Bus Ride Notes

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Entrevista

Derrota

Derrota foi formada em Americana, interior de SP, em 2012 e hoje é composta por Leonardo Cucatti (guitarra), Nathalia Motta (guitarra), Bruno Meneghel (guitarra), Eduardo Meneghel (baixo) e Claudio Cestare Jr. (bateria).

A banda é instrumental e eu me atrevo a dizer que o som é quase post-rock. Eu acho difícil descrever uma banda instrumental quando o som não é bem específico. No caso da Derrota a sonoridade é bem melódica e um tanto pesada.

Depois de dois EPs e três singles, em Abril de 2019 a banda lançou seu primeiro disco, “Parece Insuportável”.

A banda já participou de algumas coletâneas, incluindo o primeiro volume da “Discografia Caipirópolis”, composta por bandas do interior de São Paulo e lançada por nós do Bus Ride Notes em Julho de 2020, e, mais recentemente, da “Sangue Preto”, “projeto em parceria com bandas, artistas, fotógrafos e selos independentes com a proposta de combate ao racismo na sociedade em que vivemos”.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Leonardo: Eu e a Natt montamos a banda em 2012, mas na época não era realmente uma banda ainda, era mais a nossa vontade de criar e compor. Diversos amigos tocaram com a gente nesse começo, por isso entre 2012 e 2015 a banda praticamente não existiu, não fizemos muitos shows e nem gravações. De 2015 pra cá é que a banda foi tomando forma com uma formação mais sólida.

Eu acho meio bobo perguntar por que uma banda toca certo gênero musical, mas instrumental é algo que tamos começando a ver mais agora, até um tempo atrás era difícil conhecer mais de uma banda, mesmo no underground. Eu queria perguntar como vocês fizeram essa escolha e como vocês vêem esse cenário específico de projetos instrumentais atualmente.

Leonardo: Eu sempre ouvi muita música instrumental, desde Jazz até bandas como Tortoise e The End of the Ocean, fora o Hurtmold, que era bem próximo da gente, vi um milhão de show deles. E sempre achei muito foda o lance de subir no palco e passar toda emoção e fúria sem dizer uma só palavra. Dessa forma, pra mim, foi muito natural pensar numa banda instrumental. Hoje em dia realmente tem muito mais bandas instrumentais, até mesmo de estilos bem diversificados, festivais somente com bandas instrumentais, o que é muito legal. Por exemplo, o festival “A Música Muda” que tem esse nome ambíguo muito interessante.

Eduardo: Antes de entrar no Derrota eu tinha assistido alguns shows e me chamou muita atenção como o som era expressivo. Ao mesmo tempo que cada guitarra está tocando um riff/tema diferente, elas se complementam e acho que isso deixa o som mais expressivo. Além disso, os efeitos que usamos também ajudam a passar a mensagem da música, mesmo sem dizer nada.

Natt: A gente nem pensou muito em ser instrumental acho, era uma ideia de brincadeira por que a gente falava que vocalista enchia muito o saco, daí ficou instrumental e acostumamos assim haha. Ah, e inclusive, festivais de música instrumental, nos notem! Nunca tocamos em nenhum que eu me lembre haha.

Vocês têm alguma influência específica pra esse tipo de som ou foi o normal de toda banda: cada um chega com a sua bagagem e vamos ver o que acontece?

Leonardo: Eu falei basicamente as minhas influências na resposta anterior, mas com certeza a bagagem musical de cada um e as emoções que passamos no dia a dia são nossa maior influência.

Natt: Eu nem ouço música instrumental, no máximo um Hurtmold as vezes haha. Cada um carrega sua bagagem de desgostos na vida, isso é o que mais conta no Derrota, acredito.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Parece Insuportável”, por que ele demorou pra sair, né?

Leonardo: Então, esse foi um período complicado hehe. Como falei antes, a banda não tinha uma formação fixa e estabelecida e nessa época foi mais complicado ainda porque a Natt ficou um ano mais ou menos fora da banda, então eu e o Jesse (ex-guitarrista) continuamos compondo, mas não tínhamos baterista e nem baixista. Quando a Natt voltou para a banda e o Eduardo entrou, as músicas tomaram forma e começamos a gravar as prés, mas como ainda não tínhamos baterista ficamos mais um bom tempo empacados com o disco. Quando o Marcel (ex-baterista) entrou na banda é que começamos as gravações pra valer, ele praticamente entrou na banda gravando o disco. Depois ainda demoramos um tempo com mixagem e escolha da capa, tudo isso demorou bastante mesmo.

Natt: É o “Chinese Democracy” do interior haha. Foi demorado, mas é um dos discos mais lindos que já gravamos. O bom é que saiu bonito, imagina se demorasse e ainda saísse uma merda? Aí seria o fim…

Vocês podem falar um pouco sobre o clipe de Jus De Pomme?

Eduardo: O clipe reforçou a ideia de que uma música instrumental pode passar uma ideia bem clara. Quem vê o clipe consegue entender a história e a mensagem da música.

Natt: Esse clipe é meu favorito, ele foi gravado aqui em Americana mesmo, com nosso baixo orçamento, e muita gente amiga participando. Foi emocionante do começo ao fim a gravação desse clipe. Sou eternamente grata a cada um que se dispôs a ajudar a gente nessa ideia.

Leonardo: Foram dois dias intensos de gravação e que deixaram saudade! No primeiro dia gravamos em São Paulo com as skatistas, fizemos algumas cenas na pista do chuvisco, na rua e principalmente no minhocão. No dia seguinte gravamos com a banda e os manifestantes aqui em Americana, numa rua meio abandonada, bem o cenário caótico que pensamos mesmo. Tínhamos a ideia de colocar fogo ao redor da banda e deu tudo certo! Pensamos muito em como fazer isso de forma segura. Quase tivemos um pequeno acidente quando, sem querer, um dos assistentes da produção deixou respingar álcool na bateria, tivemos que parar tudo, limpar. Depois disso ainda ameaçou chover e começamos a desmontar o equipamento. Foi um momento meio tenso, porque já estávamos todes ali pra começar a gravação, mas não podia chover. No final não choveu, montamos tudo de novo, o que nos atrasou mais um pouco, mas de tudo certo e o resultado ficou incrível!

Vocês podem falar sobre a música que vocês gravaram pro Projeto Sangue Preto? Alguns integrantes da Derrota também produziram a coletânea, não foi?

Leonardo: Sim, eu estive a frente da produção da coletânea. Depois da onda de protestos contra o racismo por conta do assassinato do George Floyd nos EUA eu comecei a pensar o que nós, enquanto banda no Brasil, poderíamos fazer; e com essa ideia na cabeça eu fui conversando com outras pessoas de bandas como o Anderson do Desobeça, o Xandão do Crexpo, a Josie do Hayz e também o Clayton do selo A Saga e o Canti do selo Caustic Recordings, e a ideia foi tomando forma, criar essa coletânea contra o racismo e contra a violência e opressão policial. Fui conversando e convidando outras bandas e artistas do Brasil todo, no final somamos 25 bandas e 11 artistas que ilustraram o encarte. Todo o processo de produção e criação da coletânea foi discutido entre as bandas para que chegássemos num acordo desde a capa até as opções de como e quando lançar. Saiu em CD pela união dos selos Läjä Records, Caustic Recordings, A Saga, América do Sul, Inside A5 e de todas as bandas envolvidas. Quem se interessar pode comprar uma cópia, que acompanha um lindo encarte em formato de livrinho A5, diretamente com as bandas.

Americana é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

Natt: A cena daqui sempre foi muito intensa, tivemos vários festivais fodas, Americana era referência no role underground, hoje em dia um pouco menos. Passamos por uma fase da qual parecia que as pessoas não gostavam mais de sair de casa pra ver bandas tocarem, essa era minha percepção uns anos atrás. De repente voltou o interesse, aqui mesmo no HUP (estúdio da qual nossos guitarrista e baterista fazem parte) sempre aconteciam rolês incríveis, e estamos com saudades disso.

Leonardo: Realmente Americana já teve shows e festivais memoráveis na música independente. Sempre partindo do faça você mesmo, as bandas e amigos sempre se mobilizaram pra fazer a coisa acontecer.

Últimas considerações? Algum recado?

Leonardo:Agradecemos demais o espaço e a conversa! Há alguns meses vocês lançaram uma coletânea com uma música nova, só podemos agradecer mesmo, de coração, pelo apoio e pelo incentivo a diversas bandas independentes. A cena independente só acontece com nossa força unida! Acompanhem a gente nas redes sociais, Bandcamp… e outras bandas também!

“Parece Insuportável” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Playlist / Resenha

Singles de Setembro

Hoje vamos publicar algo diferente do que estamos acostumados, mais uma das mutações do nosso blog/site/ainda não sei como chamar.

Nessa semana chegaram até nós alguns singles e resolvemos vir aqui falar deles. E primeiramente tamos felizes de mostrar algumas músicas de estreia.

Pata “Casa de Gelo”

Se você acompanha o Bus Ride Notes provavelmente já conhece a Pata, além de estar em algumas das nossas playlists, publicamos uma pequena resenha do primeiro disco da banda, “Shit & Blood”.

Nessa quarentena eles resolveram se aventurar com singles gravados e produzidos em casa, numa “série de experimentações sem pretensão de definir uma chave sonora para os novos passos, também com a proposta de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos”.

Os já lançados “blsnr pnt mrch” e “Casa de Gelo” são em maior parte eletrônica e bem diferentes da banda que toca um rock que eu chamo de grunge.

“Casa de Gelo” tem uma melodia calma e uma letra tristinha que pra muitos é sinônimo da quarentena, mas ela na verdade foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano.

Ela tem a participação de Sentidor (também responsável pela mixagem e masterização) nos beats e ambiências eletrônicas e foi lançada pela Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records.

A capa ficou por conta de Hanna Halm e também foi lançado um lyric video, produzido por Lúcia Vulcano.

O próximo single previsto é um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

Tigre Robô “Desconforto”

Formada no final de 2018 em Brasília por Isabela Fernandes (guitarra, teclados, voz), Junio Silva (baixo, teclados, voz) e Rafael Lamim (bateria), Tigre Robô acaba de lançar seu primeiro single, “Desconforto”. “Uma música sobre esperar pelas coisas acontecerem quando o tempo não está ao seu lado”.

A banda está gravando seu primeiro álbum e pretende lançar mais um single até o mês de Dezembro.

Eles também participaram da nossa matéria sobre gravações caseiras durante essa quarentena.

A arte de “Desconforto” foi feita pela própria Isabela Fernandes.

Tropikaos Chaga “As Ruas Vão Queimar”

“As Ruas Vão Queimar” é o primeiro single do duo Samuel Kircher (voz, guitarra, baixo) e Érico Munari (bateria), que foi gravado já durante a quarentena de 2020 (será que ao nos referir à quarentena vamos ter que especificar o ano? Espero que não).

A música foi lançada já tem um tempinho, mas o lyric video (editado pelo próprio Érico Munari) acabou de sair.

“As ruas, os dias, as notícias do cotidiano em um país problemático como o Brasil, compõem as letras e o barulho da banda”, ou seja, aquele punk rock rasgado cheio de distorção que a gente gosta.

Kebrada HC “Unides Pelo Ódio”

“Banda punk/hardcore antifa femininja diretamente da periferia do ABC”, formada por Letícia Souza (voz), Juliana Moreira (guitarra) e Victória da Cunha (baixo) em 2019.

Apesar de ser uma banda nova e essa ser a primeira música que elas lançam oficialmente, a Kebrada HC já é um tanto conhecida e é bem ativa.

“Unides Pelo Ódio” foi lançada junto de um video com trechos de shows em comemoração ao aniversário de um ano de banda.

O amigue e baterista Tobias de Teipó participou da gravação do single, mas a banda ainda está a procura de um baterista.

Ano passado fizemos uma entrevista com a vocalista, Letícia, onde ela explica porque se afastou do “rolê punk” e começou a frequentar a nova “cena” paralela que tá rolando em São Paulo. Ver isso tomando uma forma ainda maior através de mais uma banda faz uma lágrima escorrer no meu rosto.


Resenha

Split Rosa Idiota + Please Come July

Dezembro de 2019, o fim de uma década. Parece que faz muito tempo né? Na verdade, nem é tanto tempo assim, tá logo ali. E o que aconteceu em dezembro daquele ano? Bom, se você gosta de hardcore, deveria saber que foi o mês em que a Bahia e o Rio de Janeiro fizeram conexão no ótimo Split com Rosa Idiota e Please Come July!

Com oito músicas no total, quatro pra cada, o split foi lançado pela High Fidelity Stereo, em parceria com a Tropical Death, Estopim e Eletric Funeral.

Pra quem gosta de detalhes técnicos, aqui vai o primeiro destaque desse álbum: a qualidade do som. Ambas as bandas foram muito bem gravadas, você consegue ouvir cada detalhe do som direitinho. E os responsáveis por essa produção de primeira estão aqui: o lado do Rosa Idiota foi gravado, mixado e masterizado por Dill Pereira no estúdio Ruído Rosa, em Salvador – BA; Já o lado do Please Come July, ficou por conta de Cris, no estúdio La Cueva, Rio de Janeiro – RJ.

Não tem pra onde fugir da influência do hardcore norte americano dos anos 80 e 90 aqui. Quem abre o Split é “Don’t Disappear”, do Rosa Idiota. Seguida de “Behind Bars”, “Aerophobia” e “The Stars Don’t Care About Us”. As músicas são bem coesas, funcionando muito bem juntas. A minha favorita dessa primeira parte é “Aerophobia”, música pra ficar no repeat. O refrão emociona com “Let’s make a deal and start again. I promise you, you promise me. You lose your fear of flying. Then I lose my fear of falling”.

Esse é o terceiro lançamento da banda, sucedendo Somatic (2018) e Circle (2017). A banda formada em 2015, junta veteranos da cena hardcore brasileira em sua formação: Marcelo Adam (vocal, guitarra), Diego Dill (vocal e guitarra), Fabiano Passos (baixo) e Rodrigo Gagliano (bateria).

Com a deixa da primeira parte do álbum, o Please Come July chega e não deixa a desejar. Lembrando o som do Hüsker Dü, a banda entrega “Running”, “Let’s Start Today”, “Inside” e “Figure Out” sem tirar o pé do acelerador. Acho que vale destacar “Let’s Start Today”, com um final que dá aquela vontade de subir no palco e se jogar em cima de desconhecidos (há quanto tempo isso não acontece, hein?). “Let’s start today. This is something. This feels so right. Let’s start today” é pra cantar junto.

Please Come July, assim como o Rosa Idiota, é uma banda relativamente nova. O grupo foi formado em 2016, no Rio de Janeiro e conta com Marcus Menezes (guitarra, voz), Marcelo Pineschi (baixo) e Gabriel Isidoro (baixo). O álbum que antecede o slipt, é o Life’s Puzzle (2016).

A arte do slipt é assinada por Leo Villas e, diga-se de passagem, é uma belíssima arte. Se houver uma lançamento da versão física desse álbum, essa capa com certeza vai ser uma daquelas que dá gosto de ver na estante.

Rosa Idiota + Please Come July está disponível no Spotify, Deezer, Bandcamp, Youtube, Apple Music e Google Play. Como vocês já devem saber: ouçam, compartilhem com amigos, apoiem as bandas independentes e façam seus próprios rolês.


Resenha

Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins

Eugênio é uma banda indie formada em 2017 em Sorocaba e hoje composta por Sthé Caroline, Murilo Shoji, Lud Marolli e Paulo Lins.

“Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins”, lançado em Junho de 2020, é o segundo EP de uma trilogia sobre dor, perda e superação.

O primeiro EP, “Como Diria Eugênio: Um Pouquinho de Nada”, foi lançado em 2018 quando a banda era um trio e foi regravado e relançado em 2019, depois da entrada da baixista Lud.

Quando há uma mudança de integrantes, a mudança na sonoridade da banda nem sempre é óbvia, mas aqui a gente consegue ver uma grande diferença, não só no baixo que ficou mais “visível”, mas em todo o resto. O som do novo EP é mais encorpado, enche todo o ambiente e não deixa espaço pra distrações. Se isso foi planejado ou não, resta perguntar à banda.

Nesse EP eles focaram no instrumental e eu usei indie pra descrever o som dele, mas dentro disso cabe um mundo de coisas. Algumas vezes a sonoridade me faz pensar no rock ‘n’ roll psicodélico (também focado no instrumental).

Já no começo vemos a lenta “Sentir” seguida da mais animada do EP, “O Homem Que Não Respira”, que vai deixar o refrão grudado na sua cabeça.

“Foi Mal” foi lançada como single em Maio, junto de seu clipe (dirigido e editado por Murilo Shoji), gravado já durante a quarentena.

“Curta Estadia” foi a segunda música a ganhar clipe, também lançada como single antes do lançamento do EP. O clipe foi dirigido por Eduardo Guerra e produzido em parceria entre Egrégora Filmes e Bonobo Produções.

“Um dos principais fatores enfrentados durante o reconhecimento de uma grande dor é ter de lidar com a ideia da solidão. Por vezes, após percebermos que somos nosso próprio inimigo, nos direcionamos para o perigoso caminho que indica que devemos nos odiar. Odiar nossa mente; nosso corpo e nossa história. ‘Curta Estadia’ reflete o momento em que Eugênio se olha diante de um espelho invisível e entende que, acima de seu próprio inimigo, é também a sua maior companhia”.

Segundo a banda, “A ideia é mostrar nesta trilogia o ciclo de sentimentos. O primeiro trabalho foca em tratar a dor em todos os seus formatos, seja emocional, física, passional, cognitiva. O segundo trata do reconhecimento dessa dor e o conflito entre a aceitação e o plano de fuga. E o terceiro trata da superação, seja ela com ou sem final feliz”.

“Como Diria Eugênio: Longa História, Breves Fins” está disponível nas redes de stream.


Discografia Caipirópolis / Playlist

Discografia Caipirópolis Volume 1

Não é novidade pra quem acompanha música underground que de uns três anos pra cá o número de bandas triplicou ou mais.

Nós do Bus Ride Notes gostamos de sair do eixo SP-Rio e juntando isso com nosso gosto por fazer planilhas, um dia resolvemos fazer uma lista de bandas do interior. Como moramos em São Paulo e conhecemos muita coisa, começamos por aqui. Essa lista deu mais de 300 bandas na ativa (até onde sabemos) e como várias delas não têm músicas nas redes de stream pra fazermos uma playlist, decidimos fazer uma coletânea.

Assim nasceu a Discografia Caipirópolis pra mostrar que tem muita coisa boa sendo feita fora da capital. O nome, que é uma brincadeira de amigos daqui (chamamos a região de caipirópolis), foi o título temporário da lista, mas acabou ficando.
Colocamos bandas do litoral também porque ninguém sabe se litoral é interior ou não, é uma questão de opinião.

Sem saber se dividiríamos por estilo, região ou etc, nesse primeiro volume decidimos colocar apenas bandas com mulheres na formação porque né? 2020 e essa conversa ainda dá muito pano pra manga.

Então tem música pra todo gosto aqui: punk, crust, indie, synthpop, stoner, hard rock, folk, instrumental brisinha, etc. É pouco provável que você goste de tudo, mas é muito provável que você goste de mais da metade.

Como a lista é grande, terão outros volumes, seja por coletânea, playlist, streamcast ou outro formato que ainda não conhecemos.
E nós gostaríamos de incentivar o pessoal de outros lugares a fazer o mesmo e mandar pra gente. Primeiro porque queremos ouvir coisas novas e segundo porque não conhecemos muita coisa dos outros interiores.

Abaixo você lê um pouco sobre cada banda que faz parte desse primeiro volume:

Amphères (Santos)

Amphères é um trio formado em 2016 pelos músicos Jota Amaral (bateria e voz), Paula Martins (baixo e voz) e Thiago Santos (guitarra e voz), que tocam juntos desde 2012 em outras formações. “Transitando entre diversas vertentes do rock alternativo, muitas vezes com nuances psicodélicas, o som da banda é definido por linhas de baixo bem marcadas e baterias vibrantes, que permitem explorar a pungência de guitarras com texturas harmônicas, loops, dissonâncias e ruídos diversos“. A banda já lançou dois EPs (2016 e 2018) e em Abril de 2020 lançaram o álbum “Porto”. “Densa” faz parte do primeiro disco da banda, “Porto”.


Balanopostite (Araraquara)

Banda de goregrind formada em 2018 e hoje com Serginho (guitarra/backing vocal), Mars Martins (vocal, baixo) e X (bateria), eles se preparam pra gravação do primeiro EP e tem duas músicas disponíveis no Bandcamp, “A Indústria Agropecuária Colabora com a Fome Mundial e a Falta de Água” é uma delas.


Blixten (Araraquara)

A banda surgiu no ano de 2013, fundada pela vocalista Kelly Hipólito e hoje com Aron Marmorato (baixo), Miguel Arruda (guitarra) e Larissa Futenma (bateria). “O objetivo da banda é trazer para o século XXI, o peso, velocidade e melodia que as bandas de Heavy N’ Hard tinham nos anos 80”. Em 2018 eles lançaram o primeiro EP “Stay Heavy”. “Strong As Steel” faz parte do EP “Stay Heavy” (2018).


Cigarros Indios (Araçatuba)

Formada em 2012 e hoje com Ana Lídia (voz), Herivelto Medeiros (baixo), Ricardo Storti (guitarra) e Tico (bateria), Cigarros Indios é um power trio roqueiro comandado por uma voz feminina e apresenta um repertório onde a trilha sonora é o rock, sem qualquer outro adjetivo. Em 2020 lançaram o primeiro EP, “Gravidade”. “Carnaval” foi lançada como single no dia 21 de Fevereiro de 2020.


Clandestinas (Jundiaí)

Formada em 2017 pelas militantes feministas e LGBTQIA+ Alline Lola (guitarra e voz), Camila Godoi (baixo e voz) e Natália Benite (bateria e voz), a banda surge da necessidade de se fazer ser ouvida em seus questionamentos sobre padrões de gênero e sexualidade, utilizando a música como ferramenta de luta, transparecendo e veiculando seu posicionamento questionador tanto em suas canções quanto nas falas, nos corpos e afetos das três musicistas. “Rotina” faz parte do recém lançado primeiro disco da banda, “Clandestinas”.


Crasso Sinestésico (Bom Jesus dos Perdões)

Formada em 2014 por Diego Fernandes (guitarra e vocal) e Sabrina Centonfanti Mori (bateria), o duo já lançou um disco e dois EPs. “Cassandra”, o EP mais recente da banda, foi gravado ao vivo em Fostex no rolo de fita, é cru e sem muitos efeitos. “Encontramos na sonoridade de alguns discos (Coloração Desbotada, Giallos, Hüsker Dü e Sonic Youth) um norte de como gostaríamos que fosse: noise rock, sujo, lo-fi, intenso e verdadeiro”. “Bhaskara” faz parte do EP “Cassandra” (2019).


Dead Parrot (Campinas)

Formada por Mariana Ceriani (vocal), Victor Vianna (guitarra), Matheus Stoshy (baixo) e Bruno Giacomini (bateria), a banda de stoner e hard rock já lançou três EPs, o mais recente, “Strange Times Are Coming”, em 2020. “Strange Times Are Coming” faz parte do novo EP da banda, de mesmo nome.


Derrota (Americana)

Derrota é uma banda de post-rock instrumental, formada em agosto de 2012 por Leonardo Cucatti (guitarra), Nathalia Motta Oliveira (guitarra), Eduardo Camargo (baixo) e Marcel (bateria). Além do primeiro álbum “Parece Insuportável” (2019), a banda já lançou dois EPs e três singles. “Sinestesia” faz parte do EP “XXX” (2018).


Estado Imaginário (Itupeva)

Formada em 2015 por Douglas Valente (vocal), Maurilio Babão (guitarra), Andressa Kaam (baixo) e Marcos Salles Lopes (bateria), a banda tem várias influências do cenário musical, abrangendo também a apreciação literária de grandes nomes da poesia universal como Rimbaud, Chesterton, Pessoa e Neruda. “Nada Pode Ser em Vão” faz parte do EP “Estado Imaginário” (2017).


La Burca (Bauru/Araraquara)

Fundada em 2011 por Amanda Rocha (voz, violão, composição) a banda de post-punk-tropicaos ou post-punklore estreia nova formação em 2020 como trio com o baterista Ed Paolow e o guitarrista Denial Guedes. A banda já lançou dois discos e um EP, “suas influências vão desde o punk DIY, amansando no folk, bebendo no post-punk, regurgitando no grunge e se recompondo nos temas introspectivos instrumentais”. No momento a banda mescla novo repertório cantado em português à releituras sonoras de alguns sons e experimentações libertárias lesbopunk. “Flowers of Romance” faz parte do disco “Kurious Eyes” (2016).


Mar de Lobos (Iperó)

Formada em 2013 e hoje com Kaue Marques (baixo), Judy Rocha (vocal), Bruno Canal (guitarra) e Yuri Naoto (bateria) a banda que se identifica como “algo entre tropical grunge post-hardcore screamo punk suburbano” já lançou um EP e um álbum. “Acenda” faz parte do disco “Criaterra” (2019).


Nada de Novo no Front (São Jose do Rio Preto)

Powertrio formado em 2018 por Rafael Nascimento (guitarra, vocal), Taiane Campos (baixo, vocal) e Caio RPS (bateria). A banda tem algumas músicas que podem ser ouvidas no seu canal do Youtube.


Pinscher Attack (Monte Azul Paulista)

Duo de fastcore formado em novembro de 2018 pelo casal Thaysa Zuccherato (bateria) e Danilo Zuccherato (guitarra e voz). Sua discografia é composta pelas “Canil Sessions” (que você pode assistir no Youtube). Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui. “A Carta” faz parte do EP “Suicida” (2018).


S.E.T.I.  (Campinas)

Duo que pira nos samples, reverbs, eletronika e guitarradas. Uns chamam de dreampop, outros de synthpop. É tudo isso e um pouco mais. Formado em 2012 por Roberta Artiolli (voz e sintetizadores) e Bruno Romani (baixo, guitarra e programação), eles já lançaram dois EPs e um álbum. O grupo tirou seu nome da sigla em inglês para “Search for Extraterrestrial Intelligence” (busca por inteligência extraterrestre), utilizada para projetos e pesquisas sobre a vida fora da Terra. “Popfobia” faz parte do disco “Supersimetria” (2018).


S.U.C. (Sádica Utopia Convergente) (São Carlos)

Formada em 2014 e hoje com Letícia (vocal), Egiliane (baixo), André (guitarra) e Guilherme (bateria) a banda de deathgrind já lançou dois EPs e um split ao vivo com P.S.G (Poluição Sonora Gratuita), gravado no 3º Interior Brutal Noise em Sorocaba em 2017. Depois de um hiato, a banda voltou em 2019 e acaba de lançar seu primeiro álbum, “Cartilha da Dor”, que reúne músicas dos EPs anteriores e novas composições dos atuais integrantes. “Corporation’s Slaves (Work for Death)” está no disco “Cartilha da Dor” (2020).


Spiral Guru (Piracicaba)

Formada em 2013 e hoje com Andrea Ruocco (vocal), Samuel Pedrosa (guitarra), José Ribeiro Jr. (baixo) e Alexandre Garcia (bateria), a banda toca stoner com temáticas voltadas à ficção científica, vida extraterrestre, a psicodelia dos anos 60 e o som vintage e pesado dos anos 70. Eles já lançaram três EPs e um álbum. “Holy Mountain” faz parte do disco “Void” (2019).


Tatuajë DiCarpa (São Jose do Rio Preto)

Banda de powerviolence debochado formada em Maio de 2018 por Júlia (vocal), Vitor (guitarra), Rizzutti (baixo e vocal) e Renan (bateria). Eles já lançaram um disco e um split com a banda Prayana de Vitória, ES. Fizemos uma entrevista com a banda que você pode ler aqui. “Bate em nazi” faz parte do disco “Satisfação Garantida ou Foda-se” (2019).


TØSCA (Campinas)

Recentemente formada e hoje com Alica (baixo) e Fran (guitarra), Tosca é uma banda que mescla punk rock com indie com experimental com post-punk e com mais algumas coisas. Até o momento a banda lançou um EP “Não Repara a Bagunça” (2018) e um single. “Na Cidade Inteira” foi lançada como single em Julho de 2019.


Travelling Wave (Piracicaba)

Duo de synthpop formado por Thiago Altafini (guitarra e voz) e Carol Alleoni (voz e synth) que “faz rock para estados alterados de consciência abusando de climas soturnos e ruidosos construídos por camadas de reverbs, guitarras sujas, sintetizadores, vocais assombrados e loops tribais de bateria”. A banda já lançou dois albuns, um EP e vários singles. “The Strike” foi lançada como single em Abril de 2020.


Untraps (Peruíbe)

Duo de de punk rock vegan straight edge formado em 2017 por Geisxe Paula (guitarra, vocal) e Nelsinho Edge (bateria, vocal) . Em 2018 lançaram o primeiro EP, “Mútua”. Suas letras falam sobre “tomar de volta o controle de nossas vidas, introspecção sobre patriarcado, a vida engolida pelo cinza/cidade, veganismo, luta anticapitalista, inspirando formas práticas de luta e resistência”. “Propaganda Homicida” faz parte do EP “Mútua” (2018).


Vermenoise (Sorocaba)

Trio de grindcore formada em 2009 e hoje com Chris (vocal), Victor (guitarra) e Mauro (bateria). No começo a banda tinha um som indefinido e adicionava integrantes convidados e musica biotecnológica experimental em apresentações únicas e diferentes de uma para outra. Em 2017 aconteceram shows em parceria com o 00projeto: projeto, que resultou no split “201964”, lançado em 2019. Em Março de 2020 a banda lançou seu novo EP “O Outro”. “Epitáfio” foi lançada como single em 2019.


Fizemos playlists com as músicas disponíveis nos streams, mas como faltam várias bandas eu recomendo muito que você ouça no Bandcamp.

Deezer aqui.


Resenha

Pin Ups – Long Time No See

O Pin Ups é quase uma lenda. Aquela banda que a gente escuta e pensa “Como isso não estourou?”. Não existe uma resposta certa pra isso. Mas na história do underground brasileiro, lá estão eles. Desde o primeiro lançamento, “Time Will Burn” de 1990, muita coisa veio e passou, aconteceram diversas mudanças na formação do grupo e eles finalmente entraram em hiato no início dos anos 2000. Eu, pelo menos, não apostaria que o Pin Ups voltaria pra mais um disco. Eles já vinham fazendo alguns shows recentes mas achei que ficaria só nisso, algo como o que rolou com o Ludovic. Porém, com uma belíssima surpresa, eles voltaram. Finalmente.

Homenageando todos os sons que influenciaram a banda e com a participação de diversos amigos convidados, o Pin Ups finalmente está de volta e com um disco feito para ser ouvido bem alto nos fones, sem perder nenhum detalhe. São músicas curtas, mas que expandem muito o leque de variedades do som da banda. Mesmo sendo um disco de retorno, passa longe do gosto de coisa requentada. Aqui o Pin Ups está tão quente quanto na época do “Lee Marvin” (1998).

Eu já quero abrir um parênteses pra deixar claro que sou muito suspeito pra falar dessa banda. Sou bem mais novo que a história do Pin Ups, mas tenho uma paixão enorme pelo trabalho do grupo. Eu quis montar uma banda logo depois de ouvir o “Time Will Burn”. Sabe a sensação de quando a gente tem um estalo ou pancada na cabeça depois de ouvir um determinado disco? Aquela sensação de descobrir algo especial, tipo: “Esse som existe? Aqui??”. Pois é.

Dito isso, qualquer exagero ou afobação minha nessa resenha tem um bom motivo, mas vocês já sabem né: escutem os discos e tirem suas próprias conclusões também. Escrevam suas conclusões, façam algo com elas, por que não?

“Long Time No See” foi lançado em junho de 2019, vinte anos depois do último álbum da banda. O disco saiu pela Midsummer Madness, a casa das guitar bands**, e foi produzido por Adriano Cintra (Ex- CSS) e Zé Antônio Algodal. A mixagem e masterização ficou por conta de Ignácio Sodré. As músicas foram gravadas no Estúdio Aurora, em São Paulo. Quem assina a arte da capa é Laurindo Fernando. A obra é dedicada ao saudoso Kid Vinil, falecido em 2017.

Essa nova reencarnação do Pin Ups traz de volta a Alê Briganti no baixo e vocais; Zé Antônio, único membro original da banda, na guitarra e baixo; Adriano Cintra na guitarra, baixo e farfisa; e Flávio Cavichioli na bateria. E é a bateria do Flávio que nos dá as boas vindas nesse disco.

Com um quê de The Stooges na bateria e no teclado, “You Can Have Anything You Want” abre como primeira faixa. De cara, já chama a atenção os artifícios eletrônicos acompanhando o som. O Pin Ups chegou ao anos 2010. “Tell me now, is this a dream?“, pergunta o refrão. Em dado momento, Zé Antônio entra rasgando com a guitarra para mostrar que não perdeu a mão em todos esses anos. A Amanda Buttler (Ex- Der Baun e atual baixista do Sky Down) aparece aqui para os backing vocals.

“Portraits of Lust”, segunda faixa do álbum, traz um baixo dançante (que até lembra um tanto o som do Fugazi) e a participação de Eliane Testone nos vocais e guitarra. Mesmo esse sendo o álbum mais bem produzido da banda, eles não deixam de lado as distorções e microfonias, o que é ótimo.

“Little Magic” nos primeiros segundos nem parece uma música do Pin Ups começando, sinal da diversidade de influências que compõem “Long Time no See”. Mas os inconfundíveis vocais da Alê Briganti já aparecem cantando “It’s so unbelievable, I guess that’s really special“. Realmente isso é um momento especial, Alê. A faixa conta novamente com Eliane Testone na guitarra.

“Separate Ways” prossegue como a faixa mais Punk do disco até o momento. A faixa trata de separações e o prazer da incerteza. “There is no guarantee, And I am not afraid“, canta Alê.

“Spinning” é o primeiro single do álbum e lembra bastante os sons do álbum “Lee Marvin”, com direito a um solo de violão. Com um vocal bem parecido com os da Kim Deal dos Pixies, Alê declara “You will feel the thrill. Of being young again“. Frase bem significativa para esse retorno da banda.

Quem diria que um dia a gente veria o Pin Ups abrir uma música com tecladinhos anos 60 (fafisa, o nome) como na sexta faixa, “Ballad for Samuel and Tobias”? Mas aqui está e o resultado é muito bonito, lembrando muito os Beatles na fase “Magical Mistery Tour” e “Sgt. Peppers”. Adriano Cintra dá um show nessa e o duo Antiprisma (Victor José e Elisa Oieno) fazem os backing vocals.

Mais participações especiais na animada “Mexican Tale”. Dessa vez, Jim Wilbur do Superchunk contribui nas guitarras e Amanda Buttler volta a participar dos vocais. A faixa lembra muito os últimos álbuns do Pin Ups e é uma das melhores do “Long Time No See”. “Let’s run away to Mexico. Let’s do it before they build the wall“, convida a letra, citando o fetiche norte-americano em construir um muro na fronteira.

“Damn Right” traz mais influências dos anos 60 ao disco. É muito bom ouvir como essas influências caem como uma luva ao Pin Ups, o som é simplesmente redondinho. O “Long Time No See” pode até ter puxado o freio no peso da banda, mas isso não quer dizer nada negativo, muito pelo contrário. O Pin Ups aqui aparece com um som amadurecido, confiante e mais refinado do que em qualquer outro momento. É como um passeio por todas as influências da banda ao longo dos anos, é simplesmente delicioso.

Quer ver outro exemplo disso? É só passar para a próxima faixa, “Gone Tomorrow”. Aqui a gente ouve mais pitadas dos Beatles, banda que o Pin Ups já homenageava lá na época do “Gash” em 1992. Mais uma bela participação do duo Antiprisma. “All those lonely days will be gone tomorrow“, celebra o refrão. De longe, a faixa mais bonita do álbum.

“Crazy”, décima faixa, nos lança em um sonho psicodélico que deixa o som pairando no ar. Cheia de efeitos, tem a maior cara de encerramento de álbum. Mas não é.

A faixa que dá nome ao álbum é a mesma que fecha esse reencontro com Pin Ups. Como se tivesse saído direto do “Souvlaki” do Slowdive ou o “Loveless” do My Blood Valentine, a guitarra de Zé Antônio soa belíssima aqui. “After all those years you still got me here“, canta Alê finalizando o álbum. É um lindo reencontro.

Long Time No See está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer, Youtube e Google Play.

**As guitar bands que citei ali em cima, são as bandas independentes brasileiras que apareceram na primeira metade dos anos 1990 com letras em inglês e um som inspirado no som alternativo que começava a ganhar a atenção do mainstream no exterior. Para quem quiser saber mais, recomendo assistir o documentário Time Will Burn (2018), que está disponível online, e ouvir o catálogo de bandas da Midsummer Madness.

Observação: nosso amigo Lucas, que também escreve pro Bus Ride Notes, foi quem cedeu os arquivos pra banda colocar nas redes de stream. Antes de anunciarem os shows de retorno da banda o Zé Antônio entrou em contato com o selo/blog Share This Breath, pois ele só tinha os discos de vinil da banda e não foi possível converter em arquivos de boa qualidade, e o Share This Breath tinha todos eles.


Resenha

Unicórnio Maravilha – Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras

O nome da banda é estranho: Unicórnio Maravilha. O nome do segundo EP deles também é estranho: Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras. Tudo meio esquisito, né? Isso é ruim? Na verdade é muito bom!

Lançado em 2018, o EP conta com o trio Higor Machado (guitarra), Isis Cardoso (vocal/guitarra/baixo) e Thais Barbosa (bateria); além da produção de Igor Demétrio e da própria banda.

A banda carioca define o “Gatos Voadores…” como “um ambiente mágico em que qualquer coisa pode acontecer, em que seus maiores sonhos e medos convivem lado a lado”. E o disco é realmente uma viagem, já começando pela bela arte da capa que é assinada pela ilustradora Anna Brandão.

A faixa que abre o disco é “Blues Genérico #1”. O instrumental lembra de longe as guitarras do White Stripes e uma coisinha ou outra do The Cramps. Essa é uma das clássicas letras botando o dedo na cara de alguém. “Para de graça. Para de agir como se fosse amigável. Porque você não vai com a minha cara e eu também não gosto de você”, canta Isis Cardoso.

A letra de “Sobre as Fogueiras e as Morsas”, segunda faixa, é assinada por João Rosa. A música com o tom de despedida amorosa é levada por um instrumental já meio pop dançante que, se não fossem as guitarras distorcidas, até lembraria uma bossa nova em certos momentos.

“Blues Genérico #2 (Blues Kawaii)” é bem “Kawaii” (algo como “bonitinho” em japonês) mesmo. Letra romântica e sexy com outra levada blues bem envolvente. Destaque aqui pro instrumental do disco inteiro inclusive: a Unicórnio Maravilha sabe fazer um som que tinha tudo pra ser piegas e manjado, mas que na verdade acaba sendo bem imersivo e divertido. “E quero olhar o céu segurando sua mão. Sua pele é o abrigo onde eu quero me esconder e pernoitar até amanhecer”, bonitinho não?

O EP fecha com “Gatos Voadores”, assinada por Isis Cardoso, Thais Barbosa e Rita Valentim. É a faixa que mais foge do pop, tanto na letra, que inclui citações de Immanuel Kant, quanto no instrumental meio post punk, que cria um ambiente bem paranoico. “Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?”, pergunta Isis com uma charada tirada de “Alice no País das Maravilhas”. Existem várias respostas para essa pergunta, a Unicórnio Maravilha não se preocupa em te responder. Ficam no ar várias possibilidades e um gostinho de quero mais de um EP que em tão poucas músicas viaja por tantos lugares diferentes.

“Gatos Voadores e uma Corrida de Capivaras” está disponível no Spotify, Deezer, Youtube, Bandcamp e Soundcloud.


Resenha

Nâmbula Mangueta – Eu sou Nâmbula Mangueta

Nâmbula Mangueta é um girlpower trio formado em São Paulo em 2018 por Andrea Marques (bateria), Bruna Guilhem (baixo) e Gabe Halencar (guitarra e voz). Em Maio de 2019 elas lançaram o primeiro EP, “Eu sou Nâmbula Mangueta”.

Quando falo de Nâmbula Mangueta só consigo pensar no som, não que as letras sejam tratadas com menos atenção, mas a voz é inserida como o quarto instrumento, ela segue a melodia, não recita a letra como estamos acostumados a ouvir e o resultado disso é forte. Me sinto em um experimento sensorial ouvindo esse EP.

Acho que posso chamar esse som “forte” de “grave” (me corrijam se eu estiver errada, sei zero de teoria, técnica, etc musical), o baixo é sempre bem “visível” e apesar de ter muitas sonoridades diferentes o EP todo é bem conciso, parece uma coisa só.

Não sei se dá pra chamar ele de temático, já que toda interpretação é diferente e nem todo mundo vai chegar à mesma conclusão, mas as letras têm um tema principal: relacionamentos abusivos. Lembrando que relacionamentos não são só os amorosos, eles acontecem no trabalho, amizade, família e qualquer outro lugar.

“O EP faz uma viagem aos ambientes em que os abusos de poder acontecem. Elas relatam em suas letras vivências pessoais, conflitos internos e externos de se conviver numa sociedade nada justa”.

A primeira música, “Tormenta”, puxa pro stoner e introduz: “Enquanto seu retrato perde cor, já não resolve maquiar o fim. Tudo que fiz foi ser gentil demais com queria me roubar”.

“Fardo” segue com um som “pesado” que parece te envolver. Uso aspas porque “pesado” é sempre usado pra descrever bandas de metal que tocam rápido, mas nesse caso a melodia lenta e o grave criam um peso diferente.

Quando você prioriza o som, as letras costumam ser curtas e se repetir, é isso que vemos no EP, é isso que faz as músicas grudarem na cabeça e acho que é por isso que nem só “Mantra” parece um mantra.

“E os dias que você largou do meu esforço foram fechados com um sorriso meu”

“Bicicleta de (E)star” com sua melodia calma é daquelas que agrada não esquecer por dias.

“Macacos 12” é talvez a música que mais expresse o conceito todo do EP, tanto som quanto letra: “Acumulo milhas pra não te ver, tomo distância e espaço pra poder ter um sossego, um refresco, um ar”.

“‘Eu sou Nâmbula Mangueta’ é uma reflexão aos comportamentos da sociedade em que estamos inseridos. A capa do EP é o espelho, é o reflexo de sentimentos gerados por uma sociedade que nos pressiona a exercer poder sobre o outro, o que nos distancia de nós mesmos e dos reais sentimentos e impressões que poderiam ser vivenciados se não fosse essa cultura”.


Resenha

DEF – Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)

Meu coração anda mais apertado que os trens da central: a DEF retorna triunfante na segunda parte de “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia”.

Três anos após surgir com o EP “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 1)”, lançado pela finada Bichano Records, a DEF está de volta com a segunda parte do trabalho. “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)” foi lançado em Setembro de 2019, dessa vez pela PWR Records.

Agora um quarteto, a banda carioca conta com Deborah F. (guitarra, voz, violão, teclado), Eduarda Ribeiro (voz, guitarra), Dennis Santos (bateria) e Victor Oliver (baixo). Já fica aqui o primeiro destaque do álbum: a nova formação da banda se mostra afiadíssima alternando entre momentos serenos e dançantes, sem perder a beleza das melodias.

O espaço de tempo entre um lançamento e outro parece ter feito bem ao amadurecimento e sofisticação do som do grupo, e isso fica explícito logo na primeira faixa.

“Alarmes de Incêndio” foi o primeiro single do novo álbum, com direito à videoclipe. Talvez seja a faixa que mais lembra a parte 1 de “Sobre os Prédios…”, porém, aqui a banda já dá sinais de maior confiança para explorar o próprio som.

Deborah narra momentos inquietantes em que incêndios irrompem dentro de nós, a sensação de sufocar em si mesmo e de se perder em lugares antes tão comuns.
“Meu coração anda mais apertado que os trens da central”, canta a vocalista acompanhada da explosiva bateria de Dennis Santos.

A segunda faixa, “Descanso”, é um belíssimo e breve instrumental de violão que suavemente deságua em “A Cidade em que Apenas eu Existo”. O nome da faixa foi tirado do anime “Boku Dake ga Inai Machi”, lançado em em 2016. Aqui vemos Deborah se firmar como a letrista de expressões intensas que já se anunciava desde o primeiro EP.

A angústia em meio a prédios e ruas, e o sentimento de urgência para salvar o dia nesse emaranhado urbano acompanha todo o álbum. As letras soam como cartas brutalmente sinceras e confessionais e, no seu tom monótono, Deborah parece se dirigir a si mesma em diversos momentos sem medo de soar vulnerável, “como quem põe Deus para descansar”.

“Nada” é um exemplo do potencial letrista de Deborah, compositora de todas as músicas, exceto “Sardas”. Assinada por Eduarda Ribeiro, essa é uma ótima surpresa no meio do álbum. As estações do ano recebem o peso de uma tonelada quando o refrão marcante reivindica “a calma de ter mais um verão”.

A banda pode até ter puxado o freio nas distorções que ouvíamos em músicas como “Bad Trip” do primeiro EP, mas agora põe o pé em recursos eletrônicos (como nos teclados de “Sardas”) e mergulha fundo nas melodias com as duas guitarras da nova formação.

“Casa (Paulo)” é  um ponto fora da curva cravado entre as demais músicas do álbum, e isso não é ruim! A banda parece ter guardado as melodias mais criativas para as faixas finais.  O baixo à la The Smiths brilha e também não dá trégua na faixa seguinte, “Abutre”.

“Paraquedas (Boddah)” segue com vocais emendados num tocante spoken word, marca registrada da leva de bandas do emo brasileiro saídas da Bichano Records.

A última música é “Arranha-Céu”, uma das mais belas já feitas pela banda. Enquanto esbarra em prédios altos, Deb continua se questionando sobre os céus e os medos que descem de lá. “Mas se o avião me atropelar? Se meu amor não souber voar?”, questiona.

A parte mais difícil de salvar o dia derrubando prédios é que no dia seguinte teremos de encarar os escombros deixados por nós mesmos ali. “Sobre os Prédios que Derrubei Tentando Salvar o Dia (Parte 2)” reconhece isso em cada uma de suas músicas. Reconhece que salvar o dia também é conseguir um refúgio para respirar em paz, longe desse ar que às vezes parece ser feito de chumbo e concreto.

A arte da capa é assinada por Virgínia Moura, a mesma ilustradora do primeiro EP. A mixagem, masterização e gravação tem novamente a assinatura de Pedro Garcia (Planet Hemp/ Estúdio Canto dos Trilhos), além da própria Deborah F.


Resenha

Tuíra – Calma e Força

Tuíra é uma banda do Rio de Janeiro, formada em 2017 e atualmente com Amanda Azevedo (voz e guitarra), Hanna Halm (baixo e voz), Juliana Marques (bateria) e Thaís Catão (guitarra).

É uma das bandas que a gente coloca no subgênero queercore apesar delas não tocarem hardcore, nem as letras falarem exclusivamente sobre a vivência LGBTQ+ (se você não sabe do que eu tô falando, leia aqui nosso texto sobre).

Em Dezembro elas lançaram o primeiro EP, Calma e Força, e além das nossas impressões, as músicas têm muitas referências.

As letras, que não foram escritas sobre você, mas falam sobre você, são melancólicas, indignadas e otimistas e se contrastam com o som animado que dá vontade de dançar com influências de indie e emo (anos 90 e revival), cheio daquele timbre de guitarra estalado característico desses gêneros.

O nome “Calma e Força” reflete muito bem tudo isso. Pega a caixa de lenço e vamo ouvir.

Desde a escolha do nome à composição das músicas, a banda aposta no protagonismo das mulheres em suas diferentes formas.

Começando por “Tuíra”, escolhido em homenagem à indígena Kayapó, que com seu facão barrou a construção da barragem de Belo Monte na década de 80.

A música Kararaô (que vai ficar dias grudada na sua cabeça) fala sobre isso. Essa é a única música do EP que não abre espaço pra várias interpretações.
“Eu vou botar meu facão na sua cara injusta, eu bem sei que essa água vai nos afogar. Kararaô vai matar os filhos da santa terra, sua história alagada demarca o fim”

Kararaô era o nome original da usina de Belo Monte, que foi modificado em respeito aos indígenas, pois “Kararaô” é o grito de guerra do povo Kayapó.

A gente consegue escrever um texto longo sobre Crimeia. É difícil até escolher só uma parte da letra pra citar. É uma música sobre resiliência, praticamente uma catarse.
Eu sempre acho incrível quando conseguem expressar esse conceito e monte de sentimentos numa curta letra de música.
“Existe um eu de calma e força persistente entre entranhas de agonia e medo”

Segundo a banda “é um grito urgente por resistência, mas também uma evocação ao acalento e força que encontramos nas nossas relações leais, em quem nos dá gás e nos inspira perseverança pra continuar reagindo as violações do cotidiano e realizando nossos projetos”.

Não à toa ela foi escolhida pra ser o primeiro single da banda, lançado em Agosto.
“Quem vai dizer ou julgar não sabe de nada, não quer dizer nada”

O título da música faz referência a Crimeia de Almeida, militante política e ex-guerrilheira no Araguaia, presa e torturada pela ditadura militar brasileira quando estava grávida de sete meses, em 1972.

Quando ouvi Ella não entendi muito bem a letra. Parece um relacionamento mal resolvido? Mas “Seus donos nem se deram conta da ruína que você criou” me deu ainda mais dúvida.

Segundo a banda “”Ella” fala sobre a inteligência artificial, os algoritmos das redes sociais. A nossa inspiração era o Teste de Turing sendo Ella um chatbot criado pra testá-lo (é um algoritmo de processamento de linguagem que pode reproduzir a fala humana analisando padrões em grandes coleções de texto). Acontece que com o tempo algumas pessoas trouxeram novas interpretações pra letra da música, levantando que também parecia tratar sobre relacionamentos abusivos, romances mal acabados, etc. A gente recebeu super bem essas interpretações, afinal a relação que temos com os algoritmos hoje tem muito dessa sensação de abuso.”
Depois de ler isso tudo fez sentido, inclusive minha confusão inicial.

Só o Fim, o nome já diz tudo. Geralmente a gente vê finais retratados com raiva, rancor e “sofrência” (para um minuto pra pensar em quase todas as músicas e filmes que você já viu). Aqui a gente vê mais cansaço e aceitação.
“Certas coisas o fim resolve e não vale a pena a discussão”

Tem muita coisa pra falar sobre esse EP, mas ao mesmo tempo você tem vontade de só dizer: ouve, só ouve ele. Porque esse aspecto catártico, de melancolia e otimismo ao mesmo tempo, é muito presente nas letras e cada um tira uma coisa diferente disso.

Por isso também não consigo falar sobre Corda Bamba, talvez minha música preferida do EP, só citar:
“Já contou as glórias da semana, as tristezas diluiu em seu batom azul e suspirou com ar de quem prevê. Garrafa na metade, corda bamba, caos total. Na rua ela tá pronta, ela que sabe dela, ela não é você”

Então respira, põe o fone e vai ouvir. Calma e força.