Bus Ride Notes
Entrevistas / Selos

Tudo Muda Music: É nois na fita K7 (de novo)!

Você já ouviu música em fita? Já encontrou uma fita do seu artista preferido? Sim, fita mesmo. Fitas cassete! Leitores novinhos, vão agora lá nos seus pais e perguntem pra eles o que diabos é uma fita cassete (ou k7 mesmo).

Essas fitas viveram seu auge durante os anos 80 e 90, e depois caíram em desuso com a chegada do CD. Mas quando ninguém mais esperava, elas voltaram! Pra ter uma ideia, de acordo com a British Phonography Industry, cerca de 156,542 fitas foram vendidas em 2020 no Reino Unido (um aumento de 94.7% em relação à 2019).

Mas e aqui no Brasil? Bom, aqui se você quer falar desse revival das clássicas fitinhas, você vai ter que falar sobre a Tudo Muda Music. Esse selo independente de Brasília vem lançando material dos seus artistas em belíssimas fitas cassetes, tudo feito por eles mesmos. E eles estão a todo gás, viu? Foram 30 títulos no catálogo do selo só em 2020 e, pelo visto, o selo só tem a crescer.

Pra falar sobre o Tudo Muda Music e bater um papo sobre formatos analógicos, o Bus Ride Notes entrevista Mauro Rocha, fundador do selo e um legítimo nerd de música. Confira:

Como começou a Tudo Muda Music?

A Tudo Muda Music é um pequeno selo musical de Brasília, que começou em 2015.  Desde o princípio até meados de 2019 o selo lançou apenas meus projetos musicais. Sou músico, toco baixo e sintetizador, sendo meu projeto principal o Transistorm. Por conta da minha atividade com essa banda e outros projetos paralelos, comecei a produzir discos a partir de 2015, quando criei a Tudo Muda.

Em 2019, após o selo acumular alguma experiência na produção de fitas, vinis e CDs (dos meus projetos) no Brasil e no exterior, surgiram as primeiras possibilidades de parcerias para produzir lançamentos de outros artistas-amigos do selo, com Abismo, Stvz, Frank Sidarta, e Signo XIII, chegando ao fim do ano com 11 títulos lançados em 20 formatos físicos.

Em 2020, apesar da pandemia da covid-19, o selo seguiu trabalhando a todo vapor, chegando ao fim do ano com 30 títulos no catálogo. Uma importante parceria também foi acrescentada: a associação com a Torto Disco, selo de música instrumental/experimental de Brasília que passou a lançar CDs e fitas em conjunto com a TMM.

Agora em 2021, seguimos lançando ótimos sons, como Joe Silhueta, Groupies do Papa, Visiorama, entre outros, sendo que tudo sai em formato digital mas também é lançado em fitas e/ou CDs. Já chegamos a 40 títulos no catálogo, que pode ser visto e ouvido gratuitamente no nosso Bandcamp, nossa principal “janela”.

Também estamos iniciando uma nova parceria com o selo Maxilar, do Gabriel Thomaz, do Autoramas, que deve trazer uma série de novos artistas muito interessantes ao catálogo do selo, o que é uma alegria e uma honra pra nós!

De onde surgiu a ideia de produzir as fitas k7 dos artistas do selo?

Da necessidade! Em 2015, 2016 eu comprei algumas produções de bandas brasileiras em fita (acho que era algo da Desmonta Discos), daí tentei obter os contatos pra produzir e constatei que as fitas na verdade eram feitas na Argentina. Lembro que pensei, “não é possível que em um país do tamanho do Brasil ninguém produza fita cassete! Tem até fábrica de vinil no país!”. Mas era verdade e não tinha mesmo onde produzir, aí no fim de 2016 eu comecei a tentar comprar tape decks e fitas virgens pra produzir eu mesmo, estilo D.I.Y..

Durante 2017 me dei mal várias vezes, comprando sons antigos e tentando consertar, sempre dando tudo errado, até que comprei um tape deck novo, gringo, de qualidade razoável, mas no qual consegui fazer as primeiras fitas da Tudo Muda. Também precisei desenvolver toda a parte gráfica, como templates e facas das capas e rótulos, e por fim conseguir o canal de importar as mídias, ou seja, as fitas “virgens”, o que é outro processo bem chatinho até hoje, mas que felizmente o selo vem conseguindo dominar nos últimos anos.

Em 2018, logo após eu conseguir fazer tudo isso, a Polysom começou a produzir fitas de forma industrial. Apesar de aparentemente isso ser um “banho de água fria” no meu esforço, foi algo excelente. Como eles trabalham com pedidos a partir de 50 cópias, isso trouxe uma alternativa para trabalho que não teríamos como fazer com nosso sistema de duplicação. A Tudo Muda produz com a Polysom sempre que necessário, mas hoje em dia também conseguimos fazer as nossas pequenas produções. Além disso, como não conseguimos atender encomendas de artistas interessados, sempre recomendamos a Polysom quando nos procuram nesse sentido.

E a aproximação com os artistas que são lançados pela Tudo Muda? Como ela acontece? Como é feita a curadoria de vocês?

Nossa capacidade de produção é bem limitada, então a gente se atém a uma linha de curadoria dentro da proposta do selo, que é de lançar música contemporânea, em geral que traga algo de novo/diferente em termos de sonoridade. Muitos sons que “não se encaixam” em apenas um estilo são lançados pelo selo. Também damos ênfase aos sons eletrônicos e instrumentais.

A aproximação com os artistas acontece de várias formas, no início era algo mais proativo nosso, atualmente recebemos propostas pelo email (info@tudomudamusic.com) que podem ou não se adequar à linha do selo, daí entramos em contato quando é o caso. Felizmente, agora já temos um cronograma de lançamentos pros próximos três meses, com muita coisa excelente vindo por aí até o fim do ano. Mas continuamos abertos e interessados em ouvir novos sons, especialmente que tenham a ver com nossa “linha editorial”. Basta mandar pro email acima (a gente responde sempre que tem a ver).

Você tem alguma memória afetiva com formatos físicos? Conta pra gente.

Sim, muita! Desde criança eu amo música e com 9 anos comecei a comprar fitas cassete. Na época, minha família foi morar no exterior (Lima, Peru) e meu pai só comprou um tape deck, não tive toca-discos até voltarmos ao Brasil, três anos depois, então na minha infância era só fita. Também dava pra gravar e ouvir no walkman e no carro, então essa coisa da portabilidade era ótima. Depois, na adolescência, fiz muito tape trading na época de ouro dos zines e fitinhas caseiras.

E até hoje coleciono vinis, CDs e fitas cassete, tenho uma coleção de mais de 3300 discos, devidamente cadastrados no Discogs (user: volume22).

Esse envolvimento afetivo com os discos desde a infância e o colecionismo ativo de discos até hoje me ajudam muito a obter resultados interessantes na construção do aspecto visual dos discos da Tudo Muda, claro.

A gente vê que as fitas tem todo um trabalho estético muito bem feito né, como é esse processo de produção?

Sim, tem a ver com nossas referências estéticas, de selos – principalmente Warp Records, ECM, Tzadík, Magaibutsu e, aqui no Brasil, Wop Bop e Essence Music.

Aí tentamos ser o mais criativos possível, levando em conta as artes dos discos, tentando selecionar fitas e caixas que combinem bem.

Você, Mauro, tem alguma fita preferida lançada pela Tudo Muda? Uma que você olhe e pense “Putz, esse trabalho aqui ficou lindo”.

Sim, mais de uma, na verdade. As principais seriam: Os Gatunos (2020), tem um contraste muito bom entre a fita, caixa e arte; Stano Sninský (2020), primeira experiência com rótulos em vinil translúcido, nessa fita funcionou muito bem; Transistorm (2021), fita translúcida, caixa não-translúcida e capa adesivada na fita; Fita Groupies do Papa (2021), com “luva” externa.

É meio difícil achar quem tenha um toca fitas hoje em dia, mas também está acontecendo todo um revival de formatos físicos, né? As fitas da Tudo Muda são mais como souvenirs? Como vocês pensam essa questão?

Sim, diferente do vinil (que em geral quem compra, ouve), com as fitas cassete dificilmente quem compra vai escutar. Nossas fitas vêm até com código de download pra quem compra já baixar.

Mas tem bastante a coisa do colecionismo, sim, eu costumo comparar com comprar um brinquedo antigo, que você não vai jogar mas acha legal ter na prateleira.

As fitas cassete também têm até hoje muito apelo, mesmo com pessoas muito mais jovens e que não tiveram esse formato como sua principal forma de consumir música. Talvez pelo design, talvez justamente por remeter a uma época que foi muito importante na música e na cultura (anos 70 e principalmente 80).

Recentemente o Discogs publicou uma lista das 100 fitas mais caras já vendidas no site (a mais cara foi uma do Linkin Park por 4.500 dólares), e começam com o seguinte comentário, traduzido:

Os cassetes estão voltando. Não, sério.
O vinil como uma forma de colecionar e compartilhar música já não é mais novidade em 2021. (…) Ao contrário de seus equivalentes de cera, os cassetes são bastante baratos para produzir (como artista) e comprar (como fã). Este formato de baixo custo é atraente para os músicos independentes, que podem lançar música sem investir milhares de dólares. Isso, por sua vez, torna os preços baixos e atraentes para os fãs e colecionadores mais jovens, que muitas vezes são a força motriz por trás das novas vendas de cassetes.

Esse seria outro aspecto importante, a meu ver, de ser mais acessível em termos de preço que o vinil.

Como vocês veem o papel do selo musical para com o público e os artistas? Ainda tem muitos campos a serem explorados nesse sentido? Tipo, muita coisa interessante que pode surgir dessa conexão?

É um orgulho poder colaborar com tantos artistas interessantes, poder contribuir para que tenham um lançamento legal na sua discografia e ao mesmo tempo ter sua música e sua arte no catálogo do selo.

Na Tudo Muda fazemos uma construção conjunta, bem de parceria mesmo, e bem diferente do conceito tradicional das grandes gravadoras. Selos independentes têm sim, muito mais essa vocação pra criar uma conexão com os artistas e com o público, e isso é muito bom.

No caso da TMM, como é um selo “de músicos”, vemos que isso traz também legitimidade e tranquiliza artistas parceiros, que sabem que não estão lidando com uma mentalidade voltada apenas ao lucro financeiro, mas sim à integridade artística.

E o futuro da Tudo Muda Music? Dá pra dar uma ideia do que vocês estão bolando?

Sim, como mencionei, já temos uma boa lista de artistas interessantíssimos a lançar. Isso inclui as parcerias com os selos Maxilar e Torto.

Além disso, teremos vários lançamentos de artistas da vanguarda da música japonesa, por meio de uma ponte estabelecida pelo Fredy Xistecê (produtor, ex-Lombra Records), que recentemente se aliou à Tudo Muda.

Por fim, estamos iniciando um sub-selo voltado apenas a sons pesados, em parceria com o Tulio DFC. Vai se chamar Catacumba Records e em breve estará em operação.

E assim que a pandemia passar, a ideia é organizar um evento com as bandas do selo, algo que queríamos ter feito no fim do ano passado, quando “completamos” 5 anos de vida.  Ou seja, vem muita coisa legal por aí!

Obrigado pelo espaço no site, e aos leitores. Acompanhem nosso trabalho, toda semana tem novidade.

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