você pode falar um pouco sobre ele?

Ter feito o “Fivela Fest” foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, como artista e como empresárie.

Ele não só reuniu artistas que têm um movimento parecido com o meu e levantam a bandeira LGBTQIA+, que é um assunto que tá em primeiro lugar nos meus debates e na minha música, mas também foi muito importante pra entendermos sobre o mercado, como o público realmente tá sedento por esse assunto e como estão interessados.

Porque sertanejo sendo o estilo musical mais ouvido no Brasil, e tão heteronormativo, cis e branco, a gente entende que fazer queernejo não é como fazer música pop, que é LGBT. O pop aceita o LGBTQIA+, é como um abraço confortável, o sertanejo já não é assim. Então foi muito importante termos dado esse primeiro passo e se fortalecido como grupo, como movimento.

Eu acredito que nas próximas edições vamos descobrir outros artistas, assim como foi nessa primeira, onde praticamente apadrinhamos a primeira dupla queernejo do Brasil, Mel & Kaleb, que surgiu pra se apresentar no festival e continuam aí se apresentando e vão lançar o primeiro EP.

Então “Fivela Fest” foi uma aventura incrível. E ter feito e produzido ao lado do Gabeu e da Alice Marcone, que são pessoas que admiro tanto e que são tão inteligentes, acho que foi muito rico também pra minha experiência pessoal.

Tentando terminar a conversa com um pouco de otimismo, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo? Últimas considerações? Algum recado?

Bom, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo é esse disco que eu prometo já há tanto tempo. Mas agora realmente tá rolando, estamos na pré-produção e em breve começamos a gravar. Espero que saia nesse primeiro semestre.

E video clipes. Como você disse, o apelo visual é muito importante.
Acho que nós, pessoas LGBTQIA+, estamos de olho no que está acontecendo, nas tendências, temos que estar, precisamos usar todas ferramentas ao nosso alcance pra poder entregar um trabalho, uma mensagem interessante.

E, claro, o queernejo dentro do Fivela só tende a crescer e o nosso grupo tá super fortalecido. Somos muito amigues, dividimos experiências e eu acho que o queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também.

Você pode ouvir Gali Galó no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas / Selos

Kino Lopes – Dobradiça Enferrujada Discos

Começando pelo começo, caso você nunca tenha ouvido falar, experimental geralmente é quando a pessoa faz um som sem estrutura, usando elementos pouco comuns, usando um instrumento de uma maneira que não costuma ser usada ou tudo isso de uma vez. E no meu entendimento improvisação é quando a pessoa não pensa duas vezes, a composição é em tempo real quando grava um disco e ao vivo é literalmente improvisado, um show nunca vai ser como o outro.

Dobradiça Enferrujada Discos é um selo independente de Brasília que reúne alguns desses artistas. Inclusive, Qorpo, com quem fizemos uma entrevista há alguns meses. Conversamos com Kino Lopes, co-fundador do selo, pra conhecer um pouco mais sobre esse mundo.

Gostaria de deixar a observação que meu conhecimento sobre improvisação e experimentação se resume ao que eu acabei de escrever, então as perguntas surgiram da minha ignorância e curiosidade sobre o assunto.

Caso eu tenha errado na introdução, você pode falar resumidamente o que é improvisação e experimentação?

Eu diria duas coisas, que acabam sendo uma só. Primeiro que música experimental seria menos um gênero ou uma linguagem geral com signos que regem sua construção, mas seria essencialmente uma forma de criação que lida com a possibilidade de produzir a partir do contato com o material, encontrando estruturas através dele, e não o aplicando a um recipiente previamente estruturado. Eu não diria que isso resulta em uma ausência de estrutura, mas sim em uma dinâmica de ida e volta com o som, que de certa forma significa que a música recebe uma imagem como resultado do próprio processo, ao invés de caminhar em direção a uma imagem que determinaria seu equilíbrio e seus alvos. Existe uma singularidade formal inscrita no próprio encontro com os objetos musicais. E a segunda coisa é que a experimentação é marcada, sobretudo, pela incerteza do resultado. É uma maneira de fazer coisas que não sabemos o que são, seja através da improvisação, que implica em uma relação de investigação em tempo real, onde o espaço, as ações involuntárias do instrumento, e os membros da performance terão uma grande fala na negociação da evolução do material, ou seja, através da composição, que implica uma lapidação e uma sistematização que nasce da análise dos elementos. É claro que existe todo um espectro entre esses dois processos que tendem a se misturar.

Você também é um dos artistas do selo, você pode falar sobre a sua história com improvisação e experimentação? E como surgiu a ideia de um selo pra esse “gênero musical” meio desconhecido?

Durante as ocupações estudantis da UnB que ocorram em 2016 contra o golpe de estado e a PEC 241, os estudantes que ocuparam o departamento de música tinham formações muito distintas entre si, desde o jazz, como no meu caso, ao piano romântico, como no caso da Cá Rocha, até a música popular, como no caso da Marília Nóbrega, e ainda estudantes de outros cursos que ocuparam conosco e que tinham formação nenhuma. A improvisação, de uma forma completamente desprovida de qualquer tipo de agenda ou bula, foi a “solução” pra esse desencontro de vocabulário, que, na verdade, não seria uma solução porque ela não fornece exatamente um território expandido que acolhe as linguagens da forma como são, mas uma nova gramática que é construída através da deformação delas. A Dobradiça nasceu logo depois do fim das ocupações com a ideia de organizar as reverberações das experiências e dos aprendizados que surgiram naqueles meses, e que continuam surgindo mesmo três anos depois, hoje com ainda mais pessoas graças as apresentações, as jams e aos encontros, como, por exemplo, o QORPO que vocês entrevistaram, e também graças a compositora e professora Tatiana Catanzaro da UnB, que desde sua chegada no departamento tem fortalecido um estudo e uma comunidade voltada para a experimentação. Foram praticamente três meses com aquele tanto de gente morando no mesmo lugar, aprendendo um bocado junto, e acho que no fundo é uma tentativa de dar continuidade e de expandir aquela experiência.

Você pode falar sobre a coletânea “Mais a Soma de Seus Possíveis”?

Esse álbum foi em sua maioria a gravação de uma apresentação que fizemos no começo do ano no Estúdio Confraria, que consistiu de improvisações individuais, e a outra parte de gravações feitas em casa por quem não pode participar no dia, e mesmo assim algumas pessoas infelizmente não conseguiram participar. Um assunto muito frequente entre a galera sempre foi a ideia de que se uma improvisação individual é ou não uma improvisação. Quando improvisamos sozinhos sempre estamos à beira de um processo altamente controlado, à beira de uma composição em tempo real. Nesse projeto temos peças completamente improvisadas, como a do Luiz Rocha, até a composição escrita da Yuki Shimura. Como esse campo é extremamente expressivo e pode ser construído/formatado de tantas formas, é muito legal poder ouvir a peculiaridade do processo de cada um neste contexto solo, como também ouvir as semelhanças entre a composição e a improvisação. Era algo que ocorria nos encontros e afins, e queríamos a um bom tempo fazer gravando.

Além dos lançamentos, o selo promove eventos com seus artistas. Você pode falar um pouco sobre isso?

Por sorte nossa, diversos lugares deram espaço para a gente apresentar e montar projetos de forma completamente livre. É legal quando alguém acolhe uma proposta de apresentação onde não sabemos como vai ser. Quando a situação é ao vivo, existe a possibilidade de refletir coletivamente sobre o que aconteceu, e a audiência frequentemente apresenta uma perspectiva completamente criativa sobre o som, e assim como as pessoas que estão tocando, as interpretações são contrastantes, o que gera uma retroalimentação gigante. Também existe uma pluralidade de comportamento quando apresentamos ao vivo, desde pessoas mudando de lugar, posição pra ter outras perspectivas do que esta acontecendo, como por exemplo, um rapaz que foi da cadeira, pro chão, e depois deitou a cabeça no piano do Rafael Bacellar, até apresentações onde a pessoa traz um instrumento pra tocar junto. Em uma apresentação ao vivo fica latente o quanto a parte de ouvir e investigar o som é uma das partes mais criativas, se não a mais criativa. Até a pandemia, a Galeria Alfinete e o 705 Bar abrigavam apresentações rotineiramente pros projetos, e isso proporciona uma coisa maravilhosa que é ter uma espécie de laboratório, e eu digo isso tanto para quem está indo pra tocar tanto pra quem tá indo para ouvir. Existe uma relação de muita confiança no meio disso, já que se trata em sua maioria de apresentações onde não sabemos o que vamos tocar.

E falando nisso, existe muita diferença entre gravação e apresentação quando se trata de improvisação e experimentação?

Existe muito. A primeira coisa que vem em mente é o processo de mixagem e edição que existe depois da gravação. O Pedro Menezes da Zéfiro, que é quem grava e mixa a maior parte dos projetos da Dobradiça, é tão instrumentista quanto os gravados quando se trata da improvisação gravada. A possibilidade de interagir com a microfonação, com a edição, com o silêncio do estúdio, isso tudo é bem diferente em uma sala de apresentação com público, onde temos a acústica de um espaço povoado, a espacialização. A segunda coisa é o detalhe que o microfone pega. Gravamos um projeto de trio, ainda não lançado, que conta com a Cá Rocha (voz e percussão), Andrey Grego (violino) e eu (violão e trompete) que é em sua maioria num volume tão baixo, que não teria como ser percebido ao vivo da forma como é com a captação de múltiplas ferramentas. Já ao vivo, a materialidade do som, a sensação física ao ouvir um acorde desencontrado entre um sax, um trompete, uma clarineta e um violino, essa fisicalidade é um vetor determinante na forma que a improvisação vai tomar.

Como anda a situação na quarentena? O pessoal têm gravado em casa?

A situação da quarentena num geral anda chorosa levando em conta a completa falta de capacidade que temos de gerir duas crises ao mesmo tempo, tanto da pandemia em si tanto de um projeto de governo que desde seu princípio deixa claro que a perda de vidas não será motivo de preocupações, mais especificamente das classes mais baixas, essas que nunca tiveram quarentena ou isolamento social e que são obrigadas a entrarem em pelo menos dois ônibus lotados por dia. É uma situação completamente desnecessária, diga-se de passagem. No início da pandemia ouve a desoneração tributária para uma série de empresas privadas, mas sem a manutenção do trabalho, sem nenhuma defesa dos postos de trabalho. Deixamos de arrecadar bilhões de grandes empresas que poderiam ser usados para garantir a possibilidade do isolamento social. Enquanto isso no Chile foi aprovado, por iniciativa do partido comunista chileno, a taxação de grandes fortunas para garantir o isolamento de todos e todas. Então quarentena real, no Brasil, não houve.
Em relação à possibilidade de continuar com os projetos do selo: a não ser os projetos já gravados e ainda não lançados, o movimento em termos de produção que existe no momento são grupos de estudos, projetos para cursos virtuais, video aulas, e trabalhos voltados para a área da composição. Eu diria que uma possibilidade que se abre com a impossibilidade de se encontrar é a oportunidade de repensar a composição, um processo que é comumente feito individualmente, de forma interativa através da tecnologia, que é para onde temos virado nossa atenção.

Últimas considerações? Algum recado?

Queria agradecer pela entrevista, e principalmente pelo blog. A internet talvez seja o lugar mais perigoso hoje pra uma pessoa procurando no que pensar e como ocupar a cabeça, e o que espaços como o Bus Ride fazem, dedicando tempo e força pra falar de música criativa, pode não parecer muito em momentos como os que estamos, mas se deixar de existir, a diferença vai ser sentida de várias formas e em várias dimensões.

Os lançamentos do Dobradiça Enferrujada Discos estão disponíveis no Bandcamp.


Entrevistas / Selos

De Carne e Flor

De Carne e Flor é uma banda de post-hardcore formada em São Paulo em 2016 e hoje composta por Bruno Araújo (voz), Dan Carelli (guitarra), André Jordão (guitarra) e Eliton Si (bateria/voz).

Em Novembro de 2018 eles lançaram o primeiro EP, “Teto Não Familiar”, e fizeram o primeiro show.

Como quase todo post-hardcore e post-rock o som é muito melódico e as letras emotivas e de natureza vulnerável, nesse caso sob um mesmo tema. Por esse motivo eu recomendo que você ouça antes de ler a nossa entrevista, porque esse aspecto pessoal faz cada um interpretar as letras de uma maneira diferente.

A banda cita como influências Alexisonfire (Canadá), Envy (Japão), Touché Amoré (EUA), Pianos Become the Teeth (EUA), Colligere (Brasil), Suis La Lune (Suécia) e Viva Belgrado (Espanha), inclusive o nome da banda foi inspirado na música deles de mesmo nome, assim como a “inspiração para a exclamação dos versos em idioma latino, o que aumenta a dramatização pois viabiliza uma maneira mais carregada de pronunciar os versos”.

E nem só de referências musicais é feito “Teto Não Familiar”, esse é também o título do segundo episódio do anime “Neon Genesis Evangelion”, exibido pela primeira vez em 1995 no Japão.

Entre todos os seus detalhes, o EP contém quatro faixas que, dispostas de modo linear, formam a frase “A âncora que jogamos nas poças se transforma em medo e em desejo de um teto não familiar”.

A capa do EP é uma ilustração de Cristal Ganda, baseada em uma foto do quarto do vocalista Bruno. A marca quadrada no canto superior direito é uma referência ao Selo Preto (fundado por integrantes da banda), representando seu primeiro lançamento inédito.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Bruno: A banda foi formada em 2016, com integrantes espalhados pela metrópole de SP (e continua sendo assim, mesmo com as mudanças de formação). O som é gritado, melódico e confessional.

“Teto Não Familiar” é um EP conceitual? O nome é uma referência e as letras seguem uma mesma linha de raciocínio. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas?

Bruno: “Teto não-familiar” é o nome do segundo episódio de Neon Genesis Evangelion. A ideia de lançar um EP com esse nome surgiu na minha cabeça já na época em que a Black Clovd estava na ativa, era pra ser o nome do próximo lançamento, só que em inglês. O tema não foi intencional nas letras, mas ao ver as quatro músicas prontas, enxergamos que elas compartilhavam essa sensação de despertencimento, daí de última hora surgiu a ideia de formar uma sentença com a ordem dos nomes, gerando essa interação entre todos os elementos do EP de forma espontânea.

O primeiro show da banda foi depois do lançamento do EP, certo? Isso não é muito comum, como vocês chegaram a essa escolha?

Bruno: Acho que foi uma questão de foco. Queríamos estar bem ensaiados já na estreia, pra marcar bem o lançamento. Ter o EP lançado também serviu pra atrair o público e o pessoal que andava curioso com a banda desde o início, já que ele levou dois anos pra ser lançado desde que a banda começou. Aconteceu também de o André (guitarra) entrar na banda na reta de finalização do EP, então foram necessários mais uns ensaios pra ele aprender os sons e se inteirar com todo mundo.

A última música do EP, “De um Teto Não Familiar”, tem uma história, né? Você pode falar sobre?

Bruno: Escrevi a letra inspirado numa conversa com a minha mãe, onde ela narrou a trajetória de uma parente próxima que fugiu de casa ainda muito jovem pra se estabelecer em São Paulo (toda a geração anterior à minha da minha família foi nascida e criada no Ceará, tanto do lado materno quanto paterno). A ideia era fazer uma crônica ou um conto mesmo, mas acabou virando uma homenagem aos familiares e ao mesmo tempo um desabafo, tendo a luta e sofrimento que motivaram a ação libertadora da parente e toda sua geração como contraste à letargia e deslocamento que sentia na época que escrevi, e que também vejo permeados coletivamente hoje em dia. Não é algo novo ou criado por nós, mas em discussões ou reuniões a gente vê a diferença de tratamento que as gerações dão para questões de saúde mental. Não dá pra dizer precisamente se é a maior consciência/importância que costumamos dar sobre o assunto que nos faz sofrer do mesmo problema de formas diferentes, mas vejo a discrepância. Enfim, quanto mais falo sobre, mais enrolado fico pra explicar, e acho que a música é sobre isso também (risos).

Em Dezembro vocês participaram da coletânea “Tentáculos” do Selo Preto, que foi fundado por alguns integrantes da banda. Vocês podem falar um pouco sobre ela e sobre o selo?

Eliton: Não tínhamos realizado nenhuma apresentação até a estreia da banda, no final de 2018, então ficamos na febre de tocar por aí. Planejávamos agitar um show por mês por aqui e tocar em todo lugar que nos convidassem. Para isso resolvemos batizar os eventos enquanto o nome de Selo Preto aparecia no meu imaginário e em algumas conversas com bafo de bebida. Ocorreram cerca de 15 apresentações e isso agitou nosso pessoal de alguma forma. Tínhamos do lado as bandas Ravir e Obscvre Ser, que trouxeram bandas de fora de São Paulo e superaram os desafios de atender os custos disso. A coletânea então representava, no fim daquele ano, a compilação de todas as bandas que cruzamos nos eventos que essas bandas tocaram. Me sinto particularmente realizado por ser uma coletânea eclética, afinal tinha anseio de tocar com bandas variadas, no nosso limite ficou um conjunto bem diverso de músicas. O nome veio justamente dos vários “braços” de um polvo, que ele usa para alcançar alimento e trazê-lo para a boca. O objetivo geral é aumentar a visibilidade das bandas que tem seus materiais muito bem produzidos e que duram horas ou poucos dias no feed. Por enquanto o Bandcamp vem contando a história de lançamento das bandas que me impulsionaram a criar algo como um selo, no formato de linha do tempo. Para facilitar que essas bandas de fora viessem tocar aqui, estávamos para reformar o espaço Névoa na zona leste para voltar a realizar eventos lá, ainda bem que não rolou, afinal a pandemia viria deixar tudo isso lá estacionado.

Como anda o aspecto musical nesse 2020 e os planos da banda?

Bruno: É desolador, pois ouvimos falar de picos e estúdios passando por dificuldades, alguns até fechando, e na “camada acima” da nossa no circuito, o pessoal que trabalha nos palcos e na estrada tendo que se sustentar de outras formas por não ser possível realizar shows. Por outro lado vemos bandas próximas com iniciativas legais acontecendo na cena, desde ações beneficentes e merch até lives e sessões caseiras pra manter o pessoal unido, tendo como exemplo o pessoal do Caoticagem, Lili Carabina, Obscvre Ser e Navio. Tem rolado também um interesse em lançar sons caseiros, o que é um grande aprendizado pra quem resolve se aprofundar. Com o equipamento que adquirimos recuperamos o fôlego e retomamos de forma remota, junto com o produtor Igor Porto (que também produziu o EP), as gravações que iniciamos em Fevereiro e ficaram paradas desde então por conta da pandemia.

Últimas considerações? Algum recado?

Bruno: Agradecemos o convite e o interesse na entrevista! Como foi adiantado, estamos trabalhando em dois novos sons e esperamos lançá-los o quanto antes. Esperamos que todo mundo se cuide e ao mesmo tempo lute contra a inércia. Sdds shows.

“Teto Não Familiar” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.