Bus Ride Notes

Date archives outubro 2020

Entrevista

Refluxo Mental

Refluxo Mental é uma banda de punk rock de São José do Rio Preto, interior de SP, formada em 2019 e hoje composta por Ariel “Joio” (bateria), Everton “Facada” (guitarra), Matheus (vocal) e Maurício “Mau” (baixo).

Em 10 de Outubro de 2020 eles lançaram seu primeiro disco, “Socialização das Perdas”, “gravado e mixado com a ajuda do Estúdio Jardim Elétrico, do ex-integrante (mas para sempre integrante) da Refluxo Mental, Lucas Dias”.

Segundo a banda, “o momento político vivenciado no Brasil atual pede uma retomada forte às bases de uma crítica social ligada ao meio artístico. Em meio ao levante de diversos artistas (não somente da música), a Refluxo Mental pretende demonstrar que ainda é possível criar um punk rock vinculado ao pensamento crítico, como alternativa às amarras da desrazão, da barbárie e do reacionarismo. Fascistas não passarão!”

Abaixo você confere nossa entrevista com eles:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Mau: A banda surgiu há uns dois anos? Quando eu vi que foi a menos que isso eu realmente fiquei surpreso, sabe? Foi Joio e eu conversando num dia chuvoso sobre fazer um som subversivo e eu mostrei a letra da musica “Crente” pra ele. A gente tinha uma outra banda que o vocalista não queria cantar musica com critica política, saca? E eu conhecia um cara que iria querer, que era o Matheus. A banda faz esse punk 77 com um pouco da influência de cada um e acaba saindo bem característico.

Em mais de uma ocasião vocês disseram que a banda veio pra combater o reacionarismo que tá tomando conta de tudo. Vocês começaram a banda pensando nisso ou foi algo que veio depois?

Matheus: Desde o início tínhamos a intenção de fazer crítica social. O próprio nome da banda foi uma intenção de demonstrar isso. Refluxo Mental é a tentativa de fazer a galera refletir sobre certas questões presentes na realidade brasileira, colocar a mente pra pensar sobre outros ângulos, que não costumam chegar a todos os espaços. O combate à barbárie e ao obscurantismo vem com informação e reflexão. É o que procuramos fazer.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Socialização das Perdas”? Houveram mudanças de formação na banda nesse período, né?

Matheus: Ideias para composições foram muitas. Como a inspiração das nossas músicas surge dos problemas sociais que impactam nossa realidade, temos (infelizmente) conteúdo de sobra para trabalhar. A parte difícil é filtrar nossas ideias de uma forma mais ou menos coerente, a caber numa melodia bacana, na velocidade do punk rock. Cada ideia finalizada começava a ser gravada de imediato. Como gravamos em home studio, íamos criando e gravando, criando e gravando, até chegar o momento de dizermos: bom, melhor a gente fechar um CD aqui, finalizando esse primeiro momento da banda (que contou com diversas mudanças).

Mau: Mudança de formação foi apenas que a banda começou como um trio Matheus, Joio e eu e depois entrou o Lucas Dias, que acabou saindo para montar o Estúdio Jardim Elétrico em Lençóis Paulista, onde foi mixado e masterizado nosso CD, e entrou o Facada que já tocava com o Joio.

Rio Preto é interior, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí?

Matheus: A cena do punk rock de maneira nacional já não é muito forte. O punk não é um estilo que agrada muita gente. No interior é ainda mais difícil. É complicado manter um ciclo constante de pessoas nos shows. Nem se fala sobre captar galera nova para ouvir o som. A internet tem ajudado bastante a esse respeito.

Vocês têm uma música chamada “Rio Preto” no disco, né?

Matheus: “Rio Preto” surgiu da indignação ao alto número de eleitores do Bolsonaro nas últimas eleições. Nossa região teve no segundo turno das eleições de 2018 uma taxa de 78% de apoiadores do dito-cujo (que é um dado presente nos primeiros versos da música). Não é fácil sair nas ruas sob o alto risco de trombar com o retrocesso. É claro que nem todo mundo compactua com as barbaridades que vem nesse pacote. Tem muita falta de informação (e desinformação) que ronda a cabeça das pessoas. É o preço de um país que investe parcamente em educação pública de qualidade. “Rio Preto”, apesar de levar o nome da cidade, representa diversas cidades que sofrem do mesmo problema.

E como vocês foram, do interior de SP, parar em Moçambique?

Mau: Cara, é uma história bem legal. Um youtuber moçambicano chamado Miguel Jorge viu um comentário que eu deixei com o Youtube da banda em uma notícia sobre a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) em Angola e entrou para ver os vídeos do canal, curtiu as músicas e marcou em uma postagem no Facebook que estava ouvindo Refluxo em Moçambique. Daí pra frente o pessoal foi pesquisando sobre e foram curtindo a página e ouvindo as músicas.

Últimas considerações? Algum recado?

Mau: Queria falar pro pessoal curtir as nossas redes sociais, dar uma força, que é disso que sobrevive uma banda autoral mesmo. Compartilhem, curtam, comentem! A gente faz nosso som aí com muita humildade e é verdadeiro, é o que a gente gosta, né? Afinal de contas se fosse apenas por publicidade pra barzinho a gente fazia cover de rock dos anos 80. Refluxo é Matheus, Facada, Mau e Joio.

“Socialização das Perdas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Derrota

Derrota foi formada em Americana, interior de SP, em 2012 e hoje é composta por Leonardo Cucatti (guitarra), Nathalia Motta (guitarra), Bruno Meneghel (guitarra), Eduardo Meneghel (baixo) e Claudio Cestare Jr. (bateria).

A banda é instrumental e eu me atrevo a dizer que o som é quase post-rock. Eu acho difícil descrever uma banda instrumental quando o som não é bem específico. No caso da Derrota a sonoridade é bem melódica e um tanto pesada.

Depois de dois EPs e três singles, em Abril de 2019 a banda lançou seu primeiro disco, “Parece Insuportável”.

A banda já participou de algumas coletâneas, incluindo o primeiro volume da “Discografia Caipirópolis”, composta por bandas do interior de São Paulo e lançada por nós do Bus Ride Notes em Julho de 2020, e, mais recentemente, da “Sangue Preto”, “projeto em parceria com bandas, artistas, fotógrafos e selos independentes com a proposta de combate ao racismo na sociedade em que vivemos”.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Leonardo: Eu e a Natt montamos a banda em 2012, mas na época não era realmente uma banda ainda, era mais a nossa vontade de criar e compor. Diversos amigos tocaram com a gente nesse começo, por isso entre 2012 e 2015 a banda praticamente não existiu, não fizemos muitos shows e nem gravações. De 2015 pra cá é que a banda foi tomando forma com uma formação mais sólida.

Eu acho meio bobo perguntar por que uma banda toca certo gênero musical, mas instrumental é algo que tamos começando a ver mais agora, até um tempo atrás era difícil conhecer mais de uma banda, mesmo no underground. Eu queria perguntar como vocês fizeram essa escolha e como vocês vêem esse cenário específico de projetos instrumentais atualmente.

Leonardo: Eu sempre ouvi muita música instrumental, desde Jazz até bandas como Tortoise e The End of the Ocean, fora o Hurtmold, que era bem próximo da gente, vi um milhão de show deles. E sempre achei muito foda o lance de subir no palco e passar toda emoção e fúria sem dizer uma só palavra. Dessa forma, pra mim, foi muito natural pensar numa banda instrumental. Hoje em dia realmente tem muito mais bandas instrumentais, até mesmo de estilos bem diversificados, festivais somente com bandas instrumentais, o que é muito legal. Por exemplo, o festival “A Música Muda” que tem esse nome ambíguo muito interessante.

Eduardo: Antes de entrar no Derrota eu tinha assistido alguns shows e me chamou muita atenção como o som era expressivo. Ao mesmo tempo que cada guitarra está tocando um riff/tema diferente, elas se complementam e acho que isso deixa o som mais expressivo. Além disso, os efeitos que usamos também ajudam a passar a mensagem da música, mesmo sem dizer nada.

Natt: A gente nem pensou muito em ser instrumental acho, era uma ideia de brincadeira por que a gente falava que vocalista enchia muito o saco, daí ficou instrumental e acostumamos assim haha. Ah, e inclusive, festivais de música instrumental, nos notem! Nunca tocamos em nenhum que eu me lembre haha.

Vocês têm alguma influência específica pra esse tipo de som ou foi o normal de toda banda: cada um chega com a sua bagagem e vamos ver o que acontece?

Leonardo: Eu falei basicamente as minhas influências na resposta anterior, mas com certeza a bagagem musical de cada um e as emoções que passamos no dia a dia são nossa maior influência.

Natt: Eu nem ouço música instrumental, no máximo um Hurtmold as vezes haha. Cada um carrega sua bagagem de desgostos na vida, isso é o que mais conta no Derrota, acredito.

Vocês podem falar sobre o processo de composição e gravação de “Parece Insuportável”, por que ele demorou pra sair, né?

Leonardo: Então, esse foi um período complicado hehe. Como falei antes, a banda não tinha uma formação fixa e estabelecida e nessa época foi mais complicado ainda porque a Natt ficou um ano mais ou menos fora da banda, então eu e o Jesse (ex-guitarrista) continuamos compondo, mas não tínhamos baterista e nem baixista. Quando a Natt voltou para a banda e o Eduardo entrou, as músicas tomaram forma e começamos a gravar as prés, mas como ainda não tínhamos baterista ficamos mais um bom tempo empacados com o disco. Quando o Marcel (ex-baterista) entrou na banda é que começamos as gravações pra valer, ele praticamente entrou na banda gravando o disco. Depois ainda demoramos um tempo com mixagem e escolha da capa, tudo isso demorou bastante mesmo.

Natt: É o “Chinese Democracy” do interior haha. Foi demorado, mas é um dos discos mais lindos que já gravamos. O bom é que saiu bonito, imagina se demorasse e ainda saísse uma merda? Aí seria o fim…

Vocês podem falar um pouco sobre o clipe de Jus De Pomme?

Eduardo: O clipe reforçou a ideia de que uma música instrumental pode passar uma ideia bem clara. Quem vê o clipe consegue entender a história e a mensagem da música.

Natt: Esse clipe é meu favorito, ele foi gravado aqui em Americana mesmo, com nosso baixo orçamento, e muita gente amiga participando. Foi emocionante do começo ao fim a gravação desse clipe. Sou eternamente grata a cada um que se dispôs a ajudar a gente nessa ideia.

Leonardo: Foram dois dias intensos de gravação e que deixaram saudade! No primeiro dia gravamos em São Paulo com as skatistas, fizemos algumas cenas na pista do chuvisco, na rua e principalmente no minhocão. No dia seguinte gravamos com a banda e os manifestantes aqui em Americana, numa rua meio abandonada, bem o cenário caótico que pensamos mesmo. Tínhamos a ideia de colocar fogo ao redor da banda e deu tudo certo! Pensamos muito em como fazer isso de forma segura. Quase tivemos um pequeno acidente quando, sem querer, um dos assistentes da produção deixou respingar álcool na bateria, tivemos que parar tudo, limpar. Depois disso ainda ameaçou chover e começamos a desmontar o equipamento. Foi um momento meio tenso, porque já estávamos todes ali pra começar a gravação, mas não podia chover. No final não choveu, montamos tudo de novo, o que nos atrasou mais um pouco, mas de tudo certo e o resultado ficou incrível!

Vocês podem falar sobre a música que vocês gravaram pro Projeto Sangue Preto? Alguns integrantes da Derrota também produziram a coletânea, não foi?

Leonardo: Sim, eu estive a frente da produção da coletânea. Depois da onda de protestos contra o racismo por conta do assassinato do George Floyd nos EUA eu comecei a pensar o que nós, enquanto banda no Brasil, poderíamos fazer; e com essa ideia na cabeça eu fui conversando com outras pessoas de bandas como o Anderson do Desobeça, o Xandão do Crexpo, a Josie do Hayz e também o Clayton do selo A Saga e o Canti do selo Caustic Recordings, e a ideia foi tomando forma, criar essa coletânea contra o racismo e contra a violência e opressão policial. Fui conversando e convidando outras bandas e artistas do Brasil todo, no final somamos 25 bandas e 11 artistas que ilustraram o encarte. Todo o processo de produção e criação da coletânea foi discutido entre as bandas para que chegássemos num acordo desde a capa até as opções de como e quando lançar. Saiu em CD pela união dos selos Läjä Records, Caustic Recordings, A Saga, América do Sul, Inside A5 e de todas as bandas envolvidas. Quem se interessar pode comprar uma cópia, que acompanha um lindo encarte em formato de livrinho A5, diretamente com as bandas.

Americana é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

Natt: A cena daqui sempre foi muito intensa, tivemos vários festivais fodas, Americana era referência no role underground, hoje em dia um pouco menos. Passamos por uma fase da qual parecia que as pessoas não gostavam mais de sair de casa pra ver bandas tocarem, essa era minha percepção uns anos atrás. De repente voltou o interesse, aqui mesmo no HUP (estúdio da qual nossos guitarrista e baterista fazem parte) sempre aconteciam rolês incríveis, e estamos com saudades disso.

Leonardo: Realmente Americana já teve shows e festivais memoráveis na música independente. Sempre partindo do faça você mesmo, as bandas e amigos sempre se mobilizaram pra fazer a coisa acontecer.

Últimas considerações? Algum recado?

Leonardo:Agradecemos demais o espaço e a conversa! Há alguns meses vocês lançaram uma coletânea com uma música nova, só podemos agradecer mesmo, de coração, pelo apoio e pelo incentivo a diversas bandas independentes. A cena independente só acontece com nossa força unida! Acompanhem a gente nas redes sociais, Bandcamp… e outras bandas também!

“Parece Insuportável” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista / Selo

De Carne e Flor

De Carne e Flor é uma banda de post-hardcore formada em São Paulo em 2016 e hoje composta por Bruno Araújo (voz), Dan Carelli (guitarra), André Jordão (guitarra) e Eliton Si (bateria/voz).

Em Novembro de 2018 eles lançaram o primeiro EP, “Teto Não Familiar”, e fizeram o primeiro show.

Como quase todo post-hardcore e post-rock o som é muito melódico e as letras emotivas e de natureza vulnerável, nesse caso sob um mesmo tema. Por esse motivo eu recomendo que você ouça antes de ler a nossa entrevista, porque esse aspecto pessoal faz cada um interpretar as letras de uma maneira diferente.

A banda cita como influências Alexisonfire (Canadá), Envy (Japão), Touché Amoré (EUA), Pianos Become the Teeth (EUA), Colligere (Brasil), Suis La Lune (Suécia) e Viva Belgrado (Espanha), inclusive o nome da banda foi inspirado na música deles de mesmo nome, assim como a “inspiração para a exclamação dos versos em idioma latino, o que aumenta a dramatização pois viabiliza uma maneira mais carregada de pronunciar os versos”.

E nem só de referências musicais é feito “Teto Não Familiar”, esse é também o título do segundo episódio do anime “Neon Genesis Evangelion”, exibido pela primeira vez em 1995 no Japão.

Entre todos os seus detalhes, o EP contém quatro faixas que, dispostas de modo linear, formam a frase “A âncora que jogamos nas poças se transforma em medo e em desejo de um teto não familiar”.

A capa do EP é uma ilustração de Cristal Ganda, baseada em uma foto do quarto do vocalista Bruno. A marca quadrada no canto superior direito é uma referência ao Selo Preto (fundado por integrantes da banda), representando seu primeiro lançamento inédito.

Abaixo você lê nossa entrevista com a banda:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Bruno: A banda foi formada em 2016, com integrantes espalhados pela metrópole de SP (e continua sendo assim, mesmo com as mudanças de formação). O som é gritado, melódico e confessional.

“Teto Não Familiar” é um EP conceitual? O nome é uma referência e as letras seguem uma mesma linha de raciocínio. Vocês podem falar um pouco sobre essas escolhas?

Bruno: “Teto não-familiar” é o nome do segundo episódio de Neon Genesis Evangelion. A ideia de lançar um EP com esse nome surgiu na minha cabeça já na época em que a Black Clovd estava na ativa, era pra ser o nome do próximo lançamento, só que em inglês. O tema não foi intencional nas letras, mas ao ver as quatro músicas prontas, enxergamos que elas compartilhavam essa sensação de despertencimento, daí de última hora surgiu a ideia de formar uma sentença com a ordem dos nomes, gerando essa interação entre todos os elementos do EP de forma espontânea.

O primeiro show da banda foi depois do lançamento do EP, certo? Isso não é muito comum, como vocês chegaram a essa escolha?

Bruno: Acho que foi uma questão de foco. Queríamos estar bem ensaiados já na estreia, pra marcar bem o lançamento. Ter o EP lançado também serviu pra atrair o público e o pessoal que andava curioso com a banda desde o início, já que ele levou dois anos pra ser lançado desde que a banda começou. Aconteceu também de o André (guitarra) entrar na banda na reta de finalização do EP, então foram necessários mais uns ensaios pra ele aprender os sons e se inteirar com todo mundo.

A última música do EP, “De um Teto Não Familiar”, tem uma história, né? Você pode falar sobre?

Bruno: Escrevi a letra inspirado numa conversa com a minha mãe, onde ela narrou a trajetória de uma parente próxima que fugiu de casa ainda muito jovem pra se estabelecer em São Paulo (toda a geração anterior à minha da minha família foi nascida e criada no Ceará, tanto do lado materno quanto paterno). A ideia era fazer uma crônica ou um conto mesmo, mas acabou virando uma homenagem aos familiares e ao mesmo tempo um desabafo, tendo a luta e sofrimento que motivaram a ação libertadora da parente e toda sua geração como contraste à letargia e deslocamento que sentia na época que escrevi, e que também vejo permeados coletivamente hoje em dia. Não é algo novo ou criado por nós, mas em discussões ou reuniões a gente vê a diferença de tratamento que as gerações dão para questões de saúde mental. Não dá pra dizer precisamente se é a maior consciência/importância que costumamos dar sobre o assunto que nos faz sofrer do mesmo problema de formas diferentes, mas vejo a discrepância. Enfim, quanto mais falo sobre, mais enrolado fico pra explicar, e acho que a música é sobre isso também (risos).

Em Dezembro vocês participaram da coletânea “Tentáculos” do Selo Preto, que foi fundado por alguns integrantes da banda. Vocês podem falar um pouco sobre ela e sobre o selo?

Eliton: Não tínhamos realizado nenhuma apresentação até a estreia da banda, no final de 2018, então ficamos na febre de tocar por aí. Planejávamos agitar um show por mês por aqui e tocar em todo lugar que nos convidassem. Para isso resolvemos batizar os eventos enquanto o nome de Selo Preto aparecia no meu imaginário e em algumas conversas com bafo de bebida. Ocorreram cerca de 15 apresentações e isso agitou nosso pessoal de alguma forma. Tínhamos do lado as bandas Ravir e Obscvre Ser, que trouxeram bandas de fora de São Paulo e superaram os desafios de atender os custos disso. A coletânea então representava, no fim daquele ano, a compilação de todas as bandas que cruzamos nos eventos que essas bandas tocaram. Me sinto particularmente realizado por ser uma coletânea eclética, afinal tinha anseio de tocar com bandas variadas, no nosso limite ficou um conjunto bem diverso de músicas. O nome veio justamente dos vários “braços” de um polvo, que ele usa para alcançar alimento e trazê-lo para a boca. O objetivo geral é aumentar a visibilidade das bandas que tem seus materiais muito bem produzidos e que duram horas ou poucos dias no feed. Por enquanto o Bandcamp vem contando a história de lançamento das bandas que me impulsionaram a criar algo como um selo, no formato de linha do tempo. Para facilitar que essas bandas de fora viessem tocar aqui, estávamos para reformar o espaço Névoa na zona leste para voltar a realizar eventos lá, ainda bem que não rolou, afinal a pandemia viria deixar tudo isso lá estacionado.

Como anda o aspecto musical nesse 2020 e os planos da banda?

Bruno: É desolador, pois ouvimos falar de picos e estúdios passando por dificuldades, alguns até fechando, e na “camada acima” da nossa no circuito, o pessoal que trabalha nos palcos e na estrada tendo que se sustentar de outras formas por não ser possível realizar shows. Por outro lado vemos bandas próximas com iniciativas legais acontecendo na cena, desde ações beneficentes e merch até lives e sessões caseiras pra manter o pessoal unido, tendo como exemplo o pessoal do Caoticagem, Lili Carabina, Obscvre Ser e Navio. Tem rolado também um interesse em lançar sons caseiros, o que é um grande aprendizado pra quem resolve se aprofundar. Com o equipamento que adquirimos recuperamos o fôlego e retomamos de forma remota, junto com o produtor Igor Porto (que também produziu o EP), as gravações que iniciamos em Fevereiro e ficaram paradas desde então por conta da pandemia.

Últimas considerações? Algum recado?

Bruno: Agradecemos o convite e o interesse na entrevista! Como foi adiantado, estamos trabalhando em dois novos sons e esperamos lançá-los o quanto antes. Esperamos que todo mundo se cuide e ao mesmo tempo lute contra a inércia. Sdds shows.

“Teto Não Familiar” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Maquinas – O Cão de Toda Noite

Em outubro de 2019, o Maquinas lançou uma das melhores surpresas daquele ano. Era o segundo álbum da banda cearense, “O Cão de Toda Noite”. Um álbum para ouvir de novo e de novo, sentindo todas as texturas das músicas com bastante atenção.

A produção do álbum é assinada por Yuri Costa (também responsável pelas guitarras, synths e vocais) e pela própria banda. A gravação, mixagem e coprodução ficou por conta de Felipe Couto, no Quintal Estúdio. Fernando Sanches e Estúdio El Rocha, assinam a masterização.

Dizem que não se pode julgar pela capa, mas é impossível não ser fisgado pela arte do álbum, um detalhe da pintura “Desviando o Olhar” de Bia Leite. Falando nisso, o que não faltam são participações de outros artistas em “O Cão de Toda Noite”.

Sobre isso e muito mais, convidamos Allan Dias (baixo, vocais) para uma belíssima entrevista sobre o novo trabalho da banda. Confira:

Bom, inicialmente, como vai a banda nessa quarentena? Todos bem?

Allan Dias: Estamos indo na medida do possível. Cada um de nós passamos por nossos problemas pessoais que meio que nos impediu de pensar no Maquinas esse tempo todo. Com isso não estamos ensaiando e nem mesmo pensando em fazer lives por enquanto. Não tinha clima para isso.

Agora as coisas estão melhorando e voltamos aos trabalhos. Em breve já iremos anunciar uma música nova e quem sabe um possível show via transmissão de YouTube.

O álbum foi lançado em Outubro de 2019, deu tempo de botar ele na estrada antes da pandemia? Como tem sido a recepção?

Infelizmente não. Foram dois shows de lançamento do álbum no final do ano passado aqui em Fortaleza e, quando estávamos já fechando algumas datas, a pandemia veio e estragou os planos de todo mundo.

A recepção tem sido ótima. Sinto que, além dos fãs cativos da banda desde o início, também chamamos atenção de um público que não ouvia a gente na época do “Lado Turvo” e isso é muito legal.

Mostra que é um álbum que trouxe uma nova forma de fazer a nossa música e que tem uma parcela de pessoas interessadas em ouvir algo diferente e honesto e não apenas um “Lado Turvo 2”, sabe.

Como foi o processo de composição e gravação? A gente percebe que cada música tem toda uma textura, diversos elementos e são músicas longas também (com exceção de “Melindrone”). Como foi juntar tudo isso até dar forma ao álbum?

Algumas composições como “Maus Hábitos”, “Corpo Frágil” e “O Silêncio é Vermelho” estavam nos estágios finais em 2018.

Com a saída do Samuel e a entrada do Yuri ainda no final do mesmo ano, fizemos alguns giros pelo nordeste e no início do ano decidimos focar em fechar estas composições e criar novas até as gravações. Foi um processo bem intensivo onde toda semana estávamos trabalhando nas composições.

Sempre fomos cuidadosos com timbres mesmo, gostamos de explorar bastante o que podemos tirar dos nossos instrumentos.

Com o Yuri a nossa metodologia mudou um pouco e experimentamos bastante as estruturas das canções. Tenta um arranjo ali, não ficou legal, volta, tenta outro. Até achar o ponto em que todos nós ficamos felizes com o resultado.

Nossas músicas são naturalmente longas, mas esse álbum em comparação ao “Lado Turvo” está mais acessível com relação a duração das músicas hein haha!

E sempre pensamos nessas canções como um todo. Não é um álbum conceitual, mas dá pra perceber que exista ali uma linha que conecta todas elas. Uma cadência de ambientações e sensações.

O álbum tem muitas participações de outros músicos né, como aconteceram essas parcerias?

Todos que participaram do álbum são amigos muito próximos e que admiramos demais. Esse álbum tem um pouco de tentar entender o mundo fora de uma mentalidade individualista, um processo de crescimento e compartilhar a vida com o próximo e as consequências positivas e negativas disso.

Não queríamos fazer um álbum com a banda isolada do nosso mundo como foi o “Lado Turvo”, aí lembramos que temos tantos amigos talentosos e que seria muito renovador ter eles do lado.

A Clau Aniz talvez nem precise falar muito sobre. Uma das melhores artistas que surgiu aqui nos últimos anos e vem crescendo bastante na cidade com seus trabalhos.

A Ayla Lemos em breve vai lançar seu projeto junto com o Felipe Couto, da Astronauta Marinho, que se chama “Leves Passos” e vai chamar a atenção do cenário, certeza, pela qualidade do que ouvi.

O Eros Augustus talvez seja um dos melhores tecladistas dessa cidade. Criativo e instigador, um cara que fez as linhas de teclado como se estivesse tirando doce de criança hahaha!

O Breno Baptista é um grande amigo de infância meu e do Robertoz, cineasta talentoso que escreveu uma letra muito intimista e intensa, assim como sempre foi nos trabalhos que ele fez no cinema. E Y.A.O. nos impressionou muito quando vimos o seu projeto ao vivo, o Sila Crvz.
Quando vimos o quanto ele explorava no teremim nós simplesmente não conseguíamos parar de pensar o quanto queríamos contar com ele no nosso álbum.

Então para nós cada participação tem muito de nossa amizade ali embutida.

O que vocês procuraram mudar em relação aos trabalhos anteriores?

Nunca é algo deliberado 100% sobre o que vamos mudar em cada trabalho, mas estamos sempre em uma sintonia de inovar, que parte muito do quanto estamos nos inspirando por coisas novas, seja música, artes em geral e até mesmo a nossa própria vida pessoal.

Então mudar para nós é algo muito natural. Se fôssemos fazer sempre algo próximo do primeiro EP ou do “Lado Turvo”, talvez a banda nem estivesse existindo agora.

O que vocês estavam ouvindo na época para se inspirar?

Lounge Lizards, Beak>, Metá Metá, Patife Band, Cidadão Instigado, Jards Macalé, Artigo Barnabé, Laurel Halo, Autechre.

Além da música, lendo livros de autores como China Mieville, Mark Fisher, Ian McEwan e também filmes do Kielovski, Ken Loach, Ignes Varda e por aí vai.

De onde surgiu o nome “O Cão de Toda Noite”?

Nos inspiramos na ideia do cão que perneira a melancolia do ser como um eterno companheiro.

Estávamos eu e o Gabriel lendo o livro “Cães Negros” e também lendo um pouco da crônica do Churchill fazendo a metáfora do cão negro para a depressão.

Com o tempo achamos que o termo cão negro não era tão interessante assim por dois motivos:
1 – É um termo atrasado e soa um tanto quanto problemático porque não condiz bem essa coisa da cor com a melancolia e a tristeza do ser.
2 – Foda-se o Churchill!

Logo pensamos no cão de toda noite. Aquele que nos visita em nossos sonos pesados, inspirado também na história do cão de Bakersville, mas não como um assassino a espreita, mas uma estigma que carregamos e cada vez mais olhamos pra si e para o cão, essa estigma pesa menos e menos.

É uma reflexão sobre como ficamos frágeis nos momentos em que estamos em nossos cômodos nas horas mais tardias do dia e sobre como estamos refletindo sobre nossas próprias vidas e sobre o mundo.

Pode falar um pouco sobre a capa do álbum?

A capa do álbum é um trecho da obra da Bia Leite, artista de Fortaleza, chamada “Desviando o Olhar”.

Na verdade a arte foi muito inspiradora para nós e meio que foi um dos pontos centrais para pensarmos a ideia do álbum. Gostamos dessa forma de fazer porque dá também uma outra vida e significado pra arte. Deixa tudo mais rico.

A Bia é uma artista talentosa e sempre que podemos falamos do quão importante essa arte foi para a ideia do “O Cão de Toda Noite”.

A banda já tem algum novo projeto em mente?

Nos próximos dias estaremos lançando um cover para a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavirus” e vai contar com a participação da Clau Aniz. Não vou dar spoiler de qual música é pois vai estragar a surpresa, mas será no mínimo curioso para muitos a escolha.

Além disso estamos pensando em um álbum de B-sides e Remixes do Cão para um futuro próximo. Com a pandemia não tivemos shows e nem forma de financiar essa ideia, mas creio que em breve estaremos dando novidade sobre este projeto.

São ideias que nos deixaram bastante empolgados com o próximo passo da banda, com certeza, mas acima disso queremos muito poder realizar a enfim turnê de lançamento do “Cão de Toda Noite”.

Passar por regiões que temos fãs de longa data como a região sul e centro oeste além de, claro, poder passar nas cidades que temos muito carinho como Recife, São Paulo e outras que já visitamos.

Espero que também seja o então momento que consigamos entrar nos festivais mais interessantes do país, mas acho que a pandemia vai deixar com que 2021 ainda seja um ano incerto tanto para turnês quanto para festivais… Só o tempo dirá o que vai ser.

“O Cão de Toda Noite” está disponível no Bandcamp, Spotify, Deezer e Youtube.


Lançamentos / Playlist

Singles de Setembro

Hoje vamos publicar algo diferente do que estamos acostumados, mais uma das mutações do nosso blog/site/ainda não sei como chamar.

Nessa semana chegaram até nós alguns singles e resolvemos vir aqui falar deles. E primeiramente tamos felizes de mostrar algumas músicas de estreia.

Pata “Casa de Gelo”

Se você acompanha o Bus Ride Notes provavelmente já conhece a Pata, além de estar em algumas das nossas playlists, publicamos uma pequena resenha do primeiro disco da banda, “Shit & Blood”.

Nessa quarentena eles resolveram se aventurar com singles gravados e produzidos em casa, numa “série de experimentações sem pretensão de definir uma chave sonora para os novos passos, também com a proposta de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos”.

Os já lançados “blsnr pnt mrch” e “Casa de Gelo” são em maior parte eletrônica e bem diferentes da banda que toca um rock que eu chamo de grunge.

“Casa de Gelo” tem uma melodia calma e uma letra tristinha que pra muitos é sinônimo da quarentena, mas ela na verdade foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano.

Ela tem a participação de Sentidor (também responsável pela mixagem e masterização) nos beats e ambiências eletrônicas e foi lançada pela Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records.

A capa ficou por conta de Hanna Halm e também foi lançado um lyric video, produzido por Lúcia Vulcano.

O próximo single previsto é um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

Tigre Robô “Desconforto”

Formada no final de 2018 em Brasília por Isabela Fernandes (guitarra, teclados, voz), Junio Silva (baixo, teclados, voz) e Rafael Lamim (bateria), Tigre Robô acaba de lançar seu primeiro single, “Desconforto”. “Uma música sobre esperar pelas coisas acontecerem quando o tempo não está ao seu lado”.

A banda está gravando seu primeiro álbum e pretende lançar mais um single até o mês de Dezembro.

Eles também participaram da nossa matéria sobre gravações caseiras durante essa quarentena.

A arte de “Desconforto” foi feita pela própria Isabela Fernandes.

Tropikaos Chaga “As Ruas Vão Queimar”

“As Ruas Vão Queimar” é o primeiro single do duo Samuel Kircher (voz, guitarra, baixo) e Érico Munari (bateria), que foi gravado já durante a quarentena de 2020 (será que ao nos referir à quarentena vamos ter que especificar o ano? Espero que não).

A música foi lançada já tem um tempinho, mas o lyric video (editado pelo próprio Érico Munari) acabou de sair.

“As ruas, os dias, as notícias do cotidiano em um país problemático como o Brasil, compõem as letras e o barulho da banda”, ou seja, aquele punk rock rasgado cheio de distorção que a gente gosta.

Kebrada HC “Unides Pelo Ódio”

“Banda punk/hardcore antifa femininja diretamente da periferia do ABC”, formada por Letícia Souza (voz), Juliana Moreira (guitarra) e Victória da Cunha (baixo) em 2019.

Apesar de ser uma banda nova e essa ser a primeira música que elas lançam oficialmente, a Kebrada HC já é um tanto conhecida e é bem ativa.

“Unides Pelo Ódio” foi lançada junto de um video com trechos de shows em comemoração ao aniversário de um ano de banda.

O amigue e baterista Tobias de Teipó participou da gravação do single, mas a banda ainda está a procura de um baterista.

Ano passado fizemos uma entrevista com a vocalista, Letícia, onde ela explica porque se afastou do “rolê punk” e começou a frequentar a nova “cena” paralela que tá rolando em São Paulo. Ver isso tomando uma forma ainda maior através de mais uma banda faz uma lágrima escorrer no meu rosto.