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Entrevista / Selo

Tudo Muda Music: É nois na fita K7 (de novo)!

Você já ouviu música em fita? Já encontrou uma fita do seu artista preferido? Sim, fita mesmo. Fitas cassete! Leitores novinhos, vão agora lá nos seus pais e perguntem pra eles o que diabos é uma fita cassete (ou k7 mesmo).

Essas fitas viveram seu auge durante os anos 80 e 90, e depois caíram em desuso com a chegada do CD. Mas quando ninguém mais esperava, elas voltaram! Pra ter uma ideia, de acordo com a British Phonography Industry, cerca de 156,542 fitas foram vendidas em 2020 no Reino Unido (um aumento de 94.7% em relação à 2019).

Mas e aqui no Brasil? Bom, aqui se você quer falar desse revival das clássicas fitinhas, você vai ter que falar sobre a Tudo Muda Music. Esse selo independente de Brasília vem lançando material dos seus artistas em belíssimas fitas cassetes, tudo feito por eles mesmos. E eles estão a todo gás, viu? Foram 30 títulos no catálogo do selo só em 2020 e, pelo visto, o selo só tem a crescer.

Pra falar sobre o Tudo Muda Music e bater um papo sobre formatos analógicos, o Bus Ride Notes entrevista Mauro Rocha, fundador do selo e um legítimo nerd de música. Confira:

Como começou a Tudo Muda Music?

A Tudo Muda Music é um pequeno selo musical de Brasília, que começou em 2015.  Desde o princípio até meados de 2019 o selo lançou apenas meus projetos musicais. Sou músico, toco baixo e sintetizador, sendo meu projeto principal o Transistorm. Por conta da minha atividade com essa banda e outros projetos paralelos, comecei a produzir discos a partir de 2015, quando criei a Tudo Muda.

Em 2019, após o selo acumular alguma experiência na produção de fitas, vinis e CDs (dos meus projetos) no Brasil e no exterior, surgiram as primeiras possibilidades de parcerias para produzir lançamentos de outros artistas-amigos do selo, com Abismo, Stvz, Frank Sidarta, e Signo XIII, chegando ao fim do ano com 11 títulos lançados em 20 formatos físicos.

Em 2020, apesar da pandemia da covid-19, o selo seguiu trabalhando a todo vapor, chegando ao fim do ano com 30 títulos no catálogo. Uma importante parceria também foi acrescentada: a associação com a Torto Disco, selo de música instrumental/experimental de Brasília que passou a lançar CDs e fitas em conjunto com a TMM.

Agora em 2021, seguimos lançando ótimos sons, como Joe Silhueta, Groupies do Papa, Visiorama, entre outros, sendo que tudo sai em formato digital mas também é lançado em fitas e/ou CDs. Já chegamos a 40 títulos no catálogo, que pode ser visto e ouvido gratuitamente no nosso Bandcamp, nossa principal “janela”.

Também estamos iniciando uma nova parceria com o selo Maxilar, do Gabriel Thomaz, do Autoramas, que deve trazer uma série de novos artistas muito interessantes ao catálogo do selo, o que é uma alegria e uma honra pra nós!

De onde surgiu a ideia de produzir as fitas k7 dos artistas do selo?

Da necessidade! Em 2015, 2016 eu comprei algumas produções de bandas brasileiras em fita (acho que era algo da Desmonta Discos), daí tentei obter os contatos pra produzir e constatei que as fitas na verdade eram feitas na Argentina. Lembro que pensei, “não é possível que em um país do tamanho do Brasil ninguém produza fita cassete! Tem até fábrica de vinil no país!”. Mas era verdade e não tinha mesmo onde produzir, aí no fim de 2016 eu comecei a tentar comprar tape decks e fitas virgens pra produzir eu mesmo, estilo D.I.Y..

Durante 2017 me dei mal várias vezes, comprando sons antigos e tentando consertar, sempre dando tudo errado, até que comprei um tape deck novo, gringo, de qualidade razoável, mas no qual consegui fazer as primeiras fitas da Tudo Muda. Também precisei desenvolver toda a parte gráfica, como templates e facas das capas e rótulos, e por fim conseguir o canal de importar as mídias, ou seja, as fitas “virgens”, o que é outro processo bem chatinho até hoje, mas que felizmente o selo vem conseguindo dominar nos últimos anos.

Em 2018, logo após eu conseguir fazer tudo isso, a Polysom começou a produzir fitas de forma industrial. Apesar de aparentemente isso ser um “banho de água fria” no meu esforço, foi algo excelente. Como eles trabalham com pedidos a partir de 50 cópias, isso trouxe uma alternativa para trabalho que não teríamos como fazer com nosso sistema de duplicação. A Tudo Muda produz com a Polysom sempre que necessário, mas hoje em dia também conseguimos fazer as nossas pequenas produções. Além disso, como não conseguimos atender encomendas de artistas interessados, sempre recomendamos a Polysom quando nos procuram nesse sentido.

E a aproximação com os artistas que são lançados pela Tudo Muda? Como ela acontece? Como é feita a curadoria de vocês?

Nossa capacidade de produção é bem limitada, então a gente se atém a uma linha de curadoria dentro da proposta do selo, que é de lançar música contemporânea, em geral que traga algo de novo/diferente em termos de sonoridade. Muitos sons que “não se encaixam” em apenas um estilo são lançados pelo selo. Também damos ênfase aos sons eletrônicos e instrumentais.

A aproximação com os artistas acontece de várias formas, no início era algo mais proativo nosso, atualmente recebemos propostas pelo email (info@tudomudamusic.com) que podem ou não se adequar à linha do selo, daí entramos em contato quando é o caso. Felizmente, agora já temos um cronograma de lançamentos pros próximos três meses, com muita coisa excelente vindo por aí até o fim do ano. Mas continuamos abertos e interessados em ouvir novos sons, especialmente que tenham a ver com nossa “linha editorial”. Basta mandar pro email acima (a gente responde sempre que tem a ver).

Você tem alguma memória afetiva com formatos físicos? Conta pra gente.

Sim, muita! Desde criança eu amo música e com 9 anos comecei a comprar fitas cassete. Na época, minha família foi morar no exterior (Lima, Peru) e meu pai só comprou um tape deck, não tive toca-discos até voltarmos ao Brasil, três anos depois, então na minha infância era só fita. Também dava pra gravar e ouvir no walkman e no carro, então essa coisa da portabilidade era ótima. Depois, na adolescência, fiz muito tape trading na época de ouro dos zines e fitinhas caseiras.

E até hoje coleciono vinis, CDs e fitas cassete, tenho uma coleção de mais de 3300 discos, devidamente cadastrados no Discogs (user: volume22).

Esse envolvimento afetivo com os discos desde a infância e o colecionismo ativo de discos até hoje me ajudam muito a obter resultados interessantes na construção do aspecto visual dos discos da Tudo Muda, claro.

A gente vê que as fitas tem todo um trabalho estético muito bem feito né, como é esse processo de produção?

Sim, tem a ver com nossas referências estéticas, de selos – principalmente Warp Records, ECM, Tzadík, Magaibutsu e, aqui no Brasil, Wop Bop e Essence Music.

Aí tentamos ser o mais criativos possível, levando em conta as artes dos discos, tentando selecionar fitas e caixas que combinem bem.

Você, Mauro, tem alguma fita preferida lançada pela Tudo Muda? Uma que você olhe e pense “Putz, esse trabalho aqui ficou lindo”.

Sim, mais de uma, na verdade. As principais seriam: Os Gatunos (2020), tem um contraste muito bom entre a fita, caixa e arte; Stano Sninský (2020), primeira experiência com rótulos em vinil translúcido, nessa fita funcionou muito bem; Transistorm (2021), fita translúcida, caixa não-translúcida e capa adesivada na fita; Fita Groupies do Papa (2021), com “luva” externa.

É meio difícil achar quem tenha um toca fitas hoje em dia, mas também está acontecendo todo um revival de formatos físicos, né? As fitas da Tudo Muda são mais como souvenirs? Como vocês pensam essa questão?

Sim, diferente do vinil (que em geral quem compra, ouve), com as fitas cassete dificilmente quem compra vai escutar. Nossas fitas vêm até com código de download pra quem compra já baixar.

Mas tem bastante a coisa do colecionismo, sim, eu costumo comparar com comprar um brinquedo antigo, que você não vai jogar mas acha legal ter na prateleira.

As fitas cassete também têm até hoje muito apelo, mesmo com pessoas muito mais jovens e que não tiveram esse formato como sua principal forma de consumir música. Talvez pelo design, talvez justamente por remeter a uma época que foi muito importante na música e na cultura (anos 70 e principalmente 80).

Recentemente o Discogs publicou uma lista das 100 fitas mais caras já vendidas no site (a mais cara foi uma do Linkin Park por 4.500 dólares), e começam com o seguinte comentário, traduzido:

Os cassetes estão voltando. Não, sério.
O vinil como uma forma de colecionar e compartilhar música já não é mais novidade em 2021. (…) Ao contrário de seus equivalentes de cera, os cassetes são bastante baratos para produzir (como artista) e comprar (como fã). Este formato de baixo custo é atraente para os músicos independentes, que podem lançar música sem investir milhares de dólares. Isso, por sua vez, torna os preços baixos e atraentes para os fãs e colecionadores mais jovens, que muitas vezes são a força motriz por trás das novas vendas de cassetes.

Esse seria outro aspecto importante, a meu ver, de ser mais acessível em termos de preço que o vinil.

Como vocês veem o papel do selo musical para com o público e os artistas? Ainda tem muitos campos a serem explorados nesse sentido? Tipo, muita coisa interessante que pode surgir dessa conexão?

É um orgulho poder colaborar com tantos artistas interessantes, poder contribuir para que tenham um lançamento legal na sua discografia e ao mesmo tempo ter sua música e sua arte no catálogo do selo.

Na Tudo Muda fazemos uma construção conjunta, bem de parceria mesmo, e bem diferente do conceito tradicional das grandes gravadoras. Selos independentes têm sim, muito mais essa vocação pra criar uma conexão com os artistas e com o público, e isso é muito bom.

No caso da TMM, como é um selo “de músicos”, vemos que isso traz também legitimidade e tranquiliza artistas parceiros, que sabem que não estão lidando com uma mentalidade voltada apenas ao lucro financeiro, mas sim à integridade artística.

E o futuro da Tudo Muda Music? Dá pra dar uma ideia do que vocês estão bolando?

Sim, como mencionei, já temos uma boa lista de artistas interessantíssimos a lançar. Isso inclui as parcerias com os selos Maxilar e Torto.

Além disso, teremos vários lançamentos de artistas da vanguarda da música japonesa, por meio de uma ponte estabelecida pelo Fredy Xistecê (produtor, ex-Lombra Records), que recentemente se aliou à Tudo Muda.

Por fim, estamos iniciando um sub-selo voltado apenas a sons pesados, em parceria com o Tulio DFC. Vai se chamar Catacumba Records e em breve estará em operação.

E assim que a pandemia passar, a ideia é organizar um evento com as bandas do selo, algo que queríamos ter feito no fim do ano passado, quando “completamos” 5 anos de vida.  Ou seja, vem muita coisa legal por aí!

Obrigado pelo espaço no site, e aos leitores. Acompanhem nosso trabalho, toda semana tem novidade.

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevista

Penúria Zero – Não Me Representa

Penúria Zero é uma banda de punk-hardcore do DF, hoje composta por Tuttis (vocal), Sopão (guitarra), Biscoito (bateria) e Ismael (baixo).

A banda tem um disco lançado, “Manipulado” (2017), e em Outubro de 2020 eles lançaram seu novo EP “Não Me Representa”.

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o EP “Não Me Representa”, a cena do DF e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá, primeiramente, muito obrigada pelo convite.
Penúria Zero é uma banda de punk hardcore que tem o intuito de falar do nosso cotidiano e de situações do nosso país. As vezes com músicas engraçadas, as vezes com ar de deboche e outras vezes só pagação de sapo mesmo.

Foi formada em 2005 na cidade de Luziânia, GO, porém só começamos a desenrolar o som mesmo em 2011 e desde então não paramos mais.
Hoje a banda é: eu (Tuttis, vocal), Sopão (guitarra), Biscoito (bateria) e Ismael (baixo).

Uma das primeiras coisas que percebemos ouvindo Penúria Zero são algumas letras engraçadas. Deboche é quase pré-requisito no punk-hc, mas muita gente diz que precisa ser sério. Vocês podem falar sobre isso?

Nós brasileiros somos um povo que consegue fazer graça com a nossa própria desgraça, a prova disso são os milhares de memes na internet.

Concordo que o punk deveria e é para ser sério, porém muito mais do que música, o punk é a atitude. Eu creio que a banda tem essa atitude de poder falar com um pouco mais de leveza sobre a nossa situação atual.

Vocês podem falar um pouco sobre cada música do “Não Me Representa”?

Tratamos muito as falas do imundo do presidente na música “Não Me Representa” e como ele ganhou uma eleição na música “Fake News”.

Já “Cidade do Caos” fala um pouco sobre a cidade de Ceilândia e de sonhos de nordestinos que saem da sua cidade e estado natal para tentar uma vida melhor. Foi uma música feita pelo o guitarrista Sopão, que também é nordestino.

E como foi o processo de gravação? Vocês tiveram que fazer alguma adaptação devido à pandemia ou ele foi feito antes?

Gravamos antes da pandemia, porém lançamos na pandemia mesmo porque sabíamos que ia demorar pra poder lançar em shows…

E o clipe da música “Não Me Representa”? Ele foi gravado e lançado no segundo semestre de 2020, né?

Sim. Como sempre, fazemos as coisas por conta própria. Gravamos um pouco na lan house onde o biscoito trabalhava e as minhas partes gravei em casa mesmo. E o Sopão, que sempre fez essa parte de áudio e vídeo, editou em casa também.

Pensando no mundo antes do Covid, como é a cena no DF?

Ahhh saudades, inclusive, de ir aos shows.
Creio que a cena daqui não é muito diferente de outros lugares: produtores fazendo tudo na raça, sem apoio, bandas fazendo seu próprio corre para lançar material, tocar e etc… Saudades dos bons tempos!

Inclusive, Tuttis é organizadora do “Sinta a Liga”, né? Vocês podem falar sobre o festival?

Sim, esse festival é meu amor! rsrs
Ele foi criado com intuito de divulgar e enaltecer as bandas com mulheres na cena, só pode tocar banda que tem ao menos uma mina na formação.

Infelizmente o espaço para nós mulheres é pequeno, então pra mim é importante ter um show dedicado só a nós.

Nisso já conseguimos trazer várias bandas de fora pro festival, como Escrota (SP), Manger Cadavre (SP), Trash no Star (RJ), Benária (RJ), Klitores Kaos (PA), Bertha Lutz (MG), fora as bandas do DF.
Enfim, mais uma saudade: produzir esse festival que amo tanto!

Últimas considerações? Algum recado?

Se cuidem, usem máscara, não subestimem o vírus! E uma hora esse pesadelo todo passa.

“Não Me Representa” está disponível nas redes de stream, e não deixe de acessar o canal do Youtube da banda pra assistir os clipes.


Entrevista

Medrado – “Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda”

Esse texto vai ser um pouco pessoal, espero que vocês me desculpem pela falta de distanciamento aqui. Já explico o motivo. Eu quero começar contando do sorriso de ponta à ponta que abri na primeira vez que escutei os primeiros versos de “Varal de Dentes”, faixa que abre o single “Pântano”:  “Pelo horário de Brasília, relógio quebrado. Eu moro no Entorno, sou mais o Entorno”.

Foi a primeira vez que ouvi alguém cantando sobre a área em que eu moro, Entorno Sul de Brasília. Como a maioria das periferias, tão perto mas tão longe dos grandes centros. Um lugar meio “cidade dormitório”, com invasões que viraram bairros e cidades. E, claro, com todas as particularidades periféricas desse país: vielas, ruas de terra, igreja, pobreza, violência, gente que vai embora cedo demais, gente que fica e fala de quem foi, tudo isso que já sabemos e nos incomodamos de saber.

A voz nos versos era do André Felipe, vulgo Medrado. André em homenagem ao avô falecido, Medrado é sobrenome de parte de pai mesmo. Nascido em Mato Grosso e vindo parar bem cedo no Lunabel 3C, bairro criado numa área de risco do Novo Gama, a uns 40km de Brasília.

Logo no início da entrevista fiquei surpreso e feliz de saber das origens do André, porque é muito parecido com o que eu vivi aqui também. Nossos bairros são divididos por um córrego e nossas experiências de crescer aqui quase se confundem de tão parecidas às vezes. Fiquei surpreso e feliz também por conhecer alguém daqui com tanta coisa pra cantar, coisas que a gente vive e, como ele diz, ainda nem viveu.

Escrevendo sobre música, você se acostuma a ver muita gente do eixo Sul – Sudeste, vez ou outra (bem vez ou outra mesmo) alguém do Nordeste. Mas, no meu caso, nunca era alguém próximo. Não existia essa proximidade geográfica e nem de vivência. Nunca achei que à poucas ruas, um córrego e umas ladeiras, houvesse um artista tão interessante que eu escreveria sobre um dia. Não só escreveria, como teria o prazer de entrevistar para falar dessa vivência periférica e de arte. É por isso que essa entrevista é tão especial para mim pessoalmente e espero que seja para vocês também. Confira:

Bom, Medrado, acho que podemos começar falando um pouco de você. Como foi seu primeiro contato com a música? Como foram as tuas primeiras gravações?

Meu primeiro contato com a música, com a arte, eu nem lembro. Foi uma percepção do meu pai quando eu era de colo. Ele conta que em todos os lugares que a gente passava e tinha alguma música eu imitava o som da bateria com a boca, o mesmo ritmo e tal. É algo que já veio comigo no sangue: meu avô tocava pife e minha mãe cantava na igreja. Uma família de músicos, saca? Meu pai é guitarrista, se dedicou muito aos estudos, as escalas. Eu comecei a tocar na igreja bem novo, com uns três anos já fazia barulho.

Quando a gente morava na invasão, meu pai passou uma cota desempregado e minha mãe trabalhava de diarista em Brasília. Aí eu ficava em casa com meu pai e ele comprou uma bateria pra mim, fiquei louco. Ele tinha baixo e uns amplificadores, tinha guitarra. Então, a gente tocava junto e meu pai é o cara mais eclético que eu conheço. Ele ouvia BB King, Tribo de Jah, Oscar Valdez, Mortification, que é tipo “UAAAGHHHH”, uma bagaceira.

Lá em 2014, comecei compondo alguns desejos e percepções que eu queria pra minha vida espiritual, meu foco cristão. Eu ia pro estúdio de um brother, Jonathan Mocher, aqui no Lunabel mesmo. Escrevia em casa e marcava lá, ficava atrapalhando enquanto ele produzia outras coisas. Quando tinha um tempo livre, chegava com a letra, tocava violão, cantava, tocava baixo e bateria. Foi lá que eu percebi o quão mágico era tudo aquilo e que eu queria fazer aquilo pelo resto da minha vida. Ali foi uma escola pra mim.

A gente é praticamente da mesma área, Entorno Sul de Brasília. É um lugar onde é muito perceptível a exclusão de periferia para com o centro, a gente acaba ficando de fora de muitos rolês do Distrito Federal. Como isso se reflete na tua música? Você encara mais como um empecilho ou uma motivação? E como é ser um artista vivendo tão perto, mas tão distante da capital do país?

Mano, a minha visão sobre o Entorno Sul é a seguinte: eu vejo um garimpo muito grande e rico, pedras muito valiosas que nem sabem o seu valor. Ponto Final, Morro do Lago Azul, Lunabel 3C, 3B, 3A, Boa Vista, Cidade Nova, Residencial Brasília, Novo Gama, Negreiros, Pedregal, Céu Azul, Valparaíso, Ingá, tá ligado? Pedras preciosas que descobrem seu valor exercendo sua arte.

Brasília fechou portas pra mim em vários sentidos. Até na Escola de Música de Brasília. O que eu mais fiz foi tocar bateria, estudar partitura, estudar tudo. Fiz a prova e não passei. O bagulho que eu mais fiz na vida. Cheguei lá, fiz três ritmos, fiz uns rudimentos. Depois fui ver o resultado e voltei pra casa frustadíssimo. Todo mundo  falando “Velho, você não pode parar, faz lá até passar”. E eu não quis tentar de novo pra preservar algo que até hoje eu não sei ao certo o que era. Mas meu rolê é a prática, tipo me deixa num estúdio com todos os instrumentos pra tu ver uma coisa. Me deixa com um violão e um mic, uma bateria e um baixo, ou sei lá só um mic. Velho, vai sair um CD, saca?

O rolê daqui não é nem escrever o som de fato, é tu acreditar no teu som. Eu escrevi “A Lei da Semeadura“, escrevi “Alarme Natural”, escrevi o single “Lamaçal” numa tarde. Toquei a bateria, o violão, captei as vozes. E eu não acreditava, tá ligado? Não tinha aquela firmeza, eu sabia que era massa, mas aquela auto estima não chegava. Depois de fazer vários trampos eu comecei a perceber isso. Fui vendo como se faz, a garra do pessoal daqui assistindo o show do Pretinho. Vendo o Isaac Cavilia fazer freestyle comigo, vendo o Grijo rimar, o Lucas aqui do lado de casa tá lá captando o som dele no celular, faz vídeo e lança no IGTV. Vendo o Akumas colando e mandando uma mensagem tipo “Mano, não para não, tu é raro”, saca? Vendo o Dhu 7 falando “Poxa mano, primeira vez que ouvi ‘A Lei da Semeadura’ eu tava num fim de tarde e fiquei emocionado”. É um garimpo unido que vai se revelando, crescendo e aprendendo com seu próprio povo.

Como o “não olhar pra gente” do quadradinho reflete na minha música é o que eu quero mais falar. Falar das ruas esburacadas, esse esgoto que corre na porta da minha casa, falar de todos que já se foram, da pureza de mesmo quem já perdeu os familiares na vida bandida mantêm. São coisas muito maiores, são coisas que motivam e nos tornam mais ricos, saca? Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda, cantar nossa prosperidade, cantar nossa união cada vez mais. Ser um artista vivendo tão perto e tão distante da capital do país é ser um brasileiro que acredita no sonho e sabe o quão tenso é viver nesse país, o tanto de coisa imposta que a gente tem que engolir, o tanto de coisa que a gente sabe e a nem pode falar.

Quais são suas maiores influências? Tanto musicais quanto visuais, coisas que te dão pilha para compor.

Meu pais, mano. Eles são a minha maior influência. Eu fazia meu pai gravar as fitas de rádio de rap que eu gostava. Sempre curti muito a história, a família, o “Castelo de Madeira”. Eu ouvia essa música e falava “Esse cara é parecido comigo, eu sou o príncipe do gueto”, tá ligado? Olha onde eu moro, no barracão de madeira! Aí me fascinava não conhecer o cara, mas ver tudo o que ele escrevia e sentir a energia da música. Me aprofundei em todos os estilos, MPB, muito Belchior. Country com Willie Nelson, muito antes do Snoop Dogg fazer ele ser conhecido. Ouvir cada estilo buscando aprender com a riqueza de cada um.  A princípio, essas são as minhas referências, as labutas, minha mãe trabalhando e a gente em casa ouvindo música.

Falei muito das influências sonoras, agora de visual tem um quadro que eu acho muito louco. É o “Duelo com Porretes” (Francisco de Goya), que são dois malucos brigando com pedaços de pau na areia movediça. Acho que esse é o quadro mais expressivo que eu já tive contato. Também tem o Francisco Galeno, pra mim é a maior referência visual. Eu tenho muito problema de vista, mas o vermelho dele e o tom dele pra mim é muito saturado, eu piro. O rolê dele com a infância também, me identifico muito.

Desde os seus primeiros singles sempre rolou muita parceria com outros artistas, certo? Ano passado teve o single “Lamaçal” com o Alice Piink e o Graça, por exemplo. Como estão sendo essas parcerias?

A Organdi me adotou, nem diria que é meu selo mas é minha família. O Graça, Alice Piink, a Mirela, Débora, essas parcerias sempre vão existir. Cada um é de um estado e, com o rolê da pandemia, a gente tem se mantido um pouco distante, mas sempre mantendo o contato. Esses caras sempre vão estar trabalhando juntos, Medrado e Organdi, Organdi e Medrado.

Esse ano tá em produção um trampo seu com o An_tnio, certo? Como tão as expectativas pra esse trabalho? O que você pretende trazer de novidade?

Essa colaboração com o An_tnio é muito importante pra mim porque vai ser meu primeiro EP. Não vou mais lançar singles duplos, serão trabalhos maiores, ou EPs ou álbuns. Eu quero trabalhar melhor com projetos grandes, e a novidade principal vai ser que esse EP será todo de freestyle.

Você toca vários instrumentos, já fez algum som acompanhado de banda? Pretende tentar algo assim futuramente?

O single duplo “Lamaçal” é um belo exemplo disso, toquei violão e bateria. Tinha esses elementos acústicos, mas de fato esse ano eu quero gravar um disco cantando e tocando bateria. To começando a escrever esse trabalho e vai ser meu primeiro trampo com banda gravado ao vivo. Não faixa por faixa, saca?

Pergunta clichê ultimamente, mas é interessante falar: como tá sendo pra se manter produzindo e divulgando seu som agora nesse período de pandemia e caos total?

A pandemia tem sido um aprendizado. Os momentos bons têm sido muito bons e intensos, os difíceis têm sido muito duros. Ano passado eu perdi minha avó e esse ano minha tia avó. Apesar de muitas perdas familiares, eu tenho buscado o equilíbrio mental, espiritual e profissional. Eu tenho aprendido muito e tenho exercido muito a minha fé, isso vai passar e colheremos bons frutos apesar de tudo.

Acredito que até mesmo essa pandemia veio para nos unir. Essa é a minha primeira entrevista e tenho muito a agradecer por isso, por vocês reconhecerem meu trabalho. O melhor e o que mais me motiva nisso é ser entrevistado por um cara do Entorno Sul que sabe como é caminhar com a cabeça na mira.

Você pode ouvir Medrado no Soundcloud, Spotify e Youtube.


Entrevista / Selo

Kino Lopes – Dobradiça Enferrujada Discos

Começando pelo começo, caso você nunca tenha ouvido falar, experimental geralmente é quando a pessoa faz um som sem estrutura, usando elementos pouco comuns, usando um instrumento de uma maneira que não costuma ser usada ou tudo isso de uma vez. E no meu entendimento improvisação é quando a pessoa não pensa duas vezes, a composição é em tempo real quando grava um disco e ao vivo é literalmente improvisado, um show nunca vai ser como o outro.

Dobradiça Enferrujada Discos é um selo independente de Brasília que reúne alguns desses artistas. Inclusive, Qorpo, com quem fizemos uma entrevista há alguns meses. Conversamos com Kino Lopes, co-fundador do selo, pra conhecer um pouco mais sobre esse mundo.

Gostaria de deixar a observação que meu conhecimento sobre improvisação e experimentação se resume ao que eu acabei de escrever, então as perguntas surgiram da minha ignorância e curiosidade sobre o assunto.

Caso eu tenha errado na introdução, você pode falar resumidamente o que é improvisação e experimentação?

Eu diria duas coisas, que acabam sendo uma só. Primeiro que música experimental seria menos um gênero ou uma linguagem geral com signos que regem sua construção, mas seria essencialmente uma forma de criação que lida com a possibilidade de produzir a partir do contato com o material, encontrando estruturas através dele, e não o aplicando a um recipiente previamente estruturado. Eu não diria que isso resulta em uma ausência de estrutura, mas sim em uma dinâmica de ida e volta com o som, que de certa forma significa que a música recebe uma imagem como resultado do próprio processo, ao invés de caminhar em direção a uma imagem que determinaria seu equilíbrio e seus alvos. Existe uma singularidade formal inscrita no próprio encontro com os objetos musicais. E a segunda coisa é que a experimentação é marcada, sobretudo, pela incerteza do resultado. É uma maneira de fazer coisas que não sabemos o que são, seja através da improvisação, que implica em uma relação de investigação em tempo real, onde o espaço, as ações involuntárias do instrumento, e os membros da performance terão uma grande fala na negociação da evolução do material, ou seja, através da composição, que implica uma lapidação e uma sistematização que nasce da análise dos elementos. É claro que existe todo um espectro entre esses dois processos que tendem a se misturar.

Você também é um dos artistas do selo, você pode falar sobre a sua história com improvisação e experimentação? E como surgiu a ideia de um selo pra esse “gênero musical” meio desconhecido?

Durante as ocupações estudantis da UnB que ocorram em 2016 contra o golpe de estado e a PEC 241, os estudantes que ocuparam o departamento de música tinham formações muito distintas entre si, desde o jazz, como no meu caso, ao piano romântico, como no caso da Cá Rocha, até a música popular, como no caso da Marília Nóbrega, e ainda estudantes de outros cursos que ocuparam conosco e que tinham formação nenhuma. A improvisação, de uma forma completamente desprovida de qualquer tipo de agenda ou bula, foi a “solução” pra esse desencontro de vocabulário, que, na verdade, não seria uma solução porque ela não fornece exatamente um território expandido que acolhe as linguagens da forma como são, mas uma nova gramática que é construída através da deformação delas. A Dobradiça nasceu logo depois do fim das ocupações com a ideia de organizar as reverberações das experiências e dos aprendizados que surgiram naqueles meses, e que continuam surgindo mesmo três anos depois, hoje com ainda mais pessoas graças as apresentações, as jams e aos encontros, como, por exemplo, o QORPO que vocês entrevistaram, e também graças a compositora e professora Tatiana Catanzaro da UnB, que desde sua chegada no departamento tem fortalecido um estudo e uma comunidade voltada para a experimentação. Foram praticamente três meses com aquele tanto de gente morando no mesmo lugar, aprendendo um bocado junto, e acho que no fundo é uma tentativa de dar continuidade e de expandir aquela experiência.

Você pode falar sobre a coletânea “Mais a Soma de Seus Possíveis”?

Esse álbum foi em sua maioria a gravação de uma apresentação que fizemos no começo do ano no Estúdio Confraria, que consistiu de improvisações individuais, e a outra parte de gravações feitas em casa por quem não pode participar no dia, e mesmo assim algumas pessoas infelizmente não conseguiram participar. Um assunto muito frequente entre a galera sempre foi a ideia de que se uma improvisação individual é ou não uma improvisação. Quando improvisamos sozinhos sempre estamos à beira de um processo altamente controlado, à beira de uma composição em tempo real. Nesse projeto temos peças completamente improvisadas, como a do Luiz Rocha, até a composição escrita da Yuki Shimura. Como esse campo é extremamente expressivo e pode ser construído/formatado de tantas formas, é muito legal poder ouvir a peculiaridade do processo de cada um neste contexto solo, como também ouvir as semelhanças entre a composição e a improvisação. Era algo que ocorria nos encontros e afins, e queríamos a um bom tempo fazer gravando.

Além dos lançamentos, o selo promove eventos com seus artistas. Você pode falar um pouco sobre isso?

Por sorte nossa, diversos lugares deram espaço para a gente apresentar e montar projetos de forma completamente livre. É legal quando alguém acolhe uma proposta de apresentação onde não sabemos como vai ser. Quando a situação é ao vivo, existe a possibilidade de refletir coletivamente sobre o que aconteceu, e a audiência frequentemente apresenta uma perspectiva completamente criativa sobre o som, e assim como as pessoas que estão tocando, as interpretações são contrastantes, o que gera uma retroalimentação gigante. Também existe uma pluralidade de comportamento quando apresentamos ao vivo, desde pessoas mudando de lugar, posição pra ter outras perspectivas do que esta acontecendo, como por exemplo, um rapaz que foi da cadeira, pro chão, e depois deitou a cabeça no piano do Rafael Bacellar, até apresentações onde a pessoa traz um instrumento pra tocar junto. Em uma apresentação ao vivo fica latente o quanto a parte de ouvir e investigar o som é uma das partes mais criativas, se não a mais criativa. Até a pandemia, a Galeria Alfinete e o 705 Bar abrigavam apresentações rotineiramente pros projetos, e isso proporciona uma coisa maravilhosa que é ter uma espécie de laboratório, e eu digo isso tanto para quem está indo pra tocar tanto pra quem tá indo para ouvir. Existe uma relação de muita confiança no meio disso, já que se trata em sua maioria de apresentações onde não sabemos o que vamos tocar.

E falando nisso, existe muita diferença entre gravação e apresentação quando se trata de improvisação e experimentação?

Existe muito. A primeira coisa que vem em mente é o processo de mixagem e edição que existe depois da gravação. O Pedro Menezes da Zéfiro, que é quem grava e mixa a maior parte dos projetos da Dobradiça, é tão instrumentista quanto os gravados quando se trata da improvisação gravada. A possibilidade de interagir com a microfonação, com a edição, com o silêncio do estúdio, isso tudo é bem diferente em uma sala de apresentação com público, onde temos a acústica de um espaço povoado, a espacialização. A segunda coisa é o detalhe que o microfone pega. Gravamos um projeto de trio, ainda não lançado, que conta com a Cá Rocha (voz e percussão), Andrey Grego (violino) e eu (violão e trompete) que é em sua maioria num volume tão baixo, que não teria como ser percebido ao vivo da forma como é com a captação de múltiplas ferramentas. Já ao vivo, a materialidade do som, a sensação física ao ouvir um acorde desencontrado entre um sax, um trompete, uma clarineta e um violino, essa fisicalidade é um vetor determinante na forma que a improvisação vai tomar.

Como anda a situação na quarentena? O pessoal têm gravado em casa?

A situação da quarentena num geral anda chorosa levando em conta a completa falta de capacidade que temos de gerir duas crises ao mesmo tempo, tanto da pandemia em si tanto de um projeto de governo que desde seu princípio deixa claro que a perda de vidas não será motivo de preocupações, mais especificamente das classes mais baixas, essas que nunca tiveram quarentena ou isolamento social e que são obrigadas a entrarem em pelo menos dois ônibus lotados por dia. É uma situação completamente desnecessária, diga-se de passagem. No início da pandemia ouve a desoneração tributária para uma série de empresas privadas, mas sem a manutenção do trabalho, sem nenhuma defesa dos postos de trabalho. Deixamos de arrecadar bilhões de grandes empresas que poderiam ser usados para garantir a possibilidade do isolamento social. Enquanto isso no Chile foi aprovado, por iniciativa do partido comunista chileno, a taxação de grandes fortunas para garantir o isolamento de todos e todas. Então quarentena real, no Brasil, não houve.
Em relação à possibilidade de continuar com os projetos do selo: a não ser os projetos já gravados e ainda não lançados, o movimento em termos de produção que existe no momento são grupos de estudos, projetos para cursos virtuais, video aulas, e trabalhos voltados para a área da composição. Eu diria que uma possibilidade que se abre com a impossibilidade de se encontrar é a oportunidade de repensar a composição, um processo que é comumente feito individualmente, de forma interativa através da tecnologia, que é para onde temos virado nossa atenção.

Últimas considerações? Algum recado?

Queria agradecer pela entrevista, e principalmente pelo blog. A internet talvez seja o lugar mais perigoso hoje pra uma pessoa procurando no que pensar e como ocupar a cabeça, e o que espaços como o Bus Ride fazem, dedicando tempo e força pra falar de música criativa, pode não parecer muito em momentos como os que estamos, mas se deixar de existir, a diferença vai ser sentida de várias formas e em várias dimensões.

Os lançamentos do Dobradiça Enferrujada Discos estão disponíveis no Bandcamp.


Lançamentos / Playlist

Singles de Setembro

Hoje vamos publicar algo diferente do que estamos acostumados, mais uma das mutações do nosso blog/site/ainda não sei como chamar.

Nessa semana chegaram até nós alguns singles e resolvemos vir aqui falar deles. E primeiramente tamos felizes de mostrar algumas músicas de estreia.

Pata “Casa de Gelo”

Se você acompanha o Bus Ride Notes provavelmente já conhece a Pata, além de estar em algumas das nossas playlists, publicamos uma pequena resenha do primeiro disco da banda, “Shit & Blood”.

Nessa quarentena eles resolveram se aventurar com singles gravados e produzidos em casa, numa “série de experimentações sem pretensão de definir uma chave sonora para os novos passos, também com a proposta de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos”.

Os já lançados “blsnr pnt mrch” e “Casa de Gelo” são em maior parte eletrônica e bem diferentes da banda que toca um rock que eu chamo de grunge.

“Casa de Gelo” tem uma melodia calma e uma letra tristinha que pra muitos é sinônimo da quarentena, mas ela na verdade foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano.

Ela tem a participação de Sentidor (também responsável pela mixagem e masterização) nos beats e ambiências eletrônicas e foi lançada pela Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records.

A capa ficou por conta de Hanna Halm e também foi lançado um lyric video, produzido por Lúcia Vulcano.

O próximo single previsto é um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

Tigre Robô “Desconforto”

Formada no final de 2018 em Brasília por Isabela Fernandes (guitarra, teclados, voz), Junio Silva (baixo, teclados, voz) e Rafael Lamim (bateria), Tigre Robô acaba de lançar seu primeiro single, “Desconforto”. “Uma música sobre esperar pelas coisas acontecerem quando o tempo não está ao seu lado”.

A banda está gravando seu primeiro álbum e pretende lançar mais um single até o mês de Dezembro.

Eles também participaram da nossa matéria sobre gravações caseiras durante essa quarentena.

A arte de “Desconforto” foi feita pela própria Isabela Fernandes.

Tropikaos Chaga “As Ruas Vão Queimar”

“As Ruas Vão Queimar” é o primeiro single do duo Samuel Kircher (voz, guitarra, baixo) e Érico Munari (bateria), que foi gravado já durante a quarentena de 2020 (será que ao nos referir à quarentena vamos ter que especificar o ano? Espero que não).

A música foi lançada já tem um tempinho, mas o lyric video (editado pelo próprio Érico Munari) acabou de sair.

“As ruas, os dias, as notícias do cotidiano em um país problemático como o Brasil, compõem as letras e o barulho da banda”, ou seja, aquele punk rock rasgado cheio de distorção que a gente gosta.

Kebrada HC “Unides Pelo Ódio”

“Banda punk/hardcore antifa femininja diretamente da periferia do ABC”, formada por Letícia Souza (voz), Juliana Moreira (guitarra) e Victória da Cunha (baixo) em 2019.

Apesar de ser uma banda nova e essa ser a primeira música que elas lançam oficialmente, a Kebrada HC já é um tanto conhecida e é bem ativa.

“Unides Pelo Ódio” foi lançada junto de um video com trechos de shows em comemoração ao aniversário de um ano de banda.

O amigue e baterista Tobias de Teipó participou da gravação do single, mas a banda ainda está a procura de um baterista.

Ano passado fizemos uma entrevista com a vocalista, Letícia, onde ela explica porque se afastou do “rolê punk” e começou a frequentar a nova “cena” paralela que tá rolando em São Paulo. Ver isso tomando uma forma ainda maior através de mais uma banda faz uma lágrima escorrer no meu rosto.


Entrevista

enema noise

Enquanto eu ouvia o novo EP da enema noise (“aquilo que já é meu/a hora mais fria”, lançado em Abril de 2020) pensei “Que conceitual. Eu podia pedir uma entrevista“. Enquanto pensava na banda e lendo sobre ela, cheguei à conclusão que eles representam bem o underground (seja o estilo que for): você escolhe um gênero musical que te agrada e começa a trabalhar nele, muda o que não faz mais sentido e o que é necessário, sem pressa de fazer por fazer, as vezes com pausas, mas nunca parando e quando você vê já se passaram onze anos.

enema noise é uma banda muito reconhecida por um nicho, afinal de contas é uma década em atividade. Isso tudo reflete bem a ideia do que é o tal do underground: estar satisfeito em seguir criando por conta própria no seu quintal e dos amigos. Mainstream é outra história, fama, então, nem se fala.

Muito trabalho, diversão, conquistas e provavelmente muito rolê errado também. Pra contar um pouco sobre a banda, eles cederam uma entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Somos de Brasília e tocamos desde 2009, já tivemos várias formações e no momento somos eu (Rafael Lamim) e Murilo Barros. Temos alguns discos lançados: “eventos inevitáveis” (2017), “enema noise” (2016) e “manual pouco prático do desapego” (2014) e também um split chamado “Mais do Menos” com o Valdez em (2012). Antes disso também tocávamos outras músicas, em inglês.

No começo da banda as letras eram em inglês, o que fez vocês mudarem pra português?

Até 2010 por aí era muito comum na música independente você acreditar que o inglês projetaria bandas de alguma forma diferente na internet. E a gente se acostuma a achar o português difícil de encaixar em alguns estilos de som, mas quando você consegue, o resultado é sempre muito original. Depois de uns anos ficou claro que as pessoas de fora querem realmente escutar como é o português. Então é bem mais interessante mesmo. Também foi a forma de nos opormos a alguns estilos, que ficavam cada vez mais “americanizados” no momento que fizemos essa transição. Acho que hoje em dia ninguém percebe o quanto isso mudou, mas rola mais liberdade pra qualquer banda fazer o que quiser, tem público pra tudo também. Quem canta inglês é porque quer, já normatizou todas as possibilidades e isso é legal também.

Como uma banda que já lançou praticamente todos os formatos (CD, vinil, k7, etc) vocês têm alguma preferência ou sequer vêem diferença neles? (Como consumidor, a gente vai pelo gosto, né)

É muito bonito escutar o mesmo som em diferentes formatos! Até agora o lançamento mais legal de ouvir pra mim foi a fita k7 do “eventos inevitáveis” que lançamos na Ásia, pela terr records e a tenzenmen. Mas foi excelente escutar esse ultimo EP no vinil de 7” que lançamos com a Lombra Records e a Milo Recs. O Biu da Lombra tem uma máquina gravadora de vinil e fez o trabalho na nossa frente e ouvimos na hora. Além da enema noise, recentemente publiquei outro projeto musical meu (insone) em fita k7 colorida por um selo brasiliense chamado Tudo Muda Music, que lança em formatos físicos, k7 tem até aqueles mini CDs.

A formação da banda já mudou algumas vezes, mas esse é o único trabalho feito (ou só lançado?) como duo, isso influenciou a composição do novo EP?

A gente sempre foi acostumado a ter duas guitarras, compor em duas guitarras e as ideias vinham dessas segundas camadas, é como muitas bandas fazem.  Só que a gente fez isso demais e se você não quer repetir ideias, uma hora você precisa fazer algo mais complexo, acordes difíceis, aí eu acho que é quando esse estilo meio post-hardocre começa a ficar chato. Como a banda encolheu mais ainda, de 3 pra 2, secamos os instrumentos e fizemos tudo no baixo e na voz. A bateria tá ali como um ritmo acompanhando mesmo. Isso que eu e Murilo sempre compusemos mais as ideias, riffs de música, então não foi muito difícil concluir, só foi mais difícil pra mixar mesmo e preencher esse espaço. Tem mais algumas músicas gravadas nesse formato e com guitarras, só não conseguimos editar a tempo.

Vocês podem falar um pouco sobre o novo EP?

Que nem falei, cansamos de muitas guitarras e ao mesmo tempo quisemos a bateria eletrônica também. Só que sem ser “eletrônico”, usar sintetizador, industrial, etc. Então a primeira autoral que rolou foi “aquilo que já é meu” que é bem podre, sim, mas também é animada e com notas maiores, então é algo mais como Los Saicos, Screamin Jay Hawkins e Punks pra Frente. Inclusive o riff principal do baixo dessa música nós roubamos de Try a Little Tenderness da versão do Otis Redding (valeu). A outra música “hora mais fria”, tem mais influência de alguns trabalhos ambientes que mixei recentemente com o selo ANTINATURAL, os álbuns da heloísa (Surrounded by Fire / SrrnddBfr) e Malena Stefano.
Já os dois remixes surgiram porque disponibilizamos as tracks abertas do disco “eventos inevitáveis” e duas pessoas apresentaram versões ainda em 2018. Primeiro o Thiago Lourenço remixou “ordem” (e lançou num ótimo vídeo do Vinícius / Comuna Putrefata). O outro remix foi feito pelo Kleberg, que é um cara que também indicou a gente pro Anthony Phantano, um dia a gente apareceu recomendado por ele no Twitter sem saber o que estava rolando e o Kleberg se apresentou como responsável. Em seguida ele ainda nos entregou esse remix de “acabe sua banda ruim”!
Pra fechar o EP, gravamos um cover de “Bad Houses” do Big Black que foi uma das primeiras bandas esquisitas a usar bateria eletrônica e que gostamos bastante.

Já que Brasília sai do eixo Rio-SP, vocês podem falar, no geral, como é a cena na cidade pra quem não conhece?

Brasília mesmo sendo a capital não é distribuída igual Rio ou São Paulo. E a falta de transporte público, a lei do silêncio, associações de moradores e a polícia não dão muito espaço para a música e a vida noturna. Em 2018 e 2019 fizemos muitos eventos no Bar do Zé na 705 norte, um porão de um boteco que cabe até 60 pessoas, e esse tava sendo o nosso tipo de rolê até o começo da quarentena. Até agora já tocaram umas 100 bandas por lá, tudo entre produções independentes de amigos. Outro lugar muito massa do DF é a Esquina Preciosa no Paranoá, que organizou os Festivais de Cultura Punk também nos últimos dois anos.

Últimas considerações? Algum recado?

Vamos pensar no quanto nossas redes da música podem ser redes de solidariedade agora!
Queria também indicar outros sons empenados BR:

A discografia da enema noise está disponível no Bandcamp e redes de stream.


Entrevista

Qorpo – Morte em Pleno Verão

O clima não está nada bom no Brasil e no mundo, especialmente desde o fim do verão de 2020. A vida agora acontece dentro das casas e sob a terrível sombra do vírus que agora varre todo o planeta. Lá fora, só há medo e morte.

Felizmente, mesmo em meio a tudo isso, a criação não parou. As pessoas ainda sentem a inquietação por criar, e dessas criações, surgem registros sobre o tempo em que nos encontramos e o que sentimos. É de uma dessas criações do isolamento que venho falar hoje.

Com vocês: Morte em Pleno Verão.

“Morte em Pleno Verão” é o primeiro álbum do projeto Qorpo, autoria de Victor Rodrigues. Esse é um daqueles lançamentos pelos quais tenho um carinho especial.

Conheci Victor em 2015 quando ambos entramos no curso de Comunicação Social em Brasília e fomos amigos próximos durante os anos da faculdade. Entre muitas conversas que tínhamos, música era um dos temas constantes.

Acompanhei o início do desenvolvimento do que viria a ser o Qorpo, com o crescente interesse pela música experimental e outros temas que influenciariam o projeto.

É por isso que tenho um imenso orgulho de finalmente realizar essa entrevista sobre o “Morte em Pleno Verão”; um álbum sombrio e inquietante que trabalha com o silêncio e o minimalismo, trazendo ares de novidade para a cena artística de Brasília.

O lançamento aconteceu no dia 1 de Maio e foi feito pelo selo brasiliense Dobradiça Enferrujada. Para acompanhar o EP, foi feito um curta dirigido por Xavier Braun, também de Brasília.

Confira a entrevista:

Eu lembro de você já fazendo uns sons nesse projeto Qorpo lá por 2018, se não me engano. Fala um pouco de como foi esse processo de amadurecimento das ideias até chegar no “Morte”.

Pois é, o nome veio antes do projeto realmente tomar forma.  Há alguns anos eu tenho explorado com a música eletrônica mas eu nunca realmente tinha me sentido satisfeito com o resultado, e por isso eu raramente compartilhava o que fazia com alguém, não me sentia confiante pra isso. O “Morte em Pleno Verão” veio de uma decisão tomada no final de 2019: eu decidi que queria fazer um registro conceitualmente consistente, algo que eu me sentisse confiante o suficiente pra compartilhar com alguém. Eu acho que nesse processo o som que eu fazia mudou muito, eu explorei outras direções e instrumentos. Foi um processo bem lento de fazer tudo, ouvir tudo, fazer de novo e repetir. No final de alguns meses eu tinha quase meia hora de música que eu tava confiante pra compartilhar. Foi basicamente isso.

Ouvindo o som é impossível não lembrar de coisas tipo Music For Airports do Brian Eno. Quais foram tuas referências pra esse trabalho?

Eu acho que como influências sonoras mais diretas eu posso citar a compositora francesa Eliane Radigue e o artista japonês Toshimaru Nakamura. Mas ainda assim eu acho que a maior parte das influências pro Morte vieram da literatura. O próprio titulo mostra a influência do conto de mesmo nome de Yukio Mishima. Eu retirei muitos conceitos que explorei no EP de livros que eu estava lendo durante a produção do Morte, eu encontrei um território muito fértil e criativo pra mim em transferir algo vindo da literatura, uma mídia “muda”, e trabalhar as inúmeras possibilidades de representar isso sonoramente.

Saquei, bem massa isso de buscar referências de lugares que não sejam a música né. Já rolou de você achar referências, por exemplo, em sonhos ou outras experiências oníricas assim? Porque o Morte eu achei que tem bem essa cara também.

Pessoalmente algo que me inspirou muito também foi o conceito de memória, como as memórias se apagam e se tornam gradualmente disformes, criando uma desconfiança sobre o que você lembra. É algo que eu sinto com alguma frequência e, pessoalmente, eu consigo enxergar isso na narrativa que pode existir no Morte. Pra mim os minutos finais são os que mais trazem essa meditação sobre persistência das memória. A parte disso, sobre o tom mais meditativo do Morte, foi algo bem intencional mas sem uma fonte de inspiração muito clara pra mim. Acho que foi algo que veio naturalmente e de muitos lugares também.

Sobre a parte mais técnica, fala um pouco da produção em si. Como você chegou naquele som? Quais equipamentos foram usados?

A produção foi bem lenta e bem caseira. Como durante um bom tempo eu não mencionei com ninguém sobre esse projeto, tudo foi feito sozinho. Em questão de equipamentos eu usei uma guitarra, uma pedaleira, com e sem a guitarra, um microfone e um laptop. Eu acho que o som tem na maior parte uma característica bem tonal, algo mais interessado nas frequências criadas do que em melodias e etc. Para mim isso veio através do no-input. É uma técnica normalmente utilizada em consoles de mixagem, aonde você conecta um output desse console de volta em um input. Não existem sons externos acontecendo, só loops de frequência que você pode criar e manipular dentro do equipamento (O Toshimaru Nakamura, que eu mencionei antes é o popularizador dessa parada). Adaptei isso pra pedaleira de guitarra que eu tinha a minha disposição. O som criado nesse processo tem naturalmente essas características mais tonais que eu mencionei, eu só aceitei essas características e tentei trabalhar com elas de uma forma mais minimalista e crua, algo mais puramente voltado as frequências e como dialogar isso com o silêncio, pra criar uma tensão mais dramática.

O Morte foi lançado pelo selo Dobradiça Enferrujada né, como foi sua aproximação com eles?

Antes de eu sequer pensar na existência do Morte eu já havia colado em vários eventos e acompanhados lançamentos promovidos pela Dobradiça Enferrujada Discos. Tanto por um identificação e interesse pessoal com os projetos envolvidos no selo, mas também por achar bem importante apoiar o trabalho que eles fazem em divulgar e estimular um circuito de música nova e experimental no Distrito Federal. O contato com eles veio no momento em que eu comecei a me sentir seguro pra compartilhar o que estava se tornando o EP. Eu compartilhei o som com alguns amigos e isso acabou chegando no Kino Lopes, um notório músico do DF e um dos nomes à frente da Dobradiça. Ele se interessou pelo som, a gente trocou muita ideia sobre, ele acompanhou algumas mudanças que rolaram no Morte. Quando tudo tava terminado, ele me ofereceu essa plataforma pra lançar o projeto e um espaço dentro do selo pra trabalhar minhas pesquisas musicais e exercer isso em conjunto também. Antes do lançamento do Morte ele também me convidou pra participar do álbum “Mais a soma de seus possíveis”, uma coletânea experimental e colaborativa, também lançada pela Dobradiça enferrujada, que conta com 14 músicos do DF.

Rolou também um curta com o Xavier Braun pra acompanhar o álbum né? Você pode falar um pouco dessa parceria?

Claro, o rolê com o Braun veio depois que o EP já estava terminado. A gente tava conversando sobre criar essa obra visual em cima do som também e ambos estávamos meio inseguros por não rolar de gravar na rua, uma vez que estávamos já em distanciamento social. Daí eu dei a ideia de ele gravar no próprio isolamento. Ele se inspirou e criou todo um processo pra essas gravações e pro tratamento das imagens. A gente conversou mais sobre aspectos técnicos e pouco sobre os conceitos a serem trabalhados, essa parte foi bem sobre como ele absorveu o meu som e trabalhou isso internamente. Pessoalmente, eu acho que ele entendeu visualmente coisas que eu tinha colocado ali que nunca falamos a respeito, foi incrível. Por fim se tornou um vídeo de quase meia hora, sobre o Morte em Pleno Verão, imagens de arquivo, isolamento social e os gatos do Xavier. Ele ficou bem feliz com o resultado e eu honestamente fiquei de cara, acho que não podia ser melhor e mais adequado. O Xavier Braun também participou da produção da capa do EP, ele e a artista visual Luna Colazante colaboraram na capa. Ele tirou a foto que foi usada e ela trabalhou na arte e no design da capa.

E os planos futuros?

Até agora não existe nada muito concreto. Existem alguns planos de colaborações com outros artistas da Dobradiça Enferrujada, mas isso não tem um momento certo pra rolar, já que a gente tem que esperar toda essa situação do isolamento social passar. Pessoalmente, eu tenho trabalhado algumas outras paradas, tenho pensado outras abordagens pra sonoridade que eu trabalhei e, para o no-input em si, alguns conceitos que divergem do Morte, focando mais nessa tensão dramática do silêncio. Mas por hora, isso é algo disforme que eu tenho pensado na minha prática pessoal, quero trabalhar isso com mais calma, então não existem planos muito claros ainda.

Por fim, o Morte é um trabalho que acho que dá pra dizer que nasceu sob esse espectro do isolamento que a gente vive. Tem muita coisa sutil ali e essa parada do silêncio. Como você recomendaria que ele fosse ouvido pelas pessoas?

Eu recomendaria ouvir com o uso de fones. Eu acho que muitas qualidades das frequências, tipo as separações e os encontro das mesmas, vão ficar mais claros quando você isolar os sons ao seu redor. Acho que algum nível de atenção é necessário, tem muitos elementos sutis que só vão ser notados com algum nível de atenção e paciência. Acho que a partir daí o som pode te guiar em uma experiência mais meditativa. Ou não também, e não tem problema nisso, essa é a forma que eu gosto de ouvir e a forma que produzi, mas eu acho que a experiência pessoal de qualquer outra pessoa é definitivamente tão válida quanto a minha.

“Morte em Pleno Verão” está disponível no Bandcamp e no Youtube:


Resenha

Brutal Mary – Brutal Mary EP

Brutal Mary é uma banda punk feminista de Brasília formada por Ana (guitarra/voz), Arthemys (baixo/voz) e Brenda (bateria).

Na bio das redes sociais elas dizem: “Somos um trio de meninas que se reúnem pra fazer barulho e música trash. Nossa intenção é tocar, tocar e tocar. ‘Se você acha que Punk não é coisa pra garota, vamos chutar a sua bunda'”.

Em Janeiro elas lançaram seu EP de estreia e a capa (por Jennifer Wrath) dele é a primeira impressão da banda: em cores pastéis Ave Maria segura um taco de Baseball coberto de pregos, sangue e desenhos de bichinhos com um pequeno urso e absorvente interno (sujo, claro) de penduricalhos.

O EP tem duas músicas em português e duas em inglês, onde vemos claramente a influência da banda: grunge feminino. Se você gosta desse quase sub gênero musical, vai amar a Brutal Mary (se não gosta, provavelmente também vai).

A primeira música, “Band Aid”, mostra um pouco desse contraste da capa e nome da banda entre o fofo “Correndo de você, cortei o meu joelho… Onde poderia estar o Band Aid de ursinho que mamãe te fez comprar?” e o brutal “Pais que querem te culpar, forçadas a engravidar e nós não queremos o seu feto”.

Quase todas as letras do EP falam sobre abuso misógino e a sensação (as vezes realidade) de estar sozinha nesses momentos.

“Bruja”, a segunda música, fala sobre isso trazendo a temática das insubmissas “bruxas”: “He can’t stand that you’re smarter. He can’t stand that you love your body. You can’t burn the witch anymore but if you could I swear she’d reborn”.

“Ah Não!” fala sobre o receio e/ou medo que toda mulher tem de sair de casa sozinha em algum momento “Nos meus sonhos eu fujo dos homens que me perseguem. Nos meus sonhos eu fujo”.

Infelizmente isso é algo tão presente que imediatamente eu lembro de outras músicas que falam a mesma coisa, como “A Rua é um Campo de Batalha” (2017) da Charlotte Matou um Cara e “Satanás” (2019) da Demônia em que o refrão diz “Ufa, que alívio! Achei que era homem, mas é só o Satanás”.

Não vou me demorar no assunto, pois inúmeros estudos falam muito melhor do que eu sobre misoginia, estupro e relação de poder, o que eu vou dizer é: por que toda mulher conhece uma mulher que já foi estuprada, mas nenhum homem conhece um estuprador? Eles não são bicho papão que pulam de trás duma árvore na madrugada.
“A luz apaga quando o estuprador passa”. Homens, ascendam a luz, essa culpa é totalmente de vocês.

Já dizia Dominatrix, em música que poderia ter sido escrita hoje, “Que tipo de vida é essa que eu tenho que ficar 24 horas por dia alerta igual a um cão de guarda? De quem são os olhos que te vigiam? De quem é a mão que te ataca?”.

O EP termina com a “romântica” (entre muitas aspas) “You are the Trash”, que fala sobre um relacionamento conturbado “Like when we used to fight when both of us weren’t right”.

O EP Brutal Mary é curto, direto e barulhento, aquilo tudo que a gente gosta.

“Brutal Mary” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Evento / Resenha

Sinta A Liga e Bruxaria

O DF se movimentou no último feriadão e távamos lá pra curtir alguns desses eventos. Foram eles o festival Sinta A Liga, no dia 15/11 e o festival Bruxaria, no dia 16/11, que apesar de serem duas coisas distintas tiveram muito em comum e aconteceram no mesmo fim de semana, então falo aqui sobre ambos.

Primeiramente a coisa mais importante que aprendi esse fim de semana é que o DF não é composto só por Brasília.

O festival Sinta A Liga foi em Brazlândia, uma cidade satélite de Brasília, coisa de 50 km do centro. Ele é um evento idealizado pela Tuttis Souza que roda o Distrito Federal para incentivar o protagonismo feminino na cena musical.
“Hardcore só é hardcore quando é libertário, quando é ato político e não só música. E no contexto social em que vivemos, poucas ações são tão libertárias quanto mulheres fazendo elas mesmas, ou seja, produzindo, tocando e espalhando mensagens riot grrrls, antirracistas e anti-CIStema”.

Penúria Zero começou a noite de shows com o pé na porta, quase pogo (o espaço era pequeno), bate cabelo e muito punk. Aquele showzinho divertido 10/10. A banda foi (re)formada em 2011 e lançou seu primeiro disco em 2017, vale a pena ouvir.

Mantendo a Identidade é um grupo que toca reggae, rap e outras misturas. Eu pensei muito e só consigo descrever o show deles como extremamente agradável que semeou boas energias pra noite. Saca só:

XXIII é uma banda do DF que toca algo parecido com post punk e grunge na sua mistura sem gênero musical. O vocal grave nas músicas mais lentas faz ser impossível não prestar atenção ao show. Como eles mesmos se descrevem nas redes: “Nós somos a banda XXIII e viemos pra deprimir vocês”.

Se você lê nosso site provavelmente já conhece a Xavosa, banda de punk rock de Brasília que lançou seu primeiro EP no começo desse ano. Como todas as bandas desse evento, foi o primeiro show delas que eu vi e não sabia o que esperar. O show foi muito bom, divertido e o toque final foi um cover de Rebel Girl em que elas chamaram as meninas todas das bandas pro palco pra cantar junto. Foi lindo. Também parabéns pra Sand (da Supervibe) que substituiu a batera Rita.

O show da Bertha Lutz no Sinta A Liga foi só uma das coisas marcadas pelo Mercúrio retrógado (dizem que é quando tudo dá errado) esse fim de semana. A guitarrista, Gabi, não chegou à cidade a tempo, então Sara, guitarrista da Estamira, durante o evento aprendeu algumas das músicas da banda e elas fizeram um show reduzido e improvisado que foi bem legal. Ainda estou pasma com as habilidades de Sara.

Klitores Kaos é uma banda de crust/hardcore de Belém, elas tocaram em forma de trio e fecharam a noite com um show poderoso.

Além da música o festival contou com um bate papo sobre experiências de ser mulher na cena underground com a professora de música e guitarrista da banda Estamira, Sara Abreu, uma exposição da artista Veronica Popov, que fez o flyer do fest e esteve presente no evento fazendo caricaturas, uma exposição da Ninfa Sex Store e sorteios para as garotas presentes de vários produtos e serviços feitos por mulheres.

Já o Festival Bruxaria foi em Brasília, ele é feito pela Coletiva Bruxaria, “formada por mulheres que se juntaram para construir locais seguros e solidários, espaço para todas se jogarem na música, no palco, na produção, e em todos os espaços que quiserem ocupar. Essa é nossa estratégia de sobrevivência nesse mundo que nos silencia e tenta nos matar todos os dias. Bruxaria é nosso momento de criar, produzir, tocar, se apoiar. Ver e viver um apoio mútuo em que mulheres deixam de ser rivais para cuidarem umas das outras e celebrarem essa união”.

Os shows começaram com Bertha Lutz, agora completa. A banda de Belo Horizonte faz um show nada menos que incrível, começaram estapeando a nossa cara com “Sangue Negro”, “Seu privilégio sustenta essa porra toda, sua indiferença sustenta essa porra toda, sua branquitude financia essa porra toda. Sempre, desde sempre!”, e terminaram com “Funk da Xoxota” que ficou na cabeça quase uma semana.

Em certo momento do show a vocalista, Bah, disse “a gente é cria de Bulimia”, uma homenagem à Ieri da Bulimia que faz parte da Coletiva Bruxaria e estava presente, mas eu acho que isso se aplica a todas nós, a maioria das bandas punk/hardcore que eu vi esse ano, não só no DF, fazem um cover da banda.

Klitores Kaos também tocou mais uma vez. A banda foi formada em 2015 “a partir de uma vontade e necessidade de bandas formadas só por mulheres no cenário hardcore punk da cidade de Belém”. Com um som pesado e cru elas se descrevem nas redes como uma banda “feminista, de esquerda, antifascista, vândala e baderneira”. E dito isso, não sei mais o que falar sobre o show sem ficar redundante. Bóra ouvir elas no Bandcamp.

Estamira é uma banda de Metal do DF, formada em 2007 por mulheres que “já contribuíram de diferentes formas para a produção artística de Brasília e decidiram, mais uma vez, criar um som original e de qualidade”.
Após seis anos de hiato (com um show aqui e outro ali) a banda “volta com o objetivo de fazer o que sempre se propôs: unir mulheres incríveis para ocupar o palco, produzindo um som pesado e visceral, além de transmitir uma mensagem profunda e crítica”. E o show não foi nada menos do que isso. Puro ódio.

Além de shows o festival tem exposições e feirinha (enorme, vão no perfil do festival ver tudo o que rolou, é muita coisa pra colocar aqui) com produções de mulheres e atividades exclusivas para mulheres, nessa edição elas foram a oficina sobre racismo e privilégio branco mediada por Bah Lutz (da banda Bertha Lutz), oficina de manutenção de bike pelo Calangas Cycling Crew (coletivo feminino ciclístico do DF), apresentação de shibari pelo projeto Entre Nós, apresentação da palhaça Kuia. E teve também espaço pra crianças, algo muito importante.

Em conclusão esse foi um fim de semana muito agradável e valeu a pena ter ido pro DF conhecer as bandas, o pessoal e os projetos que a galera de lá tá fazendo.

Esses espaços são muito importantes e é bom demais ver que em todo lugar as pessoas se importam e resistem. Vamo todo mundo se unir.


Resenha

Xavosa – Luta, Substantivo Feminino

O EP da banda XAVOSA, lançado em 2019, conta com 7 faixas que venho devorando nas últimas semanas.

Vamos lá, primeiro de tudo vamos conhecer a banda:

“Xavosa surgiu em Brasília no começo de 2017 e atualmente é composta por Camila Galetti (voz), Rita Lima (bateria), Lorena Lima (guitarra) e Lucas Fuschino (baixo). Com influências como Hole, Distillers e Tsunami Bomb, a banda transita entre o punk e o hardcore melódico, carregado de mensagens politizadas calcadas na militância pessoal e profissional das integrantes. Com poucos mas memoráveis shows ao longo de 2017, Xavosa retornou aos palcos no último mês de março no evento Poções de Bruxaria, ao lado de Anti-Corpos (ícone do hardcore feminista nacional), Hayz, Bloody Mary Una Chica Band (ambas de São Paulo), e a conterrânea Penúria Zero.”

Foto por César Oliveira

Agora que estamos familiarizados, quero exaltar o EP “Luta (s.f)” com o maior prazer do mundo. Com letras que exploram as dificuldades que as mulheres não “padronizadas” são submetidas. Da mãe até a ativista não-binária (e também quando são a mesma pessoa).

Som acelerado e cheio de peso que transborda repudio à sociedade conservadora

É o tipo de banda que conversa com todas as minas. Que ao crescerem têm a escolha de se manter na estagnação mental gerada por anos de condicionamento opressor ou ir para luta (substantivo feminino).

Xavosa mistura Punk e Hardcore Melódico de forma natural com músicas melódicas que podemos dançar e cantar junto até trabalhos mais pesados de pura resistência! Luta, substantivo feminino é a faixa titulo do EP e diz muito sobre a essência da banda. Jovens adultos, idealistas, feministas, não conformistas que pedem por liberdade e exigem respeito! E que tem a audácia de sobreviver e triunfar diante de toda repressão constitucionalizada sem deixar comprometer sua essência.

RIVOTRIL

É o tipo de som que da para se jogar com o ritmo da guitarra enquanto algum amigo berra a letra inteira do seu lado. Esse som conta com a força da bateria sendo precisa e marcante. Memorável também o solo de baixo energizante que predomina durante a música. A letra trata de doenças mentais que causam aqueles dias de crise em que nós simplesmente não conseguimos funcionar. Afinal, quem nunca se salvou de uma crise ansiosa ou depressiva com um bom e velho Rivotril, que atire a primeira pedra. Nos faz lembrar que a luta interna que enfrentamos diariamente é tão desgastante quanto as nossas batalhas do “mundo real”.

CORPOS

Pensa numa mina com raiva, isso resume o vocal dessa faixa fodástika. A banda tem algo a dizer e nós vamos ouvir. É a hora da revolta! Porque afinal de contas pra que servem as bolas senão para serem chutadas?

Corpos é uma canção de afronta contra os padrões. Porque nossos corpos não nos definem e nem nos definirão, a frase “corpos em protesto” não me tira da cabeça o triste fato de que o simples ato de não exibir determinadas características estéticas disseminadas como “atraentes” e existir feliz da forma como se é tornou-se uma espécie de revolução em si.

CIDADE

“Quem dera essa cidade fosse minha… ” Quem dera pudesse ser mulher e voltar para casa a noite sozinha sem temer. Continuar vivendo nesse ambiente é resistir.

Nessa faixa a harmonia da guitarra me faz sorrir toda vez. Gostei do som e, para o meu gosto ele, tem uma batida boa para reflexão. É o tipo de música que eu quero ouvir no busão voltando para casa depois de um dia cansativo e talvez faça eu me sentir melhor. Não é tão agressivo porque é quase como um lamento. Do começo ao fim tem uma batida forte e cheia de emoção.

Pesa ao ultrapassar espaços que não devia
Quebrando como se fosse britadeira 
Incomoda com sua beleza 
Mas assusta quando é vista muito livre 

MARTA

Talvez seja o som “mais grunge” da banda amei. Acho Marta um som tão alegre que eu me imagino cantando junto na chuva, a melodia de todos os instrumentos juntos nesse som é mágico muito bem feito e de uma vibe positiva gigantesca. Estou plena, estou Marta.

Destruindo conceitos, espalhando uma ideologia de resistência, gritando a plenos pulmões por liberdade. Esse caminho é desgastante, longo e ainda não está perto de acabar, mas Marta não se importa e continua firme, forte, feliz e muito debochada cantando para todos os chatos opressores e sem noção (fiscal de cu alheio). Pow, eu só quero ser livre!

BÁSICA

Meu que som é esse? A faixa já começa com uma pegada pesada perfeita para bater um cabelo. Revolta pura, Básica é uma musica agressiva e tem que ser. Fala sobre verdades que precisam ser gritadas. Sobre essa sociedade podre que transforma mulheres livres em escravas das circunstâncias. São obrigadas a sobreviver de forma quase indigna e mesmo assim se mantém em pé. Se liguem:

Suburbana! Subemprego!
Ela tem medo! Cansada! 

Mas sempre sorrindo, sempre cantando, de unhas pintadas 

Suburbana! Subemprego! 
Ela tem medo! Cansada!

CORRENTEZA

Sempre que escuto essa canção me pego imaginando como seria curtir esse som ao vivo… Imagino uma roda bem animada. O vocal se destaca pela sua afinação, Camila solta sua voz trazendo um vocal limpo e bem enunciado que se encaixa perfeitamente com a com a batida melódica trazida pelos outros instrumentos em conjunto. Ouço ela e quero dançar. É uma musica motivacional e elétrica. Ótima para sair e derrubar o sistema. A mensagem principal é: não desista.

LUTA (S.F.)

Feminismo puro. A vida da mulher é uma luta contínua e o título diz tudo. Lugar de mulher é em toda parte, sempre lutando. Som para quebrar tudo. Acelerada pungente que vai direto ao assunto sem frescuras, sem pedir desculpas. Na musica baixo, batera, guitarra e vocal vem com uma dose extra de peso e distorção tornando a faixa que fecha o EP a mais marcante. Puro Punk Rock (pode ser HC não me julguem) arrebatador.

#GirlsToTheFront