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Entrevistas

Entrevista: Inoutside

Muito se fala do momento que o rock tem vivido, rejeitado pela indústria musical, esquecido pelos jovens e pela mídia e como essa fase tem refletido até mesmo no cenário underground. O que pode soar confuso já que a gente que vive nesse submundo da música nunca deu a mínima pra indústria.

O fato é que sobra pra todo mundo, até mesmo pra saudade. E se tem uma banda atual que me faz lembrar de toda essa fase MTV Rock Brasil, é a Inoutside. Não só me faz lembrar, como também acende aquela esperança de que o rock br possa voltar a ser da juventude no fundão do ônibus, da garotada na pracinha com o violão, da galera camisa preta no fundo da sala.

Anime seu coração, bons dias barulhentos estão por vir.

Ei gente, como vocês estão? Pra começar gostaria que falassem sobre vocês e o começo da banda, como se deu tudo até hoje. Sobre a relação Vitória/Juiz de Fora e como essas duas cidades têm influenciado os caminhos da Inoutside.

Mariana: Bom, a banda como ideia surgiu lá em 2012, da cabeça de uma Mariana de 15 anos que se juntou com meros conhecidos com o interesse comum de fazer música. Que tipo de música, ainda era um mistério haha.

Saía de tudo: de Bruno Mars a Paramore, cada um trazendo seus interesses, ainda que tão divergentes. A maioria era adepta do rock (como eu) e, com o tempo e com várias pessoas saindo e entrando na banda, ela se fixou como um power trio em 2017, e aí as coisas começaram a caminhar num mesmo sentido.

Eu e meus grandes amigos Remy e Sofia, todos naturais da grande Vitória, começamos a escrever o que a Inoutside viria a se tornar. Eu e Remy viemos morar juntos em Juiz de Fora pra estudar na UFJF, e Sofia fazia essa ponte entre as duas cidades. Shows em JF e em Vitória, gravações em Vitória e mixagem em JF: estava feita a ponte. A banda viveu essa desafiadora dinâmica até 2019, quando os interesses de todos seguiram caminhos diferentes e a banda quase se desfez, sobrando apenas eu que vos falo.

Confesso que quase me desesperei, pois não queria deixar esse sonho morrer. Chamei amigos músicos para me acompanhar nos shows ainda pendentes, e foi em decorrência desses últimos shows, quase desesperançosos, que surgiu a primeira esperança.

Um dos organizadores do API, festival em São João Nepomuceno (MG), me apresentou quem viria a ser a nova dona dos graves da Inoutside: grandessíssima Duda Gielo. No mesmo intervalo de tempo, um amigo me apresenta a Leticya pelo Twitter (vejam só). Aproveitei e marquei um teste conjunto e foi a coisa mais linda do mundo haha. Na primeira música que tocamos já parecia que ensaiávamos há anos, foi emocionante e nem pestanejei: tomava forma a nova e alinhada Inoutside, em dezembro de 2019.

Gosto de dizer que foi quando renascemos, porque nunca antes haviam tantos interesses em comum, nunca antes fizemos tanto sentido. A ponte com Vitória, ES agora sou apenas eu, que, em um cenário pós-pandêmico, pretendo garantir que sejamos cada vez mais presentes na cena do rock capixaba.

Musicalmente, vocês se definem como hard rock alternativo e se permitem criar em cima de outras vertentes, como é o caso da versão da Letrux que vocês fizeram lindamente. Quais são as influências da banda na hora de criar e como é esse processo? Vocês sentem que já criaram uma identidade musical ou ainda é um caminho a percorrer?

Duda: As nossas influências continuam abrangendo vários estilos musicais. Apesar de termos o rock como um “norte”, a música pop também é muito presente no nosso cotidiano. Nós acreditamos que música boa vai além de definições de gênero e sempre tentamos pegar o melhor de cada estilo para criar o nosso próprio.

Sentimos hoje, com os arranjos do nosso primeiro álbum de estúdio já prontos (e em processo de gravação), que criamos, sim, uma identidade e estamos muito felizes com o resultado. Não medimos esforços para colocar o melhor que tínhamos em cada uma das músicas e fizemos tudo com muito carinho. Queremos que todos sintam isso quando ouvirem nosso álbum.

Vamos falar sobre clipes. O primeiro contato que tive com vocês foi pelo clipe da música Run (que por sinal é foda!) e me fez lembrar da importância dos clipes pra cena rock alternativa/independente no Brasil nos anos 2000, MTV. Por algum motivo a gente perdeu esse contato com todo esse lance do audiovisual, justo no momento do boom, né? Tanto que outros cenários musicais têm usado bastante. Enfim, como vocês veem isso tudo? É possível e necessário esse resgate? Aproveitem e contem um pouquinho de como foi o processo de produção do clipe.

Mariana: Começando pelo final, o clipe de Run foi uma grande aventura. Confesso que a maioria de nós (se não todos) não sabia muito bem o que estava fazendo, mas fomos com fé, vontade e muitos voluntários haha.

Foi tudo feito sem nenhum orçamento e muito improvisado. Por sorte tivemos o apoio da UFJF, que disponibiliza equipamentos para projetos dos estudantes dos cursos de Artes e Cinema, como eu. O pessoal foi uma porção de amigos e colegas de curso animados o suficiente pra embarcar na aventura.

Escrevemos o argumento do clipe em cima da ideia original de uma dessas colegas, a Monique Oliveira, adaptamos e trabalhamos arduamente pra que pudéssemos estrear nosso rosto nas plataformas digitais. Afinal, como apontado acima, os clipes têm, há décadas, uma grande e importante participação na divulgação e na criação de uma identidade artística ao redor do mundo inteiro.

Com o crescimento da internet, e tendo seu boom nos anos 2000, graças à MTV, o videoclipe se tornou o principal portfólio da música popular. Basicamente, se você não tem trabalhos audiovisuais, é bem mais difícil notarem que você existe. Vê-se tanto quanto escuta-se, ou até mais.

Com isso em mente, mais a vontade de criar nossa própria identidade, que investimos nosso suor na criação de Run. A nova fase da Inoutside, entretanto, promete muito em relação ao conteúdo audiovisual como um todo, e não apenas videoclipes. Pra quem se liga na importância desse tipo de produção, sugiro que não perca nossos próximos lançamentos hehe.

Foto por Pedro Soares

Em 2018 vocês tocaram na Porca Fest e no mesmo ano quase entraram no cast do festival da Laja Records, por votação. Como é pra vocês, uma banda de hard rock, tocar em evento punk? Vocês percebem diferenças e semelhanças entre um show de rock “normal” e um show punk? De público, de estrutura, de expectativas. E como foi essa experiência da Porca Fest?

Mariana: O Porca Fest foi o máximo! Muitíssimo divertido em todos os aspectos. Fomos muito bem recebidos, num geral.

O festival contou com outras apresentações fora do punk, como a falecida Miêta, que trazia um rock bem progressivo e ótimo pra viajar assistindo. Ao mesmo tempo, tivemos os shows clássicos de punk da Whatever Happened to Baby Jane e Errática, por exemplo, nos quais o público ia à loucura nas rodinhas: pulava e se empurrava como ninguém, independente do calor de dezembro.

A gente ficou ali no meio, tivemos todo tipo de recepção do público, de rodinha a coro, do jeito que a gente gosta, e acho que foi justamente essa “mistureba” toda que fez o festival ser divertido como foi!

Quanto ao quase do Laja Fest, acredito que esse distanciamento do punk talvez tenha sido o fator determinante pra não termos, de fato, entrado na lista do festival, mas o quase já me deixou bem feliz. É bom saber que nosso som é capaz de agradar várias vertentes do rock, porque é justamente delas que nós nascemos.

Aproveitando que falei dos shows aqui em Vitória, e como parte da banda também é daqui, queria falar um pouco sobre o rock ES. Aqui sempre foi um Estado com uma movimentação do rock muito grande, do metal, hardcore ao rock e misturas com o regional. Dia D, Festival de Alegre, as dezenas de festivais com banda mainstream de fora, o underground no Entre Amigos. E aos poucos tudo foi se perdendo sem ninguém entender o porquê. Como vocês veem esse processo todo que aconteceu aqui? Vocês acham que foi algo parecido no Brasil inteiro ou aqui teve algo em especial? O quanto essa oscilação de mídia e público afetou na vontade de montar banda e investir em uma carreira musical?

Mariana: A verdade é que pegamos pouco essa mudança. Quando, de fato, consolidamos uma presença no ES, já havia uma certa estabilidade de desvalorização do rock, eram poucos os lugares que se propunham a organizar um evento exclusivo de rock e, quando havia, era difícil adentrar a “panelinha” (principalmente de indie rock e masculina) que dominava os poucos eventos que se via. Era muito uma questão de estar na moda, a meu ver (e machismo, claro), e isso muda com muita facilidade ao longo dos anos.

Entretanto, ainda tínhamos representações com uma base forte, como a própria galera da organização do Porca Fest, que atuavam como uma certa resistência ao mainstream e abrem espaço para bandas como nós, e dessa forma não permitindo que as outras vertentes do rock perdessem sua relevância.

Ser uma banda só de mulheres, agora, traz mais alguns desafios que antes não precisávamos ultrapassar. A cena ainda é bem machista, independente de qual vertente do rock, e quando entramos nas listas, é quase como cota, e isso nós pretendemos mudar ativamente e permear cada vez mais espaços da cena do rock capixaba.

Assistindo o minidoc Voices (que está disponível no canal do Youtube da Inoutside) e vendo a história da Paola, dá um calorzinho no coração, né! Queria que vocês contassem como foi esse encontro e a importância dele <3

Duda: Nós conhecemos a Paola no nosso primeiro show com a nova formação e foi quase como um sinal de que estávamos no caminho certo. Ela ficou bem na frente do palco, pulou, dançou, passou uma energia incrível pra gente. No final ela e a mãe vieram falar com a gente e então descobrimos que foi o primeiro show de rock dela.

Nós três crescemos com uma maioria esmagadora de referências masculinas e, quando você não se enxerga em quem te inspira, fica fácil pensar em desistir. Então ver ela toda animada, curtindo o nosso som e, na primeira experiência dela, vendo mulheres no palco, não só no vocal, mas também nos instrumentos, foi muito gratificante e esperançoso.

Nós queremos inspirar gerações mais novas que compartilham do mesmo sentimento pela música, queremos mostrar para as meninas que elas podem fazer o que elas quiserem, podem pegar um instrumento e serem ótimas com ele, serem elas mesmas, livre de qualquer julgamento.

O caminho é longo, mas se nós conseguirmos contribuir o mínimo que seja na vida de meninas como a Paola, então vai valer muito a pena!

Foto por Pedro Soares

Quais são os próximos passos da banda? EP novo, algum single, clipe? Imagino que deve ser um desafio manter uma banda ativa, com perspectivas, nesse cenário de pandemia. Mas quais são os planos pra esse ano?

Lets: No momento, nós estamos trabalhando no nosso primeiro álbum. Já gravamos os instrumentos, para em seguida pegar nas vozes. A gente está muito empolgada com o que está vindo por aí e doida para lançar logo, mas isso deve acontecer mais no final do ano.

Eu, particularmente, nunca tive essa experiência de estúdio antes da Inoutside, de construir músicas do zero, de criar as partes da bateria, e sempre parece que é um sonho pensar que estamos colocando uma coisa nossa no mundo, algo que vai ficar eternizado, de certa forma.

A pandemia atrasou um pouco esse processo, que tinha começado em janeiro/fevereiro de 2020. Fizemos uma pausa, voltamos a ensaiar quando foi possível, tentando manter a segurança nesse momento, e entre outras pausas e voltas, tivemos um “gás” de maio para cá e resolvemos focar na produção do álbum.

Já temos duas músicas em mente para serem lançadas como single – com videoclipes -, mas estamos esperando o cenário da pandemia melhorar para conseguirmos tirar essas ideias do papel, considerando que precisaremos de bastante gente trabalhando nesse processo. Mas, se tudo der certo, vamos conseguir lançar ainda esse ano ou, ao menos, no primeiro trimestre do ano que vem.

Muito obrigado, gente! Se tem algo que não comentei e queiram falar, fiquem à vontade. Que tudo isso passe o quanto antes pra gente ver um show de vocês por aqui! <3

Lets: A pandemia teve muitos efeitos negativos, em especial, para a classe artística. Por mais que temos a tecnologia ao nosso favor, ela não substitui o calor do público te vendo e ouvindo tocar ao vivo, cantando ali com você. Não vemos a hora disso tudo passar para podermos voltar aos palcos logo, em Juiz de Fora, em Vitória, e onde mais quiserem a gente.

Acho que vale o nosso agradecimento ao Bus Ride Notes por estar dando esse espaço para falarmos sobre nosso som e nossos projetos. Essa visibilidade dá uma força muito boa para artistas independentes.

E, se nos permite, queria aproveitar para convidar o pessoal para nos acompanhar porque, como falamos, logo teremos várias novidades. Mas enquanto elas ainda não vêm, temos músicas no Spotify e um material bem bacana no YouTube e nas nossas redes sociais para apreciar até lá 🙂


Entrevistas

Madellena – Punk Riot Capixaba

Quando se fala em hardcore/punk capixaba, o que vem primeiro na sua mente? Espero que tenha sido Funny Feeling, Inside Reality e toda a leva de bandas incríveis que foram influenciadas por elas. A gente pode fazer vários recortes do que aconteceu e do que tem rolado no Espírito Santo, todo mundo conhece os selos e as bandas famosas dos caras, e os estilos que fizeram a fama de Vila Velha. Mas aqui também tem muita banda inspirada na cena riot e queer, como a The Truckers e Whatever Happened to Baby Jane atualmente e Lady Laura num passado não tão distante. E é desse cenário que vem a Madellena, banda nova que estreou ano passado com uma sequência de shows incríveis.
Segue abaixo uma pequena entrevista respondida pela banda.

Madellena começou a tocar em 2019, mas ela de alguma forma foi pensada e os primeiros passos se deram bem antes, certo? Conta um pouco como foi esse início e como vocês tem percebido esses primeiros shows, a resposta das pessoas e a percepção de vocês da banda, já é a Madellena que gostariam de ser?

Livia: Na real a ideia da banda começou no finalzinho de 2017 ou início de 2018 (não me recordo), ela surgiu de um papo que Alexandre estava trocando comigo e acabou me perguntando se eu sabia de alguém que cantava pois ele queria formar uma banda com vocal feminino mais voltado pro punk e alternativo, eu respondi que sim, eu mesma. Demoramos um pouco pra achar alguém que topasse tocar bateria, depois ficamos sem batera novamente por um bom tempo. Então, Alexandre conversou com Vanessa e ela decidiu entrar. Os shows foram todos bem especiais, sempre vi muita gente curtindo o som, em especial as meninas. A banda, formada e completa, ainda tá bem no início, e apesar de eu já estar super satisfeita e orgulhosa do som que a gente vem fazendo, acho que ainda vamos evoluir muito e tomar cada vez mais forma ao longo da nossa trajetória.

Antes do mundo começar a acabar, vocês postaram que a banda ia começar a ensaiar com uma baixista. Essa necessidade surgiu dos shows ou era uma vontade desde o começo? Acho que a gente sabe quem é a baixista hehe como foi o contato com ela?

Desde o início a ideia era ter alguém no baixo, de preferência alguém que também pudesse fazer segunda voz. Mas, a gente não quis deixar a falta de um baixista atrasar ainda mais o projeto, e seguimos sem por um tempo. Vanessa, que inclusive já tocou com Ignez, trocou ideia com ela. Ela, para nossa felicidade, acabou topando assumir o baixo. Inclusive estamos super animadas pra ter um ensaio com os quatro integrantes presentes, o que até então não foi possível.

A pergunta é cliche, mas vamos lá. Musicalmente, da onde vem a influência? Bandas e cenas e tal. E pelo pouco que conheço de vocês (pelo menos o Ale e a Livia), sei que vocês tem um pé no metal e música mais extrema. E aí como é construir as músicas da Madellena respirando e vivendo outros rolês de música? Rola de conciliar ou vocês conseguem separar bem as influências?

Nossas maiores influências estão no movimento riot grrl e punk em geral, com um carinho especial pelas bandas Bikini Kill, Sonic Youth, Fugazi, Babes in Toyland, Dominatrix, Pin Ups e Violet Soda. A banda é formada por pessoas muito ecléticas, que curtem tanto som extremo como uma parada mais “água com açúcar”, e acho que todas as nossas influências nos trouxeram onde a gente tá hoje, mesmo que algumas não sejam tão presentes na hora de compor uma música. Por isso, curtir e ter conhecimento de outros roles é importante, não só pra apoiar o movimento como um todo, mas também pra tirar a gente da mesmice, incorporando elementos novos nas nossas composições.

Na banda tem gente que toca em outras bandas, que organiza shows, que frequenta e faz parte de outros undergrounds além do punk. Então não tem pessoas melhores pra eu perguntar sobre o rolê aqui no ES do que vocês. Como vocês tem visto a movimentação aqui? De alguma forma vocês acham que a gente tem acompanhado o que tem rolado nas outras capitais? No sentido de como se organizar e abraçar algumas ideias. Como público, como banda e como “produtores” de shows, o que vocês acham que tem dado certo e o que a gente precisar mudar?

Apesar do machismo e das panelinhas que infelizmente fazem parte da maioria das cenas, eu vejo o underground da Grande Vitória de modo positivo. Nos últimos anos surgiram várias bandas novas e alguns novos lugares pra tocar. O mais bacana de testemunhar é que a própria galera das bandas está organizando os seus shows. É comum ver que certos eventos são concebidos pelas próprias bandas, cada um leva uma coisa (bateria, amplificador, mesa de som) e o show acontece. Surgiram alguns coletivos que fizeram eventos fantásticos, como o “Coletivo Comuna” e o “Matilha Punx”. Acredito que a cena local é composta por poucas pessoas devido à uma população pequena comparada com SP, por isso basicamente todos se conhecem. Veremos como tudo ficará após a pandemia.

E como estão os planos de gravar? Quer dizer, com a pandemia acho que as coisas pararam pra muita banda. Mas vocês tinham alguma movimentação de gravar? E aproveitando a pergunta, como vocês veem essa era do streaming, que já vem de um tempo, mas que acho que agora firmou no underground? Vocês acham legal esse jeito da gente lidar com a música que a gente produz? A gente que eu digo, punk, contracultura.

A banda já estava com projeto de gravação antes da pandemia, mas tivemos que adiar esse desejo. O streaming é uma ferramenta interessante de interação com o público, pois aproxima o que está longe, nesse momento de quarentena tem sido a maneira de alguns músicos sobreviverem do próprio trabalho, o que por si só é extremamente relevante. Agora, dizer que é melhor que o contato com as pessoas no show, acho que ninguém vai concordar com isso, rs. E também não é a única maneira de usar a tecnologia para produzir musica, estamos rascunhando uma maneira de interagirmos através da tecnologia sem perder a essência das criações.

Esses últimos anos o hardcore punk cresceu em vários sentidos, mesmo muita gente dizendo que antigamente era melhor. Cresceu porque deixou de ser menos heteromacho, se criou uma movimentação muito forte queerfeminista, muitas vezes até à parte do que estava rolando. Vários festivais grandes feitos por elas e elus, várias bandas queer e foi bem um atropelo mesmo. Como vocês tem visto esse role todo? Enquanto banda, enquanto pessoas envolvidas no que existia antes e no que tem rolado agora.

Houve uma época em que tínhamos mais bandas com mulheres aqui na cena capixaba. Bandas como Kamomila e Inside Reality fizeram história. Recentemente a Whatever Happened to Baby Jane foi muito importante pra reafirmar e fortalecer o papel das meninas e mulheres na cena. Na maioria dos nossos shows tocamos com outras bandas que têm membros femininos ou só com mulheres, como a The Truckers. Creio que todo mundo já notou que nos últimos anos várias bandas com essa característica ganharam bastante destaque na cena. Grupos como Violet Soda, Bioma, Anti-Corpos, Miêta, Pata, Weedra, Time Bomb Girls, Eskrota, Nervosa, Ema Stoned e várias outras vêm fazendo um belo trabalho, com músicas de qualidade e atitude. Além disso, foi lindo ver Dominatrix e Pin Ups voltando a fazer shows no ano passado. Creio que a tendência daqui pra frente é que a cena de diversos lugares se torne cada vez mais feminina. Eu particularmente não aguento mais ouvir macho cantando, rsrs

Madellena é Lívia nos vocais, Vanessa na bateria, Alexandre na guitarra e futuramente a Ignez no baixo.
Essa entrevista também saiu em formato físico no zine Herencia, lançado esse mês.


Entrevistas

Prayana

Pouca gente entendeu a campanha pra destruição musical. Fizeram do barulho um emprego, uma oportunidade, ser extremo virou mais um nicho de mercado. E aí um monte de meninos e meninas passaram a acreditar que precisavam do aval de selos, gravadoras e revistas pra existir e fazer parte da cena e a ideia do faça você mesme se perdeu.
A música punk passou a ser música autoral, as bandas agora tocam em pubs de rock com cerveja artesanal e em festivais bancados por edital de governo. Não fazemos mais por nós mesmes e a gente se contenta em comprar meia com logo de banda porque em algum momento isso fez mais sentido do que toda uma cultura política que o punk nos mostrou.
Destruir a música não é tocar o mais rápido e mais alto que conseguir, há uma indústria inteira pronta pra transformar tudo isso em tag, te dar um posto de artista, mudar toda a sua relação com o que você cria. Destruir a música é buscar autonomia, é torná-la subversiva de novo. É entender como funciona a estrutura de ídolos, estrelismos e mandar esses artistas punks pra merda. Destruir a música é desacreditar na própria música, ela não é o motivo porque estamos aqui juntes.
Nós somos mais do que tudo isso, criamos laços e relações que nunca tivemos, compartilhamos da mesma vontade de ser o que somos porque o punk nos permite viver por nós e não há indústria alguma que vai dizer o que devemos fazer.
A anti-música permanece mais viva do que sua cena de música morta.
E vamos até o fim com isso!

Esse é o manifesto que a Prayana lê em seus shows. Banda de Noisecore formada em 2017 por Bia (guitarra e vocal), Thais (baixo) e Fernando (bateria) em Vitória – ES.

Anti-música é um conceito novo pra mim, a primeira vez que ouvi falar disso foi em 2014 ou 2015 num festival com bandas de crust, grind, noise, etc, que na época eu não era muito familiarizada. A banda de antimúsica fazia muita barulheira, o vocalista ficava de costas pro público e eles constantemente mudam de nome, tanto que eu não sei o nome da banda.

Eu não sei se isso é a mesma coisa que noisecore, mas parece que quando uma banda se identifica com anti-música ela tem um discurso muito maior. A Prayana é isso.

Quando eu conheci a banda fiquei curiosa com essa coisa toda e pedi pra eles uma entrevista que você lê a seguir:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Então, a Prayana surgiu como um projeto de Noise em 2017 comigo (Bia) na guitarra e na voz, e com o Nando, na bateria. A princípio a ideia era fazer um noise bem cru mesmo, na doideira de não saber tocar nada e fazendo o som que a gente gosta com o que a gente tinha (bateria, guitarra e voz). Com o tempo a gente foi ficando bom em tocar essa doideira, fomos encaixando letras e tudo foi tomando mais corpo e, pra gente, ficando cada vez melhor. Pensamos então em complementar a barulheira com alguém tocando baixo. Daí surgiu a ideia de chamar nossa amiga Thais, que faz a formação que a gente é hoje, completando dois anos de Prayana, com alguns shows bem legais, outros muito malucos haha.

Não faz sentido perguntar por que uma banda toca certo gênero musical, mas noisecore, antimúsica é mais um conceito, né? Tinha algo a mais que vocês queriam expressar?

A gente sempre ouviu barulho, mas a ideia de que existia uma comunidade grande noisecore é bem nova pra gente (e não é, vem lá do final de 80). Esse lance de antimúsica é muito doido porque a gente encontra no Lärm, mas também nas bandas anarcopunks do Brasil. Vimos o documentário da Marina Knup esses dias e tem uma fala bem assim, de ter banda como expressão, de não se importar com melodia ou ritmo. Acho que antimúsica é algo bem grandioso, questiona essa ideia besta de que precisamos ser artistas pra montar banda, que precisamos dominar um instrumento pra fazer um som. E mais, traz o faça você mesma de volta pro punk, às vezes a gente vê o D.I.Y. se perdendo e cada vez mais gente achando que isso é sobre fama, status e ter espaço em algum mercado musical. Aqui é punk, galera!
E foi aí que a gente se aproximou do noisecore, aqui ele é total façavocêmesma, as bandas ainda trocam materiais, tem uma união incrível e zero competição. Mesmo a gente morando longe das bandas noisecore que a gente gosta, ficamos muito felizes de muita gente abraçar a Prayana, chamar pra fazer Split e essas coisas. Muita gente ainda ignora que existimos, mas estamos aí, gravando, lançando material e organizando nossos shows. No dia que não fizer mais sentido, a gente para.

Vocês participaram de vários Splits, 4ways e etc. Tem alguma razão pela preferência do formato ou é só gosto mesmo?

Fazer junto é bem mais legal, não tem a ver com o formato em si, é mais sobre envolver pessoas. Como já fazemos tudo por nós mesmas, convidar pessoas pra fazer também, seja do outro lado do mundo ou em uma cidade perto, faz a coisa ser menos individual e mais coletiva. Principalmente numa cena onde uma ajuda a outra, onde as pessoas tem a mesma forma de fazer as coisas. Fazendo Splits a gente acaba se aproximando bastante das bandas irmãs, isso é incrível. E sempre que pode a gente sai um pouco dessa coisa de lançar em internet, é legal ter a sensação de que muita gente pode ouvir o que você lançou, mas às vezes fica só na sensação mesmo, porque tá lá no Youtube mas ninguém se dá o trabalho de apertar o botão. Então a gente faz CDr, minicd, k7 e distribui no círculo de pessoas que se interessam, que perguntam, que pedem. E assim vai.

Como é o processo de gravação de vocês já que vocês não costumam gravar em estúdio? Por que a decisão de fazer tudo vocês mesmos (literalmente D.I.Y.)?

É tudo referência mesmo. Começamos a banda por causa do Purenoise e ela tem umas gravações bem caseiras. Se você pegar a maioria das bandas é nessa linha. E é lindo, é como a gente quer soar. Gravamos muita coisa pelo celular. A primeira demo foi a mais caótica haha. Aos poucos fomos experimentando gravar os instrumentos separados e depois juntar em algum programa baixado no Superdownloads haha. Mas tudo pelo celular, funciona muito bem. O último Split com a Ruidosa Inconformidad gravamos em casa, mas aí já foi com microfone. Mas é isso, nós por nós. O Bonadio não gosta, o poser HC profissional também não, mas quem liga.

Essa pergunta tá ficando cansativa, mas ainda é necessária: a cena tem mudado demais nos últimos anos, como andam as coisas em Vitória?

Acho que igual em todos os lugares. Tem banda nova, tem banda velha voltando. Tem espaços legais surgindo, tem pub criando nicho com banda Punk, tem o Underground e tem empresários. Tem banda de mina foda, tem gente se organizando e fazendo as coisas. A eleição do Bolsonaro e tudo que trouxe isso alimentou um lance no Brasil todo, eu acho. A necessidade de estar juntas e se expressar é muito grande.

Últimas considerações? Algum recado?

Obrigada pela entrevista! A gente lançou um Split com a Ruidosa Inconformidad, do Chile, num mincd muito lindo, com arte foda da Emilly Bonna. Quem tiver a fim, só escrever que a gente manda. E é isso, mantenha sua cena política, sempre. Na forma de fazer e de se relacionar com as pessoas no meio. Criem e mantenham espaços seguros pra todas nós.

Ouça Prayana no Bandcamp: