Bus Ride Notes
Resenha

Charlotte Matou um Cara

FOTO: ANNA PAULA BOGACIOVAS

De uns três anos pra cá é visível o número constantemente crescente de bandas nacionais, esse foi o principal motivo pra criação desse site.

Charlotte Matou Um Cara surgiu no começo dessa nova leva. Eu conheci a banda no único show delas que vi, no festival Queers and Queens em Maio de 2016, um dos primeiros shows da Charlotte. Nele elas já tocaram uma das minhas músicas preferidas “Não Aceito” que, infelizmente, pra mim ficou conhecida como “a música do Maluf”, pois no começo da música no disco tem um audio do político dizendo “O que fazer com um camarada que estuprou uma moça e matou? Tá bom, tá com vontade sexual estupra, mas não mata”.

Minha primeira impressão foi de empolgação vendo um show bom de uma banda nova de riot grrrl gritando mais que o mesmo refrão em todas as músicas. Claramente não fui a única, pois Sapataria cita Charlotte como uma das principais influências.

Charlotte Matou Um Cara é o tipo de banda que eu gosto de chamar de “tapa na cara”: eu vou, sim, falar como a maioria das suas atitudes me violentam. A repressão que vem de todos os lados: construção social, religião, machismo, autoritarismo, mas eu não aceito mais isso tudo sobre mim. A rua é um campo de batalha e eu vou armada até os dentes, eu vou reagir, não vou mais só resistir.

Como podemos ver nas letras da Charlotte, mudamos nosso discurso, finalmente deixando de reproduzir a passividade que nos ensinaram a ter, como diz Anti-corpos.

Nos últimos dez anos (ou mais) o punk mainstream no Brasil consistia em hardcore melódico pouco politizado. Poucas eram as bandas sem letras rasas e na época que a Charlotte surgiu era correto dizer que faltavam bandas como ela. Felizmente isso mudou, tanto pelo número de novas bandas quanto pelo nosso fácil acesso a elas. Tem muita banda e tem pra todos os gostos.
É lindo ver a cena riot grrrl se fortalecendo e uma cena queercore se formando (trataremos disso em outro post).
A cena alternativa/undergound deveria ser um local de acolhimento pra todos e parece que, aos poucos, isso está se tornando realidade

Junto disso aumentou o número de festivais independentes (que são a coisa mais inspiradora do mundo) e também festivais no mainstream, como pudemos ver com o Garotas à Frente. Isso sem contar as páginas, canais do Youtube, podcasts, rádios online e etc.
Eu não faço ideia de onde surge toda essa força criativa, mas fico feliz que o pessoal se cansou dos anos de estagnação e colocaram em prática o famoso “faça você mesmo”.

Sem dúvidas o melhor momento do punk/hardcore (e não só) nacional tá acontecendo agora e eu espero que só mude pra melhor.