Bus Ride Notes

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Entrevista

Anti-Corpos – We Keep On Living

Creio que todo mundo que acompanha o Bus Ride Notes conhece Anti-Corpos, banda de São Paulo formada em 2002, hoje em Berlin e composta por Adriessa Oliveira (guitarra), Helena Krausz (bateria), Marina Pandelo (baixo) e Rebeca Domiciano (vocal).

Anti-Corpos foi uma das primeiras bandas de queercore (se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre) do Brasil, numa época onde praticamente ninguém, nem mesmo a banda, usava o termo.

Em Outubro de 2020 elas lançaram seu novo EP, “We Keep On Living”, cujas músicas foram feitas e gravadas em momentos diferentes, inclusive com diferentes membros na banda.

Conversamos com Anti-Corpos sobre “We Keep On Living”, a história da banda e mais. Confira:

Primeiramente, como estão nessa pandemia? Todo mundo bem? Como andam as coisas aí na Alemanha?

Adriessa: Olá! Bom, a pandemia na Alemanha estava bem controlada até o final das férias de verão, quando os casos começaram a crescer assustadoramente e agora está novamente num lockdown mais severo.
Junta isso com temperaturas negativas e dias que escurecem as 16h, bicho, é tenso! Mas estamos bem e tentando passar por cima de tudo isso.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Adriessa: Anti-Corpos é uma banda queer feminista que faz som rápido e pesado que flerta com o hardcore, punk e metal, aquele famoso crossover.

Helena: A banda existe desde 2002 e ao longo de todo esse tempo tocamos em diferentes cidades brasileiras e vários países da Europa e América do Sul.

Desde 2015 a banda teve várias mudanças, alguns integrantes se mudaram pra Alemanha e formaram uma nova banda. Vocês podem falar sobre isso? E a escolha de continuar com Anti-Corpos?

Adriessa: A banda em toda a sua história teve muitas mudanças, essa é a real.
Em 2015 quando me mudei pra Alemanha e teoricamente a banda tinha acabado porque Rebeca tinha voltado para o Brasil, sabia que a primeira coisa que eu precisava era de uma banda nova, aí conheci Andrzej e Andrea e montamos o Eat My Fear, que na sua formação original tinha o Dirk no baixo. Após três anos ele deixou a banda e a Helena (baterista da Anti-Corpos) assumiu o baixo do Eat My Fear.

Mas logo em 2016, quando Rebeca também se mudou pra Berlin e estávamos reunides novamente, resolvemos dar continuidade e escalamos a Marina pro baixo, que já vinha nos acompanhando por alguns shows que fizemos na Europa.

Acho que o Anti-Corpos sempre vai existir enquanto estivermos na pilha de tocar e sempre nos adaptamos para que isso continue acontecendo.

As músicas do “We Keep On Living” foram feitas durante todas essas mudanças, né? Vocês podem falar um pouco sobre cada faixa?

Adriessa: Esse EP é uma junção de quatro sons gravados em momentos diferentes. Alguns comigo e outros com Re no vocal.
Pouco antes de Rebeca deixar a banda, em 2017 (Rebeca já está de volta hehe), tínhamos recebido um convite para gravar um som para um tributo ao Bulimia e junto com esse som do Bulimia gravamos “Herança” e “Brincando de Igualdade”.

Em 2019, quando eu assumi os vocais, gravamos “Borders of Fear” e “Keep On”. Eu escrevi “Borders of Fear” em uma das viagens que fiz para ensaiar com uma banda que toco na Suécia, que tem uma das fronteiras mais brutais que já passei pela Europa. Sempre que eu atravessava me dava pânico, porque sabia que ia ser controlada de forma agressiva por causa do meu passaporte brasileiro. Pessoas com passaportes de origem africanas ou árabes então… era muito sinistro.

“Keep On” é sobre continuar dia após dia a viver nesse mundo caótico que te cobra demais e que é difícil não pensar em desistir. A letra é da Marina e foi nosso primeiro som em inglês, se não me engano.

Helena: “Brincando de Igualdade” é uma música feita em 2005 que resolvemos regravar. Ela fala basicamente sobre pessoas que são bem desconstruídas na teoria, mas que suas atitudes não condizem com o que falam.
Sempre existiram vários exemplos na cena punk/hardcore de caras com um discurso lindo em cima do palco, mas na realidade eram bem diferentes.

E como tá a banda hoje?

Adriessa: Voltou a ser Adriessa na guitarra, Rebeca no vocal, Marina no baixo e Helena na bateria.
Estávamos voltando a compor para um novo disco, querendo tocar muito e aí veio a pandemia.
Enfim, estamos como a maioria das bandas, na espera louca da vacina.

Não dá pra falar de Anti-Corpos sem falar de queercore. Conheci a banda em 2015 e tenho um adesivo da época onde se lê “lesbian feminist hardcore from brazil” e desde aquela época vocês já usavam o termo “queer” em alguns lugares. Vocês podem falar da relação da banda com o queercore?

Adriessa: Acho que no Brasil o termo queercore nunca foi propriamente usado até tipo Teu Pai Já Sabe?. O queercore é parte da nossa identidade e influências.

Bandas como Limp Wrist, Team Dresch, G.L.O.S.S., TPJS? são super importantes na nossa caminhada. Em 2019 tocamos com o Limp Wrist em Berlin e foi tipo WOW, realização de sonho!

Usar o termo “hardcore lésbico” ou “queercore” sempre foi muito importante para nós como luta mesmo, nesse espaço ainda super machista e homofóbico que é o hardcore punk.

Quem ouve punk e hardcore tem a impressão que é uma comunidade unida e linda, mas sempre que nos aproximamos da cena vemos que a realidade não é nada disso. Mas uma coisa visível na Anti-Corpos, até pra quem acompanha só pela internet, é um senso grande de comunidade. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Adriessa: Acho que a letra da música “Anti-Corpos” fala muito bem o que a banda representa para nós. É a nossa forma prática de luta.

Eu costumava tocar em uma banda que evitava ao máximo essa relação pessoal do público/banda. Acho que as bandas mais ”mainstream do underground” do hardcore punk dos anos 90 ainda tentavam ter essa divisão banda/público.

Eu vejo Anti-Corpos como uma grande comunidade queer, feminista, das mina, das mona, dos roqueiros e roqueiras que se encontram, curtem, pensam, trocam. O palco não nos separa e gostamos da interação em shows, trocando instrumento, chamando galera pra cantar, etc.
No final somos todes ”outcasts” que procuram nesses ambientes de shows queer feminista se divertir e sentir segure na medida do possível.

Eu acho que o que consegui com Anti-Corpos nunca consegui com nenhuma banda e muito vem desse apoio mútuo da nossa comunidade.

Helena: Total, esse apoio é essencial para nos fortalecermos ainda mais enquanto cena queer feminista.
O que não significa que quando vemos algo que achamos errado ficamos quietas. Pelo contrário, sempre que algo ou alguém é denunciado dentro da cena procuramos falar sobre isso, mesmo que não agrade a todes.

Vocês são o tema do documentário “Anti-Corpos, Pedaços de uma Turnê Cúir”, que foi exibido em Novembro no festival Mix Brasil. Vocês podem falar sobre ele?

Adriessa: Meu, isso foi muito surpresa! A nossa amigona Brunella Martina, que gravou todos os nossos clipes, já tocou na banda e gravou a segunda guitarra do disco “Meninas pra Frente”, assim que soube da nossa tour na América do Sul em 2019 falou sobre fazer um registro e usar de alguma forma o material.

Um ano depois, ela nos escreveu com o primeiro corte do mini doc, já nem lembrávamos mais dele. Fomos surpreendidas por um material super massa e ficamos ainda mais surpresas por terem aprovado o doc no Mix Brasil.

Foi interessante ver nossas entrevistas logo após a posse do Bolsonaro, falando de uma forma super pessimista, mas mesmo assim o tom da nossa fala não se compara com a realidade que está sendo vivida hoje. É tipo nossos medos que foram multiplicados por mil.
Triste demais, espero que tenha um ponto de virada em todo esse pior pesadelo.

Últimas considerações? Algum recado?

Adriessa: Obrigada demais pelo convite e sigam seus sonhos, chequem como seus amigues estão passado e fiquem bem! Vamos resistir e fazer a mudança! Quando tudo isso passar nos vemos na estrada.

Helena: Valeu pelo espaço! Força sempre!

“We Keep On Living” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Gali Galó – “O queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também”

Queer é uma palavra que tem sido muito usada ultimamente, é uma gíria ofensiva em inglês que foi ressignificada já há algum tempo. É também o Q da sigla LGBTQIA+. Dia desses me perguntaram o que significa e, depois de parar pra pensar, respondi “é tudo o que não é heterossexual ou cisgênero” (essa você vai ter que procurar no Google).

Quando li o termo queernejo eu pensei “como assim?!”. Depois de lembrar onde morei minha vida toda, pensei “por que ninguém fez isso antes?”. Minha reação foi a única possível.

Eu só posso falar pelo interior de SP, aqui em todo lugar público que você passa, o povo ouve exclusivamente sertanejo. Tenho 33 anos e o único momento que consigo lembrar onde isso foi um pouco diferente foi nos anos 90, quando pagode e axé faziam muito sucesso.

Nas cidades menores a festa de peão* é o evento do ano. No ensino médio, a escola onde estudei fazia um horário especial pro turno da manhã poder chegar mais tarde, já que os alunos todos iam pra festa e faltavam no dia seguinte.

É claro que tem gente que detesta tudo isso, mas o impacto cultural é inegável. E eu falo isso pra quem não conhece o interior entender a dimensão disso tudo.

A música sertaneja sempre foi um lugar muito masculino e consequentemente machista, as mulheres têm mudado o cenário há pouco tempo e depois que Gabeu lançou seu primeiro single, “Amor Rural”, em 2019, um grupo de artistas se autodenominou queernejo e estão criando um movimento.

Em outubro de 2020 eles transmitiram a primeira edição do “Fivela Fest”, primeiro festival de queernejo do Brasil.

Convidamos Gali Galó, cantore e um dos organizadores do “Fivela Fest”, pra trocar uma ideia sobre queernejo e mais.

*As festas de peão são feiras agrícolas e agropecuárias com exposições, artesanato, muita comida, parque de diversões, rodeio e shows (raramente com alguém que não toque sertanejo).

“É, uns me chamam de caminhoneira, outros me chamam de cowboy viado, mas no fundo, lá no fundo, yo soy libre!”

Você pode se apresentar, pra quem não conhece?

Eu sou Gali Galó, cantore, compositore, empresarie. Atualmente canto dentro do queernejo, um subgênero do sertanejo. É uma música com uma narrativa LGBTQIA+, envolvendo também outros ritmos musicais, como o pop, o indie, o brega, que são estilos que tivemos de referência enquanto o sertanejo era esse ambiente tão machista e heterocisnormativo.

Além da minha carreira artística, também criei a SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e o “Fivela Fest”, que é o primeiro festival queernejo do Brasil.

Você não começou na música tocando queernejo, você tinha uma carreira no indie rock e inclusive foi idealizadore da SÊLA, né? Você pode falar sobre isso?

Eu comecei compondo, a composição veio antes da interpretação. A escrita era muito forte em mim, eu também sou redatora, publicitária, jornalista, então comecei compondo minhas músicas e essa música ganhou uma roupagem indie rock porque eu acabei caindo no cenário da música independente em São Paulo.

O indie rock foi quem me abraçou, tenho um disco lançado com outro nome artístico, Camila Garofalo. Comecei no indie e depois fui a fundo buscar minhas raízes, já faz uns quatro ou cinco anos que estou nessa busca pelo queernejo que se moldou hoje.

Sim, sou idealizadore da SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e é muito louco dividir essa persona artística com essa persona empreendedora. Por muito tempo, quando a SÊLA surgiu, eu parei minha atividade artística. Tive que, realmente, durante três anos, me dedicar ao selo.

Lançamos vários projetos, como mostras, festivais, mini documentários, Sessão SÊLA, uma coletânea SÊLA de produtoras musicais, diversos projetos que tomaram bastante o meu tempo, energia e dedicação.

E foi, inclusive, antes de me descobrir uma pessoa não-binárie. Eu tenho essa vivência como mulher e me sinto mulher as vezes, me considero gênero fluido, então a SÊLA é um dos projetos que sou mais feliz e orgulhose de ter criado.

E como surgiu Gali Galó? Você conhecia artistas de queernejo antes de começar a fazer essas músicas?

Gali Galó surgiu justamente depois dessa caminhada com a SÊLA. Quando tive um momento pra respirar e pensar de novo na minha vida artística, entendi que eu precisava ali renascer, então mudei meu nome artístico.

Procurei uma numeróloga, comecei a buscar outros nomes artísticos, demorou muito essa empreitada, foram uns três, quatro anos também. Eu também demorei muito tempo porque tava tentando entender.

No fim descobri que eu tava procurando não só uma persona artística, mas também um nome social, sabe? Tava procurando meu nome não-binárie, eu queria um nome andrógino mesmo.

Então Gali veio dessa mistura de entender quem eu sou com o que eu queria cantar e o queernejo chegou depois.

O termo queernejo foram vocês mesmos quem criaram, certo? É meio sobre artistas LGBTQIA+ “fazendo as pazes” com sua própria cultura, não?

Sim, fomos nós mesmos quem inventamos o termo queernejo, mais precisamente eu e Gabeu.
O Gabeu tinha inventado o pocnejo e eu já acompanhava. Na verdade ele tinha lançado “Amor Rural” e eu fiquei muito atente aquilo, pensei que eu precisava conhecê-lo porque entendi que eu já tava fazendo e queria fazer algo parecido.

Aí mandei uma mensagem dizendo que queria conhecê-lo e a gente se encontrou durante a “Semana Internacional de Música”. Ali surgiu uma amizade, uma identificação e logo de cara chamei ele pra ser meu sócio no “Fivela Fest”. Já fui com o nome pronto porque ele fez muito sentido pra mim.

Ele seria o primeiro festival queernejo do Brasil, que foi quando inventamos o termo. Se pocnejo era pra “bicha” e “viado” no sertanejo, então queernejo abrangeria toda a sigla da comunidade LGBTQIA+.

E é exatamente isso que você falou, é tipo umas pazes mesmo que a gente faz com as nossas raízes, as pazes que a gente faz com o sertanejo depois de vivenciar tanta coisa e depois de ficar marginalizades em outros estilos musicais. Entendemos que a gente podia, sim, fazer parte daquele movimento.

Os artistas de queernejo dão bastante atenção à estética. Vestuário, performance… a gente vê bastante isso nos seus clipes também.

Acredito que os artistas do queernejo se apropriam de uma estética pra poder entregar um produto completo. E eu tenho certeza que as pessoas LGBTQIA+ acabam sendo instigados pela vida para aflorarem sua criatividade de uma maneira mais intensa e até perigosa, eu diria.

Então acredito que não só o vestuário, mas as letras, a produção musical, acho que toda a estética dentro do queernejo é muito bem pensada, não é nada por acaso o que estamos fazendo. Temos essa consciência tanto política, quanto estética. Sabemos muito bem o que queremos entregar, então temos cuidado com esses signos.

E coincidentemente ou ironicamente o Gabeu, a Alice Marcone, Zerzil, Bemti, Reddy Allor, acredito que todo mundo já tem um encontro com a arte e com as artes visuais.
É esse negócio de não ter preconceito com outros gêneros e outras linguagens, mesmo. A gente traz elas pra complementar nosso som.

Se a gente assume uma linguagem pop misturada com sertanejo em questão de produção musical, se assume o brega, o indie, também vamos incluir nessa estética o elemento visual e outras linguagens que vão enriquecer a narrativa que queremos passar.

Falando nisso, você pode falar um pouco sobre os singles que você já lançou? É o mesmo artista, mesmo estilo musical, mas eles são bem distintos.

Sim, são bem diferentes porque eles contemplam esse período de três, quatro anos que fiquei sem lançar nada, então são músicas feitas em momentos diferentes e eu quis mostrar esses lados distintos antes de lançar um disco.

Acredito que quando o disco for lançado vou conseguir entregar a linguagem que imagino pra Gali Galó de forma mais clara, mas eu quis mostrar ali que Gali Galó pode ir tanto do rock psicodélico até um arrocha, que é “Fluxo (Mulher do Futuro)”.

É música brega, ao mesmo tempo tem uma psicodelia, só que não deixa de ser pautado sempre pelo sertanejo, pela forma de cantar, pelas melodias, instrumentos e arranjos.

Esses singles vão fazer parte do seu primeiro disco? O que você pode nos contar sobre ele?

Desses singles, só “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” farão parte do disco, já vou dando spoiler. “Raiz” realmente é um pouco distinto porque foi o primeiro a ser gravado, apesar de ter sido lançado depois.
Então “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” entram no disco com mais oito músicas inéditas.

O disco é um compilado de tudo o que eu escrevi nos últimos cinco anos e de muita coisa que ficou pra trás também. Gali se reinventou muitas vezes nesse período e hoje eu consigo encontrar uma linha curatorial dentro desse turbilhão de coisas que é fazer as pazes com as suas raízes, entender exatamente o que se é, seu gênero, de onde você veio, enfim.

Exatamente como se é não, porque acho que ainda tenho uma grande busca pra descobrir quem eu sou e os milhões de gêneros que existem dentro da não binariedade. Também acho que é complexo a gente colocar uma coisa tão certa.

Mas acredito que é o retrato da minha caminhada agora, fala exatamente do queernejo, de como estou contente em ter encontrado pessoas que estão fazendo coisas parecidas com o que estou fazendo e de como esse som já faz parte de um movimento tão forte.

Em outubro de 2020 foi transmitida a primeira edição do “Fivela Fest”, festival em que você foi um dos organizadores. Você pode falar um pouco sobre ele?

Ter feito o “Fivela Fest” foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, como artista e como empresárie.

Ele não só reuniu artistas que têm um movimento parecido com o meu e levantam a bandeira LGBTQIA+, que é um assunto que tá em primeiro lugar nos meus debates e na minha música, mas também foi muito importante pra entendermos sobre o mercado, como o público realmente tá sedento por esse assunto e como estão interessados.

Porque sertanejo sendo o estilo musical mais ouvido no Brasil, e tão heteronormativo, cis e branco, a gente entende que fazer queernejo não é como fazer música pop, que é LGBT. O pop aceita o LGBTQIA+, é como um abraço confortável, o sertanejo já não é assim. Então foi muito importante termos dado esse primeiro passo e se fortalecido como grupo, como movimento.

Eu acredito que nas próximas edições vamos descobrir outros artistas, assim como foi nessa primeira, onde praticamente apadrinhamos a primeira dupla queernejo do Brasil, Mel & Kaleb, que surgiu pra se apresentar no festival e continuam aí se apresentando e vão lançar o primeiro EP.

Então “Fivela Fest” foi uma aventura incrível. E ter feito e produzido ao lado do Gabeu e da Alice Marcone, que são pessoas que admiro tanto e que são tão inteligentes, acho que foi muito rico também pra minha experiência pessoal.

Tentando terminar a conversa com um pouco de otimismo, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo? Últimas considerações? Algum recado?

Bom, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo é esse disco que eu prometo já há tanto tempo. Mas agora realmente tá rolando, estamos na pré-produção e em breve começamos a gravar. Espero que saia nesse primeiro semestre.

E video clipes. Como você disse, o apelo visual é muito importante.
Acho que nós, pessoas LGBTQIA+, estamos de olho no que está acontecendo, nas tendências, temos que estar, precisamos usar todas ferramentas ao nosso alcance pra poder entregar um trabalho, uma mensagem interessante.

E, claro, o queernejo dentro do Fivela só tende a crescer e o nosso grupo tá super fortalecido. Somos muito amigues, dividimos experiências e eu acho que o queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também.

Você pode ouvir Gali Galó no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.


Resenha

Clandestinas

Clandestinas foi formada em 2017 em Jundiaí, SP por Alline Lola (guitarra, voz), Camila Godoi (contrabaixo, voz) e Natalia Benite (bateria, voz), militantes feministas e LGBTQIA+.

Quando eu ouço Clandestinas, lembro do movimento Riot Grrrl. O Riot Grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.
As primeiras bandas do movimento queriam chamar atenção pra sua mensagem e escolheram a música pra isso.

Clandestinas surgiu “da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas”, e por isso acho que Clandestinas é mais um movimento artístico do que uma banda.

Toda banda é um movimento artístico, mas a escolha de priorizar um pouco a música ou a mensagem ou misturar igualmente é bem sutil, mas a gente enxerga.

Seu primeiro album, “Clandestinas”, foi lançado em 2020. Produzido por Mari Crestani, ele conta com participações de Aline Maria, Luana Hansen e Mariah Duarte.

A gente tá acostumado a ouvir letras políticas no punk e no rap, mas Clandestinas não escolheu um gênero musical e por isso o som é bem distinto, é rock, é punk, é MPB e mais um pouco de inúmeras influências.

A banda também mistura português e inglês na faixa de abertura, “Clandestinas”, e “Lovely Lola” é a única música em inglês do disco.

“Even if she is just my best friend and I must understand another meaning of love”

Sobre as letras é difícil falar, pois é muita informação. Esse é um disco que eu recomendo pra toda pessoa ouvir pelo menos uma vez na vida. “Clandestinas” é um album interessante em muitos aspectos.

“O não lugar me ocupa, o não pertenço me define. A não família me acolhe, a solidão me oprime”

“O nome ‘Clandestinas’ remete a ‘pessoa que vive fora da lei’, na banda o termo surge como essência e traz novos significados: ser clandestina é gritar quando disseram que se deveria estar calada, é amar sem medo e sem pudor quando disseram que seu amor era doentio, é fazer música mesmo achando que não se sabe cantar nem tocar, é estar com outras mulheres e se mover, é ter a consciência de que, para a hetero-cis-normatividade compulsória que rege a sociedade, os corpos e afetos distintos da norma não devem existir”.

Ainda em 2020 a banda participou do curta “Pluma Forte”, nele há um trecho de um show e podemos literalmente ver o formato de militância da banda.

E em janeiro de 2021 a banda lançou seu primeiro clipe, da música “Nenhuma a Menos”, um video que é mais que um clipe e menos que um curta.

“Com as nossas músicas, nossos corpos e nossos afetos, questionamos o machismo, o patriarcado, a hétero-cis-normatividade e o capitalismo. A revolução será feminista & LGBT”.

“Clandestinas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Resenha

Messias Empalado – O Evangelho dos Tempos de Ódio

O nome da banda, Messias Empalado, e do disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”, já diz muito, a descrição “banda LGBTQ formada em 2017 [em São Paulo] com temática anti-cristã, anti-fundamentalismo religioso, contra toda opressão social”, diz ainda mais.

Messias Empalado é Vee Wayward (voz), Gustavo Knup (baixo e voz), Karine Profana (teclado) e Letícia Figueiredo (bateria). Em fevereiro de 2020 lançaram seu primeiro disco, “O Evangelho dos Tempos de Ódio”.

Ainda segundo a banda, “a força de nossa criação é a blasfêmia, que de maneira alguma é um discurso de ódio ou intolerância religiosa, é tão somente reação contra os representantes religiosos que usam suas crenças e seus interesses pra nos condenar, criar leis pra deixar nossa vida ainda mais à margem e a mercê de todo tipo de exclusões e agressões”.

Estamos mesmo vivendo em tempos de ódio incitado por certos religiosos e isso é um perigo real pra maioria de nós (inclusive pra quem não se sente marginalizado), por isso sinto um certo alívio vendo uma banda falar dedicadamente sobre o assunto. Parece que é algo que quase ninguém dá a devida atenção (talvez isso seja só na minha bolha), ao mesmo tempo em que existe a angústia de “como deixamos chegar a esse ponto?”.

“Sangue de Jesus tem poder. Poder de nos dividir, poder de nos odiar, poder de nos discriminar, poder de nos execrar”.

O som nos remete à estética clássica de igreja, muitas vezes com órgão e canto lírico, é bem dark wave e industrial. A banda também cita como influências EBM, post punk e noise.

“O Messias tão esperado caiu. Reprovou os atos dos líderes, religiões sob sua mortalha, templos de exploração da fé”.

Em 2019 vi um show da banda e minha amiga disse “gostei e não gostei“. Depois de ouvir o disco e entender melhor as letras, eu acho que essa reação é proposital, a banda busca a reação de choque e as vezes um certo repúdio.

“Enforquem os pastores nas tripas dos senhores, cortem as cabeças da Santa Inquisição. Cuspimos em seu livro de abominação” é uma frase bem gráfica (assim como a maioria das literaturas sobre religião organizada).

“Bolsonazi” é a música que resume o disco, ela faz referência a um dos líderes que incita todo esse ódio e violência.

“O sangue tá nas suas mãos, não adianta tentar se esconder… Suas palavras são cheias de ódio. Autoritário, chefe de milícia. Bolsonazi, assassino de viado, Bolsonazi, higienista do caralho, Bolsonazi, tirou os fachos do armário”.

E falando em Bolsonazi, nos shows de bandas com letras políticas sempre rola um grito de “Bolsonaro, vai tomar no cu!” e no show da Messias Empalado, Vee nos ensinou que não devemos desejar coisa boa pra gente ruim. É sempre bom lembrar.

“O Evangelho dos Tempos de Ódio” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Cama Rosa Gruta

Em agosto de 2018, no Caffeine Studio, São Paulo, algo começava a ser gerado. Bruno Trchnmm e Cindy Lensi (Cama Rosa) passaram pela cidade e toparam com Analena Toku (Gruta), o resultado desse encontro nós só veríamos dois anos depois. Já dá pra adiantar aqui que valeu a pena a espera.

É interessante pensar nesse espaço entre esse encontro e o fruto dele, é como se o próprio tempo tivesse um papel importante no resultado final tanto quanto o ato de compor e tocar. E o tempo mexe com a gente. Nesse caso, de tanto mexer com os três, em 1 de outubro de 2020, saiu o EP “Cama Rosa Gruta”.

O álbum, mixado e masterizado por Juliana R., conta com quatro faixas: Vértice Osso Jade; Cipó Ouriço Beat; Passo Cravo Cipó; Melancia Vapor Cigarro. Tão abstrato quanto os nomes das faixas denunciam, no Bandcamp o álbum é definido como um caleidoscópio vivo, um animal que se move mas deixa um rastro de imagens coloridas, um rastro que tem mais de dois anos de metamorfoses antes de se cristalizar, e até mesmo como uma explosão em câmera lenta.

Pra olhar um pouco mais de perto esse caleidoscópio ambulante que, após tanto tempo se cristalizando, agora explode lentamente, convidamos os envolvidos na obra para uma entrevista. Confira:

Primeiramente, como estão nessa quarentena? Todos saudáveis?

Anelena Toku: Por aqui tudo sempre na linha entre estar “bem”, ter a possibilidade de ficar em casa e ao mesmo tempo sentindo todas as sensações que vem com esse momento tão crítico e com tantos acontecimentos que nos revoltam.

Cindy Lensi: Tudo bem, sim. No começo da pandemia estava tenso, um ar denso que impregnou o dia-a-dia com nóias e incertezas. Agora estou me sentindo um pouco mais tranquila, e conseguindo pensar com mais clareza.

Bruno Trchnmm: Eu sou professor da rede municipal aqui em Campinas e tenho um filho de 6 anos, então por aqui a quarentena tem alguns tons particulares de desespero . Mas não dá pra reclamar não, pelo menos podemos trabalhar em casa.

Como surgiu a ideia do EP? Por que as duas bandas decidiram trabalhar juntas?

Anelena: Esse encontro foi bem espontâneo, aproveitando uma vinda da Cindy e do Bruno pra São Paulo, marcamos essa sessão no estúdio. A gente já tinha vontade de produzir algo junto. A uns anos atrás eu já tinha gravado um som chamado “Ruínas” com uns samples de guitarra do Bruno. No início de tudo, Gruta era só guitarra/violão e voz, depois fui fazendo mais coisas com eletrônicos e deixei a guitarra, então esse reencontro com as guitarras foi ótimo.

Cindy: Já tínhamos ouvido alguns sons da Anelena (Gruta) e também já vimos ao vivo uma apresentação do Fronte Violeta (Anelena Toku e Carla Boregas). Achamos muito legal. Foi o Bruno quem deu a ideia de convidá-la, e quando um dia estávamos indo tocar em São Paulo no Hotel Bar, isso em Agosto de 2018, fizemos o convite para gravarmos um improviso juntos lá no estúdio Caffeine no mesmo dia. A Anelena topou e assim surgiu o EP. Só tivemos noção melhor do som quando ouvimos depois mesmo. Esse ano convidamos a Juliana R. para fazer a mixagem do disco, então na verdade esse disco foi construído por quatro pessoas.

Bruno: Tem muito o lance de que o meio que a gente circula mistura muitas dessas abordagens de som, o noise, o improviso livre, a música eletrônica, performance… meio que tudo ao mesmo tempo. Então apesar de ser um percurso estranho, é muito natural porque tem um pouco desse trânsito: a gente gravou um improviso totalmente livre sem combinar nada, e depois trabalhou nesse som fazendo umas colagens, que é meio que o modo de trabalho da música eletrônica. Depois a Anelena gravou as vozes, que trazem pra mais perto de um tipo de canção, mesmo que abstrata.

Fronte Violeta

Como foi o processo de gravação? O que vocês buscavam transmitir durante as sessões?

Anelena: Foi tudo bem rápido, a base do disco foi gravada em uma sessão de improviso. Ali a gente passou por vários processos ao mesmo tempo, de cada um achar seu espaço no som, testar os timbres e como eles se relacionam. Depois disso o Bruno ainda mexeu nas faixas e foi inserindo mais coisas e revelando as músicas no meio desse material. Esse ano resolvemos finalizar e eu gravei umas vozes pra compor com os eletrônicos e guitarras.

Cindy: Quando buscamos colaborar com alguém, nunca damos nenhum direcionamento. A ideia é deixar acontecer na hora. Nunca dá errado, é incrível haha. Isso que é legal de improvisar. Talvez no começo, sei lá, leva uma meia hora pra nos encaixarmos todos no som, mas depois ficamos bem conectados, tanto que as vezes eu acho até legal dar uma “desconectada” no processo, começar algo sonoramente diferente do que já estava acontecendo. Acho que nesse EP “Cama Rosa Gruta” aconteceu isso, tanto que foram criadas quatro faixas nele, cada uma com sua forma, sem muito destoar uma da outra ao mesmo tempo. O EP acabou ficando com um desenho bastante orgânico, me remete a coisas naturais como estalactites, lavas e ao mesmo tempo tem uns samples de jazz que deixam com uma cara bem única. Também tem presença de linhas vocais, que até então não tínhamos colocado. Cada vez que eu ouço um pouquinho mais, se transforma em outra coisa, outras imagens ou outros tempos talvez.

As gravações ocorreram em 2018, certo? Qual o motivo de ter demorado dois anos para serem lançadas?

Anelena: Talvez esse tempo tenha servido para maturar os sons. Acho que a gente que costuma gravar sessões de improviso com as pessoas, o que mais temos é faixas e mais faixas gravadas de diversas épocas. Quando eles falaram que estavam retomando foi uma surpresa boa. A gente voltou a mexer nesse material em Março desse ano, então de lá até Outubro ainda foram alguns meses de atenção pra tudo isso. Pra mim ouvir gravações de outros tempos sempre traz uma nostalgia, porque o som também cria nossas memórias, mas também coloca a gente pra perceber o que tá ali com uma outra escuta. A primeiras vezes que eu ouvi as gravações de 2018, eu tive a sensação de estar diante de um horizonte distante, olhando por um binóculo, e quando gravei as vozes esse ano, eu sinto que estava tentando trazer esse horizonte pra mais perto, para o agora.

Cindy: Demoramos porque naquele mesmo ano começamos tocar bastante nos lugares e também precisávamos juntar um dinheiro talvez, além de outros contratempos da vida pessoal, mas rolou. Queríamos que uma pessoa mixasse pra gente com carinho, pois não temos essa habilidade. Esse ano por mais difícil que está sendo por conta da pandemia, coincidiu de dar certo a continuidade desse material.

Bruno: É aquela coisa também, o nosso tempo pra trabalhar em música é sempre o tempo da sobra, geralmente. Tem trabalho, casa pra limpar, coisa pra estudar. Então tem que se acostumar com a ideia de que as coisas vão se estender no tempo, porque no momento é a única forma que elas podem sobreviver. A gente tem aqui uma ideia muito fixa que ser artista é viver de arte, o que é uma farsa, porque a maior parte de quem produz arte (no mundo inteiro, inclusive), não vive de arte. Mas mesmo assim produz. Esse método de trabalho, inclusive, de lidar com improviso, colagem, tem a ver com esse tempo que sobra. É uma forma de trabalho que, apesar de soar ou parecer meio “torta”, é muito dócil a esse tempo do dia-a-dia, sabe? É uma forma de fazer música que entende quando você chega cansado do trabalho ou só tem tempo livre no final de semana.

Cama Rosa

De onde surgiram os nomes para cada faixa?

Anelena: Pra mim as músicas todas me trazem uma sensação de trilha sonora, me remete a muitas imagens. Ao mesmo tempo são imagens bem abstratas, fluídas e não lineares. Como se o sentido delas fosse construído a partir de uma organização própria. Essa ideia de cada um sugerir uma palavra pra cada som surgiu um pouco disso, de serem nomes que trouxessem mais uma sensação do que nomear propriamente a música.

Cindy: Para dar um contexto para entender esses nomes – no nosso Bandcamp tem o registro de todas as nossas improvisações que gravamos. Colocamos duas faixas e damos dois nomes para cada uma, por exemplo “Hibisco/Navalha”. A escolha desses nomes são mais aleatórias, em uma vibe parecida com um jogo de palavras, tipo aqueles exercícios de automatismo que os surrealistas usavam, mas nada profundo. Em algum nível nosso som surge na mesma maneira em que nossas palavras surgem ou vice versa. A gente decidiu (por grupo no Whatsapp) que seria legal para o EP “Cama Rosa Gruta” usar três palavras dessa vez para cada faixa, já que somos em três. Foi interessante, teve até palavra que repetiu e deixamos. As palavras foram; vértice osso jade — cipó ouriço beat — passo cravo cipó — melancia vapor cigarro.

 O que vocês buscaram fazer de diferente em relação à uma gravação “tradicional”?

Anelena: Acho que meus processos de gravação com Gruta sempre foram zero tradicionais, sempre gravando do jeito mais caseiro possível porque era como eu tinha como fazer. E foi assim com as vozes que gravei. Somado a isso, toda a troca de arquivos e comunicação durante um início de quarentena/pandemia com certeza marcaram essa gravação. Acho que outra parte do processo importante foi a mixagem e masterização que a Juliana R. realizou. Foi importante ter alguém de fora, mas ao mesmo tempo que nos conhece bastante pra desenhar a forma que isso teria.

Cindy: Boa pergunta, pois eu não acho que a gente fuja da gravação tradicional. Inclusive a maioria de nossas gravações são bem lo-fi. E nesse a gente gravou em estúdio, para seguir a tradição. Mas a gente sempre dá uma mexidinha aqui e ali depois que estamos com o material.

Bruno: A gente faz o que pode com o que pode né haha. A gente gravou essa sessão em um esquema de “ensaio gravado”, que é uma gravação ao vivo bem simples. Essa sessão depois ficou comigo e eu aos poucos fui editando o que pareciam as partes mais legais, cortando uns trechos, montando uns loops com partes mais bacanas. Eu cheguei até a achar que perdi esse disco uma vez, quando meu PC pifou. Esse ano, no choque do começo da quarentena eu peguei pra ouvir essas faixas, dei uma mexida última e parece bem legal. Coloquei os samples (um do Sun Ra e de uma videoaula de bateria ensinando a levada do Elvin Jones haha) , só que feito do meu jeito, muito tosco. Então a gente mandou para a Juliana transformar aquela colagem tosca em algo mais coerente, o que deu esse espaço pra Anelena gravar as vozes.

Podem falar um pouco da arte da capa?

Anelena: Quando começamos a pensar a arte logo me veio a imagem de colagens e recortes, mas como o Bruno escreveu no texto que divulgamos, era uma idéia de uma colagem em movimento, que se alterava. Eu busquei umas fotos minhas de 2015 e criei essa montagem a partir desses fragmentos. Uma tentativa de recriar memórias e experimentar esse horizonte que não é estático, um horizonte que escapa.

Cindy: A capa é um projeto gráfico da própria Anelena Toku. Uma colagem que casou muito bem com os sons. A combinação das palavras, o som e mais a arte da capa conversam tão bem que eu acredito que por conta disso o disco conquistou vida própria.

Bruno: Eu gosto muito de todos trabalhos visuais da Anelena, muito mesmo. A colagem tem um lance como o do sample, é uma parada que parece meio dura, porque é uma imagem fixa que você pega de um lugar e põe no outro, não tem muito o que mexer. Mas a colagem e o sample também tem o lance da repetição, que você pode jogar no espaço e vira uma coisa muito fluida, que você pode mergulhar.

E os projetos futuros de cada um dos grupos? Pretendem fazer mais coisas juntos futuramente?

Anelena: Gruta é um projeto meu bem pessoal e que nos últimos tempos esteve meio dormente principalmente porque tenho desenvolvido bastante coisa com o Fronte Violeta, que é meu projeto com a Carla Boregas. Acho que Gruta, Cama Rosa e Fronte Violeta sempre tiveram uma proximidade por habitarem um mesmo universo de som, então com certeza imagino que continuaremos essas trocas.

Cindy: Seria muito legal continuarmos fazendo coisas juntos, assim espero. O Cama Rosa está pra lançar um disco com as canções, nós temos composições com letras que gravamos no final de 2019. Também está sendo mixado e o lançamento será em breve. Então temos todo esse material de improviso no nosso Bandcamp, mas geralmente quando nos apresentamos, tocamos nossas canções que considero um desdobramento das improvisações, já que muitas bases saíram de lá.

Bruno: Eu sempre brinco com a Anelena e a Carla que a gente tinha que fazer um disco ou um festival com projetos que tem cores no nome, Cama Rosa, Fronte Violeta, Objeto Amarelo… talvez montar tipo uma big band.

“Cama Rosa Gruta” está disponível no Bandcamp.


Entrevista

De Carne e Flor

De Carne e Flor é uma banda de post-hardcore formada em São Paulo em 2016 e hoje composta por Bruno Araújo (voz), Dan Carelli (guitarra), André Jordão (guitarra) e Eliton Si (bateria/voz).

Em Novembro de 2018 eles lançaram o primeiro EP, “Teto Não Familiar”, e fizeram o primeiro show.

Como quase todo post-hardcore e post-rock o som é muito melódico e as letras emotivas e de natureza vulnerável, nesse caso sob um mesmo tema. Por esse motivo eu recomendo que você ouça antes de ler a nossa entrevista, porque esse aspecto pessoal faz cada um interpretar as letras de uma maneira diferente.

A banda cita como influências Alexisonfire (Canadá), Envy (Japão), Touché Amoré (EUA), Pianos Become the Teeth (EUA), Colligere (Brasil), Suis La Lune (Suécia) e Viva Belgrado (Espanha), inclusive o nome da banda foi inspirado na música deles de mesmo nome, assim como a “inspiração para a exclamação dos versos em idioma latino, o que aumenta a dramatização pois viabiliza uma maneira mais carregada de pronunciar os versos”.

E nem só de referências musicais é feito “Teto Não Familiar”, esse é também o título do segundo episódio do anime “Neon Genesis Evangelion”, exibido pela primeira vez em 1995 no Japão.

Entre todos os seus detalhes, o EP contém quatro faixas que, dispostas de modo linear, formam a frase “A âncora que jogamos nas poças se transforma em medo e em desejo de um teto não familiar”.

A capa do EP é uma ilustração de Cristal Ganda, baseada em uma foto do quarto do vocalista Bruno. A marca quadrada no canto superior direito é uma referência ao Selo Preto (fundado por integrantes da banda), representando seu primeiro lançamento inédito.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Bruno: A banda foi formada em 2016, com integrantes espalhados pela metrópole de SP (e continua sendo assim, mesmo com as mudanças de formação). O som é gritado, melódico e confessional.

“Teto Não Familiar” é um EP conceitual? O nome é uma referência e as letras seguem uma mesma linha de raciocínio. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas?

Bruno: “Teto não-familiar” é o nome do segundo episódio de Neon Genesis Evangelion. A ideia de lançar um EP com esse nome surgiu na minha cabeça já na época em que a Black Clovd estava na ativa, era pra ser o nome do próximo lançamento, só que em inglês. O tema não foi intencional nas letras, mas ao ver as quatro músicas prontas, enxergamos que elas compartilhavam essa sensação de despertencimento, daí de última hora surgiu a ideia de formar uma sentença com a ordem dos nomes, gerando essa interação entre todos os elementos do EP de forma espontânea.

O primeiro show da banda foi depois do lançamento do EP, certo? Isso não é muito comum, como vocês chegaram a essa escolha?

Bruno: Acho que foi uma questão de foco. Queríamos estar bem ensaiados já na estreia, pra marcar bem o lançamento. Ter o EP lançado também serviu pra atrair o público e o pessoal que andava curioso com a banda desde o início, já que ele levou dois anos pra ser lançado desde que a banda começou. Aconteceu também de o André (guitarra) entrar na banda na reta de finalização do EP, então foram necessários mais uns ensaios pra ele aprender os sons e se inteirar com todo mundo.

A última música do EP, “De um Teto Não Familiar”, tem uma história, né? Você pode falar sobre?

Bruno: Escrevi a letra inspirado numa conversa com a minha mãe, onde ela narrou a trajetória de uma parente próxima que fugiu de casa ainda muito jovem pra se estabelecer em São Paulo (toda a geração anterior à minha da minha família foi nascida e criada no Ceará, tanto do lado materno quanto paterno). A ideia era fazer uma crônica ou um conto mesmo, mas acabou virando uma homenagem aos familiares e ao mesmo tempo um desabafo, tendo a luta e sofrimento que motivaram a ação libertadora da parente e toda sua geração como contraste à letargia e deslocamento que sentia na época que escrevi, e que também vejo permeados coletivamente hoje em dia. Não é algo novo ou criado por nós, mas em discussões ou reuniões a gente vê a diferença de tratamento que as gerações dão para questões de saúde mental. Não dá pra dizer precisamente se é a maior consciência/importância que costumamos dar sobre o assunto que nos faz sofrer do mesmo problema de formas diferentes, mas vejo a discrepância. Enfim, quanto mais falo sobre, mais enrolado fico pra explicar, e acho que a música é sobre isso também (risos).

Em Dezembro vocês participaram da coletânea “Tentáculos” do Selo Preto, que foi fundado por alguns integrantes da banda. Vocês podem falar um pouco sobre ela e sobre o selo?

Eliton: Não tínhamos realizado nenhuma apresentação até a estreia da banda, no final de 2018, então ficamos na febre de tocar por aí. Planejávamos agitar um show por mês por aqui e tocar em todo lugar que nos convidassem. Para isso resolvemos batizar os eventos enquanto o nome de Selo Preto aparecia no meu imaginário e em algumas conversas com bafo de bebida. Ocorreram cerca de 15 apresentações e isso agitou nosso pessoal de alguma forma. Tínhamos do lado as bandas Ravir e Obscvre Ser, que trouxeram bandas de fora de São Paulo e superaram os desafios de atender os custos disso. A coletânea então representava, no fim daquele ano, a compilação de todas as bandas que cruzamos nos eventos que essas bandas tocaram. Me sinto particularmente realizado por ser uma coletânea eclética, afinal tinha anseio de tocar com bandas variadas, no nosso limite ficou um conjunto bem diverso de músicas. O nome veio justamente dos vários “braços” de um polvo, que ele usa para alcançar alimento e trazê-lo para a boca. O objetivo geral é aumentar a visibilidade das bandas que tem seus materiais muito bem produzidos e que duram horas ou poucos dias no feed. Por enquanto o Bandcamp vem contando a história de lançamento das bandas que me impulsionaram a criar algo como um selo, no formato de linha do tempo. Para facilitar que essas bandas de fora viessem tocar aqui, estávamos para reformar o espaço Névoa na zona leste para voltar a realizar eventos lá, ainda bem que não rolou, afinal a pandemia viria deixar tudo isso lá estacionado.

Como anda o aspecto musical nesse 2020 e os planos da banda?

Bruno: É desolador, pois ouvimos falar de picos e estúdios passando por dificuldades, alguns até fechando, e na “camada acima” da nossa no circuito, o pessoal que trabalha nos palcos e na estrada tendo que se sustentar de outras formas por não ser possível realizar shows. Por outro lado vemos bandas próximas com iniciativas legais acontecendo na cena, desde ações beneficentes e merch até lives e sessões caseiras pra manter o pessoal unido, tendo como exemplo o pessoal do Caoticagem, Lili Carabina, Obscvre Ser e Navio. Tem rolado também um interesse em lançar sons caseiros, o que é um grande aprendizado pra quem resolve se aprofundar. Com o equipamento que adquirimos recuperamos o fôlego e retomamos de forma remota, junto com o produtor Igor Porto (que também produziu o EP), as gravações que iniciamos em Fevereiro e ficaram paradas desde então por conta da pandemia.

Últimas considerações? Algum recado?

Bruno: Agradecemos o convite e o interesse na entrevista! Como foi adiantado, estamos trabalhando em dois novos sons e esperamos lançá-los o quanto antes. Esperamos que todo mundo se cuide e ao mesmo tempo lute contra a inércia. Sdds shows.

“Teto Não Familiar” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Playlist / Resenha

Singles de Setembro

Hoje vamos publicar algo diferente do que estamos acostumados, mais uma das mutações do nosso blog/site/ainda não sei como chamar.

Nessa semana chegaram até nós alguns singles e resolvemos vir aqui falar deles. E primeiramente tamos felizes de mostrar algumas músicas de estreia.

Pata “Casa de Gelo”

Se você acompanha o Bus Ride Notes provavelmente já conhece a Pata, além de estar em algumas das nossas playlists, publicamos uma pequena resenha do primeiro disco da banda, “Shit & Blood”.

Nessa quarentena eles resolveram se aventurar com singles gravados e produzidos em casa, numa “série de experimentações sem pretensão de definir uma chave sonora para os novos passos, também com a proposta de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos”.

Os já lançados “blsnr pnt mrch” e “Casa de Gelo” são em maior parte eletrônica e bem diferentes da banda que toca um rock que eu chamo de grunge.

“Casa de Gelo” tem uma melodia calma e uma letra tristinha que pra muitos é sinônimo da quarentena, mas ela na verdade foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano.

Ela tem a participação de Sentidor (também responsável pela mixagem e masterização) nos beats e ambiências eletrônicas e foi lançada pela Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records.

A capa ficou por conta de Hanna Halm e também foi lançado um lyric video, produzido por Lúcia Vulcano.

O próximo single previsto é um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

Tigre Robô “Desconforto”

Formada no final de 2018 em Brasília por Isabela Fernandes (guitarra, teclados, voz), Junio Silva (baixo, teclados, voz) e Rafael Lamim (bateria), Tigre Robô acaba de lançar seu primeiro single, “Desconforto”. “Uma música sobre esperar pelas coisas acontecerem quando o tempo não está ao seu lado”.

A banda está gravando seu primeiro álbum e pretende lançar mais um single até o mês de Dezembro.

Eles também participaram da nossa matéria sobre gravações caseiras durante essa quarentena.

A arte de “Desconforto” foi feita pela própria Isabela Fernandes.

Tropikaos Chaga “As Ruas Vão Queimar”

“As Ruas Vão Queimar” é o primeiro single do duo Samuel Kircher (voz, guitarra, baixo) e Érico Munari (bateria), que foi gravado já durante a quarentena de 2020 (será que ao nos referir à quarentena vamos ter que especificar o ano? Espero que não).

A música foi lançada já tem um tempinho, mas o lyric video (editado pelo próprio Érico Munari) acabou de sair.

“As ruas, os dias, as notícias do cotidiano em um país problemático como o Brasil, compõem as letras e o barulho da banda”, ou seja, aquele punk rock rasgado cheio de distorção que a gente gosta.

Kebrada HC “Unides Pelo Ódio”

“Banda punk/hardcore antifa femininja diretamente da periferia do ABC”, formada por Letícia Souza (voz), Juliana Moreira (guitarra) e Victória da Cunha (baixo) em 2019.

Apesar de ser uma banda nova e essa ser a primeira música que elas lançam oficialmente, a Kebrada HC já é um tanto conhecida e é bem ativa.

“Unides Pelo Ódio” foi lançada junto de um video com trechos de shows em comemoração ao aniversário de um ano de banda.

O amigue e baterista Tobias de Teipó participou da gravação do single, mas a banda ainda está a procura de um baterista.

Ano passado fizemos uma entrevista com a vocalista, Letícia, onde ela explica porque se afastou do “rolê punk” e começou a frequentar a nova “cena” paralela que tá rolando em São Paulo. Ver isso tomando uma forma ainda maior através de mais uma banda faz uma lágrima escorrer no meu rosto.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: hoje

Essa é a segunda parte da nossa matéria sobre a Cosmogonia, se você não viu a primeira, leia aqui antes de começar esse texto.

Hoje formada por Gabi (vocal), Teté (guitarra), Andressa (baixo) e Dani (bateria), em 2017, dez anos após o início do hiato, Cosmogonia voltou e em 8 de Março de 2019 lançaram o EP “Reviva!”.

Sonoramente “Reviva!” é bem parecido com “O Sentir Que Violenta”, o que faz todo sentido, já que foi a última coisa que elas gravaram antes do hiato. As letras continuam tendo foco no empoderamento feminino.

“Grite, fale, jamais desista. Grite, ria, lute e resista que amanhã haverá sua paz, que dias ruins ficaram para trás”.

“Tempo” é a música mais rápida do EP e o clipe dela é o primeiro da Cosmogonia, lançado em 10 de Outubro de 2019, Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ele consiste em imagens ao vivo da banda desde que voltaram.

Abaixo você confere nossa entrevista com a banda:

Acho que podemos começar falando sobre o início da banda. Nenhuma das meninas estava na formação original dos anos 90, né? Como foi a entrada de cada uma?

Atualmente não há nenhuma menina da formação original. A Elis (fundadora) ficou até 2007, quando a banda entrou em hiato. Teté entrou em 2002, Gabi entrou em 2004 e Dani entrou em 2005. Em 2017 revivemos com três integrantes dos anos 2000: Teté, Gabi e Dani (batera) e logo depois Karol (baixista) entrou. No final de 2018 a Karol saiu e entrou o Fernando. Em 2019 a Dani saiu, entrou a Andressa no baixo e o Fernando foi pra batera. Agora, em 2020, a Dani voltou pra bateria e o Fernando saiu.

Teté: Em 2002 eu estudava na escola do menino que tocava bateria na época para a Cosmogonia e também na escola da ex-guitarrista, Raquel. Aí souberam que eu tocava guitarra, me disseram que estavam procurando uma mina guitarrista. Foi aí que conheci a banda, mas cheguei a enrolar um pouco pra ir fazer o teste por insegurança. Quando finalmente criei coragem, fui e foi perfeito. Me apaixonei pelas meninas, por tocar com elas, pela história da banda e aí me disseram que já tínhamos um show marcado no Hangar 110, que na época era o sonho de qualquer banda da cena, né? Então minha entrada já foi logo de cara tocando num show do Hangar!

Gabi: Eu entrei pouco depois em 2004, já tinha relacionamento com a banda desde 98 e morávamos no mesmo bairro. Quando recebi o convite de fazer um teste para tocar nessa formação dos anos 2000, apenas a fundadora Elis, estava na banda. Nessa época, também contávamos com o Paulo, que integrava a lendária banda Punk Atitude.

Andressa: A minha entrada foi com uma responsabilidade enorme. Eu estava entrando em uma banda que tem uma puta história, e que eu curtia muito. Fora isso, eu estava substituindo a Karol, que é uma excelente baixista, com uma base musical maravilhosa. Eu tinha a obrigação de estudar pra me sair bem. Tanto que, quando fui convidada a primeira vez pela Gabi, fiquei com muito receio de não estar no mesmo nível. Mas depois de pensar direito, voltei atrás e deu muito certo. Isso foi ano passado, 2019.

Fernando: O Fernando já era amigo da Teté de muitos anos e quando a Karol saiu da banda, chamamos ele pra nos ajudar e cumprir a agenda de shows. Não conseguimos achar nenhuma baixista e ele foi continuando com a gente. Quando a Andressa assumiu o baixo, o Fernando foi pra batera, substituindo nossos dois amigos Roberto e Nautilus, que estavam se revezando como substitutos da Dani.

E como é manter a banda mesmo sem ninguém da formação original?

Inicialmente, achávamos que não faria sentido a banda sem a Elis. Porém, ela mesma nos incentivou a retornar e nos lembrou que a Cosmogonia sempre foi uma banda aberta à novas integrantes e que ao longo dos anos, muitas meninas passaram pela banda e deixaram sua marca, experiência de vida e luta. A particularidade mais importante da Cosmogonia é resistir ao longo dos anos e trazer a vivência de diversas mulheres, que são unidas em torno do mesmo propósito. Apesar da Elis não estar presencialmente na banda, ela é também um membro que mantemos contato constante e que nos aconselha, dá opiniões, apoia e é responsável por muita coisa que fizemos desde o retorno.

Vocês fizeram um hiato em 2007, né? O que esse hiato representou para vocês?

Em 2007 cada integrante da época estava passando por coisas diversas em suas vidas pessoais que foi impossibilitando de conseguirem conciliar com a banda. Além da questão financeira que era complicada para todas (pagar ensaio, transporte, manutenção de instrumentos, etc), havia também trabalho, estudo, filhos e família. Então o hiato representou um tempo que precisávamos naquela época, para ser mais compatível com a nossa condição de vida daquele momento e com as dificuldades financeiras e psicológicas que cada uma enfrentava.  Esse tempo foi extremamente triste, pois sempre sentimos muita saudade da banda em si e de estarmos em uma banda. E nesse tempo, algumas de nós tivemos que lidar com relacionamentos abusivos, violência doméstica, dentre tantas outras coisas que as pessoas não enxergam em vidas que não estão expostas de alguma forma.

Como vocês decidiram que era hora de voltar?

Em 2017, após um período maior sem se verem, Gabi e Teté se reencontraram num show e como elas sempre sentiram saudades de tocar, mencionaram que seria legal montarem uma banda. De longe a Elis percebeu essa movimentação entre as duas, e também estava muito ligada na movimentação das mulheres no cenário underground, que aumentava a cada dia. Ela então nos reuniu em um grupo de Whatsapp e praticamente exigiu que voltássemos com a banda, mesmo sem ela, que mora no exterior.

No Bandcamp da Cosmogonia a gente percebe que todos os álbuns ali são bem curtos. Existe algum motivo pra essa escolha?

Cosmogonia é uma banda que nasceu na periferia e bandas de periferia, mais ainda, bandas com mulheres sempre foram invisibilizadas pela falta de recursos e também pelo próprio machismo e misoginia, que também existem na música e na cena punk/hardcore. Sempre dependemos do corre de cada uma, dos amigos de outras bandas e de coletivos que se juntavam para gravar coletâneas (no início ainda em fitas K7). Nunca tivemos grana pra bancar gravação, produção e até o final dos anos 90, a produção de tudo foi com o “faça você mesma”. Em 2006 lançamos um single, que conseguimos gravar graças a um cachê que nos foi dado de um show. Agora em 2019 lançamos um EP gravado pelo projeto Experiência Family Mob. Fomos selecionadas para participar do projeto, o que nos possibilitou a gravação. A mixagem e masterização foi arcada com nossos próprios recursos e venda de merch.

O que vocês têm escutado nos últimos tempos?

Gabi: Eu tenho ouvido muito folk, bandas clássicas de hardcore dos anos 90, algumas bandas novas e bandas que carrego em playlists ao longo dos anos, como Converge, Million Dead, Pennywise, bandas nacionais como Bioma e Miêta.

Teté: Hardcore sempre! Desde os clássicos que sempre me acompanham (Pennywise, NOFX, Bad Religion) até bandas nacionais: Mar Morto, Garage Fuzz, Bioma.

Andressa: Eu sou extremamente eclética, por mais que dizer isso pareça clichê. Nacional tenho escutado bastante Violet Soda, Miami Tiger, Hayz, Radical Karma. Internacional tenho um carinho mais que especial por uma cantora pop, a Dua Lipa. Acho a sonoridade e influências dela do Disco no último álbum maravilhosas, principalmente no baixo haha. Também o álbum solo da Hayley Williams, tá bem “diferentão”.

O gosto musical de vocês mudou muito do começo da banda até agora? Como vocês incrementam essas influências no som de vocês?

Teté: O gosto continua bem parecido. Claro que sempre surgem bandas novas, mas até hoje ouço praticamente tudo o que eu ouvia desde que entrei na banda. Para compor, obviamente trago todas as coisas que ouço, porém é algo bem espontâneo. Desde que comecei a tocar guitarra, sempre gostei de criar bases e riffs muito mais do que ficar tirando músicas e aí as brincadeirinhas na guitarra vão se transformando em som.

Gabi: Minhas experiências e influências para compor são vivências de silenciamento, violência doméstica e o sentimento de como eu gostaria de que as coisas fossem diferentes na sociedade em que vivemos.

Andressa: Eu comecei a ouvir mais hardcore. Eu sempre escutei um rock alternativo, muita coisa de pop rock e pop. Acho que sou a única a ter influências totalmente diferentes. E isso que é o interessante de fazer parte de uma banda, poder criar coisas novas juntando um pouco de cada gosto, cada influência. Cada um coloca uma pitada do que curte. Eu depois que entrei já andei dando umas pequenas modificadas no baixo nos shows.

Estamos num momento de bastante ebulição em questões políticas e sociais, com os protestos tomando conta dos Estados Unidos e agora estourando de volta no resto do mundo. As letras da Cosmogonia sempre fizeram questão de falar abertamente de assuntos assim, principalmente na questão feminista. Como a obra da banda se comunica com um momento tão intenso como o que está acontecendo agora?

Gabi: Cosmogonia sempre foi uma banda de periferia, de mulheres guerreiras que sempre tiveram que correr atrás pra se sustentar, sustentar filhos, família, a si próprias, levar o feminismo para aquelas que nunca puderam falar e se expressar. Falar dessas experiências coletivas e individuais é um ato político. Desde as criações antigas até as novas, sempre levamos a contestação do quanto é difícil a sobrevivência das mulheres na sociedade. Ser mulher é um ato político.

Teté: Estamos num momento em que fica cada vez mais exposto o engano do capitalismo: ele não é um sistema para todos e nós, mulheres, vemos, vivenciamos e sentimos na pele isso todos os dias. Como disse Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. Como o próprio capitalismo coloca em xeque o tempo todo as questões das minorias, que no sentido quantitativo é a maioria, fica cada vez mais difícil aceitar as condições que esse sistema nos impõe. Como a banda e suas integrantes ao longo dos tempos sempre fizeram parte dessas minorias, não apenas por serem mulheres, todas essas pautas estiveram sempre presentes nas letras, canções e ideais.

E como vocês observam a evolução de debates assim na cena underground durante a trajetória da banda?

Sempre houve a invisibilização de atos e atividades lideradas por mulheres ao longo da história, e no cenário underground não é diferente. E hoje, mesmo que com uma visibilidade um pouco maior por conta das mídias sociais, ainda estamos em uma posição de falar para nós mesmas, de criarmos nossos espaços paralelos porque ainda há muita resistência de estarmos igualmente nos espaços “comuns”, que são majoritariamente masculinos. E o que mais chama a atenção é que as poucas pessoas que parecem estar preocupadas com a maior visibilidade dessas minorias em canais de divulgação, somente fazem isso para não se sentirem cobradas e não por acreditarem e respeitarem o nosso trabalho.

Há uma comunicação com outras bandas Riot Grrrl em outros estados?

Sim, sempre. No passado, mesmo antes da internet e depois, quando só poucos tinham acesso, as bandas de mulheres sempre se comunicaram. Cosmogonia tocou em diversos estados antes dos anos 2000 e também trazia as bandas de mulheres de outros locais para tocar em São Paulo. Mas com a internet, foi possível ampliar muito essa rede e união.

Em tempos de quarentena, como estão os projetos futuros?

Fica um pouco complicado pensar em futuro nesse momento. Acho que o foco maior agora é sobreviver a essa pandemia e a esse desgoverno. Sobreviver financeiramente e emocionalmente. Mas estamos compondo remotamente e nos falando diariamente.

Gostariam de dizer algo para as demais mulheres que estão ou querem entrar numa banda?

Quando o assunto é mulheres assumindo papéis em projetos, o direcionamento é sempre insistência, persistência e paciência. Nada acontece da noite para o dia, e, principalmente para nós mulheres os obstáculos são maiores. É importante buscar redes de apoio com as mulheres que já fazem qualquer tipo de trabalho artístico.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista / Resenha

Cosmogonia: o começo

Eu demorei bastante pra conhecer a Cosmogonia. “Como assim? Você fez um blog só pra falar de música”, pois é, ainda hoje há uma grande invisibilidade de bandas, mesmo nos lugares que se dizem alternativos e underground, imagina antes da internet?

Quando você pesquisa sobre as origens do riot grrrl no Brasil você só encontra Dominatrix (aliás, a Elisa já fez parte da Cosmogonia) e Bulimia. Uma banda que cantava em inglês e uma que cantava em português. Entenderam o raciocínio?

Eu sei que é algo que acontece em todo lugar, também demorei pra conhecer várias bandas gringas importantíssimas, mas não consigo deixar de ficar surpresa.

Há tempos eu penso em escrever sobre a Cosmogonia, mas sempre me enrolei. Não fiz resenha do EP novo porque pensei “Poxa, a banda tem muita história pra fazer só uma resenha” e por outro lado eu também pensei “Poxa, eu não sou jornalista, vou deixar passar muita coisa importante numa entrevista”. Muita enrolação depois, resolvemos publicar um pouco dos dois, escrito por mim (Livia) e pelo Junio.

Como diz Ignite: conheça a sua história!

Cosmogonia foi fundada em 1993 em Osasco, SP por Elis e Renata, duas professoras que sentiram falta de representatividade nos palcos da cena punk rock/hardcore e decidiram montar uma banda feminista composta por mulheres.

Desde então, a banda foi ocupando os espaços e transmitindo a sua mensagem, que é a luta por uma vida mais igualitária, inclusiva e justa para todas as pessoas, não importando seu gênero, raça, orientação sexual e condição social.

Uma das características da Cosmogonia é que muitas integrantes já passaram por ela.

Entre 1997 e 2006 elas lançaram uma Demo, um EP, um single e músicas inéditas em coletâneas.

As primeiras músicas da banda têm aquela sonoridade que a gente não sabe explicar muito bem e chama de punk com pegada brazuca, aquele som característico que qualquer pessoa no mundo que ouvir sabe que foi feito no Brasil nos anos 90.

“O Sentir Que Violenta”, single lançado em 2006, tem um som diferente do que elas tinham feito até então. Um hardcore um pouco menos melódico. A letra fala sobre como o silêncio é o cúmplice da violência contra a mulher.

Pouco tempo depois, em 2007, a banda entrou em hiato.

Abaixo você lê uma entrevista com Elis sobre essa época da banda e um pouco mais.

Fale um pouco de você, como começou seu interesse pela música?

Bom, eu cresci no meio da música. Meus irmãos mais velhos desde os anos 70 já curtiam rock e meu pai trabalhou na Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), então desde nova a música já fazia parte da minha vida. Comecei no rock clássico, depois foi para o metal e finalmente me identifiquei no punk/hardcore.

Quem estava na primeira formação da Cosmogonia?

A primeira formação da Cosmogonia era eu, a Renata e a Vanessa.

Como surgiu a ideia de se juntar e montar a banda?

Eu e as meninas já frequentávamos a cena, tínhamos amigos, íamos muito em shows e a gente notava que não haviam bandas que nos representassem como mulheres. Sempre eram os homens tomando as frentes e praticamente tudo era feito e vivenciado por eles. Tínhamos essa visão e isso nos incomodava bastante. Apesar da cena naquela época já ser um “ambiente libertário”, como éramos professoras sempre preocupadas com conteúdos, conhecimentos e práticas, notávamos que na realidade, de libertário não havia nada… Faltava muita coisa pra ser dita e exposta.
Então, começamos a conversar sobre montar uma banda, fazer shows e levar nossa mensagem pra outras garotas. Já tínhamos uma bagagem para escrever as letras e aí começamos a aprender a tocar em casa, com ajuda de amigos e então a banda foi acontecendo. Ficamos sabendo o que estava acontecendo nos EUA e isso reforçou também pra que a gente continuasse seguindo nossa vontade de fazer a banda acontecer. Se lá estava rolando, também poderíamos fazer rolar aqui e assim, conciliamos tudo ao mesmo tempo e as coisas foram fluindo, bandas foram surgindo também, shows e festivais e os coletivos também começaram a se organizar.

Como foram os primeiros shows?

Os primeiros shows nossos foram em bares em Osasco, organizados por coletivos. Lembro de muitos homens de braços cruzados na nossa frente e várias meninas acuadas. Acredito que todos estávamos aprendendo a lidar com o fato das meninas ocupando esses espaços. Porém resistimos, esse sempre foi nosso foco, a resistência.

A gente sabe que nos EUA, além das bandas, houve muita movimentação por meio de zines e grupos de debates né. Como vocês observavam o movimento riot grrrl nos EUA em relação ao que estava acontecendo aqui no Brasil?

Na época, mesmo ainda sem termos acesso à internet, sempre observamos a cena fora do Brasil com um olhar de admiração. É muito inspirador ver mulheres tomando as frentes e fazendo o que geralmente eram só homens que faziam. Isso sempre nos motivou a continuar seguindo, mesmo com todas as dificuldades que tínhamos. Então, fomos fazendo da nossa maneira, errando, acertando, mas sempre construindo.

Nos anos 90 havia espaço para debates de gênero na cena independente brasileira?

Era muito raro um espaço para esse tipo de debate. A cena, apesar de se afirmar inclusiva, sempre foi excludente, e por isso foi preciso muita perseverança e tentativas de ir ocupando esses espaços e levando nossas mensagens.

Como foram as primeiras gravações?

Apesar da nossa imensa vontade de fazer acontecer, um grande obstáculo era a questão financeira. Todas nós tínhamos dificuldades, então sempre foi muito difícil conseguirmos juntar grana pra conseguir gravar.

Na época havia comunicação entre outras bandas formadas por mulheres nos outros estados?

Havia sim! Nos comunicávamos bastante por carta, porque até a internet era limitada. Não é todo mundo que vivenciou isso, mas havia limite de horas mensais para acessar a internet haha. Mas chegamos a usar também o mIRC pra falar com bandas de outros locais. Fizemos muita amizade com as meninas do Bulimia e a gente se ajudava quando rolava show em nossas respectivas cidades, com acomodação e etc.

Como foram as primeiras viagens?

Nossas primeiras viagens foram para cidades do interior de SP: Campinas, Sorocaba e litoral. Depois também tocamos em diversas outras fora daqui: Brasília, Goiás, Londrina, Rio, Salvador… Nossas viagens sempre foram surreais. Já viajamos em avião assim que lançou o filme “Premonição” (todo mundo do avião achou que ia morrer), de bus clandestino fretado de Brasília onde achamos que eles drogaram os passageiros, um show em Pirituba que um cara entrou atirando… Mas, enfim, sempre que viajávamos ficávamos nas casas de amigos nas cidades e fomos super acolhidas. Uma vez voltávamos de um show em Campinas com Cosmogonia, Bulimia e Kólica, estávamos indo para minha casa, todas numa perua (aquelas antigonas) e na estrada sofremos uma emboscada de uns ladrões ao sair de um posto de gasolina. Enfim, eles nos cercaram com armas e ameaçaram levar minha filha, que na época tinha entre 11/12 anos, se não déssemos todos os instrumentos e dinheiro. A Berila, baterista do Bulimia, falou que tinha uma grana boa que estava vindo de Brasília e que dava tudo se soltassem minha filha, enfim eles aceitaram. Levaram todo o nosso dinheiro também, do motorista e das outras meninas, mas graças soltaram minha filha.

Como foi a questão da banda continuar sem nenhuma integrante da formação original?

A Cosmogonia sempre foi uma banda muito acolhedora, onde passaram diversas mulheres fodas que sempre somaram umas com as outras e com a banda em si. As meninas que seguem com a banda atualmente fizeram parte da banda nos anos 2000 e também tive uma história com elas, que continuo tendo até hoje. Foi maravilhoso e inexplicável o sentimento que tive de ver a banda reviver e continuar com a nossa resistência e luta. E eu amo muito essas mulheres, que agora também estão continuando e perpetuando com a história da banda. 

O que você faz hoje em dia?

Atualmente moro nos EUA, tenho duas filhas e um neto. A minha filha mais nova já participa do Orlando Girls Rock Camp e está numa banda de garotas tocando guitarra. Nessa quarentena, fizeram uma música e até um clipe.

O que anda ouvindo de novo?

Bom, ainda sou fãzona da Cosmogonia, mas também tenho uma um gosto bem crazy. Algumas bandas que ouço e que curto: Pennywise, Hole, Nathan Gray, Boysetsfire, Bad Cop/Bad Cop, Nueva Etica, Sleeping With Sirens, Againts Me!, Bring Me the Horizon, Saosin, My Chemical Romance, Glória, Fresno… que eu preciso diariamente.

Obs.: Acho importante dizer que o riot grrrl não foi só um gênero musical, ele foi a terceira onda do feminismo, que coincidiu em ser através da música.

A discografia da Cosmogonia está disponível no Bandcamp e redes de stream.