Bus Ride Notes

Date archives março 2021

Entrevista

Reles Córtex – Operações Psicológicas

Reles Córtex é uma banda de punk acústico, anti-folk, criada em São José do Rio Preto em 2015 por Matheus Moura.

Em fevereiro de 2021 ele lançou seu segundo disco, “Operações Psicológicas”.

É meio difícil falar sobre folk punk, pois é um gênero bem direto, tanto no som quanto nas letras.

É claro que poderíamos falar sobre elas, mas fomos direto à fonte e convidamos Matheus pra conversar sobre o novo disco e mais. Confira:

Você pode se apresentar pra quem não conhece?

Meu nome é Matheus Moura (conhecido também por Mourarc), 29 anos, natural de São José do Rio Preto, SP, doutorando em ciências sociais. A Reles Córtex é um projeto de punk rock acústico iniciado por mim em 2015.

Como surgiu Reles Córtex?

Reles Córtex surgiu da contínua e incansável propriedade criativa de composição musical.
Desde pelo menos 2006 eu já esboçava diversas canções, bem toscas na época, gravava num toca-mp3 e ficava insistindo para os amigos escutarem

Nos anos seguintes participei de algumas bandas de punk e hardcore, mas que não duraram muito, por diversos motivos. Entre 2009 e 2015 foram anos meio estagnados na música pra mim.

No interior de SP é bastante difícil encontrar uma galera séria pra fazer um punk rock mais cabeça. Nesses anos todos as tentativas foram frustradas, mas as composições continuavam a vir, então resolvi colocar o projeto pra funcionar sozinho, mas sem a guitarra distorcida.

Abandonei todas as composições antigas e me concentrei em letras mais sérias, mais poéticas e filosóficas. Ainda que talvez não tenha conseguido cumprir esse objetivo muito bem (risos).

O nome “Reles Córtex” veio antes de eu ter qualquer coisa pronta. Era uma tentativa de dizer “pra que um cérebro se na maior parte do tempo a gente não o usa satisfatoriamente pra refletir?”.

Em 2015 eu tinha o nome, em 2016 eu tinha duas demos, que trabalhei sem noção de gravação nenhuma em um estúdio da cidade. Foi aí que resolvi gravar as músicas eu mesmo. Comprei uma aparelhagem mínima, um condensador, e comecei as gravações fuçando num programa de mixagem gratuito.

Em 2018 saiu o “Causas Vazias” no pior do “faça você mesmo”.

Quais são algumas das suas influências?

Minhas bandas de coração são Anti-Flag e Bad Religion. Não é coincidência esse projeto ser um punk acústico, os vocalistas dessas duas bandas, Justin Sane e Greg Graffin, possuem projetos acústicos paralelos. Minha grande inspiração vem daí.

Recentemente descobri também um cara chamado Pat The Bunny, que faz um anti-folk muito semelhante ao meu. Talvez seja essa minha mais nova fonte motivadora.

“Operações Psicológicas” é mais direto, digamos assim, que “Causas Vazias”. Ele tem menos instrumentos, é menos melódico… Como foi o processo de composição?

Esse segundo álbum traz mais agressividade tanto nas letras quanto na pegada. Eu comecei a compô-lo durante as eleições de 2018 (logo após o lançamento do “Causas Vazias”), e bom, não é preciso dizer muito mais…

Foi uma forma de colocar pra fora o que toda pessoa sensata e sensível estava sentindo naquele momento (esse sentimento talvez tenha se intensificado até o dia de hoje).

Das 11 faixas inéditas, somente duas foram feitas posteriormente às eleições, “Sua Imagem” e “Rio Preto”, essa última é uma versão de uma música que compus com a Refluxo Mental, na qual eu era vocalista até o começo desse ano.

Comparado ao álbum anterior esse está mais próximo do punk, com seu teor político e músicas mais rápidas e diretas, do que o primeiro.

Ele foi todo gravado em home studio. Como foi esse processo? Você costuma gravar em casa ou isso foi devido a pandemia?

Como mencionei anteriormente, desde o começo eu fiz músicas em home studio (à parte daquela experiência não muito feliz com duas demos).

Me sinto mais livre fazendo eu mesmo as gravações. O resultado não tem a mesma qualidade do estúdio, mas eu ainda prefiro, me sinto mais à vontade.

Também porque eu não tenho muita grana, e a música pra mim é um hobby, então gravar em estúdio não é muito atrativo.

E a parte de produção, mix e master? Foi tudo feito por você?

Durante a experiência com a Refluxo Mental eu aprendi bastante com o Lucas Dias, ex-guitarrista, que mixou e masterizou o álbum “Socialização das Perdas”.

Acho que é nítida a diferença entre “Causas Vazias” e “Operações Psicológicas”. Tudo que aprendi com esse brother eu consegui usar pra aprimorar as minhas gravações caseiras.

“Trágica Comédia” foi inspirada pelas eleições de 2018, você pode falar mais sobre essa música?

Era pra esse música chamar “Caquistocracia”, mas aí eu iria estar admitindo que acompanho o Foro de Teresina (risos). Não há problema em admitir isso, pelo contrário, mas não iria soar muito criativo, o termo já virou quase patente deles.

A letra representa essa comédia da vida real que estamos vivendo, em que o bobo da corte assumiu o trono, e dança e sapateia pra somente seu público aplaudir. Está tudo escancarado, não há necessidade nem mais de representar papéis. Quem enxerga, sofre, quem não enxerga ou se beneficia de alguma forma, aplaude. E assim seguimos…

Últimas considerações? Algum recado?

Gostaria de agradecer ao Bus Ride Notes pela oportunidade de responder a essa entrevista. E aproveitar também para agradecer a todos aqueles que me apoiam nesse projeto.

Novas composições estão por vir. E não vejo a hora de poder estar por aí fazendo apresentações desses trabalhos. Sigam-me nas redes! Abraços!

“Operações Psicológicas” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Anti-Corpos – We Keep On Living

Creio que todo mundo que acompanha o Bus Ride Notes conhece Anti-Corpos, banda de São Paulo formada em 2002, hoje em Berlin e composta por Adriessa Oliveira (guitarra), Helena Krausz (bateria), Marina Pandelo (baixo) e Rebeca Domiciano (vocal).

Anti-Corpos foi uma das primeiras bandas de queercore (se você nunca ouviu falar de queercore, leia aqui nosso rascunho sobre) do Brasil, numa época onde praticamente ninguém, nem mesmo a banda, usava o termo.

Em Outubro de 2020 elas lançaram seu novo EP, “We Keep On Living”, cujas músicas foram feitas e gravadas em momentos diferentes, inclusive com diferentes membros na banda.

Conversamos com Anti-Corpos sobre “We Keep On Living”, a história da banda e mais. Confira:

Primeiramente, como estão nessa pandemia? Todo mundo bem? Como andam as coisas aí na Alemanha?

Adriessa: Olá! Bom, a pandemia na Alemanha estava bem controlada até o final das férias de verão, quando os casos começaram a crescer assustadoramente e agora está novamente num lockdown mais severo.
Junta isso com temperaturas negativas e dias que escurecem as 16h, bicho, é tenso! Mas estamos bem e tentando passar por cima de tudo isso.

Vocês podem falar um pouco sobre a banda pra quem não conhece?

Adriessa: Anti-Corpos é uma banda queer feminista que faz som rápido e pesado que flerta com o hardcore, punk e metal, aquele famoso crossover.

Helena: A banda existe desde 2002 e ao longo de todo esse tempo tocamos em diferentes cidades brasileiras e vários países da Europa e América do Sul.

Desde 2015 a banda teve várias mudanças, alguns integrantes se mudaram pra Alemanha e formaram uma nova banda. Vocês podem falar sobre isso? E a escolha de continuar com Anti-Corpos?

Adriessa: A banda em toda a sua história teve muitas mudanças, essa é a real.
Em 2015 quando me mudei pra Alemanha e teoricamente a banda tinha acabado porque Rebeca tinha voltado para o Brasil, sabia que a primeira coisa que eu precisava era de uma banda nova, aí conheci Andrzej e Andrea e montamos o Eat My Fear, que na sua formação original tinha o Dirk no baixo. Após três anos ele deixou a banda e a Helena (baterista da Anti-Corpos) assumiu o baixo do Eat My Fear.

Mas logo em 2016, quando Rebeca também se mudou pra Berlin e estávamos reunides novamente, resolvemos dar continuidade e escalamos a Marina pro baixo, que já vinha nos acompanhando por alguns shows que fizemos na Europa.

Acho que o Anti-Corpos sempre vai existir enquanto estivermos na pilha de tocar e sempre nos adaptamos para que isso continue acontecendo.

As músicas do “We Keep On Living” foram feitas durante todas essas mudanças, né? Vocês podem falar um pouco sobre cada faixa?

Adriessa: Esse EP é uma junção de quatro sons gravados em momentos diferentes. Alguns comigo e outros com Re no vocal.
Pouco antes de Rebeca deixar a banda, em 2017 (Rebeca já está de volta hehe), tínhamos recebido um convite para gravar um som para um tributo ao Bulimia e junto com esse som do Bulimia gravamos “Herança” e “Brincando de Igualdade”.

Em 2019, quando eu assumi os vocais, gravamos “Borders of Fear” e “Keep On”. Eu escrevi “Borders of Fear” em uma das viagens que fiz para ensaiar com uma banda que toco na Suécia, que tem uma das fronteiras mais brutais que já passei pela Europa. Sempre que eu atravessava me dava pânico, porque sabia que ia ser controlada de forma agressiva por causa do meu passaporte brasileiro. Pessoas com passaportes de origem africanas ou árabes então… era muito sinistro.

“Keep On” é sobre continuar dia após dia a viver nesse mundo caótico que te cobra demais e que é difícil não pensar em desistir. A letra é da Marina e foi nosso primeiro som em inglês, se não me engano.

Helena: “Brincando de Igualdade” é uma música feita em 2005 que resolvemos regravar. Ela fala basicamente sobre pessoas que são bem desconstruídas na teoria, mas que suas atitudes não condizem com o que falam.
Sempre existiram vários exemplos na cena punk/hardcore de caras com um discurso lindo em cima do palco, mas na realidade eram bem diferentes.

E como tá a banda hoje?

Adriessa: Voltou a ser Adriessa na guitarra, Rebeca no vocal, Marina no baixo e Helena na bateria.
Estávamos voltando a compor para um novo disco, querendo tocar muito e aí veio a pandemia.
Enfim, estamos como a maioria das bandas, na espera louca da vacina.

Não dá pra falar de Anti-Corpos sem falar de queercore. Conheci a banda em 2015 e tenho um adesivo da época onde se lê “lesbian feminist hardcore from brazil” e desde aquela época vocês já usavam o termo “queer” em alguns lugares. Vocês podem falar da relação da banda com o queercore?

Adriessa: Acho que no Brasil o termo queercore nunca foi propriamente usado até tipo Teu Pai Já Sabe?. O queercore é parte da nossa identidade e influências.

Bandas como Limp Wrist, Team Dresch, G.L.O.S.S., TPJS? são super importantes na nossa caminhada. Em 2019 tocamos com o Limp Wrist em Berlin e foi tipo WOW, realização de sonho!

Usar o termo “hardcore lésbico” ou “queercore” sempre foi muito importante para nós como luta mesmo, nesse espaço ainda super machista e homofóbico que é o hardcore punk.

Quem ouve punk e hardcore tem a impressão que é uma comunidade unida e linda, mas sempre que nos aproximamos da cena vemos que a realidade não é nada disso. Mas uma coisa visível na Anti-Corpos, até pra quem acompanha só pela internet, é um senso grande de comunidade. Vocês podem falar um pouco sobre isso?

Adriessa: Acho que a letra da música “Anti-Corpos” fala muito bem o que a banda representa para nós. É a nossa forma prática de luta.

Eu costumava tocar em uma banda que evitava ao máximo essa relação pessoal do público/banda. Acho que as bandas mais ”mainstream do underground” do hardcore punk dos anos 90 ainda tentavam ter essa divisão banda/público.

Eu vejo Anti-Corpos como uma grande comunidade queer, feminista, das mina, das mona, dos roqueiros e roqueiras que se encontram, curtem, pensam, trocam. O palco não nos separa e gostamos da interação em shows, trocando instrumento, chamando galera pra cantar, etc.
No final somos todes ”outcasts” que procuram nesses ambientes de shows queer feminista se divertir e sentir segure na medida do possível.

Eu acho que o que consegui com Anti-Corpos nunca consegui com nenhuma banda e muito vem desse apoio mútuo da nossa comunidade.

Helena: Total, esse apoio é essencial para nos fortalecermos ainda mais enquanto cena queer feminista.
O que não significa que quando vemos algo que achamos errado ficamos quietas. Pelo contrário, sempre que algo ou alguém é denunciado dentro da cena procuramos falar sobre isso, mesmo que não agrade a todes.

Vocês são o tema do documentário “Anti-Corpos, Pedaços de uma Turnê Cúir”, que foi exibido em Novembro no festival Mix Brasil. Vocês podem falar sobre ele?

Adriessa: Meu, isso foi muito surpresa! A nossa amigona Brunella Martina, que gravou todos os nossos clipes, já tocou na banda e gravou a segunda guitarra do disco “Meninas pra Frente”, assim que soube da nossa tour na América do Sul em 2019 falou sobre fazer um registro e usar de alguma forma o material.

Um ano depois, ela nos escreveu com o primeiro corte do mini doc, já nem lembrávamos mais dele. Fomos surpreendidas por um material super massa e ficamos ainda mais surpresas por terem aprovado o doc no Mix Brasil.

Foi interessante ver nossas entrevistas logo após a posse do Bolsonaro, falando de uma forma super pessimista, mas mesmo assim o tom da nossa fala não se compara com a realidade que está sendo vivida hoje. É tipo nossos medos que foram multiplicados por mil.
Triste demais, espero que tenha um ponto de virada em todo esse pior pesadelo.

Últimas considerações? Algum recado?

Adriessa: Obrigada demais pelo convite e sigam seus sonhos, chequem como seus amigues estão passado e fiquem bem! Vamos resistir e fazer a mudança! Quando tudo isso passar nos vemos na estrada.

Helena: Valeu pelo espaço! Força sempre!

“We Keep On Living” está disponível no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Gali Galó – “O queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também”

Queer é uma palavra que tem sido muito usada ultimamente, é uma gíria ofensiva em inglês que foi ressignificada já há algum tempo. É também o Q da sigla LGBTQIA+. Dia desses me perguntaram o que significa e, depois de parar pra pensar, respondi “é tudo o que não é heterossexual ou cisgênero” (essa você vai ter que procurar no Google).

Quando li o termo queernejo eu pensei “como assim?!”. Depois de lembrar onde morei minha vida toda, pensei “por que ninguém fez isso antes?”. Minha reação foi a única possível.

Eu só posso falar pelo interior de SP, aqui em todo lugar público que você passa, o povo ouve exclusivamente sertanejo. Tenho 33 anos e o único momento que consigo lembrar onde isso foi um pouco diferente foi nos anos 90, quando pagode e axé faziam muito sucesso.

Nas cidades menores a festa de peão* é o evento do ano. No ensino médio, a escola onde estudei fazia um horário especial pro turno da manhã poder chegar mais tarde, já que os alunos todos iam pra festa e faltavam no dia seguinte.

É claro que tem gente que detesta tudo isso, mas o impacto cultural é inegável. E eu falo isso pra quem não conhece o interior entender a dimensão disso tudo.

A música sertaneja sempre foi um lugar muito masculino e consequentemente machista, as mulheres têm mudado o cenário há pouco tempo e depois que Gabeu lançou seu primeiro single, “Amor Rural”, em 2019, um grupo de artistas se autodenominou queernejo e estão criando um movimento.

Em outubro de 2020 eles transmitiram a primeira edição do “Fivela Fest”, primeiro festival de queernejo do Brasil.

Convidamos Gali Galó, cantore e um dos organizadores do “Fivela Fest”, pra trocar uma ideia sobre queernejo e mais.

*As festas de peão são feiras agrícolas e agropecuárias com exposições, artesanato, muita comida, parque de diversões, rodeio e shows (raramente com alguém que não toque sertanejo).

“É, uns me chamam de caminhoneira, outros me chamam de cowboy viado, mas no fundo, lá no fundo, yo soy libre!”

Você pode se apresentar, pra quem não conhece?

Eu sou Gali Galó, cantore, compositore, empresarie. Atualmente canto dentro do queernejo, um subgênero do sertanejo. É uma música com uma narrativa LGBTQIA+, envolvendo também outros ritmos musicais, como o pop, o indie, o brega, que são estilos que tivemos de referência enquanto o sertanejo era esse ambiente tão machista e heterocisnormativo.

Além da minha carreira artística, também criei a SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e o “Fivela Fest”, que é o primeiro festival queernejo do Brasil.

Você não começou na música tocando queernejo, você tinha uma carreira no indie rock e inclusive foi idealizadore da SÊLA, né? Você pode falar sobre isso?

Eu comecei compondo, a composição veio antes da interpretação. A escrita era muito forte em mim, eu também sou redatora, publicitária, jornalista, então comecei compondo minhas músicas e essa música ganhou uma roupagem indie rock porque eu acabei caindo no cenário da música independente em São Paulo.

O indie rock foi quem me abraçou, tenho um disco lançado com outro nome artístico, Camila Garofalo. Comecei no indie e depois fui a fundo buscar minhas raízes, já faz uns quatro ou cinco anos que estou nessa busca pelo queernejo que se moldou hoje.

Sim, sou idealizadore da SÊLA, que é um selo pra mulheres na música, e é muito louco dividir essa persona artística com essa persona empreendedora. Por muito tempo, quando a SÊLA surgiu, eu parei minha atividade artística. Tive que, realmente, durante três anos, me dedicar ao selo.

Lançamos vários projetos, como mostras, festivais, mini documentários, Sessão SÊLA, uma coletânea SÊLA de produtoras musicais, diversos projetos que tomaram bastante o meu tempo, energia e dedicação.

E foi, inclusive, antes de me descobrir uma pessoa não-binárie. Eu tenho essa vivência como mulher e me sinto mulher as vezes, me considero gênero fluido, então a SÊLA é um dos projetos que sou mais feliz e orgulhose de ter criado.

E como surgiu Gali Galó? Você conhecia artistas de queernejo antes de começar a fazer essas músicas?

Gali Galó surgiu justamente depois dessa caminhada com a SÊLA. Quando tive um momento pra respirar e pensar de novo na minha vida artística, entendi que eu precisava ali renascer, então mudei meu nome artístico.

Procurei uma numeróloga, comecei a buscar outros nomes artísticos, demorou muito essa empreitada, foram uns três, quatro anos também. Eu também demorei muito tempo porque tava tentando entender.

No fim descobri que eu tava procurando não só uma persona artística, mas também um nome social, sabe? Tava procurando meu nome não-binárie, eu queria um nome andrógino mesmo.

Então Gali veio dessa mistura de entender quem eu sou com o que eu queria cantar e o queernejo chegou depois.

O termo queernejo foram vocês mesmos quem criaram, certo? É meio sobre artistas LGBTQIA+ “fazendo as pazes” com sua própria cultura, não?

Sim, fomos nós mesmos quem inventamos o termo queernejo, mais precisamente eu e Gabeu.
O Gabeu tinha inventado o pocnejo e eu já acompanhava. Na verdade ele tinha lançado “Amor Rural” e eu fiquei muito atente aquilo, pensei que eu precisava conhecê-lo porque entendi que eu já tava fazendo e queria fazer algo parecido.

Aí mandei uma mensagem dizendo que queria conhecê-lo e a gente se encontrou durante a “Semana Internacional de Música”. Ali surgiu uma amizade, uma identificação e logo de cara chamei ele pra ser meu sócio no “Fivela Fest”. Já fui com o nome pronto porque ele fez muito sentido pra mim.

Ele seria o primeiro festival queernejo do Brasil, que foi quando inventamos o termo. Se pocnejo era pra “bicha” e “viado” no sertanejo, então queernejo abrangeria toda a sigla da comunidade LGBTQIA+.

E é exatamente isso que você falou, é tipo umas pazes mesmo que a gente faz com as nossas raízes, as pazes que a gente faz com o sertanejo depois de vivenciar tanta coisa e depois de ficar marginalizades em outros estilos musicais. Entendemos que a gente podia, sim, fazer parte daquele movimento.

Os artistas de queernejo dão bastante atenção à estética. Vestuário, performance… a gente vê bastante isso nos seus clipes também.

Acredito que os artistas do queernejo se apropriam de uma estética pra poder entregar um produto completo. E eu tenho certeza que as pessoas LGBTQIA+ acabam sendo instigados pela vida para aflorarem sua criatividade de uma maneira mais intensa e até perigosa, eu diria.

Então acredito que não só o vestuário, mas as letras, a produção musical, acho que toda a estética dentro do queernejo é muito bem pensada, não é nada por acaso o que estamos fazendo. Temos essa consciência tanto política, quanto estética. Sabemos muito bem o que queremos entregar, então temos cuidado com esses signos.

E coincidentemente ou ironicamente o Gabeu, a Alice Marcone, Zerzil, Bemti, Reddy Allor, acredito que todo mundo já tem um encontro com a arte e com as artes visuais.
É esse negócio de não ter preconceito com outros gêneros e outras linguagens, mesmo. A gente traz elas pra complementar nosso som.

Se a gente assume uma linguagem pop misturada com sertanejo em questão de produção musical, se assume o brega, o indie, também vamos incluir nessa estética o elemento visual e outras linguagens que vão enriquecer a narrativa que queremos passar.

Falando nisso, você pode falar um pouco sobre os singles que você já lançou? É o mesmo artista, mesmo estilo musical, mas eles são bem distintos.

Sim, são bem diferentes porque eles contemplam esse período de três, quatro anos que fiquei sem lançar nada, então são músicas feitas em momentos diferentes e eu quis mostrar esses lados distintos antes de lançar um disco.

Acredito que quando o disco for lançado vou conseguir entregar a linguagem que imagino pra Gali Galó de forma mais clara, mas eu quis mostrar ali que Gali Galó pode ir tanto do rock psicodélico até um arrocha, que é “Fluxo (Mulher do Futuro)”.

É música brega, ao mesmo tempo tem uma psicodelia, só que não deixa de ser pautado sempre pelo sertanejo, pela forma de cantar, pelas melodias, instrumentos e arranjos.

Esses singles vão fazer parte do seu primeiro disco? O que você pode nos contar sobre ele?

Desses singles, só “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” farão parte do disco, já vou dando spoiler. “Raiz” realmente é um pouco distinto porque foi o primeiro a ser gravado, apesar de ter sido lançado depois.
Então “Fluxo (Mulher do Futuro)” e “Caminhoneira” entram no disco com mais oito músicas inéditas.

O disco é um compilado de tudo o que eu escrevi nos últimos cinco anos e de muita coisa que ficou pra trás também. Gali se reinventou muitas vezes nesse período e hoje eu consigo encontrar uma linha curatorial dentro desse turbilhão de coisas que é fazer as pazes com as suas raízes, entender exatamente o que se é, seu gênero, de onde você veio, enfim.

Exatamente como se é não, porque acho que ainda tenho uma grande busca pra descobrir quem eu sou e os milhões de gêneros que existem dentro da não binariedade. Também acho que é complexo a gente colocar uma coisa tão certa.

Mas acredito que é o retrato da minha caminhada agora, fala exatamente do queernejo, de como estou contente em ter encontrado pessoas que estão fazendo coisas parecidas com o que estou fazendo e de como esse som já faz parte de um movimento tão forte.

Em outubro de 2020 foi transmitida a primeira edição do “Fivela Fest”, festival em que você foi um dos organizadores. Você pode falar um pouco sobre ele?

Ter feito o “Fivela Fest” foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, como artista e como empresárie.

Ele não só reuniu artistas que têm um movimento parecido com o meu e levantam a bandeira LGBTQIA+, que é um assunto que tá em primeiro lugar nos meus debates e na minha música, mas também foi muito importante pra entendermos sobre o mercado, como o público realmente tá sedento por esse assunto e como estão interessados.

Porque sertanejo sendo o estilo musical mais ouvido no Brasil, e tão heteronormativo, cis e branco, a gente entende que fazer queernejo não é como fazer música pop, que é LGBT. O pop aceita o LGBTQIA+, é como um abraço confortável, o sertanejo já não é assim. Então foi muito importante termos dado esse primeiro passo e se fortalecido como grupo, como movimento.

Eu acredito que nas próximas edições vamos descobrir outros artistas, assim como foi nessa primeira, onde praticamente apadrinhamos a primeira dupla queernejo do Brasil, Mel & Kaleb, que surgiu pra se apresentar no festival e continuam aí se apresentando e vão lançar o primeiro EP.

Então “Fivela Fest” foi uma aventura incrível. E ter feito e produzido ao lado do Gabeu e da Alice Marcone, que são pessoas que admiro tanto e que são tão inteligentes, acho que foi muito rico também pra minha experiência pessoal.

Tentando terminar a conversa com um pouco de otimismo, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo? Últimas considerações? Algum recado?

Bom, o que podemos esperar de Gali Galó num futuro próximo é esse disco que eu prometo já há tanto tempo. Mas agora realmente tá rolando, estamos na pré-produção e em breve começamos a gravar. Espero que saia nesse primeiro semestre.

E video clipes. Como você disse, o apelo visual é muito importante.
Acho que nós, pessoas LGBTQIA+, estamos de olho no que está acontecendo, nas tendências, temos que estar, precisamos usar todas ferramentas ao nosso alcance pra poder entregar um trabalho, uma mensagem interessante.

E, claro, o queernejo dentro do Fivela só tende a crescer e o nosso grupo tá super fortalecido. Somos muito amigues, dividimos experiências e eu acho que o queernejo veio pra ficar e veio pra quebrar também.

Você pode ouvir Gali Galó no Bandcamp e nas redes de stream.


Entrevista

Medrado – “Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda”

Esse texto vai ser um pouco pessoal, espero que vocês me desculpem pela falta de distanciamento aqui. Já explico o motivo. Eu quero começar contando do sorriso de ponta à ponta que abri na primeira vez que escutei os primeiros versos de “Varal de Dentes”, faixa que abre o single “Pântano”:  “Pelo horário de Brasília, relógio quebrado. Eu moro no Entorno, sou mais o Entorno”.

Foi a primeira vez que ouvi alguém cantando sobre a área em que eu moro, Entorno Sul de Brasília. Como a maioria das periferias, tão perto mas tão longe dos grandes centros. Um lugar meio “cidade dormitório”, com invasões que viraram bairros e cidades. E, claro, com todas as particularidades periféricas desse país: vielas, ruas de terra, igreja, pobreza, violência, gente que vai embora cedo demais, gente que fica e fala de quem foi, tudo isso que já sabemos e nos incomodamos de saber.

A voz nos versos era do André Felipe, vulgo Medrado. André em homenagem ao avô falecido, Medrado é sobrenome de parte de pai mesmo. Nascido em Mato Grosso e vindo parar bem cedo no Lunabel 3C, bairro criado numa área de risco do Novo Gama, a uns 40km de Brasília.

Logo no início da entrevista fiquei surpreso e feliz de saber das origens do André, porque é muito parecido com o que eu vivi aqui também. Nossos bairros são divididos por um córrego e nossas experiências de crescer aqui quase se confundem de tão parecidas às vezes. Fiquei surpreso e feliz também por conhecer alguém daqui com tanta coisa pra cantar, coisas que a gente vive e, como ele diz, ainda nem viveu.

Escrevendo sobre música, você se acostuma a ver muita gente do eixo Sul – Sudeste, vez ou outra (bem vez ou outra mesmo) alguém do Nordeste. Mas, no meu caso, nunca era alguém próximo. Não existia essa proximidade geográfica e nem de vivência. Nunca achei que à poucas ruas, um córrego e umas ladeiras, houvesse um artista tão interessante que eu escreveria sobre um dia. Não só escreveria, como teria o prazer de entrevistar para falar dessa vivência periférica e de arte. É por isso que essa entrevista é tão especial para mim pessoalmente e espero que seja para vocês também. Confira:

Bom, Medrado, acho que podemos começar falando um pouco de você. Como foi seu primeiro contato com a música? Como foram as tuas primeiras gravações?

Meu primeiro contato com a música, com a arte, eu nem lembro. Foi uma percepção do meu pai quando eu era de colo. Ele conta que em todos os lugares que a gente passava e tinha alguma música eu imitava o som da bateria com a boca, o mesmo ritmo e tal. É algo que já veio comigo no sangue: meu avô tocava pife e minha mãe cantava na igreja. Uma família de músicos, saca? Meu pai é guitarrista, se dedicou muito aos estudos, as escalas. Eu comecei a tocar na igreja bem novo, com uns três anos já fazia barulho.

Quando a gente morava na invasão, meu pai passou uma cota desempregado e minha mãe trabalhava de diarista em Brasília. Aí eu ficava em casa com meu pai e ele comprou uma bateria pra mim, fiquei louco. Ele tinha baixo e uns amplificadores, tinha guitarra. Então, a gente tocava junto e meu pai é o cara mais eclético que eu conheço. Ele ouvia BB King, Tribo de Jah, Oscar Valdez, Mortification, que é tipo “UAAAGHHHH”, uma bagaceira.

Lá em 2014, comecei compondo alguns desejos e percepções que eu queria pra minha vida espiritual, meu foco cristão. Eu ia pro estúdio de um brother, Jonathan Mocher, aqui no Lunabel mesmo. Escrevia em casa e marcava lá, ficava atrapalhando enquanto ele produzia outras coisas. Quando tinha um tempo livre, chegava com a letra, tocava violão, cantava, tocava baixo e bateria. Foi lá que eu percebi o quão mágico era tudo aquilo e que eu queria fazer aquilo pelo resto da minha vida. Ali foi uma escola pra mim.

A gente é praticamente da mesma área, Entorno Sul de Brasília. É um lugar onde é muito perceptível a exclusão de periferia para com o centro, a gente acaba ficando de fora de muitos rolês do Distrito Federal. Como isso se reflete na tua música? Você encara mais como um empecilho ou uma motivação? E como é ser um artista vivendo tão perto, mas tão distante da capital do país?

Mano, a minha visão sobre o Entorno Sul é a seguinte: eu vejo um garimpo muito grande e rico, pedras muito valiosas que nem sabem o seu valor. Ponto Final, Morro do Lago Azul, Lunabel 3C, 3B, 3A, Boa Vista, Cidade Nova, Residencial Brasília, Novo Gama, Negreiros, Pedregal, Céu Azul, Valparaíso, Ingá, tá ligado? Pedras preciosas que descobrem seu valor exercendo sua arte.

Brasília fechou portas pra mim em vários sentidos. Até na Escola de Música de Brasília. O que eu mais fiz foi tocar bateria, estudar partitura, estudar tudo. Fiz a prova e não passei. O bagulho que eu mais fiz na vida. Cheguei lá, fiz três ritmos, fiz uns rudimentos. Depois fui ver o resultado e voltei pra casa frustadíssimo. Todo mundo  falando “Velho, você não pode parar, faz lá até passar”. E eu não quis tentar de novo pra preservar algo que até hoje eu não sei ao certo o que era. Mas meu rolê é a prática, tipo me deixa num estúdio com todos os instrumentos pra tu ver uma coisa. Me deixa com um violão e um mic, uma bateria e um baixo, ou sei lá só um mic. Velho, vai sair um CD, saca?

O rolê daqui não é nem escrever o som de fato, é tu acreditar no teu som. Eu escrevi “A Lei da Semeadura“, escrevi “Alarme Natural”, escrevi o single “Lamaçal” numa tarde. Toquei a bateria, o violão, captei as vozes. E eu não acreditava, tá ligado? Não tinha aquela firmeza, eu sabia que era massa, mas aquela auto estima não chegava. Depois de fazer vários trampos eu comecei a perceber isso. Fui vendo como se faz, a garra do pessoal daqui assistindo o show do Pretinho. Vendo o Isaac Cavilia fazer freestyle comigo, vendo o Grijo rimar, o Lucas aqui do lado de casa tá lá captando o som dele no celular, faz vídeo e lança no IGTV. Vendo o Akumas colando e mandando uma mensagem tipo “Mano, não para não, tu é raro”, saca? Vendo o Dhu 7 falando “Poxa mano, primeira vez que ouvi ‘A Lei da Semeadura’ eu tava num fim de tarde e fiquei emocionado”. É um garimpo unido que vai se revelando, crescendo e aprendendo com seu próprio povo.

Como o “não olhar pra gente” do quadradinho reflete na minha música é o que eu quero mais falar. Falar das ruas esburacadas, esse esgoto que corre na porta da minha casa, falar de todos que já se foram, da pureza de mesmo quem já perdeu os familiares na vida bandida mantêm. São coisas muito maiores, são coisas que motivam e nos tornam mais ricos, saca? Quero cantar até aquilo que a gente não vive ainda, cantar nossa prosperidade, cantar nossa união cada vez mais. Ser um artista vivendo tão perto e tão distante da capital do país é ser um brasileiro que acredita no sonho e sabe o quão tenso é viver nesse país, o tanto de coisa imposta que a gente tem que engolir, o tanto de coisa que a gente sabe e a nem pode falar.

Quais são suas maiores influências? Tanto musicais quanto visuais, coisas que te dão pilha para compor.

Meu pais, mano. Eles são a minha maior influência. Eu fazia meu pai gravar as fitas de rádio de rap que eu gostava. Sempre curti muito a história, a família, o “Castelo de Madeira”. Eu ouvia essa música e falava “Esse cara é parecido comigo, eu sou o príncipe do gueto”, tá ligado? Olha onde eu moro, no barracão de madeira! Aí me fascinava não conhecer o cara, mas ver tudo o que ele escrevia e sentir a energia da música. Me aprofundei em todos os estilos, MPB, muito Belchior. Country com Willie Nelson, muito antes do Snoop Dogg fazer ele ser conhecido. Ouvir cada estilo buscando aprender com a riqueza de cada um.  A princípio, essas são as minhas referências, as labutas, minha mãe trabalhando e a gente em casa ouvindo música.

Falei muito das influências sonoras, agora de visual tem um quadro que eu acho muito louco. É o “Duelo com Porretes” (Francisco de Goya), que são dois malucos brigando com pedaços de pau na areia movediça. Acho que esse é o quadro mais expressivo que eu já tive contato. Também tem o Francisco Galeno, pra mim é a maior referência visual. Eu tenho muito problema de vista, mas o vermelho dele e o tom dele pra mim é muito saturado, eu piro. O rolê dele com a infância também, me identifico muito.

Desde os seus primeiros singles sempre rolou muita parceria com outros artistas, certo? Ano passado teve o single “Lamaçal” com o Alice Piink e o Graça, por exemplo. Como estão sendo essas parcerias?

A Organdi me adotou, nem diria que é meu selo mas é minha família. O Graça, Alice Piink, a Mirela, Débora, essas parcerias sempre vão existir. Cada um é de um estado e, com o rolê da pandemia, a gente tem se mantido um pouco distante, mas sempre mantendo o contato. Esses caras sempre vão estar trabalhando juntos, Medrado e Organdi, Organdi e Medrado.

Esse ano tá em produção um trampo seu com o An_tnio, certo? Como tão as expectativas pra esse trabalho? O que você pretende trazer de novidade?

Essa colaboração com o An_tnio é muito importante pra mim porque vai ser meu primeiro EP. Não vou mais lançar singles duplos, serão trabalhos maiores, ou EPs ou álbuns. Eu quero trabalhar melhor com projetos grandes, e a novidade principal vai ser que esse EP será todo de freestyle.

Você toca vários instrumentos, já fez algum som acompanhado de banda? Pretende tentar algo assim futuramente?

O single duplo “Lamaçal” é um belo exemplo disso, toquei violão e bateria. Tinha esses elementos acústicos, mas de fato esse ano eu quero gravar um disco cantando e tocando bateria. To começando a escrever esse trabalho e vai ser meu primeiro trampo com banda gravado ao vivo. Não faixa por faixa, saca?

Pergunta clichê ultimamente, mas é interessante falar: como tá sendo pra se manter produzindo e divulgando seu som agora nesse período de pandemia e caos total?

A pandemia tem sido um aprendizado. Os momentos bons têm sido muito bons e intensos, os difíceis têm sido muito duros. Ano passado eu perdi minha avó e esse ano minha tia avó. Apesar de muitas perdas familiares, eu tenho buscado o equilíbrio mental, espiritual e profissional. Eu tenho aprendido muito e tenho exercido muito a minha fé, isso vai passar e colheremos bons frutos apesar de tudo.

Acredito que até mesmo essa pandemia veio para nos unir. Essa é a minha primeira entrevista e tenho muito a agradecer por isso, por vocês reconhecerem meu trabalho. O melhor e o que mais me motiva nisso é ser entrevistado por um cara do Entorno Sul que sabe como é caminhar com a cabeça na mira.

Você pode ouvir Medrado no Soundcloud, Spotify e Youtube.


Entrevista

Naissius – Tanto Ódio

O ano de 2018 terminou com um monte de sentimentos entalados na garganta, lembra? Foi o ano em que o luto tomou conta. Pois é, Vinicius Lepore, ou melhor, Naissius decidiu não deixar barato naquele ano.

Em seu segundo álbum, “Tanto Ódio”, o músico paulista canta e, às vezes, quase murmura sobre perdas em meio à um mundo cada vez mais cinzento. É um álbum para se ouvir atentamente as letras, quase como se estivesse lendo cartas à algo ou alguém que já se foi.

“Tanto Ódio” é produzido por Luis Tissot, conhecido na cena paulista pelo trabalho com as bandas Backseat Drivers, Thee Dirty Rats e The Fabulous Go-Go Boy From Alabama. A faixa “Grande Evento” recebeu um clipe e uma história em quadrinhos assinados pelos irmãos Jo Paiva e Joseph Paiva. Já o clipe de “Redenção” é composto de cenas do filme “Asco”, de Ale Pascoalini.

No álbum, Naissius assina todas as letras além de tocar violão e guitarra. Nobu Hirota é responsável pelo baixo e Roberto Neri pela bateria. Também fazem participações Luis Tissot, Thiago Lecussan, Matheus Camara, Felipe Rodrigues e Mariana Wang.

Confira nossa entrevista com Naissius sobre tudo isso e um pouco mais.

Primeiramente, a gente poderia começar falando sobre o contexto em que nasceu o “Tanto Ódio”. Como surgiu a ideia desse seu segundo álbum e o que você estava fazendo na época que te deu esse estalo pra compor?

O repertório do “Tanto Ódio” (2018) começou a surgir logo após o período de shows do “Síndrome do Pânico” (2015). O clima político no país estava ficando cada vez mais tenso e isso influenciou muito o disco – a faixa, “Tanto Ódio”, retrata bem esse sentimento e por isso deu nome ao álbum. Na época, eu estava vivendo numa cidade do interior de São Paulo, com menos de 50 mil habitantes; ver o ódio e outros sentimentos ruins como fator de união entre as pessoas foi algo assustador na época. Ainda é. Música me serve como terapia pra lidar com questões difíceis.

Ouvindo as suas músicas a gente percebe letras bem intimistas, quase como cartas cantadas. Principalmente, na faixa “Canção Sobre Você”. De onde vem esse seu estilo de compor? As letras são baseadas em alguma situação específica ou você faz um apanhado de referências?

O “Tanto Ódio” é um disco sobre diferentes perdas: crenças, ideias, pessoas. Parte do que se ouve pode parecer codificado, o que permite cada um ter sua própria relação com as músicas. Em geral, entretanto, ele é bem literal. “Canção Sobre Você” é explícita. Tento ser econômico nas palavras. Gosto de compositores que conseguem dizer muito falando pouco, como Leonard Cohen e Rodriguez, por exemplo. A estética da música é algo que vem depois – como ela soará ou quais imagens eu quero que o ouvinte tenha pra relacionar com as canções. O filme “Asco”, do Ale Pascoalini, foi muito importante nesse aspecto. Tive a honra dele ter usado cenas do filme pra compor o primeiro clipe desse disco, “Redenção”, após lhe contar sobre o impacto que este filme teve na composição estética do disco.

Quais foram suas referências, tanto musicais quanto de outros meios, que contribuíram para a composição do álbum?

Eu queria um disco que tivesse o folk como base musical, mas também queria adicionar elementos de post-punk e, na minha cabeça, isso seria bem difícil. Nesse aspecto, a produção do Luís Tissot (Thee Dirty Rats) foi fundamental pra achar essa sonoridade, pois ele não só conhecia as minhas referências, como trouxe outras que somaram muito. A ideia era ter algo de filmes noir; Edgar Allan Poe; “Drácula”, de Bram Stoker. Tudo isso acabou sendo infectado pelo cenário político, o que deixou o conjunto ainda mais tenebroso, já que a realidade se tornou mais assustadora do que qualquer influência que eu pudesse tirar da ficção.

Como foi o processo de gravação?

Foi inteiramente gravado no extinto e lendário Caffeine Studio. Foram seis meses ao lado do Luís e dos músicos que participaram do disco, arranjando as músicas ao longo das gravações – um processo que dá muito mais trabalho, já que envolve uma certa anarquia, mas eu gostei muito do resultado. Foi tanto cansativo quanto enriquecedor.

O álbum foi lançado em 2018, uma época que ainda dava pra fazer shows e uma divulgação corpo a corpo né. Como foi esse período? Deu pra excursionar bastante com o álbum?

Não fiz tantos shows quanto gostaria, pois na época não me sobrava muito tempo pra me dedicar a eles. Por isso também, a divulgação ficou bem limitada a São Paulo, ao contrário do primeiro disco. A imprensa não pareceu se interessar muito pelo álbum, com exceção de alguns veículos que falaram muito bem. Fizemos poucos shows, mas a maioria deles foi legal. Até gravamos um, que lançamos como “Tanto Ódio – Ao Vivo no Estúdio Aurora”.

A música “Grande Evento” recebeu um clipe e uma HQ, certo? Como aconteceu essa escolha pra essa música? E o processo para produzir tudo isso, como foi?

Essa música existe há bastante tempo. Toquei ela no meu primeiro show como Naissius. Acho que a escrevi depois de gravar o primeiro disco e já passei a toca-la nos shows acústicos que fazia. Desde então ela já era uma música que eu queria como single e a ideia era fazer um clipe comigo junto à banda que me acompanhou nessa turnê, com imagens da gente tocando. Mas aí veio a pandemia e o Jo Paiva, diretor do clipe e um parceiro muito presente nesse disco, sugeriu que fizéssemos uma animação mostrando a banda em confinamento. Quando ele e seu irmão, o ilustrador e co-diretor do clipe, Joseph Paiva, me apresentaram o storyboard, tive a ideia de fazer também uma versão em HQ, a qual escrevi o argumento. Fizemos uma pequena tiragem e é um projeto que me orgulho muito do resultado.

Em 2020 saiu um novo single seu, “Se Você Passar Por Lá”. É sinal de coisa nova vindo em 2021? Fala um pouco sobre como ele foi feito.

Essa música foi pensada pra ser um single, sem integrar nenhum disco devido ao contraste que ela tem do restante do meu repertório. A última vez que entrei num estúdio com a banda, cerca de um ano atrás, estávamos arranjando essa música pra gravarmos. Conseguimos gravar organizando sessões individuais no estúdio, o Kasulo. Também tive o apoio de músicos do círculo de amizades do Thiago Lecussan (5 Pras Tantas), que produziu a música junto comigo.  Ao longo do ano passado também passei a trocar demos com meus amigos de banda pra arranjar o que será meu terceiro disco, que sai ainda este ano.

Pra finalizar, uma pergunta que procuro fazer pra todo mundo que entrevisto ultimamente: como tá sendo levar adiante o seu trabalho durante a pandemia? Obviamente, não tá rolando de ir em shows e tal, então quais as alternativas que você tem encontrado nesse momento tão esquisito da vida de todo mundo?

Esse lance de trocar ideias e fazer uma pré produção do disco é algo novo pra mim e surgiu de uma vontade de continuar me relacionando com certas pessoas e lidar com o isolamento sem interromper o projeto. Me desapeguei bastante desse lance de estar “virtualmente ativo” e isso também me ajudou a lidar com as coisas de forma mais equilibrada. Também voltei a estudar teoria musical, algo que havia deixado de fazer desde a época do “Tanto Ódio”. Vejo essas transformações todas de forma positiva. O isolamento te faz perceber quem você realmente gostaria de ter por perto se pudesse.

“Tanto Ódio” está disponível nas redes de stream.