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Entrevistas

Vacilant – Tempo Bravo

Lançado em 27 de agosto, Tempo Bravo é o segundo álbum da banda Vacilant. A banda conta com membros de outros projetos da cena alternativa do Ceará: Yuri Costa (Máquinas, Clau Aniz), Clau Aniz, Felipe Couto (Astronauta Marinho), Tuan Fernandes (Chinfrapala) e Tais Monteiro compõem o conjunto.

A união de grandes artistas acontece também no álbum visual dirigido pelos integrantes Taís Monteiro e Tuan Fernandes. Foram convidades Amorfas e insiraseunomeaqui para a produção dos clipes de Serviços Essenciais e Sopa de Ossada, respectivamente. Tanta gente boa junta só podia dar em uma viagem incrível né? Tempo Bravo é um deleite tanto para os ouvidos quantos para os olhos.

O lançamento é do selo Mercúrio Música, que possui entre seus destaques o álbum O Cão de Toda Noite do Máquinas, já conhecido de quem acompanha nossas entrevistas. A produção e mixagem é assinada pela própria banda. Klaus Sena assina a masterização. A capa, contra capa e encarte contam com fotografia de Tais Monteiro e edição de Johann Freitas.

O álbum que viaja pela experimentação e mistura do jazz, hyperpop, ritmos brasileiros e rock é fruto de uma residência artística na Escola de Artes do Porto de Iracema.

Curioso, né? Para entender mais de Tempo Bravo chamamos Taís Monteiro e Yuri Costa para uma conversa sobre o processo de criação do álbum. Confira:

A banda é formada por nomes já conhecidos da música alternativa cearense, né? Se não me engano, exceto pela Tais Monteiro, todos os demais integrantes já tocam em alguma outra banda. Como aconteceu esse primeiro encontro de artistas? E como foi mesclar as influências de cada um?

Tais Monteiro: Bom, a Vacilant começa em 2017 e é primeiramente idealizada por Yuri Costa e eu, que crio as imagens e vídeos. A ideia era trazer nas apresentações e nas participações especiais, amigos músicos e artistas visuais de Fortaleza. Aos poucos, Clau, Felipe e Tuan, que participavam em apresentações, foram se aproximando mais ainda. Yuri, por exemplo, está na formação da banda de Clau Aniz; eu fiz a capa do álbum Filha de Mil Mulheres (2018) e fiz os clipes de Clau Aniz também junto a Tuan, nós dois dividimos a direção de fotografia de Uru Iuá, videoclipe de 2019 de clau aniz, entre outras coisas que fizemos de audiovisual juntos. Já Felipe Couto, já era amigo próximo de todos nós e aos poucos, nos shows e nos ensaios, fomos nos tornando um grupo. De certa forma, já nos encontrávamos em outros espaços e criamos tanta coisa juntos em outros projetos que a Vacilant se torna um lugar de experimentações.

O álbum foi fruto de uma residência artística na Escola de Artes do Porto Iracema com a tutoria da multiartista Maria Beraldo, certo? Fale um pouco de como foi essa experiência.

Tais: O Porto Iracema é uma experiência única. No momento de isolamento social devido à pandemia de Covid-19, ter a Vacilant como um dos projetos escolhidos para o laboratório de música foi essencial para continuarmos criando. A princípio, intentávamos criar um espetáculo, um show, pensar no palco. Aos poucos, fomos percebendo que ainda não conseguiríamos dar conta disso nesse momento. O laboratório, coordenado por Mona Gadelha, foi compreensivo com a mudança da proposta inicial e embarcou na nova proposta, do vídeo-álbum. A tutoria com Maria Beraldo, apesar de ter sido feita toda a distância, nos trouxe outra perspectiva de timbres e de estrutura das músicas.

Maria Beraldo acompanhou o processo por e-mail e chamadas de vídeo, viu os vídeos durante o processo de montagem, conversamos sobre as imagens e os conceitos sobre tempo que perpassam o álbum também. As tutorias propostas pelo Porto Iracema caminham neste propósito: aproximação, troca de experiências, um olhar sobre o trabalho.

Fotos por Tais Monteiro

A gente nota toda uma mistura de sons no álbum, indo do jazz ao eletrônico, bastante experimentação. Como foi o processo de composição?

Yuri Costa: Buscamos sempre levar as composições para lugares menos reconhecíveis e previsíveis. Quando notamos que está muito parecido com algum gênero, tentamos levar os arranjos para outros lugares. Ao mesmo tempo, naturalmente todos esses gêneros se entrelaçam pelas diversas influências que todos nós temos. Todos nós gostamos de jazz, rock, samba e MPB, mas sabemos que a Vacilant é música eletrônica. Então, a partir dessa perspectiva vamos colocando essas influências dentro desta estética proposta. O caráter experimental do grupo também contribuí para essa mistura, já que nossa pesquisa parte de um lugar onde não existe compromissos com formas fechadas, estamos sempre procurando novas maneiras de produzir.

Há inclusive um cover de “Minha Imagem Roubada” do Cidadão Instigado. O que motivou a escolha dessa música?

Tais: Cidadão Instigado está presente na memória afetiva de todos os membros da Vacilant. Os shows, os álbuns. Minha Imagem Roubada foi lançada em 2002 e todos nós sabíamos cantar a música. O Catatau é um artista muito importante para nossas obras. A ideia de gravar um cover de Cidadão já era uma conversa que acontecia há um tempo e quando essa música foi proposta por alguém (não lembro ao certo quem), todos topamos de cara. Inclusive, é a única música do álbum que contém as vozes de todos os integrantes (gravamos cada um três vozes diferentes, talvez no desejo de estar no meio de um show do Cidadão).

Além desse fator da memória que dialoga diretamente com o tema do tempo que perpassa o álbum, conversa diretamente com as ideias que temos sobre imagem (na época de criação do vídeo-álbum, conversamos sobre dois textos importantes para o nosso processo criativo: Em Defesa da Imagem Pobre da Hito Stereyel e Por um Cinema Imperfeito de Juan García Espinosa).

Vamos falar do álbum visual agora. O release diz que o filme foi dirigido por Tais Monteiro e Tuan Fernandes. As músicas foram feitas já pensando no filme e vice versa? Como surgiu o filme?

Tais: Há um tempo, Tuan e eu já pesquisávamos e pirávamos em projeções, em usar imagens de arquivo de internet, buscar transformar nossas próprias imagens de arquivo, os destroços da produção audiovisual, nos divertir de alguma forma com essa tormenta de imagens disponíveis. Usamos ao nosso favor a materialidade de pensar dispositivos diferentes e suportes múltiplos como busca de uma memória em comum. Por exemplo: em Sangradouro são imagens do açude de Orós (CE) sendo inaugurado em 1964, disponível no YouTube e tem imagens de desenhos do Tuan também; e em Minha Imagem Roubada, são vídeos de baile em várias cidades nordestinas da década de 1990 e 2000 que estão disponíveis também no YouTube; em Corredeira, projetamos nas falésias em Icapuí (CE) cenas de filmes que marcam nossa memória e assim criamos um outro tempo dentro do tempo na textura milenar das falésias.

Durante as apresentações antes do isolamento por conta da Covid-19, já trabalhávamos também com uma pesquisa de luz e laser que trouxemos para o vídeo e para as fotos. E desde o primeiro EP, temos um “ser” que aparece nas fotografias, mas não nos shows. Desta vez, ele está em movimento, nos introduzindo suas memórias, seu caminho no início do vídeo, seu tempo outro do que estamos acostumados a experimentar como seres humanos.

As músicas já vinham sendo trabalhadas anteriormente. A Vacilant tem um processo de música que é constante e não para um trabalho específico, até o momento que é decidido criar um álbum. A forma do vídeo-álbum é que foi conjunta, de pensar ordem e caminho de escuta e visualidade, qual música vem primeiro, de que maneira a gente mostra na imagem o que queremos mostrar… Isso, foi pensado junto.

Como foram decididas as participações dos artistas convidados no filme (AMORFAS e insiraseunomeaqui)?

Tais: Ambas participações foram incríveis e imprescindíveis para o vídeo-álbum. AMORFAS tinha enviado um trabalho de colagem para uma revista de fotografia de arte nordestina na qual eu fui editora e curadora, a revista NERVA. No momento que vi a arte de AMORFAS, enviei para todos da Vacilant e concordamos no convite imediatamente.

insiraseunomeaqui já tinha trabalhado anteriormente com Felipe Couto e já conhecíamos o seu trabalho com cinema 3D e modelagem. Com o convite feito, nos reunimos, mostramos as duas músicas, e es artistes decidiram de que maneira fariam, a ordem e a maneira como criariam.

Fizemos reuniões semanais somente para acompanhar processo ou sanar dúvidas, mas de qualquer forma, o trabalho de AMORFAS e insiraseunomeaqui são maduros e firmes, quase não teve modificação do que foi proposto por elus. Para nós, da Vacilant, foi um encontro alargador de significado das músicas.

É interessante um álbum musical que também é um trabalho acadêmico. Como vocês enxergam essa conexão entre esses dois mundos?

Tais: Acho que ainda não é um trabalho acadêmico hahaha. Tempo Bravo (2021) é um vídeo-álbum apenas ainda. Em breve, vai ser um show e quem sabe uma experiência imersiva, pode ser que vire outra coisa depois. Tempo Bravo (2021) ainda está em processo e isso é interessante, talvez pelas pesquisas que fizemos para criar, influenciados pelo que lemos e o que conversamos sobre, não é possível fechar um trabalho assim. Ele vai ser sempre mutante.

Fotos por Tais Monteiro

Tempo Bravo é um álbum para ser tanto escutado quando assistido, né? O que vocês acharam dessa experiência de ter um álbum visual? O que isso diz sobre o ato de ouvir e fazer música atualmente?

Tais: Desde o início, a Vacilant é uma proposta de conversa entre som e imagem e, pela primeira vez, conseguimos criar um vídeo para o álbum inteiro. O desejo de criar um álbum visual sempre esteve latente em todos os outros momentos anteriores da Vacilant, o que acontecia era que não tínhamos tempo ou estrutura para criar da maneira que queríamos.

Acho que faz algumas décadas que a imagem e o som trilham espaços comuns e assim, projetam experiências conjuntas. Talvez, nos últimos anos, por conta dos aportes tecnológicos, os processos entre linguagens estejam mais diluídos e as barreiras que dividiam as experiências sensoriais não existam mais como antes. É possível enxergar projetos em que luz, imagem, vídeo, música, cheiro e presentificação estejam em uma mesma ideia e sejam criadas para serem experienciadas juntas, o que não significa que, cada linguagem, alcança a nossa percepção de uma maneira específica.

E por fim, quais são os planos da banda para o futuro?

Tais: Nesse momento, estamos ansiosos com uma apresentação presencial. Elaborando algo ao vivo. Pirando com essa possibilidade de trazer algo do vídeo para o show, de qual maneira, de que forma, como fazer, como não fazer. Programar iluminação, estudando isso. Estamos também, nos encontrando com muita gente de forma online ainda vendo essas possibilidades, a instigação tá grande. Pensando em turnê, pensando em prensagem física de k7 que é um desejo, instalações sonoras também é outro, um monte de coisa. E continuar fazendo!

Ouça Vacilant no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevistas / Selos

Entrevista: Mercúrio Música

Mercúrio Música é um selo que faz parte da produtora cultural Mercúrio, de Fortaleza, CE.
Fundado em 2018, o selo conta com bandas e artistas do experimentalismo.

Convidamos Allan Dias, um dos fundadores, pra uma conversa que você lê a seguir.

Não deixe de ouvir a playlist de Allan com artistas do selo e mais!

Pra começar, vocês podem se apresentar?

Meu nome é Allan Dias. Sou músico na banda cearense Maquinas, que fundei junto com meu amigo Roberto Borges, e estou na ativa com ela desde 2013.

Também sou um dos responsáveis pelo selo Mercúrio Música, dedicado a trazer alguns dos ótimos artistas de Fortaleza e do Ceará, mas com sonoridades que acreditamos ter um pé mais no experimentalismo e propostas artísticas mais únicas.

Como surgiu a Mercúrio Música?

Vale dizer que o selo Mercúrio Música é apenas um braço da produtora cearense Mercúrio, que já existe na cidade tempos antes do próprio selo.

Eu e meu amigo e parceiro Lenildo Gomes montamos o selo depois de vermos que a parceria de produção e consultoria com a banda Maquinas havia tido um ótimo sucesso: conseguimos trabalhar juntos para escrever bons editais de financiamento de turnês e outras questões da banda, além de a consultoria nos ajudar a sermos mais profissionais com os processos burocráticos que há por trás de uma banda.

Depois de um tempo vimos que poderíamos aplicar essa parceria com outras bandas que vimos que tinham potencial, mas poderiam precisar de ajuda da mesma forma que o Maquinas precisou. E assim criamos o selo Mercúrio Música em 2018.

Esse ano, infelizmente, o Lenildo teve que deixar o trabalho no selo por assumir um cargo que iria lhe tomar muito tempo e não teria como se dedicar ao selo, ficando atualmente eu e a Ravena Monte, amiga e parceria de anos para continuarmos os trabalhos da Mercúrio Música.

Pensando no mundo antes do covid, como é a cena em Fortaleza?

Eu creio que o cenário musical underground de Fortaleza, pelo menos nos anos recentes, nunca foi marcado por um determinado estilo de som. É uma cidade muito plural, com diversos movimentos de cenas musicais acontecendo ao longo dos anos.

A grande questão é que, por algum motivo, muitas bandas e artistas não conseguem sequer uma projeção modesta no país e até mesmo na própria cidade e eu acho isso uma pena, pois realmente acredito que Fortaleza talvez esteja fazendo o melhor da música atual no cenário alternativo.

Quando você vê que de uns cinco anos para cá Fortaleza viu artistas como Mateus Fazeno Rock, Clau Aniz, Mumutante, Glamourings, Damn Youth, Jack The Joker, Arquelano Jangada Pirata, Dronedeus e outros nomes ganhando destaque nacionalmente, você também nota que só esses nomes passam por diversos estilos musicais, do jazz ao thrash metal.

Existem diversas bolhas musicais em Fortaleza, umas com mais presença que outras, mas no geral, é como se estivessem disputando os mesmos espaços até então.

Com a pandemia fica difícil olhar para o amanhã, mas vejo que muito dos artistas estão ativos e criando, o que me deixa muito empolgado para ver o que vai surgir de música nova aqui na cidade.

O mesmo não se pode dizer dos espaços de shows que estão aos poucos se acabando em dívidas e tendo que fechar as portas. Só o pós-pandemia pode dizer como vamos nos articular nos poucos espaços que restarão na cidade.

Vocês podem falar sobre as bandas do selo num geral? Como foi se formando o cast ou o que faz uma banda entrar pra Mercúrio?

Nós basicamente tentamos trabalhar com algumas bandas que víamos que tinham potencial, possuíam uma sonoridade com piso no experimentalismo e acreditávamos que poderíamos contribuir para melhor promover o trabalho desses artistas.

Nosso primeiro álbum lançado foi o segundo disco do grupo instrumental Astronauta Marinho, “Perspecta” (2018), até hoje um dos meus álbuns favoritos de bandas de Fortaleza.

Com o tempo fomos nos aliando a outros artistas que estavam surgindo e lançamos o primeiro álbum da Clau Aniz, “Filha de Mil Mulheres”, que foi um destaque internacional impressionante, saindo inclusive na lista de melhores álbuns de música experimental da PopMatters de 2018.

A partir daí fomos trabalhando com algumas bandas ocasionalmente, atualmente nosso cast é composto por Maquinas, Clau Aniz, Vacilant, Dronedeus, Viramundo, OUSE e Jangada Pirata.

Também já lançamentos materiais de bandas como Terceiro Olho de Marte, Indigo Mood, O Jardim das Horas, Missjane, George Belasco & O Cão Andaluz, Dani de Azevedo, entre outros.

Vocês não trabalham só com lançamentos, né? Vocês podem falar sobre outros projetos do selo?

Como a Mercúrio Música é apenas uma parte da produtora, temos muitos outros projetos que realizamos fora do escopo musical. Atualmente a Mercúrio está em parceria com outras produtoras da cidade realizando diversos projetos em várias áreas culturais, nas quais vocês conseguem acompanhar via redes sociais da Mercúrio.

Na área musical, também realizamos o festival anual Barulhinho, composto por bandas do selo e outros artistas locais e nacionais. Com a pandemia, obviamente, o festival se encontra parado, mas temos muitas ideias que queremos aplicar no futuro para fazer a marca continuar a crescer.

Realizamos também a “Sessão Mercúrio”, um registro audiovisual ao vivo com alguns dos artistas do selo e que se encontram em nossa página do YouTube.

Já lançamos sessões das bandas Vacilant, Clau Aniz e Dronedeus, além de também atuarmos no suporte da sessão ao vivo de Maquinas, “O Cão de Toda Noite Ao Vivo”, lançado no começo desse ano via Edital Aldir Blanc.

Últimas considerações? Algum recado?

Convido todos a escutarem não apenas a música que lançamos na Mercúrio Música, mas descobrir os diversos artistas e bandas que o Ceará tem a oferecer. Somos um estado com muita música boa para se descobrir e acredito que teremos um maior reconhecimento no futuro.

Espero muito que esses tempos de pandemia passem logo, pois temos muitos planos e projetos grandes que queremos realizar com os artistas da cidade. Até lá, seguimos com os lançamentos do selo e pensando em ideias a mil!

Obrigado a todos pelo espaço!

Ouça a playlist no Deezer, Spotify e não deixe de acompanhar no Bandcamp.


Entrevistas

Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso.

Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo.

A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal.

Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018.

Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições.

Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos.

Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado.

Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha!

E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso.

Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado.

A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos.

A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi.

O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha!

O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz.
Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum.

Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal.

Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre.

Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai.

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro.

Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão.

Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!

Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos.

É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”.

Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico.

A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha.

Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto.

São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza, mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”.

Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos.

Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país, mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.