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Resenhas

HAYZ – Não Estamos Mais em Casa

HAYZ é um trio de queercore formado em 2018 em São Paulo por Josie Lucas (guitarra, voz), Bruna Provazi (baixo, voz) e Roberta Bergami (bateria). E, assim sendo, é impossível falar de seu primeiro EP, “Não Estamos Mais em Casa”, lançado em 8 de Março de 2019, sem citar suas influências.

No final dos anos 90 e começo dos 2000 algumas bandas de queercore faziam um som muito característico, tanto que eu não consigo chamar Team Dresch de nada além de queercore (se você tá perdido, leia aqui nosso texto sobre o gênero). Sim, é emo, mas com algumas diferenças (se você não gosta de vocais entrelaçados, tem algo errado com você). E é nessas bandas que HAYZ mais se inspira (Longstocking, Third Sex e, a já citada, Team Dresch).

Com essas influências a sonoridade cria um ambiente distinto, as vezes nostálgico, e já toca no seu emocional desde aí. É por isso que chamam de Emo, não? E falando em emoção, é impossível ouvir “Não Estamos Mais em Casa” e reagir com indiferença.

Cada um interpreta a arte de um jeito, mas nas letras de “Não Estamos Mais em Casa” não sobra tanto espaço pra isso, você vê nitidamente que as coisas não estão bem.

Porém eu só posso falar da minha interpretação, só uma de várias que eu mesma tenho, aliás, mas é a mais presente quando ouço. Bem, como uma pessoa que tem doenças emocionais há anos, as músicas causam uma forte reação. E me colocando nesse lugar, as letras do EP ilustram a exaustão e aceitação “Isso não é sobre desistir, se for pra morrer que seja assim”.

Nós fazemos um exercício diário de acreditar que não estamos sozinhos. Pelas estatísticas, realmente, isso é impossível, mas aparentemente todos ao seu imediato redor não conseguem ou se recusam a entender as diferenças, afinal de contas você só não tem tudo, pois não se empenhou. É bem simples, não?

“Há marcas de sangue ainda no chão, quem nunca esteve lá não pode ver… A liberdade que não conheceu e ainda assim vai te definir”.

Também está presente a estagnação, um tanto latente, que as vezes sufoca “Na mesa a decomposição não te deixa esquecer que tudo segue acontecendo ao seu redor”.

Comecei falando de doenças emocionais diagnosticadas, mas o mundo anda tão doente que acredito serem poucas as pessoas que não se identificam com as letras de “Não Estamos Mais em Casa”. Elas não foram escritas sobre você, mas, ao mesmo tempo, falam o que você sente.

“Ainda resta algum sonho? Não sei, mas preciso me amar pra poder seguir e nisso não estamos sós, eu e você”.

“Kings”, a última faixa do EP, fala sobre um episódio de abuso que aconteceu na cena hardcore de São Paulo há alguns anos, “uma fraternidade inata que absolve escolhendo em quem acreditar”.

Apesar de ser recente e abusos ainda serem presentes, tenho a impressão que as coisas, aos poucos, estão melhorando. Não sei se por maior diálogo ou pela falta dele, afinal de contas já dizia Hole: “Você precisa aprender a dizer não”.

As letras de “Não Estamos Mais em Casa” ilustram como viver é doloroso e exaustivo, mas a conclusão é que “Tanto faz quem já não conseguimos ser, importa que não haverá negociação jamais. Nenhuma a menos é a condição”.

E no final disso tudo é difícil não lembrar de Hannah Gadsby (provavelmente por que assisti Nanette vezes demais) dizendo: “Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu”.

Há alguns dias a Efusiva Records, junto com o site Nada Pop, lançou o mini documentário “Não Estamos Mais em Casa”, realizado a partir do registro feito na passagem da banda pelo Rio de Janeiro em Maio. Você pode assistir abaixo: