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Resenhas

Brutal Mary – Brutal Mary EP

Brutal Mary é uma banda punk feminista de Brasília formada por Ana (guitarra/voz), Arthemys (baixo/voz) e Brenda (bateria).

Na bio das redes sociais elas dizem: “Somos um trio de meninas que se reúnem pra fazer barulho e música trash. Nossa intenção é tocar, tocar e tocar. ‘Se você acha que Punk não é coisa pra garota, vamos chutar a sua bunda'”.

Em Janeiro elas lançaram seu EP de estreia e a capa (por Jennifer Wrath) dele é a primeira impressão da banda: em cores pastéis Ave Maria segura um taco de Baseball coberto de pregos, sangue e desenhos de bichinhos com um pequeno urso e absorvente interno (sujo, claro) de penduricalhos.

O EP tem duas músicas em português e duas em inglês, onde vemos claramente a influência da banda: grunge feminino. Se você gosta desse quase sub gênero musical, vai amar a Brutal Mary (se não gosta, provavelmente também vai).

A primeira música, “Band Aid”, mostra um pouco desse contraste da capa e nome da banda entre o fofo “Correndo de você, cortei o meu joelho… Onde poderia estar o Band Aid de ursinho que mamãe te fez comprar?” e o brutal “Pais que querem te culpar, forçadas a engravidar e nós não queremos o seu feto”.

Quase todas as letras do EP falam sobre abuso misógino e a sensação (as vezes realidade) de estar sozinha nesses momentos.

“Bruja”, a segunda música, fala sobre isso trazendo a temática das insubmissas “bruxas”: “He can’t stand that you’re smarter. He can’t stand that you love your body. You can’t burn the witch anymore but if you could I swear she’d reborn”.

“Ah Não!” fala sobre o receio e/ou medo que toda mulher tem de sair de casa sozinha em algum momento “Nos meus sonhos eu fujo dos homens que me perseguem. Nos meus sonhos eu fujo”.

Infelizmente isso é algo tão presente que imediatamente eu lembro de outras músicas que falam a mesma coisa, como “A Rua é um Campo de Batalha” (2017) da Charlotte Matou um Cara e “Satanás” (2019) da Demônia em que o refrão diz “Ufa, que alívio! Achei que era homem, mas é só o Satanás”.

Não vou me demorar no assunto, pois inúmeros estudos falam muito melhor do que eu sobre misoginia, estupro e relação de poder, o que eu vou dizer é: por que toda mulher conhece uma mulher que já foi estuprada, mas nenhum homem conhece um estuprador? Eles não são bicho papão que pulam de trás duma árvore na madrugada.
“A luz apaga quando o estuprador passa”. Homens, ascendam a luz, essa culpa é totalmente de vocês.

Já dizia Dominatrix, em música que poderia ter sido escrita hoje, “Que tipo de vida é essa que eu tenho que ficar 24 horas por dia alerta igual a um cão de guarda? De quem são os olhos que te vigiam? De quem é a mão que te ataca?”.

O EP termina com a “romântica” (entre muitas aspas) “You are the Trash”, que fala sobre um relacionamento conturbado “Like when we used to fight when both of us weren’t right”.

O EP Brutal Mary é curto, direto e barulhento, aquilo tudo que a gente gosta.

“Brutal Mary” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.