Bus Ride Notes
Entrevistas

Gagged

Gagged foi formada em São Carlos (SP) em 2004 e hoje é composta por Zeca Ruas (voz), Rodrigo Gutz (guitarra), Eric Costa (baixo) e Murilo Ramos (bateria).

A banda de hardcore melódico que faz “música para reflexão, mudança e liberdade coletiva” tem dois discos lançados, “Silent” (2011) e “Sobre Nós” (2018).

Abaixo você lê nossa entrevista com eles, onde você conhece a banda, o disco “Sobre Nós”, a “cena” de São Carlos e mais:

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Olá pessoal, valeu pelo interesse e pela possibilidade de falar sobre a nossa caminhada.
A Gagged é uma banda de hardcore melódico do interior paulista, fundada em São Carlos. Dizemos “fundada” porque há um bom tempo moramos em cidades diferentes, viajando entre São Carlos, Campinas ou Araraquara. A banda sempre pretendeu dialogar com as referências fundamentais do punk e HC, especialmente as várias linguagens dos anos 80 e 90. É o que “salta ao ouvido” quando se ouve pela primeira vez, mas parte do tempero das nossas composições vem também de outras pegadas, dentro e fora do rock. Tivemos muitos músicos diferentes ao longo da história, e cada um foi deixando suas “digitais” no nosso trabalho, dá pra ver a banda se transformando nas gravações e no palco ao longo do tempo.
Desde 2004, quando tudo começou, a banda já teve “revezamento” em todos instrumentos, a única exceção é a bateria, marretada desde sempre pelo fundador, Murilo Ramos. Ali Zaher (guitarra) e Eric Costa (baixo) também carregaram o piano durante mais ou menos dez anos. Estes três participaram da gravação dos dois álbuns, e também dos clipes lançados até agora. Além deles, mais de dez músicos, inclusive vocalistas, estiveram na estrada, no palco ou no estúdio com a Gagged.
Hoje a banda conta com Murilo Ramos (batera), Zeca Ruas (vozes), Rodrigo Gutz (guitarra) e Eric Costa (baixo). Zeca entrou em 2013 e segue desde o final da tour de “Silent”. Rodrigo entrou no lugar no Ali durante a preparação para o lançamento do segundo disco, “Sobre Nós” (2018), ele fez toda a tour de lançamento e vem segurando sozinho, desde o começo de 2019, os arranjos que eram para duas guitarras. O Eric saiu mais ou menos na época que o Ali deixou a banda, ficou de fora da tour de lançamento, mas acaba de retornar pra dar os próximos passos da Gagged.
Essa constante transformação dá um aspecto peculiar para as músicas e shows, cada um que participou trouxe um pouco de suas ideias, timbres, preferências musicais, arranjos e, acima de tudo, sua subjetividade. Na parte musical, é um mosaico de referências, mas quando o assunto é visão de mundo, as convergências foram sempre fundamentais e isso é parte da nossa identidade. Todo mundo que passou pela Gagged sabe do papel da arte em provocar a reflexão, iluminar aspectos da nossa existência coletiva, de repensar o possível. Somos uma banda de pensamento crítico e fizemos questão de levar isso para as músicas.
Esse caldeirão aparece de maneira mais elaborada no último disco, “Sobre Nós”, e quanto mais vezes se escuta o álbum, mais evidente vai ficando. As músicas e letras foram pensadas pra serem decantadas com o tempo, são camadas de som e ideias e é preciso escutar e pensar aos poucos para que elas revelem todos os sentidos que tentamos imprimir.
Muita gente prefere algo instantâneo, viral, e isso ajuda no aspecto comercial, mas nunca quisemos ser uma banda para consumo em massa. É proposital: nossa linguagem aposta nas reflexões e arranjos que podem fazer sentido com alguma contemplação… é para sair da massa mesmo, questionar valores coletivos. Claro que nem todo mundo vai gostar, e não gostar não significa ser menos engajado ou algo ruim, nós mesmos temos nossas críticas ao disco. Mas, goste ou não do resultado, concorde ou não conosco, se parar pra ouvir e pensar, nos ver nos shows, vai ter a chance de ser provocado por perguntas e sentidos peculiares. Se nosso trabalho ficou bom, cada um vai dizer o que pensa. Pra nós, isso é o que vale a pena na música.

Entre o primeiro e o segundo disco a banda trocou alguns integrantes, a maior diferença que a gente vê é que as letras eram em inglês e agora são em português. Vocês podem falar sobre essas mudanças?

Tem bastante mudança entre os discos. Acho que quatro coisas ajudaram nessa transformação: a primeira, a própria evolução dos músicos que estiveram em ambos, depois, a entrada do Zeca (voz) e do Lique (guitarra), uma terceira, o momento histórico do país durante a elaboração do disco e por último, a forma como produzimos e gravamos.
A entrada do Lique, no final de 2014, adicionou muita qualidade na guitarra, ele fez uma baita dupla com o Ali nas cordas. Os arranjos evoluíram bastante entre o primeiro e segundo disco, são muitas linhas, timbres e detalhes pensados para cada lugar. O Lique tem uma mão esquerda muito rápida, o Ali tem uma mão direita muito precisa, as interações das guitarras foram ganhando destaque ao longo dos anos e chegaram ao ápice na época de gravação.
O Zeca Ruas foi responsável por escrever a maior parte das letras em português. Quando Ali e Murilo o convidaram pra entrar na Gagged, essa ideia já fazia parte da proposta, a banda sentia que cantar em português poderia aproximá-la do público. O nome e as letras em inglês, até o disco “Silent”, refletiam a forte influência da estética das bandas de hardcore brasileiro dos anos 90, mas a ideia era buscar outros espaços. Além disso, o Zeca, que já tinha composto e cantado em português em outras bandas, também preferia seguir por esse caminho.
As letras de “Sobre Nós” foram escritas entre 2013 e 2017, mais da metade delas no últimos dois anos desse período, a coisa tava fervendo pra todo lado, o momento político ficou completamente entranhado nas letras do disco e ele apontou para o desfecho trágico que vem se consumando até hoje. Nada que mereça comemoração… mas a gente estava apontando na direção correta. Todas essas situações se somaram no processo de produção do disco.
O Ali assumiu definitivamente sua carreira de produtor e a gente acabou usando toda estrutura do Estúdio Sunrise, em Araraquara. Essa possibilidade fez total diferença, não gravamos nada com relógio contado, regravamos tudo o que tivemos vontade. Óbvio que isso nem sempre é bom e também sabemos que acabou alongando o processo por demais. Por outro lado, esse percurso nos permitiu criar muita coisa. Parte importante dos detalhes de arranjos foi forjada no próprio processo de gravação. Se não tivéssemos essa liberdade, certamente teríamos algo bem menos elaborado e com certeza teríamos aprendido e curtido muito menos.

Vocês podem falar sobre o processo de composição das letras de “Sobre Nós”? Elas têm meio que a mesma linha de raciocínio, não?

Não foi nada planejado, as letras não foram pensadas para formar um disco conceitual, apesar disso, saíram totalmente conectadas. A primeira letra que o Zeca escreveu, assim que entrou na banda, foi “A Máquina”. Na verdade, foi “Vencer ou Viver”, que não saiu no disco. Elas foram escritas juntas, em 2013, e, mesmo não tendo um conceito pré-acabado, elas já davam a tônica do tipo de letra que estava por vir. Tudo refletia, sob ângulos diferentes, os efeitos do neoliberalismo sobre nossa vida como indivíduos, seja em aspectos universais, seja em termos nacionais.
A banda toda estava acompanhando muito apreensiva os desdobramentos da política brasileira, mas também as rupturas ao redor do mundo, em todo canto do planeta explodiam convulsões, migração, xenofobia, fome, conflitos e uma escalada de valores conservadores. Todas as crises que aparentavam ser distantes do cidadão comum, na verdade vinham, cada vez mais, se refletindo brutalmente em nossa vida, na convivência humana. Todo mundo trabalha mais, por mais tempo, vive vidas virtuais e vazias de sentido. Somos impulsionados a pensar como seres isolados, desconfiar e concorrer com as demais pessoas. A cidade é hostil, física e culturalmente. Ela é agressiva na moradia, no transporte, no trabalho pra maior parte das pessoas. Perdemos o controle sobre o tempo de nossa existência. Somos anestesiados por pequenas doses de prazer empacotado. A depressão se torna nossa vizinha permanente.
Vivemos extasiados pela hipersexualização da vida e pelas drogas, e empurrados à reificação de nossos sentidos primitivos que, controlados pelo dinheiro, nos torna dóceis e submissos. Vivemos uma sociedade de ressentidos, incompletos, massificados.
As letras refletem os diálogos da banda sobre esta realidade universal em suas múltiplas faces, sempre filtradas liricamente pelas leituras de Marx, Nietzsche, Freud, Marcuse, Sartre, Keynes e tantos outros autores que o Zeca vinha lendo naquele período.
Entre 2016 e 2017, quando o caos no Brasil se tornava evidente, as letras se voltaram ainda mais para entender como essa realidade afetava os problemas do país. Com menos ou mais metáforas, “Cidade Sem Lugar”, “31 de Março”, “Fim da Linha” e “Caleidoscópio” são diálogos sobre o Brasil deste período.

Falando em “Caleidoscópio”, ela tem a participação de Greg Hetson (Bad Religion, Circle Jerks, Black President, etc), né? Como surgiu essa colaboração?

Esse é um dos nossos maiores orgulhos haha. Nunca esquecemos do dia em que a notícia chegou: “Greg vai gravar!”. Foi um arranjo bem rápido, quem fez a ponte pra gente foi o Nick Townsend, que já era amigo do Ali há algum tempo e foi também parceiro dele nos primeiros trabalhos no Sunrise, ele masterizou nosso disco no seu estúdio, nos EUA. Nick, que também tocou em bandas foda por lá (escutem Fireburn!), de vez em quando fazia som com o Greg Hetson. O Ali fez todo o contato e depois escolhemos a música que achamos que merecia um solo dele. Sempre fomos muito fãs de Bad Religion. Uma cena comum na banda era: carro lotado, viajando para fazer show em algum canto, escutando discos do Bad Religion e o Murilo falando, pra toda faixa que começava, “Essa música é foda!”. Uma atrás da outra.
A gente conhecia o estilo de solo do Greg, seus bends, as tortuosidades harmônicas. “Caleidoscópio”, do arranjo à letra, é uma caravana rumando para o abismo, para o caos. A escolha era óbvia… match perfeito. Mandamos a música pra ele e ele curtiu. Em pouco tempo, enviou o solo pra gente. Infelizmente, depois da saída do Ali, a gente acabou não mantendo contato com ele. Seria muito foda poder tocar junto um dia. 

Eu li em uma entrevista (no site Seguimos Fortes) que alguns integrantes moram em São Carlos e outros em Campinas. Isso ainda é verdade? Como rola essa questão já que não são cidades assim tão próximas?

Atualmente só o Zeca mora em Campinas. Murilo, Eric e Rodrigo estão em São Carlos. Em geral, quando a intensidade de ensaios aumenta, sobra um pouco mais pro Zeca, ele vem de Campinas de carro. Muitas vezes rola ensaio só instrumental e ele acaba não vindo, mas já fizemos vários esquemas. Durante as composições de “Sobre Nós” chegamos a fazer alguns ensaios em Rio Claro, que fica no meio do caminho entre São Carlos e Campinas.
Não é fácil, mas, por enquanto, tá valendo a pena esse corre. A gente curte se encontrar, conversar sobre política, sobre a vida e fazer um som juntos. Confiamos uns nos outros e sabemos que podemos fazer algo que sejamos fãs. Isso nos motiva a seguir, apesar dos perrengues.

Pensando no mundo antes do Covid, Gagged é uma banda que costuma fazer tours, vocês podem falar sobre como é sair em tour sendo uma banda independente?

Esse lance do COVID foi muito foda pra gente. Não curtimos essa pegada de gravar em casa, celulares… Na verdade, nem tentamos. Demoramos meses para conseguir sair do isolamento e botar alguma ideia nova pra rolar. Agora começou a acontecer, mas deu canseira pra ajustar.
Na real, sentimos muito a falta de estrada, fazer show é um lance indispensável para uma banda. Viajar, conhecer as realidades locais, músicos de cada região, sentir o retorno do palco. Acreditamos que cada viagem ajuda a plantar uma semente em cada lugar, uma conexão real, com pessoas de verdade, e que isso ajuda nossa música ecoar mais longe.
Obviamente, a gente tá ligado que a música independente é cada vez mais virtual e que os shows autorais são cada vez mais vazios, mas em várias cidades acabamos construindo um público bacana, que nos permite ter confiança de levar shows com alguma frequência para cidades diferentes. Mas, além do som, fazer os contatos, se encontrar ao vivo é uma forma de também permitir que a gente siga com algum tipo de produção cultural.
A história do punk e do hardcore é sempre igual: as bandas acabam misturando a música com alguma atividade de produção artística, cultural ou ativismo. Nos lugares em que as bandas organizam seus shows e formam público, rola um circuito e um intercâmbio maior. Produtor independente só entra depois que já tem algo rolando e que garante que vai conseguir pelo menos fechar a conta do evento. No punk e hardcore, as bandas sempre foram o farol para a sustentabilidade econômica da “cena”.
Pra nós, que fizemos shows em todo canto no estado de São Paulo e nos estados vizinhos, foi ficando mais fácil organizar turnês, fechar parcerias com outras bandas bacanas pra viajar junto… O mais difícil é sustentar essa rotina cansativa de longas distâncias, noites mal dormidas e, em boa parte dos casos, morrer com uma fatia dos custos.
Já rodamos centenas de quilômetros domingo de madrugada, depois de shows cansativos, pra chegar a tempo do trabalho na segunda às 8h da manhã. Foram várias vezes esse esquema. Só quem tá muito confiante na sua música faz isso.
Também acreditamos que nos próximos projetos, quando acabar a pandemia, a gente já vai conseguir, pelo menos, fechar essa conta financeira e poder selecionar melhor os eventos… Mas, pra que isso fosse possível, tivemos que comer muito asfalto e salgado vagabundo de estrada.

São Carlos é interior de SP, vocês podem falar um pouco sobre a “cena” daí? Ela tem mudado muito nos últimos anos como em São Paulo e outras cidades?

São Carlos sempre foi uma cidade com bastante rock n’ roll, a presença de duas grandes universidades públicas sempre garantiu um monte eventos de Centro Acadêmico e DCE. Estruturas de som mínimas e espaços de boa qualidade garantiam que sempre rolasse algum rock. É verdade que muitos desses rolês eram de bandas de festa, um combinado de covers dos anos 1970, questão de tempo até tocar “Born to be Wild”. Mas a cidade sempre teve galeras diferentes que curtiam rock autoral, de todo tipo: além do rock n’ roll, a galera da música extrema, do punk e do hardcore fizeram shows e registros importantes no fim dos anos 80 e nos anos 90.
Na virada para os anos 2000, graças ao Marky Wildstone (Dead Rocks, Bifidus Ativus, The Mings), as turnês de bandas independentes que a Highlight Sounds (SP), Monstro Discos (GO) e Motor Music (BH) organizavam passavam quase sempre por São Carlos. Tocaram por aqui os gringos do Man or Astroman, Pulley, …And You Will Know Us by the Trail of Dead, Nebula, Flatcat, além de quase todas as bandas de hardcore brasileiro que despontavam nos anos 2000.
A Gagged é produto dessa ebulição. Além da banda, em meados dessa década o Murilo também começou a produzir. Ele fez dezenas de shows, também levou muita banda nacional e gringa para os palcos da cidade. Outros produtores importantes também ajudaram a manter sempre alguma atividade e até hoje, mesmo com altos e baixos, é uma cidade que abriga bons eventos. Mas, como em todo lugar, os shows de hoje são menos cheios e outros estilos ocuparam público que antes era de rock, especialmente na universidade. As festas se tornaram eventos gigantes e elitizados (veja o exemplo do Tusca), dominados por uma lógica muito mais mercantil e massificada. 

O que vocês têm ouvido ultimamente? Tem alguma banda que tá sempre tocando na sua playlist?

Tivemos momentos em que escutávamos mais da mesma coisa, mas isso foi se transformando, e isso é uma coisa boa. Vamos tentando abrir a cabeça um do outro pra outras coisas e isso sempre aparece na hora de compor.
O Murilo tem escutado Turbonegro (Scandinavian Leather), The Damned, Queens of the Stone Age, Rocket From the Crypt e Ramones. O Zeca tem escutado bastante HC e uns mergulhos nas bandas de rockão e stoner, Good Riddance, Lowrider, Propagandhi, Black Drawing Chalks e Kyuss. O Rodrigo segue pesquisando referências em vários lugares, recentemente ouviu Periphery III, Andy Timmons (Resolution), Propagandhi (Today’s Empires, Tomorrows Ashes), Herbie Hancock (Live at Montreau) e Toto IV. O Eric tá numa vibe terapêutica, numas levadas mais emo, Hey Mercedes, The Get Up Kids, Lifetime, Saves the Day e Hot Rod Circuit estiveram presentes nos últimos tempos. 

Últimas considerações? Algum recado?

Em primeiro lugar, agradecer quem chegou até aqui. Se leu até agora é por que fez algum sentido caminhar um pouco dos nossos passos. Se ainda não conhece nosso material, não acompanha a gente nas redes sociais, saiba que cada novo comentário, compartilhamento ou indicação vale muito para nós, vai ajudar seus amigos a escutarem nossa música. A gente depende dessa rede de pessoas que curtem a estética do punk HC e estão a fim de repensar aquilo que vivemos. Fica ligado com a gente, a volta do Eric trouxe novo impulso e nós começamos um ciclo novo de composição. É um desafio bacana depois de tanta mudança de formação e depois da nossa tour de lançamento. A gente aprendeu muita coisa nesse processo e queremos por em prática nesse novo material e num possível lançamento, assim que a pandemia passar.

A discografia da banda está disponível nas redes de stream.