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Entrevista / Selo

Entrevista: Mercúrio Música

Mercúrio Música é um selo que faz parte da produtora cultural Mercúrio, de Fortaleza, CE.
Fundado em 2018, o selo conta com bandas e artistas do experimentalismo.

Convidamos Allan Dias, um dos fundadores, pra uma conversa que você lê a seguir.

Não deixe de ouvir a playlist de Allan com artistas do selo e mais!

Pra começar, vocês podem se apresentar?

Meu nome é Allan Dias. Sou músico na banda cearense Maquinas, que fundei junto com meu amigo Roberto Borges, e estou na ativa com ela desde 2013.

Também sou um dos responsáveis pelo selo Mercúrio Música, dedicado a trazer alguns dos ótimos artistas de Fortaleza e do Ceará, mas com sonoridades que acreditamos ter um pé mais no experimentalismo e propostas artísticas mais únicas.

Como surgiu a Mercúrio Música?

Vale dizer que o selo Mercúrio Música é apenas um braço da produtora cearense Mercúrio, que já existe na cidade tempos antes do próprio selo.

Eu e meu amigo e parceiro Lenildo Gomes montamos o selo depois de vermos que a parceria de produção e consultoria com a banda Maquinas havia tido um ótimo sucesso: conseguimos trabalhar juntos para escrever bons editais de financiamento de turnês e outras questões da banda, além de a consultoria nos ajudar a sermos mais profissionais com os processos burocráticos que há por trás de uma banda.

Depois de um tempo vimos que poderíamos aplicar essa parceria com outras bandas que vimos que tinham potencial, mas poderiam precisar de ajuda da mesma forma que o Maquinas precisou. E assim criamos o selo Mercúrio Música em 2018.

Esse ano, infelizmente, o Lenildo teve que deixar o trabalho no selo por assumir um cargo que iria lhe tomar muito tempo e não teria como se dedicar ao selo, ficando atualmente eu e a Ravena Monte, amiga e parceria de anos para continuarmos os trabalhos da Mercúrio Música.

Pensando no mundo antes do covid, como é a cena em Fortaleza?

Eu creio que o cenário musical underground de Fortaleza, pelo menos nos anos recentes, nunca foi marcado por um determinado estilo de som. É uma cidade muito plural, com diversos movimentos de cenas musicais acontecendo ao longo dos anos.

A grande questão é que, por algum motivo, muitas bandas e artistas não conseguem sequer uma projeção modesta no país e até mesmo na própria cidade e eu acho isso uma pena, pois realmente acredito que Fortaleza talvez esteja fazendo o melhor da música atual no cenário alternativo.

Quando você vê que de uns cinco anos para cá Fortaleza viu artistas como Mateus Fazeno Rock, Clau Aniz, Mumutante, Glamourings, Damn Youth, Jack The Joker, Arquelano Jangada Pirata, Dronedeus e outros nomes ganhando destaque nacionalmente, você também nota que só esses nomes passam por diversos estilos musicais, do jazz ao thrash metal.

Existem diversas bolhas musicais em Fortaleza, umas com mais presença que outras, mas no geral, é como se estivessem disputando os mesmos espaços até então.

Com a pandemia fica difícil olhar para o amanhã, mas vejo que muito dos artistas estão ativos e criando, o que me deixa muito empolgado para ver o que vai surgir de música nova aqui na cidade.

O mesmo não se pode dizer dos espaços de shows que estão aos poucos se acabando em dívidas e tendo que fechar as portas. Só o pós-pandemia pode dizer como vamos nos articular nos poucos espaços que restarão na cidade.

Vocês podem falar sobre as bandas do selo num geral? Como foi se formando o cast ou o que faz uma banda entrar pra Mercúrio?

Nós basicamente tentamos trabalhar com algumas bandas que víamos que tinham potencial, possuíam uma sonoridade com piso no experimentalismo e acreditávamos que poderíamos contribuir para melhor promover o trabalho desses artistas.

Nosso primeiro álbum lançado foi o segundo disco do grupo instrumental Astronauta Marinho, “Perspecta” (2018), até hoje um dos meus álbuns favoritos de bandas de Fortaleza.

Com o tempo fomos nos aliando a outros artistas que estavam surgindo e lançamos o primeiro álbum da Clau Aniz, “Filha de Mil Mulheres”, que foi um destaque internacional impressionante, saindo inclusive na lista de melhores álbuns de música experimental da PopMatters de 2018.

A partir daí fomos trabalhando com algumas bandas ocasionalmente, atualmente nosso cast é composto por Maquinas, Clau Aniz, Vacilant, Dronedeus, Viramundo, OUSE e Jangada Pirata.

Também já lançamentos materiais de bandas como Terceiro Olho de Marte, Indigo Mood, O Jardim das Horas, Missjane, George Belasco & O Cão Andaluz, Dani de Azevedo, entre outros.

Vocês não trabalham só com lançamentos, né? Vocês podem falar sobre outros projetos do selo?

Como a Mercúrio Música é apenas uma parte da produtora, temos muitos outros projetos que realizamos fora do escopo musical. Atualmente a Mercúrio está em parceria com outras produtoras da cidade realizando diversos projetos em várias áreas culturais, nas quais vocês conseguem acompanhar via redes sociais da Mercúrio.

Na área musical, também realizamos o festival anual Barulhinho, composto por bandas do selo e outros artistas locais e nacionais. Com a pandemia, obviamente, o festival se encontra parado, mas temos muitas ideias que queremos aplicar no futuro para fazer a marca continuar a crescer.

Realizamos também a “Sessão Mercúrio”, um registro audiovisual ao vivo com alguns dos artistas do selo e que se encontram em nossa página do YouTube.

Já lançamos sessões das bandas Vacilant, Clau Aniz e Dronedeus, além de também atuarmos no suporte da sessão ao vivo de Maquinas, “O Cão de Toda Noite Ao Vivo”, lançado no começo desse ano via Edital Aldir Blanc.

Últimas considerações? Algum recado?

Convido todos a escutarem não apenas a música que lançamos na Mercúrio Música, mas descobrir os diversos artistas e bandas que o Ceará tem a oferecer. Somos um estado com muita música boa para se descobrir e acredito que teremos um maior reconhecimento no futuro.

Espero muito que esses tempos de pandemia passem logo, pois temos muitos planos e projetos grandes que queremos realizar com os artistas da cidade. Até lá, seguimos com os lançamentos do selo e pensando em ideias a mil!

Obrigado a todos pelo espaço!

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevista

Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso.

Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo.

A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal.

Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018.

Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições.

Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos.

Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado.

Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha!

E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso.

Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado.

A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos.

A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi.

O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha!

O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz.
Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum.

Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal.

Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre.

Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai.

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro.

Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão.

Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!

Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos.

É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”.

Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico.

A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha.

Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto.

São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza, mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”.

Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos.

Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país, mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.