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Sobre jornalismo de música, projeto editorial e leitores

Por Revista O Inimigo e Bus Ride Notes

Na semana passada, o site Hits Perdidos publicou um artigo bastante oportuno sobre o futuro do jornalismo cultural no pós-pandemia. Entre questões válidas, como a precarização das redações, a velocidade irrefreável das redes sociais, a avalanche semanal de lançamentos de singles e álbuns nas plataformas de streaming e o embate entre o “relevante” e o “novo”, dois pontos que julgamos fundamentais acabaram ficando de fora do debate: a importância de uma proposta editorial e da formação de público leitor.

O jornalismo musical não existe mais em grande escala no Brasil, isso é um fato. Hoje existem poucos sites que cobrem a cena de música independente, e cada um faz de sua forma. Isso acaba confundindo todo mundo envolvido na cadeia, tanto o leitor quanto o jornalista, e também os próprios artistas. É por isso que acreditamos que antes de se preocupar com algoritmos e plataformas de streaming, é fundamental pensar na mensagem que queremos passar e com quem queremos falar.

Será que é tão importante assim “dar conta” de tudo que sai às sextas-feiras? O próprio texto do Hits Perdidos observa que mesmo um leitor dedicado e interessado vai ouvir, se muito, 10% da lista com os 250 singles da semana. Então, vale perguntar: quem se interessa por esse tipo de informação?

Claro que o registro é importante, mas o registro pelo registro não pode ser o objetivo final. É preciso definir a linha editorial e construir uma base de leitores. Sites/blogs que cobrem “tudo” correm risco de cobrir “nada”. Em geral, esse tipo de abordagem acaba atraindo um público disperso e pontual, que não vai virar leitor frequente do site. Tampouco ajuda o trabalho do artista, sobretudo dos mais novos, a chegar a quem possa se interessar por ele. Ou seja, vira um depósito de conteúdo, uma vitrine sem comprador.

Basta olhar meia dúzia de posts do Bus Ride Notes ou da Revista O Inimigo para ver o tipo de música que cobrimos, que é basicamente o que gostamos de ouvir e o que nós entendemos. Consequentemente, nossos leitores são pessoas que também gostam e se interessam por esses estilos. Mesmo assim, praticamente todos os dias recebemos sugestões de pautas sobre artistas de estilos musicais que não têm nada a ver com o que cobrimos.

De que adianta publicar se o nosso público leitor não curte esse som? Não vai ter alcance nenhum. O tempo que o artista gasta mandando o material pra gente, poderia ser gasto mandando para um site que publica o estilo dele. Faz sentido você mandar teu disco de MPB pra um site de metal?

O problema que colocamos em debate aqui é esse modelo de “publicar tudo”, não o meio onde você publica o conteúdo (isso é outro problema para outra conversa). A gente está vendo que ele não funciona, mas ainda vamos continuar insistindo?

A lógica da produção de conteúdo não pode pautar o jornalismo cultural, são coisas diferentes. Há muito conteúdo de música e pouco jornalismo de música. Há sites que simplesmente não cobrem bandas nacionais, mas noticiam cada peido dos gringos como se fosse site de celebridades.

Quer escrever sobre cultura? Primeiro, pense no seu projeto editorial. Se você prefere ou manja mais de um estilo, ótimo – pesquise e foque nele. Quer falar de muita coisa? Beleza, você pode criar um público que acompanha as coisas mais diversas que você publica. Separa por temas, editorias, sei lá, mas SE ORGANIZE.

E a gente precisa, sim, de mais pessoas fazendo jornalismo musical. Tem bandas demais hoje (só na lista do Bus Ride Notes com bandas do interior de SP tem mais de 250 na ativa), e acreditamos que esse é um dos fatores que gerou essa bagunça.

A saída do jornalismo cultural é voltar a fazer jornalismo. Por jornalismo, entenda fazer entrevistas, reportagens, críticas, levantar discussões e dialogar com o leitor. Como? Ninguém sabe. O importante é manter a discussão viva, trocar ideias para construir saídas.

Seguimos em frente.