Bus Ride Notes
Entrevistas

Olha como elas são más! Conheçam a GULABI

“GULABI é uma banda Punk feminista e antifascista de São Paulo que se inspira na resistência das mulheres da Gulabi Gang”

No dia 17/08/2019 a banda se apresentou no Badaroska Fest e nos cedeu uma entrevista maravilhosa! Conheçam essas mulheres más! As minas falam sobre Punk, feminismo e como a cena tem mudado.

POGS – GUITARRA/BACKING VOCAL
CIBS – “TOCO O TERROR” | VOCALISTA #1
CAROL – BAIXO
MAYA – VOCALISTA #2
MAY – BATERIA

Da esquerda para direita: As fãs Isabela e Leticia. E as integrantes: May, Maya, Cibs, Carol e Pogs

BUS RIDE NOTES: Como a Gulabi surgiu? 

Carol – Eu já era amiga da Maya e da Cibs, daí um dia eu comentei que estava com vontade de tocar, só que eu estava numa fase insegura. Só queria voltar a tocar quando me sentisse bem mesmo, mas como eu tava com muita vontade a Maya e a Cibs falaram: “Vamos montar uma banda! Vamos, vamos!” Insistiram um pouco pra eu voltar a tocar e a gente decidiu montar uma banda. A Ideia de formar a Gulabi surgiu daí. 

Pogs: Acho que é relevante falar que eu caí de paraquedas no rolê. Eu não sou de São Paulo e depois de bastante tempo eu resolvi colar num show só de minas, o Apoia Mútua. Eu conheci a outra banda da Maya [Lili Carabina]… E a Carol, nos roles da vida a gente acabou se encontrando. 

Cibs: A gente adotou a Pogs para o nosso rolê.

Pogs: Elas me adotaram! (risos) 

Maya: E a May também… A gente conheceu a May tentando formar uma outra banda, não era? De Ska…

May: Foi antes disso ainda, eu vi a Maya e a Cibs num show do Teu Pai Já Sabe? e depois surgiu o convite para eu possivelmente tocar na Gulabi, mas elas ainda estavam decidindo com a antiga baterista se ela iria ficar ou não. E aí acabou que eu fiquei e tamo aí. E viramos amigas. (risos)

BRN – O que chamou vocês para a zona de confronto? 

Maya: O que move nessa parte do protesto, todas aqui, para além do som que a gente curte é o machismo, o sexismo, a lesbofobia, o racismo e o elitismo. Porque cada uma de nós tem um histórico de opressão dessas que eu citei, isso é o que nos faz utilizar o Punk.

May: A gente tem na banda mulheres periféricas. A Maya que é preta, tem eu que sou não-branca e periférica e tem a Carol que também é periférica. Enfim, cada uma tem uma história fodida e isso dá muita força para a gente continuar.

Maya: Então, eu acho que isso na atual sociedade e até dentro do Punk é o que move a gente para esse confronto, para tentar mudar algumas coisas, como esses tipos de opressão.

BRN – Quais maiores inspirações da Gulabi dentro e fora da cena atual? 

Maya: Eu tenho muita influência de bandas de Punk e Hardcore gringas. Eu ouvia muito Bad Religion, No Fun At All… Do Punk eu ouvia Addcits, muito Punk 77, Social Distortion e colava nesses shows de banda de fora que não era tão caro antigamente, né? Era acessível. E da cena brasileira eu colava muito em roles… Não tinha muita banda de mina para a gente prestigiar, das poucas que tinham que eu lembro de prestigiar era o Útero Punk.

Pogs: Acho que Bulimia….

Maya: Bulimia! É uma influência, mas eu colava basicamente em sons brasileiros de bandas Punk e Hardcore que eu não colo mais hoje porque tem histórico de integrantes com abuso, com declarações homofóbicas, declarações racistas, agressores… Então praticamente todas as bandas que eu curtia de Punk “histórica” brasileira eu não colo mais por uma questão ideológica.

Pogs: Cara se não fosse Cólera na minha vida, se não fosse DZK, Psicose. Se não fossem um monte dessas outras bandas eu talvez não estaria aqui agora e tivesse ido para outras vertentes. Elas tiveram sua importância na minha opinião, embora, hoje em dia precisa ser mais do que era a uns 14 anos atrás. 

BRN: E é difícil se afastar de um som que ajudou a te formar por causa de posições de algum integrante da banda? 

Carol: Chega uma hora que você vai ouvir uma música de certa banda e você não consegue não associar, não pensar naquilo. Que seja um caso machismo, racismo… Para mim essa parte é um pouco mais fácil porque a maioria das bandas que eu escuto são de mulheres, então, eu não tenho tanto histórico de rompimento com bandas que fizeram parte da minha formação. 

Pogs:  Eu já tenho um pouco mais de dificuldade em separar por conta de memória afetiva com banda, sabe? Até brinco com as meninas quando elas falam assim “Ah então, sabe essa banda?” Eu já peço pra nem falar porque dá uma tristeza. (risos) 

May: É muita hipocrisia né? 

Pogs: Claro que é importante, mas o bom é que as letras continuam fazendo sentido. O que não faz sentido é essas pessoas estarem falando o que estão falando porque elas são hipócritas. Nós nunca conseguimos só falar “Sim” para um show, sabe? É sempre “Tá beleza, quais são as bandas? Beleza, qual tem alguma fita com essa banda? Aonde vai ser?”.

Cibs: [Difícil] pra caralho pra mim! Eu acho triste! Mas assim eu não tenho, sei lá eu acho que é um rompimento tão foda que é tipo impossível [não romper]…

Maya: Eu achava difícil antigamente porque justamente não existia essa cena de minas e tantas bandas de mulheres despontando. Então quando você rompia, saía do rolê. E acontecia isso com um monte de mina e que justamente por isso que acabou dando mais força para essa cena. Porque a gente gosta de Punk, a gente gosta de Hardcore e ao mesmo tempo a gente é feminista e a gente não quer ficar num rolê bosta. Os caras passam pano para agressor e o caramba! Agora é mais tranquilo porque nós temos muitas opções e nós mesmas estamos nos organizando para produzir. 

Cibs: Antigamente as mulheres eram simplesmente segredadas por diversas razões, especialmente quando existia assédio, abuso, estupro e coisas desse tipo. Você curte o som e gosta da cena, mas não vai querer colar, e as vezes pagar, para entrar num lugar e ver o homem que abusou de você circulando livremente ali. Então acaba que as minas deixavam de colar e iam se afastando, o que corrobora para o que sempre acontece: Que é só macho tocando, só macho vendo, só macho convidando a bandinha do amigo. Como a Maya falou, agora a gente conseguiu se organizar e tem todo final de semana banda com mina. Aliás, evento de banda com mina. Hoje inclusive eu tava vendo que deve ter tipo uns 3 ou 4 rolando esse final de semana, sabe?  Antigamente tinha Lady Fest e o Distúrbio Feminino… Uma vez por ano você ia sair? Não né!  

Pogs: O que não significa que tá muito mais fácil, tem mais opção porque são as minas que organizam… Então fica meio que a gente pela gente. E não é só aquele discurso de “tem que estar todo mundo junto”. Seria interessante que nós não precisássemos parar e ficar pesquisando toda vez que alguém chama a gente para tocar ou que a gente procura uns shows para fazer, para ver a lista enorme de bandas com macho abusivo, com macho-merda. 

BRN: Quais seus objetivos como artistas?  

May: Atualmente é inspirar as outras minas, é tipo: Mano, você pode tocar também! Você pode ser alguém também! Você pode ser da hora pra caralho! Foda-se tudo que acontece com você ou que aconteceu durante a sua vida, toda falta de oportunidade que você teve para aprender um instrumento, só vai!

Carol: Incentivar as minas. Mesmo que nunca tenham pegado num instrumento, vai lá, pega o instrumento, dá sua ideia porque muitas bandas começaram assim. Os homens são incentivados desde cedo a tocar e mina não.

Maya: E desde os anos 70, tá ligado?

Pogs: E acabamos fazendo isso com nós mesmas. Ninguém aqui tem uma vasta experiência. Eu e a May somos as que tocam há mais tempo. Eu comecei com uns 10 anos e aprendi sozinha porque por sorte eu tenho uma mãe que me incentivou quando eu quis aprender. Peguei o violão e não tive os mesmos incentivos que os outros caras tiveram. Acredito que nenhuma das meninas teve. Mas o próprio som fala por si só, que é esse punkzão carniça que nós fazemos.

Cibs:  É, e o Punk é assim: Vai e faz! Você não precisa ser virtuoso, o importante é a mensagem que você vai passar. Paralelo a isso o que a gente tem muito forte é sermos poucas e falar na cara, direto e reto. Especialmente quando o homem está ali, a gente vai falar mesmo. E se cobrar, como já aconteceu, a gente vai descer [do palco] e voar na cara, sabe?

Pogs: E a recompensa maior é que minas vieram falar com a gente enquanto banda e se identificam, tipo “Valeu por falarem!”.

Maya: A gente falou uma coisa que ela também gostaria de falar e isso é muito da hora. Queremos essas meninas com a gente, a gente quer essas minas organizadas, andando juntas.

BRN: Quais os maiores impactos que integrar a Gulabi causou na vida de  vocês? 

Cibs: Acaba virando uma família.  

May: De qualquer forma é uma [sempre] apoiando a outra. As vezes eu tenho crises de pânico no metrô daí mando uma mensagem no grupo, e mano, as mina vai lá e conversa comigo (risos). Enfim, é. Tem essa fita também.

Pogs; Não é só banda, é amizade, é família. 

Carol: Sim, eu recentemente perdi meu irmão e a banda foi uma parte muito importante para eu não enlouquecer porque não foi e não está sendo um momento fácil. Mas [a Gulabi] além de ser o meio por onde minha voz, a nossa voz, é ouvida também é aquilo que me ajuda a ficar em pé nos momentos difíceis, tanto a parte de fazer música quanto a amizade com as meninas.

Maya: E sobre a diversão, eu acho que também tem a fita da musicalidade, que é muito terapêutica. Você dar uns gritos, tocar uns instrumentos, isso faz muita parte também…

May: Ter uma distração no final de semana e saber que você não está sozinha. 

Maya: É uma válvula de escape na parte da diversão. A gente toca e depois ensaia, a gente vai dar um rolê, vai almoçar juntas. Isso também é prazeroso para além da política que a gente quer fazer para a cena.

BRN: Como vocês escolheram esse nome? 

Maya: Antigamente, quando comecei a ter contato com o feminismo eu li sobre essas minas e achei muito foda o que elas faziam e o nome, eu sempre falei “Mano, eu quero ter uma banda com esse nome, velho!”. Daí toda organização que rolava de ter banda eu falava “GULABI!” e ninguém queria. Acho que todo mundo já ouviu falar dessas minas. Elas são umas minas da Índia que fazem autodefesa com bambus. Tem mulheres tanto de 13 até de 60 anos. Elas fazem ações diretas aonde elas vão buscar os homens agressores e descer a bambuzada! A gente achou que tinha tudo a ver com o nome e com essa coisa do confronto que a gente quer trazer. Que, de fato, se precisar a gente vai descer do palco e vai descer o cacete num cara dependendo do que ele fizer, como já deu vontade. Se precisar, a gente vai partir para a violência, tá ligado? Não tem como a gente ser só discurso num momento que realmente precisamos nos defender, defender nossas amigas, nossos familiares e as mulheres na rua. Nós precisamos dessa força no dia a dia e que seja mais ativa por necessidade, inclusive, de sobrevivência. 

Pogs: Com certeza! E até em coisas mais simples, como por exemplo: alguns meses atrás passei por uma situação que eu vi uma mina sendo agredida no metrô, então eu fui e peitei [o homem]. Não que eu tenha ido bater nele, mas cheguei e falei “Moça, você precisa de ajuda?”. [O homem] me ameaçou e falou que iria me matar, me enterrar viva porque ele me identificou como sapatão. Não que seja difícil… (risos). Mas sofri bastante agressão verbal e se eu não tivesse ficado esperta teria sido agredida fisicamente, sabe? E com o cu na mão fui lá e cobrei e teria sido muito mais fácil se as pessoas que estavam no metrô, se os guardas do metrô tivessem ajudado. Então acho que essas pequenas coisas são importantes, não é que a gente vai sair catando bambu e sentando a bambuzada em todo mundo…

Maya: Mas se quiser, pode!

Pogs: Mas se quiser, pode.

BRN: Como vocês se descobriram guerreiras feministas? 

Pogs: Desde quando eu era pequena e os [meninos] falavam que eu não podia jogar bola [com eles] (risos). 

Maya: Eu sofri muito calada, durante minha adolescência, todos os tipos de opressão. Tanto racismo quanto o sexismo, assédio que eu sofri até na rua. Fui tomar força me organizando com mulheres feministas e conhecendo feminismo muito tarde, com uns 27 anos e eu tenho 33, então fazem tipo uns 7 anos. As minas, a May por exemplo, é de uma geração depois de mim, [elas] tem 20 e poucos anos. Essas minas já estão chegando com um background muito mais legal do que a gente, antes que o feminismo começou a despontar e nós começamos se organizar e ter visibilidade. A fita da internet também, quando eu nasci não tinha internet, quando eu tinha 10 anos não tinha internet, então era mais difícil para você se organizar.

Cibs: Mas de fato eu demorei. Fico bem em choque em como isso demorou para chegar até mim e como teria sido 100% diferente se tivesse sido antes.  Tipo, diversas situações e eu sempre fui meio reativa de partir para, não sei se para agressão. Eu sempre tentei ser explosiva, mas ter essa consciência toda política foi uma coisa que aconteceu muito tarde também, tipo uns 26, sei lá…
 
Carol: Comigo foi igual a Cibs. Tudo bem, eu tenho 26 agora, porém apesar de desde de criança descer o cacete nos moleques que vinham me encher o saco, só fui ter essa consciência política com uns 16/17 anos e é uma coisa que eu queria que tivesse acontecido antes. E olha que eu já escutava bandas feministas e as letras me tocavam. Já fiz parte de coletivo feminista e achava legal quando nas rodas de conversa colavam as minas de 14 anos. É muito bom ver isso chegando cada vez mais cedo na vida das meninas. 

May: Eu tenho 23 agora, conheci feminismo e a militância a partir dos 15. Mesmo eu tendo consciência política feminista desde os 15 anos, ainda assim eu tive relacionamento abusivo de anos. Por exemplo, eu fiz uma camiseta do it yourself feminista e o meu namorado na época fez de pano de chão e falou “Olha você não vai usar isso, vai ser meu pano de chão.” E literalmente foi o pano de chão do banheiro dele. Isso [consciência] nem sempre é o suficiente porque [machismo] é uma coisa tão enraizada que simplesmente acontece, eu tive um relacionamento abusivo durante 3 anos e fiquei fora da cena durante 3 anos justamente por conta desse relacionamento. 

BRN: O que podemos fazer pelo cenário político atual? 

Pogs: Organização. Eu acho que é a palavra. Parar de achar que as coisas vão só mudar. E não é dando “rage” na internet! Não é reclamando! São as pequenas atitudes que a gente tenta ter como banda, por exemplo. Acredito que é um passo. Conscientização e organização como militância até mesmo no dia a dia. Uma coisa que a esquerda tem que entender é que não adianta a gente ficar fazendo discurso para outras pessoas de esquerda, para outras pessoas militantes, temos que pular essas barreiras… Não necessariamente abrir o diálogo com a galera de direita, mas por exemplo quando vou comprar um lanche e converso com a pessoa que está atendendo, é isso que eu tento fazer no dia a dia, trocar uma idéia. Facho não tem muito como conversar, né? Mas os indecisos, as pessoas que acham que “Ah, realmente tá uma merda, mas não tenho o que fazer…”.

May: As pessoas mal informadas, que não tem acesso a informação, pessoal da periferia… 

Maya: Levando essa fita que a gente faz fica muito restrito a um grupo de pessoas, mas quando chega [nas periferias] é legal ver as pessoas que não tem contato com isso se identificarem ou acharem foda e ver que tem outras coisas acontecendo. E conhecer também, tá ligado? Porque esse mundo Punk é muito pequeno.

May: É uma bolha, mano! 

Maya: As pessoas que nem sabem o que é Punk, o que você faz. E para essas pessoas, que não tem acesso, ver isso é uma coisa muito nova, tá ligado? E pode despertar a vontade da pessoa fazer parte daquilo. 

May: Para finalizar, o que eu tenho de objetivo mesmo, como banda, é fazer chegar a mensagem de consciência principalmente para a população que não é informada. Lá na minha quebrada ninguém sabe o que é consciência política, ninguém sabe o que é guerra de classes.

Maya: Ninguém sabe o que é Punk, Skin, tá ligado? Essas tretas de militância e de contracultura os caras não sabem.

May: Eu acho que é muito mais além. O meu vizinho, ele não sabe que tá sendo explorado porque na vida inteira dele ele [não estudou] o suficiente para saber o que o governo faz e o que o sistema faz com ele. O dia em que essa mensagem chegar lá onde eu moro, na periferia, nos extremos, seria gratificante. Apesar de eu achar muito difícil sair da cena Punk, da cena Feminista que é uma porra de uma bolha. Eu chego no rolê, é mina privilegiada, é mina branca. Enquanto não chegar na minha favela não é o suficiente. Enquanto não discutirem gente discutindo sobre “Ah o governo fez isso, isso, isso e o caramba! Olha só como isso vai prejudicar a gente.”  Esse é o meu objetivo real. É isso.

Nossos agradecimentos as mulheres da Gulabi que toparam gravar essa entrevista e me ensinaram muito através dela, muito obrigada meninas! Fogo nos fascistas!

Ouça GULABI no Bandcamp ou nos sites de stream :